sábado, 19 de julho de 2025

De volta à casa

 

Voltar a Barra do Corda, depois de tanto tempo, foi como abrir uma velha caixa de brinquedos esquecida no sótão da vida. A poeira das décadas não conseguiu embaçar o brilho das lembranças. Pelo contrário: ao reencontrar a cidade onde vivi os primeiros doze anos da minha existência – os mais puros, talvez os mais felizes – tudo me pareceu ainda mais nítido, como se o tempo tivesse feito questão de preservar, com zelo, cada susto, cada rua, cada cheiro.

 

Nasci em Presidente Dutra, é verdade, mas foi em Barra do Corda que aprendi a caminhar pelo mundo. E caminhar por suas ruas, agora, mais de vinte anos depois da última visita, foi como reconhecer o próprio rosto no espelho: os traços estão lá, mas há rugas novas, silêncios outros, um jeito diferente de dizer o mesmo nome. Fui a Barra como integrante da Caravana da Academia Maranhense de Letras – mas voltei como filho, como menino, como memória que se reencontra com o próprio berço. De quebra, ainda recebi o título de Cidadão de Barra do Corda. Algo que já havia dentro de mim, e agora está em papel passado.

 

Não consegui esconder a emoção ao subir, mais uma vez, o alto do Calvário. A cidade, lá embaixo, se estendia como uma confissão: nua, sim, mas ainda enfeitada por aquele laço alaranjado que o entardecer costuma atar entre céu e telhados. Vi-me menino outra vez, correndo com os pés descalços pelos caminhos de barro, observando a vida passar como um rio. E lá estavam eles – o Mearim e o Corda – ainda enamorados, ainda se encontrando como se fosse a primeira vez, no Porto Guajajara. Um milagre cotidiano que, aos olhos da infância, parecia eternidade.


 

Entrei na Igreja Matriz com o coração indomável. Ali fui coroinha. Ali toquei sinos como quem rege os próprios sonhos. Era a orquestra da minha vida – desafinada às vezes, mas sempre ruidosa, distraída. Alegre. No alto da torre, um menino franzino comandava os sinos com a autoridade de um maestro de calças curtas. E era como se, naquele tempo, toda a cidade me ouvisse.

 

Houve também reencontros de carne e osso, como com dona Oclair, velha amiga da minha mãe, sentinela da memória atrás do balcão do seu armazém de secos e molhados, ainda de pé, ainda altiva aos 93 anos. Visitei a memória do jornal O Pássaro, nascido das mãos inquietas e letradas de meu saudoso irmão Antônio Carlos, impresso em mimeógrafo, com tinta e sonho, na última quadra dos anos 1970. E ouvi relatos que me fizeram lembrar as tertúlias do Clube Guajajara, com a banda Os Populares do Ritmo e as amigas de minhas irmãs em vestidos floridos, girando pelo salão.

 

Matei a saudade andando devagar, olhando para tudo com os olhos de agora e o coração de antes. A praça Melo Uchôa, hoje em obras, tentava esconder-se atrás dos tapumes, como quem esmorece ante a involução dos tempos. As ruas, antes calçadas de pedra, agora cobertas de asfalto, pareciam estranhas, mas não hostis. O convento dos frades capuchinhos, o Colégio Pio XI, o prédio da Funai... todos com novas fachadas ou simplesmente ausentes. A arquitetura da infância, onde o mundo cabia inteiro, agora reformada, redesenhada ou apagada.



Sim, o mundo mudou. Barra do Corda mudou. E eu também. Mas há algo que permanece: o silêncio cheio de sons da memória, a saudade que tem cheiro de terra molhada pela neblina nas noites de julho, o menino que ainda habita em mim e que, por alguns dias, voltou a correr sobre a piçarra e a se jogar nas águas frias do rio Corda no descuido generoso de uma tarde de calor.  

 

Não sei se foi uma visita ou um mergulho. Só sei que voltei mais inteiro. Como quem toca as margens do próprio umbigo e entende que o tempo, como os rios, dá muitas voltas antes de se perder por aí. De mar em mar. 




quinta-feira, 17 de julho de 2025

Almanaque Guarnicê, uma ponte de ida e volta aos anos 1980


 

Há livros que nascem no tempo certo. Outros, como o Almanaque Guarnicê (Clara Editora/Edições Guarnicê), preferem o desvio, a dobra, o atraso que dá sentido à memória. Publicado em 2003, vinte anos depois do nascimento da revista que o inspirou, o almanaque é menos um compêndio e mais uma pulsação remanescente de uma juventude que resistiu – e existiu – no momento em que a ditadura começava a soltar as rédeas de sua mão de ferro.

 

Guarnicê, suplemento cultural que estreou encartado no jornal O Estado do Maranhão em plena temporada de descompressão política, não era só um projeto gráfico, jornalístico ou literário. Era também um gesto coletivo de ousadia. Um levante de criatividade em tempos nos quais a esperança e o sarcasmo dividiam a mesma mesa de bar. 

 

Na edição de estreia, os editores do Guarnicê carregavam nas páginas o brilho do improviso, da cultura esfacelada, do risco como linguagem. E esse brilho, como que por teimosia, ressurgiu duas décadas depois impresso nas páginas do almanaque, como se fosse possível escutar ali as gargalhadas ao fundo, no canto do olho do texto.

 

Escrever sobre essa história – que não é apenas uma sucessão de edições, mas um estado de espírito – foi uma experiência que me devolveu o frescor do tempo em que tudo ainda era quase possível. Havia um fôlego juvenil, sim, mas também uma lucidez intuitiva combinada com uma anarquia despretensiosa e disruptiva: sabíamos que estávamos registrando uma época e, ao mesmo tempo, intervindo nela. A reportagem que costura o Almanaque Guarnicê fora empreendida com a leveza necessária para não aprisionar em categorias o que é essencialmente movimento, fluxo, inventividade.

 

A narrativa não segue ordem cronológica. Nem poderia. Seria uma traição à alma errante da revista. Os relatos, entrevistas e registros se distribuem como num caleidoscópio. Tudo se move: os nomes, os sons, as imagens. O leitor caminha entre as colunas tortas de uma São Luís que era, simultaneamente, palco e personagem, território e teatro. Ideia e aldeia. Está tudo lá. Ou quase tudo. Laborarte, Pedra de Cantaria, Rabo de Vaca, Projeto Pixinguinha, Maria Aragão, Rock in Rio, Diretas Já, Projeto Grande Carajás, Boi Barrica, Marimbondos de fogo, Aza do Maranhão, Madre Deus, Mirante FM, Chacal, Poeme-se, Baú de Cartuns… E tantos outros sopros que formaram o espírito de uma década marcada pela distração e pelo desejo de mudança.

 

Almanaque Guarnicê não é arqueologia. Não há resgate! Há arte de montagem. O livro tenta compor/recompor um tempo que insiste em permanecer vivo em quem dele tirou uma casquinha, um fino (ou em quem, mesmo sem ter vivido, se reconhece em suas entrelinhas). A ilha, no almanaque, é só uma máquina de edição. Um território onde o passado se mexe, como escrevi no prólogo, e recusa o silêncio.

 

A entrevista-chave com os idealizadores do Guarnicê – Joaquim Haickel, Celso Borges, Roberto Kenard, Paulo Coelho e Érico Junqueira Ayres – é o eixo por onde passam muitos dos fios dessa tapeçaria oral e afetiva. Ali se cruzam o jornalismo, a poesia, o cinema, a política, as artes gráficas, a trama, o drama, a ironia. Aquela ironia que nos mantinha a salvo da resignação.

 

Nas palavras de Mário Prata, que prefacia a obra, essa turma foi feita da matéria mais improvável e necessária: “sobreviventes do velho ofício de transformar o banal das conversas de botequim em bacanal de ideias, de extrair poesia do miolo de pote, de subverter o traço para alcançar o riso...”. Isso não é hosana. É confissão.

 

O texto relaxado fazia do Guanicê uma armadilha precária, subversiva. E essa precariedade era condição da liberdade. A ausência de recursos, longe de limitar, alargava a criatividade. A revista se fez com o que havia – e, sobretudo, com o que não havia: verba, patrocínios que não vingavam, mas exigiam espaço – às vezes no lugar de um poema.

 

E, ainda assim, o Guarnicê floresceu. Como planta que nasce no asfalto. Teve altos e baixos, acertos e desastres. Às vezes errático, às vezes certeiro, o suplemento oscilava entre a limitação dos meios e o excesso de ideias. Produziu 45 edições num tempo em que a precariedade era regra. Mas isso nunca garantiu coerência editorial nem propósito claro. E talvez aí resida o que foi a revista: um corpo em trânsito, atravessado por tensões, colagens e improvisos.

 

O livro Almanaque Guarnicê não foi (e não é) um projeto de continuação ou celebração. Está mais para um documento feito com os restos que o tempo não apagou. Um esforço para entender o que havia ali  nas entrelinhas, nos ruídos, nos impasses e também nos lampejos. O almanaque recompõe um percurso fragmentado, sem costura definitiva, e talvez só funcione mesmo como um exercício de leitura lateral da época.

 

Não há lição, nem modelo a seguir. O que o almanaque oferece é uma travessia possível por um tempo em que se escrevia com mais urgência do que método, mais desejo do que direção. E isso, longe de heroísmo, é só matéria bruta da aventura da juventude. O resto é lenda. 

quinta-feira, 26 de junho de 2025

O sussurro dos livros


Há uma delicadeza quase clandestina nas livrarias de Paris. Percorrendo as prateleiras, o olhar do leitor não depara apenas com capas bem diagramadas, títulos sedutores ou lombadas que gritam silenciosamente sua existência. Há algo mais. Um bilhete. Um post-it colado à capa, rabiscado à mão, com letras ligeiras, quase apressadas, como quem quis registrar uma urgência: a urgência de compartilhar uma revelação. Um lembrete!

 

Esse pequeno pedaço de papel, em amarelo, azul, verde ou rosa, carrega mais que tinta: carrega cumplicidade. Ali, alguém, talvez um livreiro apaixonado pela boa literatura, decidiu sussurrar ao leitor que aquele livro merece ser visto, folheado, desejado. Não se trata de marketing, de algoritmos, de pop-ups ou de promoções impositivas do mundo digital. É algo anterior, artesanal, íntimo. Uma espécie de correspondência secreta entre quem leu e quem, talvez, venha a ler.

 

Curiosamente, os post-its não são novidade no universo da leitura. Eles já ocupam, há muito, um lugar cativo nas mesas, nos cadernos, nas escrivaninhas e nas páginas de leitores atentos. Servem, nesse contexto privado, como pequenas âncoras de memória. São usados para marcar um parágrafo que emocionou, uma ideia que provocou, uma frase que se deseja guardar, quem sabe para repetir numa conversa; ou para pensar mais tarde; ou ainda para não se perder no fluxo ligeiro da vida.

 

Pesquisadores, estudantes, escritores, leitores obsessivos: todos conhecem bem esse gesto. É quase um ritual. Grudar um post-it na página 49 porque ali há uma definição de amor que desmonta todos os tratados filosóficos. Outro na página 121, onde o personagem, ao abrir uma janela, descobre o mundo. E, de quebra, quem lê também. Cada papelzinho colorido é uma tentativa de fixar no tempo aquilo que, de outra forma, poderia escapar como areia entre os dedos.

 

Mas eis que agora os post-its, antes confinados ao espaço íntimo da leitura, saem dos bastidores. Saltam das páginas escondidas e ganham protagonismo nas vitrines, nas prateleiras de destaque, nas capas dos livros. Tornam-se públicos. Tornam-se convite. Tornam-se cartazes minúsculos de afeto literário.

 

De certo modo, é como se a livraria inteira se transformasse no caderno de anotações de alguém. E o leitor, ao circular por aquele espaço, passeia também pelas impressões, pelas paixões e pelas epifanias de quem, antes dele, já habitou aquelas mesmas páginas. Cada bilhete é uma fresta aberta. “Um romance de tirar o fôlego e muito bem narrado”, diz um. Outro mais direto: “Se você gosta de Simone de Beauvoir, prepare-se.” Há ainda os lacônicos, que me parecem os mais potentes: “Leitura urgente”; ou “Pare de olhar e me devore logo”. Presa à capa da edição francesa de Auguries of Innocence (Présages d’Innocence), da poeta e roqueira norte-americana Patti Smith, há a seguinte advertência: “Estes poemas ressoam como oráculos da modernidade.” São alguns exemplos que me chamaram a atenção nas prateleiras de livrarias como Compagnie e A. Pedone Editeur. Mas a onda já se espalhou para além do Quartier Latin.  


 

Penso no quanto esse gesto, simples, despretensioso, quase doméstico, devolve à experiência da leitura uma dimensão perdida na lógica impessoal das recomendações automatizadas. Ali não há robôs. Não há metadados. Há alguém. Uma pessoa real, com caligrafia real, com entusiasmo real, dizendo: “Olha, eu li. E acho que você deveria ler também.” 

 

No Brasil, essa prática ainda não é tão comum. Mas começa a dar sinais de vida. Na Livraria Leonardo Da Vinci, no Centro do Rio, por exemplo, os bilhetes também costumam florescer entre os livros, por enquanto como jogos de humor (trechos risíveis de músicas populares casados com títulos de livro) e sedução literária (leia texto abaixo). 

 

Quem sabe esse flerte entre o papelzinho e o leitor seja o caminho?! Uma forma de devolver à livraria (e à própria leitura) aquilo que ela tem de mais fabuloso: a arte do encontro. A livraria também é uma praça pública.

 

Em verdade, cada livro é um bilhete que alguém escreveu para o mundo. E, por isso mesmo, essa iniciativa soa como algo inusitado, alvissareiro. O post-it, agora colado na capa do livro, é a mão de quem já leu estendida para quem ainda não leu – e talvez nem saiba que precisa ler. Urgentemente. 

 

Leituras invisíveis

 

A vitrine da Livraria Leonardo Da Vinci, no Rio, abriga um segredo embrulhado em papel pardo. Nada de capas brilhantes, sinopses reveladoras ou nomes consagrados em letras douradas. Ali, em alguns períodos do ano, os livros repousam disfarçados, como quem joga um charme discreto num baile de máscaras. 

 

A proposta é simples e engenhosa: sugerir aos curiosos uma leitura sem que eles saibam o título, o autor ou a história. Os leitores são provocados apenas por pistas breves e inventivas, escritas à mão no embrulho, tipo papel de pão. “História do Brasil – Você é do creme ou é do crime?” ou “Não tenho tempo pra ler. Preciso postar, desculpe” são alguns dos exemplos. E o leitor, cúmplice, se lança nessa espécie de roleta russa literária.


 

É uma travessura contra o consumo apressado e visual que tem moldado nossas escolhas. Num tempo em que tudo é imagem, sinopse, marketing, o “Encontro às cegas Da Vinci” devolve ao livro o mistério perdido, o susto bom da descoberta. É como entrar num quarto escuro e confiar que ali dentro mora algo que vale a pena. O jogo de adivinhação transforma a compra num ritual de intuição: será um romance melancólico? Um conto distópico? Uma biografia disfarçada de ficção? A graça está justamente em não saber. Ao leitor, resta se deixar levar, como quem aceita um convite para dançar sem perguntar qual é a música.


 



Mais que um projeto de livraria, a ideia aproxima-se da velha arte de contar histórias ao pé do ouvido. Aquela magia da infância, quando alguém nos entregava um livro dizendo apenas: “Leva, acho que você vai gostar”. Há um gesto de confiança envolvido, na curadoria, no acaso, no próprio desejo de se surpreender. E é também um gesto de escuta: ao escolher um pacote com a inscrição “os estranhos ecos do passado”, o leitor talvez esteja, sem saber, reconhecendo a si mesmo.

 

É bonito ver uma livraria apostando no invisível. Num tempo em que se escolhe vinho pela etiqueta e livro pela capa, o “Encontro às cegas Da Vinci” lembra-nos que a literatura, afinal, é um encontro que se dá no escuro: quando alguém escreve sem saber quem vai ler, e alguém lê sem saber o que vai encontrar. No fundo, todo bom livro é assim: um salto no desconhecido, embalado por palavras que, como esses pacotes de papel pardo, escondem o essencial. Apenas à espera de quem ouse abrir.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Um minuto de fama na República Tcheca


Entre alguns lugares por onde andei nestas férias, cada um com sua dose de estranheza e encanto, houve um episódio em particular que, embora não planejado, me arrancou boas risadas depois de digerido. Aconteceu em Praga, essa cidade que transpira cultura, e onde tudo parece ao mesmo tempo antigo e intenso. Um tabuleiro vivo de histórias, de turistas e residentes em disputa por espaço nas pequenas calçadas e nos templos artísticos.

 

Foi durante uma visita ao castelo que dizem ser o maior do mundo (e quem sou eu para duvidar de um castelo que começou a ser erguido no século IX e ainda insiste em não terminar) que me vi envolvido numa situação tão improvável quanto achar um banheiro público nas ruas de São Luís. 

 

Ali ao lado de Adriana, fazendo uma pausa estratégica no meio dos corredores infinitos do palácio, percebi que um casal nos ultrapassava em passos lentos, olhando fixamente para mim. Nada de hostilidade no gesto. Pelo contrário: sorridentes, curiosos, quase radiantes.

 

Acenei com discrição, um gesto de cordialidade universal, e segui conversando com Adriana sobre a riqueza de detalhes da catedral anexa ao castelo. Mas logo vi que os dois haviam parado poucos metros à frente, rindo entre si e voltando os olhos em minha direção com o entusiasmo de quem acabou de avistar uma celebridade. A moça cochichou ao companheiro algo que soou como “É ele mesmo, não é?”. O namorado, ou provavelmente marido, confirmou com a convicção de estar diante do ídolo. “Sim, certeza que é ele”. 

 

Foi aí que o rapaz se aproximou, risonho, e perguntou se poderia tirar uma foto comigo. Fui tomado de surpresa. O que, convenhamos, é sempre a melhor desculpa para qualquer omissão ética em viagens. Em seguida, a moça também quis uma foto. Os dois estavam eufóricos. A emoção era tamanha que, por um instante, me senti mesmo alguém digno de tietagem, em pleno Leste Europeu. Um jogador de futebol aposentado, mas ainda lacrando em programas de TV; um ator de seriado latino; um dançarino de mambo; um influenciador digital em decadência; um coach dos mistérios da sexualidade... Vai saber quem eu era àquela altura!

 

Não houve tempo para explicações. Fiquei em silêncio. Um silêncio consentidor. Conivente. Era visível que aquele encantamento era deles, não meu, e frustrá-los me pareceu uma crueldade gratuita. Preferi sustentar o mistério. Um crime sem vítima, pensei (que poderia ser tipificado como falsidade ideológica culposa? ou lesa-fama, por enganar admiradores incautos e usurpar o sacrossanto papel de um ídolo?). 

 

Claro que, passada a euforia e já com os dois sumindo pelos salões do castelo, bateu a ressaca moral. E se mostrassem a foto aos amigos? E se rissem deles? E se virassem motivo de piada no grupo da família? Comecei a imaginar o instante exato em que a verdade os atingiria: o Google Imagens confirmando que o “famoso” com quem posaram era só um turista brasileiro, com cara de quem se perdeu do grupo.

 

Pior ainda: e se, meia hora depois, eu os reencontrasse? Eles já sabendo da fraude, me olhando com a decepção de quem acabou de encontrar um autógrafo falso num guardanapo? Falando nisso... e se tivessem me pedido um autógrafo? Que nome eu assinaria? O meu? Ou um rabisco ilegível para manter a blague? E se perguntassem em qual novela eu mais gostei de atuar?

 

No fim das contas, essa crônica talvez sirva menos como confissão e mais como aviso. Se alguém conhecer um casal simpático de Punta Cana, República Dominicana, que anda mostrando por aí uma foto com um sujeito sorridente em Praga, esse cara sou eu. E peço desculpas. Não tive coragem de desmenti-los. Mas, por favor, ajudem-me a encontrar essas duas almas crédulas. Vai que ainda dá tempo de dizer a eles que sou só mais um entre tantos que caminham anônimos pelos corredores do mundo, mas que, por um instante, ganhou um papel principal numa história alheia.

 

E sejamos honestos: há personagens que a vida nos entrega que nem o mais caprichoso dos roteiristas saberia inventar.

 

quinta-feira, 5 de junho de 2025

A balzaquiana escarlate


 Tudo é efêmero às margens do Sena, como esse impactante registro captado pela lente iluminada do amigo Cidinho Marques. Não é uma foto pronta, uma capa de revista. É só o faro do flâneur, que da janela do táxi eterniza a elegância com que a dama de vermelho posa para o traço do artista. Um artista de rua, quem sabe!

 

Quem é ela? O que a espera no outro lado do rio? Um marido? Filhos? O casamento em desalinho? O desenho evolui lentamente. Ela ajusta o vestido. O vermelho salta pela calçada e vem dar nos meus olhos.

 

Ela talvez encarne ali a sensibilidade feminina que Balzac abordou com maestria em A mulher de trinta anos. Talvez. Assim como Julie, a protagonista de Balzac que transita entre as expectativas sociais e a busca por significado profundo, a mulher em vermelho carrega consigo não apenas a própria história, mas as narrativas compartilhadas de todas as mulheres que atravessaram séculos desafiando as amarras do destino. Com um leve ajuste no chapéu de aba larga, ela afirma sua presença, reconhecendo seu poder e seu papel no espaço que habita. Os transeuntes que a leiam, portanto.

 

O artista, ao observá-la, vai além do desenho ou da foto; ele busca capturar a essência de uma luta silenciosa. O olhar profundo da dama escarlate interrompe a banalidade do cotidiano, enquanto suas mãos acariciam a roupa, revelando a intenção por trás de cada gesto.

 

A tensão entre o que a sociedade espera e a realidade nua é um tema familiar nas obras de Balzac, e essa cena não é exceção. A mulher de vermelho não é um mero adorno na paisagem parisiense; ela desestabiliza a ordem, instigando novas referências entre o observador e o observado.

 

Os turistas refestelam-se, admirados. Os parisienses, mais habituados ao rio, ao rito, à beleza, embora desconectados à princípio, rapidamente se envolvem na mesma contemplação a que estou preso nos poucos segundos do engarrafamento. É como se, por um momento, a cidade suspendesse seu ritmo cosmopolita, frenético.

 

Tal como Julie, que ao completar trinta anos depara com a complexidade da maternidade, da solidão e de ambições não realizadas, a mulher de vermelho personifica os desafios e as nuances de sua própria narrativa.

 

Quando o vento do Sena acaricia os cabelos da dama da fotografia, a presença dela torna-se ainda mais extravagante: transforma o ambiente, dá vida ao cartaz vintage e às reproduções de obras de arte expostas nos cavaletes. De viés, também é capaz de revelar a crueza da vida de outras mulheres anônimas.

 

Mas a cada pincelada do artista, ela metamorfoseia de musa a símbolo de uma nova identidade feminina em ascensão no século XIX. Essa tendência, tão bem explorada por Balzac, indica que as mulheres desejam muito mais que um papel submisso em uma sociedade que as observa.

 

Antes de concluir a performance, a dama da beira do rio ajusta o chapéu mais uma vez, como se estivesse preparando-se para retornar à sua própria essência, à vida real. Com um último olhar direcionado ao retrato que se tornará eternamente uma parte dela, a dama se afasta.

 

O vestido escarlate, como uma chama, se dissipa na curva do cais, levando consigo a marca de um momento raro. O retrato, a essa hora talvez em suas mãos, permanece como um testemunho tangível de um encontro sublime entre vida e arte. Assim, as verdades da mulher de trinta anos, qual nossa Julie rouge, reverberam através do tempo, ecoando nas memórias eternas das águas do Sena.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

As viagens, os muros e a democracia


Viajar é também perder países, como escreveu o poeta Fernando Pessoa. Mas é, sobretudo, descobrir personagens no meio da paisagem urbana. Encontrar pessoas, colecionar histórias, enxergar os muros.

 

Ontem, vagando pelas ruas de Viena, parei diante de um painel gigante com a inscrição em alemão “Demokratie muss jeden tag erneuert werden”. Não entendo uma linha de alemão, mas a frase tinha algo de direto, incontornável: falava de democracia. Em português, seria algo como “A democracia deve ser renovada todos os dias”.

 

Comecei a fotografar o painel, que trazia, além da frase, rostos desenhados de indígenas, mulheres, crianças e trabalhadores. A impressão era clara: aquilo era mais do que arte urbana. Era um lembrete. Um chamado para os passantes, como eu, sobre a importância de cuidar da democracia como se cuida de algo vivo. Um bem coletivo que exige presença, atenção e responsabilidade.

 

Ali, em frente ao painel, também estava um homem. Meia-idade, barba grisalha, jeans surrado, colete, máquina fotográfica em punho. Um olhar que vasculhava detalhes. Perguntei, pelo que aparentava, se era fotógrafo profissional. Sim, era. Sergio Montero, espanhol, fotógrafo e documentarista.

 

Conversamos brevemente. Contou que estava de passagem por Viena e seguiria no dia seguinte para Mauthausen.

 

Na pequena cidade austríaca, Montero vai documentar um ato político amanhã, dia 5, organizado por familiares de vítimas do Holocausto. Uma manifestação em memória dos que perderam a vida sob o regime nazista. Um gesto coletivo para manter acesa a lembrança e, com ela, a consciência dos riscos que rondam os esquecimentos da história.

 

Mauthausen foi um campo de concentração durante a Segunda Guerra. Muitos prisioneiros passaram por lá, entre eles um número expressivo de espanhóis. Após a Guerra Civil espanhola, muitos republicanos que resistiram ao franquismo se exilaram, mas acabaram capturados e enviados para campos nazistas. Mauthausen, conhecido pela brutalidade dos trabalhos forçados, foi um desses destinos.

 

Milhares de espanhóis morreram ali e nos subcampos ligados a Mauthausen. Parte dolorosa da história da Espanha e do Holocausto europeu. Segundo o fotógrafo, em datas como esta de amanhã, familiares, ativistas e instituições se reúnem para homenagear as vítimas e lembrar o que não pode ser esquecido. Um encontro que, além da memória, quer afirmar os fundamentos da democracia: tolerância, respeito, direitos humanos.

 

Lábios cerrados

 

Montero é autor de um documentário intitulado “Los labios apretados” ("Os lábios cerrados", em tradução livre), lançado em 2018. O impulso para o filme veio de uma descoberta íntima: já adulto, soube que seu avô havia sido um dos mineiros envolvidos na Revolução de 1934 nas Astúrias. Um dado que nunca fora mencionado em casa. O silêncio não era acaso, mas herança.

 

A Revolução de 1934 é um marco da resistência operária na Espanha pré-Guerra Civil, uma tentativa de barrar o avanço de um governo que se alinhava ao fascismo e culminaria no regime de Francisco Franco.

 

Montero cresceu nas Astúrias, cercado por esse silêncio espesso. Como em tantas famílias espanholas, o passado foi trancado por medo ou trauma. O próprio título do filme é uma metáfora desse apagamento.

 

A produção levou nove anos. Depoimentos colhidos no Uruguai, Argentina e na própria Astúria. Acesso a 22 arquivos em diferentes cidades. A história da Revolução de 1934 havia sido sepultada durante o franquismo. Falar sobre ela era tabu. A repressão foi tão eficaz que muitos descendentes de militantes sequer souberam da existência desses episódios familiares.

 

Sergio Montero, meu interlocutor fortuito numa tarde nublada em Viena, é personagem de uma história que faz cruzamentos entre episódios públicos e sua vida privada. Uma história de resistência à repressão. E pela causa das liberdades. Da democracia, esta palavra de origem grega e, com o perdão do trocadilho, também gregária, por juntar pessoas em frente a painéis aleatórios, que atravessa o tempo para se reinventar a todo instante. Nos muros. Nas viagens. Nos corações e mentes.

 

Escrevo este texto já no trem, na esperança de encontrar outras praças, mais histórias, sem saber se a ida de Montero a Mauthausen renderá um novo documentário. Ele mesmo diz não ter certeza do que o aguarda amanhã. 

segunda-feira, 7 de abril de 2025

O fracasso glorioso da poesia


 

Muitos livros nos seduzem nas prateleiras de sebos e livrarias ou pelos atributos do autor ou pelo tema abordado ou pela arte da capa ou pelo título. Para alguns leitores, o vigor do título é o visgo. Foi o título de O ódio pela poesia que me chamou a atenção para a leitura da obra do norte-americano Ben Lerner. Um texto provocativo que explora a paradoxal relação de amor e ódio que leitores, não leitores e até poetas nutrem pela poesia.

 

Publicado originalmente em 2016, em Nova Iorque, e só agora editado no Brasil pela editora Fósforo, com tradução para o português do poeta Leonardo Fróes, O ódio pela poesia é um ensaio que de saída, com base apenas na leitura do título, suscita algumas indagações: o que distancia a poesia do grande público? quem tem tempo pra poesia num mundo atravessado pela linguagem instantânea da sociedade digital? como é possível gostar de algo tão etéreo e que não faz parte da nossa cesta de consumo?   

 

Numa época em que nos “acostumamos” a conviver com o ódio através das telas dos smartphones, é quase natural que poucos confiem (ou alimentem algum tipo de expectativa) na poesia. Em meio aos enfrentamentos políticos forjados na polarização e, em alguns casos, no vazio das ideias, nos Estados Unidos, no Brasil e em outros cantos do mundo, quem vai apostar na poesia? Quem haverá de se servir do mel da poesia? 

 

Há uma desconfiança deliberada no ofício do poeta. “Ofício”, aliás, que soa até exagerado para quem enxerga de soslaio um poeta. “Poesia numa hora dessas?”, o hiperbólico ponto de interrogação de Luís Fernando Veríssimo, talvez seja a senha mais escrachada que justifique, aqui e ali, a resistência à poesia.  

 

Alguns cultuam a poesia em segredo, outros a escanteiam com desprezo solene. Poucos se arriscam a defendê-la em público sem parecer antigo, ridículo ou intelectualmente delirante. E talvez seja com base nesse constrangimento coletivo, nesse “ódio com afeto”, que Lerner transforma o brevíssimo O ódio pela poesia (74 páginas) em cardápio útil para quem amarga a ambivalência de amar e odiar a poesia ao mesmo tempo. 

 

Além de recorrer a críticos de literatura, Lerner, que também é poeta, bebe na fonte de Sócrates, Emily Dickinson, Walt Whitman, Charles Olson, Rimbaud, Charles Baudelaire,  T.S. Eliot, Ezra Pound, Sylvia Plath, Claudia Rankine e outros para explicar a sua linha de pensamento. “Eu, também, não gosto de poesia, mas em grande parte organizei minha vida ao redor dela”, diz o autor.    

 

Ele menciona, por exemplo, o ensaio de Platão em A República, no qual o filósofo expulsa os poetas de sua cidade ideal, argumentando que eles corrompem a juventude e distorcem a verdade. Também recorda as críticas de Thomas Love Peacock e a famosa investida de Adorno ao afirmar que “escrever poesia depois de Auschwitz é um ato de barbárie”, uma declaração que reflete a tensão entre a arte e a realidade brutal da história.

 

Lerner começa seu livro com uma constatação incômoda: odiamos a poesia porque ela nos promete o absoluto, a universalidade, mas não alcança. O poema é sempre menor que aquilo que poderia ou pelo menos deveria ser. Existe, segundo ele, uma lacuna intransponível entre a “poesia ideal” (sublime, transcendente, perfeita) e a “poesia real”, que tropeça na linguagem, nas formas, nas leituras. O poema, no fundo, é a crônica de um fracasso anunciado.

 

Mas é um fracasso glorioso.

 

Ao revisitar figuras históricas que desprezaram a poesia e poetas que foram ignorados, censurados ou taxados de excêntricos, Lerner não tenta absolvê-los. Em vez disso, ele se diverte com o paradoxo: a repulsa à poesia é o combustível secreto da própria poesia. O desprezo é também um tributo. Só se odeia aquilo que nos confronta. Odiar poemas, segundo ele, pode bem ser uma espécie de “fúria defensiva contra a simples sugestão de que outro mundo, outra escala de valor, é possível”. Odiar a poesia talvez seja um truque honesto para tentar desvendá-la, ainda que minimamente. 

 

O autor escreve com leveza e sarcasmo, sem perder a profundidade. A tese de Lerner parece simples (a poesia falha, e é nisso que reside sua força), mas de uma potência inventiva, cheia de atalhos e pontes improváveis entre o clássico e o contemporâneo, entre o universal e o particular.

 

A tese impõe-se contra o mito. Contra a ideia de que todo poema é uma parábola. Um oráculo. Uma flor no caos. A poesia, diz Lerner, nasceu com um defeito de fábrica. E ainda assim nos seduz. Por isso a raiva. Por isso a resistência.

 

O livro não se destina apenas a escritores, aspirantes a poetas, críticos e estudantes. “O ódio pela poesia convida os que se sentiram excluídos, levados a crer que a poesia não é para eles, a compreender seu desprezo, e reconsiderá-lo, sem uma defesa moralista de que ler poemas é algo bom ou que nos torna melhores”, diz o texto de apresentação de Stephanie Borges.  

 

Improvável não trazer a lume, a partir dessa leitura, a poesia que brota de contextos periféricos e que, exatamente por isso, foi muitas vezes rejeitada. Alguns poetas maranhenses, por exemplo, foram desacreditados em seu tempo. Sousândrade, visionário do século XIX e precursor do modernismo brasileiro, escreveu O Guesa em linguagem experimental, rompeu com padrões e fora incompreendido por muitos de seus contemporâneos, que o acusaram de hermetismo e delírio. 

 

A poesia de Nauro Machado é vista ainda como hermética, de difícil interpretação. E a obra de Bandeira Tribuzi talvez nunca tenha alcançado o reconhecimento do valor intelectual e da dimensão lírica que de fato ela possui.  

 

Dessacralizar o papel da poesia tem sido um desafio raro, engendrado em alguns núcleos de discussão e leitura, em blogs, portais de internet e podcasts espalhados pelo Brasil. Em São Luís, exemplos de boas iniciativas que dissecam a poesia, não como totem, tabu ou rotina missionária, mas como exercício da fala, seguindo o rito da poesia como imperfeição possível, são os encontros Reverso e Sarau das Mercês, ambos realizados mensalmente. 

 

Reverso, que conta com o entusiasmo de Eduardo Júlio, Adriana Gama de Araújo, Fernando Abreu, Luís Inácio Costa e outros, elege a cada encontro aberto um poeta para discussões livres sobre vida e obra e leitura em voz alta de poemas do bardo da vez. O Sarau das Mercês, idealizado pela poeta Laura Amélia Damous, no Convento das Mercês, convida a cada edição poetas para lerem poemas e falarem de suas obras. Além disso, correm pelas beiradas os grupos de slam, a poesia de rua que a cada dia ganha mais força em aglomerados urbanos da capital maranhense. Esse recorte regional que aqui faço não está inserido no livro de Lerner, mas pode ser pauta de uma próxima prosa. 

 

O autor de O ódio pela poesia, em sua escrita quase apocalíptica, mas necessária, nos lembra que o poema nunca será aquilo que prenuncia. E também nos diz, com uma boa dose de ironia, que isso não importa. Tanto faz! A poesia não precisa vencer o leitor. Basta que ela resista. Basta que continuemos escrevendo. E lendo, ainda que com toda a falha.