quarta-feira, 7 de junho de 2017

O retrovisor de Zeca Baleiro



No dia 28 de dezembro de 1989, o cantor e compositor Zeca Baleiro publicou longo texto no caderno de cultura do jornal “O Estado do Maranhão” – como poucas vezes ousou fazer na imprensa local, ainda que remanescente de uma breve jornada como estudante do curso de Jornalismo da UFMA - sobre empreitadas artísticas de nomes e nuvens que pairavam sob o céu de uma ilha sem pontes. No inventário que faz sobre a São Luís de 1989, Zeca Baleiro destila, da epígrafe ao epílogo, o seu desencanto com a falta de inventividade nas artes, mas aponta seu trombone também para algumas “estrelas" que reluzem em meio ao "eclipse total”.

Há algumas passagens curiosas no texto. Mas recolho uma, em especial, que faz candidamente uma referência ao grupo Madrearte, lembrado por Zeca em 1989 por “levar arte a praças e ruas da Madre de Deus”. Em 1990, durante a programação cultural do Seminário da Amazônia, no Núcleo de Esportes da UFMA, Zeca teve o seu show interrompido algumas vezes por vaias de integrantes do mesmo grupo Madrearte. Irritado com os insultos da trupe da Madre Deus, que faria uma apresentação em seguida, Zeca Baleiro quebrou o violão no palco e saiu de cena soltando cobras e lagartos pra cima de seus detratores.

Anos depois, em depoimento ao livro “Almanaque Guarnicê” (Clara Editora/Edições Guarnicê, 2003), Zeca admitiu que aquele foi o show mais rock’n roll que fez na vida. Sobre as vaias, o artista diz que na época foi acometido de “uma quase cólera”. Zeca apresentou-se acompanhado da banda Leonardo da Vince I, comandada pelo guitarrista Maninho. “Era de fato um show bem pauleira, longo, eu reconheço”. No show, o artista plástico Paulo César fez as vezes de mestre de cerimônia, uma espécie de Chacrinha pornô segurando um grande pênis de espuma. “Foi hilário. A intenção era mesmo provocar os caretas, só que não imaginei que despertaria tanta revolta”, disse ele ao “Almanaque Guarnicê. “Esse grupo da Madre Deus, aspirante a Boi Barrica, se achou no direito de invadir o palco antes do show acabar. Fiquei puto, fiz um discurso inflamado e, num acesso de fúria, quebrei o violão em pleno palco, à vista de todos. Depois soube do argumento dos invasores. Segundo eles, o meu show não era de música maranhense, mas de rock”.

“Fazer arte é ter vontade. A vontade sem movimento é só vontade.”

“Nem toda revolução é leviana. Nem todo artista se dispõe à luta armada.”

“Arte é a porta do inferno.”

“Só há como perspectiva o caos.”

“A velha São Luís parece não ter se contagiado tanto pela febre da criação.”




Eis o texto na íntegra:

O espectro da arte sem expectativa

“A mais odiosa das traições é praticada
pelo artista que se passa para o bando dos anjos”
Aldous Huxley

Zeca Baleiro

A arte é a boca no trombone.

Quem não tiver trombone que use outro instrumento. Só não é possível paralisar a vontade. Fazer arte é ter vontade. A vontade sem movimento é só vontade. E a arte precisa do gesto. Inquieto, luminoso, revolucionário. Nem toda revolução é leviana. Nem todo artista se dispõe à luta armada. Arte é a porta do inferno. E viva o diabo.

... E antes que algum aventureiro lance mão, aqui vai uma geral (da arquibancada, nunca da cadeira cativa!) do ano artístico de 89, com olho crítico e boca no trombone.
Arte é subversão.

Não me deixam mentir incontáveis magos, que, com sua arte, deslocaram a espinha dorsal de seu tempo, colocando pulgas na orelha do mundo. Assim foi com Van Gogh e suas tintas incendiadas, Rimbaud e sua poesia bandida, Schonberg e seu atonalismo diabólico, só para falar nos mais malditos.

E nós, até quando vamos continuar usando a música pra cantar nossas pobres aspirações pequeno-burguesas?; a dança, pra ensinar piruetas clássicas pra filhota da mamãe fresca, preocupada com a cor gasta da sapatilha francesa?; a poesia, pra massagear o nosso ego de “poetas” narcisos?; o teatro, para enaltecer o brilho da nobre arte de representar? Até quando vamos ter que aturar coisas tão belas quanto patéticas e encher a boca pra dizer que isso é a arte ou que somos artistas?

Não me iludo achando que ainda há tempo & espaço para que pintem movimentos ou ideias ou produtos geniais, verdadeiramente novos, originais. Só há como perspectiva o caos. E a arte que há por fazer consiste na reconstituição desse caos. Arte das cinzas. Dos legados de todas as épocas, estilos e formas. Todos os engenhos. “Nada parado, nada seguro/nada infinito ou puro”, profetizava o compositor Ednardo no início dos anos 70, já anunciando um tempo de fusões e experimentos que viria atropelar ele próprio. Navegar é preciso. Mas com lucidez. Do contrário, tanto difícil quanto refazer o caos será saber de algum cais onde chegar.

A velha São Luís parece não ter se contagiado tanto pela febre da criação, passando ao largo de toda a história cultivando uma histeria estética que sempre satisfez. De fórmulas gastas e cheias de êxito, a cidade está cheia. Só não se vê rebeldia, experimentação, arte ou paixão. Tudo é vão. Todos vão.

Som fora de tom

A música é, sem dúvida, a arte de comunicação mais rápida e rasteira. No bar, no teatro ou no rádio, há vez e voz pra tudo. Por isso mesmo, amargamos essa decadência sem nenhuma elegância. Mas vez por outra pintam estrelas no meio do eclipse total. Nesse meio, duas delas acenderam o escuro da nossa música. Rita Ribeiro, com o seu show “Cunhã”, apresentado em maio, e Rosa Reis, com sua “Cantareira”, em abril, ambos belíssimos.

Rita, uma espécie de brincante cósmica espacial/passista do futuro, interpretou de Bob Dylan a Godão, de Villa-Lobos a Assis Valente, abrindo as portas de sua babel à inventividade, tudo com uma personalidade de fazer inveja. Já Rosa, essa fez e faz o milagre de deixar a música com gosto de terra, de mato, cerrado, jeito de bicho criado solto no quintal. Foi assim que ela cantou, com beleza, pérolas de Mochel, Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro e Chico Maranhão. Vale lembrar ainda a participação da banda Manguezal na segunda cantareira de Rosa, uma nova leitura feita em novembro do mesmo show apresentado em abril. A banda, formada por professores da Escola de Música e ex-integrantes da banda de rock Nirvana, mostrou que veio com todo oxigênio, pra ficar.

O grupo Fogo de Mão bem que tentou, mas não conseguiu dar continuidade ao seu projeto “Couro e Madeira” – um show só de percussão, festa de atabaques, agogôs e maracás.

O teatro de quatro

O teatro, esse, coitado, anda caduco. Exceto algumas iniciativas isoladas, não se viu nada de novo. Como um passageiro que perde o trem no meio do caminho, nosso teatro parece atropelado pelas mudanças substanciais desses anos loucos e não consegue achar novas soluções, embora saiba que as usadas já estão velhas e em desuso.

Por conta dessa crise, nenhum grande lampejo de criatividade. Na falta dela, usou-se um recurso mais eficaz, embora menos iluminado: a superprodução, como foi o caso do luxo fosco de “A Arca de Noé”, de Aldo Leite, em montagem do grupo Mutirão.

Destaque para a boa iniciativa de remontar Brecht em “Os Fuzis da Senhora Carrar”, de Reinaldo Faray e grupo, e o humor fino, quase ousado, do grupo Ganzola, sob a direção de Lio Ribeiro, em “A Revolta dos Perus”, comédia musical de Carlos Queiroz Talles.

Quem não dança, dança

Um número razoável de espetáculos de dança. A Academia Espaço Dança exorcizou os seus fantasmas com o seu “Espectros”. Um outro espetáculo, de nome singelo, o “Panã-Panã” da Academia Studium Arte Ballet, mostrou a sua leveza de borboleta. “Embarcações” e “Valsa para um Homem Feliz” foram criações da Academia Oficina do Corpo, este último inspirado (íssimo!) na peosia de Maiakovsky.

Ao pé das letras

No meio do ano, um grupo de artistas, jornalistas e pessoas preocupadas com os destinos de nossa arte se reuniu pra começar a fazer o que de mais importante se fez na vida (ai, que tédio!) literária de São Luís em 89: a revista Umdegrau – uma revista na margem d’arte – que já nasceu sob o signo da luta inglória. Primeiro, porque provocou polêmica sobre arte e cultura num lugar onde não há troca (quem produz arte mal se interessa em saber o que o vizinho, que também produz, anda fazendo), e depois porque paira sobre ela o risco de não ter continuidade por (adivinhem!) falta de apoio das empresas locais. Seria assim como plantar flores do campo num deserto.

Há ainda duas outras iniciativas: a coletânea “Poetas da Ponte”, organizada pela AME (Associação Maranhense de Escritores), onde se vê mais boa vontade que poetas e poesia, e o suplemento “Sacada Cultural”, do Jornal Pequeno.

As artes fazem plásticas

No terreno baldio das artes plásticas, notaram-se algumas experiências corajosas. Poucas e boas. Geraldo Reis foi morar no Portinho, pra pintar com mais verdade seus barcos e suas gentes e como forma de denunciar o que foi feito do Desterro (berre pelo aterro, pelo Desterro...), e expôs a sua “Paisagem”, na Galeria Matias Marcier. Já a Princesa Blues desenterrou suas raízes, folhas, tralhas e montou “Mensagem”, belíssimo trabalho com peças curiosas, apesar do nome careta. Francisco Joaquim dos Santos pôs nas ruas seus pastéis recheados de bom gosto, e dois artistas novos mostraram, em duas estreias, que vão conseguindo delinear caminhos próprios. Franco expôs suas pinturas em aquarela e Telma Lopes botou a boca no mundo pela preservação do verde com a sua “Ecologia Colorida”.

De foto e de direito

Poucos trabalhos expostos. Valeu a irreverência de Luís Pires, fotógrafo atento que capturou momentos hilários, patéticos da vida da cidade, com inteligência, picardia e olho no futuro. Luís andou mostrando seus clicks e flashes em feiras, exposições e clicks e flashes em praças, ou simplesmente onde houvesse duas ou mais pessoas reunidas em nome da arte. Quem não viu, não verá.

De noite e de dia

Nas ondas do rádio, nenhuma nova onda. Mas ainda se viu algumas boas ideias, como as do produtor da FM Mirante, Pedro Sobrinho, responsável por dois dos nossos melhores programas, a Segunda Instrumental e o Vento Nordeste, nos quais abriu-se um bom espaço para os músicos locais mostrarem o que pensam, o que cantam e o que tocam. Há ainda os bons especiais realizados pela equipe de produção da Universidade FM. No mais, nada de mais.

Projetos culturais

Houve quem buscasse alternativas para sua arte. Foi assim com um grupo de músicos e compositores, que, junto à comissão de cultura do Partido dos Trabalhadores, inauguraram a Sala Zé Hemetério e o projeto Viola de Bolso, que consistia na apresentação quinzenal de pequenos espetáculos musicais. O projeto se estendeu de fevereiro a março, quando acabou por falta de recursos.

Na mesma sala, outro projeto foi desenvolvido com sucesso. Foi a “Leitura de Poesia”, que o grupo Poeme-se tem apresentado desde o começo do ano. Por lá, passaram poetas como Leminski, Safo, John Cage e Augusto dos Anjos.

O grupo Madrearte também armou o seu “Canto de Rua”, com a proposta de levar a arte para as praças e ruas da Madre de Deus.

Costurando pra fora

A arte também foi respirar outros ares por outros lugares. A Academia Studium Arte Ballet foi a um Festival de Dança de Santa Catarina, levando o espetáculo “Terspsicore”. O Vox Feminae arrebanhou o quarto lugar no XVI Festival Internacional de Dança de Porto Alegre, e o Coral de São João foi a Córdoba participar de outro festival de corais, onde ganhou o primeiro lugar na classificação final.

Será arte?

Outros acontecimentos artístico-culturais (?) marcaram o ano letal de 89. A choperia Excalibur abriu espaço para shows que se revezam, mas não renovam. Por lá têm passado nomes como Gabriel Melônio, Cláudio Pinheiro, Marco Duailibe, Roberto Brandão e Inácio Pinheiro, em espetáculos com público e endereço certos, que enchem, com alegria de xópin center, o sábado de seus frequentadores, e, com certeza, os bolsos de seu proprietário. Aleluia!

O Teatro Praia Grande abriu as portas para a XIII FEMACO - Festival Maranhense de Coros -, que repetiu a chatice dos anos anteriores. O público que lotou as dependências do teatro se mostrou deliciado com dezenas de coros de caras tediosas cantando “a mão que toca um violão” ou “oh minha cidade deixa-me viver”, etecetera, etecetera, etecetera. Fora isso, só a ridícula rivalidade estimulada nos bastidores, entre a novidade de Vox Feminae, um coro só de vozes femininas ligado à Escola de Música, e a caretice do Coral de São João, que detém todos os louros da glória do canto coral em São Luís.

A jornada de Cinema e Vídeo mostrou mais uma versão cheia de êxito sem inquietação, apesar da pequena polêmica gerada em torno da não afluência do público aos cinemas e auditórios onde a Jornada acontecia. Com as atenções mais voltadas para o elenco de atores globais no júri que para a qualidade dos vídeos e filmes apresentados, foi possível registrar uma participação até numerosa de cineastas locais. Entre os premiados, trabalhos de Isa Albuquerque, Paulo Acrísio, Kitt Figueiredo, Júlia Emília e (vejam só!) José Raimundo Rodrigues, que realizou um documentário sobre a vida da militante comunista Maria Aragão (santo oportunismo, Batman!).

Rolou ainda o IV Festival Universitário de Música Popular, que surgiu com a proposta de mexer com a velha fórmula dos festivais, e não só não conseguiu como quase não aconteceu, mesmo com um velho festival de modelo ultrapassado. Pelo menos, valeu arrastar um público razoável para as terras improdutivas do campus do Bacanga, em torno de um fato cultural.

E por fim, um concurso de poesia batizado de Concurso Ferreira Gullar, que teve a premiação cancelada por (rir ou chorar, milk-shakespeare?) falta de qualidade.

Aquele velho disco de Festival de Fé, depois de uma novela cheia de surpresas e lavação de roupas sujas, parece que vai ter o seu final feliz, após a mobilização dos intérpretes e compositores junto à Secretária de Cultura, que afirma ter mudado de política (hic!), agora sob o comando de Américo Azevedo Neto.

Outros três discos esperam a sua hora no prelo. A Companhia Barrica, sob a batuta de Zé Pereira Godão, foi a São Paulo gravar a segunda bolacha do Boizinho Barrica, que deve ser lançado no período das festas juninas. Jorge Thadeu gravou o seu primeiro disco, como Tutuca, que gravou o seu “Beijo de Luz”. Até janeiro devem estar sendo lançados esses dois trabalhos, realizados no Estúdio Transamérica, no Rio, ambos com produção musical de Zé Américo (soy loco por...).

terça-feira, 23 de maio de 2017

A solidão de Macondo



Depois de léguas de páginas em viagem por Macondo, a remota e misteriosa aldeia do clã Buendía, nenhum viajante/leitor voltará o mesmo. Macondo nasceu em A revoada, mas foi com Cem anos de solidão, na primeira edição de maio de 1967, que a cidade imaginária passou a arrastar séquitos de visitantes curiosos, incréus e aturdidos.

Cinquenta anos depois, a capital do realismo mágico de Gabriel García Márquez continua viva, embora erma e enigmática, desafiando o sossego e a memória de quem se arrisca a decifrá-la. Daí porque, de lá, ainda que em ligeira espiada, ninguém retorna impunemente. Foi o que ocorreu comigo e, certamente, com milhões de outros leitores mundo afora.

O labirinto de Cem anos de solidão tem como portão de entrada o rito de colonização da América Latina, numa época em que “o mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome”. A solidão de Macondo e seus personagens é uma espécie de metáfora do isolamento e do provincianismo político dos países latino-americanos, características legadas pela esperteza de “gente estrangeira”.

Do casamento de José Arcardio com Úrsula seguem-se sete gerações de muitas histórias entrelaçadas pelo viés político e enriquecidas por um componente mítico peculiar do autor – numa melancólica Macondo “choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias”. Foi esse imaginário fantástico que deu asas a Gabriel García Márquez em Cem anos de solidão – noutras dezenas de livros também - e o projetou ao Nobel de Literatura. Ao longo de anos, o escritor colombiano desembainhou discursos contra a desarrumação descomunal da América Latina e os expôs com suprema elegância na sua literatura. Ressentia-se ele da equivocada leitura que a Europa, em especial, fazia sobre a história e a cultura da América Latina.

O desconhecimento europeu deliberado, segundo García Márquez, reduziu por séculos o “tamanho cultural” das nações e do povo latino-americanos. “A interpretação da nossa realidade a partir de esquemas alheios só contribui para tornar-nos cada vez mais desconhecidos, cada vez menos livres, cada vez mais solitários”, disse ele em Estocolmo, em 1982, ao receber da Academia Sueca o Nobel de Literatura. E acrescentou: “Talvez a Europa venerável fosse mais compreensiva se tratasse de nos ver em seu próprio passado”.

No livro Eu não vim fazer um discurso (Record, 2011), coletânea de pronunciamentos de Gabriel García Márquez em diferentes lugares e situações, desde sua estreia como orador ainda estudante em Zipaquirá (Colômbia), há um rosário de argumentos que reforçam as convicções de um escritor assumidamente de esquerda, com os pés no chão e a imaginação em permanente euforia.

O povo latino-americano soube catalisar agruras e transformá-las em fábulas, segundo a essência do discurso de García Márquez. O nó da solidão na América Latina, dizia, está na distância entre o duro assombro da escassez cotidiana e a fantasia em estado bruto: “Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todos nós, criaturas daquela realidade desaforada, tivemos que pedir muito pouco à imaginação, porque para nós o maior desafio foi a insuficiência dos recursos convencionais para tornar nossa vida acreditável”.

A aventura quimérica presente a obra de García Márquez, com suas histórias encobertas por nuvens de amor e cólera, é pródiga na marcha pela redenção da América Latina, essa irremediável Macondo dos esquecidos, fina estirpe dos solitários. É nesse exercício de leitura errante pelas aldeias do escritor colombiano que encontramos em meio à prosa crua, provocadora, a poesia inverossímil que escorre pelo caule de um conversador empedernido. “Em cada linha que escrevo trato sempre, com maior ou menor fortuna, de invocar os espíritos esquivos da poesia”.

Os espíritos, intumescidos no realismo mágico do escritor, morto em 2014 aos 87 anos, vagueiam distraídos “num café com gosto de janela, num pão com gosto de esquina, numa cereja com gosto de beijo”. Depois da primeira leitura, lá pelos meus 17 anos, por algumas vezes ainda voltei a folhear Macondo na esperança de encontrar esperança num pé de página. Quem sabe lá na frente, num inventário de escrituras polidas, como em Cem anos de solidão, a América Latina enxergará, enfim, esse caprichoso futuro escondido “no fundo dos cântaros”.