sábado, 10 de abril de 2021

Inventário poético de um ano improvável


Em meio a esse mundo doente, ao obscurantismo que nos tira o ar e a luz das ruas, ler poesia me parece ainda ser o melhor tratamento precoce para sintomas de angústia ou melancolia. Li Regresso a casa (Quetzal, 2020), de José Luís Peixoto, num dos últimos meses do ano passado, e me senti mais leve, como se a pandemia não fosse, afinal, o derradeiro ato, a última ceia. 

 

Há uma válvula de escape em cada borda de verso – e antes mesmo do mergulho nos poemas propriamente ditos –, como no pequeno texto-poema de abertura do livro: ‘Repara na manhã que nos rodeia. Saúda essa claridade, é um sopro a correr-nos nas veias’.     

 

Foi em 2018, numa dessas caminhadas pelas ruas estreitas no centro de Lisboa (de onde tudo exala a velha lírica ibérica), que me encontrei pela primeira vez com a poesia de José Luís Peixoto, nas estantes da livraria Bertrand, ali quase ao lado da alma em bronze de Pessoa. Folheei, num primeiro momento, o livro A criança em ruínas (Quetzal, 2012) e me chamou a atenção a combinação explosiva de bossa e desesperança do autor: ‘o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias/ do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu/ fui feliz e onde eu morri tanto...’. 

 

José Luís Peixoto é um dos escritores mais aplaudidos da literatura portuguesa contemporânea, com destacada obra de ficção e poesia. Entre outros reconhecimentos, recebeu em 2016 o prêmio Oceanos com o romance Galveias. Os poemas de Regresso a casa foram escritos nos principais meses de isolamento social a que os portugueses se entregaram com abnegada disciplina.



No retiro útil, compulsório, o autor vê-se na quietude da casa, nos limites dos cômodos da memória, na companhia silenciosa dos livros, no apito duradouro do tempo. Regresso a casa é o reencontro com a poesia, 12 anos depois de publicado o livro Gaveta de papéis. A casa, para quem viveu parte da vida pelo mundo, é a alegoria da intimidade, da família, das origens e até mesmo dos lugares distantes da pequena Galveias (a terra natal no Alto Alentejo), como China, Tailândia, Coreia do Norte e Oeiras.

 

A casa são muitas casas. E o livro segue descortinando metáforas por entre as salas, os quartos, a varanda, o jardim. ‘O poema é como uma casa, tem paredes/ e janelas, é habitado pelo presente’. O precipício do isolamento expõe o confronto do tempo passado com o presente e revela uma inquietação com o porvir, como no poema Certeza: ‘De repente, este inverno é o último e os nossos braços esticados não chegam/ ao fim de março’. 

    

Qual um diário da quarentena, em Regresso a casa o autor subverte de tal maneira a escrita como se o futuro fosse também uma nesga da própria nostalgia. Uma nostalgia ora madura demais – ‘Mesmo que seja impossível evitar a pele/ do inverno, queremos o futuro’ – ora suavemente adolescente – ‘passeava de mãos dadas com os meus pais e o tempo acabava ali’. 

 

Regresso a casa é uma espécie de inventário lúcido de um ano improvável, a partir do qual se depreende que estamos todos condenados a um confinamento moral, ao medo – particular ou coletivo – de como restará o mundo lá fora amanhã: ‘Mãe,/ não saias de casa,/ nunca saias de casa./ És a última velha da minha vida’. O livro, como vaticina José Luís Peixoto, é a casa construída pelo olhar de quem lê. E, como quem sai por aí a passeio, o melhor da viagem sempre será a volta. O reencontro com o cheiro da casa.