segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Polêmica das biografias

Chico Maranhão: “É preciso tirar a roupa, ficar nu”
Papete: “Me decepciono com meus ídolos”




O que pensam artistas maranhenses sobre a polêmica das biografias? O que acham da posição tomada por nomes ilustres da MPB como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Djavan, que se juntam a Roberto Carlos e defendem uma autorização prévia e negociada do artista para a publicação de livros biográficos? O tom de alguns, como Chico Maranhão e Papete, é de certo desapontamento. Ambos afirmam que não há o que temer.

O cantor e compositor Chico Maranhão, em texto que me fora encaminhado por ele via email, diz que os artistas são instrumentos de suas obras, ações, comportamentos e pensamentos, tudo isso posto em nome da construção de “uma sociedade melhor”. Fatos registrados numa biografia, segundo ele, dependem da força das palavras lançadas ao longo da história. E as palavras, afirma, têm interpretações diferentes, leituras diversas.

O autor de “Ponto de fuga” não vê razões para receios ou resistências às biografias. “Não há que ter medo”. Papete, cantor, compositor e instrumentista, comunga da mesma ideia. “Quem não deve não teme”, disse ele em post na sua página do Facebook. Segundo Papete, quem leva uma vida digna, decente e honesta não tem com o que se preocupar. “Afinal, o que teriam a esconder da gente?”, questiona.



O tema das biografias não autorizadas está na ordem do dia e virou pauta recorrente nos principais jornais, revistas, blogs e programas de TV do País. A Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel) reacendeu a polêmica ao mover ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra artigos do Código Civil que protegem artistas biografados.
De acordo com o artigo 20 do Código Civil, salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, publicação, exposição ou utilização da imagem de uma pessoa “poderão ser proibidas se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade”, ou se destinadas a fins comerciais.

O grupo Procure Saber, que tem como porta-voz a ex-atriz e produtora cultural Paula Lavigne, levanta a bandeira do direito à privacidade e, subliminarmente, defende interesses comerciais dos biografados. “Se a obra diz respeito à vida e à carreira do artista, é natural que ele (o biografado) também obtenha direitos sobre a comercialização do produto”, é o que prega, nos bastidores da Justiça e do Congresso Nacional (onde há um projeto de lei em tramitação sobre o tema), a associação Procure Saber.

Roberto Carlos, que em 2007 proibiu na justiça a venda do livro “Roberto Carlos em detalhes”, de autoria de Paulo César de Araújo, disse ontem no programa “Fantástico”, da TV Globo, que é a favor das biografias não autorizadas, desde que haja um entendimento preliminar entre o biógrafo e o biografado. "O biógrafo pesquisa uma história que está feita pelo biografado. Ele não cria uma história. Narra aquela história que não é dele, que é do biografado. Mas, a partir de quando escreve, ele passa a ser dono daquela história. Isso não é certo", reagiu o “Rei” em entrevista à apresentadora Renata Vasconcelos.

Chico Maranhão conta que percebeu um inútil e desconfortável sentimento nas manifestações de alguns integrantes do Procure Saber, “principalmente em Chico Buarque, casualmente ex-colega e amigo meu da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo)”. O cantor e compositor maranhense pisa mais fundo: “É preciso reduzir mais, tirar a roupa, ficar nu! Nós, artistas, podemos mostrar o nosso esqueleto sem nenhum problema”.

Papete revela-se decepcionado com seus ídolos, que em outros tempos defendiam a liberdade de expressão e lutavam contra todo tipo de censura. “Dá pra desconfiar se naquele época isso acontecia porque era oportuno e conveniente”. Rechaça o esconderijo oficial, os segredos guardados a sete chaves, “como se o seu infinito e leal séquito de admiradores não tivesse o direito de saber de suas vidas, seus aspectos, curiosidades, passagens pitorescas, sua forma de pensar”.

Leia abaixo o que dizem Chico Maranhão e Papete:

Considerações ainda sobre a polêmica das biografias não autorizadas

Chico Maranhão
Cantor, compositor e escritor

Tive notícia do assunto quarta feira, dia 16 deste mês, assistindo ao programa da TV Brasil 3a1 com Luiz Carlos Azevedo. Lá, três entrevistados discutiam a questão “Biografias” levantada por um grupo de artistas. Como achei um excelente programa, nem sempre comum na televisão brasileira, resolvi comentar com minha amiga jornalista Rô Caetano perguntando se ela tinha também visto. Ao me responder que não, questionou-me sobre qual meu posicionamento e logo percebi que há muito a polêmica já estava ocorrendo: um grupo de artistas, do meu tempo, isto é, da década de 1960 com quem eu convivi no período dos festivais, fustigava sobre o direito a suas privacidades. Hoje, pessoas famosas por suas obras, por seus feitos, suas ações, estavam, à minha vista, inquietas, preocupadas com a possível interpretação e divulgação de suas vidas íntimas, no que diz respeito a biografias sem autorizações dos biografados. E então, tentei colocar no ar meu ponto de vista, pois, numa primeira aproximação, percebi um inútil e desconfortável sentimento. Principalmente em Chico Buarque, casualmente ex-colega e amigo meu da FAU (Faculdade de Arquitetura). Escrevi um pequeno texto mostrando o quanto estava perplexo com os acontecimentos e enviei a Rô (sexta/18/10) que passou a alguns amigos. A polêmica cresceu como era de se esperar e hoje volto ao assunto.

Muita coisa foi dita e muita gente se manifestou, ampliou-se o quadro das discussões, reconhecimentos surgiram. Acho que houve evolução, sim, mas em que sentido? No alcance da humildade para se compreender melhor a questão? Sim, porque no início, e sempre no início, a radicalidade imperou e os pequenos e grandes poderes se manifestaram. Só se não fôssemos humanos, talvez, seria o contrário. E é aí que está o “espaço” não tocado, a condição humana, que, insisti no meu posicionamento, à resposta para minha amiga Rô Caetano. Tudo isto que os homens fazem, sentem, produzem... obras, ações, comportamentos, pensamentos, está aí para construir uma sociedade melhor. E nós artistas, especialmente, estamos aí para sermos instrumentos disto. E, assim, não há do que ter receio. Não há que ter medo! A construção de fatos que uma biografia cria depende dos fatos que nós fixamos com as palavras. E elas próprias, as palavras, têm interpretações diferentes, leituras diversas. E assim, necessariamente, desencadeiam uma miríade de conjecturas, de outras ideias, suposições, de outros fatos, outras realidades. Quem poderá dimensionar esta verdade? E por que então não aceitar este futuro passado? É preciso reduzir mais, tirar a roupa, ficar nu! Nós, artistas, podemos mostrar o nosso esqueleto sem nenhum problema. A sociedade brasileira, por acaso, não está neste caminho? Há ou não uma necessidade de se mostrar mais? Não é só coisa do privado, do público, sei lá mais o quê?! Não é isso, é mais e principalmente coisa da intuição. Da sensibilidade! Essas polêmicas, esses questionamentos, essas inquietações, a construção desses objetos, são imprescindíveis ao crescimento social. Por isso mesmo são louváveis. Portanto, amigos, acalmem-se, ainda precisamos muito das palavras, desta relação linguagem-mundo. E nem tudo estará nos textos, nas biografias, nas músicas, nas obras dos artistas, mas, obviamente, quem sabe?!, no conjunto de tudo isto.


"Quem não deve não teme"

Papete
Cantor, compositor e instrumentista

Sinceramente, pessoal, vamos combinar então: quem não deve não teme!!! Digo isso pelo fato de estar já ficando meio sem paciência com essas declarações e matérias referentes à questão das biografias, se pode ou não, se tem de autorizar ou não, se é certo ou não..., me decepciono com meus ídolos de outros tempos quando eles defendiam a liberdade de expressão e lutavam contra todo tipo de censura. Dá pra desconfiar se naquele época isso acontecia porque era oportuno e conveniente, mas o que pega mesmo é as pessoas ficarem escondidas sob segredos guardados a sete chaves como se o seu infinito e leal séquito de admiradores não tivesse o direito de saber de suas vidas, seus aspectos, curiosidades, passagens pitorescas, sua forma de pensar, e por aí vai.

O que me causa espanto é toda essa reação ao simples fato de que alguém pode ou não publicar aquilo que sabe sobre este ou aquele, e aqui quero fazer uma analogia ao tecer um comentário sobre pessoas tais como os reis da Suécia e da Noruega, que andam de bicicletas pelas ruas como pessoas comuns, exatamente por não terem nada a temer de seus súditos, que os admiram e respeitam, o que fatalmente aconteceria com essas pessoas que aqui no Brasil brigam pela não publicação de suas biografias - mais uma vez digo e repito: quem nada deve ou então sempre viveu uma vida digna, decente e honesta não tem de se preocupar com isso, afinal o que teriam a esconder da gente?

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A outra trilha de Betto Pereira


Betto Pereira tem um bom pedaço da vida dedicado à música. Já se vão mais de 35 anos de palco, desde o primeiro contato com o cavaquinho em encontros boêmios com os amigos, no final dos anos 1970, até a gravação do seu último disco, o CD “Samba que é bom”. E como uma arte puxa a outra, a música o aproximou do teatro no acabamento de trilhas sonoras nas peças encenadas por Aldo Leite.

Mas foi durante a formatação de “Samba que é bom”, no segundo semestre de 2012, que Betto Pereira desaguou de vez na pintura. Desde muito cedo ele já ensaiava os passos iniciais com o pincel e chegara a presentear amigos com pinturas quando ainda morava em São Paulo na casa do amigo Chico Saldanha. Seguiu pintando algumas pequenas telas, mas sempre de maneira tímida e para consumo meramente doméstico, como se tomado pelo medo das cores ou do movimento das mãos e da combinação de tons. Era o artista plástico ensimesmado em plena rebelião do casulo.

Um dia decidiu ousar na primeira tela, e depois na segunda, na terceira... Experimentou cores e se deixou levar pelo traço errante, novo, menos figurativo e mais lúdico. Quando se deu conta, já havia criado toda a cena de botequim de “Samba que é bom”, material utilizado na arte gráfica do disco.

Dos botequins, Betto partiu para as bicicletas multicoloridas, que ganharam forma e movimento e tomaram as ruas de São Luís do Maranhão, a sua cidade cantada. A música, parceira inescapável, transformou-se em presença quase obrigatória com os seus instrumentos e personagens bailando no acrílico sobre tela. A pintura cresceu, as telas multiplicaram-se no tamanho e na inventividade.

“Telas & tons”, esse conjunto expressivo de cores com o qual Betto Pereira debuta nas artes plásticas, representa a leitura de cenas que de alguma forma identificam-se com o universo onírico do menino aprendiz, autodidata e de forte personalidade, como a máquina fotográfica, o disco de vinil, a radiola de reggae, os pregoeiros, os barcos que singram a baía de São Marcos, o bumba-meu-boi, o pandeirão, o cazumbá, a gafieira, os papagaios de papel.

A essência da pintura de Betto Pereira está no movimento. Mas não é um movimento qualquer, abusado ou fora de contexto. Não é a velocidade da urbe, mas o movimento forjado na leveza que a vida nos cobra numa tarde de sábado, por exemplo. Quanto mais refestelado nas tradições, na cultura popular da sua aldeia, mais moderno Betto Pereira se espicha no traço. A coleção “Telas & tons”, assim como as tardes de sábado, é um convite ao contentamento.

(A exposição “Telas & tons” acontece nesta quarta-feira, dia 15 de outubro, às 19h, no Shopping da Ilha, com pocket show do disco “Samba que é bom”)

domingo, 13 de outubro de 2013

A mulher mais bonita do mundo


Muito pouco se sabe sobre os Black Blocs, os mascarados urbanos responsáveis pela faceta mais polêmica das manifestações de rua iniciadas em junho no Brasil. Sabe-se que reverberam movimentos anarquistas desenterrados em outros países nos últimos 15 anos e que se espalham pelas cidades como que por contágio. E por que se conhece tão pouco o movimento? A razão é simples: entre os Black Blocs não há líderes ou porta-vozes, não puxam protestos ou manifestações com carros de som ou megafones. Ou seja, não há uma verdade objetiva, tão ao gosto da mídia tradicional. Nas poucas vezes que alguém do movimento arriscou-se em dar declarações públicas, sempre agiu por conta e risco. Como entrevistado, de rosto encoberto e voz sob efeito eletrônico, fala por si e jamais pelo grupo.

Não são os Black Blocs protagonistas dos movimentos que tomaram conta das ruas, mas, pelo barulho que fazem e o rastro incendiário que deixam pelo caminho, criam um simulacro de vanguarda que confunde imprensa e opinião pública. E vanguarda, afinal, é tudo o que os movimentos de rua não têm. As manifestações reproduzem na prática as teias de indignação forjadas no ambiente das redes sociais. Há seguidores, mas não há Messias. É a subjetividade que vai tecendo as pautas e a ordem do dia, primeiro em Facebook e Twitter e depois nas ruas.

Os Black Blocs vestem-se de preto e usam máscaras para não serem reconhecidos pelos seus atos. Misturam-se. Confundem-se de maneira solidária. Agrupam-se por afinidade, não são representantes de uma causa, de uma categoria, de uma luta. Não estão conectados internacionalmente por uma bandeira. Em verdade abominam bandeiras, partidos ou sindicatos, mas são uns inconformados com qualquer ranço de opressão do capital, seja no Brasil, na Europa ou nos Estados Unidos. E por isso mesmo misturam-se aos grandes protestos e saem em bandos a pichar prédios públicos, a quebrar e a queimar fachadas de bancos e corporações multinacionais.

Embora sem bandeira, durante as Jornadas de Junho o Black Bloc Brasil divulgou manifesto pelo Facebook esquivando-se da associação do nome do movimento com a baderna gratuita e generalizada. No texto, os Black Blocs afirmam que o movimento não é “deliberada e randomicamente hostil”. São hostis quando é preciso atingir financeiramente o seu principal alvo: multinacionais e bancos, em especial. Os Black Blocs repudiam “infiltrações e tentativas de desmoralização e corrupção de movimentos sociais”. Sobre infiltrados e provocadores, os Black Blocs dizem que coibem na base da conversa e da denúncia. Mas, se necessário, empregam “outras técnicas”.

Repudiam, segundo o genérico manifesto, toda forma de política extremista. Deixam claro que são contra o monopólio de riquezas, a exploração das massas e veículos de comunicação “tendenciosos e mentirosos”. E concluem o documento declarando como seus inimigos quaisquer meios de repressão e opressão, com referência explícita à polícia.

A propósito, mergulhei na leitura de dois livros publicados este ano no calor dos efeitos das manifestações. “Redes de indignação e esperança – movimentos sociais na era da internet” (Zahar, 2013), do sociólogo espanhol Manuel Castells, faz uma análise instigante sobre levantes iniciados em 2010 como a Primavera Árabe, as revoluções na Tunísia, Egito e outros países do Oriente Médio e do norte da África, os Indignados da Espanha e o Occupy nos Estados Unidos. Além de auscultar a voz das ruas com aguçado senso de responsabilidade, Castells faz um estudo profundo das conexões entre movimentos aparentemente dispersos e esboça a relação da massa de jovens como centelhas das redes de comunicação e transformação social.

Em posfácio dedicado às manifestações deste ano no Brasil, Castells põe o dedo na ferida comum em todos os atos de protesto pelo mundo: para os manifestantes, inclusive os Black Blocs, a democracia tem sido sequestrada por profissionais da política. A democracia, segundo ele, foi reduzida a um mercado de votos em eleições realizadas de tempos em tempos, e está fielmente representada por um Congresso grotesco, com burocratas partidários e “chefetes locais corruptos que por vezes resolvem suas diferenças a tiros de pistola”.

Esse movimento sem nome, afirma Castells, surgiu das entranhas de um país perturbado por um modelo de crescimento que ignora a dimensão humana e ecológica do desenvolvimento. E critica os donos do poder que se perpetuam em cargos públicos montados em dois principais sofismas: 1) a escolarização sem uma verdadeira melhoria do ensino não é educação, mas um armazenamento de crianças; 2) a saúde sem investimentos efetivos em médicos e enfermeiros, sem política de prevenção, é um poço sem fundo, “no qual a produtividade se mede pela ocupação de camas de hospitais, contando os enfermos, e não os sadios”.

Mas saúde e educação são bandeiras nas mãos de outros, não do Black Bloc, movimento que se define como horizontal e descentralizado. E por isso mesmo é visto com certa reserva pelos grupos de esquerda, aqueles banidos das ruas com os seus discursos e bandeiras vermelhas. “Cidades rebeldes – passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil” (editora Boitempo/Carta Maior, 2013) é uma coletânea de ensaios assinados por cientistas, professores, antropólogos e jornalistas sobre os movimentos dos últimos meses. Os autores do livro fazem interpretações diferenciadas acerca do mesmo tema, a maioria delas pela ótica acadêmica da luta de classes, e criticam a hostilidade aos partidos políticos.

No livro, o jornalista e professor Leonardo Sakamoto avalia que a classe política foi colocada, apressadamente, no mesmo balaio de expurgo pelos manifestantes, aqui incluídos os Black Blocs. “Dentre esses indignados que foram preparados, ao longo do tempo, pela família, pela escola, pela Igreja e pela mídia para tratarem o mundo de forma conservadora, sem muita reflexão, filhos de pais que viveram o auge do neoliberalismo, tem gente simplesmente com muita raiva de tudo e botando isso para fora. O PSDB tem culpa nisso. O PT tem culpa nisso”. Estão indignados porque querem tirar o comando da gerontocracia que domina a política brasileira.

Segundo Sakamoto, esses jovens estão descontentes, mas não sabem o que querem. Sabem apenas o que não querem. “Por mais agressivos que sejam, boa parte deles está em êxtase, alucinada com a diversão que é estar na rua e com o poder que acreditam ter nas mãos. Mas, ao mesmo tempo, com medo. Pois, cobrados de uma resposta sobre sua insatisfação, no fundo, no fundo, conseguem perceber apenas um grande vazio”.

Os Black Blocs parecem desafiar o medo e a trama. De onde saem, como vivem, do que são capazes, até onde vão? Não se sabe ainda. Não estão interessados em romper ciclos políticos e assumir o comando. Querem fazer soar o seu grito inflamado e, se possível, com ações inflamáveis. Vão continuar anônimos quebrando as vidraças dos bancos e incendiando as passarelas.

Na abertura do Festival de Cinema do Rio, no final de setembro, enquanto atrizes e celebridades desfilavam exuberantes com seus vestidos de grife pelo tapete vermelho da festa, os Black Blocs gritavam pelos becos a palavra de ordem “mulher bonita é mulher que luta”, o que de pronto me remeteu aos tempos de movimento estudantil. Entre 1987 e 1988 editávamos na universidade o jornal alternativo chamado “Tabefe”, um poço das mais variadas reclamações. Para que o nosso pasquim não perdesse a ternura, nos aventurávamos também na poesia. E cada um fazia das suas. Pois foi lá nas páginas do “Tabefe” que o hoje jornalista e professor Ed Wilson Araújo publicou um poema que dizia mais ou menos assim: “Linda/ Cabelos lisos e médios/ Corpo esguio/ Pernas bem feitas/ Gata/ Pena não ser/ Uma guerrilheira”.

Um black bloc precoce.