terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O violão que nos representa

(texto de apresentação do livro “João Pedro Borges – violonista por excelência”)



Com a publicação de “João Pedro Borges – violonista por excelência”, do escritor Wilson Marques, a Clara Editora inicia o projeto Perfis Maranhenses, uma despretensiosa coleção de histórias sobre personagens que, por diferentes meios e maneiras, fizeram ou continuam fazendo do Maranhão um estado melhor. Não um estado melhor que outros - nem mais bonito ou de histórias mais gloriosas. Mas um Maranhão melhor do que ele realmente é notado.

O melhor do Maranhão não está no seu venturoso passado econômico, mas na sua gente, nos seus personagens de ontem e de hoje. São os seus filhos ilustres e anônimos. São nomes como Ribamar, Maria, Teresa, Raimundo, Pedro, José ou João. São expressões como Gonçalves Dias, Sousândrade, Catulo da Paixão Cearense, Lago Burnett, Celso Antônio, Ferreira Gullar, Floriano Teixeira, Turíbio Santos, João do Vale, Nauro Machado, Chico Maranhão, Coxinho, Dona Teté, Alcione, Querubina, Terezinha Jansen, Mestre Felipe, Lenoca, Humberto do Maracanã e tantas outras. Essa história de mais de quatrocentos anos é feita de pessoas simples e cidadãos notáveis que se destacaram em suas áreas de atuação.

A coleção Perfis Maranhenses não é uma homenagem ao Maranhão, mas a homens e mulheres do Maranhão representados aqui por gente como o músico João Pedro Borges, o Sinhô, e outros expoentes nas artes, no esporte, na cultura popular, na economia, na religião etc. O primeiro título é uma reverência ao maranhense que conquistou um lugar de destaque entre os maiores violonistas do Brasil, com passagens por grandes palcos internacionais, como o Lincoln Center, em Nova York.

Como Sinhô, há muitos personagens do Maranhão inseridos no fecundo contexto histórico que compreende a segunda metade do século 20 e os primeiros anos deste século 21. Nomes que só caberiam em volumosos cadernos ou enciclopédias de temas maranhenses, como fizera César Augusto Marques no seu “Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão”. A coleção Perfis Maranhenses, no entanto, é um breve recorte do protagonismo maranhense, sem formalismos ou compromissos com teses acadêmicas, forjado em narrativas que podem fluir tanto do ensaio como da reportagem ou de uma resenha.

Perfis maranhenses é um leve memorial de consulta, um projeto de sobrevoo com o requinte da pesquisa necessária, objetiva. Com esta obra inaugural – e outras que ainda virão -, o leitor chegará à última página de “João Pedro Borges – violonista por excelência” com o sentimento de que o Maranhão é de fato muito maior e melhor do que aparenta. O leitor estará convencido, afinal, que João Pedro Borges nos representa.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Três noites não dormidas em Ouro Preto

Por Eduardo Júlio

Faz 20 anos. O ano, lógico, era 1993. Tempo em que nós ainda bem jovens desfrutávamos de certo alívio pela retirada, com certa ajuda nossa, de Fernando Collor, da direção do país, no ano anterior. Passada a euforia, estávamos tranquilos numa tarde na UFMA, quando ouvimos alguém anunciar: “Vai acontecer o Festival de Cultura e Arte da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ouro Preto. Um ônibus vai sair da UEMA e eles liberaram duas vagas para nós”. Pensei eufórico instantaneamente: “Opa! Uma vaga tem que ser minha”.



Antes que alguém questione o que estudantes de Veterinária, Agronomia e Engenharia Civil da UEMA fariam num encontro de arte da UNE, esclareço: naquele tempo o estudante da universidade estadual e militante do PCdoB, Stephano Nunes - atualmente empresário - era vice-presidente da UNE. Daí, a razão de um ônibus de lá partir para um encontro, digamos, lúdico, em Minas Gerais.

Já tinha conhecido Ouro Preto, de forma rápida, no ano anterior, quando participei do Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação (Enecom), ocorrido em Belo Horizonte. Não sei exatamente a razão do meu encantamento pela cidade colonial mineira. Talvez me agrade a beleza da arquitetura, com casarões e ruas de pedra tristes, calmas e saudosas. Magia que também existe no Centro Histórico de São Luís e nos de outras cidades brasileiras.

Mas Ouro Preto tem uma geografia muito singular, uma aura suntuosa, em razão de estar situada entre montanhas. À noite, fica tomada pela neblina. Se não me engano, é a segunda cidade mais alta de Minas.

Em 1993, a chapa Contraponto venceu as eleições para o DCE da UFMA. Os meus amigos Elício Pacífico, que então cursava Economia (depois se formou em Letras), era diretor de Cultura da entidade, enquanto o estudante de Direito Jorge Moreno presidia o diretório. Por isso, teoricamente, as duas únicas vagas da Federal eram deles. Mas a sorte iria se voltar para mim.

Dois dias antes da viagem, eu estava batendo papo no corredor do Pimentão (como sempre fazíamos nos intervalos ou não das aulas), quando Jorge Moreno passou caminhando devagar, divagando. Sem grandes esperanças, aproveitei para abordá-lo sobre o encontro: “Você vai para Ouro Preto?”. Ele prontamente respondeu; “Não vou. Fique com a minha vaga. Vá amanhã na UEMA e inscreva-se. Corra, que o prazo vai encerrar. Dei literalmente pulos de alegria e até hoje sou grato pela gentileza de Jorge Moreno.

Mas a jornada para Ouro Preto se configuraria numa verdadeira aventura cheia de lances legais desde a largada. Pra começo de conversa, no dia da viagem, os servidores da UEMA, apoiados pelos estudantes, resolveram deflagrar greve. Então, estávamos todos na praça Deodoro, por volta das 19h, hora marcada para a partida, mas o ônibus nada de aparecer. E haja espera. Só foi chegar às 23h, depois que vários pais se mobilizaram para negociar com o reitor e buscar o motorista em casa, se não me engano, na Cidade Operária.

Nesse intervalo, dois estudantes da UFMA, Marcio Jardim e Iroan Bezerra, que passavam pela Deodoro, vindos da universidade, avistaram o burburinho e resolveram integrar a caravana com a roupa do corpo e livros na mochila. Iroan ainda deu uma passada em sua residência para pegar alguns pertences, afinal, ele morava bem pertinho da Deodoro, na famosa Vila Inah Rêgo. Márcio Jardim, que morava bem longe do Centro, nem cogitou em passar em casa. Ficou por lá mesmo e, quando o ônibus chegou, foi um dos primeiros a escolher o assento, cheio de moral e entusiasmo.

Portanto, a UFMA ficou um pouco mais representada na viagem.

Um detalhe: Iroan era famoso pela capacidade de suportar baixas temperaturas com pouca roupa. Uma lenda universitária dizia que num encontro em Curitiba, realizado no final dos anos 80, ele teria enfrentado, numa boa, uma temperatura de 4ºC à noite, só de camiseta. Em Ouro Preto, iríamos, de fato, comprovar a fama do rapaz. Iroan repetiria a performance, andando tranquilamente pelas ladeiras da cidade, debaixo de um frio que fazia encolher a alma, vestindo somente uma camiseta regata, daquelas que se usa na praia.

O ônibus partiu e, se não estou enganado, deu algumas voltas pelo Maranhão, antes de seguir para Minas, catando estudantes da UEMA no interior. Num dos municípios, subiu Fábio Kerouac, um aluno de Letras da cidade de Caxias, famoso pelo apelido que reverenciava ou referenciava o escritor norte-americano da geração beat, Jack Kerouac. Há quem diga que este foi o único encontro de Fábio Kerouac com Eduardo Beat, como me chamavam no passado. Fabio Kerouac, dizem, mora hoje na Alemanha, o país.

Fábio, além de ter proporcionado um pouco de irreverência ao ônibus, trouxe várias boas fitas cassetes e fomos ouvindo uma trilha sonora que incluía o disco “Misplaced Childhood”, do Marillion, e um da Sinead O'Connor em que ela canta standards de jazz. Foi lindo apreciar os campos verdes de Goiás e as montanhas de Minas ao som do rock progressivo do Marillion. Não esqueço também a chegada ao Planalto Central, em pleno pôr-do-sol, seguido de lua cheia, curtindo o piano etéreo de Keith Jarrett, no “Köln Concert”, cuja fita levei na mochila.

A viagem de ida somada com a de volta durou seis dias, porque o motorista sabiamente não dirigiu à noite. Encostava num posto de gasolina qualquer e seguia pela manhã, mesmo com o protesto dos passageiros, que não viam a hora de chegar. Portanto, passamos dois terços da viagem na estrada.

Durante todo o festival, que durou três dias, eu só dormi cinco horas e, justamente, na primeira noite. Quando não estávamos em bares, andávamos, subindo e descendo as ladeiras da cidade, acompanhados de amigos que fizemos no encontro e que nunca mais encontramos.

No segundo dia, por exemplo, amanheci, sob o frio, num gramado próximo a uma igreja, curtindo uma vista panorâmica. Foi a forma que encontrei de aproveitar o máximo de tempo em Ouro Preto. O sono acumulado tentei compensar na volta dentro do ônibus.

A delegação do Maranhão ficou hospedada na famosa república Aquarius - fundada em 1969 em plena efervescência do movimento hippie - que, dizem, é a mais antiga de Ouro Preto. E, ao contrário do que podem suscitar as más línguas, estas casas são bastante organizadas, com normas rígidas de convivência. Por mais de uma vez, estudantes internos do local chamaram a atenção da gente, reclamando dos exageros cometidos pela delegação maranhense. Inclusive, quando um rapaz acendeu um cigarro de maconha na hora errada. Pelo menos, na época era assim.



Em frente à república, na famosa Rua Direita, encontramos um barzinho que vendia somente Kaiser. Na época, essa cerveja era uma novidade e achamos uma delícia. Daí, decidimos fazer daquele bar o nosso ponto de encontro. Eu, Elício e o estudante da UEMA Joaquim, que não me recordo o sobrenome, e que conhecia de vista de longas datas, passamos uma boa parte do tempo naquele boteco. Assim, tomávamos café da manhã por lá, bebendo Kaiser. Pode? Ok, estávamos todos com pouco mais de 20 anos, ou seja, não tínhamos paladar apurado e sequer conhecíamos cerveja de verdade.

Enquanto bebíamos, as oficinas agitavam o encontro. A mais disputada de longe era a de somaterapia do psiquiatra e escritor Roberto Freire (1927-2008). A prática criada pelo autor de “Ame e dê Vexame”, que esteve por duas vezes em São Luís, atraía a juventude em razão do caráter libertário das vivências, com lindas garotas e rapazes alternativos exercitando a libido e a afetividade.

À noite, Roberto Freire era facilmente visto rodeado de belas jovens e discípulos em pizzarias e restaurantes. Naquela altura, eu tinha sido um leitor assíduo dele, mas tinha me decepcionado com o terapeuta, depois de uma resposta displicente dada a uma pergunta feita por Félix Alberto, no ano anterior, quando o escritor tinha passado por São Luís. Toda a admiração que tinha por ele acabou instantaneamente. Resultado: no dia seguinte, vendi no sebo do Poeme-se todos os livros de sua autoria que eu tinha lido.

Mas em 1999 ou 2000, não recordo exatamente o ano, Roberto Freire passou por São Luís novamente e eu fiz as pazes com ele ao entrevistá-lo de novo, lá no extinto restaurante Xique-Xique, que ficava próximo ao retorno do São Francisco, onde hoje resta um terreno baldio. Lembro que foi uma tarde bastante agradável.

SANFONA

O Festival de Cultura e Arte da UNE foi substituído posteriormente pela Bienal da UNE, que não sei se ainda existe. Em 1993, a programação cultural foi bastante rica, principalmente a musical. A memória me escapa um pouco, mas lembro que as três noites foram divididas por temas. Na sexta-feira, tocaram os melhores músicos de acordeon do país. Subiram ao palco da Praça Tiradentes, Renato Borghethi, Dominguinhos (1941-2013), Oswaldinho do Acordeon e Sivuca (1930-2006), acompanhados por feras como o violista Heraldo do Monte e o guitarrista Arismar do Espírito Santo. De todos, o que mais me encantou foi Dominguinhos, com uma performance arrebatadora.

O segundo dia foi dedicado ao rock e teve na abertura a banda brasiliense Os Cachorros das Cachorras, que executou uma engraçadíssima versão de “Black Dog”, do Led Zeppelin: “Ei mãe, me dê um boi zebu/ que é pra ele cagar e eu catar cogu/ ei mãe, eu já catei cogu/ agora eu tô curtindo esse visu”. Deu para sacar?

Mas a grande atração da noite foi a banda mineira Virna Lisi. Antes da entrada em cena do mangue beat pernambucano, o grupo era uma das promessas do rock nacional dos anos 90, misturando guitarras distorcidas com células de samba. O show da Virna Lisi tinha peso e uma energia e tanto, mas a banda não atingiu o estrelato e hoje é lembrada por poucos.

O último dia foi dedicado aos sons percussivos. A atração principal foi o Olodum, mas já era hora de voltar.

LEMINSKI

A poesia também teve um espaço especial no evento. Logo que chegamos, tinha sido montado um imenso varal com poemas na Praça Tiradentes. E eu aproveitei para pendurar algumas folhas com textos de minha autoria.

No ano anterior, a brasiliense tinha lançado o livro póstumo de Paulo Leminski, “La Vie en Close”, repleto de poemas memoráveis. Lembro de ter visto, no palco, um garoto magro, vestido com uma camiseta que tinha a imagem de Maiakóvski estampada. Ele recitou alguns poemas do livro de Leminski, incluindo "Lápide 1- Epitáfio para o Corpo", emocionando a plateia: aqui jaz um grande poeta/ nada deixou escrito/ este silêncio, acredito/ são suas obras completas. "Que a alma de Leminski esteja com vocês", disse o rapaz. Jamais esquecerei dessa passagem.

CONGELADOS

Para completar a viagem, ainda iríamos passar o maior perrengue morrendo de frio no pátio da rodoviária, à espera do ônibus da nossa delegação. A questão foi a seguinte: a volta estava marcada para as 21h do domingo, mas o motorista dormiu e só foi acordar por volta da meia-noite, deixando toda a delegação ao relento, congelando os ossos e a alma. Foram quase quatro horas de espera. Nenhum agasalho foi suficiente.

Quem conhece Ouro Preto, sabe que carros pesados, como ônibus e caminhões, não costumam descer. Estacionam no ponto mais alto e mais frio da cidade. E foi assim que terminou. Quando acordei, já passávamos por Goiás.

Foi uma viagem como tantas outras que fizemos no período, mas guardo com zelo a sua memória, como quem protege um pequeno objeto de valor afetivo numa caixa.

(imagens do arquivo pessoal de Eduardo Júlio)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Maio oito meia (7) - Era um filme de Godard

Primeiro ano da Nova República. O País vivia o transe total do Plano Cruzado e avistava com certa desconfiança o futuro da economia. O governo do então presidente José Sarney era de incertezas, apesar da lua de mel do congelamento de preços. Líquida e certa mesmo só a fé na conquista do tetra campeonato de futebol no México. Sarney, bombardeado noite e dia pelo PMDB de Ulysses Guimarães e acossado pelas instituições da República, experimentava os primeiros dissabores do cargo.

Pressionado pela Igreja Católica, e contrariando o que havia dito o ministro Lyra em nome da abertura política, o presidente Sarney decidira, em fevereiro de 1986, proibir a exibição pública no Brasil do filme “Je vous salue, Marie” (França, 1985), do cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard. A mesma estética provocadora, às vezes anárquica, usada por Godard em outros filmes que o consagraram como um dos maiores cineastas da segunda metade do século 20 estava presente no longa-metragem que expunha uma Virgem Maria de carne e osso.

Leia mais em maiooitomeia.com.br.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O Maranhão com brilho



“Uma estreia com direção certeira”. Com esse título, o crítico de cinema Daniel Shenker faz uma avaliação positiva do longa-metragem “O exercício do caos”, do maranhense Frederico Machado, no caderno Rio Show, do Globo, edição de hoje. Segundo Shenker, Frederico demonstra domínio das ferramentas cinematográficas, com bem construídas passagens sem fala e expressiva fotografia.

De acordo com a crítica, “O exercício do caos” representa o Maranhão com brilho. “É uma iniciativa de pequeno porte que presta uma importante contribuição ao atual panorama do cinema brasileiro”, analisa Shenker, que recomenda o filme com aplauso do famoso Bonequinho do Globo.

“O exercício do caos” estreia hoje nos cinemas do Rio. Em São Luís, o filme está em cartaz no Cine Lume, Cine Praia Grande e no Kinoplex Shopping da Ilha.

O longa conta a história de um pai autoritário que vive com suas três filhas adolescentes em uma fazenda isolada no interior do Maranhão. As meninas sofrem com a ausência da mãe, supostamente desaparecida, e ao mesmo tempo precisam lidar com a exploração de um capataz, que se aproveita da sua inocência e fragilidade.

Além da direção geral, Frederico Machado assina o roteiro e a fotografia do filme. No elenco estão Auro Juriciê, Elza Gonçalves, Di Ramalho e Thalyta Sousa.

Os 70 anos de Turíbio Santos



Aos 70 anos, o violonista maranhense Turíbio Santos será homenageado hoje à noite dentro da programação do Festival Villa-Lobos, ao lado da Orquestra Sinfônica Brasileira. O concerto está marcado para as 20h no Espaço Tom Jobim.

Reconhecido como um dos maiores violonistas brasileiros, Turíbio Santos está preparando a sua biografia, que deve ser lançada em março de 2014 (provavelmente no dia 7, data em que o músico de fato completa os 70 anos).

As informações sobre a homenagem a Turíbio Santos estão no Segundo Caderno do jornal “O Globo” de hoje (veja o link).

A propósito, Turíbio assina o prefácio do livro “João Pedro Borges, violonista por excelência”, biografia do também maranhense Sinhô, de autoria de Wilson Marques. O livro é o primeiro da série Perfis Maranhenses, da Clara Editora.

Os Tambores de São Luís – o filme!

Por Alessandro Lamar

Quando publiquei aqui minha aventura para filmar ‘Os Tambores de São Luís’, quis apenas recordar um divertido e aventureiro momento da vida e compartilhar com os amigos, na intenção apenas de relembrar e sorrir. Mas o poder das redes sociais é algo gigantesco, incontrolável, imprevisível. Minha humilde crônica foi compartilhada no blog do amigo e parceiro de recontar e escrever fatos vividos de nossas épocas Felix Alberto Lima.

Pois eis que um cineasta carioca chamado Flavio Leandro vai produzir o filme!!! Ele entrou em contato com Felix, estava pesquisando sobre ‘Os Tambores de São Luís’ e encontrou o blog 'o redemoinho', leu a “agradável crônica”, manteve contato e, resumindo, acabei de ligar pra ele pra marcarmos um almoço. Ele já adquiriu os direitos do livro e 2014 é o ano de produzir.

Como todo bom carioca, o cara foi super atencioso comigo, educado e gentil. Falou que quer nos conhecer e quer nos (“nos” significa eu e o antigo roteirista Christian Noronha) inserir nessa jornada.

Quem diria... Chego a me emocionar! Bom, de qualquer maneira, caso não tenha vaga na equipe de produção ou qualquer outra, pedirei a ele apenas uma participação especial, que já defini em 05 possibilidades:

- Posso aparecer em alguma cena servido um café ou arrumando alguma coisa, que pode ser também um cocheiro, peão de fazenda;

- Posso fazer uma cena de figurante do POVO em destaque, aqueles que ficam bem na frente, gritando, protestando sobre algo (que pode ser inclusive no momento do julgamento da Baronesa de Grajaú);

- Posso fazer o papel do meu bisavô, o maestro Pedro Gromwell, que encontra Damião no centro da cidade;

- Posso também carregar uma das alças de um caixão, aparecer num bar, sentando numa calçada, mas sempre com alguma frase ou close;

- Posso fazer uma figuração de algum seminarista.

Quanto a Christian, pensei em personagens de destaque para ele no filme:

- Qualquer personagem barrigudo, ou

- O cara dentro do caixão.

Vamos aguardar os próximos capítulos!


segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Polêmica das biografias

Chico Maranhão: “É preciso tirar a roupa, ficar nu”
Papete: “Me decepciono com meus ídolos”




O que pensam artistas maranhenses sobre a polêmica das biografias? O que acham da posição tomada por nomes ilustres da MPB como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Djavan, que se juntam a Roberto Carlos e defendem uma autorização prévia e negociada do artista para a publicação de livros biográficos? O tom de alguns, como Chico Maranhão e Papete, é de certo desapontamento. Ambos afirmam que não há o que temer.

O cantor e compositor Chico Maranhão, em texto que me fora encaminhado por ele via email, diz que os artistas são instrumentos de suas obras, ações, comportamentos e pensamentos, tudo isso posto em nome da construção de “uma sociedade melhor”. Fatos registrados numa biografia, segundo ele, dependem da força das palavras lançadas ao longo da história. E as palavras, afirma, têm interpretações diferentes, leituras diversas.

O autor de “Ponto de fuga” não vê razões para receios ou resistências às biografias. “Não há que ter medo”. Papete, cantor, compositor e instrumentista, comunga da mesma ideia. “Quem não deve não teme”, disse ele em post na sua página do Facebook. Segundo Papete, quem leva uma vida digna, decente e honesta não tem com o que se preocupar. “Afinal, o que teriam a esconder da gente?”, questiona.



O tema das biografias não autorizadas está na ordem do dia e virou pauta recorrente nos principais jornais, revistas, blogs e programas de TV do País. A Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel) reacendeu a polêmica ao mover ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra artigos do Código Civil que protegem artistas biografados.
De acordo com o artigo 20 do Código Civil, salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, publicação, exposição ou utilização da imagem de uma pessoa “poderão ser proibidas se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade”, ou se destinadas a fins comerciais.

O grupo Procure Saber, que tem como porta-voz a ex-atriz e produtora cultural Paula Lavigne, levanta a bandeira do direito à privacidade e, subliminarmente, defende interesses comerciais dos biografados. “Se a obra diz respeito à vida e à carreira do artista, é natural que ele (o biografado) também obtenha direitos sobre a comercialização do produto”, é o que prega, nos bastidores da Justiça e do Congresso Nacional (onde há um projeto de lei em tramitação sobre o tema), a associação Procure Saber.

Roberto Carlos, que em 2007 proibiu na justiça a venda do livro “Roberto Carlos em detalhes”, de autoria de Paulo César de Araújo, disse ontem no programa “Fantástico”, da TV Globo, que é a favor das biografias não autorizadas, desde que haja um entendimento preliminar entre o biógrafo e o biografado. "O biógrafo pesquisa uma história que está feita pelo biografado. Ele não cria uma história. Narra aquela história que não é dele, que é do biografado. Mas, a partir de quando escreve, ele passa a ser dono daquela história. Isso não é certo", reagiu o “Rei” em entrevista à apresentadora Renata Vasconcelos.

Chico Maranhão conta que percebeu um inútil e desconfortável sentimento nas manifestações de alguns integrantes do Procure Saber, “principalmente em Chico Buarque, casualmente ex-colega e amigo meu da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo)”. O cantor e compositor maranhense pisa mais fundo: “É preciso reduzir mais, tirar a roupa, ficar nu! Nós, artistas, podemos mostrar o nosso esqueleto sem nenhum problema”.

Papete revela-se decepcionado com seus ídolos, que em outros tempos defendiam a liberdade de expressão e lutavam contra todo tipo de censura. “Dá pra desconfiar se naquele época isso acontecia porque era oportuno e conveniente”. Rechaça o esconderijo oficial, os segredos guardados a sete chaves, “como se o seu infinito e leal séquito de admiradores não tivesse o direito de saber de suas vidas, seus aspectos, curiosidades, passagens pitorescas, sua forma de pensar”.

Leia abaixo o que dizem Chico Maranhão e Papete:

Considerações ainda sobre a polêmica das biografias não autorizadas

Chico Maranhão
Cantor, compositor e escritor

Tive notícia do assunto quarta feira, dia 16 deste mês, assistindo ao programa da TV Brasil 3a1 com Luiz Carlos Azevedo. Lá, três entrevistados discutiam a questão “Biografias” levantada por um grupo de artistas. Como achei um excelente programa, nem sempre comum na televisão brasileira, resolvi comentar com minha amiga jornalista Rô Caetano perguntando se ela tinha também visto. Ao me responder que não, questionou-me sobre qual meu posicionamento e logo percebi que há muito a polêmica já estava ocorrendo: um grupo de artistas, do meu tempo, isto é, da década de 1960 com quem eu convivi no período dos festivais, fustigava sobre o direito a suas privacidades. Hoje, pessoas famosas por suas obras, por seus feitos, suas ações, estavam, à minha vista, inquietas, preocupadas com a possível interpretação e divulgação de suas vidas íntimas, no que diz respeito a biografias sem autorizações dos biografados. E então, tentei colocar no ar meu ponto de vista, pois, numa primeira aproximação, percebi um inútil e desconfortável sentimento. Principalmente em Chico Buarque, casualmente ex-colega e amigo meu da FAU (Faculdade de Arquitetura). Escrevi um pequeno texto mostrando o quanto estava perplexo com os acontecimentos e enviei a Rô (sexta/18/10) que passou a alguns amigos. A polêmica cresceu como era de se esperar e hoje volto ao assunto.

Muita coisa foi dita e muita gente se manifestou, ampliou-se o quadro das discussões, reconhecimentos surgiram. Acho que houve evolução, sim, mas em que sentido? No alcance da humildade para se compreender melhor a questão? Sim, porque no início, e sempre no início, a radicalidade imperou e os pequenos e grandes poderes se manifestaram. Só se não fôssemos humanos, talvez, seria o contrário. E é aí que está o “espaço” não tocado, a condição humana, que, insisti no meu posicionamento, à resposta para minha amiga Rô Caetano. Tudo isto que os homens fazem, sentem, produzem... obras, ações, comportamentos, pensamentos, está aí para construir uma sociedade melhor. E nós artistas, especialmente, estamos aí para sermos instrumentos disto. E, assim, não há do que ter receio. Não há que ter medo! A construção de fatos que uma biografia cria depende dos fatos que nós fixamos com as palavras. E elas próprias, as palavras, têm interpretações diferentes, leituras diversas. E assim, necessariamente, desencadeiam uma miríade de conjecturas, de outras ideias, suposições, de outros fatos, outras realidades. Quem poderá dimensionar esta verdade? E por que então não aceitar este futuro passado? É preciso reduzir mais, tirar a roupa, ficar nu! Nós, artistas, podemos mostrar o nosso esqueleto sem nenhum problema. A sociedade brasileira, por acaso, não está neste caminho? Há ou não uma necessidade de se mostrar mais? Não é só coisa do privado, do público, sei lá mais o quê?! Não é isso, é mais e principalmente coisa da intuição. Da sensibilidade! Essas polêmicas, esses questionamentos, essas inquietações, a construção desses objetos, são imprescindíveis ao crescimento social. Por isso mesmo são louváveis. Portanto, amigos, acalmem-se, ainda precisamos muito das palavras, desta relação linguagem-mundo. E nem tudo estará nos textos, nas biografias, nas músicas, nas obras dos artistas, mas, obviamente, quem sabe?!, no conjunto de tudo isto.


"Quem não deve não teme"

Papete
Cantor, compositor e instrumentista

Sinceramente, pessoal, vamos combinar então: quem não deve não teme!!! Digo isso pelo fato de estar já ficando meio sem paciência com essas declarações e matérias referentes à questão das biografias, se pode ou não, se tem de autorizar ou não, se é certo ou não..., me decepciono com meus ídolos de outros tempos quando eles defendiam a liberdade de expressão e lutavam contra todo tipo de censura. Dá pra desconfiar se naquele época isso acontecia porque era oportuno e conveniente, mas o que pega mesmo é as pessoas ficarem escondidas sob segredos guardados a sete chaves como se o seu infinito e leal séquito de admiradores não tivesse o direito de saber de suas vidas, seus aspectos, curiosidades, passagens pitorescas, sua forma de pensar, e por aí vai.

O que me causa espanto é toda essa reação ao simples fato de que alguém pode ou não publicar aquilo que sabe sobre este ou aquele, e aqui quero fazer uma analogia ao tecer um comentário sobre pessoas tais como os reis da Suécia e da Noruega, que andam de bicicletas pelas ruas como pessoas comuns, exatamente por não terem nada a temer de seus súditos, que os admiram e respeitam, o que fatalmente aconteceria com essas pessoas que aqui no Brasil brigam pela não publicação de suas biografias - mais uma vez digo e repito: quem nada deve ou então sempre viveu uma vida digna, decente e honesta não tem de se preocupar com isso, afinal o que teriam a esconder da gente?

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A outra trilha de Betto Pereira


Betto Pereira tem um bom pedaço da vida dedicado à música. Já se vão mais de 35 anos de palco, desde o primeiro contato com o cavaquinho em encontros boêmios com os amigos, no final dos anos 1970, até a gravação do seu último disco, o CD “Samba que é bom”. E como uma arte puxa a outra, a música o aproximou do teatro no acabamento de trilhas sonoras nas peças encenadas por Aldo Leite.

Mas foi durante a formatação de “Samba que é bom”, no segundo semestre de 2012, que Betto Pereira desaguou de vez na pintura. Desde muito cedo ele já ensaiava os passos iniciais com o pincel e chegara a presentear amigos com pinturas quando ainda morava em São Paulo na casa do amigo Chico Saldanha. Seguiu pintando algumas pequenas telas, mas sempre de maneira tímida e para consumo meramente doméstico, como se tomado pelo medo das cores ou do movimento das mãos e da combinação de tons. Era o artista plástico ensimesmado em plena rebelião do casulo.

Um dia decidiu ousar na primeira tela, e depois na segunda, na terceira... Experimentou cores e se deixou levar pelo traço errante, novo, menos figurativo e mais lúdico. Quando se deu conta, já havia criado toda a cena de botequim de “Samba que é bom”, material utilizado na arte gráfica do disco.

Dos botequins, Betto partiu para as bicicletas multicoloridas, que ganharam forma e movimento e tomaram as ruas de São Luís do Maranhão, a sua cidade cantada. A música, parceira inescapável, transformou-se em presença quase obrigatória com os seus instrumentos e personagens bailando no acrílico sobre tela. A pintura cresceu, as telas multiplicaram-se no tamanho e na inventividade.

“Telas & tons”, esse conjunto expressivo de cores com o qual Betto Pereira debuta nas artes plásticas, representa a leitura de cenas que de alguma forma identificam-se com o universo onírico do menino aprendiz, autodidata e de forte personalidade, como a máquina fotográfica, o disco de vinil, a radiola de reggae, os pregoeiros, os barcos que singram a baía de São Marcos, o bumba-meu-boi, o pandeirão, o cazumbá, a gafieira, os papagaios de papel.

A essência da pintura de Betto Pereira está no movimento. Mas não é um movimento qualquer, abusado ou fora de contexto. Não é a velocidade da urbe, mas o movimento forjado na leveza que a vida nos cobra numa tarde de sábado, por exemplo. Quanto mais refestelado nas tradições, na cultura popular da sua aldeia, mais moderno Betto Pereira se espicha no traço. A coleção “Telas & tons”, assim como as tardes de sábado, é um convite ao contentamento.

(A exposição “Telas & tons” acontece nesta quarta-feira, dia 15 de outubro, às 19h, no Shopping da Ilha, com pocket show do disco “Samba que é bom”)

domingo, 13 de outubro de 2013

A mulher mais bonita do mundo


Muito pouco se sabe sobre os Black Blocs, os mascarados urbanos responsáveis pela faceta mais polêmica das manifestações de rua iniciadas em junho no Brasil. Sabe-se que reverberam movimentos anarquistas desenterrados em outros países nos últimos 15 anos e que se espalham pelas cidades como que por contágio. E por que se conhece tão pouco o movimento? A razão é simples: entre os Black Blocs não há líderes ou porta-vozes, não puxam protestos ou manifestações com carros de som ou megafones. Ou seja, não há uma verdade objetiva, tão ao gosto da mídia tradicional. Nas poucas vezes que alguém do movimento arriscou-se em dar declarações públicas, sempre agiu por conta e risco. Como entrevistado, de rosto encoberto e voz sob efeito eletrônico, fala por si e jamais pelo grupo.

Não são os Black Blocs protagonistas dos movimentos que tomaram conta das ruas, mas, pelo barulho que fazem e o rastro incendiário que deixam pelo caminho, criam um simulacro de vanguarda que confunde imprensa e opinião pública. E vanguarda, afinal, é tudo o que os movimentos de rua não têm. As manifestações reproduzem na prática as teias de indignação forjadas no ambiente das redes sociais. Há seguidores, mas não há Messias. É a subjetividade que vai tecendo as pautas e a ordem do dia, primeiro em Facebook e Twitter e depois nas ruas.

Os Black Blocs vestem-se de preto e usam máscaras para não serem reconhecidos pelos seus atos. Misturam-se. Confundem-se de maneira solidária. Agrupam-se por afinidade, não são representantes de uma causa, de uma categoria, de uma luta. Não estão conectados internacionalmente por uma bandeira. Em verdade abominam bandeiras, partidos ou sindicatos, mas são uns inconformados com qualquer ranço de opressão do capital, seja no Brasil, na Europa ou nos Estados Unidos. E por isso mesmo misturam-se aos grandes protestos e saem em bandos a pichar prédios públicos, a quebrar e a queimar fachadas de bancos e corporações multinacionais.

Embora sem bandeira, durante as Jornadas de Junho o Black Bloc Brasil divulgou manifesto pelo Facebook esquivando-se da associação do nome do movimento com a baderna gratuita e generalizada. No texto, os Black Blocs afirmam que o movimento não é “deliberada e randomicamente hostil”. São hostis quando é preciso atingir financeiramente o seu principal alvo: multinacionais e bancos, em especial. Os Black Blocs repudiam “infiltrações e tentativas de desmoralização e corrupção de movimentos sociais”. Sobre infiltrados e provocadores, os Black Blocs dizem que coibem na base da conversa e da denúncia. Mas, se necessário, empregam “outras técnicas”.

Repudiam, segundo o genérico manifesto, toda forma de política extremista. Deixam claro que são contra o monopólio de riquezas, a exploração das massas e veículos de comunicação “tendenciosos e mentirosos”. E concluem o documento declarando como seus inimigos quaisquer meios de repressão e opressão, com referência explícita à polícia.

A propósito, mergulhei na leitura de dois livros publicados este ano no calor dos efeitos das manifestações. “Redes de indignação e esperança – movimentos sociais na era da internet” (Zahar, 2013), do sociólogo espanhol Manuel Castells, faz uma análise instigante sobre levantes iniciados em 2010 como a Primavera Árabe, as revoluções na Tunísia, Egito e outros países do Oriente Médio e do norte da África, os Indignados da Espanha e o Occupy nos Estados Unidos. Além de auscultar a voz das ruas com aguçado senso de responsabilidade, Castells faz um estudo profundo das conexões entre movimentos aparentemente dispersos e esboça a relação da massa de jovens como centelhas das redes de comunicação e transformação social.

Em posfácio dedicado às manifestações deste ano no Brasil, Castells põe o dedo na ferida comum em todos os atos de protesto pelo mundo: para os manifestantes, inclusive os Black Blocs, a democracia tem sido sequestrada por profissionais da política. A democracia, segundo ele, foi reduzida a um mercado de votos em eleições realizadas de tempos em tempos, e está fielmente representada por um Congresso grotesco, com burocratas partidários e “chefetes locais corruptos que por vezes resolvem suas diferenças a tiros de pistola”.

Esse movimento sem nome, afirma Castells, surgiu das entranhas de um país perturbado por um modelo de crescimento que ignora a dimensão humana e ecológica do desenvolvimento. E critica os donos do poder que se perpetuam em cargos públicos montados em dois principais sofismas: 1) a escolarização sem uma verdadeira melhoria do ensino não é educação, mas um armazenamento de crianças; 2) a saúde sem investimentos efetivos em médicos e enfermeiros, sem política de prevenção, é um poço sem fundo, “no qual a produtividade se mede pela ocupação de camas de hospitais, contando os enfermos, e não os sadios”.

Mas saúde e educação são bandeiras nas mãos de outros, não do Black Bloc, movimento que se define como horizontal e descentralizado. E por isso mesmo é visto com certa reserva pelos grupos de esquerda, aqueles banidos das ruas com os seus discursos e bandeiras vermelhas. “Cidades rebeldes – passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil” (editora Boitempo/Carta Maior, 2013) é uma coletânea de ensaios assinados por cientistas, professores, antropólogos e jornalistas sobre os movimentos dos últimos meses. Os autores do livro fazem interpretações diferenciadas acerca do mesmo tema, a maioria delas pela ótica acadêmica da luta de classes, e criticam a hostilidade aos partidos políticos.

No livro, o jornalista e professor Leonardo Sakamoto avalia que a classe política foi colocada, apressadamente, no mesmo balaio de expurgo pelos manifestantes, aqui incluídos os Black Blocs. “Dentre esses indignados que foram preparados, ao longo do tempo, pela família, pela escola, pela Igreja e pela mídia para tratarem o mundo de forma conservadora, sem muita reflexão, filhos de pais que viveram o auge do neoliberalismo, tem gente simplesmente com muita raiva de tudo e botando isso para fora. O PSDB tem culpa nisso. O PT tem culpa nisso”. Estão indignados porque querem tirar o comando da gerontocracia que domina a política brasileira.

Segundo Sakamoto, esses jovens estão descontentes, mas não sabem o que querem. Sabem apenas o que não querem. “Por mais agressivos que sejam, boa parte deles está em êxtase, alucinada com a diversão que é estar na rua e com o poder que acreditam ter nas mãos. Mas, ao mesmo tempo, com medo. Pois, cobrados de uma resposta sobre sua insatisfação, no fundo, no fundo, conseguem perceber apenas um grande vazio”.

Os Black Blocs parecem desafiar o medo e a trama. De onde saem, como vivem, do que são capazes, até onde vão? Não se sabe ainda. Não estão interessados em romper ciclos políticos e assumir o comando. Querem fazer soar o seu grito inflamado e, se possível, com ações inflamáveis. Vão continuar anônimos quebrando as vidraças dos bancos e incendiando as passarelas.

Na abertura do Festival de Cinema do Rio, no final de setembro, enquanto atrizes e celebridades desfilavam exuberantes com seus vestidos de grife pelo tapete vermelho da festa, os Black Blocs gritavam pelos becos a palavra de ordem “mulher bonita é mulher que luta”, o que de pronto me remeteu aos tempos de movimento estudantil. Entre 1987 e 1988 editávamos na universidade o jornal alternativo chamado “Tabefe”, um poço das mais variadas reclamações. Para que o nosso pasquim não perdesse a ternura, nos aventurávamos também na poesia. E cada um fazia das suas. Pois foi lá nas páginas do “Tabefe” que o hoje jornalista e professor Ed Wilson Araújo publicou um poema que dizia mais ou menos assim: “Linda/ Cabelos lisos e médios/ Corpo esguio/ Pernas bem feitas/ Gata/ Pena não ser/ Uma guerrilheira”.

Um black bloc precoce.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O Maranhão e a primeira tragédia da família Kennedy

No dia 30 de setembro de 1933, a cidade de São Luís entrou no centro de uma crise diplomática envolvendo o Brasil e os Estados Unidos, e que se arrastou por quase 15 anos. Há exatamente oitenta anos o centro histórico de São Luís foi palco daquela que é considerada por alguns como a primeira tragédia da família Kennedy. José de Ribamar Mendonça, um cidadão comum da cidade, aos 25 anos, matou com dois tiros de revólver calibre 32, marca O.V., o norte-americano John Harold Kennedy, de 31 anos, em pleno sábado ensolarado da Rua da Estrela, no escritório da Ulen Management Company.



Mendonça era bilheteiro dos bondes da Ulen, empresa dos Estados Unidos que explorava, desde 1928, os serviços de água, esgoto, luz, tração e prensagem de algodão em São Luís. John Harold trabalhava como contador da companhia.

Não existe comprovação oficial sobre o grau de parentesco entre John Harold e a família do ex-presidente John Fitzgerald Kennedy. Segundo a Academy of Genealogy, de Nova York, não há registros de parentesco entre os dois. Mas ainda persistem rumores de que John Harold era tio do ex-presidente John Kennedy e do ex-senador Robert Kennedy, que também tiveram mortes trágicas. Tanto o contador da Ulen como o ex-presidente dos EUA nasceram no estado de Massachusetts. Outro indício de parentesco entre a vítima da Ulen e a família Kennedy: o pai de John Fitzgerald Kennedy, Joseph Patrick, era embaixador dos Estados Unidos na Inglaterra.

O que poderia ser apenas mais um crime estampado nas páginas da crônica policial maranhense da época acabou ganhando contornos políticos. O bilheteiro recebera a carta de demissão dias antes de completar dez anos de serviços prestados à Ulen. Acaso chegasse ao ciclo dos dez anos, teria a estabilidade assegurada pela legislação da época. A demissão intempestiva pode ter empurrado o maranhense ao crime. Mas havia outros indícios, segundo relata José Joffily no livro “Morte na Ulen Company” (Record, 1983).

São Luís atravessou a segunda década do século XX com sérios problemas de infraestrutura. De acordo com dados da Associação Comercial do Maranhão, a população da cidade era de aproximadamente 50 mil habitantes. Das oito mil residências existentes, 216 delas contavam com telefone e apenas 1.600 consumiam luz elétrica. O índice de mortalidade infantil em 1924 chegou a 56,3%, segundo pesquisa divulgada no dia 12 de outubro de 1926, no jornal “Pacotilha”. “Nas eleições para Assembleia Nacional Constituinte que se realizariam em 1º de outubro de 1933, quando o Maranhão contava com 1.108.877 habitantes, votaram apenas 12.432 eleitores. O percentual de votantes era, portanto, de 1,12%, inferior ao do Piauí, com 1,40%”, segundo pesquisa de José Joffily.

A chegada da Ulen Company a São Luís, em 1928, representava um alento para a população, que sonhava com melhores dias na prestação de serviços públicos. Os primeiros contatos com a Ulen foram intermediados, seis anos antes, pelo oficial da Marinha José Maria Magalhães de Almeida, genro de Urbano Santos, então governador do Estado. O contrato com a Ulen, empresa de propriedade de Henry Charles Ulen, teria sido uma das condições para que o governo maranhense obtivesse do Bankers Trust Company, de Nova York, um empréstimo de 1.750.000 dólares.

Pouco tempo depois do início do contrato vieram as primeiras reclamações da comunidade contra os serviços da Ulen. As queixas eram decorrentes da arrogância dos administradores da empresa, da baixa remuneração paga à mão de obra local, das altas tarifas dos serviços e, principalmente, das cláusulas draconianas do contrato entre a Ulen e o governo estadual. Quatro dias antes do assassinato de John Harold Kennedy, o jornal “O Globo” publicara a seguinte informação: “(...) O empréstimo (de 1.750.000 dólares) transformou-se num polvo, que exaure todas as energias dos maranhenses, com os rigores de cláusulas leoninas e com a trama de exigências judaicas. Mais de um terço da receita pública desaparece no sorvedouro dos juros e amortizações periódicas. O interventor afirma: - Todas as bocas do Maranhão clamam contra a monstruosidade desses contratos, feitos, aliás, com todas as formalidades legais. Que fazer? Sem dúvida alguma a situação é dificílima”.

Foi nesse conturbado período que ocorreu o assassinato na rua da Estrela. E por essas razões a população deu uma conotação política ao crime, embora Mendonça não tivesse vínculo com qualquer partido, agremiação ou sindicato. Além de inconformado pela demissão fora de tempo, o bilheteiro teria atirado no patrão para se vingar dos “opressores” norte-americanos. O clamor anti-Ulen tomou conta da cidade e Mendonça fora a julgamento como o “herói vingador”.

Preso em flagrante, o bilheteiro confessou o crime e continuou detido na Penitenciária do Estado, no Largo dos Remédios, até a data do primeiro julgamento, em novembro de 1933. O maranhense foi levado a três julgamentos, entre 1933 e 1944.

Episódios etílicos

Mendonça foi ao primeiro júri popular no dia 21 de novembro de 1933, no Tribunal do Júri da antiga Rua Formosa, no Centro de São Luís. Uma multidão foi até o local para assistir à sessão presidida pelo juiz João Mata de Oliveira Roma. De um lado, os advogados de defesa José Nunes Arouche e Waldemar de Sousa Brito. Do outro, o promotor Edson Brandão. Instigado pela acusação de que Mendonça era um contumaz apreciador de cachaça, Waldemar Brito assim reagiu: “Se é para esclarecer e não para confundir, não me fale em alcoolismo. Cada um bebe o que pode. Mr. Kennedy, cujo trágico desaparecimento todos nós lamentamos, iniciava suas libações nos Lunáticos ao cair da tarde do sábado e entrava pela noite até a madrugada da segunda-feira na Pensão Lolita, onde nunca lhe faltou o generoso White Horse vindo diretamente de Nova York. Dali chegavam também pacotes de Lucky Strike que distribuía prodigamente entre fumantes do seu clube preferido”. Ao que foi emendado pelo colega José Arouche: “Se é para rememorar episódios etílicos, qual o motorista desta capital que ignora a carraspana do malogrado contador da Ulen na pensão da Leontina? Quantas vezes foi ele carregado nos braços até o carro?”.

O bilheteiro foi absolvido pelo Conselho de Sentença, por cinco votos contra dois, ante a alegação da defesa de que ele teria agido sob completa perturbação dos sentidos. Mendonça permaneceu preso por mais quatro meses. No dia 2 de abril de 1934, o Superior Tribunal de Justiça do Maranhão anulou o júri popular e marcou novo julgamento para duas semanas depois. No dia 18 de abril, Mendonça foi novamente absolvido pelo Conselho de Sentença, desta vez por ter cometido o crime “para evitar problema maior”.

Com a absolvição, aumentaram os protestos contra a Ulen. O governo dos Estados Unidos interveio no episódio e tentou sem sucesso, baseado em suposto erro judiciário, a extradição de Mendonça. Segundo Joffily, durante 11 anos a questão da Ulen e a absolvição de Mendonça envolveram nove ministros brasileiros e três embaixadores dos Estados Unidos. “Provocaram, pelo menos, 38 ofícios e telegramas para proteção da empresa americana e para garantir a condenação de José de Ribamar Mendonça. O Itamaraty aceitava a alegação dos diplomatas americanos segundo a qual a Justiça brasileira contrariou a prova dos autos”.

Em liberdade, o ex-bilheteiro da Ulen mudou-se em 1935 para o Rio de Janeiro, onde conseguiu emprego na Companhia Atlantic de Petróleo. Nesse período, o governo maranhense fez a primeira revisão de cláusulas do contrato com a empresa americana – que já havia sido suspenso entre 1930 e 1931. Em 1944 Mendonça foi novamente preso e transferido para São Luís, onde se submeteria ao terceiro julgamento. Finalmente absolvido, ele retornou ao Rio no dia 16 de agosto de 1944 para reassumir o emprego na Atlantic. Em dezembro do mesmo ano o irmão de John Harold, Russel F. Kennedy, ainda tentou recurso por meio de carta testemunhável. Oito anos depois Mendonça morreria no local de trabalho após um infarto.

“O crime da Ulen Company abalou as estruturas da sociedade maranhense naquele período”, avalia o historiador e desembargador Mílson Coutinho. Segundo ele, o assassinato entrou para a história dos grandes episódios da crônica forense no Maranhão, a exemplo do Caso Pontes Visgueiro e do Crime da Baronesa.

O crime na rua da Estrela, embora não tenha despertado na época o interesse da chamada grande imprensa no Brasil, foi assunto de primeira página no “The New York Times”, no “Evening Gazette” e no “Boston Evening Transcript”.

No dia 15 de julho de 1946, o governo maranhense assinou decreto cancelando o contrato com a Ulen Management Company. Atualmente, os serviços de energia em São Luís são explorados pela Cemar, empresa privada cujo controle acionário (84,7%) é do grupo norte-americano PPL - Pensilvânia Power Light, que tem sede em Allentown (EUA).

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

No cinema com Juliette



Fui ao cinema no sábado me reencontrar com Juliette na sessão das seis. Sempre uma emoção forte, um misto de encantamento e compaixão. A expressão de Juliette - o olhar profundo, algumas vezes languidamente perdido no horizonte – me seduz e espanta. De gestos brandos, voluptuosos, Juliette esboça uma sensualidade que se confunde com amargura envelhecida em barris de esperança. Tem sido assim ao longo dos anos.

Mais uma vez eu estava ali para o nosso encontro no escuro da sala cheia. Não um encontro fortuito, mas um encontro anunciado, com testemunhas de diferentes gerações: a adolescente com os dedos enfiados no iPhone, um jovem casal de calo nos lábios de tantos beijos, a professora solteira e quarentona falando alto em Lacan e Jung, a madame com casaco de pele e seu barulhento saco de pipocas, idosos de bengala etc.

Juliette não é mais a mesma. A pele alva, os cabelos negros embora tingidos pelos cosméticos já levemente esbranquiçados, as mãos delicadas e ternas, tudo aquilo me fazia crer estar afinal mais uma vez com ela. Mas Juliette não é a mesma. Eu não sou mais o mesmo. Juliette havia crescido e aparecido depois daquele ligeiro e movediço encontro de 1986, em que pela primeira vez a vi interpretando Julieta de Godard em “Je vous salue, Marie”. Agora eu estava de frente para uma Juliette madura, mais vivida que vívida, de poucas palavras, inconformada com o infortúnio da solidão e da demência, sem a família e os amigos, desconfiada e com mania de perseguição. Era essa a Juliette Binoche de sábado, que me fez novamente confundi-la com seus personagens intangíveis, no papel de uma mulher de vida intensa, tumultuada.

Em “Camille Claudel 1915”, de Bruno Dumont, Juliette Binoche vive a escultora francesa que foi aluna e amante de Auguste Rodin. Diferentemente da produção “Camille Claudel”, dirigida por Bruno Nuytten em 1988 e que tem Isabelli Adjani no papel principal contracenando com Gérard Depardieu, o filme de Dumont é mais severo com a plateia porque não passeia pela biografia da escultora. Faz apenas o recorte de um período da passagem de Camille pelo manicômio de Montdevergues, no sul da França. Quem não conhece a história de Camille Claudel – sobretudo a sua conflituosa relação sentimental e profissional com Rodin, fato que desencadeou os surtos de esquizofrenia - certamente passará a hora e meia no cinema enfiado no iPhone como a adolescente ou cochilando aqui e ali como a madame e seu casaco de pele.

“Camille Claudel 1915” é um filme silencioso, arrastado pela corrente cotidiana de um asilo, pelas dores, o gemido e o sussurro de doentes mentais de verdade, por onde transita o personagem de Juliette Binoche. Louca, sã, vítima de Rodin, desprezada, injustiçada? Quem é Camille Claudel? O filme de pouquíssimos diálogos – não tem mais que meia hora de fala - limita-se a expor a crua monotonia do hospício e o dia a dia de uma paciente visivelmente entediada com aquele universo, privada de exercer a sua arte, que vive à espera suplicante do irmão, o respeitado poeta francês Paul Claudel.

Juliette Binoche não é mais aquela menina dos primeiros encontros, das paixões arrebatadoras de “A insustentável leveza do ser”, “Os amantes da Ponte Neuf” e “Perdas e danos”; do labirinto cromático de Kieslowski em “A liberdade é azul”, “A igualdade é branca” e “A fraternidade é vermelha”; e dos inspirados “O paciente inglês” e “Chocolate”. Foi a atriz mais presente nos filmes da minha primeira juventude, essa fagulha que teima em permanecer acesa em mim. O tempo passou e Juliette é hoje uma jovem senhora com os mesmos traços de beleza e o mesmo talento cênico.

O tempo passou para Juliette como passou para Nastassja Kinski, Isabelle Adjani e Victoria Abril, mulheres com quem também me encontrei muitas vezes no cinema e a elas fui apresentado por gente descompensada como Polanski e Almodovar. Para mulheres assim o tempo é o que menos importa. Elas continuarão passando.

“Camille Claudel 1915” é frio como uma correnteza de inverno denso, eficiente no propósito de nadar contra as convenções. É provocador sem panfleto e necessário, apesar da imensa carga de melancolia jogada sobre os ombros de Juliette. Improvável deixar a sala sem se sentir arrastado como o filme.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O paraíso sitiado dos índios invisíveis


Foto: Sebastião Salgado

Não fui o primeiro jornalista a conviver durante um certo tempo com os índios Awá Guajá. Antes de mim lá estiveram outros que provaram do mesmo arrebatamento. Como eu, deixaram suas escrituras em folhas de jornal. E não importa quem chegou primeiro, quem virá depois para contar. Importa o tamanho da emoção de conhecer um povo tão mais brasileiro, tão mais índio dentre os índios de que se tem notícia na história mais recente do País. Conheci os Awá Guajá numa primeira viagem em setembro de 1995 e ainda hoje me desassossego com qualquer fato que os exponha no noticiário, porque, a rigor, estão em permanente ameaça de extinção. E pelos mesmos motivos que os vi vulneráveis há 18 anos.

Por meio do amigo Heider Moraes, recebi a informação de que o jornal “O Globo” publicara, nas edições de ontem e hoje, ampla reportagem sobre esses índios que vivem nas matas do Maranhão há quase 200 anos. O texto bem pontuado de Miriam Leitão bate nos mesmos pontos: a ação criminosa de madeireiros, grileiros e outros aproveitadores põe em risco a sobrevivência de um povo sem armas, que desconhece a guerra e a agricultura e que vive primitivamente da pesca e da coleta.

Sobre o texto não há novidades – nada que as autoridades já não saibam sobre invasões de terra e assalto à luz do dia sobre as nossas florestas. Acontece que Miriam Leitão foi convidada pelo talentoso fotógrafo Sebastião Salgado para acompanhá-lo nessa viagem de encontro aos Awá Guajá. E, claro, o que era pra ser apenas um texto sem sal, de uma jornalista moldada para cobrir as áridas pautas de economia, transforma-se numa obra de arte ilustrada por imagens do maior fotógrafo do mundo.

Em vídeo gravado para o site de “O Globo”, Miriam Leitão confessa que ninguém retorna de uma viagem como aquela impunemente. Veja alguns trechos do depoimento da repórter:

“Sempre achei que ser jornalista era um privilégio. Como jornalista, você consegue viver coisas impressionantes. É uma profissão tão intensa, tão cheia de surpresas... Mas a melhor coisas do jornalismo é a reportagem, é você sair, viver uma história, entender uma história e contar essa história. Só que um privilégio maior ainda é quando você recebe um telefonema de Sebastião Salgado com o convite para ir a uma tribo e passar alguns dias convivendo com os índios”.

“É muito difícil contar o que foi essa experiência, mas é como se eu tivesse aberto uma janela para o mundo que eu não conhecia, uma parte do Brasil que eu ainda não tinha visto, que vi e que me emocionou”.

É quase isso e mais alguma coisa. Uma experiência que não se apaga. Essa janela nunca mais se fecha e por isso mesmo o desassossego vira uma tocaia. Sou mais um jornalista sitiado pelo tema.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Vem pra Lua (o manifesto)



Vem pra Lua que domingo ela flutua alta, cheia, clara, quase nua estirada sobre o Atlântico, debruçada na baía.

Vem pra Lua que domingo ela brilha diferente e cobre a noite de poesia, cada estrela em volta é um vagalume iluminando a rua. Oh, imponente mãe, irmã e tia da razão e da euforia.

Vem pra Lua que domingo ela prateia a Terra com seu facho, faiscante e atrevida, como uma manifestante na avenida gritando que o buraco é mais embaixo.

Vem pra Lua que domingo ela se revolta com a bala de borracha e a pimenta, o azul do dia e o magenta, o céu nublado e o preço da polenta.

Vem que a Lua não é só dos namorados. Vem que a Lua não é do dragão. É de quem ama e protesta. É dos que cantam em voz alta e fazem a festa.

Só os loucos atiram pedras na Lua, esses podem. Porque a Lua mexe, a maré sobe e o juízo desce.

Vem correndo que a Lua não é lugar de vândalo, partido ou globocop. Vem que a Lua tem audiência mas não dá ibope.

Vem pra Lua, a maior de todas, e ouve os cães ganindo pelos becos, o mar de ressaca e o Brasil mais intenso ocupando a praça. Vem logo porque ela é rara.

Vem pra Lua e grite alto por um bilhete único no ônibus espacial, pelo passe livre em discos voadores, contra o aumento da tarifa no táxi lunar. Não é pelos 20 centavos. É pelos 20 anos que outra Lua assim vai demorar.

Chega de arquibancada, é hora de entrar em campo pra vencer. Sem patrão, sem Fifa. Fora o cartola! Viva a cartolina!

Chega de ficar em casa deitado no conforto do quarto minguante. Vem pra Lua Cheia. Vem!

domingo, 16 de junho de 2013

O poeta que roubava a cena



Há mais de 12 semanas na lista dos mais vendidos da revista “Veja” com o livro “Toda poesia” (Companhia das Letras, 2013), o poeta Paulo Leminski, acostumado da janela a atirar flechas no calcanhar dos passantes, virou nos últimos anos o autor preferido nas citações das redes sociais. Numa combinação rara de humor, fina ironia, amargura sem culpa e uma boa dose de inventividade, o autor de “Caprichos & relaxos” (editora Brasiliense, 1983) deixou pelo caminho um rastro de inquietação que, outrora perdido em meia dúzia de livros nas mãos de uns gatos pingados, hoje se acha com facilidade no vasto mundo da internet. “Não discuto com o destino/ O que pintar eu assino”. Assim o curitibano, morto aos 44 anos, segue pelas redes “assinando” o que deve e, mais ainda, o que não deve – há ruído em excesso atribuído equivocadamente a ele, entre mensagens de autoajuda, frases evangélicas e versos piegas.

“Toda poesia” pode servir de bússola para o redescobrimento da obra poética de Leminski. Com apresentação de Alice Ruiz, a companheira de quase todas as viagens do poeta, o livro não tem a cereja insípida de um best-seller estrangeiro, mas leva na capa o confeite de uma grande editora, com tiragem expressiva e distribuição profissional. Turbinado pelo sucesso que o autor experimenta nas redes sociais, o livro tem a cara dessa geração que pela internet compartilha do espirro ao luto: é leve, ligeiro, pode ter a leitura iniciada por qualquer página e os mais de 600 poemas seguramente resistem ao tempo pela originalidade, irreverência e, em alguns casos, pelo lirismo. Sem cerimônia, a poesia embalada de Leminski desbancou nas livrarias o fenômeno de vendas “Cinquenta tons de cinzas” e suas derivações.



Não obstante os “pangarés tentando correr na primeira raia”, Paulo Leminski optaria por uma antologia mais discreta, avessa ao ranking das vendas. Fleumático, preferiria chegar em seu corcel negro sem ser notado. Mas da catacumba o poeta deu um salto pop e se aboletou na exígua sala de estar das celebridades, numa espécie de dança dos famosos da literatura. O polaco black meio zen, meio-a-meio, está despido em “Toda poesia”, uma babel distraída infestada de lampejos, de drops e do quase haikai que ele traficava livremente para o Brasil. Desfilam pelas páginas do livro a forma direta, às vezes o coloquial, o trocadilho, aquela percepção enxuta e desencanada do cotidiano. Com seus motins ensaiados, o poeta se enfeita e ao mesmo tempo se enquadra:

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada

depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg

por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores


Paulo Leminski Filho foi um gerador de polêmicas, um poeta com legado insuspeito, nascido a 24 de agosto de 1945, naqueles tempos de estilhaços de final de guerra. Ensaiou os primeiros passos nas letras como professor de redação e história nos cursinhos da capital paranaense. Dava aulas e submergia na leitura. Mas foi na publicidade que se encontrou de vez com a poesia em estado de ebulição. Fez bicos em agências, transformou o teaser da propaganda no ganha-pão do poema e foi se erguendo aos trocos & barrocos. Do flerte com o oriente surgiu o samurai sem mestre que alcançou a faixa preta no judô.


Leminski e Alice Ruiz

A revista “Invenção”, esteio do movimento concretista dos irmãos Campos e de Décio Pignatari, foi o berço literário de Leminski. De lá saíram seus primeiros suspiros. Embora convivesse afetiva e profissionalmente com a célula tronco da poesia concreta, Leminski esboçava um DNA mais libertino, não carregava em tempo integral o rigor e a forma do concretismo. Pegou o bonde andando da “Invenção” e talvez por isso tenha sido fisgado por uma poesia mais sonora e visual, escrachada, nua em pelo. Como um transeunte urbano, pegou carona no modernismo remanescente de Oswald de Andrade, desembarcou na deselegância concreta de Sampa e bebeu no gargalo o vinho da poesia marginal mimeografada dos anos 1970. Em “Toda poesia”, a individualidade é o eixo da trama poética, do ponto de partida à bandeira de chegada.

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas


Com um rio vermelho inflamável correndo nas veias, Paulo Leminski foi um múltiplo tonitruante que guardou a mansidão dos tempos de seminarista adolescente no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, onde se aproximou do latim. Leu em inglês, francês, grego, japonês e mais alguma coisa. Leu Maiakoviski em russo. Traduziu Joyce, Fante, Mishima e Lennon. E escreveu as biografias de Cruz e Souza, Bashô, Leon Trótski e Jesus Cristo.

“Catatau” foi o romance experimental que em 1975 lançou o autor na fogueira das evidências. O livro distingue, na opinião do poeta baiano Antônio Risério, o ponto mais alto e denso do poder leminskiano de criação textual. Em prosa cometeu também “Agora é que são elas”, “Guerra dentro da gente” e outros ensaios. Em 2001, foi biografado em “Paulo Leminski, o bandido que sabia latim” (editora Record), livro do jornalista Toninho Vaz, amigo e colega de profissão.

“Toda poesia” reúne poemas dos livros “Quarenta clics em Curitiba”, “Caprichos & relaxos”, “Distraídos venceremos”, os póstumos “La vie en close” (1991), “O ex-estranho” (1996) e “Winterverno” (2001) e alguns trabalhos esparsos publicados em livros independentes lançados pelo autor antes da estreia em selo nacional (editora Brasiliense) em 1983.

Ora era exigente, talhado no capricho: “Um poema/que não se entende/ é digno de nota/ a dignidade suprema/ de um navio/ perdendo a rota”. Ora era lambada, relaxo descabelado: “Esta vida é uma viagem/ Pena eu estar/ Só de passagem”. Leminski não levava o país a sério. “O Brasil, para mim, é uma abstração jurídica com a qual nada tenho a ver. Gostaria de pertencer a uma nação onde eu pudesse ser patriota”. Considerava a poesia de Ferreira Gullar e Afonso Romano de Sant’Anna retórica, discursiva, média e baseada em lugares-comuns. Nem mesmo Gabriel Garcia Márquez escapava da língua afiada do poeta. Jorge Amado era apenas um redator que “desovava uma besteira, um best-seller todo ano”.


Leminski entre Caetano Veloso e Moraes Moreira

Tinha uma relação de dependência quase física com a música. Letrista bissexto, cultivava amizade com compositores estrelados da MPB. Com Caetano Veloso escreveu “Verdura”, música do disco “Outras palavras” (1981). São dele também as letras de “Xixi nas estrelas”, com Guilherme Arantes, “Mudança de estação”, com A Cor do Som, “Se houver céu”, com Paulinho Boca de Cantor, “Promessas demais”, parceria com Moraes Moreira gravada por Ney Matogrosso, e “Dor elegante”, com Itamar Assumpção, depois gravada por Zélia Duncan, entre outras músicas.

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, edens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra


Paulo Leminski evitava o caminho da poesia engajada e acreditava muito pouco em qualquer possibilidade de vanguarda, em porta-bandeira de causas aflitivas ou opositivas. Por ele, era cada um na sua. Poesia - assim como a roupa que se veste, a comida e o itinerário - não se tira de uma teta nem é pra ser feita com compromisso como quem tem hora marcada no consultório ou numa passeata. Não pode ser datada. “O escritor não tem tempo. Escrevo para ser lido por Ramsés II ou por algum biônico que vai nascer daqui a 1200 anos”. Havia um toque de que “a ideologia de um verso socialista não era o bastante para botar sal numa sopa para dois”, lembrado pelo poeta e jornalista Rodrigo Garcia Lopes.

“Toda poesia” é esse eficiente veneno antimonotonia de cabeceira, pra se consumir sem moderação. O livro é a gota d’água que faz chover no piquenique das conveniências, que mata a sede no deserto de qualquer estante, das livrarias abarrotadas de souvenir. Expõe um Leminski completo na poesia impressa e na vida e na alma impregnadas em cada verso. Na obra se percebe claramente que Leminski “não usava métrica, mas uísque” em seu labor intelectual.

O poeta era considerado uma espécie de malandro cosmopolita, um kamikaze inspirado nos devaneios etílicos que gostava de rock e venerava a geração beat. Viveu intensamente o underground da sua aldeia natal e pôs os pés no mundo. “Os Titãs são o que restou do rock, suas letras são o que restou de um país falido, um vice-país vice-governado, vice-feliz, vice-versa”. Foi num show da banda paulista sua última aparição em público.

A cirrose foi o inevitável corta-luz de um rito de passagem desregrado, extremado, “a vida por um fio, Leminski por um fígado”. Sete de junho de 1989: “Poeta com poesia se mata”. Dizia que a beleza era didática, que sem ela o artista estava morto. Paulo Leminski, como no poema de Emily Dickinson, morreu por beleza. Pela beleza de sua poesia, “toda poesia”.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Sem botão, no tempo, no topo, no chão (parte 3)


Papete na foto da contracapa do LP "Bandeira de Aço"

Em boa hora, o projeto BR 135, capitaneado por Alê Muniz e Luciana Simões, presta uma merecida homenagem aos 35 anos do lendário LP “Bandeira de Aço”, uma coletânea de músicas de compositores maranhenses gravada por Papete em 1978. Em show marcado para hoje no Teatro Arthur Azevedo, o BR 135 faz uma releitura do repertório e do arranjo do disco, com interpretações de Bruno Batista, Madian, Flávia Bittencourt, Dicy e Afrôs, além da dupla Criolina. O show é também uma celebração a Papete e aos autores das nove faixas do LP.

“Bandeira de Aço” foi um desses ventos buliçosos soprados na música popular brasileira na década de 1970 com o surgimento do selo independente Discos Marcus Pereira. São nove músicas no disco: “Boi da Lua”, “Flor do mal” e “Bandeira de Aço”, de César Teixeira; “Catirina”, “Dente de ouro”, “Engenho de flores” e “De Cajari pra Capital”, de Josias Sobrinho; “Boi de Catirina”, de Ronaldo Mota; e “Eulália”, de Sérgio Habibe. Gravado no estúdio Sonima, em São Paulo, com a participação dos músicos Carlão (viola de 12 cordas), Otacílio (contrabaixo), Sérgio Mineiro e Márcio Werneck (flauta), o disco fora produzido pelo próprio Papete (violão, percussão, voz e arranjo).

Criado extraoficialmente em 1967 pelo publicitário Marcus Pereira, o selo foi um divisor de águas na divulgação da música brasileira de qualidade, estranha ao circuito comercial das grandes gravadoras. Foram mais de 140 álbuns lançados em quase 15 anos de pesquisa e identificação de autores e gêneros inéditos ou relegados ao esquecimento, entre eles Paulo Vanzolini, Banda de Pífanos de Caruaru, Quinteto Violado, Renato Teixeira, Nara Leão, Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara. Foi pelo selo Marcus Pereira que Cartola gravou o seu primeiro disco, aos 66 anos.

Três anos antes de “Bandeira de Aço”, Papete já havia lançado pela Marcus Pereira o LP “Berimbau e percussão”, com oito faixas de autoria do próprio Papete, Théo de Barros e Manoel Onça. “Quando começamos a discutir o seu segundo disco [“Bandeira de Aço”], logo ficou claro que o melhor caminho seria mostrar ao Brasil aquela enorme riqueza escondida de São Luís do Maranhão. Ela aqui está, revelada pelo talento ímpar de Papete”, escreveu Marcus Pereira na contracapa do LP.

Na apresentação de “Bandeira de Aço”, Marcus Pereira conta que, numa viagem a São Luís para aproveitar as festas do final do ano de 1976, fora convidado por compositores locais para uma “reunião boêmia” no bairro da Madre Deus. E confessa que assistiu, perplexo, ao desfile de “composições surpreendentes” de Carlos César (o César Teixeira), Josias, Ronaldo e Sérgio Habibe. Outro maranhense, porém, já era velho conhecido de Marcus Pereira. Naquele mesmo ano de 1978 Chico Maranhão lançara também pelo selo Marcus Pereira o LP “Lances de agora”, com “Pastorinha”, “Ponto de fuga”, “Velho amigo poeta”, “Ponta d’Areia”, entre outras pérolas. No LP também estava a faixa “Cirano”, que já havia sido gravada em outro disco do selo Marcos Pereira, de Chico Maranhão e Renato Teixeira, de 1969. Sobre “Lances de agora”, Marcus Pereira fora categórico: “Merece um seminário para debate e penitência”.

Em meio aos problemas pessoais e de ordem profissional, Marcus Pereira acabou se suicidando em 1981. A Discos Marcus Pereira foi absorvida pela Copacabana Discos, que também fechou as portas na década de 1980. Todo o acervo da Marcus Pereira então foi comprado pela EMI e atualmente está sob a posse da Microservice, incluindo os discos de Papete e Chico Maranhão.

Em depoimento ao jornal “O Estado do Maranhão” de 1985, reproduzido no livro “Almanaque Guarnicê” (Clara Editora e Edições Guarnicê, 2003), Papete conta que o projeto, em 1978, era fazer mais um disco autoral de percussão. “Mas mudei de ideia para registrar o trabalho desse pessoal”.

Alguns anos depois de lançado, e contrariando os preceitos da jornada quase espartana de Marcus Pereira, “Bandeira de aço” gerou uma crise entre intérprete e compositores. O pomo da discórdia: a participação dos autores na venda do disco. Papete tomou conhecimento pelos jornais de que Josias Sobrinho e César Teixeira cobravam dele e do espólio de Marcus Pereira direitos autorais sobre as músicas do LP.

- Foi um disco que não vendeu nada. Ele pode ter tocado muito aqui (no Maranhão), mas se vendeu cinco mil cópias isso não representa nada. A Marcus Pereira, antes de ser uma gravadora, era uma fundação. Ela não tinha fins lucrativos, nunca gravou discos para vender, para ter lucro. Ela sempre gravou com o intuito de valorizar a cultura popular. Eles não entenderam isso. Acharam que deveriam receber grana pelo disco e não aceitaram as minhas explicações – disse Papete ao Guarnicê.

Ante o ziguezague que encobriu o acervo do selo Marcus Pereira, as diferenças entre Papete e os compositores se dissiparam com o tempo. O LP “Bandeira de Aço” é reconhecido como uma das melhores e mais importantes produções de música regional do Brasil e faz um recorte inteligente e original da cultura popular maranhense da segunda metade do século 20. O disco, depois lançado em CD pela EMI com tiragem limitada, faz parte da história. “Este disco é uma surpresa. Como certamente serão os que forem gravados com compositores fiéis aos valores das regiões em que vivem”, declarou Marcus Pereira, que tinha Papete na conta de um “irmão, afilhado e amigo”.

domingo, 26 de maio de 2013

Churrascaria no domingo

Ir à churrascaria no domingo é um desafio do primeiro ao último ato do programa. Sofro por antecipação, perco a fome antes mesmo de sair de casa, como que tomado por um bloqueio psicológico. Ainda assim me rendo ao convite da turminha aqui de casa que se realiza num prato de picanha. Não todo domingo, claro, mas pelo menos a cada aparição do cometa Halley eu assumo esse compromisso com a criançada na boa.

Churrascaria é meio um estádio de futebol, aqueles marmanjos vestidos com suas camisas do time preferido, fila pra entrar e gente falando alto. Com uma diferença: no estádio se come de maneira mais civilizada. Repare que o freguês contumaz de churrascaria vai a um rodízio como quem vai a um jogo e torce sem cerimônia contra o dono da casa. Sente prazer em comer demasiadamente, mesmo sem vontade, só pra ver o adversário derrotado, no prejuízo. E, qual um torcedor que deixa o estádio aos gritos de felicidade pela vitória do time, o freguês sai do almoço arrotando, contando vantagem para os amigos. Com o detalhe de que torcedores raramente externam sua barbárie.

Na churrascaria o tormento começa mesmo na mesa. Almoço, a rigor, é um ritual de bocas fechadas em processo de mastigação do alimento, demorado, pontuado aqui e ali por conversas sutis. No rodízio, você olha em volta e a impressão que se tem é a de que a clientela toda acabou de voltar da seca de 1930. O garotinho ao lado com um imenso pedaço de carne na boca e uma coxa de frango no garfo não disfarça o apetite e ainda zomba da irmã que não o acompanha na corrida contra o tempo. Sim, em churrascaria comer rápido é uma questão de método. Parece que que aqueles espetos todos vão desaparecer em minutos e que, portanto, não basta somente comer todas as carnes, é preciso devorá-las antes do apagão.

Voltando ao garotinho, já quase sem fôlego e empapuçado de tanta carne e gordura, por orientação da mãe ele faz uma trégua relâmpago na guerra que trava com a comida para entornar meio litro de Coca-Cola. O resultado é imediato e, refeito da quase congestão diante da família, ele empunha novamente os talheres e grita pelo garçom, que lhe empurra mais meio quilo de maminha no prato.

Fico embrulhado com o que vejo, mas não me entrego, afinal o nosso cometa Halley só vai passar de novo daqui a uns dois ou três meses. Com os garçons cruzando espetos gigantes sobre os meus ombros, aquela carne escorrendo sangue como se o boi acabasse de ser abatido ali no estacionamento da churrascaria, tento me esquivar como posso de um talho de faca nas costas ou no rosto. A salmoura descendo pelo canto da boca da madame que acabou de sentar na mesa da frente me devolve a náusea, porém resisto bravamente canalizando a energia que me resta para apreciar a desenvoltura do garotinho glutão.

As carnes de churrascaria são tantas e de tantos nomes que me perturbo na escolha. Vou no trivial para não arriscar entre o gato e a lebre. “O senhor aceita o javali?”. Olho desconfiado pro bicho e, pela aparência, percebo que a oferta está bem maior que a procura. “Prove, o senhor vai gostar”, insiste o garçom. “Não, obrigado”. O dócil javali fica pra uma outra partida. Saio com aquela sensação de quem está sendo observado pela clientela veterana da churrascaria, que me põe na conta de um torcedor cujo time, freguês por excelência, perdeu mais uma vez, e de goleada, para o dono da casa.

domingo, 19 de maio de 2013

De susto, de bala ou vício (parte 2)

Ou eu não entendo bem o que diz o secretário estadual de segurança do Maranhão ou ele consegue tropeçar nas palavras toda vez que tenta explicar a profusão de crimes no estado. Há poucos dias disse ele na imprensa que o ambiente de insegurança vivido no Maranhão é artificial. Hoje, em entrevista ao jornal “O Estado do Maranhão”, ele afirma com todas as letras que o “alto índice de homicídios não mostra a realidade”. Como assim “não mostra a realidade”? Muitas pessoas morrendo todos os dias não são parâmetro então para o modelo de segurança do secretário? Essa violência aterradora que mata, assalta, sequestra... não é parâmetro? Segundo ele, as estatísticas do crime hoje estão todas associadas à disputa de grupos de traficantes de drogas em São Luís. Será? Bom, e se for de fato? Isso muda o quadro? A violência é menor porque se restringe a uma gincana marginal?

Eu respondo com trechos da crônica do talentoso artista plástico Jesus Santos, na mesma edição de hoje do jornal “O Estado”:

“Ouço pelos quatro cantos o depoimento das pessoas que confessam ter medo”.

“A conversa na cidade é sobre o medo, o pânico, a insegurança”.

Nada tenho nada contra o secretário de segurança. Acredito que ele tenha boa vontade e empenho para resolver o problema da criminalidade, que parece bem maior do que aquele que Jesus Santos pinta em sua crônica. Torço para que o secretário acerte, e rápido, sem precisar tapar o sol com a peneira. As famílias que aqui vivem agradecerão penhoradamente.

O triunfo do cisne

Certa vez, em pleno palco, um bailarino russo torceu o calcanhar num desses rodopios de balé e foi parar no hospital. Ao examinar o raio X, o médico constatou que a estrutura anatômica do pé do bailarino era semelhante ao sistema ósseo de um pássaro. O médico, meio assombrado, disse que não se admiraria se um dia o bailarino viesse a voar. O bailarino russo era Vaslav Nijinsky, um dos principais nomes da história da dança, polêmico, de personalidade ambígua, alma atormentado, gênio e esquizofrênico. Nas suas inúmeras apresentações pelo mundo, no auge da sua forma física, fez do balé o seu voo nupcial, o seu casamento com o palco, a sua conexão com Deus, ele considerado o próprio “deus de sapatilhas”.

Assim como Nijinsky, bailarinos como Diaghilev, Anna Pavlova, Nureyev e Baryshnikov revolucionaram a dança com seus passos mágicos e fizeram do balé uma arte quase divina. Na segunda-feira 13, São Luís anoiteceu com uma espécie de revoada russa sobre o palco do Teatro Arthur Azevedo para festejar antecipadamente o aniversário de 65 anos do cronista Pergentino Holanda. Em cena, o Balé Nacional da Rússia apresentando “O Lago dos Cisnes” para uma plateia de convidados ilustres do aniversariante.

O Balé Nacional da Rússia, ao lado do Bolshoi, é uma das principais escolas de talento da dança internacional e por isso mesmo deixou o público maranhense de queixo caído durante cerca de duas horas e meia de apresentação. São Luís nunca viu nada igual nessa combinação de coreografia, iluminação, figurino e música. Jamais uma plateia se demorou por tanto tempo, perplexa e aparentemente extasiada no silêncio, diante da técnica e dos saltos de 40 bailarinos que pareciam desafiar a lei da gravidade com seus passos alados.

Não é preciso ser um conhecedor profundo ou frequentador assíduo dos grandes espetáculos de balé – e, por razões óbvias, o público maranhense não o é – para se encantar com a apresentação da companhia russa. Porque os bailarinos prendem a atenção do começo ao fim pelo movimento intenso, são viçosos na criatividade. E também porque “O Lago dos Cisnes”, do compositor russo Tchaikovsky, entrou para a história pelo clássico enredo que envolve sedução, magia e amor trágico em torno do príncipe Siegfried e da princesa Odette. Não é simplesmente um balé, mas uma obra de arte secular que cativa, sem fronteiras, o mais bárbaro dos homens. Originalmente dividido em quatro atos, “O Lago dos Cisnes” foi apresentado em São Luís em dois atos, os dois primeiros e os dois últimos mesclados no mesmo bloco, identificados somente pelo rápido fechamento e abertura da cortina.

E como não se deixar prender também pela música de Tchaikovsky, arrebatadora e envolvente, cheia de mistérios e evoluções que enfeixam com estupenda precisão o balé dramático dos cisnes? Mesmo sem uma orquestra de câmara a ditar pelas cordas do violino o compasso dos dissabores vividos por Siegfried e Odette, o som direto do teatro faz acompanhar os altos e baixos de um coração em escala. Nenhuma alma embrutecida haverá de resistir ao cortante “Cisne Negro” ou ao sopro de felicidade em “Swan Lake 38 no 21 danse espagnole”.

Um evento no teatro que une a Companhia do Balé Nacional da Rússia com seus dançarinos meticulosos e voadores, “O Lago dos Cisnes” e o gênio musical de Tchaikovsky não é uma comemoração de aniversário, mas uma celebração engenhosa, com a assinatura de quem aprendeu a se surpreender. Falei com PH por algumas vezes nos dias que antecederam o espetáculo, e o vi aflito como se aquele fosse o seu evento de estreia. Um esmero desmedido, uma atenção especial aos detalhes, ao refinamento para receber o lendário balé e o seu séquito de convidados.

Para alguns poucos, a apresentação do “Lago dos Cisnes” no Teatro Arthur Azevedo pode até ter parecido uma história longa e delirante, sem diálogo, exaustiva. Mas não para os amigos do PH, como Ceres Murad, que não titubeou ao dizer a ele, no foyer do teatro, que por aquela casa nunca havia passado um espetáculo tão virtuoso. “O maior e melhor de todos”, deixou escapar Ceres, conhecedora sagaz da arte pelo mundo. PH comemorava não só o aniversário, mas a sua volta ao Teatro Arthur Azevedo, do qual foi diretor no final da década de 1970 e de onde foi vitimado pela intolerância míope do maniqueísmo forjado durante o regime militar. Naquela noite se deu o triunfo do cisne, que hoje comemora de fato os seus 65 anos. Parabéns, Pergentino.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Sem botão, no tempo, no topo, no chão (parte 2)


O alquimista Fabão: tempero musical eclético

O contato entre a agulha e o vinil, ali sem fechadura eletrônica, cria a sensação de liberdade plena do som, um acasalamento de tamanha intimidade capaz de espicaçar a imaginação de voyeurs e castos. Mesmo no volume zero da vitrola é possível sentir a música em vibração. Ouvir LPs é redescobrir o movimento que o CD camufla ao girar acelerado demais na bandeja, é dar voltas no tempo. Só o vinil tem o lado B. E é o lado B da música que tem me empurrado para os bolachões mais improváveis.

Nessa recente cruzada analógica, sem muito esforço acabei virando alvo de boas doações. A mais emblemática delas veio do publicitário Fábio Gomes, o amigo Fabão. Convidado há pouco mais de uma semana por Adriana para um jantar, Fabão soube por ela da minha vitrola nova e chegou à nossa casa com um discreto envelope em papel de presente. Dentro havia o LP “Frutificar”, título lançado pela banda A Cor do Som em 1979. Agradeci pela lembrança e pus logo a tocar “Abri a porta”, “Beleza pura”, “Swingue menina” e outros sucessos do disco, enquanto falávamos sobre a onda retrô que volta e meia toma de assalto a cultura pop. De gosto apurado e sensibilidade extravagante, Fabão é maranhense do Olho d’Água, mas virou um desses mundanos do Morumbi e da Vila Madalena, depois de intercâmbios nos Estados Unidos, quatro anos gazeando aula de Economia em Genebra para se fartar de literatura nos arredores da Suiça e uma temporada de invenções publicitárias em Curitiba.

Ao perceber que a minha alegria com o LP não se desmanchava na evolução da conversa, Fabão disse então que o disco da Cor do Som era apenas parte do presente. E me surpreendeu ao sacar da mala do carro duas caixas enormes abarrotadas de LPs. Eram quinhentos discos, todos extremamente conservados em sacos plásticos especiais, catalogados um a um, separados por categoria musical. A vinilteca que ele levou anos para montar e cuidar agora era toda minha. A reação inicial foi um misto de alegria e receio. Receio da responsabilidade de levar adiante uma jornada com o mesmo requinte de zelo, o mesmo apego. Será que eu conseguiria? Como poderia recusar aquilo que de certa forma eu buscava no varejo, e que naquele momento caía no meu colo no atacado?

Fabão não me deixou escolha. Agora os LPs eram meus. Só me fez algumas recomendações: se um dia eu decidisse me desfazer dos discos, que fosse do acervo completo, de uma vez, e não a retalho; e que só passasse adiante para alguém com o mesmo compromisso de conservação e afeto. Fiz um juramento no improviso, topei o desafio e, daquele jantar em diante, me transformei no mais fiel depositário de uma obra heterogênea e abundantemente valiosa.

Mas o que há de tão especial nesse acervo, afinal, que requer tanta cerimônia? Os títulos são variados e, pelo volume, não daria para nomeá-los todos neste texto. Mas faço um exercício rápido advertindo que entre os LPs não há um melhor que o outro. Cada disco tem a sua história. Reflete a realidade do momento em que foi gravado. Não há uma ordem de importância. “Berra-boi”, por exemplo, é um álbum do Quinteto Violado datado de 1973, ou seja, um disco de 40 anos que parece ter sido gravado ontem, tanta é a agudeza poética e melódica em faixas como “Beira de estrada”, “De uma noite de festa”, “Minha ciranda” e “Cavalo marinho”, que se encaixa tão bem aos dias de hoje. Também de 1973 é o LP “Vivência”, da Banda de Pau e Corda, com texto de apresentação de Gilberto Freyre na contracapa.

“Às Próprias Custas S.A.” é um vinil meio cor-de-rosa translúcido que contém gravações ao vivo de Itamar Assumpção e a sua banda Isca de Polícia. De 1983, o disco tem clássicos como “Negra melodia”, de Jards Macalé e Waly Salomão; “Vide verso meu endereço”, de Adoniran Barbosa; e o reggae “Fico louco”, do próprio Assumpção. “Sampa midnight – isso não vai ficar assim” é outro disco de Itamar Assumpção, de 1986, que consta da lista de preciosidades guardadas por Fabão.



Grandes orquestras internacionais e luxuosas coleções de jazz e blues lançadas por selos como Abril Cultural ilustram a vinilteca sem fronteiras que chegara à minha casa pelas mãos de um amigo. E ainda John Coltrane, Miles Davis, Tom Waits, Sade, Raíces de América, Morrisey, Tarancon, Joan Baez, Jacob do Bandolim & Waldir Azevedo, Vítor Assis Brasil, Hermeto Pascoal, Baden Power, Heraldo do Monte e Cama de Gato.

No meio dos discos está o primeiro LP gravado por Martinho da Vila, de 1969, com apresentação de Romeo Nunes, contendo os sambas “Quem é do mar não enjoa”, “Tom maior”, “O pequeno burguês” e “Pra que dinheiro”. “A história de Hollywood através da música” faz um passeio pelas trilhas sonoras de dezenas de clássicos do cinema, como “Era uma vez... o Oeste”, “Perversa Paixão” e “A Noviça Rebelde”. O LP “Brasil” é outra quase miragem, de 1981, com João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia interpretando pérolas como “Aquarela do Brasil”, “Milagre” e “Disse alguém”.

E o que dizer então de “Samba na madrugada”, de Paulinho da Viola e Elton Medeiros, gravado em 1968? Por ele falam algumas músicas célebres como “O sol nascerá”, “Jurar com lágrimas”, “Sofreguidão” e “Arvoredo”. Certos cometas da música, como a banda Obina Shock, também fazem parte do acervo. O grupo, formado por filhos de diplomatas africanos em Brasília e mais uns três músicos brasileiros amigos de turma na UnB, gravou dois LPs: o primeiro deles, em 1986, que trouxe a música “Vida”, com a participação de Gilberto Gil e Gal Costa, e outros hits como “Lambarine”; o segundo, “Sallé”, foi lançado em 1988.

Nas caixas de Fabão, que ainda estou desbravando, encontrei também o LP “Dandá”, de Gerônimo, um dos precursores do emergente samba-reggae baiano da década de 1980, autor de coisas simples e prazerosas de se ouvir como “Jubiabá”, “Lambada da delícia” e “Namoro”, faixas presentes no disco. Outro achado, no meio de tantas capas, é um LP gravado por Zezé Motta em 1978 (consagrada internacionalmente dois anos antes como atriz pela atuação em “Xica da Silva”). O disco, o segundo na carreira de Zezé Motta, tem um valor histórico pelo capricho na produção de Liminha e pelos arranjos memoráveis em faixas como “Muito prazer Zezé” (de Rita Lee e Roberto de Carvalho), “Magrelinha” (de Luiz Melodia) e “Babá Alapalá” (de Gilberto Gil).



Não poderia faltar no acervo de Fabão certas raridades da música produzida no Maranhão no século passado, como um LP do grupo Nonato e Seu Conjunto, “O som e o balanço de Nonato”, de 1975. Gravado nos Estúdios Reunidos, de São Paulo, o disco animou bailes e estourou nas rádios regionais durante anos com os chicletes “Cafua”, “Tambor de crioula” e “A pamonha do José”.

Não ouvi tudo e ainda estou me acostumando com o desafio. Mas passo horas contemplando esse patrimônio. Meu olhar se perde nas capas. Como eram inventivas, algumas delas verdadeiras obras da arte gráfica! Os encartes saltam de dentro do LP como uma extensão do esmero estético. Nesse aspecto, o CD não foi suficientemente preparado para competir com o vinil, o formato não ajuda.

Ouvindo aqui e ali, nos intervalos em que me permito escapar da televisão e do computador, penso que discos são como livros. Contam histórias, há um quê de literatura em certas obras musicais. Alguns discos são prosa; outros, poesia. “Jubiabá” de Gerônimo remete ao romance homônimo de Jorge Amado. As cirandas do Quinteto Violado fazem um recorte sutil da pena de Ariano Suassuna. Ouvir Tom Waits é como ler uma página dos contos soturnos de Edgar Allan Poe.

E qual o valor de um disco já usado? Não há como mensurar. Usado não é velho, e velho é apenas uma questão de referência cronológica. Meus discos de hoje, alguns deles comprados em sebo, como o Adriano Discos, foram de outras pessoas, pertenceram a outros personagens, e por isso têm alma, como têm alma os livros de sebos e bibliotecas. A alma do primeiro ou segundo dono, talvez gravada lá atrás numa fita K7, ficou gravitando penada no LP, esteja ou não o nome escrito na capa, haja ou não um carimbo, um símbolo ou uma etiqueta de loja. E valor mesmo é coisa da matéria.

Vou seguindo com o meu diletantismo, o meu regalo novo. Adriana já não sabe mais onde arrumar espaço em casa para os LPs, que precisam ser guardados na vertical, em estante apropriada. Ainda assim, com o vinil copulando pelos cantos, não pretendo me livrar tão cedo dos CDs. Esses bichos também têm alma. E um dia eles ainda vão ser vintage.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Não queime antes de ler


O roqueiro Lobão resolveu falar novamente. Depois da desvairada autobiografia “50 anos a mil” (leia no redemoinho o texto “Amor sem revolução “- capítulo 6, de março de 2012), ele chega às livrarias agora com o polêmico “Manifesto do Nada na Terra do Nunca” (também pela editora Nova Fronteira) já deixando de cara um cheiro de pólvora no ar. O livro, lançado na última segunda-feira, é incendiário da primeira à última página a ponto de desencadear nas redes sociais, no início da semana, uma série de reações que se perdem – ou se acham - no precipício partidário. Lobão mira a classe política para atirar no governo petista e dispara sua bílis contra intelectuais de esquerda, a MPB, o rock, os sertanejos universitários, o nacionalismo exacerbado forjado na Semana de 22, o Cinema Novo e tantos outros símbolos imaculados pela indústria cultural brasileira.

Lobão resolveu falar do universo ao redor das artes e da política como quem volta de uma badtrip, como quem desperta de um sono profundo. Fala diretamente do Brasil rasteiro, da dicotomia “país rico, país sem pobreza”, das idiossincrasias diurnas e noturnas da Comissão da Verdade, do messianismo político inaugurado no governo Lula e franqueado na era Dilma. Em 248 páginas, Lobão aponta o dedo na ferida com uma opinião ora formada, ora deformada.

Mas o que me chamou a atenção foi o apressado levante criado na internet para descontruir as bravatas de Lobão. Corri para entendê-las fazendo o básico, ou seja, lendo o livro, antes de cair nessa casca de banana de curtidas e compartilhadas atiradas a esmo. A dissidência, homiziada naquilo que ela chama de pragmatismo político, reduziu o “Manifesto do Nada na Terra do Nunca” a pó e classificou Lobão de reacionário, de direita, um rebelde sem causa fora de época a serviço da lógica tucana.

Falastrão incorrigível, Lobão teve/tem uma vida tumultuada e cheia de perturbações de ordem criativa, jurídica e política, mas navegou contra corrente e sempre procurou fugir das bajulações de gabinete. Comete imprecisões e injustiças, mas diz coisas no livro que poucos têm peito de sustentar ou defender. Dilacera sem piedade certos mitos alimentados à luz da conveniência política. Qual um menino birrento, como estão dizendo os seus detratores de agora, Lobão se recusa a pensar como a manada.

Nos surtos de excesso e exagero de Lobão, nada é verossímil na formação cultural brasileira. “Se a Semana de 22 era boa para a Tropicália e para a ditadura militar, deveria haver algo de errado... comigo!”. De acordo com o roqueiro, o tropicalismo de Caetano e Gil nada mais era do que um movimento decalcado da Semana de Arte Moderna, evento que disseminou ao longo dos anos o nacionalismo do “Brasil Caraíba” presente até hoje na música e na literatura.

Para Lobão, Gonzaguinha não ia além de “músicas politicamente engajadas” e “sambões maníaco-depressivos”. Ele mesmo, Lobão, que afirma detestar canções com engajamento político-social típico da MPB “libertária”, admite no livro que cometeu algumas músicas de protesto, como “Revanche”, “O eleito”, “Quem quer votar”, “Panamericana” e “Presidente mauricinho”.

“Manifesto do Nada na Terra do Nunca” não é um libelo à amargura, um tributo à sofreguidão. O autor relaciona 58 livros nas suas referências bibliográficas, embora isso não queira dizer muita coisa. E entre uma crítica e outra, há um Lobão sereno capaz de tecer elogios a vários nomes da MPB e a sertanejos como Sérgio Reis, Pena Branca e Xavantinho. Relembra que fez campanha para o PT desde 1989 e que animou comícios do partido em 2002 e 2004. “Comecei a atuar através de alguma forma de manifestação política em pleno governo Sarney, meu primeiro alvo”, relata no capítulo em que se assume como “uma besta quadrada”.

Há no meio da chuva ácida de Lobão um vendaval de escrachos que provocam boas gargalhadas, como no episódio em que declarou de supetão, ao retornar de uma viagem, que votaria na eleição presidencial de 1989 para o candidato Roberto Freire, achando, pelo nome, tratar-se do somaterapeuta autor de “Sem tesão não há solução”. Em 1992 cantou ao lado do Olodum, em comício no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, ocasião em que se sentiu “virado numa entidade baiânica”. Irônico, Lobão conta que quando há uma exposição sobre delinquência, drogas e mau comportamento em emissoras de TV evangélicas, os pastores sempre citam os nomes dele e de Rita Lee como exemplos a não serem seguidos.

Mesmo que você não goste de bravatas ou concorde com as posições e contraposições de Lobão, desconfie dessa campanha “queime antes de ler” e se aventure na leitura, sem receio. A campanha é estranha, estrábica. O livro retrata o som e a eterna fúria juvenil do autor de “Abalado”. Dizer que Lobão não fez mais nada de novo na música, dos anos 1990 pra cá, não é pretexto para atear o livro na fogueira da Inquisição. E quem fez algo realmente novo nos últimos anos? Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil? Ou novo mesmo foi o som de Zezé de Camargo e Luciano nas tertúlias palacianas? Leia primeiro. Depois decida como usar a pólvora do próprio livro.

Rio, 8/5/2013.


Uivos do Lobão

“... Playboys, agrobregas a desfilar pelos rodeios,
arraias e micaretas, caçando a língua das periguetes de abadá”

“... Com a santa ignorância dos que defendem, cegos, suas teses
acobertando num silêncio um tanto cínico, aloprados e bandidos
de um governo cheio de reveses,
catequizando suas verdades imutáveis e eternas,
a patrulhar, ameaçar, comprar, reprimir (quando não, simonalizar)...”

“Fascismo não é monopólio da direita nem da esquerda.
Fascismo é imposição inflexível e truculenta de verdades sacralizadas,
geralmente por bem-intencionados perpetradas.
Estou farto de bem-intencionados. Além de nocivos, são cafonas”

“Eu sou o lobo do homem, uivando pra Lua,
sozinho, vencido.
Vencido, como se soubesse a verdade, mas livre.
Absolutamente livre”

“Não basta apenas esperar por leite e mel,
às vezes, pra ser bom, é preciso ser cruel”

“E lá vamos nós, descendo a ladeira!
Amantes de uma boa trapaça...
Com nossa displicência carnavalesca espetacular
E os repetecos anuais dos feriados enforcados de destruição em massa”

“Às vezes é mais exato ser impreciso, contradito”

“O intelectual de esquerda (...) é sempre deprimido, paranoico, ressentido, vitimizado por complôs cósmicos, sempre pronto para eliminar suas contradições na base do grito”

“O PT nunca me cativou de verdade, detestava padre da Teologia da Libertação, não suportava aquela aura chicobuárquica, mas àquela altura do campeonato acreditava que um partido com gente diferente, que primava por ser honesto, deveria ter a sua chance de governar o país (...)”

“A bundamolice comportamental, a flacidez filosófica e a mediocridade nacionalista se espraiam hegemônicas. Todo mundo por aqui almeja ser funcionário público, militante de partido, intelectual subvencionado pelo governo ou celebridade de televisão (...)”