segunda-feira, 31 de outubro de 2016

No labirinto de espelhos de Daniel Blume



Poetas têm “almas azuis, divinamente doidas” e flanam distraídos, com seus tecidos rotos, pelas calçadas do desregramento. Essa alegoria, embora meio esfarrapada ao longo da história da literatura, fez do poeta um ser quase acima do chão, meio solar, meio insular. Daniel Blume é um desses poetas de terno e gravata, da antialegoria, que, aqui e ali, empresta a pena de advogado ao expediente da poesia. Com a publicação de “Penal” (AML, 2015), Daniel enfeixa uma quase centena de poemas em livro que realça a sua aguda sensibilidade no manuseio das palavras.

Em “Penal” não há um jurista catando erudição em dicionários ou cometendo exercícios metafóricos com armaduras de pudor e surtos de autodefesa semântica, mas um poeta de segunda viagem vestido com o “uniforme de homem normal”, comum, alheio ao austero ofício da razão. Daniel Blume faz com inventividade um cruzamento de impressões várias sobre coisas simples: o vulcão da vida de entes próximos, o plano de voo, o gosto amargo da ameixa, os cacos de erros juntados pelo caminho e a invencível dança do elemento tempo.

No poema Carmé o autor revisita o passado e derrama a sua melancolia sobre o pão com açúcar das tardes de um velho casarão da rua da Paz, no Centro de São Luís: “... Essa saudade/ Não ainda só memória/ Porque dor, lembrança/ E presença”. Não há na obra de Daniel Blume sangramentos inestancáveis, mas pequenas fissuras, vãos abertos pelo olhar instigante de quem não se conforma com o recorte turvo de certas paisagens. Se persistem ligeiros traços de dor, há num dado poema a verdade exposta que machuca e ao mesmo tempo afaga.

“Penal” não é um manual de autoajuda com inspiração poética para apreciadores do Direito. É um livro “fora da lei” que expõe o pó e a ferrugem incrustados na política, nos livros mofados nas bancas de academias. Para Daniel Blume, o poema é refluxo de sensações, representação, “tenda de todo ator”. Por onde escorre a pena do poeta também corre um rio de aflições, pululam estrelas cadentes (sob o céu de São Pedro da Aldeia, por exemplo), serpeiam fantasmas de ontem e hoje: “... Então/ o intenso receio/ do se/ das turbulências”.

A ri
gor, “Penal” não é poesia sisuda, profunda, devastadora, mas um livro sereno escrito com um recorrente nó na garganta, como quem, pelo triunfo da pena, busca respostas derradeiras num labirinto de espelhos. O poeta é réu, por um fio, de sua própria pena, mas escoimado por aquilo que escreve e transpira. Suor e sangue. Sabe bem ele que poesia não é fliperama, que a vida nem sempre é parque. E, por isso mesmo, Daniel Blume faz da pena que dá nome ao livro um afiado punhal.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Cecília Leite e o refino da MPB



Apesar de insultada diariamente pelo fliperama comercial que toma conta da programação de emissoras de rádio e TV, a música brasileira de qualidade resiste aos maus tratos e reinventa-se com elegância debaixo dos temporais do mercado. A cada verão surgem nomes novos que heroicamente arriscam voz e poesia num território dominado pelo refrão barato e melodias medonhas. Nos últimos dez anos assistimos a uma profusão de cantoras - algumas delas de reconhecido talento - que, involuntariamente, estão inaugurando a pós-MPB, a música sem fronteiras, sem cabresto estético, que provoca espasmos do Chuí a Madri. Cintilam nessa contracena da indústria cultural Roberta Sá, Tulipa Ruiz, Ana Cañas, Tiê, Mariana Aydar, Clarice Falcão, Thaís Gulin, Patrícia Bastos, Céu e Anna Ratto, só para ficar numa dezena dos nomes mais ilustres.

Há em cada uma a marca da autenticidade, de um estilo peculiar. A maranhense Cecília Leite é dessa mesma linhagem de cantoras engenhosas e de repertórios inventivos, que fogem dos clichês e dos chicletes. Agora com o lançamento de Enquanto a chuva passa, o seu segundo disco, ela tira o brevê do refino e entra de vez para o time das mulheres que cantam porque, longe da aventura, conhecem o percurso da voz e o mapa das canções.

O novo CD de Cecília Leite é uma enchente de brasilidade, insurgente, e que, por isso mesmo, vai dar em qualquer mar. Com Enquanto a chuva passa a cantora chega à água depois de experimentar o calor do primeiro álbum lançado em 2004 - Fogueira, um tambor de crioula de César Nascimento, é uma metáfora entre o fogo e a paixão.

Enquanto a chuva passa, como o próprio nome sugere, não é rural mas tem cheiro de terra molhada. O disco, fiel ao bom gosto, faz interseções inspiradas porque conta com um time de músicos de primeira grandeza. É o samba que flerta com o jazz, a valsa que cruza com a bossa no infinito da canção e o blues que sorrateiramente corteja um bolero. O CD transborda em luminosidade e sofisticação, talvez por exigência da própria Cecília Leite, para quem a música nunca foi brinquedo. Brincar com a voz é uma coisa. Isso ela sempre fez desde os tempos de universidade. Cantar é outra conversa, quase um sacerdócio, que exigiu dela estudo e muita dedicação.

O veio de Enquanto a chuva passa nasce com uma música inédita de Zeca Baleiro, Tem dó, um toque meio afro com acabamento luxuoso de Lui Coimbra, que assina o arranjo da maioria das faixas do disco. Lui excede-se num violoncelo arrebatador que também se desmancha em outras canções. Improvável não se entregar. Tem dó expõe ainda a percussão cadenciada e transcontinental de Marcos Suzano.

Difícil apontar qual o melhor momento do disco, tamanha é a responsabilidade de quem o ouve. Mas eu apostaria minhas fichas na faixa que dá nome ao álbum. Enquanto a chuva passa é a única música assinada por Cecília Leite, o recorte autoral de um CD que tem compositores do naipe de Paulinho da Viola, Pixinguinha, Vinícius de Moraes e Chico Buarque, além de Zeca Baleiro. É uma bela canção de pôr do sol, um brinde ao amor, o momento da entrega plena, duradoura, que se completa com uma taça de vinho.

Toda mulher acima dos 30 anos ou tem ou já teve Chico Buarque na cabeça. Pode ser um exagero, talvez. Mas só Cecília Leite gravou com ele Eu te amo, em francês, música incluída no primeiro disco da cantora maranhense. No novo disco, Cecília revisita Chico na canção De todas as maneiras, um quase tango de verão deliciosamente harmonioso. Seule, de Pixinguinha e Vinícius, é outra pérola do CD, uma valsa perdida no tempo e lapidada com esmero pela voz aveludada no francês de Cecília.

A cantora junta num balaio incidental os poetas José Chagas e Ferreira Gullar, passeia pela embolada de Patrícia Polayne e entoa um xote de Pedro Luís e Lula Queiroga. Em Maré cheia, Cecília Leite arrasta a sandália num sambão de Bruno Batista que expõe a bailarina das lembranças e vicissitudes, a tal fatal, a bacante apaixonada de São Luís e do mundo.

Cecília Leite poderia muito bem estar num desses palcos boêmios da Lapa ou no calendrier des arts de Paris, mas prefere tecer a vida sem pressa, ao sabor dos caprichos da vida. Assim ela vai passando a chuva. O novo disco, pela intensidade de suas doze canções, abre caminhos promissores como uma leve brisa que assovia a chegada do final da tarde.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Maio oito meia (15) – O rito de passagem


Em frente ao DCE da UFMA: Jane Lobo, Aracéa Carvalho, Márcio Jerry, Arleth Borges, Deane Fonseca, Flávio Dino, o então presidente da UNE Valmir Bispo, Socorro Sousa, Iroan Bezerra, Jorge Capadócia, Francesca Carvalho e Celso Reis

Foram dias causticantes, rumorosos, que de tão intensos passaram rapidamente entre 1986 e 1990. Transpiração sob a marquise. Conspirar era respirar em grupo. Foram dias como outros tantos em ambientes universitários, com ritmo, poesia, paixão e rebeldia. Mas, para nós que experimentamos aquela primavera inaugurada com um filme de Godard, foram dias especiais que jamais se rebobinarão. Dias que desencadearam lutas, sustos, aprendizados, rupturas, revelações e histórias de amor, triunfo e desencanto.

O eixo dessas histórias foi a Universidade Federal do Maranhão. Pelo campus do Bacanga passaram muitos estudantes, cada um com um propósito: abrir horizontes, cortar caminhos, trapacear o futuro, matar o tempo, transformar, ascender, conquistar o canudo, chegar ao mercado pela porta da frente. Para alguns, antes de alcançar a porta de saída da universidade, era preciso quebrar a rotina, subverter a ordem. Como autodidatas em matéria de ciência política, os universitários não titubeavam na escolha de alvos preferenciais nas jornadas de militância estudantil - ou mesmo fora delas.

Havia batalhas internas dentro do movimento estudantil, assumidamente de esquerda, com disputas acirradas em eleições de diretórios e centros acadêmicos [a propósito, vestir a camisa da esquerda, não obstante as veleidades na estampa, era motivo de orgulho para os estudantes e conferia um certo ar de respeito à militância]. Os confrontos aqui e ali hasteavam bandeiras de luta para além do campus. Mas o inimigo número um dos estudantes era o reitor. Não importavam a formação intelectual, o currículo, os títulos, a capacidade administrativa. Uma vez reitor, a guerra estava declarada.


William Moraes Corrêa, Waldirene Oliveira, Ronald Damasceno, Cecília Linhares, Paulo Rogério, Fernando Camelier, Décio Sá, Marizélia Soeiro, Mônica Fontenele, José Luís Diniz, Félix Alberto, Márcio Jerry, Edivânia Kátia e Wal Oliveira eram alguns dos nomes de Comunicação envolvidos no movimento estudantil

A culpa é do reitor!

O professor José Maria Cabral Marques, oriundo do Departamento de Direito da UFMA, talvez seja o exemplo mais emblemático das origens desse confronto de coloração behaviorista. Exerceu a reitoria de 1979 a 1988 e, por ter assumido o comando da universidade ainda em plena ditadura, como “reitor biônico”, pela longevidade do mandato e por atitudes interpretadas por parte dos alunos como “autoritárias”, sofreu perseguição implacável dos universitários. "Fora Cabral, reitor de general", bradavam. Cabral Marques foi alvo de passeatas e atos políticos e viu por anos o seu nome cunhado em pichações de protesto pelos muros do campus.


Ronald Damasceno, Aracéa Carvalho, Fernando Camelier, Moisés Matias, Félix Alberto, Wal Oliveira e Valquíria Santana em campanha pela eleição de Joanita Ataíde e Nílson Amorim para chefe de Departamento e coordenador do curso de Comunicação, respectivamente

Depois da chamada “linha dura” de Cabral Marques, assumiu a reitoria o professor Jerônimo Pinheiro, do Departamento de Odontologia da UFMA. Mais aberto ao diálogo com estudantes e professores, com pose de político bonachão, Jerônimo foi o primeiro reitor efetivamente eleito pela comunidade acadêmica e exerceu o cargo de 1988 a 1992. Em determinadas ocasiões também atraiu a ira do movimento estudantil, mas ao fim do mandato conseguiu passar o bastão ao sucessor Aldy Mello de Araújo sem grandes turbulências.


Do lema no muro (em enorme painel criado pelo artista plástico Marçal Ataíde, irmão da professora Joanita Ataíde) ao jogo de equilíbrio

Havia um conflito frequente, lutas legítimas por direitos que, ao fim de um ciclo, ficariam indelevelmente assegurados aos estudantes e à universidade. Mas éramos jovens pululando a maioria entre os 17 e os 20 anos de idade. Em alguns momentos, embates pueris, quixotescos, prenunciavam a falta de maturidade no protagonismo do movimento estudantil. Certa vez, eu e Moisés Matias decidimos cobrar da professora Zenir Pontes, então diretora da recém inaugurada Universidade FM, explicações sobre a veiculação de propaganda da Alcoa na programação da rádio. A Alcoa foi uma das primeiras empresas a anunciar na rádio. A cobrança, de tão acirrada, transformou-se em um constrangedor bate-boca em pleno corredor do curso de Comunicação. Moisés, eu e outros militantes havíamos “decretado”, naquela circunstância, que empresa privada alguma deveria anunciar na rádio da UFMA, “ainda mais a Alcoa”, na época denunciada por crimes ambientais na Ilha de São Luís!


Andréa Sekef, Tommy Kondo, Mônica Fontenele, Elpídio Chaves Júnior, Fabiana Almeida, Valquíria Santana, Geraldo Iensen e Aracéa Carvalho

Zenir Pontes quase foi às lágrimas pela rispidez da extemporânea “cobrança”. Só mais tarde reconheceríamos o excesso. Meses depois publiquei artigo no jornal Tabefe intitulado “Pacto de mediocridade em frequência modulada”, criticando a Universidade FM por veicular exageradamente em sua programação música pop internacional, em detrimento da MPB. Sobre a presença de empresas privadas na grade de comerciais da rádio, a nossa efêmera luta foi em vão. A Alcoa credenciou-se por anos como o principal anunciante da emissora da UFMA.

Moisés Matias foi um desses militantes desapegados dos alçapões do movimento estudantil. Trouxe de Tarauacá, uma pequena cidade do Acre, a predisposição para enfrentar moinhos de vento na UFMA e arredores. Desembarcou em São Luís em 1987 e logo cedo, no curso de Comunicação Social, deu a pista de que não abriria mão de velar o sal dessa terra. Em pouco tempo, o acreano deixou o movimento estudantil para se entregar de vez ao ativismo pagão em defesa da natureza. Fez da Ilha do Amanhã e do Sítio Panakuí uma espécie de museu da vida, virou lavrador urbano e, sempre que pode e a saúde permite, sai por aí ensinando o planeta a cuidar melhor do lixo.




Leitura de poemas do livro de Moisés Matias, na Área de Vivência do campus

Em 1989, Moisés Matias lançou na Área de Vivência do campus o livro de poesia “Confissões necessárias”. Um ano depois Jockson Launé Macêdo, estudante de Ciências Sociais, lançou a obra “A literatura de mimeógrafo em São Luís”, uma breve análise sociológica do poema “Bairro meu, cidade minha”, do poeta Ribamar Feitosa. Jockson jogava no time da militância sem fronteira, furta-cor, que mirava mais a cultura como modelo de revolução do que a política. Assim, pisava com desenvoltura no chão das várias correntes que dividiam o campus.

Na casa dos mortos

A tendência Juventude Venceremos atravessou a barragem do Bacanga para lançar, no dia 13 de junho de 1988, no colégio Maristas, a pedra fundamental maranhense do Partido da Libertação Proletária, de orientação marxista. O PLP atraiu um número razoável de estudantes e ensejou a formação em São Luís de uma célula do aguerrido Coletivo Gregório Bezerra. Ingressar no CGB exigia do candidato, entre outras aptidões, desprendimento pra pegar em armas, se preciso fosse, e mergulhar na clandestinidade. Assim, por um dado período, jovens da UFMA proclamaram-se clandestinos, deram-se nomes “fictícios” e chegaram a fazer reuniões na calada da noite no Cemitério do Gavião. Mas, ao que consta, não chegaram a atirar numa viva alma.


Na mesa do PLP: Geraldo Afonso Sampaio, Marlon Reis, Ivandro Coelho, Heloísa Pacheco, Jefferson Portela, Kléber Gomes, Fernando Silva, Eri Castro e Maria Aragão


O CGB em viagem clandestina de férias

Ademar Danilo, Pandora Dourado, Zeca Moreno, Nonato Martins, Ana Maria Pereira, Arleth Borges, Aníbal Lins, Gilberto Sousa, Magno Moraes, Edmundo Reis, Kim Lopes, Darlan Andrade, José Luís Diniz, Hamilton Aragão, Ronald Damasceno, Moisés Matias, Márcio Jerry, Mariazinha, Azevedo, Carlos Agostinho Couto, Eri Castro, Flávio Dino, Wal Oliveira, Aracéa Carvalho, Ed Wilson Araújo, Jarbas Lima, Pedro Duailibe, Isael Gomes, Periandro Barreto, Josinaldo da Luz, Eurípedes Serra, Iroan Bezerra, Jane Lobo, Fernando Silva, Gilberto Lago, Ronald Damasceno, Valquíria Santana, Jorrimar Carvalho de Sousa, Socorro Guterres, Ana Ramos, Roxane Pacheco, Rogener Almeida Santos, Valúzia, Socorro Sousa, Dimas Salustiano, Douglas Melo, William Coelho Filho, Ribamar Sá, Jefferson Portela, Paulo Madeira, Manoel Matos, Windson Silva, Ray Vasconcelos, Márlon Reis, Geraldo Castro Sobrinho, Ana Maria, Valério Escobar, Marcos Freire, Lúcio Maia, Isabel Aquino, Norma Solange Passos, Marysilvia Mourão, Núbia Martins Gomes, Leila Hadad, Cidinha Pires, Marinilde, Leide Miranda, Socorro Rios, Alcionara dos Santos, Marlene Lima, César Choairy, Marcelo Barros, Christian Noronha, Alessandro Lamar, Laurinda Pinto, Marco Antônio, Genilson Protásio, Washington Torreão, Érico Cordeiro, Celijon Ramos, Genivaldo Abreu, Celso Reis, Débora Baesse, Darlúcia Sá e Carlinhos Badauê são alguns dos muitos nomes que passaram pelo movimento estudantil da UFMA. Não importava o curso, não importava a corrente política. Quase todos, ao final do dia, sentavam na mesma mesa do restaurante universitário, bebiam no mesmo bar, circulavam juntos pelos corredores.


A militância da UFMA misturava-se com a fauna urbana de São Luís


Na ilha de Itaparica também se falava em rock & revolução: Iroan, Moisés, Herbert, Assunção, Manuel, Félix Alberto e Carlinhos Pança

Eventuais diferenças de ponto de vista não causavam fissuras na convivência quase diária. Excessos, patrulhamentos, ataques de vaidade e discussões inócuas eram comuns no meio de gente com perfis tão heterogêneos. Estudávamos numa universidade pública mantida pelo governo federal. Logo, era imperativo cobrar cada vez mais qualidade no ensino e transparência na gestão acadêmica. Quem não se arriscava a cobrar – ora pelo voto, ora pela participação nos atos de protesto – era tachado de conformista, pelego, conservador, reacionário ou tudo isso ao mesmo tempo. Não bastava ser do contra, era preciso parecer ser do contra.

Lá pelos idos de 1989 ingressei por concurso na Caixa Econômica e com o salário inicial comprei o meu primeiro carro. Era um Fusca 1300, cor branca. Ao encontrar-me com Gilberto Lago, amigo do curso de Economia e de militância, comentei, entusiasmado, sobre a novidade, ao que ele reagiu:

– Cara, comprar carro é um projeto pequeno-burguês. Tô fora!

Engoli a seco o comentário e saí da conversa meio desapontado dirigindo o meu automóvel pequeno-burguês. Mas aí o tempo passou, Gilberto Lago também entrou para a Caixa Econômica e não demorou muito ele já estava chegando ao campus no seu próprio Fusca.

Nem tudo era militância. A maioria dos estudantes estava fora do eixo do movimento estudantil. Alguns calavam e apenas cumpriam o rito da academia, com seus seminários, provas, teses e bancas examinadoras. Outros expressavam indignação nos festivais de poesia, música e teatro, nas festas corriqueiras, nas performances, nos rompantes de anarquia e no antimovimento. A Akademia dos Párias jamais tomou partido nas disputas do campus, mas os poetas, à sua maneira, manifestavam-se politicamente contra a ordem estabelecida dentro e fora da universidade.

Se a intelligentzia era socialista, aos estudantes não restava escolha. Professores como Nilde Sandes, Nílson Amorim, Joanita Mota Ataíde, Agostinho Marques e Roberto Mauro Gurgel acompanhavam de perto a luta dos estudantes, mas chamavam a atenção para certas rupturas lá fora anunciadas. Era o princípio do fim das utopias. A queda do Muro de Berlim, em 1989, desencadeara um acelerado processo de transformação sociocultural iniciado na Europa e disseminado em muitos outros países. Com o muro, caíram também algumas ilusões. A Guerra Fria subiu no telhado e o socialismo, então florescente nas universidades, estava desmoronando.

Após a queda do muro, velhos maniqueísmos começaram a perder o sentido nas discussões acadêmicas e o vácuo das utopias abriu caminhos para escapismos em construção, como a escalada esotérica, a semeadura ecológica e o messianismo evangélico. A malta de estudantes que entrou na universidade aos 17 anos de idade votaria pela primeira vez para presidente da República em novembro de 1989, sem medo de ser livre, independente, feliz. Aquela geração começaria a se dispersar naturalmente – no meio de muitos, tantos já com o diploma debaixo do braço, no limiar do exercício profissional - antes mesmo dos primeiros tombos de Fernando Collor de Mello.

Uns saindo do palco, outros começando uma nova trama em derredor. No início dos anos 1990 o cenário da universidade se redesenhava, numa transição ligeira, com a chegada de outros personagens. Ruídos semelhantes, ritos diferentes. Mário Macieira, Wagner Cabral, Marlon Botão, Rubenildo Lima, Elício Pacífico, Eduardo Júlio, Axel Brito, Franklin Douglas, Jorge Moreno, Getúlio Bessa, Zilda Carvalho, Cristiane Guida, Itevaldo Júnior, Sálvio Dino Júnior, Edivânia Kátia, Celina Mendes, Patrícia Choairy, Cláudia Bonnatti, Márcia Coimbra, Marcos Franco Couto, Haydee Neiva, Francisco Júnior, Francília Cutrim, Edison Cantanhede, Nonato Chocolate e muitos outros repovoaram o movimento estudantil dos anos seguintes, no compasso da algaravia política de cada momento e das transformações culturais movidas pelo engenho da tecnologia.

O mundo mudou depois de tudo. Não exatamente depois de uma passeata, de uma greve ou de um protesto contra o reitor. Afinal, o que queriam os estudantes? “Mudar o mundo” era um projeto de felicidade que se arrastava por gerações, em diferentes aldeias, um conceito abstrato de realização coletiva presente na vida e na literatura – mais ainda na literatura. Havia um ideal aventureiro apressado dentro de cada um de nós querendo partir sem deixar saldos de esperança na esquina do campus. O mundo era o nosso meio, a universidade, a pauta mais próxima. Por alguns dias, rumorosos como em toda revolução, o mundo ali nos mudou. Definitivamente.

(fotos: arquivo pessoal de Fernando Camelier, Aracéa Carvalho e Moisés Matias, Bel Aquino, Moisés Matias e Cidinha Pires)

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Galera (capítulo 2) - Daphne faz rock com sotaque nem wave

(texto publicado no jornal O Estado do Maranhão em 23 de março de 1996)

Félix Alberto Lima

Foi em 1988 que tudo começou. Era uma brincadeira de garotos estudantes. Paulo tinha um teclado e Alexander, um violão. Começaram a fazer ruídos na garagem da casa de Paulo. Mas faltava alguma coisa. Descolaram uma bateria e chamaram Renato. Depois veio César com o baixo e a panaceia estava formada. Juntaram tudo e passaram a animar festinhas com covers dos Beatles, Pink Floyd, Legião Urbana e mais um magote de bandas que infernizaram o cenário do pop brasileiro na década passada.



Com essa formação, a Daphne ficou até o início de 1990. César e Renato deixaram o barco e foram substituídos por Otávio e Cacique de New York (isso mesmo!). Mas as mudanças não pararam por aí. Em 1993, o Cacique deixa a tribo para dar lugar a Nuna. Eis então que surge a formação atual da banda: Paulo Pellegrini no teclado; Alexander de Carvalho no vocal e guitarra; Otávio Parga no baixo; e Nuna Gomes na bateria. Ainda em 1993 a Daphne gravou uma demo e as músicas “Os sonhos não podem sonhar” e “Metade de quê?” chegaram a ser executadas nas rádios Mirante e Universidade.

Depois de mais de seis anos de estrada, os meninos da banda acharam por bem fazer o registro do trabalho em disco. Mas nem sempre a história das produções de disco independente, em São Luís, tem esse enredo. Algumas bandinhas fuleiras mal começam a fazer show em botecos e já se acham em condições de “gravar” – saem por aí babando patrocínios com pose de artistas. Muitos não sabem ainda – e fazem questão de não saber – que música é coisa séria e requer conhecimento, estudo e, sobretudo, harmonia.

“Partimos do nada para fazer esse disco. Fizemos de tudo no trabalho, da criação das músicas à montagem final da capa”, revela Alexander de Carvalho, 22. O CD “Semblantes” pode ser considerado o primeiro disco gravado por uma banda de rock em São Luís. Gravado em 1994 no estúdio Sonata, da Cohama, “Semblantes” chega às lojas com o apoio de algumas empresas e também com recursos dos próprios caras da banda. “Investimos dinheiro do nosso bolso. Ninguém vive da banda. Todo mundo aqui estuda ou trabalha. E o nosso objetivo é mostrar uma música de qualidade e de fácil assimilação. Quem sabe a ideia não abre as portas para outras bandas de rock?”, conta Alexander.

O CD deixa claro que as influências da banda vêm do Pink Floyd, U2, Legião Urbana, Engenheiros do Hawaí, Barão Vermelho e Paralamas do Sucesso. Os integrantes da Daphne beberam no pote da new wave e gravaram 12 músicas com um toque de inspiração do rock progressivo. “A nossa música, embora fuja do rótulo de comercial, é de fácil digestão”, reconhece Alexander. Sem muitas pretensões, “Semblantes” é uma espécie de janela para outras investidas desse tipo por parte da banda. “O disco foi gravado há quase dois anos. Hoje já evoluímos bastante em termos de musicalidade. Já tocamos bem melhor. Mas o disco é o produto que temos. E quem ouvir vai gostar”, afirma Paulo Pellegrini, 21.

O CD abre com a faixa-título, uma balada com misto de RPM e Legião Urbana. A ingenuidade dos versos de “Semblantes” (a música) soa como uma cantiga de ninar: “Mas fez doce o meu cantar/ Para brincar de viver e chorar então / Mas para que deformar/ Meu semblante com mais ilusão”. Depois vem “Clamor ao vento”, a música que tem tudo para pegar nas rádios e cair no gosto da moçada. Nela fica bem claro que o espírito dos pampas Engenheiros está presente. “Versos antigos” tem uma abertura que cansa. O teclado tem inspiração gospel e a faixa pode servir para animar qualquer reunião dos carismáticos.

Em “Tão poucas palavras” a balada dos meninos lembra um som que vem de Brasília. “Algozes do povo” (levada titânica) e “Contrastes” são as músicas engajadas do disco. Refletem um pouco do mundo universitário, que é o público mais fiel da banda. “Contrastes”, entretanto, é o som mais ousado da Daphne, com o peso das guitarras de Alexander e Otávio. É difícil não lembrar do Capital Inicial em “Metade de quê?”. As outras músicas mantêm o traço característico da Daphne e não chegam a surpreender.

“A ideia agora é fazer shows para divulgar o disco. Na verdade serão vários pré-lançamentos”, anuncia Paulo. Os shows da Daphne podem acontecer em qualquer lugar, dos bares e boates às calouradas universitárias. O CD “Semblantes” deve ser divulgado em rádios de Brasília, Manaus, São Paulo e Teresina. “Tecnicamente, a produção ainda precisa ser melhorada para conquistar o mercado do centro-sul, que é mais exigente”, reconhece Paulo Pellegrini. Ele garante que o grande barato do disco, que chega ao mercado com mil cópias, é mostrar que aqui em São Luís existe uma cultura roqueira.

CD "Semblantes", faixa por faixa

1 - Semblantes (Otávio Parga)
2 - Clamor ao vento (Otávio Parga)
3 - Versos Antigos (Paulo Pelegrini/Cacique de New York)
4 - Choro Inocente (Alexander de Carvalho)
5 - Tão poucas palavras (Otávio Parga)
6 - Contrastes (Alexander de Carvalho/Cacique de New York)
7 - Os sonhos não podem sonhar (Paulo Pellegrini/Cacique de New York)
8 - Algozes do povo (Paulo Pellegrini/Alexander de Carvalho)
9 - Acreditar (Paulo Pellegrini/Alexander de Carvalho)
10 - A única ciranda (Paulo Pellegrini)
11 - Metade de quê? (Paulo Pellegrini)
12 - O que falar? (Alexander de Carvalho)

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Galera (capítulo 1) – A felicidade na alvorada de Bill Gates



No jornal O Estado do Maranhão editei, ao lado da jornalista Francília Cutrim, um caderno especial dirigido ao público adolescente denominado Galera. E foram muitas reportagens, entrevistas e experiências ao longo de quase dois anos de convívio com uma fauna sedenta de informação e atônita em meio ao carrossel tecnológico que começava a girar – e a transformar a comunicação - em plena década de 1990. Um desafio e tanto pra qualquer repórter. Escrever para adolescente carecia de uma linguagem diferente, uma fala de muitas tribos que reproduzisse um pouco a maneira de se comunicar do jovem daquela geração. Eram edições semanais, leitores cativos, pautas fora do eixo, cartinhas endereçadas aos editores... E eu gostava daquele exercício.

O Galera dedicou a edição do dia 5 de julho de 1997 à felicidade, com alguns textos abordando o tema por diferentes fechaduras, e uma entrevista que fiz com o professor Agostinho Marques. Leia:

Existirmos, a que será que se destina?

Agostinho Ramalho Marques Neto, 50, foi professor de Direito e Filosofia da UFMA por mais de 20 anos. Tem vários trabalhos publicados nessas duas áreas e também no campo da Teoria Psicanalítica. Ao longo dos anos, Agostinho proferiu mais de 150 palestras em São Luís e em instituições de ensino superior de várias cidades do Brasil e do exterior. Desde o início deste ano, Agostinho Marques vem atendendo em seu consultório de psicanálise, no Edifício Monumental. Com fala mansa e cara de quem sabe das coisas, sem afetação, Agostinho recebeu a equipe do Galera em seu apartamento e transformou a correria da quinta-feira numa espécie de calmaria, dessas comuns apenas em templos e mesquitas. E o que é mais importante: para falar sobre felicidade.

Vamos começar com um trecho da canção de Caetano: “Existirmos, a que será que se destina?”

Agostinho Marques – Esses versos de Caetano Veloso a que você me propôs como mote me trouxeram a questão da felicidade como aquilo a que cada um destina sua existência. A ideia e a busca da felicidade têm ocupado os seres humanos desde tempos imemoriais. Ainda hoje o que a prática clínica da Psicanálise nos mostra cotidianamente é que o que está por trás das queixas dos pacientes é, afinal de contas, uma demanda de felicidade.

E o que é felicidade, afinal?

Agostinho Marques – A simples formulação dessa pergunta já supõe que a felicidade seja alguma coisa. Mas que coisa é essa? A simples colocação dessas questões nos aponta no sentido da extrema variabilidade tanto da noção de felicidade quanto dos objetos cuja obtenção seria necessária para realizá-la, como também dos meios de consegui-la.

Existe relação entre dinheiro e felicidade?

Agostinho Marques – Eis uma pergunta interessante, porque remete tanto para a questão dos objetos como para a dos meios de obter a felicidade. Raramente encontramos alguém para quem a simples posse do dinheiro seja suficiente para garantir a felicidade. Algo mais é necessário, figurando o dinheiro antes como meio do que como fim. Para os antigos filósofos gregos, em particular Aristóteles, a felicidade - que em grego se chama eudaimonia, literalmente “bons demônios” - é o fim último, o bem supremo a que nossa vida se destina.

Existem meios de se chegar à felicidade?

Agostinho Marques – Essa felicidade, própria do homem livre, obtém-se pelo cultivo das virtudes éticas, pela participação política na vida da cidade e, para alguns, pela contemplação da verdade sobre os seres, cujo caminho é a prática da filosofia. Tem-se aí uma visão estática da felicidade. Este é um estado que, uma vez atingido, não se perde mais. Como disse Aristóteles, “o homem feliz nunca poderá ser desditoso, porque jamais praticará atos odiosos ou vis”. Os pensadores modernos trocaram essa visão estática por uma visão dinâmica da felicidade. Para eles, a felicidade é algo que só é possível no próprio movimento da vida e que num dado momento se alcança, mas no momento seguinte se pode perdê-la. Hobbes [Thomas Hobbes], um dos mais importantes filósofos modernos, diz que a felicidade é a contínua realização dos desejos, mas adverte que não há um desejo “último” no qual a felicidade se realize por completo e de modo duradouro. Isso significa que propriamente não se é feliz, mas que se pode ir sendo feliz, e que a felicidade passada ou presente não basta para garantir a futura. Esses exemplos mostram o ponto essencial da questão, que já mencionei: a extrema variabilidade da noção e dos objetos da felicidade e dos meios de alcançá-la. Essa variabilidade ocorre não apenas de uma cultura para outra, mas no interior da mesma cultura, ao longo de sua história e dentro de qualquer momento desta, assim como ocorre também em cada indivíduo. Há uma ineliminável dimensão de subjetividade na noção de felicidade, de tal modo que o que antes foi felicidade hoje pode parecer uma grande desventura e vice-versa. Isso sem falar que o mesmo objeto ou o mesmo acontecimento pode, ao mesmo tempo, provocar na mesma pessoa a sensação de felicidade, por um lado, e de infelicidade, por um outro. Isso significa que esses dois sentimentos não são necessariamente excludentes um do outro.

Quem é feliz?

Agostinho Marques – Quem consegue existir com certa leveza e disso fruir.

Você é feliz?

Agostinho Marques – Na maioria das vezes, sim.

Então felicidade é um estado de espírito?

Agostinho Marques – De algum modo, embora nem todo estado de espírito seja de felicidade.

Alegria é felicidade?

Agostinho Marques – Não. Mas tem muito a ver com ela. Às vezes pode ser um sinal dela.

A tristeza é a antítese da felicidade?

Agostinho Marques – Não necessariamente. Ser feliz e viver momentos de tristeza não são forçosamente incompatíveis.

Existe um modelo de felicidade?

Agostinho Marques – Não. Isso depende da idealização de cada um.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Maio oito meia (14) – A lábia arrebatadora de Agostinho Marques

Agostinho Marques era uma espécie de guru no circuito universitário da segunda metade dos anos 1980 em São Luís. Discorria com entusiasmada leveza sobre temas até então considerados tabus no meio acadêmico. Abusava de sua experiência e conhecimento ao filtrar conceitos rebuscados da filosofia para depois entregá-los, mastigados, a uma geração encurralada num labirinto de utopias e aflições. Agostinho Marques era o acadêmico tipicamente descolado, aqui e ali infiltrado entre estudantes, bolsa a tiracolo, barba desguedelhada e um discurso envolvente, instigante. Enchia auditórios e espalhava arrebatamentos na plateia, especialmente entre as mulheres. Foi esse pensador meio hippie, avesso a rótulos, que os editores do Tabefe escolheram para estampar a edição de janeiro de 1988 do jornal. A entrevista com Agostinho Marques é um compêndio ralo e raro de muitas palestras feitas por ele ao longo de anos no convívio quase simbiótico com universitários. Vamos a ela.


Agostinho Marques, UFMA, janeiro de 1988

O poder e a opressão do prazer

Numa entrevista que durou quase quatro horas, o professor Agostinho Ramalho Marques Neto, 40 anos, do Departamento de Direito da UFMA, uma das pessoas mais requisitadas do meio universitário para participar de palestras e seminários, falou ao Tabefe sobre os mais variados e polêmicos temas da sociedade. A conversa numa das mesas do Bar Coqueiro, na praia da Ponta d’Areia, versou sobre política, drogas, homossexualismo, universidade, desejos etc. Agostinho Marques falou, entre outras coisas, sobre o prazer e sua castração que, segundo ele, se dá “através de duas vias principais do autoritarismo: o proibir e o tornar obrigatório”. Para ele, a fala é antes de tudo um ato de prazer. “Falta à universidade um pouco de loucura, um pouco mais de sal”, diz. Agostinho definiu sua personalidade como múltipla e incoerente, mas sobretudo indefinível: “Às vezes sou tiranizante e tiranizado, crítico e autocrítico”.

Tabefe - Quem é Agostinho Marques?

Agostinho Marques - É uma figura mais ou menos múltipla. Eu sou vários. Alterno comigo mesmo. Sou meio tiranizante e tiranizado, crítico e autocritico. Sou uma pessoa em muitos aspectos, mas o principal deles é o indefinível, porque está em processo. Sou essencialmente processo. Ele não termina, pois a vida é o processo.

Tabefe - Muitas pessoas acham você muito eclético.

Agostinho Marques - Eu não sei o sentindo que elas usam esse termo. Mas o meu ecletismo é antes de tudo o seguinte: sou cheio de desejos. Meus desejos recaem sobre muitos objetos. Meu ecletismo é a própria pluralidade da paixão.

Tabefe – Você é uma pessoa que se coloca contra as injustiças sociais e o atraso da sociedade. Por que você não está filiado a um partido de esquerda, por exemplo?

Agostinho Marques - Eu não tenho o menor controle sobre minhas teses, sobre os efeitos que elas possam causar em outras pessoas. Elas vão rolar. E eu não faço isso impunemente. O que digo às vezes causa angústia. Quanto a essa dos partidos, eu dou total força aos que acho interessantes, progressistas. O PT, particularmente, no presente momento é um exemplo disso. O Partido Verde é um belo sonho que vai abrindo caminho no real. Mas a questão do partido pra mim é muito mais a seguinte: entre outras coisas, uma das minhas teses é, precisamente, a desorganização. É pôr dúvida onde a certeza está instalada. A organização é um momento necessário para que a desorganização tenha um espaço. Então, na medida em que me filio a um partido, fico numa posição em que tanto me limito ao partido, quanto limito, na minha fantasia, o partido em relação a mim mesmo. A minha fala começará a ter margens. Então, haverá umas coisas que poderei dizer e outras que não. Na minha opção pessoal, fico meio de fora e ao mesmo tempo dentro de uma estrutura partidária, precisamente para que eu possa falar com as coisas fluindo, para que eu possa deixar minha vida fluir sem colocar margens fixas. Estar sempre livre pra atravessar pra cá e acolá, sem que nisto você cometa uma transgressão tão imperdoável. Não pertencer a um partido é reivindicar para mim mesmo o direito de errar, ou seja, de ser errante. Nessa perspectiva, acho absolutamente essencial, no presente momento político, a existência dos partidos. E participo, eventualmente. Eu não afasto de plano a possibilidade de filiar-me a um partido político. Mas, nessa possibilidade de filiação, já vem junto a de desfiliação, ou seja, o movimento precisa ser como uma pluma no ar, uma brisa, que oscila e circula, mas tem seu movimento próprio. Minha recusa é de trilhar caminhos feitos. Mas, errante como sou, caminho numa certa direção: acredito na compatibilidade do socialismo com a democracia, para a construção de uma sociedade justa e plural, onde caibam as diferenças e os conflitos, sem que a opressão se faça necessária.

Tabefe - Não é muito cômodo estar fora de um partido?

Agostinho Marques - É sim. Ao mesmo tempo que dentro também. Na medida em que a gente está dentro de um partido político já sabe que ninguém colocará a questão de filiação, pois você já está filiado. Se estou, eu me defini. E, na medida em que eu me definir, ganho uma grande aceitação porque as pessoas passam a me conhecer, me identificar. Prefiro não me definir, mas ir me definindo.

Tabefe - Mas é cômodo na medida em que para uma pessoa que se assume partidariamente petista, por exemplo, as portas se fechariam. E para aquelas que ainda não se definiram terão o trânsito facilitado.

Agostinho Marques - Concordo inteiramente. Mas é como falei antes: as comodidades estão em ambos os lados. Na medida em que estou fora são as comodidades que vocês colocaram. Agora, quando estou dentro, as pessoas criam logo um estereótipo. Por exemplo, me olham dentro da estrela, mas não me olham particularmente. E acho que é muito importante você ser olhado dentro do olho e olhar também. Mas no fundo acho que isso não é uma questão. O problema não é o partido político e sim a luta política, é o engajamento transformador na perspectiva da libertação. Mas, às vezes - e isto não é nenhuma generalização, com o caráter de uma verdade -, o engajamento muito grande no coletivo implica esquecimento de mim. A coisa é tal que, quando uma pessoa pergunta “como vai?”, eu vou falar é do sistema. Mas acho que, ao mesmo tempo em que estamos voltados para a realidade, com vontade de transformá-la, é preciso ter olhos para dentro. É meio assim, ter quatro olhos: dois para fora e dois para dentro. É isso que é a dialética do movimento político. É preciso que as condições da sociedade se transformem. E eu luto por isso também, porque quero ser mais feliz. Então, não dá pra eu colocar a minha felicidade em uma organização social, porque penso a organização social de acordo com os meus desejos de ser feliz. É absolutamente fundamental a oscilação entre eu e o mundo, eu e a vida, eu e a sociedade.


Agostinho Marques com a equipe do Tabefe

Tabefe - É ponto consensual que Agostinho Marques é um dos melhores oradores na UFMA, senão o melhor. Tanto que, dias atrás, logo após uma palestra sua, uma aluna dissera aos amigos que havia chegado ao orgasmo. O que você acha disso?

Agostinho Marques - A mim gratifica enormemente. O meu trabalho é a minha fala, o meu prazer é a minha fala. Minha fala, às vezes, também é um orgasmo pra mim, uma troca de amor. Eu não me preocupo em ser um cientista, um filósofo, que a partir de mim se forme escola, e também se dizem que sou positivista, idealista ou dialético. Pra mim a fala é, antes de tudo, um ato de prazer. Falar é a minha arte. Eu adoraria ser cantor, por exemplo, saber tocar um violão. São coisas que na minha infância e adolescência não couberam no contexto em que vivia. Então, de qualquer forma, tive que aprender a tocar minha própria música. Só que era uma música falada. Caetano fala quando canta. Eu procuro fazer da minha fala um canto. Para isso, é preciso saber ouvir também. Se de repente é um campo de irradiação onde cabe o orgasmo, eu adoro, é ótimo.

Tabefe - Dentro dessa “sociedade sem prazer” em que vivemos como você analisa a castração do prazer?

Agostinho Marques - A castração do prazer, pra mim, se dá através de duas vias principais do autoritarismo, que são o proibir e o tornar obrigatório. Vamos dizer que na castração simbolicamente se pensa no falo. Então haveria duas lâminas cortantes desse falo: a proibição e o tornar obrigatório. No fundo é uma lâmina só, com o direito e o avesso, o positivo e o negativo, como a fotografia. Então, a castração do prazer está na repressão dele, porque “prazer é pecado”. E nossa cultura ocidental é baseada precisamente nisso: pecado, consequentemente culpa, arrependimento e, por último, redenção. O prazer fica reprimido, identificado com o pecado, o crime, o ilícito. Aí você se culpa. Pra sair disso tem que se arrepender, se redimir na pureza. Acho que a gente precisa admitir a impureza, em primeiro lugar porque o prazer é impuro e também é puro. O outro lado da castração é você tornar o prazer obrigatório. “Tem que ter prazer”. De repente vira uma bandeira de luta: “Queremos prazer!”. Então é a mesma opressão vista pelo avesso. As mulheres têm, por exemplo, toda uma ideologia em torno da virgindade. Aí se forma na cabeça delas que se mantenham virgens. E na cabeça dos homens, para exigirem a virgindade. Forma-se uma coisa cartorial. Você teria que ostentar, de repente, um selo de autenticidade. O avesso dessa ideologia é a inversão dela na medida em que se diz: “Não pode ser virgem, tem que transar!”. E o afeto, onde é que fica? E o desejo? E o que eu mesmo quero? Portanto, a palavra virgem é dialética dentro dela mesma. Significa uma coisa e o oposto dessa coisa. Na nossa ideologia a palavra virgem é identificada com Maria. Na visão cristã a mulher ou é puta, representada por Eva, ou é completamente pura, no caso Maria. Nossa ideologia faz da mulher esses dois mitos. Ou ela é pecado, a maldição como diz a Bíblia, ou é toda pureza. Em nenhum dos casos é real. A mulher é isso que está aí. De repente você sente o cheiro dela, a pele, o roçar do cabelo, o brilho dos olhos. E a gente perde a dimensão disso quando transforma a mulher num estereótipo.

Tabefe – Você tem a concepção do socialismo libertário, segundo a qual é preciso mudar não só o político como o social?

Agostinho Marques - Sem dúvida. Agora, não seria na perspectiva do “ter que mudar”. Eu amaria que as coisas fossem assim como imagino. Se de repente eu tivesse o poder de jogar a imaginação e essas coisas ganhassem corpo, seria absolutamente fantástico. Só que não o tenho. E seria melhor não tê-lo , afinal de contas, ele seria muito autoritário.

Tabefe - Seria mais interessante, então, que a revolução se desse primeiro no interior de cada pessoa para depois ser exteriorizada?

Agostinho Marques - Não. Não poria as coisas numa perspectiva de uma antes e uma depois. Pra mim é preciso que tudo isso aconteça, na medida em que isso seja possível. A minha própria abertura de consciência começa com a militância política. Estava tão fora de mim que precisei sair mais ainda e me jogar completamente na política, e a partir dessa via, voltar pra mim trazendo essa via junto. Então, não se trata de uma antes e uma depois. O movimento de cada um vai se determinando no seu próprio processo de vida. E o que vai determinar esse movimento é essencialmente a paixão. Pra mim, as coisas ficam cinzas quando não têm paixão. Então, a revolução de maneira nenhuma é uma coisa já dada em minha cabeça. Há várias revoluções. A vida própria é uma revolução, nós é que não somos revolucionários.

Tabefe - Você acha que a tentativa de implantar o socialismo no Brasil tem sido muito economicista, mecânica, com pouca paixão, tesão?

Agostinho Marques - Não acho propriamente. O socialismo no Brasil é muito pluriforme, tem várias tendências. E a tendência dominante talvez seja a que trate o marxismo de forma religiosa, o que no fundo é um desejo de pureza. A ideologia que está por trás disso diz: “Só poderei ser feliz se eu for puro”. É a ideologia cristã. Só com o arrependimento, com a purificação é que você vai pro céu. Essa questão de pureza como desejo de poder é, pra mim, o grande mascaramento da nossa civilização, que caracteriza o ponto de não-poder. Ser puro é ficar no lugar da fala, seguro, e a partir daí você poder atacar os outros. No fundo é um desejo de poder, A gente é muito levado pela ideologia dominante justamente por essa ideia de pureza.

Tabefe - Com é que você vê essa concepção dogmática do marxismo-leninismo, que na época de Stalin perseguia as pessoas que pensavam diferente dessa visão religiosa?

Agostinho Marques – Vejo como qualquer concepção dogmática, porque dogma é a verdade que não se discute. Acho que a verdade é justamente aquilo que não se discute. Quando deixo de discutir, estabeleço uma verdade. E nessa perspectiva, o marxismo dogmático, a igreja dogmática, qualquer visão dogmática do mundo é alienada e alienante. O Warat [teórico e professor Luis Alberto Warat], por exemplo, diz que as verdades servem para esconder os desejos, sejam elas políticas, religiosas etc. Entretanto, a verdade é como um horizonte, é uma coisa para onde eu vou, uma busca na qual eu acredito. A verdade não admite um “eu já cheguei”. O dogma é a verdade, uma coisa já chegada. O que mais caracteriza a verdade é que ela resulta de um esquema de poder no qual você exclui a discursão. Então, pra mim o dogmático é a negação do movimento, da vida, é o que há de expressão simbólica do autoritarismo.

Tabefe - Você falou certa vez que a própria relação sexual entre duas pessoas é uma forma de poder, uma vez que um está por cima e o outro, por baixo. Então você acha que se deve acabar com o poder? Ou a alternância de poder resolve?

Agostinho Marques - Vou dimensionar melhor a minha concepção disso. A relação sexual pode ser uma relação de poder. Vou tomar a questão do sexual e ampliar no sentido para o amoroso, afetivo. O poder só se dá porque somos seres afetivos. Se eu fosse um ser indiferente perante o mundo, não precisaria de poder nenhum. O poder é aquilo que preciso para realizar as minhas paixões. É a minha paixão que me dá o desejo de poder. Então, o espaço de poder está na linguagem. Quando Barthes [filósofo e semiólogo Roland Barthes] diz na sua bela aula que a língua é fascista é porque ela obriga a dizer de uma forma e exclui o dizer de outra forma, inibe o fluir do sentimento. A própria estrutura da língua te obriga, ao falar uma coisa, a te separar dessa coisa. Você se põe como sujeito, separa a outra coisa e a coloca como objeto, e no meio você liga com o verbo. Quando a Bíblia começa dizendo “... No principio era o verbo”, era mesmo. Todas as relações humanas são a três, nunca a dois. O terceiro desta relação é a linguagem. Aliás, é por isso que o ciúme é inevitável. Uma relação amorosa é o espaço de relação de poder, porque ela é um espaço simbólico. Só há uma forma de romper, de dissolver esse poder: a entrega amorosa. Então, o poder é uma coisa que está dentro da linguagem, é impossível aboli-lo. Abolir o poder é abolir a fala. Só posso abolir o poder se fizer a abolição do espaço simbólico e consequentemente a minha abolição, enquanto um ser humano, essencialmente um ser falante... Entretanto, na cruel realidade em que vivemos, somos forçados a criar uma visão maniqueísta de poder. Para nós o poder é sempre uma coisa má a ser evitada. E nesse papo, quero levantar o dado positivo do poder, que tanto pode ser aprisionador como libertador. Nós é que temos que decidir se queremos liberdade ou prisão. Só que temos que ter os pés no chão para saber que jamais teremos toda a liberdade, assim como, para quem deseja, jamais teremos toda a prisão, também porque mesmo dentro das celas os pensamentos voam.

Tabefe - Fale sobre a dicotomia amor e ódio.

Agostinho Marques - A dicotomia amor-ódio existe realmente. Mas não como se pensa que é, como a ideologia do “amai-vos uns aos outros” nos ensina. Amar não pode ser mandamento, não pode ser um livro de contabilidade que tem débito e crédito. Eu não devo nem tenho direito. É uma coisa que rola. Mas na nossa ideologia o ódio é completamente discriminado, apesar de nós vivermos odiando a nossa sociedade, que é construída toda em cima do ódio e não do amor. A sua estrutura é toda opressora, injusta, discriminatória. Então, o amor e o ódio são um par dialético, são contrapostos, mas não são antônimos. Se não amo, não posso odiar. Acho que só posso odiar. Mas não posso amar. Se alguém me tortura, eu odeio aquela pessoa. E só odeio sem amar. Mas parece que a gente não pode entrar no amor sem admitir que exista o ódio lá dentro. O contrário do amor e do ódio é a indiferença, a neutralidade, que é justamente o desamor e a negação do ódio.

Tabefe - Quanto à posição de grande parte da sociedade que se coloca contra o homossexualismo, as drogas, qual a sua reflexão?

Agostinho Marques - Para se falar do homossexualismo e das drogas temos que jogar a questão dentro da sua ambiência. E a ambiência é o conceito de normalidade, que pra mim é essencialmente um ato de poder. Quem tem poder define o que é normal, à sua imagem e semelhança, e já garante a si o próprio poder de transgredir esse normal. É no campo da relação de poder que se pode chegar ao conceito de normal e anormal, e a partir daí se tira o conceito de marginal. Quem tem o poder estabelece as margens. O homossexualismo entra precisamente aí. A primeira ambiência dele é a questão da normalidade, já posta aqui como ato de poder. E segunda é a sexualidade humana, que é simbólica. A nossa sexualidade é bissexual, no sentido de ela ser uma potência que irá se definir ou não. Suponhamos, por exemplo, uma gata recém-nascida. É como se ela fosse um cartão perfurado. Está programado na natureza biológica dela que mais adiante ela vai ter um cio e que, se nesse período ela encontrar um gato, eles vão ter uma relação sexual. Enfim, o animal é um cartão perfurado, já nasce programado, enquanto nós somos um cartão em branco, não estamos programados. Então, o que define a nossa sexualidade é, essencialmente, a afetividade. Nós sentimos afeto por homens e mulheres. Por exemplo, nós todos aqui somos amigos e nos gostamos. O homossexualismo é precisamente uma das direções da sexualidade que trazemos. Ser homossexual ou heterossexual são rótulos, porque nós, enquanto cartões não perfurados, somos uma potencialidade diante das coisas. Agora, nós temos uma cultura que se baseia no critério da normalidade, de definição de lei, em que o homossexualismo fica excluído. Por que? Porque atemoriza, eu acho, porque dá medo. Toda repressão, seja ela qual for, é motivada pelo medo. Eu colocaria o homossexualismo como uma potencialidade, como algo que está dentro de você. Você não precisa desenvolver essa potencialidade, mas pode desenvolvê-la, assim como ela pode te tomar de assalto ou não. Eu não trabalho com o conceito de normal e anormal no sentido de dizer, por exemplo, “o homossexualismo é normal”. Porque essa já é uma frase moralizante. Porque aí eu já teria admitido, previamente, critérios de normalidade, os quais considero como atos de opressão. O homossexualismo eu vejo algo que está na indiferenciação da sexualidade humana, que se baseia no afeto, essencialmente.

Tabefe - Como é que você avalia a questão das drogas?

Agostinho Marques - Eu creio que essa questão passa também pela ideologia da purificação, tipo “não use drogas”, que é uma maneira de dizer “seja puro”. Sobre isto em primeiro lugar aparece o discurso oficial, que utiliza os critérios do legal e do ilegal, do permitido e do proibido. E quando falo do discurso oficial, não estou me referindo apenas ao Estado e à sociedade, mas a autoridades, médicos, psiquiatras, que têm uma visão jurídica da droga. Só é droga aquilo que não é permitido, como a maconha, a cocaína, a heroína. Já o álcool e o cigarro não são. Em primeiro lugar gostaria de quebrar essa fronteira. A droga não atravessa o campo do licito e do ilícito. As mais perigosas são as licitas. A Rede Globo e suas novelas, que são umas drogas, causam dependência enorme. Aliás, o desenvolvimento da ciência e da tecnologia não vem como resposta às nossas necessidades. Pelo contrário, ele cria necessidades. No século passado ninguém tinha necessidade de ver novela da Globo, hoje todo mundo tem. Então, droga, num sentido mais específico, é tudo aquilo que causa necessidade, e que nessa perspectiva te afasta da tua necessidade, inclusive da tua necessidade de droga, caso você possua. Penso que para discutir droga é necessário afastar a perspectiva moralizante da questão. Agora a droga, no sentido de fazer mal, é aquela que se volta contra ti, que gera uma necessidade que não é tua, mas que está no lugar dela. Droga é aquilo que você põe no lugar do desejo. Cada um de nós tem sua própria droga. E ela pode nos fazer bem ou mal, depende de como nos relacionamos com ela. Claro que há drogas que causam dependência física: as industrializadas, os enlatados de televisão, a heroína, a morfina, que acabam se voltando contra você.

Tabefe - Você acha que a emoção e a razão se dividem ou as duas coisas se misturam?

Agostinho Marques - Pra mim o racional não existe. A razão é essencialmente cálculo. O raciocinar é ponderar, medir, pesar. Por trás disso há sempre uma paixão. O Hobbes [filósofo Thomas Hobbes], no seu “Leviatã”, faz toda uma antropologia a partir das paixões. Há uma passagem no livro que diz assim: “Os pensamentos são para os desejos como batedores ou espias, que vão ao mundo exterior buscar os meios para a realização desses desejos”. Então, não há uma razão pura, como quer a filosofia de Kant [filósofo Immanuel Kant]. Por trás de todo pensamento racional tem uma paixão que o rudimenta. Se faço um teorema “o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos”, por trás desse pensamento puramente formal, geométrico, há uma paixão. Aí eu retorno àquela citação de Warat: “As verdades servem para ocultar os desejos”.

Tabefe - Qual a sua concepção de família e como você se enquadra nesse contexto?

Agostinho Marques - Vejo numa ambiência absolutamente interessante e gostosa e, ao mesmo tempo, conflituosa. É uma instituição que tem o papel social de ocultar o conflito. O ódio não pode aparecer. E o amor por isso mesmo vira opressor. Então, pra mim, a família, de um modo geral, é uma instituição super contraditória, onde você pode fazer mil amizades, cumplicidades, alianças. É onde também você pode se destruir de alguma forma, justamente porque o amor é um imperativo, e nela não cabe a contraface – o ódio. Com relação à minha família, defino mais por laços de afeto que por consanguinidade. Por exemplo, no que se refere às minhas filhas, eu amo, adoro, divirjo, convirjo. E a gente procura respeitar as diferenças e se transar dentro delas e das igualdades. Às vezes é uma relação conflituosa e noutras, extremamente gostosa. E pra mim, foi assim ótimo elas estarem aí, terem vindo de mim, mas serem elas. Eu tive três casamentos e não me arrependo de nenhum deles. Em todos vivi momentos absolutamente interessantes. Jamais teria conseguido me transformar enquanto homem se não fossem as mulheres. E sem isso, de alguma forma, eu seria muito aquilo que era há 10, 20 anos. Porque a dimensão do outro não caberia, e ela me tem vindo, na vida, principalmente através da mulher que amo. Nesses meus relacionamentos vivi céus e infernos, uns momentos absolutamente desesperadores e outros de uma plenitude. Quando me casei com a Beth [Beth Bittencourt] foi assim. Na praia da Raposa estávamos lá e tudo era uma coisa só. Lembro-me de uns pássaros, umas gaivotas passavam, voavam. Aquilo estava tudo assim... De repente a gente se olhou e... casou. Mas isso não quer dizer que nosso casamento seja um tremendo mar de rosas. Existem momentos terríveis de inimizades, opressão, repressões. Então, acho que a família é um espaço para isso tudo. Não dá pra gente chegar e dizer: “tem que ser sempre o amor”. Porque aí ele deixa de ser amor e passa a ser opressão.

Tabefe - E o que é reflexão?

Agostinho Marques - É você se olhar por dentro. É ter um espelho no qual se veja e ao mesmo tempo não se veja. É o mesmo que você ver e estar sendo visto. Olhar e sendo olhado, ouvindo e falando. Então, essa é a reflexão. E nessa perspectiva a reflexão é uma prática. Não faço a menor separação entre teoria e prática. A minha prática predominante, enquanto intelectual, digamos assim, é a prática teórica. Sentar e escrever um livro de filosofia, por exemplo, dar uma palestra, estar aqui conversando com vocês. Isso tudo é uma prática. A teoria, pra mim, ela mesma é uma prática. Mas é uma prática que não se esgota em si. Ela tem que se voltar para aquilo que a gente age. Ficar agindo apenas te conduz à cegueira, ao dogmatismo e ao esquecimento de você mesmo. E nós acabamos não vivendo nenhum concreto, quando ficamos simplesmente refletindo, na perspectiva de que o único concreto é a teoria. Então, a reflexão e o ativismo são movimentos de um processo só, que precisa ser vivido com uma certa plenitude nos seus dois pontos. Os meus atos concretos na vida nem sempre são coerentes. Às vezes sou profundamente incoerente com as minhas afirmações, com o que eu penso, mas isso é a marca da minha humanidade.

Tabefe - O que é a universidade? E o que ela poderia ser?

Agostinho Marques - Ela poderia ser uma infinidade de coisas. Quase todas mais interessantes do que aquilo que ela é efetivamente. Em primeiro lugar a universidade porta duas contradições de essência. Uma delas é que a universidade se define como uma institucionalização do saber. E isto, pra mim, representa um aprisionamento do saber. Porque, afinal de contas, o que é o saber? Sei o que vivo, o que experimento. Então enquanto institucionalização do saber, a universidade vai demarcar áreas do saber nas quais ela atue. E nisso vai excluir outras áreas. Essa exclusão pertence à essência relativamente violenta, excludente, da universidade. Por outro lado, há na universidade uma contradição de essência. E aqui não me refiro à contradição como algo ruim, para ser superado mais adiante. Pelo contrário: como algo que precisa de mais espaço ainda, para se manifestar enquanto contradição. Por que? Por um lado a universidade sempre reproduz a ideologia da classe dominante. Mas numa sociedade de classe a única ideologia é a da classe dominante. A classe dominada só tem uma contra-ideologia, que se opõe à dominante. Então, esse é um polo de contradição. O outro é que, apesar da universidade ser o foco de irradiação de ideologia dominante, ela é também o foco de crítica dessa mesma ideologia. Essa contradição me parece ser a essência da universidade. A universidade é - e precisa ser - conservadora e progressista, ao mesmo tempo. Não pode haver uma universidade homogênea. Se acharmos que tem que haver uma universidade de esquerda, isso seria um autoritarismo.

Tabefe - Mas você não acha que é um princípio a não exploração do homem pelo homem?

Agostinho Marques - E acho que faz parte desse princípio o pluralismo. Toda a ideologia da unidade é a exploração do homem pelo homem, que pode se apresentar de várias formas. Na sociedade burguesa é “compre o que eu produzo” e nas outras, “acredite no que eu acredito”. A exploração do homem pelo homem se dá em várias instâncias: no econômico, no ideológico etc. Há uma mais valia ideológica também, não é apenas econômica.

Tabefe – As pessoas estão deixando de ir à universidade por falta de prazer.

Agostinho Marques - A universidade precisa ser mais viva. Ela está muito afastada da vida. Ela tem sido, na sua prática, um lugar monótono, onde verdades já estabelecidas são passadas para terceiros. Então, numa perspectiva, a universidade tem que ser um lugar chato, mas, ao mesmo tempo, vejo espaços absolutamente interessantes dentro dela. Por exemplo, começo a ver festas na universidade. Que ótimo! Na universidade cabem o riso e o choro. Em suma, cabe emoção. O que não dá é para a universidade ser uma coisa acética, em que professores acéticos transmitem teorias acéticas, para alunos também acéticos. Falta à universidade um pouco de loucura, um pouco mais de sal.

Tabefe - Como é que você vê as eleições diretas para reitor da UFMA?

Agostinho Marques - Pra mim é essencial. É uma conquista que se tem de construir. O momento é de se pôr em discussão essa questão, de se mobilizar de forma mais ampla e libertadora possível. Não é descriminando quem não quer participar, mas seduzindo para que participe. Aí está a diferença da sedução para o estupro. Quem estupra mostra a sua impotência em seduzir. E aí há vários estupros. O patrulhamento ideológico é o principal deles. Diz-se muito: “aquele ali é reacionário, é de direita”. Isso é um patrulhamento ideológico, um estupro.

(Entrevista concedida a Eri Castro, José Luís Diniz, Wal Oliveira, Benedito Júnior e Félix Alberto)

(Fotos: reprodução Tabefe)

Maio oito meia (13) - Com Prestes na praia do Araçagi


(Foto: reprodução Revista de História da Biblioteca Nacional)

Para quem, como nós, alimentava o sonho de mudar o mundo, seja lá qual fosse essa mudança, Luís Carlos Prestes tinha a história pronta. Era experimentado nesse estranho ofício da revolução. Deveria ter algo a nos dizer, a ensinar, talvez. E ele estava em São Luís. Era a nossa chance. Veio a convite de Maria Aragão e de entidades sindicais para uma palestra na Biblioteca Pública Benedito Leite dirigida a estudantes e trabalhadores. Ficou três dias na cidade, de 8 a 10 de outubro de 1987. Foi numa sessão restrita de autógrafos do livro “Prestes, lutas e autocríticas”, na sede do PCB, à rua 13 de Maio, que o jornalista Aldionor Salgado nos deu a pista de que, no dia seguinte, Prestes se refugiaria numa casa na praia do Araçagi. Não sabíamos aonde exatamente era o local do refúgio, mas decidimos – eu, José Luís Diniz, Socorro Rios e Cidinha Pires (as duas, estudantes de Serviço Social) – que iríamos encontrar a casa pra fazer finalmente uma entrevista com o “Velho”, como ficou conhecido o comunista mais famoso do Brasil. E assim nos embrenhamos pelas matas do Araçagi até chegar ao destino. Depois de um certo tempo de espera, e já com a anuência de Aldionor, iniciamos uma longa conversa com Prestes, que muito nos marcou, devidamente gravada e reproduzida com fotos na edição de novembro de 1987 do Tabefe.


Prestes em palestra na Biblioteca Benedito Leite

“Nenhum dirigente comunista da América tem uma vida tão trágica e portentosa quanto Luís Carlos Prestes. Herói militar e político do Brasil, sua verdade e sua legenda ultrapassam há muito tempo as restrições ideológicas. Ele se converteu em uma espécie de encarnação viva dos heróis antigos”
(Pablo Neruda, “Confesso que vivi”)


Muito além do mito

Durante os dias 9, 10 e 11 de outubro, esteve em São Luís, a convite de entidades sindicais e militantes da esquerda maranhense, o ex-secretário-geral do PCB, Luís Carlos Prestes, para uma agenda de palestra e contatos com líderes de esquerda. Em entrevista exclusiva ao Tabefe, do alto de sua lucidez, o homem de ferro da Coluna Prestes, aos 89 anos, surpreendeu-nos com o carisma e a simpatia singulares do “Velho”, como é chamado carinhosamente por sua companheira, D. Maria Ribeiro. Falou-nos sobre conjuntura nacional, universidade, religião, sua polêmica conciliação com Vargas e ainda de sua decepção com os partidos que hoje se dizem revolucionários. Segundo ele, falta aos seus líderes uma base maior sobre a teoria do proletariado, capaz de impedir suas constantes alianças com os partidos representantes da burguesia nacional. Ao final da entrevista, Prestes recomenda aos jovens “que estudem o marxismo-leninismo, única teoria que servirá de base para o Brasil avançar no caminho do progresso, para se chegar a uma outra sociedade, livre efetivamente da exploração do homem pelo homem”.

Tabefe – Para quem leu "Olga”, de Fernando Moraes, é difícil compreender por que o senhor subiu no palanque de Getúlio Vargas e declarou apoio ao homem que mandou matar sua companheira revolucionária, Olga Benário, entregando-a grávida aos nazistas. Essa é uma indagação que muitos gostariam de fazer ao “Cavaleiro da Esperança". Qual o seu posicionamento?

Prestes – Muitas pessoas insensatas acham que, diante de um crime cometido por Vargas, eu deveria sair da prisão armado de um revólver para matá-lo. Isso não iria resolver nada. Como revolucionário, eu tinha que examinar qual era a situação mundial e contra quem a humanidade lutava naqueles anos. Dentro da prisão eu já apoiava o governo de Vargas, desde quando ele rompeu relações com o Eixo e declarou guerra a Alemanha e Itália. Ele enviou os pracinhas à Itália para lutar contra Hitler, o maior flagelo da humanidade naquele momento. O fundamental para qualquer cidadão do mundo naquela época era a luta pela derrota do nazismo. Isto era a maior prova de ser patriota. Quanto ao problema interno, de Vargas e sua ditadura em nosso país, dos crimes que havia cometido, isto era secundário. A qualquer momento ele também, com a derrota de Hitler, sofreria as consequências. E foi efetivamente o que aconteceu: a queda de seu governo, foi substituído no poder e teve que se recolher à vida privada. De maneira que é essa a minha posição. Sou um revolucionário internacionalista e que vejo, portanto, os interesses da humanidade. E que também, em determinados momentos, é necessário sufocar todos os sentimentos para participar da luta contra o inimigo maior, que naquele ano fazia-se representar pela Alemanha nazista de Hitler.


Maria Prestes, Maria Aragão, Socorro Rios, Félix Alberto, Prestes, Cidinha e Diniz

Tabefe – Sobre a sucessão presidencial, o senhor apoiaria algum desses candidatos que estão surgindo, como Lula e Brizola?

Prestes – Eu não faço política futurista. A data da eleição ainda nem foi marcada. Lênin, durante todo o ano de 1917, dizia e repetia que para se elaborar uma tática é indispensável uma análise concreta da realidade concreta. A realidade muda constantemente, o mundo não está parado. De maneira que, na época da eleição, temos que fazer um exame concreto da realidade para ver qual é a colocação dos partidos e daí se elaborar uma tática eleitoral. Eu não vou estudar as qualidades particulares de cada indivíduo para saber se é bom ou ruim, a não ser que existam características evidentes de que ele não presta pra nada.

Tabefe – Então, qual a análise que o senhor fez para apoiar Brizola em 1982 ao governo do Rio de Janeiro?

Prestes – Desde o começo de 1982 passei a estudar a situação concreta do Brasil e cheguei a duas conclusões: a primeira foi que a maioria do povo brasileiro, naquele ano, iria votar contra os generais, contra a ditadura militar. E foi o que se deu. Os militares só tinham um partido, o PDS, antiga Arena. E contra esse partido votaram mais ou menos 12 milhões de eleitores. Acertei, portanto, no que tinha concluído; e a segunda conclusão foi que o único partido que tinha condições de derrotar a ditadura seria o PMDB, que era de oposição naquela época, e em 1974 já havia derrotado o Governo - pois naquela eleição, dos 22 senadores eleitos, o PMDB elegeu 16. Isso foi tanto que, em 1977, o Geisel [presidente Ernesto Geisel] elaborou o Pacote de Abril que criava o Senador Biônico, para ter a maioria do Senado. Então, marchar com o PMDB em 1982 era acertado. Se Lula tivesse feito isso, em vez de ser candidato a governador, que não tinha nenhuma condição para isso, teria obtido uma votação igual a que ele teve agora em 1986, de 800 mil votos, fazendo uma bancada imensa. Mas não, ele quis independência total e por isso teve uma votação reduzida. Daí percebe-se que ele não tem uma base teórica, não sabe fazer um cálculo, examinar a situação concreta. Porém, eu vivia no Rio de Janeiro e lá o PMDB estava no poder. Era o governo do Chagas Freitas, que era igual à ditadura; nunca levantou um dedo contra as torturas e os assassinatos de presos políticos. Então, no Rio não se podia votar no PMDB. Sobravam apenas dois partidos de oposição: PT e PDT. O PT era muito pequeno. Até hoje o Lula não conseguiu construir o partido no Rio, porque ele parte do movimento sindical, que lá é denominado intersindical, onde as duas centrais, CUT e CGT, têm uma posição reacionária; é tão reacionária que eles não queriam deixar eu falar no 1o de Maio, na Quinta da Boa Vista. Em 1982 o PT só teve 2% dos votos. Agora em 1986 ele conseguiu uma votação maior porque fez coligação com Fernando Gabeira. Mas isso foi inútil ao PT. O Gabeira não tem seriedade, só fala de prostituição e homossexualismo. Era uma candidatura pra distrair a juventude, essa juventude que só gosta de gozar a vida. Então, no Rio de Janeiro só restava o PDT do Brizola. Nós elegemos três candidatos: um deputado federal, um deputado estadual e um vereador, que tiveram uma soma de votos que foi maior que a diferença de Brizola para o segundo colocado. Se não fossem os nossos votos ele não teria sido eleito.


Aldionor Salgado com o casal Prestes, Lili, Maria Aragão e a equipe do Tabefe

Tabefe – Mas o senhor não se contradiz quando critica o PT, hoje, de querer fazer aliança com o PMDB, se em 1982 o senhor defendia essa mesma aliança em São Paulo?

Prestes – Não. Eu não critico o PT por isso, no momento em que eu afirmava naquele documento que os únicos partidos que não estavam ligados ao Governo Federal eram o PT e o PDT. No entanto, justamente nesse período o Brizola fazia aquela aliança no Rio Grande do Sul com o PDS, o partido mais reacionário que existe. E o Lula estava preocupado em conseguir uma aliança com o PMDB. Felizmente, ele não conseguiu.

Tabefe – Mas o senhor não considera importante pelo menos que haja uma conversa entre os partidos para que se consiga alguma mudança na Constituição, já que o número de constituintes progressistas é bastante reduzido?

Prestes – Conversar é uma coisa, aliar-se é outra. Porque aliando-se ele estará aceitando uma parte do programa do aliado. Tem que haver uma unidade de pensamento entre os dois partidos. E o que é o PMDB hoje? É um partido que tem como presidente de honra o senhor José Sarney. É o partido da reação e totalmente subordinado ao governo. Agora mesmo, Sarney, que tem sede de ser ditador, inverte a situação: resolve escrever um programa e pede aos partidos que o subscrevam. Então os partidos é que vão ficar subordinados a ele, ao invés dele ser subordinado aos partidos? Se os partidos assinarem esse papel estarão se suicidando, porque ficarão subordinados a um imperador que determina tudo. Ainda surgem também os “chaleiras” que estão assinando fora dos partidos, dando apoio a Sarney em busca de cargos públicos. O próprio PCB, que se diz um partido comunista, está se dissolvendo no empreguismo. O senhor Vítor Alves Brito, por exemplo, antigo operário metalúrgico e membro do Comitê Central desse partido, é agora diretor do Detran, uma organização policial. Como é que um membro de um partido que quer passar por revolucionário pode ser funcionário da polícia do regime burguês?

Tabefe – Como se forma um partido verdadeiramente revolucionário, já que, de acordo com suas afirmações anteriores, ainda não existe esse partido no Brasil?

Prestes – Partido revolucionário é aquele capaz de lutar contra a ideologia burguesa da classe dominante, que não poupa esforços para se impor sobre as massas trabalhadoras. Ninguém no Brasil nasce comunista ou revolucionário, todos nascemos sob a influência da ideologia burguesa que é metida na nossa cabeça a martelo. Eu sou pai e sei como a criança aprende e se desenvolve. Na família operária a criança aprende é a luta da concorrência capitalista, o individualismo burguês e o consumismo. Depois vêm os meios de comunicação que estão nas mãos dos grandes empresários. O jornalista pode até ser muito bom, mas se o patrão não o deixa publicar algum artigo progressista ele não o publica, pois corre o risco de ir para a rua. Quem faz a opinião pública no Brasil é a TV Globo do Roberto Marinho, um “americano” que só faz propaganda americana. Para se formar um partido revolucionário no Brasil, portanto, é necessário que se forme um bloco de marxistas que estejam estudando. E já tem muita gente fazendo isto, tanto operários como intelectuais. Eu, há poucos dias, tive uma grande alegria. Conversando com a direção de um sindicato da construção civil, no interior de São Paulo, todas as perguntas que me fizeram eram relacionadas ao marxismo. E há também jovens e intelectuais modestos que fazem cursos universitários e paralelamente estudam o marxismo. É muito importante estudar, porque sem a teoria do proletariado não se formam marxistas num país burguês. Por isso é que nos congressos operários há uma enorme versidade, uma sopa eclética, como diz Engels [filósofo alemão Friedrich Engels], cada cabeça uma sentença. Não se resolve nada porque não há uma unidade de pensamento. Lenin esperou dez anos para fundar o Partido Bolchevique. Ele chegou em Petersburgo, que era a antiga capital da Rússia, em 1893, mas só o fundou em 1903. Lançou inicialmente um pequeno jornal para difundir o marxismo e se meteu nas fábricas para ensinar aos operários a teoria marxista. Foi daí que Lenin tirou os talentos para fundar o partido. Aqui no Brasil isso só vai acontecer quando tivermos um punhado de marxistas. E eles vão surgir, companheiros, é na luta, quando a classe operária irá escolher os seus verdadeiros líderes dentre aqueles que têm uma visão e uma base teórica maiores. E esses líderes é que vão fundar o partido marxista-leninista. Querer fazer isso agora é tolice. Muitos amigos meus me pressionam a fundar um partido, mas eu não entro nessa aventura. Quem quiser que o faça. Se tivesse chegado a hora, já outros o teriam fundado. Na história da humanidade, quando surge a hora de um acontecimento surgem também as condições para realizá-lo.


Felix Alberto na entrevista com Prestes

Tabefe – Qual a sua análise sobre a universidade brasileira atual?

Prestes – A universidade luta com muitas dificuldades no Brasil, particularmente financeiras. O ensino é cada vez mais caro. O filho de operário dificilmente pode frequentá-la, pois para realizar um curso secundário já é difícil. O ensino está nas mãos das escolas particulares e de poucas estaduais, mas estas ainda carecem de material escolar. Nos anos de clandestinidade eu andava nos bairros operários do Rio e São Paulo e verificava que os pais de família faziam questão de colocar seus filhos nas escolas públicas, que eram gratuitas. Mas tinham de comprar o livro e outros materiais, e o salário não dava para isso, pois mal dava para comer. Agora com o Governo Sarney a situação se agrava, pois o salário vem diminuindo ano para ano. Em 1985 estava reduzido à terça parte do que deveria corresponder ao salário real de 1941, ano em que foi instituído o salário mínimo. Já em 1986 caiu para 1/4. Agora em 1987, segundo cálculos do DIEESE [Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas Socioeconômicas], já está reduzido a menos de 1/7. Em números concretos o salário real deveria estar em 19 mil cruzados, mas na realidade ele não passa de 3 mil cruzados. Isso é querer matar o povo de fome. Nunca vi tanta miséria como atualmente.

Tabefe – O que o senhor pensa sobre a religião?

Prestes – O comunista luta pela liberdade, pela democracia, completa liberdade de pensamento e, portanto, pela prática de qualquer religião. Isto é que é ser democracia. Não pode haver socialismo sem democracia. Essa questão de socialismo democrático não existe, isto é pleonasmo, não tem razão de ser. São pessoas que são contra o socialismo na União Soviética que usam esse adjetivo. O Brizola e o Lula falam isso. No Brasil, em 1945, quando saí da prisão, escrevi um folhetim que tem o mesmo conteúdo do “Fidel e a Religião”, de Frei Betto. O nosso partido é um partido político [refere-se ao comunismo]. Não trata nem de religião, nem de filosofia, nem de ideologia. Nós temos um programa político. Não temos nenhuma contradição com a igreja, enquanto esta não faz política. Quando a Igreja apresenta os seus candidatos, então há diferença entre os nossos e os dela. Mas o respeito tem que ser mútuo. Até 1964 a Igreja Católica no Brasil era o nosso pior inimigo. Quando ganhamos a liberdade em 1945, enviamos Jorge Amado ao Crato e de lá ele teve que sair corrido porque queriam matá-lo. Eu ia às cidades do interior de São Paulo fazer comício e nas praças a Igreja fazia meu enterro simbólico. Até 1964 foi assim. E foi a Igreja ainda quem organizou aquela grande manifestação em São Paulo que reuniu mais de um milhão de pessoas [a Marcha da Família com Deus pela Liberdade] com as bandeiras do anticomunismo. Ela preparou ideologicamente o Golpe de 1964, dirigido particularmente a operários e camponeses. Daí que logo depois disso eles passaram a lutar contra o regime instaurado no governo de Castelo Branco. Foi aí que a Igreja percebeu que se não mudasse de posição isolaria-se das massas. Então, dentro do clero brasileiro começou a surgir uma facção, um grupo que já não formava aquela posição anticomunista. Esse grupo passava a lutar ao lado da classe operária e camponesa e contra a ditadura militar. E de lá para cá esta cisão tendia a aumentar, mas foi redefinida por alguns fatores. O Concílio Vaticano II, convocado por João XXIII, um papa progressista e acima de tudo um camponês ligado ao povo, dividiu o Vaticano em uma ala reacionária e outra progressista. O reflexo desta divisão facilitou muito o trabalho dos católicos no Brasil. Passaram a lutar, portanto, ao lado dos comunistas que desde o início se opuseram à tirania. Mais tarde surgiu a Igreja da Libertação que não foi inicialmente reconhecida pelo Vaticano. Essa Teologia da Libertação começou a avançar. Há alguns meses, uma das organizações ideológicas do Vaticano enviou um documento à CNBB dizendo que teologia era uma só, que não podia haver Teologia da Libertação. Mas um mês depois o próprio papa João Paulo II enviou um outro documento à mesma CNBB ressaltando que a Teologia da Libertação era útil e necessária à Igreja. Portanto, não fazemos nenhuma objeção à questão religiosa. Respeitamos as crenças de cada pessoa. E a prova disso é que quando Leonardo Boff e outros que fazem a Teologia da Libertação visitaram a União Soviética voltaram dando entrevistas que diziam que lá a liberdade religiosa é total. Não há nenhuma restrição, tanto para a Igreja Ortodoxa, que apoia o Estado, como para outras, inclusive a Católica.


José Luís Diniz, Cidinha Pires e Prestes

Tabefe – E sobre Deus?

Prestes – Eu pessoalmente não acredito em Deus, já adotei a filosofia materialista. Tenho a mesma opinião de um grande filósofo do século XVIII que diz que essa questão de Deus é uma hipótese desnecessária. A verdade é que não explica nada, pois se há um Deus que criou tudo, quem criou Deus? Foi outro Deus?

Tabefe – Para finalizar, gostaríamos que deixasse a sua mensagem aos jovens.

Prestes – A mensagem que deixo é que estudem. Utilizem a juventude para acumular conhecimento das sociedades anteriores à atual, porque isso é que é fundamental. E estudem a teoria do proletariado, que é a única que servirá de base para o Brasil avançar no caminho do progresso. Só assim acabaremos de vez com essa sociedade capitalista injusta em que toda riqueza se acumula nas mãos de uma minoria, acarretando a miséria cada vez maior das grandes massas, para se chegar a uma outra sociedade, livre efetivamente da exploração do homem pelo homem.

(Entrevista concedida a José Luís Diniz, Socorro Rios, Cidinha Pires e Felix Alberto)

(Fotos: arquivos pessoais de Félix Alberto, Cidinha Pires e reprodução do jornal "O Estado do Maranhão")