domingo, 14 de agosto de 2016

Fragmentos de algumas conversas com Jomar Moraes



Durante alguns anos frequentei a casa de Jomar Moraes na rua das Jaqueiras do Jardim Renascença, em São Luís, e com ele joguei conversa fora sobre literatura, política e banalidades. Em alguns desses encontros ouvi bem mais do que falei, fiz apontamentos e juntei muitas histórias de um Jomar que aqui e ali caía doente ou esquivava-se do convívio social nos surtos de depressão. Editamos juntos Canção do abandono, de Olympio Cruz, e planejamos outras publicações que ficaram na poeira da estrada.

Jomar Moraes partiu pra outra jornada neste domingo 14 de agosto. A literatura perdeu um guardião aguerrido. O Maranhão perdeu um notável homem de letras, provedor dos projetos de edição literária sobre temas e nomes maranhenses mais importantes das últimas quatro décadas.

Certa vez perguntei a ele: quem deve mais a quem? Jomar à Academia Maranhense de Letras ou a Academia a Jomar? “Acho que esse jogo sai empate”, respondeu, em tom de brincadeira. “Devo muito à AML, mas, sem modéstia, ela também me deve. Fiz muito por ela, reconheço. Na verdade dei à Academia uma presença que ela não tinha”.

Em boa parte do tempo sentado na sua biblioteca, de bermuda e sem camisa, rodeado por mais de 30 mil títulos, Jomar era um apaixonado por livros e incentivador da leitura. Aos 60 anos começou um curso de mestrado na Universidade Federal do Maranhão. “Para muitos, isso pareceu uma coisa absurda. Fui desencorajado por alguns amigos. No próprio curso, quando me perguntavam por que eu estava ali, não titubeava: - Professores, estou aqui porque quero saber mais”.

Jomar Moraes publicou alguns livros – o primeiro deles em poesia; os outros, de crônicas – mas notabilizou-se por reeditar, com estudos críticos, obras de grande relevância para a história da literatura maranhense e universal. “Carrego essa vontade de publicar obras de outros autores. Isso me dá um enorme prazer. É um viés do meu trabalho. Procuro trazer de volta ao interesse público aquele autor que acho que tem importância, e por isso procuro fazer alguma coisa”.

Abaixo transcrevo, no primeiro plano, parte dos apontamentos que fiz de histórias contadas por Jomar Moraes sobre ele mesmo, a origem da família, percalços e superações nas muitas vidas que empreendeu. No segundo plano está o texto O mestre colecionador de palavras, que publiquei no jornal O Estado do Maranhão a 17 de maio de 2009, ainda nas comemorações dos 70 anos de Jomar e por ocasião do lançamento da terceira edição do Dicionário histórico-geográfico da Província do Maranhão, de César Augusto Marques, por ele publicado.


Pela porta da frente

Aquele início de manhã nublada prenunciava um dia de chuva forte. Sob o céu fechado de São Luís estava em curso o processo de escolha do futuro ocupante da Cadeira 10 da Academia Maranhense de Letras, declarada vaga com a morte do desembargador Henrique Costa Fernandes. De um lado, Fernando Braga, 25 anos, bacharel pela Faculdade de Direito do Distrito Federal, estreante nas letras com o livro de poesia Silêncio branco (1967) e freqüentador das tertúlias literárias do Bar Atenas e da república dos Apicuns infestada dos acólitos de Erasmo Dias; do outro, Jomar Moraes, 29 anos, ex-sargento de polícia, postalista dos Correios, também estreante nas letras com o livro de poesia Seara em flor (1963) e autor dos ensaios Graça Aranha (1963) e Vida e obra de Antonio Lobo (1969), este último premiado pela Academia Maranhense de Letras.

Era 10 de maio de 1969. As trovoadas políticas do período ecoavam pelo Brasil. Governado pelo general linha-dura Artur da Costa e Silva, o País vivia os efeitos do regime militar iniciado em março de 1964. Céu de chumbo, pancadas de chuva. Estava em vigor havia poucos meses o Ato Institucional nº 5, o temido AI-5, assinado por Costa e Silva, que feria de morte a já combalida democracia brasileira, com a suspensão dos direitos civis, e abria caminhos para um enredo de torturas, mortes e prisões nos soturnos porões da ditadura.

São Luís era somente a pacata capital do Maranhão. No Bar Atenas, onde também se ouvia falar de revolução, o jornalista, polemista e boêmio Erasmo Dias cantava antecipadamente a vitória de Fernando Braga. “Jamais o mulato-jenipapo vencerá Nandinho, o filho da minha alma”, profetizava. No Jornal do Dia, a coluna Roda Viva, assinada por um certo J. Amparo, estimulava o debate sobre a eleição na AML e abertamente torcia pelo ex-sargento de polícia. Roda Viva era uma coluna de prestígio nos campos político, empresarial e cultural, pelo trânsito livre e boa articulação do seu editor. Mas Braga contava com apoios importantes e circulava com desenvoltura no meio intelectual da cidade. Tudo isso ajudava a fechar o tempo dentro e fora do ambiente da disputa.

A tarde de chuva intensa apontava para uma eleição com desfecho imprevisível. Por trás das cortinas da academia estavam os apoiadores dos candidatos a cabalar votos. De lado a lado, faziam as contas e somavam adesões de última hora para uma guerra de nervos forjada na combustão de torcedores apaixonados. Jomar acompanhava o relampejo num quarto de pensão de dona Joana Abílio Barros, onde morava, à rua de Santo Antônio, número 196. Pelo que vira e ouvira no meio acadêmico às vésperas da eleição, não seria o aguaceiro da tarde a fazer minguar o indisfarçável otimismo. Eram apenas promessas de voto, desconfiava Jomar. Mas não abria mão da certeza de que venceria a disputa em primeiro escrutínio.

Era chuva de vento e J. Amparo capitulava na informação. Voltara desanimado de uma visita ao Café Sertã, no Hotel Serra Negra. Lá soubera de mudanças de voto repentinas, de traições de eleitores tidos até então como fiéis. A notícia deu a Jomar o combustível suficiente para enfrentar as tormentas e sair à caça dos acadêmicos indecisos. E das esfinges.

J. Amparo, sabia-se, era Benedito Buzar, jornalista, advogado, professor e pesquisador. Cinco anos antes tivera o mandato de deputado estadual cassado pelo regime militar. Buzar fora escalado para acompanhar a apuração dos votos na AML. “Lembro-me que o mestre Salomão Fiquene, meu eleitor certo, demorou-se em casa, preso pela chuva. Fui, com Buzar, à casa dele, na rua Grande, e o encontramos de saída, apesar do aguaceiro que caía. Disse-lhe: - Professor, preciso muito do seu voto certo. Temo que o mau tempo impeça alguns acadêmicos de irem à Academia. Sinto-me como Napoleão, derrotado pelo General Inverno. Fiquene sorriu e me tranqüilizou, afirmando que votaria em mim, até mesmo se chovesse canivete”, relata Jomar em crônica publicada 20 anos depois daquela eleição, no caderno de cultura do jornal O Estado do Maranhão.

Salomão Fiquene estava no rol dos 21 eleitores – dentre os 39 acadêmicos habilitados - que dariam a Jomar Moraes a vitória em primeiro escrutínio. À boca da noite o resultado chegava em prosa e verso ao Moto Bar, no Largo do Carmo, onde já se encontravam Jomar e um grupo de amigos enfiados em garrafas de álcool e guaraná. A comemoração entrou pela madrugada. “Apesar do tempo transcorrido, os fatos permanecem vivos em minha lembrança”, escreveria Jomar na crônica dos 20 anos da eleição. Lembrança de que o tempo, embora fechado pelo peso das nuvens, nem sempre é sinal de mal presságio.

Mas quais forças Jomar - que havia deixado a farda de policial dois anos antes - arrebanhara para aquela eleição?

O professor Luiz Rego era o secretário-geral da AML, uma espécie de diretor executivo da instituição. Comandava a Academia em substituição ao presidente de fato, o jovem José Sarney, afastado que estava para se dedicar à administração pública. Entre 1967 e 1969, Luiz Rego promovera quatro concursos literários pela AML. E Jomar Moraes vencera três deles. “Com isso, de certa forma, deixei de ser um anônimo para a Academia, casa que passei a frequentar para receber os prêmios”. A vitória nos concursos literários servira de passaporte para a notícia que Buzar alegremente fazia chegar ao Moto Bar.

Foi a Luiz Rego que Jomar recorreu quando soube que a Cadeira 10 estaria vaga. Com timidez desconcertante, perguntou-lhe se poderia se inscrever à sucessão do acadêmico Henrique Costa Fernandes. Da conversa que lhe ofertaria o entusiasmo definitivo, Jomar recorda de alguns trechos:

– Professor, estou pensando em me candidatar à vaga na Academia. O que o senhor acha?
– Meu caro, candidate-se.
– O senhor acha que devo me candidatar mesmo?
– Ora, a Academia já disse três vezes que você é bom. Não é possível que agora vá desmenti-lo.



Outras palavras de incentivo partiram do cônego José de Ribamar Carvalho, reitor da então Fundação Universidade do Maranhão. Jomar, enamorado da obra de Sousândrade, fora pedir patrocínio ao reitor da universidade para editar Harpa de oiro, de autoria do poeta maranhense. Da longa conversa e do livro publicado naquele mesmo ano com o selo da fundação surgira a amizade. “Foi uma questão de pura empatia”, relembra. Segundo Jomar, Ribamar Carvalho foi o primeiro acadêmico a lhe estender a mão:

– Você deve se candidatar à Academia. Você é novo – disse o cônego a Jomar.
– Mas eu não tenho condição.
– Tem condição, sim. Vou lhe ajudar. Quando você se candidatar venha aqui. Conte comigo. Vou recorrer aos amigos e pedir votos a você.

Eram apoios que faziam a diferença. O escritor maranhense Josué Montello, entronizado na Academia Brasileira de Letras desde 1955 e já com alguns livros publicados pelas renomadas editoras Nova Fronteira e José Olympio, tinha o peso de eleitor ilustre. Era membro efetivo da AML desde 1948. Em 1969, Montello morava na França, onde ocupava o cargo de conselheiro cultural da Embaixada do Brasil em Paris, e pouco sabia sobre os concorrentes à vaga de Henrique Costa Fernandes. Jomar não perdeu tempo e escreveu a Montello apresentando-se como jovem escritor do Maranhão. Falou de suas incursões iniciais pela literatura e pediu-lhe o apoio na eleição da AML. Em carta afetuosa, Montello respondeu a Jomar declarando-lhe o voto.

Da água para o vinho

Noite de posse na Academia Maranhense de Letras. Era 6 de agosto, quase dois meses depois da eleição. Na véspera, Jomar fora ao Palácio dos Leões, sede do governo, convidar José Sarney para a solenidade. O governador parabenizou-o pela eleição e confirmou presença. E com Sarney quase todos os secretários de estado foram à sede da AML. A sessão ganhara ainda mais importância para Jomar Moraes e para muitos que o olhavam com certa indiferença. “Um governador vai presidir a posse de um ex-soldado na Academia”, pensava alto Jomar, entre incrédulo e assustado.

Sarney, segundo Jomar, não era apenas um governador. Mas um tipo novo de governador que quebrou paradigmas. De muita estampa e prestígio. Não era um político qualquer. “Não há páreo para ele na política maranhense. Não conheço nenhum outro governador como ele. Era um semideus. Um cara novo e bonito que deixou sua marca logo no início da gestão”, relembra Jomar.

Eleito governador em 3 de outubro de 1965, aos 36 anos, Sarney rompeu com um ciclo de décadas de domínio político de Vitorino Freire. Governou o Maranhão de 1966 a 1971. A posse como governador foi filmada por Glauber Rocha e transformada no documentário Maranhão 66, que integra o emblemático acervo de fitas do Cinema Novo. Antes de entrar na política, foi repórter do jornal O Imparcial e frequentou reuniões literárias na Movelaria Guanabara ao lado de Ferreira Gullar, Lago Burnett e Bandeira Tribuzi, entre outros jovens intelectuais da época. Em 1952, aos 22 anos, fora eleito para a Cadeira 22 da Academia Maranhense de Letras, em substituição a Raimundo Feliciano Corrêa da Silva. Dois anos depois estreou na literatura com A canção inicial.

Sarney, que em 1980 ingressaria na Academia Brasileira de Letras, presidiu a AML de 1966 a 1969. Como governador, abriu as portas do Palácio dos Leões para a cultura popular do Maranhão.

Luiz Rego aproveitou-se do prestígio de que desfrutava o governador para promover ainda mais a Academia com a realização de eventos e concursos importantes.

A Academia Maranhense de Letras foi fundada em 10 de agosto de 1908, data do 85º aniversário de nascimento do poeta Gonçalves Dias, e instalada solenemente em 7 de setembro do mesmo ano. Compunham o grupo de fundadores Antônio Lobo, Alfredo de Assis Castro, Astolfo Marques, Barbosa de Godois, Corrêa de Araújo, Clodoaldo Freitas, Domingos Barbosa, Fran Paxeco, Godofredo Viana, I. Xavier de Carvalho, Ribeiro do Amaral e Armando Vieira da Silva. Instituída no ato da fundação com 20 cadeiras, somente com a reforma estatutária de 1946 a AML passou a contar com o número atual de 40 cadeiras.

A Cadeira 10 tem como patrono o escritor, médico, educador e político Antônio Henriques Leal, autor, dentre outras peças literárias, dos quatro volumes que formam o Panteon Maranhense. A cadeira foi fundada por Raul Astolfo Marques, que teve parte de sua produção literária publicada na Revista do Norte. Com a morte de Astolfo Marques, foi eleito para substituí-lo, em 6 de abril de 1919, Luiz Antônio Domingues da Silva, que faleceu antes da posse. Vaga por um longo período, a Cadeira 10 passou a ser ocupada, em julho de 1948, pelo desembargador Henrique Costa Fernandes, que falece em 1969.

- Dedicado ao Direito, em que, após bacharelar-se, conquistou com brilhantismo o grau de doutor, Henrique Costa Fernandes inscreveu-se entre os grandes jurisconsultos maranhenses de seu tempo – frisara Jomar Moraes no seu discurso de posse na AML.

Olhar fugidio diante de uma plateia seleta, gestos medidos e comedidos, terno escuro, Jomar desembainhara naquela noite de posse o discurso da simplicidade: “Aparentemente não estava no roteiro de peregrinações do moço humilde, nascido pobre de bens materiais, que na ânsia de lutar pela vida já foi tudo quanto nada seja, esta passagem pela Academia”.

No discurso, Jomar falou de sua origem, do nascimento na mesma Guimarães maranhense que deu ao mundo Sousândrade e Urbano Santos e do legado intelectual dos Moraes que deixaram Portugal no final do século 19 e fixaram-se no Maranhão.

Jomar recordou que fora chamado pelo professor Carlos Cunha para datilografar o seu discurso de posse como membro da Academia Maranhense de Letras. “Certamente desejando pagar-me os serviços prestados, deu-me as sobras do papel que lhe fora especialmente presenteado pelo nosso comum amigo em Caxias, industrial José Castro, com a seguinte recomendação: - Guarde esse papel com muito cuidado. Nele escreverás o teu discurso de posse na Academia. Os tempos passaram, e eu não alimentava pretensões de, pelo menos tão cedo, ingressar na Academia. Mas guardei o papel. E ele está aqui”, disse Jomar, exibindo as folhas à plateia.

Para deixar consignado que não ficara qualquer ranço da disputa pelos votos dos acadêmicos, Jomar fez de seu discurso uma celebração aos excluídos: “Desejaria ser, aqui, intérprete e porta-voz dos anseios e das aspirações dos que ficaram lá fora, a provar que, em se tratando de maranhenses, 40 cadeiras não bastam para quantos sejam ilustres e inteligentes”. No livreto Cadeira 10, lançado pela revista e editora Legenda meses depois com os discursos da noite de posse, Jomar Moraes usou como epígrafe o seguinte fragmento de poema de Fernando Braga, com quem disputara a vaga na Academia:

Cheguei e não trouxe flores.
Trago em meu rosto o sangue
de todos os inconformismos.


Em discurso de saudação, o escritor Antônio de Oliveira destacou a trajetória profissional do novo acadêmico, com referência à produção jornalística de Jomar Moraes na revista Legenda e aos prêmios literários por ele conquistados. “A mocidade, mais uma vez, acaba de obter o almejado ingresso neste Cenáculo, através de uma de suas mais representativas figuras”, bradou Oliveira, que, para ilustrar o discurso, recorreu a um pequeno texto autobiográfico que recebera de Jomar Moraes às vésperas da posse. Em poucas linhas, o novo ocupante da Cadeira 10 da academia expõe a história de um homem simples e maior que as adversidades do destino, sem nenhuma reserva de modéstia:

“Dizes que ainda não tens minha biografia. Eu também não a tenho ainda. Sou um sujeito sem história alguma. O que te poderia dizer, assim de supetão, é que conto 29 anos de idade, sou detentor de três prêmios literários de nossa Academia e, antes que me iniciasse na imprensa daqui, já o fizera, desde os 14 anos, em jornais e revistas do Rio e São Paulo. No Rio publiquei meu primeiro livro, aos 23 anos. E não conheço o Rio. Comecei a vida de maneira muito humilde, tendo que sentar praça como soldado de nossa Polícia Militar, onde cheguei ao “elevadíssimo” posto de 3º sargento. Fui delegado de polícia em duas cidades do interior maranhense, uma das quais – Buriti Bravo – é o chão do meu amor. Lá encontrei minha esposa. E de lá são também meus três filhinhos. Sou o único indivíduo a ter o título de cidadão honorário de Buriti Bravo. O único! Hoje, sou funcionário público federal, postalista, por concurso em que brilhei, graças a Deus. Sou muito pobre e sempre fui. Mas sempre venci conquistando; jamais pedindo, naquela postura subserviente que, segundo o Padre Vieira, humilha e deixa o cabra moralmente aniquilado.
Sinto que não tenho mais história. Mas a verdade é que nunca me faltou disposição para lutar pela vida. E, a considerar de onde venho, já fiz muito; embora nada seja, já o “murro”, como se diz.
Em Buriti Bravo, ajudei a fundar o Ginásio Presidente Kennedy, que neste ano forma sua primeira turma. Quando, mês passado, o vi desfilar, chorei. Acho que já dei sentido e explicação à minha vida. Lá também fundei e presidi o Centro Cultural Felix Aires e os jornaizinhos semanais A Luz e O Eco, ambos por mim escritos e mimeografados. A duras penas.”


Após ler o pequeno trecho, Antônio Oliveira emendou: “Um dia, quando escreverdes as vossas memórias, rogo-vos desde já a inclusão nelas deste capítulo, digno da pena de um Raul Brandão ou, sem sair de casa, de um Humberto de Campos. Pela amostra, sois um memorialista nato. Obrigado, porque assim me poupastes de improvisar a vossa biografia. E agradecido, também, pelo gozo do bem urdido trecho de prosa”.

O efeito do discurso de saudação somado à presença do governador e secretários na solenidade de posse ditou o caminho que Jomar Moraes percorreria daquela noite em diante. “Tudo mudou da água para o vinho”, recorda Jomar, que em 1969 publicou o livro Vida e obra de Antônio Lobo – um dos trabalhos vencedores de concursos da AML - com prefácio de José Sarney. “As pessoas passavam na rua, me reconheciam e cumprimentavam”.

Na introdução do livreto Cadeira 10, o cônego Ribamar Carvalho tece suas impressões sobre o vigor de uma mocidade que, “encasulada na esperança, começa a espanejar as asas para o voo largo da inteligência”. Jomar Moraes, na avaliação de Carvalho, chegou à Academia como ícone de uma geração de jovens embalada pela coragem de ousar, “com condições de substituir os que tombam, mas sobretudo capaz de energizar valentemente as forças combalidas da ilustre academia”.

De Cumã a Guajarutiua

José Alípio de Moraes Filho, o Moraes Filho, não viveu o suficiente para ver Jomar alçar “o voo largo da inteligência” vaticinado pelo cônego Ribamar Carvalho. Exímio professor de música e maestro de banda, aventureiro nascido em São Bento (MA), a 27 de abril de 1883, Moraes Filho ocupou a cadeira de instrumentos de sopro da antiga Escola de Belas Artes do Maranhão e ensinou música e canto orfeônico no Instituto Cururupuense. Destacou-se na batuta e na pena e suas composições sacras e teatrais, principalmente, ganharam a simpatia da imprensa regional e do público.

Espírito cigano, o pai de Jomar Moraes foi homem de muitas mulheres, “um hippie precoce e de boa leitura”, segundo o próprio filho. De São Bento, ainda cedo seguiu para São Luís, no começo do século 20. Não demorou muito na capital maranhense. Seduzido pelo canto promissor do ciclo da borracha, rumou para a região Norte, passou uma temporada no Alto Xingu, no Amazonas, até fixar residência em Belém (PA). Lá começou a trabalhar no corpo de bombeiros, onde se destacou como maestro da banda da corporação. Pouco afeito ao mundo dos negócios, abandonou os projetos do látex para enveredar no mundo da música. Trocou o sonho dos cifrões pelas cifras dos grandes compositores.

Em Belém, onde passou a primavera da juventude, Moraes Filho dedicou-se por inteiro à música e experimentou com desmedida intensidade paixões avassaladoras. Como que desafiado pela alma cigana, o destino pôs no caminho de Moraes Filho duas espanholas. A primeira delas foi Carmem. A segunda, Concepción Alonso de Moraes.

Com Concepción viveu romance que lhe marcaria a vida inteira. Ela suicidou-se em casa, no auge da mocidade, com um tiro de revólver. A arma, que Moraes Filho guardava no armário do quarto modesto, pertencia ao corpo de bombeiros. Por muito tempo ficou latente a dor da desilusão e do sentimento de culpa.

Em 30 de outubro de 1914, Moraes Filho publicara no jornal paraense Folha do Norte o soneto ?Crimen o no?, com a seguinte dedicatória: “A la memoria de mi inalvidable esposa, Concepción Alonso de Moraes, cuya vida fué el mayor arrombamiento de mi vida”. A pedido do poeta Corrêa de Araújo, o poema fora reproduzido algum tempo depois no jornal maranhense A Pacotilha. Ei-lo:

Cerraste para siempre, con ternura,
Tus ojos refulgentes de alegria,
Cejida por la muerte prematura
Quedé com vida y muerto de agonia.

Pero el silencio de la sepultura,
esa morada lúgubre, sombria,
?te lo daria acaso uma locura?
Nadie logro saberlo todavia.

?Tendrias, pues, con manos criminales,
cambiado el ciclo (gozos divinales)
por mi ardiente y apasionado amor?

?Juzgar de ti tan cruda ingratitud?...
!No! Seria dudar de tu virtud.
Solo al destino devo mi dolor.


Avesso à possibilidade de criar raízes no Pará, Moraes Filho retornou a São Luís e, algum tempo depois, casou-se com Francisca Holanda Cavalcanti, a Sinhá, com quem tivera os filhos Joina, Jisa e Jofran. Em homenagem a Sinhá, Moraes escrevera o soneto Consolação, a 28 de novembro de 1923. Em um dos trechos, ele acena para o desfecho: “Dorme, tranquilo, pois, anjo bendito:/ Já me foi vindo outro anjo do infinito,/ Que o teu sentir encarna e o meu entende”.

Os sonetos dedicados a Concepción, Sinhá e outras musas estão incluídos no livro Um punhado de rimas, lançado por Moraes Filho em 1959 por iniciativa de amigos da cidade de Santa Inês, por onde perambulou o nômade em dado período da vida. No texto de apresentação da obra, o autor explica que decidiu exumar velhos escritos de um gavetão adormecido pelo tempo para enfeixá-los num livro: “Não rabisquei para determinada classe, mas para várias, menos a fina flor, visto que para esta não se rabisca: escreve-se”.

As quase três dezenas de poemas do livro denotam a personalidade extravagante de um homem refém da incerteza, ora vagando na felicidade, ora expondo-se às amarguras do cotidiano.

(...)
Pelos cuidados da vida
É tolo quem se molesta.
O que bem sabe viver
Traz a alma sempre em festa.
(Em Trovas alegres)

(...)
Ai! Deus meu, tem piedade!
É grande o meu desconforto!
De tanto sofrer na vida,
Não sei se estou vivo ou morto!
(Em Trovas tristes)


Apesar da embocadura literária, Moraes Filho não alcançou títulos formais na escola e mal concluiu o curso ginasial da época. Tinha boa leitura e era um compositor de mão cheia. Por onde passou deixou rastros de farras, leu os lugares e seus personagens, ergueu amores em cada paragem, organizou bandas e fanfarras. Chegou a ensinar música a muita gente – como ao maestro João Carlos, pai da cantora maranhense Alcione - e sua cultura musical foi a base para a formação da banda da Polícia Militar em São Luís.

Filho do maestro José Alípio de Moraes e de Teresa Porciúncula, jovem de família tradicional que deu até governador do estado do Rio de Janeiro - hoje Porciúncula é nome de cidade -, Moraes Filho herdara do sangue lusitano a vocação para as letras e a música. José Alípio era filho de José Gil de Moraes, que deixou Portugal com destino ao Maranhão no século 19 juntamente com o irmão Manuel Gil de Moraes. Um outro irmão de José Alípio e José Gil radicou-se na Bahia. O avô de Jomar Moraes casou-se com Teresa em São Luís. Já morando em São Bento, o casal teve 18 filhos, dentre eles Moraes Filho.

Separado de uma Sinhá já doente, Moraes Filho mais uma vez deixa São Luís para trás e toma o caminho de Guimarães (MA), num roteiro de aventura e vadiagem. Depois de flautear pelas festas do interior, homem experimentado já na casa dos 40 anos, ele conhece a ingênua Marcolina Cyriaca da Silva, a Camim, então com 15 anos de idade. Marcolina, filha de uma costureira e de um mestre de barco que havia morrido num naufrágio, logo nos primeiros encontros engravidou de Moraes Filho e deu à luz, em 6 de maio de 1940, Jomar da Silva Moraes, na praia de Cumã, em Guimarães.

Nascida em 16 de março de 1924, Marcolina foi uma mãe zelosa, dedicada ao lar e prendada no preparo de doces e bebidas. Uma dona de casa que aprendeu a tocar violino com o marido. Do casamento com Marcolina nasceram também Jaran, Jacir, Jocil, Joila, Jairon (já falecido) e Jeisa. Todos com a inicial J, de José Alípio de Moraes Filho. Jomar é provavelmente a combinação dos nomes José e Marcolina. Um verbo de ligação, talvez.

Jomar Moraes foi o único dos filhos que nasceu em Guimarães. O destino aventureiro de Moraes Filho o desafiara a ir adiante. Em Carutapera nasceram os outros seis filhos. Casa cheia, a família humilde passou por períodos de dificuldades. Apesar do dinheiro curto, Moraes Filho não deixava faltar o pão de cada dia. “A casa está quieta com a gente dentro”, dizia sempre.

A família Moraes deixou Guimarães quando Jomar tinha 6 meses de vida e atracou na praia de Guajarutiua, a caminho de Cururupu (MA). De lá seguiu para Carutapera (MA), onde Jomar morou até os 14 anos de idade. Pequena cidade do interior, Carutapera não era diferente da maioria dos municípios do Maranhão: sem infraestrutura e com parcos investimentos em educação.

Moraes Filho, um homem de cultura que bebia moderadamente e apreciava o cheiro da fumaça do cigarro, desconfiado da qualidade do ensino da única escola do município, tomou a radical decisão de deixar os filhos de fora da educação formal. Preferiu ele mesmo ensinar em casa. Passou a ser o professor dos filhos e adotou a sua própria pedagogia. Mas a estratégia não funcionou, pelo menos com Jomar. Não pela didática de Moraes, mas porque já havia uma predisposição de Jomar a não aceitar aquele ensinamento de improviso, dentro de casa. Pagou caro pela resistência: o franzino Jomar apanhou muito por não aceitar as lições do pai. E não foram poucos os castigos. “Fiquei sem freqüentar a escola pública e sem aceitar a escola doméstica”, recorda.

O fato de insurgir-se às lições do pai provocava sérios aborrecimentos dentro de casa. Jomar recusava-se, principalmente, a aprender a ler. “Meu filho é um burro. Deixa isso de mão”, dizia o velho Moraes, já desencantado. Mas Marcolina não desanimava.

Foram essas provocações do pai que despertaram em Jomar o desafio de aprender a ler sozinho. “Isso mexia muito comigo, e me sentia desafiado o tempo inteiro”. Jomar então cedera aos apelos da mãe. E por estímulo também da revista O Cruzeiro. “Meu pai era assinante e eu sempre recorria à revista para descobrir o que aquelas fotos queriam dizer”. Claro que das lições frustradas de Moraes Filho alguma coisa floresceu no aprendizado solitário do filho rebelde.

Outro fator de apoio na leitura foi a letra do Hino Nacional que estampava a contracapa do caderno de atividades. Jomar usava um papel transparente sobre o hino e, ao cantá-lo, descortinava letras e palavras. Depois de muito esforço, aprendeu a ler aos 12 anos. Em casa foi aquele susto.

- Seu Moraes, o Jomar lendo – gritou Marcolina.
- Deixa de bobagem, Camim, esse menino não aprende – resmungou Moraes.
- É verdade, mostre para o seu pai – disse a mãe, entregando uma revista a Jomar.

Claro que Jomar leu as primeiras frases da página, o que deixou o pai envaidecido. Mas não se entregou. Deixando escapar uma certa desconfiança, Moraes esbravejou:

- Agora é preciso estudar mais ainda!

Dedicação não faltou dali em diante. Mas nem tudo estava resolvido. A leitura já não era problema, porém faltava aprender a escrever. Foi então que Moraes Filho empenhou-se decididamente nas lições, e Jomar colaborou. “Minha letra nunca foi boa, não é uma letra bonita”, conta Jomar, com o argumento de que a caligrafia ficou quase incompreensível depois de ter sido vítima de um AVC. Outro desafio foi aprender a fazer as contas de matemática.

Jomar conviveu com o pai até os 20 anos de idade. “Aprendi muito com ele. O gosto pela literatura vem daqueles tempos. O período em que ficamos juntos foi de muitas conversas, muito aprendizado”. Das leituras iniciais, Jomar diz lembrar-se de um exemplar da Bíblia que a mãe guardava na estante da sala. “Li por duas vezes, do Gênesis ao Apocalipse”.

Um soldado raso, uma dor profunda

Pelo rádio, chegava ao Maranhão a notícia do suicídio do presidente Getúlio Vargas, que não suportara as pressões de militares e da imprensa sobre o seu governo. Era 24 de agosto de 1954. Naquele dia a família Moraes partia de Carutapera para São Luís em busca de oportunidades. Da janela do monomotor, Jomar observava de cima a ilha grande recortada por rios e circundada pelo Atlântico. Curioso, logo na primeira viagem procurava desvendar os primeiros mistérios da cidade das muitas lendas contadas pelo pai.

Os Moraes ficaram hospedados por uma semana no bairro do Desterro, na casa de Mariano Negreiros, padrinho de Jomar. São Luís atraía, principalmente, pelas perspectivas de estudo para os filhos. Mas o perfil cigano e o estilo visionário de Moraes Filho falavam mais alto. E mais uma vez estavam de partida o casal e os sete filhos. Primeiro para Vitorino Freire, onde permaneceram até 1958; de lá seguiram para Santa Inês, onde viveram por um ano de um pequeno comércio. Foram cinco anos pelo interior até o retorno à capital em 1959, “com uma mão na frente e outra atrás”.

Jomar Moraes chegara a São Luís aos 19 anos, sem nenhum título escolar, mas já com a lição completa: sabia ler, escrever e conhecia as principais operações de aritmética. “O meu conhecimento até então era fruto da minha fome de leitura. Era uma lição de casa, mas lição completa”, relembra.

A primeira morada em São Luís foi numa pequena casa alugada no bairro do Belira. Moraes Filho não tinha emprego fixo. Vivia de bico dando aulas de música, o que nem sempre garantia o sustento da família. Jomar, acompanhando de perto as dificuldades do pai, saiu em busca de emprego pela cidade. Queria ajudar em casa. Depois de intensa procura e muita porta fechada, soube pelo jornal de um concurso para soldado da Polícia Militar do Maranhão, que não exigia formação escolar.

Só havia um problema: Jomar tinha 19 anos, e a idade mínima de 21 anos era requisito obrigatório para a inscrição no certame. Sem consultar a família, refletiu bastante até tomar a decisão de forjar um registro civil adulterando a idade para atender às regras do concurso. Inscrição realizada, submeteu-se a uma prova de aritmética e a um ditado. Fora aprovado com distinção, para tristeza da família Moraes. O pai jamais compreendera aquele desatino do filho. Por forjar a idade e, principalmente, por ingressar na polícia.

O velho Moraes relutava, antes da nomeação do filho:

- Você não vai ser soldado – dizia ele.
- Vou, claro que vou, porque é lá onde posso trabalhar sem pedir nada a ninguém – reagia, determinado.

O preconceito com a polícia, naquela época, era muito mais acentuado do que atualmente. A sociedade via o policial como um profissional menor, desqualificado. Quem não dava certo em outra atividade profissional entrava para a polícia. Jomar fora nomeado em dezembro de 1959. Usou farda de soldado raso e foi trabalhar na rua. Fez o policiamento em bairros e praças e foi sentinela do Palácio dos Leões, sede do governo estadual. Não gozou de qualquer privilégio. Tudo o que recebia – o equivalente a um salário mínimo - era destinado às despesas de casa.

Entusiasmado com a profissão, no início da carreira Jomar chegou a pensar em seguir a carreira militar como oficial. Mas não havia curso em São Luís. Inscreveu-se então num seletivo para cabo da polícia e passou em primeiro lugar. Em 19 de abril de 1961, no meio do curso para a formação de cabo, a morte de Moraes Filho, aos 78 anos, deixou a família sem chão. Era o pai amável, o marido carinhoso, o senhor da boa música, o trovador das noites de boemia, o provedor da casa.

Encurralado entre a resignação e o sentimento de dor profunda pela partida do pai venerado, Jomar abriu mão do direito a gozo de licença de oito dias – o nojo, como se dizia à época - para continuar freqüentando o curso no quartel. A mãe Marcolina, sabedora do sofrimento do filho, até que tentou levá-lo de volta para casa.

- Meu filho, seu pai morreu ontem, e você está aqui no quartel!
- É a vida, minha mãe. Meu pai morreu, mas nós precisamos viver. Sou o mais velho, tenho que sustentar a casa. Se eu não vier, perco o curso. Estou com o luto no coração. Isso é o que importa.

Depois do curso de cabo, Jomar fora aprovado em quarto lugar no seletivo para sargento. Com isso, ganhou reconhecimento na polícia. Frequentou aulas à noite no Liceu Maranhense e foi galgando os primeiros títulos escolares submetendo-se a exames de madureza. Porém, com a morte de Moraes Filho, Jomar assumiu de vez a responsabilidade financeira sobre a família, o que o obrigou a interromper os estudos.

O desempenho intelectual em provas, cursos e seletivos da polícia garantiu a Jomar, aos 22 anos, uma promoção para atuar como delegado no interior do estado. E lá foi ele chefiar a delegacia de Colinas, onde também aproveitou o período de pouco mais de um ano para estudar no Colégio Colinense, fundado pelo Padre Macedo. De Colinas para São Luís e, pouco tempo depois, para a pequena Buriti Bravo. Por lá trabalhou como delegado de 1963 a 1967. Tempo suficiente para construir novos planos para a vida. “Eu estava decidido a ficar ali de vez, dando outra orientação ao meu futuro”, observa Jomar. Segundo ele, a vida o desafiava com muita frequência. “O destino sempre estava a me pôr à prova”.

Como delegado, além do status de autoridade municipal, o salário melhorou substancialmente. Mas o dinheiro tinha endereço certo: a casa onde residiam a mãe e os seis irmãos de Jomar. Em Buriti Bravo, ele fez amizades e envolveu-se durante quatro anos nos principais acontecimentos socioculturais da cidade. Sempre com a meta de concluir os estudos, Jomar fundou e organizou o primeiro curso ginasial, o equivalente ao intermediário, ainda hoje em atividade no município.

Em Buriti Bravo Jomar deu os primeiros passos nas letras com a criação do jornal semanal A luz, publicação mimeografada que circulava aos domingos e tinha uma boa aceitação entre os leitores. E também conheceu Aldenir, com quem se casou, teve filhos e ainda hoje vive.

De volta a São Luís, continuou na polícia como sargento. Mas por pouco tempo. Desistiu dos sonhos de ser um oficial. Dos corredores do quartel, a vista já não alcançava os horizontes iluminados de outrora. A luz apontava em nova direção. “Precisava sair dali, estava estagnado, pois àquela altura ainda não tinha sequer terminado o segundo grau”. Jomar ficou na polícia até 1967, dois anos antes de ser eleito para a Academia Maranhense de Letras.



Palavra da salvação

Moraes Filho deixou a terra semeada. Jomar não herdou do pai patrimônio material, mas o gosto pela literatura, a arte de fazer amigos, a alma boêmia e a vocação de amante incorrigível. Herdou, até certa altura da juventude, o fervor religioso. Convertido à Assembleia de Deus por influência de Moraes Filho, em 1958 Jomar passou a escrever regularmente para a revista evangélica Mensageiro da Paz. De Buriti Bravo foi correspondente de A Seara, revista oficial da igreja com sede no Rio de Janeiro. Ali assinou a coluna Crônica do coração e escreveu versos para a seção Nossos Poetas.

Converteu-se também Jomar Moraes à literatura. Em 1963, lançou pela editora carioca da revista da Assembleia de Deus o seu primeiro livro, Seara em flor, com 28 poemas de forte inspiração evangélica. Logo à primeira página da obra, o autor é apresentado aos leitores como membro da Academia Brasileira de Trova. Os editores chamam a atenção no prefácio para “um jovem intelectual em fase de constante evolução, de quem muito espera a Literatura Pátria, notadamente a Evangélica”. Antes de rimar, Jomar faz, quase em tom de pregação, uma analogia entre o jardim florido da poesia missionária e a estrada pedregosa de qualquer outro esforço poético não evangélico:

“Inexpressivos embora, meus versos não têm por característica as desregradas imagens, tão próprias da poesia profana. Efetivamente deve ser notória a diferença entre o versejador evangélico e o não evangélico, pois enquanto aquele consagra seu estro ao louvor de Deus, sepulta-se este nos pântanos do sentimentalismo febril, enaltecendo as concupiscências, imprimindo aos seus versos a mais ignóbil feição.”

Seara em flor não chegou a ser o “prelúdio altissonante” de um poeta novo desejado à época pelo autor. Jomar Moraes reconhece as limitações do livro, e até o abjura hoje, a começar pelo título da obra. Mas diz que a empreitada abriu o apetite para a produção literária. “A poesia ali, por mais ingênua e crua que pareça, representa um recorte da minha vida”. É, segundo ele, o período do desbravamento necessário e da travessia de fronteiras que, num piscar de olhos, vão da crença ao desencanto. No poema Conselho materno desabrocha o legado espiritual de dona Marcolina:

Agora mesmo o sol vai se inclinando!...
E eu de minha mãe me aproximando,
A bênção lhe pedi
Com um gesto mais nobre, mais cortês,
Porque vejo passar mais uma vez
O dia em que nasci

Concentrando no olhar dúlcido e terno
Toda a pureza do querer materno,
Ela me abençoou...
E banhada em soluços de alegria,
Tão pura, tão bondosa qual Maria,
Alegre me abraçou.

E disse-me: - Querido filho meu,
Louva ao Senhor, porque te concedeu
Que em teu fértil jardim
Colhesses dezenove primaveras...
E se confiante em Sua graça esperas
Terás o Céu por fim.

Palmilha sempre a senda do Evangelho,
Sendo tu de meus filhos o mais velho,
Aos teus irmãos darás
O exemplo de fidelidade a Cristo.
Afirmo-te que se fizeres isto,
Teus galardões verás.
(...)


Mais do que ser evangélico, era preciso pregar a palavra de Deus e catequizar os mais próximos, principalmente os irmãos mais novos. É nítida a influência da opção religiosa dos pais – que por alguns anos também virou opção religiosa de Jomar - em livro que fala de adoração e crença desmedidas. Como o tempo encarregou-se de transformar o crente em pragmático, o autor jamais cogitou uma reedição da obra. Jomar conta que, apesar da delimitação temática, o livro teve boa aceitação nos meios por onde circulou. “Havia gente generosa, que elogiou o livro. Gente de fora, mas sabe como é generosidade...”, relata.

Seara em flor serviu também de rito de passagem da poesia para a prosa. Jomar percebeu logo que não era um poeta. Aqueles versos inaugurais cometidos entre os 17 e os 23 anos de idade foram motivados pelo entusiasmo natural da primeira juventude, uma espécie de rompimento da alma represada. “Só depois caí em mim que não era um poeta. Ninguém me disse, ninguém me desvalorizou ou desestimulou”.

As primeiras páginas de Seara em flor trazem ainda uma lista de livros “inéditos e em preparo” do mesmo autor, como Flores de rimas, Cânticos do Sião, Flores do deserto e Coração troveiro, em poesia; Panorama da Poesia Evangélica Brasileira, Crônicas e Salve Buriti Bravo, em prosa; e ainda a coletânea Antologia de poetas evangélicos. Nenhum deles chegou ao prelo.

A primeira publicação em prosa de Jomar Moraes viria a lume em 1968, com a edição do livro Graça Aranha, um ensaio sobre a vida e a obra do maranhense autor do romance Canaã. O texto sobre Graça Aranha vencera o concurso literário da Academia Maranhense de Letras. O segundo trabalho em prosa escrito por Jomar, igualmente premiado pela AML mas nunca publicado, foi Bronzes eternos, uma coletânea com informações didáticas sobre monumentos de São Luís. Com o prêmio em dinheiro, Jomar comprou uma máquina datilográfica Olympia, utilizada dali em diante na redação de todos os seus trabalhos literários.

Em 1969, Jomar Moraes publicou Vida e obra de Antônio Lobo, ensaio que, dois anos antes, levou o Prêmio Clemente de Faria da AML. Enquanto Fernando Moreira realça o estilo “luminoso e elegante” de Jomar, no prefácio do livro o então governador e acadêmico José Sarney reconhece o valor histórico da obra. “O trabalho de Jomar Moraes dá uma imagem nítida do que sempre me impressionou em Antônio Lobo: o literato e o político, o panfletário e sereno analista das artes, a gangorra entre a Oficina dos Novos e as Arcádias, a tradição e a renovação”, acentua.

No concurso literário da AML, para o qual Jomar adotara o pseudônimo de Josimo, a comissão julgadora tinha como membros Rubem Almeida, Domingos Vieira Filho, Fernando dos Reis Perdigão, Bacelar Portela, João Medeiros, Antenor Bogéa e Vera-Cruz Santana. Em parecer datado de 11 de novembro de 1967, a comissão assevera:

“Depois de acurado exame e leitura atenta dos trabalhos inscritos, considera a Comissão Julgadora, unanimemente, o melhor deles o que se intitula Vida e obra de Antônio Lobo e está assinado com o criptônico de JOSIMO.
E assim o faz pelas razões seguintes: é, na verdade, esse trabalho o que melhor preencheu o objetivo do concurso, pois focaliza com propriedade a vida atormentada e a obra fragmentária e dispensa de Lobo. Além do mais, dos trabalhos concorrentes é o de JOSIMO o melhor escrito, demonstrando o Autor, em que pesem alguns senões, de resto desculpáveis, louvável esforço de pesquisa, reflexão madura, equilíbrio de estilo e estimável senso crítico.”


Na edição do dia 9 de dezembro de 1967, o Jornal Pequeno transcrevera o discurso feito por Jomar Moraes na Academia Maranhense de Letras, na solenidade de recebimento do Prêmio Clemente de Faria. Em determinado trecho, a referência a Moraes Filho é inevitável:

“Volvo agora instintivamente às minhas raízes e encontro a figura veneranda e querida do meu Pai, sempre a me incentivar, sempre a me guiar pelos caminhos que ele trilhou. Caminhos da inteligência e do talento que nele abundaram, e que ele os esbanjou prodigamente na sua vida de poeta e de boêmio espiritual. Esse homem, que para os outros foi o Poeta e Maestro Moraes Filho, e que para mim foi guia, crítico austero, incentivador da publicação do meu primeiro livro de versos e, sobretudo, meu Pai. A ele, pois, o preito de minha mais profunda saudade.”

Ao longo do discurso, Jomar faz também referências aos principais expoentes da literatura maranhense na linha do tempo, esboça analogias entre uma geração e outra e ressalta as iniciativas da Academia na promoção de eventos culturais. Por fim, evoca o desafio:

“Que sobre nós se abatam os vendavais da adversidade, impondo-nos passageiras derrotas, e sempre ficará em nosso coração aquela chama que reconforta e anima para novas e maiores conquistas. As nossas esperanças não são como os sonhos que o poeta Raimundo Correia imortalizou no soneto As pombas. Se temporariamente murcham, é que se estão preparando para o grande reflorescimento pleno de olências e matizes que inebriam a deslumbram.”

Quando em 1969 Jomar Moraes publicou pioneiramente Harpa de oiro, em parceria com a Fundação Universidade do Maranhão, mal sabia ele que iniciaria ali uma longa jornada literária em torno da obra do poeta Joaquim de Sousa Andrade, o Sousândrade, e de muitos outros escritores maranhenses de farto reconhecimento, como Antônio Lobo, Vespasiano Ramos, César Marques, Olympio Cruz, Maranhão Sobrinho e muitos outros. O legado é uma imensa correnteza de publicações.

O colecionador de palavras
(texto publicado no jornal O Estado do Maranhão em 17 de maio de 2009)



Falou-se muito sobre o lançamento da terceira edição do Dicionário histórico-geográfico da Província do Maranhão, de César Augusto Marques. Mas não o bastante, posto que não é uma obra cuja relevância se esvai no corrimão iluminado das noites de autógrafos. A publicação da Academia Maranhense de Letras, revista e ampliada com esmero e sacerdócio por Jomar Moraes, é uma obra insuspeitada pela honestidade com que fora erigido cada tijolo de páginas, cada rodapé de notas.

Por que se faz tão importante um livro publicado há quase 140 anos? E por que se falar tanto, e tão mais agora, da terceira edição do Dicionário? Sobram argumentos. O valor histórico do título original, concebido em 1870, denota de antemão o interesse de pesquisadores de hoje, estudiosos da história de outrora, acadêmicos e curiosos em geral. A contribuição de Antônio Lopes na recomposição dos apontamentos feitos por César Marques e no apuro de novas e preciosas informações revigorou substancialmente a obra 56 anos depois de lançada. Também debruçou-se sobre o trabalho de César Marques, com o fito de reeditá-lo, uma comissão formada pelos historiadores Mário Meireles, Domingos Vieira Filho e Virgílio Domingues. Mas a segunda edição só aconteceria em 1970, idealizada por Raimundo Nonato Cardoso, que fez a costura necessária dos originais de César Marques com as anotações de Antônio Lopes. Em 2009, Jomar Moraes consegue moer o Dicionário, com Marques, Lopes e Cardoso na prensa. Sem reduzi-los a pó. Faz melhor: dá-lhes oxigênio para uma vida duradoura.

O novo Dicionário que Jomar Moraes traz a lume é superlativo sob todos os aspectos. É uma obra volumosa, com 1.028 páginas, 1.559 verbetes e 1.508 notas. Não por acaso, durou 10 anos no forno da rua das Jaqueiras, no desvão da casa do Jardim Renascença, de onde Jomar Moraes flerta noite e dia com mais de 30 mil livros. Muitos tombariam no caminho de tantos números, nas picadas de tantas palavras, na encruzilhada de infinitas fontes. Mas não um soldado, ainda que sem quartel ou regimento. Jomar Moraes foi um inventor solitário da terceira edição, nos serões diários, nos finais de semana e dias santos, nas noites mal dormidas. Foi desencorajado em alguns momentos da empreitada, caiu doente por um ano, viu a morte de esguelha na porta da UTI, mas não perdeu a fé na tinta que ainda resta da pequena Olympia, a máquina datilográfica pau para todas as obras.

Jomar, que mal cruzou o oceano da informática, foi castigado severamente pela simbiose da pressa e da preguiça. Se nalgumas vezes padecia da ansiedade de ver o trabalho concluído com brevidade, noutras entregava-se por compensação ao ócio, para espicaçar a fadiga, ora vagando timidamente pela leitura descomprometida, ora editando outros livros ou inventando mestrados.

Embora com dezenas de livros já publicados, Jomar Moraes chega aos 70 anos resistindo escancaradamente ao computador. A revisão de todo o texto do Dicionário e a redação das notas de rodapé complementares, elucidativas e corretivas foram feitas artesanalmente por Jomar, e digitalizadas por José Ribamar Silva, o “Seu Riba” da Lithograf. Sabe que poderia ter feito mais cruzamento de fontes, e muito mais rápido, com a ajuda da tecnologia. Mas não se intimida ao reconhecer que a terceira edição do Dicionário histórico-geográfico da Província do Maranhão é a maior e mais completa tarefa editorial a que se dedicou. E não foram poucas as missões. Da distância que mantém da internet diz não sentir o menor remorso: “Não sei o que estou perdendo ou o que estaria ganhando, se a usasse. Portanto, não posso me ressentir de algo que não conheço”.

Indispensável manual de navegação

O leitor não encontrará indícios da reforma ortográfica na obra editada por Jomar Moraes. Não se sabe se por uma questão de falta de tempo ou excesso de birra. O ex-presidente da Academia Maranhense de Letras (AML) deixa no ar. E não poupa críticas ao novo modelo ortográfico proposto. “A reforma não me atrai. Acho uma bobagem”. Extremamente conhecedor e por isso mesmo cuidadoso no trato com a língua portuguesa, Jomar dedicou-se a fazer as correções necessárias no Dicionário, com a preocupação de não mutilar os textos originais. O leitor compreenderá onde estão as correções e saberá distinguir com facilidade a autoria de cada anotação. Na página de apresentação, Jomar deixa claro que os textos de César Marques, Antônio Lopes e a chamada Comissão estão criteriosamente demarcados no livro.

Nas folhas iniciais há um guia de leitura, um manual de navegação indispensável, além de providencial índice remissivo ao final elaborado por Lino Moreira. Ainda assim, o leitor vai se deparar com um livro sem parágrafos, com verbete em fonte de corpo 9 e nota de rodapé de corpo 7. Sem esses recursos gráficos, a obra seria inviável em um só tomo. O autor da terceira edição optou por um volume único. Não é uma obra para se ler numa assentada. Aos poucos é dado lê-la, com o recurso da boa paciência e da entrega sem parcimônia ao mais completo repositório de informações sobre história e geografia do Maranhão colonial, imperial e republicano.

Há limitações no livro, é bem verdade. E imperfeições menores que só foram corrigidas no armarinho de miudezas de Jomar Moraes. A sensação de déjà vu será recorrente. Muitos desconfiarão ter lido algum trecho do Dicionário antes, em alguma outra obra. E não será mera coincidência. O ex-presidente da AML reconhece que parte da obra fora “chupada” indevidamente ao longo de anos por alguns autores, sem a menor cerimônia ou o mínimo zelo pela citação da fonte original.

Jomar sinaliza para os senões que o leitor encontrará pela frente, mas não o desanima na jornada. E não abre mão de um suave puxão de orelha em Raimundo Nonato Cardoso, na segunda edição, “por interferir no texto alheio, sob o pretexto de corrigi-lo gramatical ou estilisticamente, intervenções sempre indevidas, e algumas vezes equivocadas”.

O Dicionário histórico-geográfico da Província do Maranhão é uma obra de valor incontestável. Uma obra aberta, um livro de retoques, como assevera o autor da terceira edição. Não há rigor estilístico, mas informação profusa. Das invasões francesa e holandesa às povoações indígenas, da Companhia de Jesus à Companhia de Comércio, da Revolta de Bequimão à Balaiada, da proclamação da Constituição Política do Império ao governo de Jackson Lago, do Padre Antônio Vieira ao Jornal de Tímon (de João Francisco Lisboa). Haverá sempre referências, muitas delas atualizadas por Jomar até o fechamento da terceira edição.

Ao consumir 10 anos de pesquisa, a terceira edição do Dicionário foi, segundo Jomar, o seu curso intensivo de História do Maranhão. Bebeu em fontes privilegiadas, comparou, retocou até chegar à versão impressa de tamanha espera. Cioso do desafio a que se dedicara, ele não disfarça o gozo pelo empreendimento. Do alto dos 70 anos – o crime de lesa-idade para alcançar o primeiro emprego de policial já está prescrito, segundo o próprio – Jomar Moraes remoça ao falar de seu apego ao ofício de editor apaixonado e compulsivo. A felicidade só não é completa porque a vista já fraqueja em decorrência da diabetes. Editar livros numa terra onde a maioria das almas tem apenas um olho não é tarefa das mais fáceis. O relacionamento com a palavra impressa é de cio corrente: “Leitura para mim é uma questão orgástica”.

Não cogita a hipótese, mas diz que, se um dia lhe faltar a visão, vai ser editor em braile. Jomar poderia enfim vestir o pijama e deitar na rede para colher o reconhecimento que lhe é de direito. Mas não. Parar a missão do Dicionário não está nos seus planos. Vaticina, sem rodeios, a publicação de um suplemento à terceira edição da obra, com iconografia plena e ainda mais vigoroso. Não esculpe o trabalho iniciado por César Marques como obra derradeira. Na lira de Jomar qualquer dia é tempo de estio.

A peleja é definitiva, ele não abre mão. Mais do que aos amigos e às bibliotecas mundo afora, Jomar Moraes devia a si a reedição do Dicionário. A alma não sossegava. Agora, livro posto, é o Maranhão que deve muito ao mulato da Academia.

domingo, 31 de julho de 2016

Breve manual para náufragos urbanos



O maranhense Jozias Benedicto lançou recentemente na livraria Argumento, no Rio de Janeiro, o livro de contos “Como não aprender a nadar”, que leva o selo da editora carioca Apicuri. O livro reúne 21 contos escritos entre 2010 e 2014 e venceu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura. “Como não aprender a nadar” é um mosaico de metáforas e sensações simbolizadas no elemento água. Não por acaso, piscinas costuram de ponta a ponta histórias instigantes de determinados conflitos humanos. O escritor é também artista visual e com essa obra de ficção faz o seu segundo mergulho no mar da literatura.

O texto de Jozias Benedicto tem o viço da novidade, da linguagem desgovernada, sem amarras. O autor passeia com liberdade pelas palavras para estender sobre águas azulejadas a sua tábua de resignações, pavores, reveses e superações. Sem fazer concessões, destila por mais de duzentas páginas um estilo leve de escrita, como quem conversa com um amigo na calçada da rotisseria. Não há pudor com regras de pontuação ou desfechos previsíveis.

A piscina, segundo Jozias, pode ser um mundo de coisas: o azul desconhecido, um pedaço recortado do mar, a normalidade represada, o útero materno, a pia batismal ou até mesmo um túmulo. O leque é amplo. “A piscina é como um lago profundo ou um oceano insondável”, diz ele a certa altura do livro. Os contos são encadeados como polaroides urbanas numa mistura envolvente de recorte textual do cotidiano e imagens relidas na tecnologia de um Mac, pelas mãos de Jozias.

No conto Aprender a nadar, em pouco mais de dez linhas o narrador recria a fantasia do medo das águas. Ainda criança, Jozias Benedicto teve aulas com Maria Emma Hulga Lenk, a mais importante atleta brasileira na natação. Desistiu do aprendizado logo nas primeiras aulas. Mas não perdeu de vista o rito do coração em disparada e as desafiadoras braçadas da campeã Maria Lenk, a quem a obra é dedicada.

Jozias Benedicto transforma o quadrante da piscina em labirinto esculpido na memória de seus narradores. Nadar é o exercício involuntário da solidão, seja do menino alumbrado na casa grande com piscina, seja do anjo afogado na amargura da mamãe coragem (Torquato Neto à espreita num canto de página), seja do homem maduro atormentado no alto do trampolim (como se deitado o narrador estivesse no divã laborioso de Clarice Lispector). Jorge Luís Borges, Oswald de Andrade, Jorge de Lima, Lêdo Ivo e Hilda Hilst são outras referências a quem Jozias recorre para ilustrar os seus elementos cognitivos.

Nadar pra não morrer na borda. O livro é uma espécie de antimanual de sobrevivência para afogamentos triviais. A piscina é só uma piscina, “fria como a vida”, mas também um mundo imaginário, pródigo em turbulências e saltos mortais. Os contos da obra, feito cacos de azulejo mal rejuntados no fundo da água, cortam. Ao fim de tudo, Jozias Benedicto solta o alerta sutil: é tudo ficção! Mas não será em vão se o leitor – e o próprio autor, por descuido – se reconhecer em algumas dessas raias do destino cantadas no livro. Escrever é como nadar com “os punhos fechados da vida real”.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

A desunião europeia e os 80 anos de “Raízes do Brasil”

Causou perplexidade e susto em outras nações a ruptura dos britânicos com a União Europeia, sacramentada em plebiscito depois de um engenhoso jogo de interesses até agora tácitos para o resto do mundo. Passada a euforia do voto pelo sim, os ingleses, em especial, vivem dias de ressaca moral e sentem sobre os ombros o peso de um arrependimento mascarado, quase tardio. A ficha ainda cai. O Reino Unido, enfim, é uma ilha na Europa. Não há explicações objetivas a essa opção pelo isolamento. De costas para a Europa, os britânicos sairão fortalecidos? O velho mundo ficou pequeno para a Grã-Bretanha? Nem uma coisa nem outra. Essa mania de grandeza vem de longe, dos escaninhos da história, das profundezas da socioeconomia.

A imagem que se tinha dos ingleses, especialmente para quem visitava a Grã-Bretanha antes da Revolução Industrial da fase vitoriana, era a de um povo indolente, esbanjador, refestelado na “boa vida” e com um indisfarçável complexo de inferioridade em relação aos seus vizinhos europeus (holandeses, franceses e alemães), concorrentes por excelência. O ócio, o apego ao luxo e a imprevidência são características dos ingleses severamente atacadas no panfleto “England’s treasure by forraigne trade” (em tradução livre, “Tesouros da Inglaterra no comércio exterior”), assinado por Thomas Mun em 1664 e com trecho recortado no revelador ensaio “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda.


Sérgio Buarque de Holanda

Substancial e ao mesmo tempo concisa, amparada em farta argumentação histórica, a obra de Sérgio Buarque de Holanda fora publicada originalmente em 1936, portanto há 80 anos, e carrega em pouco mais de duzentas páginas um broquel de atualidade e transversalidade. O perfil dos britânicos é ligeiramente analisado no capítulo em que o autor aborda as origens do comportamento do povo brasileiro, forjadas na predisposição para a aventura dos povos ibéricos. Assim como portugueses e espanhóis, os ingleses misturavam deliberadamente trabalho & aventura no afã de “colher o fruto sem plantar a árvore”. Como os ibéricos, os ingleses não tinham “apreço pelas virtudes da pertinácia”.

No livro, Sérgio Buarque de Holanda recorre também ao escritor William Ralph Inge, deão da catedral de St. Paul, para sustentar a ideia de que os ingleses, já no segundo quartel do século XX, comparados com os seus vizinhos, não tinham aptidão para fainas duradouras: “O inglês médio não tem presentemente nenhum gosto pela diligência infatigável, laboriosa, dos alemães, ou pela frugalidade parcimoniosa dos franceses”. E vai mais longe o deão inglês, atirando contra seus compatriotas e outras gentes: “A indolência é vício que partilhamos com os naturais de algumas terras quentes, mas não com qualquer outro povo do Norte da Europa”.

“Raízes do Brasil”, como o próprio nome sugere, é um lúcido mergulho no (re)conhecimento das origens do Estado brasileiro. Ao lado de “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, e “Formação do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Junior, o livro de Sérgio Buarque de Holanda está no rol de obras clássicas essenciais para a compreensão do País e dos brasileiros. O autor enfeixa uma série de conceitos polares, antagônicos, como trabalho e aventura, método e capricho, rural e urbano, para descrever o traço patrimonialista e personalista presente na formação do povo brasileiro e na composição do Estado brasileiro.

A procura por uma identidade brasileira começa com o estudo das fronteiras do continente europeu. Os países ibéricos, segundo o autor, não faziam parte, até o início das grandes navegações, do bloco econômico e cultural predominante na Europa. Influenciados por ações religiosas e invasões de outros povos, principalmente do norte da África, portugueses e espanhóis formavam uma cultura miscigenada que se distanciava da tradicional cultura dos países ao centro e ao norte da Europa. É explicando, por exemplo, a inclinação de Portugal e Espanha para um “trabalho aventureiro” na colonização do novo mundo que Sérgio Buarque de Holanda chega, de viés, aos britânicos.

O autor define como aventureiro o homem que vive dos espaços ilimitados, dos projetos vastos, dos horizontes distantes; já o trabalhador é visto como o homem que enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar, e por isso tem um campo visual restrito. Colonizar a América exigia façanha, grandes voos e audácia. O português, semeador na definição de Sérgio Buarque, foi o povo que melhor adaptou-se ao novo mundo, ainda que “com desleixo e certo abandono”, e ajudou a compor o perfil de “homem cordial” atribuído ao brasileiro – entendido não como bondoso, mas de aparência afetuosa.

Como explicar a preguiça de um povo que inventou o mercantilismo e que promoveu a grande revolução industrial ainda no século XIX, fatores que contribuíram sobremaneira para o florescimento do capitalismo no mundo? Onde encontraram forças os ingleses para erigir um império de conquistas na África, na Ásia e nas Treze Colônias ao norte da América? Como pode um povo indolente e aventureiro manter até hoje, por vaidade ou veleidade, um dos mais longevos projetos de monarquia? São questões perdidas no mesmo sopro de argumentos imponderáveis que ajudam a construir a sanha fratricida além dos muros do reino. Para entender o presente, como vaticinou Sérgio Buarque de Holanda, é preciso mergulhar no passado. Os britânicos certamente saberão reinventar-se com destreza. O big bang da velha Europa está apenas começando.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Maio oito meia (11) – Dez anos de festivais de música no campus

Eram tempos de turbulência na política e muita inquietação na comunidade acadêmica. A voz ativa da juventude ressoava pelos becos e palcos improvisados das universidades. Na UFMA, as coisas passavam naturalmente pelo curso de Comunicação Social, vanguarda involuntária dos movimentos estudantis nos anos 1980. As decisões políticas e conspirações culturais estavam concentradas entre a Área de Vivência do campus, onde também ficava a sede do DCE, o Auditório “Jarbas Passarinho” (no Centro de Ciências Humanas, o Castelão) e o prédio do Centro de Ciências Sociais, o afamado Pimentão, núcleo-base de Comunicação e de outros cursos como Direito, Serviço Social, Ciências Sociais, Pedagogia, Economia, Ciências Contábeis e Biblioteconomia.


A Área de Vivência do campus era quase uma segunda casa dos estudantes, com um grande salão para eventos e o R.U. ao lado; na foto, lançamento de livro de poesias de Moisés Matias

Nesse território, o ambiente universitário reverberava os grandes festivais de música transmitidos via TV até meados daquela década. Som, fúria, ternura, protesto, irreverência e, quem sabe, trampolim para uma carreira profissional na música. Havia interessados dentro e fora do ambiente acadêmico, e os festivais, com seus altos e baixos, ocuparam por alguns anos essa arena fértil da Universidade Federal do Maranhão.

1979, o I Fump – Um homem no meio da sala

O primeiro Festival Universitário de Música Popular, o Fump, ocorreu no segundo semestre de 1979, em meio às manifestações em defesa da meia passagem no transporte coletivo de São Luís. Protagonistas do movimento, estudantes da UFMA, entre desconfiados e em permanente estado de alerta, apesar das aulas suspensas pela reitoria, enxergavam aqui e ali a sombra da Polícia Federal. A ditadura militar ainda viva ora provocava medo na juventude, ora a empurrava para embates e passeatas. A música era o caminho menos traumático para o protesto. Mesmo com a censura à espreita, as letras das canções que embalaram o I Fump carregavam no teor da mensagem política.

Racismo, raízes africanas, desigualdades sociais, opressão e o isolamento do Nordeste eram temas presentes na maioria das músicas inscritas no I Fump. No palco do campus estavam nomes como José Pereira Godão, Rogério do Maranhão, Norberto Noleto (que levou ao palco a canção “Papagaio”), Raimundo Makarra (com a toada “Novilho mágico”) e Zezé Alves. Como em qualquer festival de música, a polêmica ficou reservada para a etapa final, com a classificação pelo júri oficial da canção “Sentinela”, de José Pereira Godão, interpretada por Gabriel Melônio (com Eliane no vocal), em primeiro lugar. Em verdade, a música era de autoria de Godão e César Teixeira, que não assinara a composição por uma exigência do regulamento do festival: apenas alunos da universidade poderiam concorrer; e César, àquela altura, ainda não havia chegado aos bancos da UFMA. Antes do resultado, porém, os concorrentes tentaram uma espécie de “acordo”: não haveria vencidos ou vencedores para o quesito aclamação popular, e o prêmio seria compartilhado entre os finalistas. A ideia era dizer não ao caráter competitivo do evento, à velha fórmula dos festivais tradicionais. Na prática, a premiação seguiu o rito da tradição. No final das contas, o público elegeu como melhor música “Negritude”, de Cunha Santos, interpretada por ele e a irmã Val Moreno.

“Sentinela” (José Pereira Godão e César Teixeira)

Havia um homem no meio da sala
Os braços cruzados caídos no peito
E havia uma vela, um santo e uma flor
Na sombra da vela, um grito de dor
Por certo o castigo dos deuses do céu
Quem sabe uma força maior que a razão
E a pobre viúva curvada na rede
Espera um milagre com o terço nas mãos
Umbora meu filho, que os demônios te esperam
Pelos muros no escuro da manhã...
Leva os teus delírios, ferramentas pra lutar
Que o teu brilho, que brilho, vencerá!


(depois da apresentação original no I Fump, a letra de “Sentinela” ganhou duas outras versões: uma de César Teixeira, outra de Godão adaptada para o espetáculo “Natalina”)

Após o I Fump, o festival de música do campus entrou no limbo por sete anos. Por falta de incentivo da universidade. E pelas limitações estruturais do Diretório Central dos Estudantes, a quem de fato cabia a organização do evento. A música era um ingrediente que fazia bem ao cardápio do movimento estudantil, afinal atraía a simpatia dos universitários avessos à política. Era uma tática de aglutinação da militância. Esse hiato musical fora interrompido no dia 17 de dezembro de 1985, quando surgiu a primeira edição do projeto Sexta Seis e Meia, idealizado pelo DCE, da recém empossada gestão “Alerta: jacaré parado vira bolsa”, que tinha entre os diretores Arlete Borges (presidente), Aníbal Lins (secretário geral), Celso Reis (secretário de cultura), Márcio Jerry Saraiva Barroso (secretário da área de Ciências Sociais) e Cláudia Durans (secretária de estágio).

1986, o II Fump – A vida é trampolim

O projeto Sexta Seis e Meia foi o embrião do II Festival Universitário de Música Popular. Pelo palco do auditório “Jarbas Passarinho”, no primeiro ano do projeto, passaram artistas como Betto Pereira, Nosly, Zeca Baleiro, Roberto Ricci, Ângela Gullar, Omar Cutrim, o grupo Asa do Maranhão e o mímico Gílson César, entre outros. “[o projeto Sexta Seis e Meia] Surgiu como uma alternativa para o movimento estudantil que precisava de um canal novo, de uma linguagem diferente que substituísse o já desgastado discurso na base do chavão, e aproximasse mais os estudantes de suas entidades”, afirmava Deane Fonseca, da comissão de cultura do DCE, em entrevista ao jornal “O Estado do Maranhão” em novembro de 1986. “A gente precisava se virar, agitar alguma coisa criativa que espantasse um pouco esse clima terrível de apatia e tristeza aqui no campus”, dizia ela.

Com o sucesso das seguidas edições do Sexta Seis e Meia e uma comissão especialmente criada para os temas de cultura, formada por Rai Vasconcelos (curso de Serviço Social), Deane Fonseca (Letras), Márcio Jerry (Comunicação), Claudete Brandão (Biblioteconomia) e Adelaide Coutinho (Educação Artística), o DCE dispunha de base para a realização de um novo festival de música. E assim veio a lume o II Festival Universitário de Música Popular, com eliminatórias nos dias 26 e 27 de novembro e finalíssima em 28 de novembro de 1986.

Sob a direção do produtor cultural Jorge Capadócia e com apoio da Universidade FM, do Departamento de Assuntos Culturais e Associação dos Professores da UFMA, o II Fump deixava um alerta aos candidatos, antes mesmo da inscrição: só poderiam participar do festival compositores que ainda não tivessem músicas gravadas em disco. O texto do projeto realçava o ufanismo impregnado na estrutura do festival. “Poucas manifestações artístico-culturais brasileiras são tão expressivas quanto a nossa música popular, que assume em seu substrato elementos oriundos das três grandes raízes da nossa civilização: o branco, o negro e o índio. Com efeito, os componentes dessas três raízes, tão diferentes entre si, encontram-se reunidos, com rara felicidade, nessa expressiva, riquíssima e vibrante forma de manifestação da alma do nosso povo”, asseverava a organização do festival.

O texto coincidia com a pouca inventividade das canções concorrentes, mais próximas dos modelos já exaustivamente brandidos nos festivais da TV. Aparições folclóricas, melodias repetitivas e letras com pitadas de regionalismo. Das 78 composições inscritas, o júri formado por César Teixeira, Chico Pinheiro, Wellington Reis, Francisco Padilha e Celso Borges selecionou 25 músicas para as duas eliminatórias, assim distribuídas:

Primeira eliminatória
“Igarité”, de Jorge do Rosário, Augusto Anceles e Antônio Marco;
“Terra e paz”, de Jockson Launé Macedo;
“Quase livre”, de Darlan Andrade e Benedito Júnior;
“O que é, o que é”, de Naldinho Pinheiro;
“Águas claras”, de Ricardo Goulart e Henrique Duailibe;
“Toada alegre”, de Frederico Américo de Oliveira;
“Préla”, de Norberto Noleto;
“Berimbau chamou”, de Edilson Ferreira Mendes;
“Pontes, parceiros e partes”, de Mano Borges, Marco Duailibe e Edinho Habibe;
“Tripa seca”, de Sebastião Carnégie,
“Bamba, beleza da Ilha”, de Kilner, Nonato e José Antônio;
“Jardim de cores”, de Hélson Rodrigues;
“Resposta para quem fala mal de mim”, de Gerô.

Segunda eliminatória
“Despertar”, de Flávio Barbosa Pinheiro;
“Filho da lua”, de Ângela Gullar e Omar Cutrim;
“Ponta d’Areia”, de William Pereira dos Anjos e Maninho;
“Flor de liberdade”, de Karina Vaz Guimarães;
“América Latina”, de Erivelton Lago;
“Esperança”, de Ubiraci Silva Nascimento;
“Conquistar”, de Dênis Marques;
“Fim”, de Márcia Santos;
“Estopim”, de Antônio Alfredo Fonseca e Sérgio Pinto;
“Querubim”, de Zeca Baleiro;
“Samba diferente”, de Lula Bossa;
“Pulsação”, de Domingos Santos e Yara Campos.


Plateia atenta aos concorrentes do II Fump

Da primeira eliminatória, realizada no auditório “Jarbas Passarinho”, com ingressos ao preço de cinco cruzados (moeda criada no governo do então presidente José Sarney), foram classificadas as músicas “Igarité”, “Préla”, “Pontes, parceiros e partes”, “Bamba, beleza da ilha” e “Resposta para quem fala mal de mim”. Da segunda eliminatória, também no palco do “Jarbas Passarinho”, saíram as canções “Filho da lua”, “Ponta d’Areia”, “Flor de liberdade”, “América Latina” e “Querubim”. Na finalíssima, aberta ao público na área livre do Pimentão, Zeca Baleiro levou o primeiro lugar (oito mil cruzados) com “Querubim”, música que também deu a Fátima Passarinho o prêmio de melhor intérprete (dois mil cruzados). Em segundo lugar (cinco mil cruzados) ficou “Igarité”, de Jorge do Rosário, Augusto Anceles e Antônio Marco, interpretada por Rosa Reis e o pessoal da Laborarte, canção que também levou o prêmio de melhor arranjo (dois mil cruzados). E em terceiro lugar (três mil cruzados) o júri classificou a música “Filho da lua”, de Ângela Gullar e Omar Cutrim, interpretada por Ângela.

“Querubim” (Zeca Baleiro)

feito passarim
subir as torres de marfim
estrela de brilho carmim
assim assim
doce com cravim
água de “xêro” de alecrim
abre tuas asas sobre mim
guarda tua luz de alfenim

traz de san martim
um travo de amendoim
mais um enfeite de morim
no teu cabelo pixaim
um beijo de festim
com lua nova até que enfim
comer beiju beber cauim
pra lá de quixeramobim

adiar o fim
pintar a casa e o camarim
de celofane e de cetim
sim não não sim
hálito de gim
saúde de tupiniquim
deita teu corpo no capim
faz sol se o tempo for ruim

vem meu querubim
me faz amor me faz do-in
costura meu terno de brim
vida é trampolim
planta no xaxim
incenso mirra e benjoim
foi pra te ver sorrir que eu vim
abrir as portas do jardim
e verdejar



Fátima Passarinho e Zeca Baleiro na interpretação de "Querubim"


Erivelton Lago defendeu "América Latina"

Definidos os vencedores, o show de encerramento do II Fump ficou por conta de Nosly, Josias Sobrinho, Roberto Ricci, Gabriel Melônio e Cláudio Pinheiro. “O sucesso do festival é também uma prova inconteste da vitalidade do movimento estudantil”, comemorou Márcio Jerry, logo após a divulgação do resultado. E com um certo alívio. O II Fump chegara ao fim, apesar do pouco dinheiro e muita conta pra pagar: prêmios aos vencedores, cachê para júri, músicos da banda e artistas convidados para a final, além de despesas com som, palco e iluminação. “O que os políticos gastam em suas campanhas e não estão nem aí... Mas eles não apoiam esse tipo de iniciativa. Sempre é o orçamento que já estourou ou outra desculpa. Tratam-nos como se estivéssemos pedindo esmolas. Não são sinceros nunca”, desabafou Deane Fonseca em reportagem de Ademar Danilo no jornal “O Estado do Maranhão”.

Em texto publicado no jornal “O Imparcial” em dezembro de 1986, o produtor Jorge Capadócia chamava a atenção dos “novos talentos” para que fossem “mais criteriosos na elaboração de suas músicas” inscritas em festivais. Sinal de fumaça na banca de jurados? Talvez. Do festival ficou a revelação, para além dos muros do campus, de novos nomes na música maranhense - alguns deles já bem experimentados no circuito acadêmico, mas ainda desconhecidos lá fora. Com “Querubim”, Zeca Baleiro embolava trigo, joio e carmim e emprestava ao festival um fermento de modernidade.

Embalado pelos louros do festival, Márcio Jerry foi às urnas poucos dias depois de encerrado o II Fump. Com a eleição no DCE marcada para o dia 10 de dezembro, Jerry concorria à presidência da entidade pela chapa “Axé”, apoiada por Arlete Borges e umbilicalmente ligada à corrente Articulação, do Partido dos Trabalhadores (PT). Na outra ponta estava a estudante Lúcia Helena, liderando a chapa “Menos blá-blá-blá e mais ação”, ligada à corrente Viração do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Em 1986 havia pouco mais de 7 mil alunos matriculados na UFMA, dos quais cerca de 4 mil frequentavam aulas regularmente. E, destes, apenas 2.675 estudantes decidiram ir às urnas para eleger a nova diretoria do DCE.


Integrantes da chapa "Axé" em plena campanha: Márcio Jerry, Aristeu, Flávio Dino, Paulo de Tarso, João de Deus, Rai Vasconcelos, Dimas Salustiano e Magno Moraes


Cenário do campus nas eleições para o DCE, pela ótica da chapa "Axé"


Um R.U. livre para todos era uma das bandeiras da chapa "Menos blá-blá-blá"

Como sinal do forte efeito do festival de música, as principais bandeiras da chapa “Axé” foram “a liberdade de criação, o compromisso com a arte maranhense e o fim do autoritarismo na universidade”. Fazia parte do plano a luta pela manutenção do restaurante universitário, o R.U., ameaçado de fechamento pela reitoria da UFMA sob a alegação de falta de recursos. Sem restaurante, de barriga vazia, não haveria revolução, liberdade de criação ou compromisso com festivais. Os estudantes queriam diversão e arte, mas também comida. A chapa “Axé”, que tinha em seus quadros o estudante de Direito Flávio Dino, saiu-se vencedora da eleição com uma boa diferença de votos. A nova diretoria do DCE tomou posse no dia 19 de dezembro na Área de Vivência do campus.

1987, o III Fump – “Quero ser governador!”

Com a fórmula pronta, e novamente com o apoio discreto do Departamento de Assuntos Culturais da UFMA, em novembro de 1987 o DCE deu início ao III Festival Universitário de Música Popular. Duas eliminatórias, nos dias 19 e 20 de novembro, e uma finalíssima no dia 4 de dezembro. O júri pré-classificatório, formado por Joãozinho Ribeiro, César Teixeira, Wellington Reis e Chico Pinheiro, teve bastante trabalho para escolher 24 músicas entre as 150 composições inscritas. As duas eliminatórias ficaram assim definidas por sorteio do júri:

Primeira eliminatória
“Sírius”, de Celso Reis;
“Cavaleiro do Rei”, de Norberto Noleto e Valdivino Brás;
“Salve-se quem puder”, de Naldinho Pinheiro;
“Calendário”, de Gilberto Benvindo;
“Trilha, trilha... Solidão”, de William Pereira dos Anjos e Maninho;
“Solidão”, de Saci Teleleu e Jorge do Rosário;
“Gota de lágrima”, de Augusto Bastos;
“Gritos”, de Zezé Alves e Paulinho Lopes;
“Quero ser governador”, de Gerô;
“Raça”, de Roberto Ricci;
“Lua”, de Maurício Ewerton Filho;
“Fátima”, de Raimundo Alberto Teixeira Moraes.

Segunda eliminatória
“Esperando a manhã”, de José Antônio Forty;
“Razão da terra”, de Zezinho Chagas;
“Dança”, de Augusto Anceles e Jorge do Rosário;
“Rei Momo”, de Flávia Costa;
“Uma palavra”, de Mano Borges e Marco Duailibe;
“Viajeiros do som”, de Benedito Júnior e Darlan Andrade;
“Parnarama”, de Gilberto Benvindo;
“Punk papista”, de Erivaldo Gomes;
“Fotografia”, de Flávio Pinheiro;
“Rapsódia”, de Rodney Mariano e Salgado Maranhão;
“Educando”, de Eliazar de Carvalho;
“Catamarã’, de Alzira Amélia.

O festival não era, àquela altura, o melhor caminho para a produção musical maranhense, na avaliação do presidente do DCE. Márcio Jerry condenava o aspecto competitivo dos festivais que, segundo ele, reproduziam “a ideologia de disputa comum em todos os segmentos da sociedade”. Na teoria, a saída era a promoção de grandes mostras de arte na universidade, com oportunidade de exibição livre de trabalhos artísticos, sem o olhar falível de um júri. Mas a teoria não pagava a conta dessas alternativas edênicas. E não fechava o caixa do DCE!

Na prática, a UFMA vivia aquele período em estado de greve. Funcionários de braços cruzados, em luta por reajuste salarial, e professores e alunos em campanha por eleições diretas para reitor da universidade. “Não podemos passar mais quatro anos com um reitor biônico”, diziam os dirigentes estudantis inconformados com a longevidade de José Maria Cabral Marques no Palácio Cristo Rei, a sede da reitoria da UFMA.

Com as ameaças de greve, corredores quase esvaziados e um cenário político tenso na UFMA, o DCE decidiu não correr riscos. Trocou o ambiente fechado do auditório “Jarbas Passarinho” pela praça principal do campus, com acesso livre para estudantes e comunidade. O III Fump, com direção musical e coordenação de Henrique Duailibe e Jorge Capadócia, contou com uma banda-base de acompanhamento formada por Maninho (guitarra e viola de dez cordas), Cláudio Ribeiro (baixo), Jeca (percussão) e Fleming (bateria). Henrique Duailibe (teclados), responsável pelos arranjos da maioria das músicas, também assinou o tema de abertura do festival.

Sem “reserva de mercado” imposta no regulamento, das 24 músicas selecionadas preliminarmente pelos jurados, apenas oito composições tinham o dedo de estudantes da UFMA. Para o show da primeira eliminatória foram escalados os artistas Fauzi Beydoun e Roberto Brandão. Na segunda eliminatória cantaram Joãozinho Ribeiro e César Teixeira. E na finalíssima, o convidado do DCE a subir ao palco, no intervalo que antecedeu a divulgação do resultado, foi o vencedor do II Fump, Zeca Baleiro. Os jurados Edir Lobato, Joãozinho Ribeiro, Sônia Almeida, Chico Pinheiro e Ângela Gullar escolheram as seguintes músicas como vencedoras do III Fump: 1o lugar – “Sírius”, de Celso Reis, uma toada de bumba-meu-boi no sotaque de orquestra; 2o lugar – “Uma palavra”, de Mano Borges e Marco Duailibe; 3o lugar – “Raça”, de Roberto Ricci. E mais: melhor intérprete – Rita Ribeiro (hoje Rita Benneditto) e Raimundo Alberto Moraes, por “Cavaleiro do Rei”; e 1o lugar por aclamação popular – “Dança”, de Augusto Anceles e Jorge do Rosário.

“Sírius, a estrela cintilante” (Celso Reis)

O teu amor morena
Me mata de saudade
Deixa o meu coração
Como noite de luar
Tem brilho de estrela cintilante
No azul celeste
Onde a terra se veste
Da mais rica criação

Vem meu amor
Ser a menina
Do teu cantor
És bailarina
Os teus olhos
Têm o verde da campina



Celso Reis e o seu indefectível chapéu

Em 6 de dezembro de 1987, dois dias depois da finalíssima, o jornalista Sérgio Castellani, frequentador reincidente de maratonas etílico-culturais do campus, publicou artigo no jornal “O Estado do Maranhão” tecendo provocações acerca do III Fump. Sob o título “Um festival polêmico”, de saída o texto atirava na exagerada calmaria que cobria de assombro o circuito das artes em São Luís: “Esta cidade estava tão monótona, tão acostumada a ficar quieta com as dezenas de absurdos que já viraram rotina...”. Segundo o jornalista, um festival de MPB “em que tudo é mascarado e direitinho não interessa a ninguém”. Pequenas fraturas expostas refletidas no olho nu da plateia. O III Fump não conseguiu escapar da boa polêmica, uma espécie de marca registrada dos festivais de música. Eis alguns trechos do artigo de Castellani:

“O problema não é o Festival em si, mas sua estrutura, sua tendência ao eleger o ‘melhor’. Mas, melhor de quem? De um júri que nem sabemos quem é? De pessoas ‘capacitadas’ para dizer: esta é a melhor música, esse o melhor intérprete?”

“A verdadeira arte é muito superior a critérios do que é melhor ou pior – ela é em sua essência a verdadeira arte”

“O III Fump mostrou também a mediocridade da aparelhagem de som disponível em São Luís. A ‘melhor’ e mais ‘potente’ se viu bloqueda/fundida com a incompetência em manuseá-la. Foi assim que Zeca (que puta show, hein meu!), Fátima Almeida, Augusto e tantos outros, ao invés de cantarem, botaram a boca no mundo para falar... E sempre é bom saber que os músicos daqui pensam e também sabem protestar, chiar, exigir melhor qualidade...”

“E isto só foi possível com a realização do III Fump, e com o trabalho das pessoas que o fizeram acontecer. Foi Jorge [Jorge Borges], Raimunda [Rai Vasconcelos], Márcio [Márcio Jerry], Flávio [Flávio Dino], e tantos outros...”

“É necessário salientar, mais uma vez, a inoperância da administração da UFMA. Cumprindo fielmente seu papel a serviço da burguesia, cria cada vez mais obstáculos para o surgimento de espaços. E isto o DCE – com falhas – conseguiu criar”

“Pra terminar, um parabéns para Roldney Mariano e Salgado Maranhão, pela música ‘Rapsódia’. Uma coisa boa pintou...”

Castellani atirou no que viu e acertou em alvos previsíveis, como a onipotência do júri, a deficiência técnica dos equipamentos de som, falhas na organização do festival e a falta de boa vontade do reitor. Mas a mira alcançou também aquilo que poucos ali conseguiam enxergar: de um lado, criações medianas, prontas para uma competição de banca; de outro, o ativismo político na UFMA a serviço da cultura, e voos solares como a poesia de Salgado Maranhão e a música de um quase anônimo Zeca Baleiro (que na época assinava apenas como Zeca). “A indignação, a revolta e o protesto só podem existir agora porque algo aconteceu, algo existiu”, apontava Castellani, com seu improvável calibre cheio de razão.

1988, o ano sem Fump - Um festival fora do eixo

Em 1988 estava à frente do DCE o triunvirato Flávio Dino, Jefferson Portela e Douglas Melo. A gestão “Desacato” era o resultado de uma costura política entre grupos dissidentes dentro do movimento estudantil da UFMA. No acordo pré-eleitoral, juntaram-se numa mesma chapa as correntes Articulação (Flávio), Juventude Venceremos (Jefferson e Douglas), Semeando (Dimas Salustiano) e Caminhando (Wal Oliveira e Eri Castro), satélites do PT dentro da universidade. A colcha de retalhos no campo político não avançou no plano cultural. Depois de duas edições seguidas, o Festival Universitário de Música Popular fora interrompido naquele ano.

Com o vácuo do DCE e uma enxurrada de música represada entre a classe artística e os palcos minguantes de São Luís, a Secretaria de Cultura do Governo do Maranhão promoveu, de 14 a 17 de dezembro de 1988, o Festival de Música Popular Maranhense. Fora do eixo universitário, o festival chamou a atenção de compositores, músicos e intérpretes, alguns deles do interior do Maranhão (como Imperatriz, Caxias, Bacabal, Codó e Rosário), com quase 300 canções inscritas na fase pré-classificatória. A comissão organizadora formada por Sérgio Habibe, Wellington Reis, Tácito Borralho e Betto Pereira optou pelo Parque Folclórico da Vila Palmeira para a apresentação das 30 músicas selecionadas por um júri técnico criado especialmente para esse fim. As concorrentes ficaram assim divididas em três blocos de eliminatória:

Primeira eliminatória
“Cada um por si”, de Cleto Júnior e Ronald Pinheiro, com Válber (ex-vocalista do Nonato e Seu Conjunto);
“Musa da favela”, de Paulo Henrique Nascimento;
“Brincante”, de Inaldo Aragão;
“Noves fora”, de Nosly e Zeca Baleiro;
“Beija-flor”, de Orlando dos Santos;
“Axé”, de Roberto Rafa;
“Mistura brasileira”, de José Maria de Carvalho;
“Avessa manhã”, de Tutuca e Reinaldo Barros, com J. Nogueira;
“Dança dos pavios”, de Carlos Monteiro;
“Viagem a Moscou”, de Célia Leite, Antônio Carlos Alvim e Francisco Florêncio, com Célia Leite.

Segunda eliminatória
“Já não somos mais um par”, de César Nascimento, com Renata Nascimento;
“Ponha merengue”, de Omar Cutrim;
“Calça frouxa”, de Cláudio Valente;
“Fuzarca”, de Luís Henrique Bulcão, com Roberto Brandão, Rosa Reis, Fátima Passarinho, Rita Ribeiro, Inácio e Cláudio Pinheiro;
“Lua branca”, de Augusto Bastos e José Raimundo Gonçalves;
“Radiante”, de Jorge do Rosário;
“Canção para inglês ver No 2”, de Zeca Baleiro e Norberto Noleto;
“Ser vida”, de Roberto Ricci e Lígia Saavedra, com Lígia Saavedra;
“Olho d’Água”, de Raimundo Nonato de Souza;
“Ai lovi iú ou cantiga da roça”, de Marco Duailibe.

Terceira eliminatória
“Ave de arribação”, de Xavier Santos, com Neném Bragança;
“Mãe dos aflitos”, de Mário Lúcio e Eduardo dos Santos;
“Natividade”, de Lourival Tavares;
“Ribanceiras”, de Zeca Tocantins;
“Última oração”, de Benedito Júnior e Darlan Andrade;
“Abolição”, de Luís Carlos Dias;
“Sol e luar”, de Edine de Jesus Carvalho;
“Mulenge”, de Celso Reis e Nosly, com Celso Reis;
“Dia de São João”, de Ricardo Goulart;
“Rosa negra”, de Norberto Noleto e Hênio Moreira, com Fátima Passarinho.

No acompanhamento de todas as músicas concorrentes estava a banda Voo Livre, composta por William (bateria), Eliésio (teclados e acordeon), Cleômenes (metal), Nonato (percussão), Oberdan (guitarra base), Edinho (guitarra solo) e Gordura (contrabaixo). A finalíssima, no dia 18 de dezembro, contou com jurados de peso, como o compositor, poeta e produtor musical Hermínio Belo de Carvalho; o musicólogo e jornalista Zuza Homem de Mello; o compositor Nonato Buzar; os produtores musicais Carlos Sion (RCA) e Jamil Filho (Som Livre); o cantor e compositor Vitor Ramil; e o poeta e compositor Carlos Capinan, então secretário de Cultura da Bahia. Ao final do julgamento, assim ficou a classificação das músicas vencedoras do Festival Maranhense de Música Popular: 1o lugar – “Rosa negra”, de Norberto Noleto e Hênio Moreira; 2o lugar – “Mulenge”, de Celso Reis e Nosly, e "Abolição", de Luís Carlos Dias; 3o lugar – "Avessa manhã", de Tutuca e Reinaldo Barros. “Fuzarca”, de Bulcão, recebeu o prêmio de melhor pesquisa. Celso Reis e Fátima Passarinho levaram o prêmio de melhores intérpretes, na avaliação do júri. Zeca Baleiro e Norberto Noleto receberam o prêmio de aclamação popular com “Canção para inglês ver No 2”.

“Rosa negra” (Norberto Noleto e Hênio Moreira)

Na mão direita uma roseira
Na outra um alçapão
Rato no queijo
Faca na mão
Nessa roseira cada espinho
Não é mais que uma canção
Olhos nos olhos
Boca na boca
Corpos no chão
Na ratoeira caiu aflito
Nas grades da solidão
Bala com bala
Nada com nada
A lei do alçapão
Nessa roseira tem cada bicho
Roendo meu coração
Olho por olho
Dente por dente
Põe tua máscara na mão

Seis meses depois, intérpretes das 12 músicas com melhor classificação no festival tomaram um ônibus com destino ao Rio de Janeiro para a gravação de um LP patrocinado pela Secretaria de Cultura do governo maranhense. O disco foi gravado durante cinco dias, em junho de 1989, no estúdio Master, com direção musical e arranjo de José Américo Bastos e produção de Sérgio Habibe e Wellington Reis. Se o festival propriamente dito não causou grandes polêmicas – embora se tenha criticado o excesso de músicas concorrentes, o amadorismo em algumas letras e melodias e, mais uma vez, a qualidade da aparelhagem de som -, a demora na conclusão do projeto do LP deu o que falar.

No dia 23 de novembro de 1989, quase um ano depois do festival, os artistas que gravaram suas músicas no LP foram pedir explicações à Secretaria de Cultura sobre o paradeiro do disco. “Cadê o disco?”, “por que ainda não saiu?”, foram algumas das questões levantadas por Roberto Brandão, Célia Leite, Fátima Passarinho, Celso Reis, Neném Bragança, Zeca Baleiro, Nosly e outros. Depois de seis dias de estrada, no trecho São Luís/Rio/São Luís, eles exigiam uma resposta do governo. E a resposta veio por meio do secretário Américo Azevedo Neto (que não estava no governo à época do festival): o disco foi gravado, mas não há recursos para mixagem, prensagem e impressão de capa.


Três flagrantes do dia do encontro dos artistas com representantes da Secretaria de Cultura do Maranhão; na primeira foto, Roberto Brandão, Célia Leite, Zeca Baleiro, Nosly e Fátima Passarinho


Cantores e compositores em reunião com Américo Azevedo Neto: cadê o disco?


Wellington Reis dá explicações sobre o paradeiro do LP

No dia seguinte à reunião, o jornalista Raimundo Garrone publicou reportagem no jornal “O Estado do Maranhão”, sob o título “Um disco perdido no espaço”, expondo o calvário dos artistas e o calote do festival. “O certo é que, passado tanto tempo, os artistas não estão mais a fim de ficar olhando para o céu esperando cair algum disco”, concluía Garrone. Outras reuniões, mais pressão no governo e, no final das contas, ninguém sabia dizer aonde estavam os recursos reservados para a produção do disco, previstos no projeto do festival. O LP, com projeto gráfico da capa assinado por Cláudio Vasconcelos, só chegou às mãos dos artistas em outubro de 1990, dois anos depois da realização do festival.


Capa do LP do festival de 1988: dois anos depois

1989, o IV Fump – Girassóis nos jardins do IML

Ao final do mandato de um ano do grupo “Desacato”, no DCE, em 1989 entrou em cena a gestão “Lutar é bom e não tem contraindicação”, a última da década, seguindo o mesmo formato de um acordão entre correntes políticas forjado na eleição anterior. Laurinda e Isael Gomes foram eleitos coordenadores do Diretório Central dos Estudantes numa chapa que tinha, entre outros, Pedro Duailibe, Jokcson Launé, Jarbas Lima, José Luís Diniz e Aracéa Carvalho como secretários de área.

Um dos principais desafios dos novos gestores foi a retomada dos projetos culturais dentro do campus, como importante ponto de contato entre a militância e a base do movimento estudantil. Assim, o DCE escalou uma comissão para cuidar especialmente da organização do festival de música. Sob a responsabilidade do secretário de cultura da entidade, Jarbas Lima, a comissão contava também com José Luís Diniz (secretário de imprensa), Aracéa Carvalho e Laurinda Pinto.

Das primeiras reuniões na sala do DCE, e após entendimentos preliminares com o Departamento de Assuntos Culturais da UFMA, nasceu o IV Fump, com duas eliminatórias programadas para os dias 19 e 20 de outubro de 1989. A novidade criada naquele ano foi o local escolhido como palco do festival. Nem o auditório “Jarbas Passarinho”, a área livre do Pimentão ou a praça central do campus. O DCE armou a tenda do IV Fump ao lado do prédio do Instituto Médico Legal (IML), logo na entrada do campus. A alternativa, afora algumas críticas quanto ao entra e sai de rabecões da vizinhança, deu à universidade a pintura de um parque apropriado para grandes manifestações culturais.


A banda e os mestres de cerimônia Lio Ribeiro e Silvana Cartágenes, no IV Fump

A área, porém, pareceu ampla demais para uma plateia mais enxuta em razão de greve no sistema de transporte público. Os estudantes também andavam dispersos. Era outubro, mas a universidade estava ainda em clima de final do primeiro semestre letivo devido à paralisação de professores e funcionários no início do ano. Em entrevista publicada no jornal “O Estado do Maranhão” do dia 22 de outubro, o secretário de imprensa do DCE, José Luís Diniz, queixava-se da intransigência da empresa de sonorização contratada para o festival, a Bacanga, e da falta de envolvimento do diretório nas atividades do evento. “Ficou nas costas de duas ou três pessoas”, reclamava Diniz, que carregaria o piano com Jarbas Lima, e contaria com apoio providencial de Bel Aquino. Certas diferenças políticas dentro do DCE apostavam no fiasco do festival.

No livreto com a apresentação das letras das canções selecionadas, o texto de Jarbas Lima chamava a atenção para os objetivos do IV Fump. O festival, segundo ele e toda a diretoria do DCE, deveria ser um instrumento cultural de crítica, expressão e conhecimento da comunidade universitária. Aquela arena musical serviria também, na definição de Jarbas, para a confraternização entre estudantes e a vivência de um momento lúdico em que estariam presentes “o amor e a criatividade imanentes da própria natureza humana”. Ao pé da letra, a plateia poderia, além de apreciar as músicas, deitar e rolar na grama pelos arredores do IML.

As 24 canções classificadas, entre as 53 composições inscritas, foram divididas em duas eliminatórias, cada uma delas com 12 músicas, conforme abaixo:

Primeira eliminatória
“Nirvana”, de Marco Cruz;
“A cachoeira”, de Alan Jorge e Jorge Lóton;
“Ciranda de girassóis”, de Carlos Wagner Lima Bastos;
“Filhos da Lagoa”, de Manoel Matos e Márlon Reis;
“Estática”, de Benedito Júnior e Darlan Andrade;
“Sorriso de criança”, de Marcos Lima;
“Mãe d’água”, de Chico Poeta;
“Desanuviar”, de Princesa Blues;
“Vai embora, gigolô”, de Valbelina Fonseca;
“Prole da promissão”, de Lourival Tavares, com José Carlos Daffé;
“Canção para não viver só”, de Clécio, Gordo e Zé Hametério;
“Como a lua e o sol”, de Jorge do Rosário.

Segunda eliminatória
“Boi coragem”, de Alan Jorge e Jorge Lóton;
“Uma canção”, de Ivandro Coelho e Henrique;
“Beijo de luz”, de Tutuca, Reinaldo Barros e César Nascimento;
“Guará”, de Sérgio Brenha;
“Filho de papai”, de Raelson e Luís Fernando Góis;
“Pomba Gira Puerê”, de William Moraes Corrêa, com o Grupo Madrearte;
“Mata virgem”, de Marco Cruz;
“Meu país”, de Jorge do Rosário e João Otávio;
“Sina de um poeta”, de José Carlos Silva;
“Amazônia”, de Adalberto Parente;
“Alma capoeira”, de Dias Filho;
“Naufrágio”, de William dos Anjos e Maninho, com Carlinhos Badauê.


Capa do livreto com a programação do IV Fump, distribuído pelo DCE

No dia do anúncio das músicas classificadas para as duas eliminatórias, uma adolescente, ainda com o uniforme da escola e acompanhada da mãe, dirigiu-se à sede do DCE para conferir se a música que interpretaria estava na seleção do júri. E não estava. Anna Torres foi às lágrimas ali mesmo, inconsolável com a eliminação precoce do festival.

Entre os jurados estavam Célia Leite, responsável pelo quesito melodia, e César Teixeira, com a incumbência de avaliar a letra das músicas. A novidade do IV Fump foi a inclusão do item “apresentação cênica” como critério de julgamento – em verdade, uma inovação em festivais de música até então. E, claro, houve reação de alguns artistas. Argumentavam eles que o Fump não era um festival de teatro. Não obstante o ruído entre cantores, músicos e compositores, o quesito foi mantido e, para julgá-lo, a comissão organizadora escalou o radialista Roberto Fernandes.

Na noite da primeira eliminatória, Zeca Baleiro, o vencedor do II Fump, levou ao palco um show descolado, sem regionalismos e provocador. Antes do show, os mestres de cerimônia Lio Ribeiro e Silvana Cartágenes avisaram que Zeca apresentaria a performance “A mulher que vira peixe”. O público, entre curioso e excitado, aguardou o número. Lá pelas tantas, Zeca apareceu no palco dando uma de “cego”, e Solange à frente “revirando” sardinhas numa frigideira que carregava em uma das mãos. De fato, era uma provocação do artista ao aguardado número “A mulher que vira peixe” do Gran Circo Mágico Alakazan, que naquele período estava em curta temporada no bairro da Cohab, em São Luís.

Celso Reis, vencedor do III Fump, fez o show especial na segunda noite de eliminatória. E na finalíssima, em 26 de outubro, quem se apresentou no palco do festival foi Joãozinho Ribeiro, acompanhado da banda-base do festival, formada por Maninho (guitarra), Pepê Júnior (guitarra e violão), Cláudio Ribeiro (baixo), Fleming (bateria) e Arlindo Carvalho (percussão). Após o show de Joãozinho, a comissão julgadora anunciou os vencedores do IV Fump: 1o lugar – “Prole da promissão”, de Lourival Tavares, com Zé Carlos Daffé; 2o lugar – “Guará”, de Sérgio Brenha; 3o lugar – “Meu país”, de Jorge do Rosário e João Otávio. Sérgio Brenha também ganhou o prêmio de melhor intérprete. No polêmico quesito apresentação cênica, quem venceu foi o Grupo Madrearte, com a música “Pomba Gira Puerê”. Valbelina Fonseca conquistou o troféu aclamação popular com a música “Vai embora, gigolô”. E, por fim, o troféu revelação foi entregue a um andrógino Carlinhos Badauê, personagem do meio acadêmico que seduziu a plateia com a interpretação de “Naufrágio”, de William dos Anjos e Maninho.

Prole da promissão (Lourival Tavares e José Carlos Daffé)

Quero que liberte o canto
Pra que toda a América
Possa navegar
Quero ver o tapete verde
Com o poder dos verdes
Pra não mais zarpar
Quando outro verde
Deixar de brilhar
É quando essa América
Então despertar
Vejo os castelos e as cercanias
De desnutrição
Vejo crescente os anseios
Da prole da promissão
Quando a certeza um dia chegar
Muitas ovelhas hão de pastar


Das lições do festival universitário e de sua passagem pelo DCE, Jarbas Lima aponta a acentuada incompreensão da esquerda em relação à cultura. No festival, ele diz que essa incompreensão ficou ainda mais acentuada. Mas reconhece o legado do IV Fump em vários aspectos da música produzida no Maranhão. Alguns artistas, segundo ele, abriram portas para a carreira profissional na música após passagem pelas arenas da universidade, como Zeca Baleiro e Rita Benneditto. “Pela primeira vez, o Fump teve a participação de uma representante do Sá Viana entre as músicas concorrentes”, conta. A representante era Valbelina Fonseca, que soltou a voz e ganhou o público com o bolero “Vai embora, gigolô”.

“Em 1989, às vésperas das primeiras eleições diretas pós-ditadura, os estudantes respiravam ares de expectativas democráticas. O IV FUMP significou uma retomada da criatividade e da irreverência própria dos antigos festivais. Estávamos deslumbrados com as liberdades recém-conquistadas. Vivemos esse clima no festival!”
Jarbas Lima

Outros festivais vieram depois, mas o IV Fump foi o último do circuito universitário nos anos 1980. Essas três edições da década fizeram história. Geraram polêmicas como todo festival que se preze e deram visibilidade a iniciantes na música produzida no Maranhão. Se mais o Fump não contribuiu para a formação de quadros do movimento estudantil ou para uma “transformação social” por meio da música, como assim desejava a esquerda do DCE, pelo menos deixou nuvens de fumaça no ar e rastros de corpos suados que se perderam alegremente no chão do Bacanga.

Eu comunico e não peço

O Pimentão tinha vida própria, meio Woodstock, meio praça de alimentação de shopping center. Na área livre do prédio, o diretório acadêmico de Comunicação armava o palco, uma vez por ano, para as atrações musicais e cênicas do Comunicarte. Reza a lenda que tudo começou em 1984 e se estendeu, no formato original, ao longo dos anos 1980. No período da tarde, as salas de aula eram ocupadas por oficinas de vídeo, fotografia, cinema, rádio, texto e poesia. Depois vinham os recitais poéticos de Francisco Júnior e de alguns Párias, espetáculos de dança contemporânea, números teatrais e mímica de Gílson César. Pelos arredores, remanescentes hippies trocavam miçangas por ervas milagrosas.

Sobre a grama do Pimentão os estudantes viviam em festa - ou encontravam pretextos pra quebrar a rotina das salas de aula, com jogos de cartas, teatro, protestos e até um anticoral. O pequeno Marivando Pereira, a quem os motoristas de boa fé deviam justa reverência, era o chefe mirim da segurança dos automóveis ali estacionados, e apreciava os shows que se estendiam pela noite. Dava pra juntar uns trocados. Quem não gostava mesmo do barulho era a professora Alaíde Pavão, temida por gerações de alunos que passavam pelo curso de Direito. O som de guitarras e baterias desviava a atenção da aula noturna. Para ela, o Comunicarte não passava de um “mafuá” de desocupados, como certa vez chegou a classificar o festival em documento encaminhado à reitoria da universidade. Enquanto Alaíde Pavão se queixava pro bispo e aplicava provas de Direito Penal, o personagem Badauê dançava da primeira à última música, requebrava no palco e ainda cantava trechos de “Esse cara”, incorporando o desbunde tropicalista de Caetano Veloso: “Ah, que esse cara tem me consumido...”.

Nos dias 23 e 24 de outubro de 1986, o 3o Comunicarte veio a lume sob a batuta do diretório acadêmico de Comunicação Social, gestão “Ribalta”, comandado por Pandora Dourado (presidente), Caíque Cardoso, Ferreira Júnior, Maristela Sena, Vânia Rego e Jaqueline Heluy, entre outros. Na programação, oficinas de criação coletiva, feira de livros, concurso de poesia, discussões sobre fotografia com Paulo Socha e bate-papo acerca da produção audiovisual do Maranhão com Ubaldo Moraes e Euclides Moreira Neto. E mais: recital da Akademia dos Párias e show com os artistas Cláudio Pinheiro, Tutuca, Célia Leite, Mano Borges, Gerude e Jorge Thadeu. Também como parte da agenda do 3o Comunicarte, o professor Nilson Amorim lançou o livro de poesias “Contradança”.

A irreverência do “correio elegante”, número protagonizado pela estudante Lisiane Costa que estimulava a troca de bilhetinhos amorosos entre os frequentadores da relva do Pimentão, marcou alguns momentos do Comunicarte. Entre 1986 e 1989 foram quatro edições do evento. Um pé na arte tradicional, nas raízes da cultura, no componente da chamada música popular maranhense, ainda incipiente, com poucos discos na praça. Outro pé em expressões menos convencionais, nas experimentações daquele momento, como o espetáculo de teatro e música “Miragem”, com Geraldo Iensen e Charles Melo. Um misto de laboratório acadêmico, feira livre e farra para estudantes interessados em quebrar as armaduras do campus.


Panorâmica do Comunicarte: preparativos para uma tarde/noite de shows no palco-Kombi improvisado na área livre do Pimentão

O Comunicarte era um Fump reinventado, mais intimista, com música entre amigos, sem concorrentes, sem o tradicional corpo de jurados. Foi mais celebração, menos cachê, menos prêmio. Muitos artistas passaram pelo palco por mera camaradagem, pelo trabalho novo que precisava de plateia, pela sinergia com o público universitário. A maioria deles, jovens iniciantes na música como Zeca Baleiro, Mano Borges e Celso Reis – ou as bandas de rock pesado Ácido, Iceberg e Nirvana -, ainda vivia o sonho distante de uma música gravada em LP.


Oficina de vídeo do Comunicarte: Beto Matuk dirige documentário com reportagem de Valquíria Santana

Fump e Comunicarte são frutos de um mesmo movimento estudantil esfacelado, mas vivo, que com certo barulho perdurou pelo campus do Bacanga durante os anos 1980. Na contramão das prioridades da esquerda universitária, os dois eventos serviram de usina e brisa para artistas sem amarrações, ali empoderados, e de válvula de escape para estudantes indiferentes à política dos diretórios acadêmicos. Se havia fumaça, havia fogo. Era a política da militância, com todas as incongruências internas e vicissitudes, quem encontrava o caminho da pólvora e acendia o pavio.


Notas de rodapé

O primeiro festival de música no Maranhão ocorreu em 1971, promovido pela Prefeitura de São Luís na gestão de Haroldo Tavares. Com o nome de I Festival da Música Popular Brasileira no Maranhão, e dirigido por Américo Azevedo Neto, então secretário municipal de Turismo, o concurso contou com três eliminatórias no Ginásio Costa Rodrigues e os finalistas tiveram suas músicas incluídas em um LP. No disco, gravado no Rio de Janeiro com direção musical do maestro Paulo Moura, constam músicas como “Boqueirão”, de Giordano Mochel, “Louvação de São Luís”, de Bandeira Tribuzi, “Bonzo”, de Ubiratan Souza e Souza Neto, “Ladeira”, de Oberdan Oliveira, “Sem compromisso”, de Ronaldo Mota, e “Fuga e anti-fuga”, de Sérgio Habibe.


Capa do LP do festival de 1971

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Algumas escolas particulares de São Luís, como Dom Bosco, Marista e Santa Teresa, realizaram festivais de música nos anos 1980. Em 1983, a rádio Mirante FM e a TV Ribamar promoveram o I Festival de Verão da Música Maranhense, com eliminatórias no Ginásio Costa Rodrigues e a grande final no Estádio Nhozinho Santos. Dele participaram José Pereira Godão, Cláudio Pinheiro, Gabriel Melônio, Raimundo Makarra e Ubiratan Teixeira, entre outros.

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Em 1985 foi a vez do Festival Viva, organizado pela Secretaria de Desportos e Lazer do Governo do Maranhão. “Oração latina”, música de César Teixeira interpretada por Cláudio Pinheiro e Gabriel Melônio, foi a vencedora do festival, que também contou com a participação de Fauzi Beydoun e Rosa Reis (“Neguinha”), César Nascimento (“Forrockiando”), Jorge Thadeu e Gerude (“O Paraíba”), Luís Bulcão (“Estrela do mar”) e Rogério do Maranhão (intérprete de “Alcântara”, de Nato Araújo). Zeca Baleiro participou das eliminatórias do Viva com o samba de breque “Hipocondríaco”, mas foi desclassificado.


Capa do LP do Festival Viva, de 1985

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Em outubro de 1986, Zeca Tocantins venceu o I Festival Aberto do Balneário Estância do Recreio (Faber), em Imperatriz (MA), com a música “Depois do tiroteio”. Entre os finalistas estavam ainda Carlinhos Veloz (com “Nordeste inocente” e “Juízo final”), Erasmo Dibell (com “Bicho papão” e “Aletia”) e Eduardo Moloni (com “Um novo dia”). Músicas como “Imperador Tocantins”, de Veloz, e “Filhos da precisão”, de Dibell, foram reveladas em edições posteriores do Faber. Em novembro de 1987, Neném Bragança ficou em segundo lugar e conquistou o troféu Arara de Ouro no II Festival da Canção de Carajás (Fescar).


Um dos momentos do Faber, em Imperatriz

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O goiano/tocantinense José Norberto Noleto, um dos nomes mais assíduos dos festivais de música do campus do Bacanga nos anos 1980, entrou na Universidade Federal do Maranhão em 1979 para o curso de Engenharia Elétrica. Em 2007, ano em que foi jubilado pela UFMA, lançou o CD independente “O mágico”, com 12 faixas e as participações especiais de Zeca Baleiro e Rita Benneditto. Entre as músicas do disco, destaque para "Perguntas e respostas", "Cavaleiro do Rei" (canção que deu a Rita o prêmio de melhor intérprete no III Fump) e "A Lenda do colibri".


Capa do CD lançado por Norberto Noleto

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Enquanto estudantes pediam a cabeça de José Maria Cabral Marques em campanha aberta por eleições diretas para reitor na UFMA, em 1987 ele fora eleito, em San Juan (Porto Rico) vice-presidente do Conselho Executivo da Universidade Iberoamericana de Pós-Graduação; em Tegucigalpa (Honduras), assumiu a vice-presidência, para o Brasil, do Conselho Universitário para o Desenvolvimento Econômico e Social; e em Mérida (México), fora reeleito para o Conselho Consultivo da Organização Universitária Interamericana, com sede em Quebec, no Canadá. Todos esses mandatos com duração de quatro anos.


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Fotos e contribuições de datas e dados: arquivos dos jornais “O Estado do Maranhão” e “O Imparcial”, Jarbas Lima, José Luís Diniz, Wal Oliveira, Bel Aquino, Moisés Matias, Celso Reis, Magno Moraes, Norma Passos e Celijon Ramos.