terça-feira, 29 de maio de 2012

O dia em que Eduardo Júlio recitou Piva na praça

O almanaque virtuoso do campus, da universidade que ajudamos a embalar o futuro, é carregado de prazerosas histórias, muitos personagens, situações comprometedoras, fatos embaraçosos e episódios divertidos. Eduardo Júlio é um desses personagens da época, que com o texto abaixo expõe a babel das passeatas de protesto, dos palavrões de ordem e dos discursos improváveis. Estamos dialogando com um passado não tão distante, espalhando por aí peças de um quebra-cabeça sem fim, metafórico, na esperança de pisar outra vez o chão da velha academia. Não estamos sós. Por enquanto somos eu, Alessandro Lamar, Marcelo Barros e agora Eduardo Júlio. E tenho recorrido eventualmente, na construção dos capítulos de “Amor sem revolução”, à memória (e ao acervo fotográfico) de alguns amigos, como Wal Oliveira, Márcio Jerry, Eri Castro, Dimas Salustiano e Ademar Danilo, Mas O Redemoinho (oredemoinho.blogspot.com) está de portas abertas para quem mais vier a se alistar. Leia. (Félix Alberto Lima)


O dia em que declamei Roberto Piva na Deodoro

Por Eduardo Júlio

A exemplo de vários jovens da minha geração, participei de diversas passeatas no final dos anos 80 e começo dos 90. Desde a inesquecível campanha de Lula (ainda radical) em 1989 até o impeachment de Collor em 1992, perdi a conta de quantas vezes caminhei pelas ruas do Centro de São Luís, entoando palavras de ordem, carregando bandeiras, sendo mais um na multidão.

Reivindicávamos um Brasil melhor e mais justo, coisa séria, mas havia um imenso prazer naquelas manifestações. Confesso, fui um militante hedonista. Afinal, naqueles tempos de profundo ócio criativo e poesia, estava a compartilhar a alegria, a descontração e o entusiasmo, que só existem no auge da juventude. E ninguém podia perder essa...

Eu, Eduardo Júlio, Moisés Matias, Elício Pacífico, Karina Macieira e Cadmiel Júnior num desses eventos universitários fora do eixo Itaqui-Bacanga

Além de tudo, o mundo estava em plena transformação com a abertura democrática na América Latina e a derrocada do comunismo na Europa Oriental. Na área da música pop, o rock ainda tinha muito fôlego, com a explosão do grunge nos ouvidos e mentes dos jovens do Ocidente.

Uma das passeatas da qual participei – acredito que ocorreu nos idos de 1992, talvez, inclusive, tenha sido a primeira do movimento Fora Collor na cidade (ainda sem os caras-pintadas) – saiu numa tarde do Campus do Bancanga até o Centro de São Luís. Uma pernada de cerca de quatro quilômetros debaixo do sol quente. Mas, naquele período da vida, tudo era motivo de festa e diversão e ninguém se intimidava ou desistia de participar.

Eu era estudante do curso de Comunicação Social da UFMA e naqueles dias mantinha um estreito laço com os colegas de Ciências Sociais, que por um triz não cursei. Estavam lá Cinthia, Eliane, Ana Cristina, Cláudio (meu grande amigo pernambucano, responsável por memoráveis festas em seu apartamento no Bequimão), Cleids (brutalmente assassinado recentemente) e Elício. Este último estudava Economia. No caminho, Darcimeire, a atual Dadá Coelho, uma das atuais celebridades do humor nacional, ainda desconhecida como estudante de Jornalismo, entrosava-se com os militantes de carteirinha, puxando o coro das palavras de ordem. Queria ter fotografado esta cena.

Foto de Eduardo Júlio tirada em Belém (PA) durante encontro de profissionais e estudantes de Ciências Sociais, com Ana Joana Coimbra e Cleids no primeiro plano

Mas o melhor para mim ainda estava por vir. Quando chegamos à Deodoro, depois de mais ou menos uma hora de caminhada, o militante do PT e estudante de Comunicação, Marlon Botão, convidou-me para participar dos discursos no palanque. Como já disse, não consigo recordar exatamente o que reivindicávamos naquela passeata, só lembro que aceitei subir por um único motivo: seria uma oportunidade de recitar o manifesto intitulado “Biles, bules e bolas”, que adorava e sabia decorado, um dos textos mais implacáveis do poeta maldito paulista Roberto Piva.

O problema é que Marlon acreditava que eu, um pretenso anarquista libertário - na época leitor de Leminski, Caio Fernando Abreu, Fernando Gabeira e Roberto Freire - representava em São Luís o movimento anarquista estudantil, cujos militantes “pintavam o sete” nos congressos da UNE. No entanto, quase nada tinha a ver com aquela causa articulada. Embora possa concordar com a maioria das propostas de anarquistas clássicos como Bakunin, Proudhon e Kropotkin, nunca fui, na prática, leitor deles. Ainda tentei explicar isso, mas Marlon insistiu e fui parar no palco. E aí recitei o manifesto de Roberto Piva para a multidão que ocupava uma parte da Deodoro. O texto diz assim:

Nós convidamos todos a se entregarem à dissolução e ao desregramento. A vida não pode sucumbir no torniquete da consciência. A vida explode sempre no mais além. Abaixo as faculdades e que triunfem os maconheiros. É preciso não ter medo de deixar irromper nossa alma fecal. Metodistas, psicólogos, advogados, engenheiros, patrões, químicos, cientistas, contra vós deve estar o espírito da juventude. Abaixo a segurança pública, quem precisa disso? Somos deliciosamente desorganizados e usualmente nos associamos com a liberdade.

No palanque, estavam representantes do PT, do PCdoB e do PSB. Embaixo, uma imensa maioria de estudantes. Com o manifesto do Roberto Piva, eu ingenuamente esperava ser ovacionado por meus colegas universitários, como acontecia nas mesas dos bares que frequentava, mas o que vi foi uma multidão perplexa e silenciada, além de algumas poucas vaias. E ainda durante a minha explanação, o então líder do PCdoB no Maranhão, Marcos Kowarick, exclamou puto da vida: “Tira esse louco daí!!!”

O trecho “Abaixo as faculdades e que triunfem os maconheiros”, que tanto me fazia rir de felicidade, pelo que tem de deboche, rebeldia e subversão, foi demais para o ego da militância acadêmica. Acho que os colegas se sentiram ofendidos.

Desci do palanque meio atordoado e fui correndo, sem vergonha e sem culpa, para perto de meus colegas das Ciências Sociais. Depois, fomos tomar umas e ouvir muito rock' n’ roll (era tempo de “Nevermind” do Nirvana e de outros discos inesquecíveis da era grunge) no apartamento de Eliane, bem pertinho dali, na Vila Inah Rego.

No dia seguinte, soube que o meu discurso amorteceu a manifestação, que teria perdido parte do entusiasmo. E durante uma semana ainda topei com os colegas estudantes nos corredores da UFMA questionando aquilo que tinha declamado.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

O Maranhão e a primeira tragédia da família Kennedy


A morte de Mary Kennedy, ex-mulher de Robert Kennedy Jr., supostamente por enforcamento, reacende a versão de que a primeira grande tragédia com a família Kennedy teria ocorrido no Maranhão, há quase 80 anos.

Abaixo, leia reportagem que publiquei no jornal “O Estado do Maranhão”, no dia 30 de setembro de 2003, sobre a morte de John Harold Kennedy, funcionário da Ulen Company.


Morre um Kennedy na rua da Estrela

Há exatamente 70 anos, José de Ribamar Mendonça, um cidadão comum de São Luís, aos 25 anos abalou as relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. Ele matou um Kennedy. Local do crime: o escritório da Ulen Management Company, na rua da Estrela. Mendonça era bilheteiro dos bondes da Ulen, empresa norte-americana que explorava, desde 1928, os serviços de água, esgoto, luz, tração e prensagem de algodão na capital maranhense. O contador da empresa, John Harold Kennedy, 31 anos, fora atingido no dia 30 de setembro de 1933 por dois tiros de revólver calibre 32, marca O.V.

Até hoje não foi comprovado qualquer grau de parentesco entre John Harold Kennedy e a família do ex-presidente John Fitzgerald Kennedy. Sabe-se que ambos nasceram no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos. De acordo com a Academy of Genealogy, de Nova York, não havia qualquer sinal de parentesco entre os dois. Mas ainda hoje persistem rumores de que John Harold era tio do ex-presidente John Kennedy e do ex-senador Robert Kennedy, que também tiveram mortes trágicas.

O bilheteiro foi levado a três julgamentos, entre 1933 e 1944. A saga de Mendonça está registrada no livro “Morte na Ulen Company” (Record, 1983), de José Joffily, e por duas vezes cogitou-se transformar o episódio numa produção cinematográfica.

O que poderia ser apenas mais um crime estampado nas páginas da crônica policial da época acabou ganhando contornos políticos. Mendonça recebera a carta de demissão dias antes de completar dez anos de serviços, o que lhe garantiria a estabilidade na Ulen – conforme legislação da época. Preso em flagrante, o bilheteiro confessou o crime e continuou detido na Penitenciária do Estado, no Largo dos Remédios, até a data do primeiro julgamento, em novembro de 1933.

São Luís atravessou a segunda década do século XX com sérios problemas de infra-estrutura. De acordo com dados da Associação Comercial do Maranhão, a população da cidade era de aproximadamente 50 mil habitantes. Das oito mil residências existentes, 216 delas contavam com telefone e apenas 1.600 consumiam luz elétrica. O índice de mortalidade infantil em 1924 chegou a 56,3%, segundo pesquisa divulgada no dia 12 de outubro de 1926, no jornal “Pacotilha”. “Nas eleições para Assembléia Nacional Constituinte que se realizariam em 1º de outubro de 1933, quando o Maranhão contava com 1.108.877 habitantes, votaram apenas 12.432 eleitores. O percentual de votantes era, portanto, de 1,12%, inferior ao do Piauí, com 1,40%” (Joffily).

A chegada da Ulen Company a São Luís, em 1928, representava um alento para a população, que sonhava com melhores dias na prestação de serviços públicos. Os primeiros contatos com a Ulen foram intermediados, seis anos antes, pelo oficial da Marinha José Maria Magalhães de Almeida, genro de Urbano Santos, então governador do Estado. O contrato com a Ulen, empresa de propriedade de Henry Charles Ulen, teria sido uma das condições para que o governo maranhense obtivesse do Bankers Trust Company, de Nova York, um empréstimo de 1.750.000 dólares.

Pouco tempo depois do início do contrato vieram as primeiras reclamações da comunidade contra os serviços da Ulen. As queixas eram decorrentes da arrogância dos administradores da empresa, da baixa remuneração paga à mão de obra local, das altas tarifas dos serviços e, principalmente, das cláusulas draconianas do contrato entre a Ulen e o governo estadual. Quatro dias antes do assassinato de John Harold Kennedy, “O Globo” publicava a seguinte informação: “(...) O empréstimo (de 1.750.000 dólares) transformou-se num polvo, que exaure todas as energias dos maranhenses, com os rigores de cláusulas leoninas e com a trama de exigências judaicas. Mais de um terço da receita pública desaparece no sorvedouro dos juros e amortizações periódicas. O interventor afirma: - Todas as bocas do Maranhão clamam contra a monstruosidade desses contratos, feitos, aliás, com todas as formalidades legais. Que fazer? Sem dúvida alguma a situação é dificílima”.

Foi nesse conturbado período que ocorreu o assassinato na rua da Estrela. Eis as razões pelas quais a população deu uma conotação política ao crime, embora Mendonça não tivesse vínculo com qualquer partido, agremiação ou sindicato. O bilheteiro teria atirado no patrão para se vingar dos opressores norte-americanos. O clamor anti-Ulen tomou conta da cidade e Mendonça foi a julgamento como o “herói vingador”.

Três julgamentos em 11 anos

Mendonça foi ao primeiro júri popular no dia 21 de novembro de 1933, no Tribunal do Júri da antiga rua Formosa. Uma multidão foi até o local para assistir à sessão presidida pelo juiz João Mata de Oliveira Roma. De um lado, os advogados de defesa, José Nunes Arouche e Waldemar de Sousa Brito. Do outro, o promotor Edson Brandão. Instigado pela acusação de que Mendonça era um contumaz apreciador de cachaça, Waldemar Brito reagiu: “Se é para esclarecer e não para confundir, não me fale em alcoolismo. Cada um bebe o que pode. Mr. Kennedy, cujo trágico desaparecimento todos nós lamentamos, iniciava suas libações nos Lunáticos ao cair da tarde do sábado e entrava pela noite até a madrugada da segunda-feira na Pensão Lolita, onde nunca lhe faltou o generoso White Horse vindo diretamente de Nova York. Dali chegavam também pacotes de Lucky-Strike que distribuía prodigamente entre fumantes do seu clube preferido”. Ao que foi emendado pelo colega José Arouche: “Se é para rememorar episódios etílicos, qual o motorista desta capital que ignora a carraspana do malogrado contador da Ulen na pensão da Leontina? Quantas vezes foi ele carregado nos braços até o carro?”.

O bilheteiro foi absolvido pelo Conselho de Sentença, por cinco votos contra dois, ante a alegação da defesa de que ele teria agido sob completa perturbação dos sentidos. Mendonça permaneceu preso por mais quatro meses. No dia 2 de abril de 1934, o Superior Tribunal de Justiça do Maranhão anulou o júri popular e marcou novo julgamento para duas semanas depois. No dia 18 de abril, Mendonça foi novamente absolvido pelo Conselho de Sentença, desta vez por ter cometido o crime “para evitar problema maior”.

Com a absolvição, aumentaram os protestos contra a Ulen. O governo dos Estados Unidos interveio no episódio e tentou sem sucesso, baseado em suposto erro judiciário, a extradição de Mendonça. Segundo Joffily, durante 11 anos a questão da Ulen e a absolvição de Mendonça envolveram nove ministros brasileiros e três embaixadores dos Estados Unidos. “Provocaram, pelo menos, 38 ofícios e telegramas para proteção da empresa americana e para garantir a condenação de José de Ribamar Mendonça. O Itamaraty aceitava a alegação dos diplomatas americanos segundo a qual a Justiça brasileira contrariou a prova dos autos”.

Outro indício de parentesco entre a vítima da Ulen e a família Kennedy: o pai de John Fitzgerald Kennedy era embaixador dos Estados Unidos na Inglaterra.

Em liberdade, o ex-bilheteiro da Ulen mudou-se em 1935 para o Rio de Janeiro, onde conseguiu emprego na Companhia Atlantic de Petróleo. Nesse período, o governo maranhense fez a primeira revisão de cláusulas do contrato com a empresa americana – que já havia sido suspenso entre 1930 e 1931, época da revolução. Em 1944 Mendonça foi novamente preso e transferido para São Luís, onde se submeteria ao terceiro julgamento. Finalmente absolvido, ele retornou ao Rio no dia 16 de agosto de 1944 para reassumir o emprego na Atlantic. Em dezembro do mesmo ano o irmão de John Harold, Russel F. Kennedy, ainda tentou recurso por meio de carta testemunhável. Oito anos depois Mendonça morreria no local de trabalho após um infarto.

“O crime da Ulen Company abalou as estruturas da sociedade maranhense naquele período”, avaliou o historiador e desembargador Mílson Coutinho. Segundo ele, o assassinato entrou para a história dos grandes episódios da crônica forense no Maranhão, a exemplo do Caso Pontes Visgueiro e do Crime da Baronesa.

O crime na rua da Estrela, embora não tenha despertado na época o interesse da chamada grande imprensa no Brasil, foi assunto de primeira página no “The New York Times”, no “Evening Gazette” e no “Boston Evening Transcript”.

No dia 15 de julho de 1946, o governo do Estado assinou decreto cancelando o contrato com a Ulen Management Company. Atualmente, os serviços de energia em São Luís são explorados pela Cemar, empresa privada cujo controle acionário (84,7%) é do grupo norte-americano PPL - Pensilvânia Power Light, que tem sede em Allentown (EUA).

domingo, 13 de maio de 2012

Nem maio nem agosto

Os pais não são amados como deveriam, com aquela intensidade desmedida que merecem. Em qualquer lugar, em qualquer casa, fica sempre a impressão de que faltou mais carinho, mais beijo no rosto, mais afago, mais afeto dos filhos, mais olho no olho. Ficamos devendo. E essa fartura de compreensão só nos alcança, invariavelmente, quando eles se vão. Sim, eles se vão um dia! Esses pais que amamos tanto - e contra quem nos revoltamos em certos instantes da vida, em ligeiros surtos de imaturidade ou autossuficiência – têm prazo de validade. Muitos deles têm asas, mas são de carne e osso. Falíveis anjos da guarda.

Não nos falta amor, é verdade. Mas amamos de menos porque estão ali à nossa volta, no nosso encalço, a nos defender das tocaias do mau olhado, do quebranto, a nos proteger a moleira. Amamos de menos porque – ingenuamente acreditamos – jamais vão nos deixar. E porque nos amam demais, nos excedemos na falta de atenção, nas respostas malcriadas, na indiferença. Há nos filhos a autoconfiança de que perdão de pai e mãe não demora. Não demora mais que uma chuva. O perdão vem de braços abertos e com um sorriso largo para embrulhar o sentimento de culpa. É aquela culpa cristã que nunca houve, mas que os pais cultivam a pretexto de assumir um pecado que não é e jamais será deles no julgamento celestial.

Olhando pra trás – e é difícil olhar no retrovisor antes dos 30 anos – fica a sensação de que faltou o abraço demorado nos pais. Faltou um cinema no domingo com direito a pipoca, jujuba e caramelo. Faltou aquela viagem de férias pra passear de mãos dadas pelo parque. Faltou paciência para compreender as rabugices naturais dos pais quando eles passam dos 60 anos. Faltou coragem pra dizer mais vezes “eu te amo”, todos os dias da vida. Faltou tempo!

Faltou tempo para perceber que a vida é pouca pra se abrir mão da felicidade. Esquecemos de reconhecer, ao longo da caminhada, que os pais têm sempre razão. E mesmo quando não têm, eles são a própria razão. No mínimo, a razão da nossa existência!

Faltou ternura. E mais cabeça no colo para um cafuné depois do almoço em família. Será que toda aquela cumplicidade foi suficiente? Sequer ouvimos juntos todas as músicas que falavam da gente. Assistir ao futebol de domingo no mesmo sofá ficou escasso. Todo aquele cheiro foi pouco.

E nada será o bastante para se cuidar do nosso amor primeiro. De verdade. O amor de pai e de mãe, esse amor que se confunde, embaralhado, sem gênero ou RG. Um e outro, nem maior nem menor. Nem maio nem agosto. A vida inteira.

sábado, 12 de maio de 2012

Jomar na banda larga


Jomar Moraes, depois de muita resistência, está aos poucos se familiarizando com o mundo da informática. Para quem o conhece de perto, isso é quase uma revolução.

Numa dessas visitas à rua dos Abacateiros, no Renascença, acabei convencendo-o a ceder à tecnologia, e Jomar conta agora com um notebook de última geração na sua mesa de trabalho.

Logo de início, a convivência com o equipamento não foi nada amistosa. Desconfiado, Jomar olhava para o computador, resmungava, maldizia os efeitos da cibernética até deixar a geringonça ali esquecida num plano secundário da velha biblioteca.

E assim seguiu por uns dias, sempre recorrendo à sua surrada e boa Remington, a máquina fiel que nunca o deixou na mão na datilografia de suas dezenas de livros já editados e das crônicas que publica semanalmente no jornal O Estado do Maranhão.

Mas um dia Jomar percebeu que o notebook não é coisa do outro mundo como ousou desconfiar durante muito tempo. Percebeu, por exemplo, que naquele pequeno computador cabe todo o acervo da sua biblioteca e ainda mais alguns livros da biblioteca do vizinho e do quarteirão inteiro.

Entendeu, enfim, que pela internet pode matar a saudade e visitar, a qualquer hora do dia ou da noite, o museu de Quito ou o arquivo ultramarino de Lisboa.

Em boa hora, Jomar reconheceu o valor necessário da correspondência instantânea e já admite a possibilidade de, quem sabe amanhã, vir a ter um endereço eletrônico.

No facebook ele acha que não se enturmaria muito facilmente, porque, afinal de contas, nunca foi um homem de curtir ou compartilhar de maneira fortuita. Vivido e passado na casca do alho, Jomar Moraes sabe que, pra comentar ou cutucar, só quando estritamente necessário.

E, no mais, embora esteja apenas degustando o primeiro mel de cabaça na lua de mel com a internet, timidamente desconversa se alguém lhe atribui fama (ou perfil) de tuiteiro.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Pistolagem, crime organizado e política

Em 26 de março de 2000, ainda como correspondente em São Luís do jornal “O Estado de São Paulo”, publiquei reportagem especial sobre pistolagem, crime organizado e política. Eram os tempos de ressaca de CPI, do medo que tomava conta do Maranhão, das prisões de pessoas influentes, dos abusos de autoridade de parlamentares federais, dos holofotes da imprensa, da cobertura nacional e da multiplicação na venda dos radinhos de pilha.

A reportagem fez parte de um caderno especial coordenado pela repórter Mariana Caetano, que traçou uma radiografia de poder e política no Maranhão.

Doze anos depois, os ventos da pistolagem e do crime voltam a soprar sob o céu do estado. O caso mais recente e emblemático foi o assassinato do jornalista Décio Sá, no dia 23 de abril, uma noite de segunda-feira na movimentada avenida Litorânea. Investigação sob sigilo, denúncias de vazamento de informação, nenhuma pista concreta do mandante do assassinato e muita especulação nos bastidores. Resta uma nuvem de mistério no ar.
Leia a reportagem.

Dados indicam ação do crime organizado na política

O Sindicato dos Bancários do Maranhão avalia que parte da renda de
assaltos a banco no Estado tem sido utilizada no financiamento de campanhas eleitorais. A participação de políticos e agentes públicos no comando do crime organizado maranhense - escancarada nas investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada pela Assembléia Legislativa - levou o sindicato a preparar uma pesquisa sobre o roubo a instituições financeiras nos últimos quatro anos.

"Os dados indicam que os assaltos a banco e o valor roubado em anos eleitorais crescem muito", explica o presidente da entidade, Ubirajara do Pindaré. "O roubo a banco parece ser uma espécie de reciclagem das tradicionais fraudes eleitorais - é o uso da pistolagem e do crime para manutenção ou ampliação do poder."

O recorde de assaltos ocorreu em 1996, quando foram eleitos os atuais prefeitos e vereadores. O levantamento, feito no ano passado, registrou 55 roubos e outras 3 tentativas em 1996. O total desviado chegou a R$ 2,5 milhões. No ano seguinte, o número de ocorrências não alcançou nem a metade. Foram 18 assaltos, que somaram R$ 1,4 milhão.

Curiosamente, os crimes contra instituições financeiras em 1996 concentraram-se no período pré-eleitoral, entre abril e julho. A média de dois assaltos nos meses de janeiro, fevereiro e março subiu para 7 em abril e chegou a 9 em julho. Na eleição seguinte, os assaltos concentram-se em maio (4), junho (5) e dezembro (5).

O resultado do levantamento foi encaminhado à CPI estadual e à CPI do Narcotráfico, da Câmara dos Deputados. "Mas ainda não tivemos uma resposta", afirma Pindaré. "Discutimos esses dados com vários partidos e todos mostraram-se assustados - são indícios muito fortes, mas agora está claro que estamos mais vigilantes para isso."

Providências - O relator da CPI do Crime Organizado, deputado Jomar Fernandes (PT), conta que o relatório do Sindicato dos Bancários foi anexado ao documento final da Comissão e encaminhado à Gerência de Justiça e Segurança, ao Ministério Público e ao Tribunal de Justiça. “Os dados do relatório são apenas indícios sem provas, mas fiz questão de apresentar as denúncias em audiência pública na Assembléia Legislativa.”

O gerente de Justiça e Segurança Pública, delegado Raimundo Cutrim, explica que o relatório está nas mãos da polícia e as investigações sobre o crime organizado continuam. “Não se pode dizer que o assalto em ano eleitoral é uma simples coincidência, mas é difícil hoje chegar a uma conclusão segura sobre o assunto.”

Em 1998, ano da eleição de governadores, deputados e senadores e do presidente, o volume de roubos voltou a crescer e chegou ao maior valor desviado: R$ 4 milhões em 27 assaltos, além de 7 tentativas frustradas. No ano passado, o número de ocorrências caiu novamente. Foram 17 assaltos e 3 tentativas. O produto estimado dos roubos foi de aproximadamente R$ 500 mil.

Em 1999, o Maranhão começou a passar a limpo o envolvimento de integrantes de Executivo, Legislativo e Judiciário com organizações criminosas no Estado. Auxiliado pela CPI do Narcotráfico e pelas investigações da Gerência de Justiça e Segurança Pública, o trabalho da CPI local resultou na cassação de dois deputados estaduais, na prisão de dois prefeitos e no afastamento de um juiz.

Como saldo das investigações, 60 pessoas estão presas aguardando julgamento e há 30 mandados de prisão para serem cumpridos. Fazem parte da lista dos prisioneiros “ilustres” os ex-deputados estaduais José Gerardo de Abreu e Francisco Caíca, os ex-delegados Almir Macedo e Luís Moura e o empresário Joaquim Felipe de Sousa Neto, o Joaquim Lauristo. Também presos, o ex-deputado estadual Hemetério Weba e o prefeito Aveny Pacheco, de Amapá do Maranhão, já estão em liberdade.

Em três meses de trabalho, os deputados desarticularam quadrilhas que agiam na sombra da imunidade parlamentar e sob a proteção de alguns setores da Justiça. No currículo dos envolvidos com o crime organizado há assassinatos, roubos de cargas e carretas, chacinas, tráfico de drogas, porte ilegal de arma e uso de pistas de pouso clandestinas. “Terminamos apenas uma etapa do trabalho”, diz o deputado Jomar Fernandes. “É provável que surja uma nova CPI.”

O começo - Os primeiros indícios da existência de uma organização criminosa no Estado apareceram em 1995. O então delegado Stênio Mendonça começou a investigar uma quadrilha que negociava carretas e drogas nas fronteiras do País. Dois anos depois, o delegado foi assassinado por pistoleiros supostamente contratados pelo empresário Joaquim Lauristo. Os matadores chegaram a ser presos e dias depois, por descuido da polícia, também foram assassinados numa “queima de arquivo”.

Lauristo foi preso em junho de 1997, ganhou habeas corpus de presente e desapareceu. O empresário foi localizado dois anos e meio mais tarde no interior do Tocantins, e hoje está preso no quartel da Polícia Militar, no mesmo pavilhão onde estão Gerardo e Caíca.

As denúncias sobre uma possível conexão entre quadrilheiros do Maranhão, Acre e Alagoas e da cidade de Campinas (SP) foram feitas pelo motorista e assaltante Jorge Meres. Depois de ouvir Meres, a CPI do Narcotráfico realizou sessões especiais na Assembléia do Maranhão, mandou prender delegados, prefeitos e ex-deputados e ganhou aplausos da população.

“Com essa devassa em gente importante, o Maranhão está menos doente”, avalia o aposentado Francisco Cantanhede. A população, diz, teve um exemplo de moralidade com a CPI. A governadora Roseana apoiou publicamente os trabalhos.

O gerente Cutrim afirma que os assaltos a bancos diminuíram nos últimos meses, como conseqüência das investigações. “Este ano, houve apenas um assalto no interior.” Na capital, até a primeira metade de fevereiro, foram registrados três roubos, que somaram R$ 116,4 mil. Segundo ele, não houve em 2000 registro de roubo de carretas em estradas maranhenses. “Isso nos leva a crer que as organizações criminosas foram banidas do Maranhão.”

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Um roteiro de Spielberg, por Alessandro Lamar

Em 1993, eu li “Os Tambores de São Luis” e fiquei encantado com a obra! Não apenas pela riqueza de detalhes com que Josué Montello descreve a cidade, os fatos, as pessoas e as coisas, mas principalmente pela forma como ele conta a história de nossa cidade a partir de um trajeto da Madre Deus à Camboa, passando pelo centro, feito por Damião (protagonista), que saiu de casa pra conhecer um filho marinheiro (faz tempo que li...). Imediatamente, liguei pra minha alma gêmea Christian e disse a ele: “Vamos escrever o roteiro e produzir Os Tambores de São Luís – o filme!”. Como Christian sempre conseguiu ser mais maluco do que eu, ela já apareceu na nossa primeira reunião na Fábrica de Velas (histórico ponto na Rua de Santana que era da família dele) com a definição dos atores que fariam Damião: na primeira parte, até a alforria e estudos, seria Norton Nascimento (falecido ator que na época fazia muito sucesso com um personagem chamado Wotan); na maturidade, Milton Gonçalves. Pronto! Faltava agora escolher as locações, os outros atores (pensamos em dar também uma chance aos atores locais, seria sacanagem nossa deixá-los de fora) e os diálogos, que Christian já havia adiantado alguma coisa. Ficamos horas esboçando o trailer, as batidas dos tambores da Casa das Minas, todos os detalhes contemplados, e agora? Agora era definir uma agenda de encontros pra ver como faríamos isso tudo. Em 1993 não havia tanto incentivo assim como hoje, e foi então que tivemos a grande, imensa, magnífica e genial ideia: escrever o roteiro e enviar para Steven Spilberg! Somente ele poderia produzir o nosso filme! Mas como chegar até Steve (já éramos amigos íntimos)??? Foram necessárias várias semanas pra chegarmos à conclusão final: vamos ligar pra ele! Sim, e o telefone dele, qual era? (em 1993 não havia celular e nem internet aqui em São Luís). Depois resolveríamos essa questão. Seguimos com os diálogos (escritos à mão pois em 1993 não havia computador disponível, só pros ricos) e roteiro e a coisa foi pegando forma. Todos os atores (não me lembro mais quais eram) escolhidos, o roteiro caminhando, galera, era puro prazer isso!!!
Bom, voltamos ao Steve! Teríamos que descobrir o endereço do nosso amigo Steve e enviar a ele uma cópia do projeto (pense com a cabeça de hoje, mas no mundo de 1993, como encontrar o endereço de Steven Spilberg, sem internet e sem celular?). Resolvido, faríamos isso! Passaram-se alguns dias e fizemos mais uma reunião, acho que a penúltima, justamente pra discutir qual o discurso que utilizaríamos no OSCAR, isso mesmo, OSCAR!!! Nosso filme venceria o OSCAR de lavagem pois o livro era maravilhoso, nosso roteiro (que não passou de três páginas) imbatível e Steven Spilberg era o cara. Putz, pra quem iríamos agradecer, era pouca gente, agora quem não iríamos sequer mencionar: Cesar e Marcelo, que debochavam do projeto, e Biné, que ficava tirando onda. Esses caras iam ficar esperando falarmos o nome deles na televisão quando recebêssemos a estatueta e iam passar batido. Muito legal, divertido, visualizamos a fama, mas, de repente, veio a questão chave: e se Steven Spilberg enrolasse a gente? E se ele pegasse nosso filme e dissesse que era dele, sem nos dar os créditos? Pensamos em registrar no cartório de São Luís, mas isso não teria validade para nosso já não mais amigo Steve. Quer saber – pensamos – Steven Spilberg, vai tomar no teu c. que tu vai ficar com nosso filme!!! Engavetamos o projeto!

terça-feira, 24 de abril de 2012

Nosso abril despedaçado

Hoje foi um dia daqueles para não se acreditar na notícia. Dia de duvidar. De ter medo de abrir o jornal. Medo de acordar e não ter sonhado. De ligar a televisão. De ouvir o rádio. Medo da verdade. A madrugada foi longa. Pela manhã Décio Sá estava só nas manchetes. Não mais como porta-voz dos fatos, das investigações e das provocações. Ele era a notícia, comovente, cortante, aterradora. Conheci Décio Sá nos corredores da universidade. Simples, de origem humilde e gestos largos, chegou ao curso de Comunicação na segunda metade da década de 80 com uma vontade imensa de virar repórter, de ser um homem de jornal, de conhecer os segredos da palavras. Acolhido no curso como um bom sujeito, sem papas na língua, foi companheiro de boas viagens, carregador de alegrias ao lado do amigo Bottentuit, observador inquieto, ingênuo nas primeiras empreitadas amorosas, jogador de futebol sem futuro, indomável quando acuado. Décio Sá tinha planos e sabia o que queria. Fazia o futuro todos os dias. Virou homem feito, pai de família e transformou-se no repórter mais sagaz de sua geração. E por isso mesmo cultivou ao longo do caminho uma terra vasta de admiradores e alguns quarteirões de desafetos. Estava sempre à frente de todos. Como correspondente da Folha de S. Paulo, viveu a sua experiência mais audaciosa e tumultuada, com reportagens que lhe renderam reconhecimento e birras. Trabalhou na redação de O Imparcial, tomou partido do contra, criou polêmicas, deixou o emprego, entrou em quarentena até chegar de vez ao Sistema Mirante. Trabalhamos juntos na redação de O Estado do Maranhão e ali experimentamos a chegada do computador ao jornal. Estava sempre apressado como um eterno foca de redação, olhos sobressaltados, ombro curvado e uma caderneta de anotações na mão e uma resma de perguntas prontas. Corria riscos, mas os riscos não importavam. O importante era correr e chegar primeiro, como numa gincana juvenil de uma equipe sem capitão. Assim era o Décio Sá. Bonachão com os amigos mais próximos, sincero nas atitudes, generoso com a família e implacável na pena, Décio Sá foi um desses colegas de profissão que sabia multiplicar suas fontes, cotejando-as com sabedoria e delicadeza no exercício do jornalismo. Aprendeu a domar como poucos o informante, a informação e os informados. O blog foi o divisor de águas. Décio Sá tinha lado, e fazia questão de expor as suas preferências musicais, políticas, esportivas. Metia-se até em briga de galo. Às vezes de forma sutil, noutras nem tanto. E por ter lado, em alguns momentos navegou contra a correnteza, provocou crises nas esferas de governo, fomentou fogo amigo e estimulou a queda de secretários ou a cassação de prefeitos. Foi com essa personalidade forte, em permanente estado de ebulição, que Décio Sá tombou na noite de ontem, com cinco tiros a queima roupa. Mas não caiu sozinho. Caímos com ele, envergonhados e tristes. E por isso mesmo amanhecemos hoje com medo de acordar.