quarta-feira, 7 de junho de 2017

O retrovisor de Zeca Baleiro



No dia 28 de dezembro de 1989, o cantor e compositor Zeca Baleiro publicou longo texto no caderno de cultura do jornal “O Estado do Maranhão” – como poucas vezes ousou fazer na imprensa local, ainda que remanescente de uma breve jornada como estudante do curso de Jornalismo da UFMA - sobre empreitadas artísticas de nomes e nuvens que pairavam sob o céu de uma ilha sem pontes. No inventário que faz sobre a São Luís de 1989, Zeca Baleiro destila, da epígrafe ao epílogo, o seu desencanto com a falta de inventividade nas artes, mas aponta seu trombone também para algumas “estrelas" que reluzem em meio ao "eclipse total”.

Há algumas passagens curiosas no texto. Mas recolho uma, em especial, que faz candidamente uma referência ao grupo Madrearte, lembrado por Zeca em 1989 por “levar arte a praças e ruas da Madre de Deus”. Em 1990, durante a programação cultural do Seminário da Amazônia, no Núcleo de Esportes da UFMA, Zeca teve o seu show interrompido algumas vezes por vaias de integrantes do mesmo grupo Madrearte. Irritado com os insultos da trupe da Madre Deus, que faria uma apresentação em seguida, Zeca Baleiro quebrou o violão no palco e saiu de cena soltando cobras e lagartos pra cima de seus detratores.

Anos depois, em depoimento ao livro “Almanaque Guarnicê” (Clara Editora/Edições Guarnicê, 2003), Zeca admitiu que aquele foi o show mais rock’n roll que fez na vida. Sobre as vaias, o artista diz que na época foi acometido de “uma quase cólera”. Zeca apresentou-se acompanhado da banda Leonardo da Vince I, comandada pelo guitarrista Maninho. “Era de fato um show bem pauleira, longo, eu reconheço”. No show, o artista plástico Paulo César fez as vezes de mestre de cerimônia, uma espécie de Chacrinha pornô segurando um grande pênis de espuma. “Foi hilário. A intenção era mesmo provocar os caretas, só que não imaginei que despertaria tanta revolta”, disse ele ao “Almanaque Guarnicê. “Esse grupo da Madre Deus, aspirante a Boi Barrica, se achou no direito de invadir o palco antes do show acabar. Fiquei puto, fiz um discurso inflamado e, num acesso de fúria, quebrei o violão em pleno palco, à vista de todos. Depois soube do argumento dos invasores. Segundo eles, o meu show não era de música maranhense, mas de rock”.

“Fazer arte é ter vontade. A vontade sem movimento é só vontade.”

“Nem toda revolução é leviana. Nem todo artista se dispõe à luta armada.”

“Arte é a porta do inferno.”

“Só há como perspectiva o caos.”

“A velha São Luís parece não ter se contagiado tanto pela febre da criação.”




Eis o texto na íntegra:

O espectro da arte sem expectativa

“A mais odiosa das traições é praticada
pelo artista que se passa para o bando dos anjos”
Aldous Huxley

Zeca Baleiro

A arte é a boca no trombone.

Quem não tiver trombone que use outro instrumento. Só não é possível paralisar a vontade. Fazer arte é ter vontade. A vontade sem movimento é só vontade. E a arte precisa do gesto. Inquieto, luminoso, revolucionário. Nem toda revolução é leviana. Nem todo artista se dispõe à luta armada. Arte é a porta do inferno. E viva o diabo.

... E antes que algum aventureiro lance mão, aqui vai uma geral (da arquibancada, nunca da cadeira cativa!) do ano artístico de 89, com olho crítico e boca no trombone.
Arte é subversão.

Não me deixam mentir incontáveis magos, que, com sua arte, deslocaram a espinha dorsal de seu tempo, colocando pulgas na orelha do mundo. Assim foi com Van Gogh e suas tintas incendiadas, Rimbaud e sua poesia bandida, Schonberg e seu atonalismo diabólico, só para falar nos mais malditos.

E nós, até quando vamos continuar usando a música pra cantar nossas pobres aspirações pequeno-burguesas?; a dança, pra ensinar piruetas clássicas pra filhota da mamãe fresca, preocupada com a cor gasta da sapatilha francesa?; a poesia, pra massagear o nosso ego de “poetas” narcisos?; o teatro, para enaltecer o brilho da nobre arte de representar? Até quando vamos ter que aturar coisas tão belas quanto patéticas e encher a boca pra dizer que isso é a arte ou que somos artistas?

Não me iludo achando que ainda há tempo & espaço para que pintem movimentos ou ideias ou produtos geniais, verdadeiramente novos, originais. Só há como perspectiva o caos. E a arte que há por fazer consiste na reconstituição desse caos. Arte das cinzas. Dos legados de todas as épocas, estilos e formas. Todos os engenhos. “Nada parado, nada seguro/nada infinito ou puro”, profetizava o compositor Ednardo no início dos anos 70, já anunciando um tempo de fusões e experimentos que viria atropelar ele próprio. Navegar é preciso. Mas com lucidez. Do contrário, tanto difícil quanto refazer o caos será saber de algum cais onde chegar.

A velha São Luís parece não ter se contagiado tanto pela febre da criação, passando ao largo de toda a história cultivando uma histeria estética que sempre satisfez. De fórmulas gastas e cheias de êxito, a cidade está cheia. Só não se vê rebeldia, experimentação, arte ou paixão. Tudo é vão. Todos vão.

Som fora de tom

A música é, sem dúvida, a arte de comunicação mais rápida e rasteira. No bar, no teatro ou no rádio, há vez e voz pra tudo. Por isso mesmo, amargamos essa decadência sem nenhuma elegância. Mas vez por outra pintam estrelas no meio do eclipse total. Nesse meio, duas delas acenderam o escuro da nossa música. Rita Ribeiro, com o seu show “Cunhã”, apresentado em maio, e Rosa Reis, com sua “Cantareira”, em abril, ambos belíssimos.

Rita, uma espécie de brincante cósmica espacial/passista do futuro, interpretou de Bob Dylan a Godão, de Villa-Lobos a Assis Valente, abrindo as portas de sua babel à inventividade, tudo com uma personalidade de fazer inveja. Já Rosa, essa fez e faz o milagre de deixar a música com gosto de terra, de mato, cerrado, jeito de bicho criado solto no quintal. Foi assim que ela cantou, com beleza, pérolas de Mochel, Josias Sobrinho, Joãozinho Ribeiro e Chico Maranhão. Vale lembrar ainda a participação da banda Manguezal na segunda cantareira de Rosa, uma nova leitura feita em novembro do mesmo show apresentado em abril. A banda, formada por professores da Escola de Música e ex-integrantes da banda de rock Nirvana, mostrou que veio com todo oxigênio, pra ficar.

O grupo Fogo de Mão bem que tentou, mas não conseguiu dar continuidade ao seu projeto “Couro e Madeira” – um show só de percussão, festa de atabaques, agogôs e maracás.

O teatro de quatro

O teatro, esse, coitado, anda caduco. Exceto algumas iniciativas isoladas, não se viu nada de novo. Como um passageiro que perde o trem no meio do caminho, nosso teatro parece atropelado pelas mudanças substanciais desses anos loucos e não consegue achar novas soluções, embora saiba que as usadas já estão velhas e em desuso.

Por conta dessa crise, nenhum grande lampejo de criatividade. Na falta dela, usou-se um recurso mais eficaz, embora menos iluminado: a superprodução, como foi o caso do luxo fosco de “A Arca de Noé”, de Aldo Leite, em montagem do grupo Mutirão.

Destaque para a boa iniciativa de remontar Brecht em “Os Fuzis da Senhora Carrar”, de Reinaldo Faray e grupo, e o humor fino, quase ousado, do grupo Ganzola, sob a direção de Lio Ribeiro, em “A Revolta dos Perus”, comédia musical de Carlos Queiroz Talles.

Quem não dança, dança

Um número razoável de espetáculos de dança. A Academia Espaço Dança exorcizou os seus fantasmas com o seu “Espectros”. Um outro espetáculo, de nome singelo, o “Panã-Panã” da Academia Studium Arte Ballet, mostrou a sua leveza de borboleta. “Embarcações” e “Valsa para um Homem Feliz” foram criações da Academia Oficina do Corpo, este último inspirado (íssimo!) na peosia de Maiakovsky.

Ao pé das letras

No meio do ano, um grupo de artistas, jornalistas e pessoas preocupadas com os destinos de nossa arte se reuniu pra começar a fazer o que de mais importante se fez na vida (ai, que tédio!) literária de São Luís em 89: a revista Umdegrau – uma revista na margem d’arte – que já nasceu sob o signo da luta inglória. Primeiro, porque provocou polêmica sobre arte e cultura num lugar onde não há troca (quem produz arte mal se interessa em saber o que o vizinho, que também produz, anda fazendo), e depois porque paira sobre ela o risco de não ter continuidade por (adivinhem!) falta de apoio das empresas locais. Seria assim como plantar flores do campo num deserto.

Há ainda duas outras iniciativas: a coletânea “Poetas da Ponte”, organizada pela AME (Associação Maranhense de Escritores), onde se vê mais boa vontade que poetas e poesia, e o suplemento “Sacada Cultural”, do Jornal Pequeno.

As artes fazem plásticas

No terreno baldio das artes plásticas, notaram-se algumas experiências corajosas. Poucas e boas. Geraldo Reis foi morar no Portinho, pra pintar com mais verdade seus barcos e suas gentes e como forma de denunciar o que foi feito do Desterro (berre pelo aterro, pelo Desterro...), e expôs a sua “Paisagem”, na Galeria Matias Marcier. Já a Princesa Blues desenterrou suas raízes, folhas, tralhas e montou “Mensagem”, belíssimo trabalho com peças curiosas, apesar do nome careta. Francisco Joaquim dos Santos pôs nas ruas seus pastéis recheados de bom gosto, e dois artistas novos mostraram, em duas estreias, que vão conseguindo delinear caminhos próprios. Franco expôs suas pinturas em aquarela e Telma Lopes botou a boca no mundo pela preservação do verde com a sua “Ecologia Colorida”.

De foto e de direito

Poucos trabalhos expostos. Valeu a irreverência de Luís Pires, fotógrafo atento que capturou momentos hilários, patéticos da vida da cidade, com inteligência, picardia e olho no futuro. Luís andou mostrando seus clicks e flashes em feiras, exposições e clicks e flashes em praças, ou simplesmente onde houvesse duas ou mais pessoas reunidas em nome da arte. Quem não viu, não verá.

De noite e de dia

Nas ondas do rádio, nenhuma nova onda. Mas ainda se viu algumas boas ideias, como as do produtor da FM Mirante, Pedro Sobrinho, responsável por dois dos nossos melhores programas, a Segunda Instrumental e o Vento Nordeste, nos quais abriu-se um bom espaço para os músicos locais mostrarem o que pensam, o que cantam e o que tocam. Há ainda os bons especiais realizados pela equipe de produção da Universidade FM. No mais, nada de mais.

Projetos culturais

Houve quem buscasse alternativas para sua arte. Foi assim com um grupo de músicos e compositores, que, junto à comissão de cultura do Partido dos Trabalhadores, inauguraram a Sala Zé Hemetério e o projeto Viola de Bolso, que consistia na apresentação quinzenal de pequenos espetáculos musicais. O projeto se estendeu de fevereiro a março, quando acabou por falta de recursos.

Na mesma sala, outro projeto foi desenvolvido com sucesso. Foi a “Leitura de Poesia”, que o grupo Poeme-se tem apresentado desde o começo do ano. Por lá, passaram poetas como Leminski, Safo, John Cage e Augusto dos Anjos.

O grupo Madrearte também armou o seu “Canto de Rua”, com a proposta de levar a arte para as praças e ruas da Madre de Deus.

Costurando pra fora

A arte também foi respirar outros ares por outros lugares. A Academia Studium Arte Ballet foi a um Festival de Dança de Santa Catarina, levando o espetáculo “Terspsicore”. O Vox Feminae arrebanhou o quarto lugar no XVI Festival Internacional de Dança de Porto Alegre, e o Coral de São João foi a Córdoba participar de outro festival de corais, onde ganhou o primeiro lugar na classificação final.

Será arte?

Outros acontecimentos artístico-culturais (?) marcaram o ano letal de 89. A choperia Excalibur abriu espaço para shows que se revezam, mas não renovam. Por lá têm passado nomes como Gabriel Melônio, Cláudio Pinheiro, Marco Duailibe, Roberto Brandão e Inácio Pinheiro, em espetáculos com público e endereço certos, que enchem, com alegria de xópin center, o sábado de seus frequentadores, e, com certeza, os bolsos de seu proprietário. Aleluia!

O Teatro Praia Grande abriu as portas para a XIII FEMACO - Festival Maranhense de Coros -, que repetiu a chatice dos anos anteriores. O público que lotou as dependências do teatro se mostrou deliciado com dezenas de coros de caras tediosas cantando “a mão que toca um violão” ou “oh minha cidade deixa-me viver”, etecetera, etecetera, etecetera. Fora isso, só a ridícula rivalidade estimulada nos bastidores, entre a novidade de Vox Feminae, um coro só de vozes femininas ligado à Escola de Música, e a caretice do Coral de São João, que detém todos os louros da glória do canto coral em São Luís.

A jornada de Cinema e Vídeo mostrou mais uma versão cheia de êxito sem inquietação, apesar da pequena polêmica gerada em torno da não afluência do público aos cinemas e auditórios onde a Jornada acontecia. Com as atenções mais voltadas para o elenco de atores globais no júri que para a qualidade dos vídeos e filmes apresentados, foi possível registrar uma participação até numerosa de cineastas locais. Entre os premiados, trabalhos de Isa Albuquerque, Paulo Acrísio, Kitt Figueiredo, Júlia Emília e (vejam só!) José Raimundo Rodrigues, que realizou um documentário sobre a vida da militante comunista Maria Aragão (santo oportunismo, Batman!).

Rolou ainda o IV Festival Universitário de Música Popular, que surgiu com a proposta de mexer com a velha fórmula dos festivais, e não só não conseguiu como quase não aconteceu, mesmo com um velho festival de modelo ultrapassado. Pelo menos, valeu arrastar um público razoável para as terras improdutivas do campus do Bacanga, em torno de um fato cultural.

E por fim, um concurso de poesia batizado de Concurso Ferreira Gullar, que teve a premiação cancelada por (rir ou chorar, milk-shakespeare?) falta de qualidade.

Aquele velho disco de Festival de Fé, depois de uma novela cheia de surpresas e lavação de roupas sujas, parece que vai ter o seu final feliz, após a mobilização dos intérpretes e compositores junto à Secretária de Cultura, que afirma ter mudado de política (hic!), agora sob o comando de Américo Azevedo Neto.

Outros três discos esperam a sua hora no prelo. A Companhia Barrica, sob a batuta de Zé Pereira Godão, foi a São Paulo gravar a segunda bolacha do Boizinho Barrica, que deve ser lançado no período das festas juninas. Jorge Thadeu gravou o seu primeiro disco, como Tutuca, que gravou o seu “Beijo de Luz”. Até janeiro devem estar sendo lançados esses dois trabalhos, realizados no Estúdio Transamérica, no Rio, ambos com produção musical de Zé Américo (soy loco por...).

terça-feira, 23 de maio de 2017

A solidão de Macondo



Depois de léguas de páginas em viagem por Macondo, a remota e misteriosa aldeia do clã Buendía, nenhum viajante/leitor voltará o mesmo. Macondo nasceu em A revoada, mas foi com Cem anos de solidão, na primeira edição de maio de 1967, que a cidade imaginária passou a arrastar séquitos de visitantes curiosos, incréus e aturdidos.

Cinquenta anos depois, a capital do realismo mágico de Gabriel García Márquez continua viva, embora erma e enigmática, desafiando o sossego e a memória de quem se arrisca a decifrá-la. Daí porque, de lá, ainda que em ligeira espiada, ninguém retorna impunemente. Foi o que ocorreu comigo e, certamente, com milhões de outros leitores mundo afora.

O labirinto de Cem anos de solidão tem como portão de entrada o rito de colonização da América Latina, numa época em que “o mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome”. A solidão de Macondo e seus personagens é uma espécie de metáfora do isolamento e do provincianismo político dos países latino-americanos, características legadas pela esperteza de “gente estrangeira”.

Do casamento de José Arcardio com Úrsula seguem-se sete gerações de muitas histórias entrelaçadas pelo viés político e enriquecidas por um componente mítico peculiar do autor – numa melancólica Macondo “choveu durante quatro anos, onze meses e dois dias”. Foi esse imaginário fantástico que deu asas a Gabriel García Márquez em Cem anos de solidão – noutras dezenas de livros também - e o projetou ao Nobel de Literatura. Ao longo de anos, o escritor colombiano desembainhou discursos contra a desarrumação descomunal da América Latina e os expôs com suprema elegância na sua literatura. Ressentia-se ele da equivocada leitura que a Europa, em especial, fazia sobre a história e a cultura da América Latina.

O desconhecimento europeu deliberado, segundo García Márquez, reduziu por séculos o “tamanho cultural” das nações e do povo latino-americanos. “A interpretação da nossa realidade a partir de esquemas alheios só contribui para tornar-nos cada vez mais desconhecidos, cada vez menos livres, cada vez mais solitários”, disse ele em Estocolmo, em 1982, ao receber da Academia Sueca o Nobel de Literatura. E acrescentou: “Talvez a Europa venerável fosse mais compreensiva se tratasse de nos ver em seu próprio passado”.

No livro Eu não vim fazer um discurso (Record, 2011), coletânea de pronunciamentos de Gabriel García Márquez em diferentes lugares e situações, desde sua estreia como orador ainda estudante em Zipaquirá (Colômbia), há um rosário de argumentos que reforçam as convicções de um escritor assumidamente de esquerda, com os pés no chão e a imaginação em permanente euforia.

O povo latino-americano soube catalisar agruras e transformá-las em fábulas, segundo a essência do discurso de García Márquez. O nó da solidão na América Latina, dizia, está na distância entre o duro assombro da escassez cotidiana e a fantasia em estado bruto: “Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todos nós, criaturas daquela realidade desaforada, tivemos que pedir muito pouco à imaginação, porque para nós o maior desafio foi a insuficiência dos recursos convencionais para tornar nossa vida acreditável”.

A aventura quimérica presente a obra de García Márquez, com suas histórias encobertas por nuvens de amor e cólera, é pródiga na marcha pela redenção da América Latina, essa irremediável Macondo dos esquecidos, fina estirpe dos solitários. É nesse exercício de leitura errante pelas aldeias do escritor colombiano que encontramos em meio à prosa crua, provocadora, a poesia inverossímil que escorre pelo caule de um conversador empedernido. “Em cada linha que escrevo trato sempre, com maior ou menor fortuna, de invocar os espíritos esquivos da poesia”.

Os espíritos, intumescidos no realismo mágico do escritor, morto em 2014 aos 87 anos, vagueiam distraídos “num café com gosto de janela, num pão com gosto de esquina, numa cereja com gosto de beijo”. Depois da primeira leitura, lá pelos meus 17 anos, por algumas vezes ainda voltei a folhear Macondo na esperança de encontrar esperança num pé de página. Quem sabe lá na frente, num inventário de escrituras polidas, como em Cem anos de solidão, a América Latina enxergará, enfim, esse caprichoso futuro escondido “no fundo dos cântaros”.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

No labirinto de espelhos de Daniel Blume



Poetas têm “almas azuis, divinamente doidas” e flanam distraídos, com seus tecidos rotos, pelas calçadas do desregramento. Essa alegoria, embora meio esfarrapada ao longo da história da literatura, fez do poeta um ser quase acima do chão, meio solar, meio insular. Daniel Blume é um desses poetas de terno e gravata, da antialegoria, que, aqui e ali, empresta a pena de advogado ao expediente da poesia. Com a publicação de “Penal” (AML, 2015), Daniel enfeixa uma quase centena de poemas em livro que realça a sua aguda sensibilidade no manuseio das palavras.

Em “Penal” não há um jurista catando erudição em dicionários ou cometendo exercícios metafóricos com armaduras de pudor e surtos de autodefesa semântica, mas um poeta de segunda viagem vestido com o “uniforme de homem normal”, comum, alheio ao austero ofício da razão. Daniel Blume faz com inventividade um cruzamento de impressões várias sobre coisas simples: o vulcão da vida de entes próximos, o plano de voo, o gosto amargo da ameixa, os cacos de erros juntados pelo caminho e a invencível dança do elemento tempo.

No poema Carmé o autor revisita o passado e derrama a sua melancolia sobre o pão com açúcar das tardes de um velho casarão da rua da Paz, no Centro de São Luís: “... Essa saudade/ Não ainda só memória/ Porque dor, lembrança/ E presença”. Não há na obra de Daniel Blume sangramentos inestancáveis, mas pequenas fissuras, vãos abertos pelo olhar instigante de quem não se conforma com o recorte turvo de certas paisagens. Se persistem ligeiros traços de dor, há num dado poema a verdade exposta que machuca e ao mesmo tempo afaga.

“Penal” não é um manual de autoajuda com inspiração poética para apreciadores do Direito. É um livro “fora da lei” que expõe o pó e a ferrugem incrustados na política, nos livros mofados nas bancas de academias. Para Daniel Blume, o poema é refluxo de sensações, representação, “tenda de todo ator”. Por onde escorre a pena do poeta também corre um rio de aflições, pululam estrelas cadentes (sob o céu de São Pedro da Aldeia, por exemplo), serpeiam fantasmas de ontem e hoje: “... Então/ o intenso receio/ do se/ das turbulências”.

A ri
gor, “Penal” não é poesia sisuda, profunda, devastadora, mas um livro sereno escrito com um recorrente nó na garganta, como quem, pelo triunfo da pena, busca respostas derradeiras num labirinto de espelhos. O poeta é réu, por um fio, de sua própria pena, mas escoimado por aquilo que escreve e transpira. Suor e sangue. Sabe bem ele que poesia não é fliperama, que a vida nem sempre é parque. E, por isso mesmo, Daniel Blume faz da pena que dá nome ao livro um afiado punhal.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Cecília Leite e o refino da MPB



Apesar de insultada diariamente pelo fliperama comercial que toma conta da programação de emissoras de rádio e TV, a música brasileira de qualidade resiste aos maus tratos e reinventa-se com elegância debaixo dos temporais do mercado. A cada verão surgem nomes novos que heroicamente arriscam voz e poesia num território dominado pelo refrão barato e melodias medonhas. Nos últimos dez anos assistimos a uma profusão de cantoras - algumas delas de reconhecido talento - que, involuntariamente, estão inaugurando a pós-MPB, a música sem fronteiras, sem cabresto estético, que provoca espasmos do Chuí a Madri. Cintilam nessa contracena da indústria cultural Roberta Sá, Tulipa Ruiz, Ana Cañas, Tiê, Mariana Aydar, Clarice Falcão, Thaís Gulin, Patrícia Bastos, Céu e Anna Ratto, só para ficar numa dezena dos nomes mais ilustres.

Há em cada uma a marca da autenticidade, de um estilo peculiar. A maranhense Cecília Leite é dessa mesma linhagem de cantoras engenhosas e de repertórios inventivos, que fogem dos clichês e dos chicletes. Agora com o lançamento de Enquanto a chuva passa, o seu segundo disco, ela tira o brevê do refino e entra de vez para o time das mulheres que cantam porque, longe da aventura, conhecem o percurso da voz e o mapa das canções.

O novo CD de Cecília Leite é uma enchente de brasilidade, insurgente, e que, por isso mesmo, vai dar em qualquer mar. Com Enquanto a chuva passa a cantora chega à água depois de experimentar o calor do primeiro álbum lançado em 2004 - Fogueira, um tambor de crioula de César Nascimento, é uma metáfora entre o fogo e a paixão.

Enquanto a chuva passa, como o próprio nome sugere, não é rural mas tem cheiro de terra molhada. O disco, fiel ao bom gosto, faz interseções inspiradas porque conta com um time de músicos de primeira grandeza. É o samba que flerta com o jazz, a valsa que cruza com a bossa no infinito da canção e o blues que sorrateiramente corteja um bolero. O CD transborda em luminosidade e sofisticação, talvez por exigência da própria Cecília Leite, para quem a música nunca foi brinquedo. Brincar com a voz é uma coisa. Isso ela sempre fez desde os tempos de universidade. Cantar é outra conversa, quase um sacerdócio, que exigiu dela estudo e muita dedicação.

O veio de Enquanto a chuva passa nasce com uma música inédita de Zeca Baleiro, Tem dó, um toque meio afro com acabamento luxuoso de Lui Coimbra, que assina o arranjo da maioria das faixas do disco. Lui excede-se num violoncelo arrebatador que também se desmancha em outras canções. Improvável não se entregar. Tem dó expõe ainda a percussão cadenciada e transcontinental de Marcos Suzano.

Difícil apontar qual o melhor momento do disco, tamanha é a responsabilidade de quem o ouve. Mas eu apostaria minhas fichas na faixa que dá nome ao álbum. Enquanto a chuva passa é a única música assinada por Cecília Leite, o recorte autoral de um CD que tem compositores do naipe de Paulinho da Viola, Pixinguinha, Vinícius de Moraes e Chico Buarque, além de Zeca Baleiro. É uma bela canção de pôr do sol, um brinde ao amor, o momento da entrega plena, duradoura, que se completa com uma taça de vinho.

Toda mulher acima dos 30 anos ou tem ou já teve Chico Buarque na cabeça. Pode ser um exagero, talvez. Mas só Cecília Leite gravou com ele Eu te amo, em francês, música incluída no primeiro disco da cantora maranhense. No novo disco, Cecília revisita Chico na canção De todas as maneiras, um quase tango de verão deliciosamente harmonioso. Seule, de Pixinguinha e Vinícius, é outra pérola do CD, uma valsa perdida no tempo e lapidada com esmero pela voz aveludada no francês de Cecília.

A cantora junta num balaio incidental os poetas José Chagas e Ferreira Gullar, passeia pela embolada de Patrícia Polayne e entoa um xote de Pedro Luís e Lula Queiroga. Em Maré cheia, Cecília Leite arrasta a sandália num sambão de Bruno Batista que expõe a bailarina das lembranças e vicissitudes, a tal fatal, a bacante apaixonada de São Luís e do mundo.

Cecília Leite poderia muito bem estar num desses palcos boêmios da Lapa ou no calendrier des arts de Paris, mas prefere tecer a vida sem pressa, ao sabor dos caprichos da vida. Assim ela vai passando a chuva. O novo disco, pela intensidade de suas doze canções, abre caminhos promissores como uma leve brisa que assovia a chegada do final da tarde.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Maio oito meia (15) – O rito de passagem

Foram dias causticantes, rumorosos, que de tão intensos passaram rapidamente entre 1986 e 1990. Transpiração sob a marquise. Conspirar era respirar em grupo. Foram dias como outros tantos em ambientes universitários, com ritmo, poesia, paixão e rebeldia. Mas, para nós que experimentamos aquela primavera inaugurada com um filme de Godard, foram dias especiais que jamais se rebobinarão. Dias que desencadearam lutas, sustos, aprendizados, rupturas, revelações e histórias de amor, triunfo e desencanto.

O eixo dessas histórias foi a Universidade Federal do Maranhão. Pelo campus do Bacanga passaram muitos estudantes, cada um com um propósito: abrir horizontes, cortar caminhos, trapacear o futuro, matar o tempo, transformar, ascender, conquistar o canudo, chegar ao mercado pela porta da frente.

Leia mais em maiooitomeia.com.br.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Galera (capítulo 2) - Daphne faz rock com sotaque nem wave

(texto publicado no jornal O Estado do Maranhão em 23 de março de 1996)

Félix Alberto Lima

Foi em 1988 que tudo começou. Era uma brincadeira de garotos estudantes. Paulo tinha um teclado e Alexander, um violão. Começaram a fazer ruídos na garagem da casa de Paulo. Mas faltava alguma coisa. Descolaram uma bateria e chamaram Renato. Depois veio César com o baixo e a panaceia estava formada. Juntaram tudo e passaram a animar festinhas com covers dos Beatles, Pink Floyd, Legião Urbana e mais um magote de bandas que infernizaram o cenário do pop brasileiro na década passada.



Com essa formação, a Daphne ficou até o início de 1990. César e Renato deixaram o barco e foram substituídos por Otávio e Cacique de New York (isso mesmo!). Mas as mudanças não pararam por aí. Em 1993, o Cacique deixa a tribo para dar lugar a Nuna. Eis então que surge a formação atual da banda: Paulo Pellegrini no teclado; Alexander de Carvalho no vocal e guitarra; Otávio Parga no baixo; e Nuna Gomes na bateria. Ainda em 1993 a Daphne gravou uma demo e as músicas “Os sonhos não podem sonhar” e “Metade de quê?” chegaram a ser executadas nas rádios Mirante e Universidade.

Depois de mais de seis anos de estrada, os meninos da banda acharam por bem fazer o registro do trabalho em disco. Mas nem sempre a história das produções de disco independente, em São Luís, tem esse enredo. Algumas bandinhas fuleiras mal começam a fazer show em botecos e já se acham em condições de “gravar” – saem por aí babando patrocínios com pose de artistas. Muitos não sabem ainda – e fazem questão de não saber – que música é coisa séria e requer conhecimento, estudo e, sobretudo, harmonia.

“Partimos do nada para fazer esse disco. Fizemos de tudo no trabalho, da criação das músicas à montagem final da capa”, revela Alexander de Carvalho, 22. O CD “Semblantes” pode ser considerado o primeiro disco gravado por uma banda de rock em São Luís. Gravado em 1994 no estúdio Sonata, da Cohama, “Semblantes” chega às lojas com o apoio de algumas empresas e também com recursos dos próprios caras da banda. “Investimos dinheiro do nosso bolso. Ninguém vive da banda. Todo mundo aqui estuda ou trabalha. E o nosso objetivo é mostrar uma música de qualidade e de fácil assimilação. Quem sabe a ideia não abre as portas para outras bandas de rock?”, conta Alexander.

O CD deixa claro que as influências da banda vêm do Pink Floyd, U2, Legião Urbana, Engenheiros do Hawaí, Barão Vermelho e Paralamas do Sucesso. Os integrantes da Daphne beberam no pote da new wave e gravaram 12 músicas com um toque de inspiração do rock progressivo. “A nossa música, embora fuja do rótulo de comercial, é de fácil digestão”, reconhece Alexander. Sem muitas pretensões, “Semblantes” é uma espécie de janela para outras investidas desse tipo por parte da banda. “O disco foi gravado há quase dois anos. Hoje já evoluímos bastante em termos de musicalidade. Já tocamos bem melhor. Mas o disco é o produto que temos. E quem ouvir vai gostar”, afirma Paulo Pellegrini, 21.

O CD abre com a faixa-título, uma balada com misto de RPM e Legião Urbana. A ingenuidade dos versos de “Semblantes” (a música) soa como uma cantiga de ninar: “Mas fez doce o meu cantar/ Para brincar de viver e chorar então / Mas para que deformar/ Meu semblante com mais ilusão”. Depois vem “Clamor ao vento”, a música que tem tudo para pegar nas rádios e cair no gosto da moçada. Nela fica bem claro que o espírito dos pampas Engenheiros está presente. “Versos antigos” tem uma abertura que cansa. O teclado tem inspiração gospel e a faixa pode servir para animar qualquer reunião dos carismáticos.

Em “Tão poucas palavras” a balada dos meninos lembra um som que vem de Brasília. “Algozes do povo” (levada titânica) e “Contrastes” são as músicas engajadas do disco. Refletem um pouco do mundo universitário, que é o público mais fiel da banda. “Contrastes”, entretanto, é o som mais ousado da Daphne, com o peso das guitarras de Alexander e Otávio. É difícil não lembrar do Capital Inicial em “Metade de quê?”. As outras músicas mantêm o traço característico da Daphne e não chegam a surpreender.

“A ideia agora é fazer shows para divulgar o disco. Na verdade serão vários pré-lançamentos”, anuncia Paulo. Os shows da Daphne podem acontecer em qualquer lugar, dos bares e boates às calouradas universitárias. O CD “Semblantes” deve ser divulgado em rádios de Brasília, Manaus, São Paulo e Teresina. “Tecnicamente, a produção ainda precisa ser melhorada para conquistar o mercado do centro-sul, que é mais exigente”, reconhece Paulo Pellegrini. Ele garante que o grande barato do disco, que chega ao mercado com mil cópias, é mostrar que aqui em São Luís existe uma cultura roqueira.

CD "Semblantes", faixa por faixa

1 - Semblantes (Otávio Parga)
2 - Clamor ao vento (Otávio Parga)
3 - Versos Antigos (Paulo Pelegrini/Cacique de New York)
4 - Choro Inocente (Alexander de Carvalho)
5 - Tão poucas palavras (Otávio Parga)
6 - Contrastes (Alexander de Carvalho/Cacique de New York)
7 - Os sonhos não podem sonhar (Paulo Pellegrini/Cacique de New York)
8 - Algozes do povo (Paulo Pellegrini/Alexander de Carvalho)
9 - Acreditar (Paulo Pellegrini/Alexander de Carvalho)
10 - A única ciranda (Paulo Pellegrini)
11 - Metade de quê? (Paulo Pellegrini)
12 - O que falar? (Alexander de Carvalho)

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Galera (capítulo 1) – A felicidade na alvorada de Bill Gates



No jornal O Estado do Maranhão editei, ao lado da jornalista Francília Cutrim, um caderno especial dirigido ao público adolescente denominado Galera. E foram muitas reportagens, entrevistas e experiências ao longo de quase dois anos de convívio com uma fauna sedenta de informação e atônita em meio ao carrossel tecnológico que começava a girar – e a transformar a comunicação - em plena década de 1990. Um desafio e tanto pra qualquer repórter. Escrever para adolescente carecia de uma linguagem diferente, uma fala de muitas tribos que reproduzisse um pouco a maneira de se comunicar do jovem daquela geração. Eram edições semanais, leitores cativos, pautas fora do eixo, cartinhas endereçadas aos editores... E eu gostava daquele exercício.

O Galera dedicou a edição do dia 5 de julho de 1997 à felicidade, com alguns textos abordando o tema por diferentes fechaduras, e uma entrevista que fiz com o professor Agostinho Marques. Leia:

Existirmos, a que será que se destina?

Agostinho Ramalho Marques Neto, 50, foi professor de Direito e Filosofia da UFMA por mais de 20 anos. Tem vários trabalhos publicados nessas duas áreas e também no campo da Teoria Psicanalítica. Ao longo dos anos, Agostinho proferiu mais de 150 palestras em São Luís e em instituições de ensino superior de várias cidades do Brasil e do exterior. Desde o início deste ano, Agostinho Marques vem atendendo em seu consultório de psicanálise, no Edifício Monumental. Com fala mansa e cara de quem sabe das coisas, sem afetação, Agostinho recebeu a equipe do Galera em seu apartamento e transformou a correria da quinta-feira numa espécie de calmaria, dessas comuns apenas em templos e mesquitas. E o que é mais importante: para falar sobre felicidade.

Vamos começar com um trecho da canção de Caetano: “Existirmos, a que será que se destina?”

Agostinho Marques – Esses versos de Caetano Veloso a que você me propôs como mote me trouxeram a questão da felicidade como aquilo a que cada um destina sua existência. A ideia e a busca da felicidade têm ocupado os seres humanos desde tempos imemoriais. Ainda hoje o que a prática clínica da Psicanálise nos mostra cotidianamente é que o que está por trás das queixas dos pacientes é, afinal de contas, uma demanda de felicidade.

E o que é felicidade, afinal?

Agostinho Marques – A simples formulação dessa pergunta já supõe que a felicidade seja alguma coisa. Mas que coisa é essa? A simples colocação dessas questões nos aponta no sentido da extrema variabilidade tanto da noção de felicidade quanto dos objetos cuja obtenção seria necessária para realizá-la, como também dos meios de consegui-la.

Existe relação entre dinheiro e felicidade?

Agostinho Marques – Eis uma pergunta interessante, porque remete tanto para a questão dos objetos como para a dos meios de obter a felicidade. Raramente encontramos alguém para quem a simples posse do dinheiro seja suficiente para garantir a felicidade. Algo mais é necessário, figurando o dinheiro antes como meio do que como fim. Para os antigos filósofos gregos, em particular Aristóteles, a felicidade - que em grego se chama eudaimonia, literalmente “bons demônios” - é o fim último, o bem supremo a que nossa vida se destina.

Existem meios de se chegar à felicidade?

Agostinho Marques – Essa felicidade, própria do homem livre, obtém-se pelo cultivo das virtudes éticas, pela participação política na vida da cidade e, para alguns, pela contemplação da verdade sobre os seres, cujo caminho é a prática da filosofia. Tem-se aí uma visão estática da felicidade. Este é um estado que, uma vez atingido, não se perde mais. Como disse Aristóteles, “o homem feliz nunca poderá ser desditoso, porque jamais praticará atos odiosos ou vis”. Os pensadores modernos trocaram essa visão estática por uma visão dinâmica da felicidade. Para eles, a felicidade é algo que só é possível no próprio movimento da vida e que num dado momento se alcança, mas no momento seguinte se pode perdê-la. Hobbes [Thomas Hobbes], um dos mais importantes filósofos modernos, diz que a felicidade é a contínua realização dos desejos, mas adverte que não há um desejo “último” no qual a felicidade se realize por completo e de modo duradouro. Isso significa que propriamente não se é feliz, mas que se pode ir sendo feliz, e que a felicidade passada ou presente não basta para garantir a futura. Esses exemplos mostram o ponto essencial da questão, que já mencionei: a extrema variabilidade da noção e dos objetos da felicidade e dos meios de alcançá-la. Essa variabilidade ocorre não apenas de uma cultura para outra, mas no interior da mesma cultura, ao longo de sua história e dentro de qualquer momento desta, assim como ocorre também em cada indivíduo. Há uma ineliminável dimensão de subjetividade na noção de felicidade, de tal modo que o que antes foi felicidade hoje pode parecer uma grande desventura e vice-versa. Isso sem falar que o mesmo objeto ou o mesmo acontecimento pode, ao mesmo tempo, provocar na mesma pessoa a sensação de felicidade, por um lado, e de infelicidade, por um outro. Isso significa que esses dois sentimentos não são necessariamente excludentes um do outro.

Quem é feliz?

Agostinho Marques – Quem consegue existir com certa leveza e disso fruir.

Você é feliz?

Agostinho Marques – Na maioria das vezes, sim.

Então felicidade é um estado de espírito?

Agostinho Marques – De algum modo, embora nem todo estado de espírito seja de felicidade.

Alegria é felicidade?

Agostinho Marques – Não. Mas tem muito a ver com ela. Às vezes pode ser um sinal dela.

A tristeza é a antítese da felicidade?

Agostinho Marques – Não necessariamente. Ser feliz e viver momentos de tristeza não são forçosamente incompatíveis.

Existe um modelo de felicidade?

Agostinho Marques – Não. Isso depende da idealização de cada um.