segunda-feira, 27 de junho de 2016

A desunião europeia e os 80 anos de “Raízes do Brasil”

Causou perplexidade e susto em outras nações a ruptura dos britânicos com a União Europeia, sacramentada em plebiscito depois de um engenhoso jogo de interesses até agora tácitos para o resto do mundo. Passada a euforia do voto pelo sim, os ingleses, em especial, vivem dias de ressaca moral e sentem sobre os ombros o peso de um arrependimento mascarado, quase tardio. A ficha ainda cai. O Reino Unido, enfim, é uma ilha na Europa. Não há explicações objetivas a essa opção pelo isolamento. De costas para a Europa, os britânicos sairão fortalecidos? O velho mundo ficou pequeno para a Grã-Bretanha? Nem uma coisa nem outra. Essa mania de grandeza vem de longe, dos escaninhos da história, das profundezas da socioeconomia.

A imagem que se tinha dos ingleses, especialmente para quem visitava a Grã-Bretanha antes da Revolução Industrial da fase vitoriana, era a de um povo indolente, esbanjador, refestelado na “boa vida” e com um indisfarçável complexo de inferioridade em relação aos seus vizinhos europeus (holandeses, franceses e alemães), concorrentes por excelência. O ócio, o apego ao luxo e a imprevidência são características dos ingleses severamente atacadas no panfleto “England’s treasure by forraigne trade” (em tradução livre, “Tesouros da Inglaterra no comércio exterior”), assinado por Thomas Mun em 1664 e com trecho recortado no revelador ensaio “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda.


Sérgio Buarque de Holanda

Substancial e ao mesmo tempo concisa, amparada em farta argumentação histórica, a obra de Sérgio Buarque de Holanda fora publicada originalmente em 1936, portanto há 80 anos, e carrega em pouco mais de duzentas páginas um broquel de atualidade e transversalidade. O perfil dos britânicos é ligeiramente analisado no capítulo em que o autor aborda as origens do comportamento do povo brasileiro, forjadas na predisposição para a aventura dos povos ibéricos. Assim como portugueses e espanhóis, os ingleses misturavam deliberadamente trabalho & aventura no afã de “colher o fruto sem plantar a árvore”. Como os ibéricos, os ingleses não tinham “apreço pelas virtudes da pertinácia”.

No livro, Sérgio Buarque de Holanda recorre também ao escritor William Ralph Inge, deão da catedral de St. Paul, para sustentar a ideia de que os ingleses, já no segundo quartel do século XX, comparados com os seus vizinhos, não tinham aptidão para fainas duradouras: “O inglês médio não tem presentemente nenhum gosto pela diligência infatigável, laboriosa, dos alemães, ou pela frugalidade parcimoniosa dos franceses”. E vai mais longe o deão inglês, atirando contra seus compatriotas e outras gentes: “A indolência é vício que partilhamos com os naturais de algumas terras quentes, mas não com qualquer outro povo do Norte da Europa”.

“Raízes do Brasil”, como o próprio nome sugere, é um lúcido mergulho no (re)conhecimento das origens do Estado brasileiro. Ao lado de “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, e “Formação do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Junior, o livro de Sérgio Buarque de Holanda está no rol de obras clássicas essenciais para a compreensão do País e dos brasileiros. O autor enfeixa uma série de conceitos polares, antagônicos, como trabalho e aventura, método e capricho, rural e urbano, para descrever o traço patrimonialista e personalista presente na formação do povo brasileiro e na composição do Estado brasileiro.

A procura por uma identidade brasileira começa com o estudo das fronteiras do continente europeu. Os países ibéricos, segundo o autor, não faziam parte, até o início das grandes navegações, do bloco econômico e cultural predominante na Europa. Influenciados por ações religiosas e invasões de outros povos, principalmente do norte da África, portugueses e espanhóis formavam uma cultura miscigenada que se distanciava da tradicional cultura dos países ao centro e ao norte da Europa. É explicando, por exemplo, a inclinação de Portugal e Espanha para um “trabalho aventureiro” na colonização do novo mundo que Sérgio Buarque de Holanda chega, de viés, aos britânicos.

O autor define como aventureiro o homem que vive dos espaços ilimitados, dos projetos vastos, dos horizontes distantes; já o trabalhador é visto como o homem que enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar, e por isso tem um campo visual restrito. Colonizar a América exigia façanha, grandes voos e audácia. O português, semeador na definição de Sérgio Buarque, foi o povo que melhor adaptou-se ao novo mundo, ainda que “com desleixo e certo abandono”, e ajudou a compor o perfil de “homem cordial” atribuído ao brasileiro – entendido não como bondoso, mas de aparência afetuosa.

Como explicar a preguiça de um povo que inventou o mercantilismo e que promoveu a grande revolução industrial ainda no século XIX, fatores que contribuíram sobremaneira para o florescimento do capitalismo no mundo? Onde encontraram forças os ingleses para erigir um império de conquistas na África, na Ásia e nas Treze Colônias ao norte da América? Como pode um povo indolente e aventureiro manter até hoje, por vaidade ou veleidade, um dos mais longevos projetos de monarquia? São questões perdidas no mesmo sopro de argumentos imponderáveis que ajudam a construir a sanha fratricida além dos muros do reino. Para entender o presente, como vaticinou Sérgio Buarque de Holanda, é preciso mergulhar no passado. Os britânicos certamente saberão reinventar-se com destreza. O big bang da velha Europa está apenas começando.