segunda-feira, 5 de abril de 2010

Chico Xavier e o caso Humberto de Campos

Tema tratado perifericamente no longa-metragem Chico Xavier, filme de Daniel Filho que estreia hoje nos cinemas do País, a polêmica sobre a autoria dos mais de 400 livros psicografados pelo médium mineiro já esteve no centro das discussões da intelectualidade brasileira, no século passado. E até virou processo judicial. No livro As vidas de Chico Xavier (editora Planeta do Brasil, 2003), que deu origem ao filme, o jornalista Marcel Souto Maior relata em determinado capítulo o rumoroso caso que levou o mais famoso espírita brasileiro às barras da justiça: a psicografia de livros cuja autoria fora atribuída ao espírito do escritor maranhense Humberto de Campos, morto em 1934.


O lançamento do filme é apenas um dos muitos acontecimentos que celebram, neste abril, o centenário de nascimento de Francisco Cândido Xavier, um mineiro pobre e mulato que viveu intensamente o espiritismo e a filantropia e chegou a ser indicado, em 1981, ao prêmio Nobel da Paz. Adorado por muitos, desprezado pelos intelectuais e bajulado por políticos e empresários, Chico Xavier viveu à margem das tentações da matéria, após a morte em 2002 transformou-se em mito e sua missão filantrópica espraiou-se pelo mundo, por meio de seus admiradores.

Os livros psicografados por Chico Xavier venderam mais de 50 milhões de exemplares. Ele abriu mão da renda das publicações em nome da caridade. O primeiro livro do médium publicado pela Federação Espírita Brasileira (FEB), em 1932, foi Parnaso de além-túmulo, uma coletânea de 59 poemas atribuídos a 14 poetas de língua portuguesa de reconhecido talento, como Castro Alves, Olavo Bilac, Casimiro de Abreu e Augusto dos Anjos, entre outros.

Sobre Parnaso de além-túmulo, Humberto de Campos publicou as crônicas Poetas do outro mundo e Como cantam os mortos, ambas no jornal Diário Carioca. Na primeira delas, o escritor maranhense reconhece o valor literário dos versos mediúnicos, porém põe a sua afiada ironia a serviço da descrença coletiva: “A poesia é uma predestinação de tal modo fatal, irremediável, que a vítima não se livra dessa maldição nem mesmo depois da morte”. Em outro trecho, vai direto ao escracho: “Se eles (os mortos) voltam a nos fazer concorrência com seus versos perante o público e, sobretudo, perante os editores, dispensando-lhes o pagamento de direitos autorais, que destino terão os vivos que lutam, hoje, com tantas e tão poderosas dificuldades? Quebre, pois, cada espírito a sua lira na tábua do caixão em que deixou o corpo”.

As crônicas foram o único “elo material” entre o médium mineiro e o escritor maranhense, que não se encontraram em vida. Depois de um longo sofrimento, Humberto de Campos morreria em 5 de dezembro de 1934, dois anos após o lançamento de Parnaso de além-túmulo. Três meses depois da morte, Chico Xavier diz em seus escritos ter sonhado com Humberto de Campos, de quem ouvira a seguinte frase: “Você é o menino do Parnaso? Eu sou Humberto de Campos”. Seria a senha para os sucessivos textos do escritor dali em diante psicografados pelo médium.

Os textos atribuídos a Humberto de Campos são mensagens em defesa dos espíritos, como “um consolo aos tristes e uma esperança aos desafortunados”. Em quase dez anos, foram tantas as mensagens espirituais do escritor maranhense que renderam cinco livros psicografados por Chico Xavier: Crônicas do além-túmulo, Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho, Novas mensagens, Boa nova e Reportagens do além-túmulo.

Em 1944, a viúva Catharina Vergolino e os filhos Henrique e Humberto Filho, detentores dos direitos autorais da obra de Humberto de Campos, entraram com uma ação declaratória na justiça contra Chico Xavier e a Federação Espírita Brasileira. A filha Maria de Lourdes não quis se envolver na questão. De acordo com a ação, a justiça deveria declarar se os livros lançados por Chico e a FEB eram obras realmente ditadas pelo “espírito de Humberto de Campos”. Por meio de advogados, a família exigia, para isso, todas as provas científicas possíveis e requisitava depoimentos em juízo de representantes da Federação, de Chico Xavier e, até, do “espírito de Humberto de Campos”.

Claro que o processo se transformou numa enorme polêmica e atraiu as atenções da grande imprensa brasileira. A opinião pública aguardava com expectativa a decisão do juiz João Frederico Mourão Russell. Se negasse a autenticidade dos textos atribuídos ao espírito de Humberto de Campos, Chico Xavier poderia pagar indenização por perdas e danos à família do escritor, além de ser preso por falsidade ideológica. E se confirmasse os livros como verdadeiramente escritos pelo espírito de Humberto de Campos, estaria reconhecendo a existência de vida após a morte. Nessa hipótese, deveria decidir se a família de Humberto de Campos teria ou não o direito autoral sobre o conjunto da obra mediúnica.

Mourão Russell considerou a ação inepta com base em argumentos consistentes. Ao morrer, o indivíduo deixa de possuir direitos civis, logo Humberto de Campos não poderia reavê-los. Direitos autorais herdáveis limitam-se àqueles referentes a obras produzidas pelo escritor antes de sua morte. E, por fim, a ação resumia-se a uma mera consulta com base em perícia científica sobre espiritismo, fato alheio às prerrogativas do Judiciário.

Polêmica familiar sobre textos do além

Os herdeiros de Humberto de Campos recorreram, sem sucesso, da decisão de Mourão Russell. A justiça encerrou o caso em 3 de novembro de 1944. Ao apresentar o recurso judicial, a família optou por reduzir a pó os textos psicografados por Chico Xavier. No agravo, o advogado do espólio argumenta que a obra mediúnica é profundamente inferior aos textos originais de Humberto de Campos. “Não só está eivada de imperdoáveis vícios de linguagem e profundo mau gosto literário, como é paupérrima de imaginação e desprovida de qualquer originalidade”. E aponta para o pastiche: “O que é aproveitável não passa de grosseiro plágio, não só de ideias existentes na obra publicada em vida do escritor, como de trechos inteiros, o que é de fácil verificação”.

Em meio aos embates no pretório, a defesa de Chico Xavier apresentou texto até então inédito assinado pelo “espírito de Humberto de Campos”, no qual ele - o espírito - expõe suas mágoas para com a empreitada dos familiares na justiça. De acordo com a mensagem, a família não precisava movimentar o exército dos parágrafos e atormentar o cérebro dos juízes. “Que é semelhante reclamação para quem já lhes deu a vida da sua vida? Que é um nome, simples ajuntamento de sílabas sem maior significação?”.

A mãe de Humberto de Campos, dona Ana Campos, em entrevista a O Globo de 19 de julho de 1944, enxerga semelhança de estilo entre a obra original do escritor e os textos psicografados por Chico Xavier. “Não conheço nenhuma explicação científica para esclarecer esse mistério, principalmente se considerarmos que Francisco Xavier é um cidadão de conhecimentos medíocres”. Segundo ela, se a justiça reconhecesse o conjunto da obra psicografada como sendo realmente de Humberto de Campos, haveria de se pagar o direito autoral à família do escritor. Caso contrário, “os intelectuais patriotas fariam ato de justiça aceitando Francisco Cândido Xavier na Academia Brasileira de Letras”. Para Ana Campos, somente um homem muito inteligente e culto, de fino talento literário, poderia escrever textos tão identificados com o estilo de Humberto de Campos.

Em decorrência da polêmica no processo judicial movido pela família de Humberto de Campos, os textos psicografados por Chico Xavier atribuídos ao espírito do escritor maranhense voltam à cena em 1945, agora assinados com o pseudônimo de Irmão X. No auge da produção jornalística, o maranhense adotou o pseudônimo Conselheiro XX. O primeiro livro da série editada pela Federação Espírita Brasileira foi Lázaro redivivo. Depois vieram Luz acima (1948), Pontos e contos (1951), Contos e apólogos (1958), Contos desta e doutra vida (1964), Cartas e crônicas (1966) e Estante da vida (1969).

Em 1997, o filho caçula de Humberto de Campos lançou uma pequena biografia sobre o pai na qual dá a interpretação para o processo judicial de 1944, 53 anos depois. Em Irmão X, meu pai, Humberto de Campos Filho atesta a autenticidade dos textos psicografados e diz que o alvo da ação declaratória não foi Chico Xavier, mas a Federação Espírita Brasileira, por ser a editora responsável pela publicação das obras mediúnicas.

Na tese O caso Humberto de Campos, autoria literária e mediunidade, apresentada em 2008 ao Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp, para obtenção do título de doutor em Teoria e História Literária, Alexandre Caroli Rocha analisa com propriedade correntes de semelhanças culturais e sociais existentes entre Humberto de Campos e Chico Xavier, que os fazem convergir inclusive no estilo literário. Segundo ele, ambos nasceram em pequenas cidades do interior, foram autodidatas, ficaram órfãos na infância, foram balconistas de pequenos comércios, eram mulatos, passaram por sérias dificuldades financeiras, tiveram problemas de saúde desde cedo, desenvolveram suas atividades de modo obstinado, perderam a visão de um olho, muito escreveram e, por suas publicações, ganharam notoriedade: um como cronista e memorialista, o outro como psicógrafo. Isso tudo, porém, não é o suficiente para atestar a autenticidade de autoria de um livro. Ainda mais quando as obras analisadas – cinco livros de Humberto de Campos e sete de Irmão X – têm características literárias de caráter doutrinário.

Alexandre Caroli identificou nos textos psicografados de Chico Xavier a utilização de muitos elementos da obra viva de Humberto de Campos, além de uma série de referências de leitura do escritor maranhense. O autor da tese assevera que, apenas por meio da comparação de textos, não se pode autenticar ou refutar a autoria da escritura mediúnica. “Veredictos taxativos para a identificação do autor são possíveis somente com a assunção de uma determinada teoria sobre o post-mortem ou sobre o fenômeno mediúnico, tema tabu que, nos ambientes acadêmicos da nossa sociedade, costuma ser relegado a domínios metafísicos ou religiosos”, defende Caroli.

Memórias de um menino de Miritiba

Nascido em 1886 na pequena Miritiba (atual município de Humberto de Campos), onde viveu até os seis anos, Humberto de Campos Veras perdeu o pai ainda cedo e teve uma infância marcada por dificuldades. Com a mãe e duas irmãs, morou em São Luís e Parnaíba e trabalhou como aprendiz de alfaiate, balconista e tipógrafo. Autodidata, na capital maranhense aprendeu a viajar nas páginas de Júlio Verne, em incursões periódicas que fazia à biblioteca pública. Em Belém (PA), iniciou a carreira jornalística como redator do jornal Folha do Norte, e depois fora contratado como redator-chefe da Província do Pará. Ao mudar para o Rio, fez amizade com o também maranhense Coelho Neto e trabalhou em jornais de grande circulação, como Gazeta de Notícias e O Imparcial.

Foi um escritor em tempo integral. Seus principais livros – de um total de 45 títulos editados - são compilações de textos publicados na imprensa, especialmente crônicas. Foi por meio de sua produção jornalística que alcançou o grande público, o que o transformou em um dos escritores mais lidos do Brasil à época e lhe valeu a eleição, aos 33 anos, para a Cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras, em substituição a Emílio de Menezes. Em 1927 foi eleito deputado federal pelo Maranhão, mas perdeu o mandato três anos depois com a Revolução de 1930, que dissolveu o Congresso.

Humberto de Campos foi “obrigado a escrever diariamente para atender aos compromissos com o estômago”, segundo relata o crítico Hildon Rocha em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 1986, por ocasião do centenário de nascimento do maranhense.

A intensa produção do autor teve momentos de altos e baixos. Em Memórias, livro publicado em 1933, Humberto de Campos faz a confissão pública de “folias particulares” ao (des)montar sua história de vida, numa “demonstração de como pode um homem, pela simples força da sua vontade, desajudado de todos os atributos físicos e morais para a vitória, libertar-se da ignorância absoluta e de defeitos aparentemente incorrigíveis, desviando-se dos caminhos que o levariam ao crime e à prisão para outros que o poderão conduzir a uma poltrona de Academia e a uma cadeira de Parlamento”. O livro foi, pela voz das ruas e o alto-falante da crítica, o ponto mais elevado e denso a que chegou o menino de Miritiba. Memórias, obra de ousada sinceridade, iluminou tudo o que antes Humberto de Campos havia escrito e publicado.

Acometido de hipertrofia da hipófise, doença que também ceifou o escritor francês Alphonse Daudet, por muitas vezes Humberto de Campos escreveu seus textos amparado por bolsas de água quente sobre a cabeça, para aliviar dores profundas e dilacerantes. Faleceu no Rio durante uma cirurgia, em 1934, no auge da notoriedade.

Humberto de Campos deixou uma obra extensa, com títulos que formam um expressivo recorte da literatura brasileira, como Poeira (poesia), Da seara de Booz (crônicas), Vale de Josaphat (contos), Pombos de Maomé (contos), Grãos de mostarda (contos), Crítica, Poesias completas, Memórias inacabadas e Diário secreto, os dois últimos publicados postumamente.

A imprensa no encalço do detetive do além

Enquanto o processo do caso Humberto de Campos se arrastava pelos tribunais, a imprensa brasileira empenhava-se em fazer o papel de xerife da história. E lá estavam os jornalistas a desbravar a pacata Pedro Leopoldo, em busca de uma pista capaz de desmascarar o autor de pastiches que vendiam como água nas livrarias espíritas do País. Em As vidas de Chico Xavier, Marcel Souto Maior descreve a saga do jornalista David Nasser e do repórter fotográfico Jean Manzon, a mais ousada dupla de O Cruzeiro, a revista de maior circulação na época.

A missão de Nasser e Manzon era desvendar o homem Chico Xavier, revelando aos milhares de leitores da revista a intimidade do médium, que àquela altura estava sentado no banco dos réus em ação movida pelos herdeiros de Humberto de Campos. Os dois repórteres desembarcaram em Pedro Leopoldo e, para ludibriar a segurança da fazenda onde Chico residia e conseguir a tão esperada entrevista, fingiram ser jornalistas americanos. Em nenhum momento do encontro, os repórteres se identificaram pelos nomes verdadeiros. Auxiliados por um falso intérprete de inglês, os dois conseguiram chegar até Chico Xavier, que abriu as portas de sua casa, respondeu a perguntas e posou para fotos até então inéditas na imprensa.

“Uma das fotografias estampadas na revista exibia o representante do ilustre e saudoso Humberto de Campos sentado numa banheira, com a mão esquerda sobre a testa, como se estivesse em transe mediúnico. Só faltava estar nu”. A imagem foi estampada em meia página de O Cruzeiro no dia 12 de agosto de 1944, onze dias antes da sentença do juiz, com a seguinte legenda: “Sensacional flagrante de Chico na banheira. Ele procurava as almas, quando Jean Manzon o surpreendeu, obtendo um impressionante documento para o próximo julgamento. Os adversários do espiritismo afirmam que é uma prova de farsa. Os espíritas, que é outra prova: o espírito desce seja onde for”.

As fotos e as legendas espalhafatosas, segundo Souto Maior, foram bem mais contundentes do que propriamente o texto da reportagem de David Nasser, intitulada “Chico, detetive do além”. As imagens, todas dirigidas pela experiente dupla de repórteres, expunham um Chico vaidoso e ingênuo, “leitor de grandes obras literárias”, portanto capaz de cometer o pastiche cantado pela intelectualidade.

Uma hora e meia de entrevista. Os jornalistas “americanos” se despediram e, na saída da fazenda, ganharam livros com dedicatória de Chico. Na reportagem, os repórteres não citam como conseguiram ludibriar o médium tido como tão astuto.

Em reportagem publicada 30 anos depois no jornal O Dia, David Nasser relembra o histórico encontro com Chico Xavier e reconstitui diálogo travado com Jean Manzon, dois dias após a polêmica entrevista. Na madrugada, o jornalista foi acordado por um telefonema aflito do fotógrafo.

- David, você trouxe aquele livro que o homem nos ofereceu?
- Claro que sim.
- Pois bem, abra-o na primeira página e leia a dedicatória.

Nasser deixou o telefone de lado para folhear o livro que recebera do médium. Como dedicatória havia a frase “Ao irmão David Nasser, oferece Emmanuel”. De volta ao telefone, indagou, apavorado:

- Que negócio é esse, Manzon, alguém revelou nossa identidade?

Emmanuel foi o espírito que acompanhou Chico Xavier em grande parte de sua vida mediúnica. O fotógrafo e o falso intérprete também receberam a mesma dedicatória. “Diante do mistério, os três fizeram um pacto de silêncio”, relata Souto Maior. A reportagem de O Dia esboça um David Nasser arrependido com o episódio de Pedro Leopoldo e os seus desdobramentos. “Chico Xavier é o maior remorso da minha vida”, admitiu o jornalista, embora anos depois da aventura.

(texto publicado originalmente no dia 2 de abril de 2010, no jornal O Estado do Maranhão)

8 comentários:

  1. Artigo de excelente qualidade! Meus parabéns!!!

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  2. A familia de humberto de campos na pesoas da viuvaao reconhecer a identidade do marido como sendo a expressa nos livros retirou a ação.
    fatos e argumentos constam no livro do marcelo souto maior as vidas de chico xavier
    abraços

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  3. Ótima pesquisa e artigo. Claro e didático.

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  4. E de um mal gosto enorme, querer faturar levantando falso a Joana, dizendo que ela e Judas, ela e um espirito de mulher e nao de homem.procurem se informar direito, que vocês descobriram ,quem e o verdadeiro Judas,

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  5. Um absurdo esta mentira, ofendendo a alma de Joana, Judas e um espirito de um homem traidor.que engano.

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  6. Sonely, não existe sexo nos Espíritos, que podem encarnar como homem ou mulher. Leia "O Livro dos Espíritos" para cientificar-se disso. Leia "O Evangelho segundo o Espiritismo" para entender que Jesus, há séculos, perdoou Judas.

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