segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Putas tristes?

Elas não se entregam. Não sem antes fechar o negócio. Acertam o preço e só então abrem passagem para o gemido. E aí se doam alucinadamente. Se preciso, choram com o suor do próprio corpo. Riem por vocação e amam como ninguém. São umas injustiçadas, mas não perdem a ternura e o rebolado. Incompreendidas por boa parte da sociedade, elas estão dispostas a dar a volta por cima. O I Encontro Regional Norte/Nordeste de Profissionais do Sexo Feminino, que acontece a partir de amanhã no Convento das Mercês, é a janela aberta para discussões de interesse de mulheres que ganham a vida na função.

“É uma profissão como outra qualquer”, avalia Maria de Jesus Costa, 50 anos, presidente da ong Associação das Profissionais do Sexo Feminino do Maranhão (Aprosma). Ela reconhece, para espanto das amigas mais novas, que não há qualquer glamour no trabalho. Hoje parcialmente afastada da atividade diária “por absoluta falta de tempo” – os homens, segundo ela, não pagam para fazer amor com mulheres mais velhas -, Maria de Jesus conta que a entidade foi criada há três anos com o objetivo de reduzir preconceitos e orientar mulheres sobre riscos, direitos e deveres na profissão.

Não há provocação. O convento é apenas o local do encontro. Elas não ousam abalar o templo da Ordem dos Mercedários, tampouco pretendem despertar a ira e o escárnio do Padre Antônio Vieira em sermões reinventados. Haverão de “traçar metas rumo aos novos e velhos desafios”, conforme anuncia o cartaz do evento.

E quais são os novos e os velhos desafios, se não existe vida fácil na prostituição profissional? Superar o preconceito de ontem, inibir a violência de agora? São 1.050 mulheres associadas à ong. Muitas delas dirão suas meias verdades durante os três dias de encontro no convento. Outras continuarão apoiadas sobre o colchão de amar. Algumas estarão sob o sol tecendo a vida, com suas vulvas encharcadas de suor e corrimento. Todas, contudo, vigiadas pelo medo de velhas e novas doenças sexualmente transmissíveis.

Não há piso salarial, férias, licença prêmio ou recesso de Natal. As crianças nascem, e a jornada das mulheres prostitutas limita-se a meio expediente, ao serviço pela metade. Elas não vão alcançar a licença maternidade. Pais desconhecidos. A geração de filhos da puta vai se multiplicando de bairro em bairro. Eles, na opinião de Maria de Jesus, são vítimas da sociedade, da falta de informação e da miséria.

No João Paulo e no João de Deus elas estão no ponto e não há salvação a prazo. No Inferninho do aterro, vendem a alma a quem se arrisca a pagar um trago. A rua da Saúde herdou a clientela da 28 e os riscos do HIV de turistas que se hospedam nas soturnas pousadas da vizinhança. Não se pode dizer, todavia, que as remanescentes da Faustina estão por baixo. O maior número de profissionais do sexo gira na órbita do Xirizal do Oscar Frota, por onde ancoram pescadores, camelôs e estivadores em busca do prazer self-service. Lá um programa de primeiro grau pode começar a R$ 7,50. Não há melhor preço na cidade. Elas também estão na Vila Fialho, nas avenidas Médici e Guajajaras, na praça Pedro II e no Posto Magnólia. Na área do Porto do Itaqui, onde imperam exigências de marinheiros mareados, o programa chega a custar R$ 300,00. É pegar ou zarpar.

O perfil do cliente é descrito conforme o ponto do programa. Os navios garantem a freguesia no Itaqui. O Xirizal do Oscar Frota não seria o que é hoje sem o intenso movimento no Mercado do Peixe e no Mercado Central. A área da Praia Grande, incluindo a rua da Saúde, é alimentada pela moeda dos estrangeiros e pela mirra de alguns boêmios nativos. Os caminhoneiros se revezam entre a avenida Guajajaras e o Posto Magnólia, na BR.

O espetáculo do crescimento chega sem pressa às alcovas. Excomungadas em ritos sumários ao longo da história, as prostitutas querem mostrar ao mundo que há dignidade na profissão. Não há motivo para vergonha, dizem. “Temos o direito de usar o nosso corpo da forma que bem entendermos”, pesa e pondera Maria de Jesus. Elas pagam impostos e estão nas filas dos bancos e dos crediários como qualquer virgem.

Há uma linha tênue que separa as profissionais do sexo e as garotas de programa que frequentam as faculdades particulares. Nos dois casos elas estão vendendo a força de trabalho: as profissionais, com suas penteadeiras enfeitadas e perfumes carregados na essência, devidamente assumidas; as “amadoras”, com suas roupas de grife e saídas sorrateiras para o infortúnio dos amores servis. Lá e cá excedem no prazer, na dor e no sussurro.

Difícil saber quando há afeto ou beijo na boca. Depende do que se paga. Há um mandamento único no exercício da prostituição: é preciso ter renda. Nem amor, generosidade ou gratidão. Do parceiro, exige-se pouco mais que o pagamento. Pode ser dinheiro, cartão, uma pedra falsa ou um corte de cetim. E a fila anda.

Texto postado em 23.08.2006, no site www.claraonline.com.br.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Mil palavras


Boas imagens são caras porque são raras. Marcam, impregnam, identificam, decodificam, inspiram, emocionam, chocam, arrebatam, provocam reações imprevisíveis. Certas imagens são como música: incendeiam a memória, despertam a paisagem adormecida na lembrança e fazem passeios fugazes pelos arredores da alma.

A fotografia tem desses truques! Revela o novelo do rápido instante, subverte o real, recorta a cena e surpreende o artesão do clique. O truque da fotografia é uma arte sem trinco. Obturador aberto. Não pega no tranco, pois há técnica na arte de quem trata e retrata a imagem, no lambe-lambe chinfrim, no estúdio sofisticado. Há no ofício dos fotógrafos o contraste de cores que ninguém faz, a luz que poucos enxergam, o detalhe que não se alcança a olho nu, o enquadramento.

Boas imagens são caras. O fotógrafo não vende um pedaço de papel estampado. Ele vende o olhar. Olhar de fotógrafo não tem tabela de preço. Não existe atualização monetária para o olhar. Certas imagens são definitivas. Fotografias não são máquinas, mas observações raras. Não é a Nikon que faz a diferença. É a intrepidez de quem manuseia a lente. Pode ser Canon, Polaroid, Love ou Xereta.

Elas estão nos jornais, nas revistas, nos pôsteres, nos postais, nas gavetas, nos outdoors, no porta-retrato, no computador e no imaginário. Há fotos que são uma outra linhagem da poesia, que saltam do papel feito um soneto, que não largam o cais da retina porque estão ancoradas em redondilhas. E quando elas falam? As fotos têm as suas verdades recitadas. As fotos têm essas manias.

Há quem não perceba o movimento que é peculiar em algumas fotografias. Fotos que dançam um balé quase perfeito, que desfilam imponentes pelos álbuns de recordação, que se remexem de tão vivas que estão no fosco do papel couchê. As fotos não param.
Fotografias relembram datas, pessoas, lugares e coisas. As fotos digitais desafiam o tempo com a evolução quilométrica de seus pixels. Já as imagens em preto e branco nos remetem ao passado. Fotos amareladas com cheiro de mofo refletem o passado em sépia dos nossos avós na parede. A fotografia, depois de remexida nas gavetas, faz pactos de convivência amistosa com a saudade.

As boas imagens não têm preço na praça. Não disputam mercado, não estão nas prateleiras do comércio. O olhar do fotógrafo está à espreita, sem sossego ou cerimônia. Afinal, ele não se contenta. O fotógrafo é um artista plástico que pinta a sua tela com uma câmera apoiada na mão e o olhar captando o infinito cotidiano.

domingo, 29 de agosto de 2010

No encalço de Julio Cortázar


Um dos nomes mais expressivos da literatura do século 20, o escritor Julio Cortázar, que completaria 96 anos na última quinta-feira, 26 de agosto, vai ganhar biografia assinada por um maranhense. O livro “Um tal Julio Cortázar”, de autoria do jornalista e tradutor Cassiano Viana, já está no prelo e será lançado até o final deste ano com o selo da editora Civilização Brasileira. Em cerca de 300 páginas, o autor traz detalhes sobre a vida e a obra daquele que é considerado um dos principais expoentes do realismo fantástico.

Circunstancialmente nascido em Bruxelas no ano de 1914 – os pais argentinos trabalhavam na embaixada da Bélgica -, Cortazar viveu a infância em Banfield e ficou em Buenos Aires até os 37 anos, quando transferiu-se definitivamente para Paris por não concordar com o modelo político adotado por Juan Domingo Perón. Ainda na Argentina, trabalhou como professor de literatura em algumas cidades do interior e foi funcionário da Câmara do Livro de Buenos Aires. A convite da Universidade de Porto Rico, traduziu para o espanhol a obra completa em prosa de Edgar Allan Poe. Traduziu também inúmeros trabalhos para a Unesco.

A primeira produção literária de Cortázar data de 1938, quando publicou, sob o pseudônimo de Julio Denis, o livro de poemas “Presencia”. Ganhou notoriedade com o livro de contos “Final de jogo”, lançado no México em 1956. A fama, porém, só viria em 1962 com o romance “O jogo da amarelinha”, um novelo com expressa recomendação para leitura de capítulos seguindo série numérica rigorosamente não-linear.

O envolvimento político de Cortázar rendeu-lhe respeito e desconfiança ao longo dos anos. O paradoxo está presente na sua criação – como em “Nicarágua tão violentamente doce”. Ora era visto pelas esquerdas como o admirável incendiário das ditaduras da América Latina. Ora era classificado como instrumento do imperialismo por criticar a prisão e o desaparecimento de artistas cubanos e soviéticos.

Julio Cortázar só voltaria à Argentina em 1983, com o processo de abertura política. Um ano depois de visitar amigos, lugares e personagens imaginários, o autor de “Bestiario” e “Histórias de Cronópios e de Famas”, dentre outros clássicos, morreu de leucemia em Paris. Antes de partir, ganhou a nacionalidade francesa.
Em 2004, quando foi celebrado o Ano Cortázar, Cassiano Viana começou a mergulhar no universo biográfico de Cortázar. Quantro anos antes, o argentino Mario Goloboff havia lançado “Julio Cortázar, a biografia” pela editora Six Barral. Cassiano tem 37 anos, é jornalista formado pela Universidade Federal do Maranhão e estreia em livro-solo com o peso da responsabilidade de biografar um artista complexo, de história densa, e por uma editora com indiscutível lastro intelectual.

Cassiano Viana vive no Rio há quase dez anos. Ainda no Maranhão, foi um dos autores do livro “As melhores crônicas do Claraonline” (Clara Editora, 2004). No Rio, escreveu para sites literários como Paralelos, Portal Literal, Bestiário e Cronópios. Atualmente é colaborador dos cadernos Prosa e Verso, do jornal “O Globo”, e Ideias & Livros, do “Jornal do Brasil”, e publica regularmente textos nas revistas “Bravo”, “Cult” e “Coyote”. Também publicou alguns contos na revista “Storm”, de Portugal.

Para o caderno Ideias & Livros traduziu autores como Ted Hughes, Dylan Thomas, e.e. cummings, Cortázar e Alejandra Pizarnik. Na “Coyote”, Cassiano publicou um dossiê com os poemas e entrevistas inéditos do contista belgo-argentino.

Sobre a obra “Um tal Julio Cortázar”, Cassiano Viana fala da experiência reveladora, das viagens de pesquisa, do engajamento político do contista e da simetria rítmica entre Borges, Poe e o autor de “As armas secretas”. Confira na entrevista.

Como e quando surgiu a ideia de escrever sobre Julio Cortázar?

CASSIANO VIANA - Surgiu em 2004, durante o Ano Cortázar, comemorado em todo o mundo. Uma amiga enviou as “Obras completas” publicadas na Espanha, com vários textos inéditos no Brasil, sobretudo três tomos de cartas - cada tomo com quase 500 páginas. Passei a traduzi-los para amigos. Um dia percebi que tinha material suficiente para uma biografia.

Quais as suas principais fontes de pesquisa?

CV - Além da correspondência de Cortázar e de alguns livros publicados lá fora sobre o autor, consegui entrevistar pessoas ligadas a ele, como o artista plástico Julio Silva, capista e amigo íntimo dele. Hoje, também um bom amigo meu que prometeu fazer a capa de um livro um dia. Na verdade, hoje tenho um livro “Retorno a Silvalândia”, uma espécie de caminho de volta à Silvalândia criada por Cortázar a partir de telas de Silva. Outro que entrevistei foi o também artista plástico Luis Tomasello, para quem Cortázar escreveu dois poemas: “Un elogio del três” e “Negro el 10”, este último no leito de morte. Também entrevistei o poeta cubano Roberto Fernandez Retamar, da Casa de las Americas, em Cuba. Percorri Buenos Aires, visitei duas vezes a primeira casa da família em Banfield, cenário de vários contos, sobretudo do livro “Bestiário”, e Paris, em momentos distintos, para fotografar e realizar entrevistas.

No livro há relatos de que a família Cortázar viveu ou passou pelo Brasil. Como foi essa experiência?

CV - Cortázar visitou o Brasil por três vezes, na década de 70. Numa das visitas saiu fugido do país, pois agentes da Triple A argentina (Alianza Anticomunista Argentina) sabiam que ele estava no Brasil e queriam matá-lo. Cortázar ficou amigo de vários intelectuais brasileiros, dentre eles Haroldo de Campos. Do Brasil, gostava da música. Dizia brincando que Caetano e Maria Bethania nunca eram vistos juntos pois eram, afinal, a mesma pessoa. Gostava também de autores como Clarice Lispector - citou várias vezes “Água Viva” em seus livros.

De fato houve um naufrágio envolvendo familiares de Cortázar no Brasil?

CV – Recém casados, os pais de Cortázar tentavam a vida na Europa quando explodiu a Primeira Guerra. Cortázar nasceu em Bruxelas, durante a invasão alemã. A ideia era fugir de país em país até a poeira baixar. O avô materno de Cortázar, Luis Descotte Jourdan, era quem financiava a aventura. Só que, durante uma viagem, no regresso a Buenos Aires, após três semanas em Zurique, visitando a família, o navio Príncipe de Astúrias, que fazia a rota do Atlântico, naufraga no Brasil. O acidente é considerado o segundo maior nas Américas, atrás apenas do Titanic.

O engajamento político exacerbado em algum momento comprometeu a criação literária de Cortázar?

CV - Sim. Cortázar ficou envolvido seriamente com a Revolução Cubana e com os movimentos na Nicarágua. Chegou a ir para a linha de guerrilha quando Carol Dunlop, sua última mulher, morreu, no início da década de 1980. Além disso, participou ativamente do Tribunal Bertrand Russell denunciando a situação de penúria das ditaduras na América Latina.

Mesmo engajado politicamente, Cortázar foi hostilizado por Fidel Castro por pedir informações sobre o desparecimento do poeta Heberto Padilla.

CV – É verdade. Esse foi um ponto crítico da relação de Cortázar com a Revolução Cubana. Fidel chegou a proibir a entrada em Cuba de intelectuais radicados na Europa. Estes, por sua vez, começaram a repensar a Revolução. Cortázar mobilizou vários intelectuais como Calvino e Susan Sontag a publicarem manifestos críticos no “Le Monde”.

Há similaridade entre as obras de Cortázar, Jorge Luís Borges e Edgar Alan Poe (de quem talvez tenha sido o seu mais fiel tradutor)?

CV - Borges foi o primeiro a publicar Cortázar, ainda na Argentina. Um exemplo disso é o conto “A casa tomada”, na revista “Sur”. Borges vinha de uma educação clássica, enquanto Cortázar vivenciou o efervescente Maio de 68. São dois escritores do signo de virgem, um nascido no dia 24 (Borges) e o outro no dia 26 de agosto. Pode parecer bobagem, mas isso explica alguma coisa. Décadas depois, os dois se encontraram em um corredor da Unesco em Paris, onde Cortázar trabalhava, os dois já autores consagrados. Borges disse: “Esse Cortázar, eu fui o primeiro a publicá-lo. A casa tomada, lembra?". Sobre Edgar Allan Poe, é possível encontrar influências na obra cortazariana desde os primeiros contos. Cortázar traduziu as obras completas dele, just for fun, como dizia. Na verdade, a tradução foi um exercício de escrita.

Ao empreender a prosa poética e utilizar uma linguagem não-linear nos seus contos, Cortázar deixou como legado o flerte da literatura com o cinema?

CV - Vários cineastas utilizaram a obra de Cortázar como referência para filmes. O mais conhecido é “Blow up”, de Antonioni. Um outro cineasta foi Godard, em “Weekend à francesa”. No Brasil, temos o “Jogo subterrâneo”, de Roberto Gervitz, um filme maravilhoso, talvez o melhor feito tendo como base uma obra de Cortázar.

Algum fato revelador na concepção do mosaico biográfico?

CV - Para além de qualquer mitologia, o mais importante: era um escritor que, apesar do rigor e da preocupação com a obra, não buscava o canônico. Tinha uma facilidade incrível de tornar um acontecimento mínimo em um texto estupendo, sem utilizar os clichês recorrentes da literatura. Escrevia para presentear os amigos - me confessou Julio Silva - com seus relatos. Era uma pessoa simples e solar.

Entrevista publicada no jornal "O Estado do Maranhão" do dia 29.08.2010

No labirinto como um minotauro

Na última quarta-feira, 25, véspera do aniversário de Julio Cortázar, o jornalista Cassiano Viana lançou, em parceria com Diego Paleólogo, a revista Minotauro, publicação temática de circulação trimestral sobre literatura e artes plásticas.

A primeira edição traz como mote a mitologia do labirinto, tão cara e intensa na obra de autores como Borges e Cortázar. Entre os colaboradores da revista estão os veteranos Antônio Cícero e Bráulio Tavares e novos autores como Francesca Angiolillo, Maykson de Souza, Mariana Amaral, Bia Dias e Paola Refinetti.

“Minotauro” carrega no charme da tinta das fotografias e obras de Diego Paleólogo, Sergio Werner (fotógrafo paulista radicado em Paris), Manuel Caeiro (artista plástico português) e Clarissa Cestari (brasileira radicada em Madri).

Buenos Aires pós-Cortázar


O velho corcunda empunha o bandoneon surrado e entoa a melodia lamentosa do tango. Adiante um homem de meia idade desafina um verso triste no violão e canta em coro com o menino desconfiado e terno. Ouvem-se vozes em castelhano, francês, português, inglês etc. No passeio público do cone sul, o homem sem cabeça não esmorece no sonho vão da invisibilidade.

O casal rodopia nos passos do tango ao relento. Rapidamente se forma a plateia de turistas curiosos e transeuntes embasbacados. Cadenciado jogo de pernas, olhar fixo no parceiro, dama e cavalheiro se entrelaçam nas quadras de Piazzolla. Mão no quadril, o terno conduz o vestido submisso sobre o calçadão da fama passageira. Palmas estimulam a coreografia dos dançarinos, mas não enchem o chapéu que corre de mão em mão.

Alguém desenha em minutos a caricatura graciosa, enquanto o aventureiro da voz inicia o show cantando qualquer cover como se estivesse em qualquer rua. Há música em profusão. Atos de melodrama a granel. Quase dois graus abaixo de zero e não demora muito o altofalante da esquina sopra ao vento Morango do Nordeste. O cantor esforçado não disfarça o sotaque.

Uma sessentona desinibida com adereço de esfinge na cabeça aborda os passantes com o cartão de visita do sex shop. Improvável não decifrar endereço tão quente! Já é noite e noutra esquina a carne feminina está na mão de atravessadores igualmente desinibidos. Meninas flauteiam resignadamente pelas transversais à espera da sorte no jogo do amor.

A rua tem o cheiro forte de cacau e incenso. Estamos na Florida, o coração de Buenos Aires. Meio shopping, meio rua Grande. A via inteira é um teatro. E como que num espetáculo diário a céu aberto, ali todos estão em busca do aplauso que se materializa na plata.

A Argentina cabe na rua Florida. Turistas e portenhos se esbarram em meio ao mimetismo diário de dólar, euro, peso e real. Vendedores ambulantes armam suas esteiras e quiosques de quinquilharias. Dividem a atenção com o colorido das grandes lojas e galerias de marca. Mas não ousam roubar o charme das infinitas livrarias.

A moeda é frágil e a economia enfrenta solavancos rotineiros. Trabalhadores armam acampamento na Praça de Mayo. Ao fundo, a Casa Rosada descolore ante a paisagem do protesto. O governo coleciona reveses enquanto o colega Nestor retoca a maquiagem de Cristina. A bandeira do palácio tremula no azul celeste do tecido quase roto. Quase feliz, o povo não cala.

A Argentina tem o seu encanto. Natural, cultural. É um belo passeio. Das montanhas de neve no cenário glacial da Patagônia aos contos cortantes de Julio Cortázar. Da Recoleta ao Caminito, do Boca a Palermo caminha-se distraído pelos labirintos lógicos de Jorge Luis Borges.

Os argentinos são autossuficientes e, a rigor, esbanjam vaidade e imodéstia. Continuarão amando o Maradona gordo, debochado. Reinventam-se elegantemente na derrota. O perdedor de ontem é um herói nacional. O futebol é só um pretexto. Há muito a nação está nua no obelisco.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A canção, o bardo e a barra

Canção do abandono, publicado em 1953 e relançado nesta sexta-feira numa engenhosa iniciativa de Jomar Moraes, não é um canto nem um conto tupi como muitos outros nascidos da imaginação e da sensibilidade de Olímpio Cruz. Não se trata ainda do canto da selva, que ecoaria em 1981, mas do clamor inaugural do coração do poeta, enredado em sertões e solidões. Quase sessenta anos depois, Canção do abandono ressurge agora numa edição que principia o alvissareiro ciclo de publicações conjuntas das editoras Clara e Legenda.

O livro, diferentemente do que faz crer a simplicidade do poeta no seu soneto de partida Solfejos, vai muito além dos “rápidos arpejos”. Em Canção do abandono, Olímpio Cruz canta com a alma e, como quem devassa a própria morada, bamboleia entre o quarto escuro das ligeiras desventuras e o quintal com vista para o bailado das colinas.


Ora o poeta é o cantor da soledade, triste, espichado num rapel escalando a “dor do seu calvário”. Improvável não se entregar a fartos goles na taça de amargura servida pelo autor entre um verso e outro. Ora o poeta é puro galanteio, cativante e sereno, com suas musas, deusas, sereias, aparecidas e outros pretextos. Canção do abandono é também o rito de entrega regrada, o ato de contrição comedido, mas alvejante na sua essência. O poeta mira na delicadeza – “Seja feita a vontade dos teus olhos...” – e se aninha no precipício das paixões, “...onde mais luzem círios estelares”.

Mas não basta ler a poesia de Olímpio Cruz. É preciso saber da sua origem, do pedaço de chão pisado. Canção do abandono tem também o cheiro de Barra do Corda, das ruas e dos rios, das verdes tranças, da dança das cachoeiras “bordando o chão de espuma alvinitente”. Ninguém cantou tão longe a cidade como Olímpio Cruz, no alto do cruzeiro que protege a gente cordina ou no lume dos faroletes que se multiplicam no silêncio da noite.

O bardo da Barra entoa, altissonante, a ode à terra, ao barro e às águas. Não é preciso mergulhar no rio Corda para compreender a sinfonia do seu curso. A poesia de Olímpio Cruz é a própria correnteza do Corda a serpentear na aldeia até se fingir Mearim:

- Esbarro aqui, às portas da cidade,
Onde suspiro cheio de saudade,
E morro me abraçando ao Mearim...

Barra do Corda é a joia rara do poeta, o “ninho risonho pelo sol beijado” descrito por Olímpio Cruz que inspira gerações, recebe caravanas e romarias e transforma a poesia em hino oficial da cidade. Por tudo isso e mais um pouco, o livro Canção do abandono reaparece atual, envolvente, revelador, como se vivo estivesse o homem interiorano do mundo, o encantador de índios, o sertanista renitente, o pacificador, o missionário precursor da bandeira verde.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Conspiração da teoria

Desconfio dos teóricos. Desses que não conseguem desenhar um argumento de meia dúzia de palavras sem recorrer ao estratagema da citação. Muitos não sobreviveriam sem o advento das aspas, essa venturosa invenção das academias. As universidades estão cheias de teóricos. Boa parte deles, experimentados na arte de construir um texto como quem trabalha em linha de montagem, não faria falta à humanidade.



Aprende-se cedo a ser um reprodutor do argumento alheio. Quase não há saída. Os livros didáticos abusam da citação. A aspa é uma mania nacional. E a pior de todas é a aspa que não se pode enxergar a olho nu. A aspa invisível é um fenômeno relativamente novo, mas bastante utilizada por quem faz pesquisa na Internet e sequer dá-se ao trabalho de mencionar a fonte consultada.

Nas universidades, os trabalhos de conclusão de curso são verdadeiros repositórios de citações. Se não houver um farto cardápio de referências bibliográficas, a monografia é reprovada pelo professor antes mesmo de chegar à banca de avaliação. Aos textos baseados em obras alheias dá-se o nome de trabalho científico, como se ciência fosse o mero exercício de reciclar a idéia de terceiros. Constrói-se, com o pendão das nossas leis de diretrizes e bases, a terceirização do pensamento nos bancos universitários.

Os cursos universitários estão abarrotados de teses, monografias, dissertações, TCC’s et cetera e tal. Um colosso em matéria de produção acadêmica. A maioria dos trabalhos não tem pé nem cabeça, mas está recheada de belas citações de teóricos. As teses alternam-se numa espantosa combinação de ideias para todos os gostos. Há quem junte num só balaio, como que compartilhando o mesmo pensamento, Adam Smith e Gramsci, Walter Benjamim e Pierre Levy.

As citações se sucedem nas teses de pós-graduação. Intermináveis. Há sempre alguém escrevendo alguma dissertação. Nas especializações, mestrados e doutorados. É um longo percurso em busca de autores ou da teoria perfeita. Nem sempre a linha de pensamento do autor está afinada com o eixo do assunto pesquisado. Mas a perseguição à teoria é inevitável.

Existe um velado pacto de cumplicidade entre alunos e professores. O modelo de educação predominante no Brasil estabelece que primeiro o aluno deve buscar um autor. Depois, que ele recorra a uma ideia. Uma ideia original é muito perigosa. A conveniência recomenda: é mais proveitoso partir para o campo do pensamento de alguma corrente teórica exaustivamente esclarecida e badalada. É preciso justificar a ideia original da tese com algo que já tenha sido experimentado por algum autor conhecido.

Nos tempos de faculdade, conheci uma professora que, na escalada entre a graduação e o pós-doutorado, foi induzida a ler mais de duas centenas de teóricos. Hoje, com a jornada quase concluída, a professora vive como quem perdeu a identidade no meio do caminho, intoxicada pelas ideias dos outros. Há título em excesso, mas falta-lhe prumo e ideia própria. Perdeu aos poucos a aptidão pela sala de aula.

Desconfio dos teóricos, reitero. Alguns deles são absolutamente intoleráveis, de nomes esquisitos e ideias cíclicas. Desconfio mais ainda dos reféns da teoria e do texto rebuscado em notas de rodapé. Não sabem eles que, embora a arte da simplicidade seja a mais difícil de todas, dissertar não significa dificultar. Antes de se aventurar ao mar alto dos teóricos, vale muito mais a pena navegar na cabotagem de portos seguros e conhecidos.

Há bons teóricos, filósofos indispensáveis, autores de bons argumentos e que levantam questões intrigantes. Mas não acredito nos copiadores de aspas que se formam a torto e a direito no Brasil.

sábado, 17 de abril de 2010

Salve a Louca do Rio Anil

Quem é aquela que ergue os braços e corre em disparada pelas cercanias do novo shopping? A Louca do Rio Anil é só uma menina alegre no meio da multidão, descolada da massa pelo sorriso farto, pelo gesto de explosão da vitória. E não é louca a pequena que se agarra com euforia aos letreiros de loja, às tentações da novidade do bairro, ao burburinho dos artistas de televisão.


A Louca do Rio Anil não tem nome porque o nome mal cabe no feixe de caracteres de uma legenda de coluna social. Sem cerimônia, ela estufa o peito de provinciana bem resolvida e encara a lente do fotógrafo Biaman Prado com a altivez de uma lady sofisticada. Não, a Louca do Rio Anil deixou a vergonha guardada no quarto-e-sala da Cohab e foi dar as boas-vindas às vitrines do Turu.

E como corre a louca! E vibra como quem venceria fácil a batalha de Riachuelo do shopping. Soberana diante da conquista iminente, a menina contraria a lógica sartreana-suburbana e chega ao pódio do consumo ao lado de veteranas na arte da pechincha do Olho d’Água. A Louca do Rio Anil não é fashion, mas tem atitude. Zomba do clichê com elegância de tamanha ingenuidade. Quem são os adoradores de shopping? Serão os mesmos fiéis da internet, esse totem-tabu que escraviza e sevicia?

Sim, são os mesmos protagonistas do escárnio, com seus twitteres e orkuts incandescentes. São as mesmas debutantes do Calhau que dançam valsa com o ator da Globo, que lêem Caras, que tiram fotos ao lado de celebridades. Somos meio idolatria, meio periferia!

Para a Louca do Rio Anil, São Luís é só uma colônia. Uma colônia do Boticário, talvez. E ela, uma colonizada com aroma de pau-brasil, cabelo ao vento, calça jeans desbotada e blusinha tomara-que-caia. Não leva jeito para o saque dos bárbaros. Não tem queda para o vandalismo. Quer apenas um quadrado mais próximo do holofote, o autógrafo de um ex-confinado do BBB, uma compra na prateleira das promoções.

A cidade em transe, e é apenas um novo shopping de portas abertas para o Itapiracó. O que vão dizer na metrópole? O que vão pensar de nós lá fora? Que somos todos a Louca do Rio Anil, carne e osso, corpo e alma, sem medo do vexame, querendo cortar a fita de chegada. Viva a pobreza de espírito!

Somos todos de abril como os poucos índios que ainda restam. A doce Louca do Rio Anil também tem pele amarela como a menina triste da foto do Vietnã. Uma e outra sobreviveram: à inauguração do shopping das coloridas vestes e às cinzas da bomba nua. Assim caminha a aldeia, aqui e acolá.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Chico Xavier e o caso Humberto de Campos

Tema tratado perifericamente no longa-metragem Chico Xavier, filme de Daniel Filho que estreia hoje nos cinemas do País, a polêmica sobre a autoria dos mais de 400 livros psicografados pelo médium mineiro já esteve no centro das discussões da intelectualidade brasileira, no século passado. E até virou processo judicial. No livro As vidas de Chico Xavier (editora Planeta do Brasil, 2003), que deu origem ao filme, o jornalista Marcel Souto Maior relata em determinado capítulo o rumoroso caso que levou o mais famoso espírita brasileiro às barras da justiça: a psicografia de livros cuja autoria fora atribuída ao espírito do escritor maranhense Humberto de Campos, morto em 1934.


O lançamento do filme é apenas um dos muitos acontecimentos que celebram, neste abril, o centenário de nascimento de Francisco Cândido Xavier, um mineiro pobre e mulato que viveu intensamente o espiritismo e a filantropia e chegou a ser indicado, em 1981, ao prêmio Nobel da Paz. Adorado por muitos, desprezado pelos intelectuais e bajulado por políticos e empresários, Chico Xavier viveu à margem das tentações da matéria, após a morte em 2002 transformou-se em mito e sua missão filantrópica espraiou-se pelo mundo, por meio de seus admiradores.

Os livros psicografados por Chico Xavier venderam mais de 50 milhões de exemplares. Ele abriu mão da renda das publicações em nome da caridade. O primeiro livro do médium publicado pela Federação Espírita Brasileira (FEB), em 1932, foi Parnaso de além-túmulo, uma coletânea de 59 poemas atribuídos a 14 poetas de língua portuguesa de reconhecido talento, como Castro Alves, Olavo Bilac, Casimiro de Abreu e Augusto dos Anjos, entre outros.

Sobre Parnaso de além-túmulo, Humberto de Campos publicou as crônicas Poetas do outro mundo e Como cantam os mortos, ambas no jornal Diário Carioca. Na primeira delas, o escritor maranhense reconhece o valor literário dos versos mediúnicos, porém põe a sua afiada ironia a serviço da descrença coletiva: “A poesia é uma predestinação de tal modo fatal, irremediável, que a vítima não se livra dessa maldição nem mesmo depois da morte”. Em outro trecho, vai direto ao escracho: “Se eles (os mortos) voltam a nos fazer concorrência com seus versos perante o público e, sobretudo, perante os editores, dispensando-lhes o pagamento de direitos autorais, que destino terão os vivos que lutam, hoje, com tantas e tão poderosas dificuldades? Quebre, pois, cada espírito a sua lira na tábua do caixão em que deixou o corpo”.

As crônicas foram o único “elo material” entre o médium mineiro e o escritor maranhense, que não se encontraram em vida. Depois de um longo sofrimento, Humberto de Campos morreria em 5 de dezembro de 1934, dois anos após o lançamento de Parnaso de além-túmulo. Três meses depois da morte, Chico Xavier diz em seus escritos ter sonhado com Humberto de Campos, de quem ouvira a seguinte frase: “Você é o menino do Parnaso? Eu sou Humberto de Campos”. Seria a senha para os sucessivos textos do escritor dali em diante psicografados pelo médium.

Os textos atribuídos a Humberto de Campos são mensagens em defesa dos espíritos, como “um consolo aos tristes e uma esperança aos desafortunados”. Em quase dez anos, foram tantas as mensagens espirituais do escritor maranhense que renderam cinco livros psicografados por Chico Xavier: Crônicas do além-túmulo, Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho, Novas mensagens, Boa nova e Reportagens do além-túmulo.

Em 1944, a viúva Catharina Vergolino e os filhos Henrique e Humberto Filho, detentores dos direitos autorais da obra de Humberto de Campos, entraram com uma ação declaratória na justiça contra Chico Xavier e a Federação Espírita Brasileira. A filha Maria de Lourdes não quis se envolver na questão. De acordo com a ação, a justiça deveria declarar se os livros lançados por Chico e a FEB eram obras realmente ditadas pelo “espírito de Humberto de Campos”. Por meio de advogados, a família exigia, para isso, todas as provas científicas possíveis e requisitava depoimentos em juízo de representantes da Federação, de Chico Xavier e, até, do “espírito de Humberto de Campos”.

Claro que o processo se transformou numa enorme polêmica e atraiu as atenções da grande imprensa brasileira. A opinião pública aguardava com expectativa a decisão do juiz João Frederico Mourão Russell. Se negasse a autenticidade dos textos atribuídos ao espírito de Humberto de Campos, Chico Xavier poderia pagar indenização por perdas e danos à família do escritor, além de ser preso por falsidade ideológica. E se confirmasse os livros como verdadeiramente escritos pelo espírito de Humberto de Campos, estaria reconhecendo a existência de vida após a morte. Nessa hipótese, deveria decidir se a família de Humberto de Campos teria ou não o direito autoral sobre o conjunto da obra mediúnica.

Mourão Russell considerou a ação inepta com base em argumentos consistentes. Ao morrer, o indivíduo deixa de possuir direitos civis, logo Humberto de Campos não poderia reavê-los. Direitos autorais herdáveis limitam-se àqueles referentes a obras produzidas pelo escritor antes de sua morte. E, por fim, a ação resumia-se a uma mera consulta com base em perícia científica sobre espiritismo, fato alheio às prerrogativas do Judiciário.

Polêmica familiar sobre textos do além

Os herdeiros de Humberto de Campos recorreram, sem sucesso, da decisão de Mourão Russell. A justiça encerrou o caso em 3 de novembro de 1944. Ao apresentar o recurso judicial, a família optou por reduzir a pó os textos psicografados por Chico Xavier. No agravo, o advogado do espólio argumenta que a obra mediúnica é profundamente inferior aos textos originais de Humberto de Campos. “Não só está eivada de imperdoáveis vícios de linguagem e profundo mau gosto literário, como é paupérrima de imaginação e desprovida de qualquer originalidade”. E aponta para o pastiche: “O que é aproveitável não passa de grosseiro plágio, não só de ideias existentes na obra publicada em vida do escritor, como de trechos inteiros, o que é de fácil verificação”.

Em meio aos embates no pretório, a defesa de Chico Xavier apresentou texto até então inédito assinado pelo “espírito de Humberto de Campos”, no qual ele - o espírito - expõe suas mágoas para com a empreitada dos familiares na justiça. De acordo com a mensagem, a família não precisava movimentar o exército dos parágrafos e atormentar o cérebro dos juízes. “Que é semelhante reclamação para quem já lhes deu a vida da sua vida? Que é um nome, simples ajuntamento de sílabas sem maior significação?”.

A mãe de Humberto de Campos, dona Ana Campos, em entrevista a O Globo de 19 de julho de 1944, enxerga semelhança de estilo entre a obra original do escritor e os textos psicografados por Chico Xavier. “Não conheço nenhuma explicação científica para esclarecer esse mistério, principalmente se considerarmos que Francisco Xavier é um cidadão de conhecimentos medíocres”. Segundo ela, se a justiça reconhecesse o conjunto da obra psicografada como sendo realmente de Humberto de Campos, haveria de se pagar o direito autoral à família do escritor. Caso contrário, “os intelectuais patriotas fariam ato de justiça aceitando Francisco Cândido Xavier na Academia Brasileira de Letras”. Para Ana Campos, somente um homem muito inteligente e culto, de fino talento literário, poderia escrever textos tão identificados com o estilo de Humberto de Campos.

Em decorrência da polêmica no processo judicial movido pela família de Humberto de Campos, os textos psicografados por Chico Xavier atribuídos ao espírito do escritor maranhense voltam à cena em 1945, agora assinados com o pseudônimo de Irmão X. No auge da produção jornalística, o maranhense adotou o pseudônimo Conselheiro XX. O primeiro livro da série editada pela Federação Espírita Brasileira foi Lázaro redivivo. Depois vieram Luz acima (1948), Pontos e contos (1951), Contos e apólogos (1958), Contos desta e doutra vida (1964), Cartas e crônicas (1966) e Estante da vida (1969).

Em 1997, o filho caçula de Humberto de Campos lançou uma pequena biografia sobre o pai na qual dá a interpretação para o processo judicial de 1944, 53 anos depois. Em Irmão X, meu pai, Humberto de Campos Filho atesta a autenticidade dos textos psicografados e diz que o alvo da ação declaratória não foi Chico Xavier, mas a Federação Espírita Brasileira, por ser a editora responsável pela publicação das obras mediúnicas.

Na tese O caso Humberto de Campos, autoria literária e mediunidade, apresentada em 2008 ao Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp, para obtenção do título de doutor em Teoria e História Literária, Alexandre Caroli Rocha analisa com propriedade correntes de semelhanças culturais e sociais existentes entre Humberto de Campos e Chico Xavier, que os fazem convergir inclusive no estilo literário. Segundo ele, ambos nasceram em pequenas cidades do interior, foram autodidatas, ficaram órfãos na infância, foram balconistas de pequenos comércios, eram mulatos, passaram por sérias dificuldades financeiras, tiveram problemas de saúde desde cedo, desenvolveram suas atividades de modo obstinado, perderam a visão de um olho, muito escreveram e, por suas publicações, ganharam notoriedade: um como cronista e memorialista, o outro como psicógrafo. Isso tudo, porém, não é o suficiente para atestar a autenticidade de autoria de um livro. Ainda mais quando as obras analisadas – cinco livros de Humberto de Campos e sete de Irmão X – têm características literárias de caráter doutrinário.

Alexandre Caroli identificou nos textos psicografados de Chico Xavier a utilização de muitos elementos da obra viva de Humberto de Campos, além de uma série de referências de leitura do escritor maranhense. O autor da tese assevera que, apenas por meio da comparação de textos, não se pode autenticar ou refutar a autoria da escritura mediúnica. “Veredictos taxativos para a identificação do autor são possíveis somente com a assunção de uma determinada teoria sobre o post-mortem ou sobre o fenômeno mediúnico, tema tabu que, nos ambientes acadêmicos da nossa sociedade, costuma ser relegado a domínios metafísicos ou religiosos”, defende Caroli.

Memórias de um menino de Miritiba

Nascido em 1886 na pequena Miritiba (atual município de Humberto de Campos), onde viveu até os seis anos, Humberto de Campos Veras perdeu o pai ainda cedo e teve uma infância marcada por dificuldades. Com a mãe e duas irmãs, morou em São Luís e Parnaíba e trabalhou como aprendiz de alfaiate, balconista e tipógrafo. Autodidata, na capital maranhense aprendeu a viajar nas páginas de Júlio Verne, em incursões periódicas que fazia à biblioteca pública. Em Belém (PA), iniciou a carreira jornalística como redator do jornal Folha do Norte, e depois fora contratado como redator-chefe da Província do Pará. Ao mudar para o Rio, fez amizade com o também maranhense Coelho Neto e trabalhou em jornais de grande circulação, como Gazeta de Notícias e O Imparcial.

Foi um escritor em tempo integral. Seus principais livros – de um total de 45 títulos editados - são compilações de textos publicados na imprensa, especialmente crônicas. Foi por meio de sua produção jornalística que alcançou o grande público, o que o transformou em um dos escritores mais lidos do Brasil à época e lhe valeu a eleição, aos 33 anos, para a Cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras, em substituição a Emílio de Menezes. Em 1927 foi eleito deputado federal pelo Maranhão, mas perdeu o mandato três anos depois com a Revolução de 1930, que dissolveu o Congresso.

Humberto de Campos foi “obrigado a escrever diariamente para atender aos compromissos com o estômago”, segundo relata o crítico Hildon Rocha em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 1986, por ocasião do centenário de nascimento do maranhense.

A intensa produção do autor teve momentos de altos e baixos. Em Memórias, livro publicado em 1933, Humberto de Campos faz a confissão pública de “folias particulares” ao (des)montar sua história de vida, numa “demonstração de como pode um homem, pela simples força da sua vontade, desajudado de todos os atributos físicos e morais para a vitória, libertar-se da ignorância absoluta e de defeitos aparentemente incorrigíveis, desviando-se dos caminhos que o levariam ao crime e à prisão para outros que o poderão conduzir a uma poltrona de Academia e a uma cadeira de Parlamento”. O livro foi, pela voz das ruas e o alto-falante da crítica, o ponto mais elevado e denso a que chegou o menino de Miritiba. Memórias, obra de ousada sinceridade, iluminou tudo o que antes Humberto de Campos havia escrito e publicado.

Acometido de hipertrofia da hipófise, doença que também ceifou o escritor francês Alphonse Daudet, por muitas vezes Humberto de Campos escreveu seus textos amparado por bolsas de água quente sobre a cabeça, para aliviar dores profundas e dilacerantes. Faleceu no Rio durante uma cirurgia, em 1934, no auge da notoriedade.

Humberto de Campos deixou uma obra extensa, com títulos que formam um expressivo recorte da literatura brasileira, como Poeira (poesia), Da seara de Booz (crônicas), Vale de Josaphat (contos), Pombos de Maomé (contos), Grãos de mostarda (contos), Crítica, Poesias completas, Memórias inacabadas e Diário secreto, os dois últimos publicados postumamente.

A imprensa no encalço do detetive do além

Enquanto o processo do caso Humberto de Campos se arrastava pelos tribunais, a imprensa brasileira empenhava-se em fazer o papel de xerife da história. E lá estavam os jornalistas a desbravar a pacata Pedro Leopoldo, em busca de uma pista capaz de desmascarar o autor de pastiches que vendiam como água nas livrarias espíritas do País. Em As vidas de Chico Xavier, Marcel Souto Maior descreve a saga do jornalista David Nasser e do repórter fotográfico Jean Manzon, a mais ousada dupla de O Cruzeiro, a revista de maior circulação na época.

A missão de Nasser e Manzon era desvendar o homem Chico Xavier, revelando aos milhares de leitores da revista a intimidade do médium, que àquela altura estava sentado no banco dos réus em ação movida pelos herdeiros de Humberto de Campos. Os dois repórteres desembarcaram em Pedro Leopoldo e, para ludibriar a segurança da fazenda onde Chico residia e conseguir a tão esperada entrevista, fingiram ser jornalistas americanos. Em nenhum momento do encontro, os repórteres se identificaram pelos nomes verdadeiros. Auxiliados por um falso intérprete de inglês, os dois conseguiram chegar até Chico Xavier, que abriu as portas de sua casa, respondeu a perguntas e posou para fotos até então inéditas na imprensa.

“Uma das fotografias estampadas na revista exibia o representante do ilustre e saudoso Humberto de Campos sentado numa banheira, com a mão esquerda sobre a testa, como se estivesse em transe mediúnico. Só faltava estar nu”. A imagem foi estampada em meia página de O Cruzeiro no dia 12 de agosto de 1944, onze dias antes da sentença do juiz, com a seguinte legenda: “Sensacional flagrante de Chico na banheira. Ele procurava as almas, quando Jean Manzon o surpreendeu, obtendo um impressionante documento para o próximo julgamento. Os adversários do espiritismo afirmam que é uma prova de farsa. Os espíritas, que é outra prova: o espírito desce seja onde for”.

As fotos e as legendas espalhafatosas, segundo Souto Maior, foram bem mais contundentes do que propriamente o texto da reportagem de David Nasser, intitulada “Chico, detetive do além”. As imagens, todas dirigidas pela experiente dupla de repórteres, expunham um Chico vaidoso e ingênuo, “leitor de grandes obras literárias”, portanto capaz de cometer o pastiche cantado pela intelectualidade.

Uma hora e meia de entrevista. Os jornalistas “americanos” se despediram e, na saída da fazenda, ganharam livros com dedicatória de Chico. Na reportagem, os repórteres não citam como conseguiram ludibriar o médium tido como tão astuto.

Em reportagem publicada 30 anos depois no jornal O Dia, David Nasser relembra o histórico encontro com Chico Xavier e reconstitui diálogo travado com Jean Manzon, dois dias após a polêmica entrevista. Na madrugada, o jornalista foi acordado por um telefonema aflito do fotógrafo.

- David, você trouxe aquele livro que o homem nos ofereceu?
- Claro que sim.
- Pois bem, abra-o na primeira página e leia a dedicatória.

Nasser deixou o telefone de lado para folhear o livro que recebera do médium. Como dedicatória havia a frase “Ao irmão David Nasser, oferece Emmanuel”. De volta ao telefone, indagou, apavorado:

- Que negócio é esse, Manzon, alguém revelou nossa identidade?

Emmanuel foi o espírito que acompanhou Chico Xavier em grande parte de sua vida mediúnica. O fotógrafo e o falso intérprete também receberam a mesma dedicatória. “Diante do mistério, os três fizeram um pacto de silêncio”, relata Souto Maior. A reportagem de O Dia esboça um David Nasser arrependido com o episódio de Pedro Leopoldo e os seus desdobramentos. “Chico Xavier é o maior remorso da minha vida”, admitiu o jornalista, embora anos depois da aventura.

(texto publicado originalmente no dia 2 de abril de 2010, no jornal O Estado do Maranhão)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Um pouco antes da trilha

A vida não é filme, mas sugere uma trilha. Eu coleciono várias. Vidas e trilhas. Mas não é uma vida a pilha que pede uma trilha. Há uma milha de distância entre uma simples música que tocou e uma trilha sonora digna de registro em HD natural. A trilha precisa de mais dias de calor que de cobertor. É necessário passar mais tempo acordado para merecer uma trilha. Não há música definitiva no compasso do sono.


Montar uma trilha sonora não exige muito esforço. Aliás, não se monta uma trilha sonora. Ela surge. Insuspeitada e anacrônica, às vezes surge anos depois. Você olha pra trás e lá está a canção te martelando o ouvido com a rima colegial. A trilha sonora daquele verão certamente não foi mais intensa que os dias de bossa dessa chuva que molha a areia da praia. No horizonte, mar e pedaços de nuvem se fundem numa balada de amor que não tem fim. A vida embaça pelo retrovisor do carro. É a trilha da estação.

Do romance mais prosaico ficou pelo menos um refrão de carnaval, dessas marchinhas que não se governam e saem por aí atravessando o tempo e a multidão. O refrão sem dono não chega a ameaçar os amores de agora nem os concertos de afeto que embalaram os passos de ontem.

Não se perdem na lembrança os programas de rádio, o vinil emprestado, a coletânea em fita K7, os CDs gravados com a alma impregnada em cada faixa, os trechos de músicas rabiscados na blusa desbotada no final de ano da escola, o baião preferido do meu pai, a luz negra do salão de reggae, os lamentos sertanejos que minha mãe entornava como se fossem canções de ninar e o beijo partido na platéia do show de rock que ainda hoje ressoa.

A trilha da infância vai das orquestras que compensavam certas brutalidades nos filmes de bang-bang às cantigas de padre Zezinho que do alto da torre da igreja enchiam de ternura as manhãs de domingo da cidade pequena. Há trilha para certas coisas e acontecimentos e pessoas e lugares e viagens.

Não me incomodam as músicas de gosto duvidoso, tampouco me assustam os boleros e calipsos que jamais dancei. Se vale a pena saber da Carolina, da cajuína, da ópera de Catirina, não se pode fechar os olhos para o abajur cor-de-carne que te assombra o passado. Há quem faça da vida uma trilha que se completa nas evoluções do Rebolation, por exemplo. E daí?

Existe uma trilha que ainda não foi aberta, sem pecado ou preconceito, regada a candomblé, arrasta-pé ou cabaré. Sem roteiro. Como um rolo de filme, um dia ela vai se revelar.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Sob o céu de Lisboa

A boa dosagem de lirismo em Portugal não está associada apenas aos cantos de fada de Amália Rodrigues, aos contos e fados da Alfama ou aos cafés boêmios do Chiado. Está no azul profundo do céu que cobre Lisboa. É o azul do céu que dá as boas-vindas a quem ali chega. De barco, balão, trem ou avião. O encanto é inevitável.

É domingo de Carnaval em Lisboa e a cidade ainda adormece. Nem mesmo o inverno intimida o sol em sua ventura solitária de pintar essa imensa tela de azul. As ruas despertam lentamente. A paisagem cresce em cada esquina, nos becos e ruas mais estreitos, na jóia rara da coroa de Queluz, nas sacadas dos sobradões que de dia viram varal.

Estar em Lisboa é reinventar o passado, dando a ele o valor necessário. É o revés do descobrimento, distraída navegação da nau tempo, sem cartografia ou GPS. Como no filme de Wim Wenders (Lisbon story, 1994), vejo-me perdido na via pública e saio a filmar com os olhos o mundo sem som da cidade muda porque dorme.

Lisboa é inteira ficção do poeta em pleno gozo do desassossego. A alma de Fernando Pessoa parece vagar pela cidade, ora em versos de música, ora na arquitetura dos passantes, na sisudez das fachadas reais. Poeta e poesia tomam café na Brasileira e brincam de ciranda para o flash dos turistas insones. Breve tertúlia literária com pastel de napa que se estende da Alfama à Mouraria, sem livro ou roteiro.

Do alto do castelo de São Jorge não se sabe onde termina o mar e onde começa o rio. Dizem que, todas as manhãs, o mar se enche de Tejo e beija o cais de Lisboa. Olhando de cima os telhados da cidade-velha, suspeita-se que a época moderna adoece o olhar dos homens, como um mal presente na retina de Alberto Caeiro.

A melancolia do fado em nada lembra as alegorias esparsas numa cidade de Carnaval sem batucadas e bambas. A um oceano do barulho, crianças saem de casa fantasiadas de alegria. Belas moças colorem o corpo com pinturas extravagantes para lembrar que samba é um estado de espírito. Nada mais.

O olho molha quando cai a noite e o fado suplicante acende meia-luz de qualquer coisa. Ao fundo, alguém cantando a vida em excesso, o desengano, a dor, a saudade. Ali há sempre alguém cantando Lisboa, que não sonha em ser Paris, que não vai ser moderna porque dura a tradição.
À primeira vista Lisboa parece assim: onde o mar finda. Pressa e preguiça de um olhar distante. Vinho e bacalhau. O lirismo que começa na capital ecoa pelo Alentejo e se espalha pelas colinas de Sintra e ruelas do Porto. Vai pelo céu. Um azul que se eterniza na memória. De cidade em cidade.