sábado, 17 de abril de 2010

Salve a Louca do Rio Anil

Quem é aquela que ergue os braços e corre em disparada pelas cercanias do novo shopping? A Louca do Rio Anil é só uma menina alegre no meio da multidão, descolada da massa pelo sorriso farto, pelo gesto de explosão da vitória. E não é louca a pequena que se agarra com euforia aos letreiros de loja, às tentações da novidade do bairro, ao burburinho dos artistas de televisão.


A Louca do Rio Anil não tem nome porque o nome mal cabe no feixe de caracteres de uma legenda de coluna social. Sem cerimônia, ela estufa o peito de provinciana bem resolvida e encara a lente do fotógrafo Biaman Prado com a altivez de uma lady sofisticada. Não, a Louca do Rio Anil deixou a vergonha guardada no quarto-e-sala da Cohab e foi dar as boas-vindas às vitrines do Turu.

E como corre a louca! E vibra como quem venceria fácil a batalha de Riachuelo do shopping. Soberana diante da conquista iminente, a menina contraria a lógica sartreana-suburbana e chega ao pódio do consumo ao lado de veteranas na arte da pechincha do Olho d’Água. A Louca do Rio Anil não é fashion, mas tem atitude. Zomba do clichê com elegância de tamanha ingenuidade. Quem são os adoradores de shopping? Serão os mesmos fiéis da internet, esse totem-tabu que escraviza e sevicia?

Sim, são os mesmos protagonistas do escárnio, com seus twitteres e orkuts incandescentes. São as mesmas debutantes do Calhau que dançam valsa com o ator da Globo, que lêem Caras, que tiram fotos ao lado de celebridades. Somos meio idolatria, meio periferia!

Para a Louca do Rio Anil, São Luís é só uma colônia. Uma colônia do Boticário, talvez. E ela, uma colonizada com aroma de pau-brasil, cabelo ao vento, calça jeans desbotada e blusinha tomara-que-caia. Não leva jeito para o saque dos bárbaros. Não tem queda para o vandalismo. Quer apenas um quadrado mais próximo do holofote, o autógrafo de um ex-confinado do BBB, uma compra na prateleira das promoções.

A cidade em transe, e é apenas um novo shopping de portas abertas para o Itapiracó. O que vão dizer na metrópole? O que vão pensar de nós lá fora? Que somos todos a Louca do Rio Anil, carne e osso, corpo e alma, sem medo do vexame, querendo cortar a fita de chegada. Viva a pobreza de espírito!

Somos todos de abril como os poucos índios que ainda restam. A doce Louca do Rio Anil também tem pele amarela como a menina triste da foto do Vietnã. Uma e outra sobreviveram: à inauguração do shopping das coloridas vestes e às cinzas da bomba nua. Assim caminha a aldeia, aqui e acolá.

12 comentários:

  1. Post direcionado a um nicho da juventude ludovicense.

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  2. Lindo texto!!
    Moro em São Paulo e até agora tô sem entender direito o que foi isso tudo que aconteceu ai. Não conseguia nem classificar esse "fenômeno social" que foi a inauguração desse shopping. Mas o seu texto supriu toda a minha falta de adjetivação.
    Achei a analogia das fotos muito bem sacada! Parabéns!!

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  3. Félix,
    Parabéns pelo texto, adorei!!
    Retratos (literalmente) da realidade,com um olhar sensível e coerente.
    Abraços,

    Vanessa Cassas.

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  4. Félix,parabéns pelo ótimo texto. Entender o que ocorreu com a inauguração deste shopping pode esclarecer muito sobre o comportamento da juventude das classes C e D de nossa cidade.
    Abraços

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  5. felix,
    sempre acertando com as palavras, sensível, forte, verdadeiro!

    abs,

    anne glauce freire

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  6. Félix, meu querido
    Parabéns pelo texto. Disseste tudo e que isto nos sirva de reflexão.
    Um abraço
    Wal Oliveira

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  7. Não só o comportamento das "classes C e D", mas da sociedade em geral. Conseguiste olhando por cima de todas essas classificações, mostrar que todos, com classe ou sem, são postos no olho do redemoinho que é a atração pela novidade, pelo belo, pelos grandes stars da TV.
    Parabéns pelo texto e pela visão.

    "Para a Louca do Rio Anil, São Luís é só uma colônia. Uma colônia do Boticário, talvez"

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  8. perfeito, cara. sintético e poético.

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  9. ah, amigo
    nãoéum bom caminho glamurizar a burrice, a falta do que fazer
    porque não acontece isso no lançamento de uma livraria??
    ou então porque não se mobiliza assim para votar em quem presta??
    você fez uma análise pequena, essa menina feliz é um pequeno retrato de uma juventude cada vez menos letrada

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  10. Excelente texto, Félix! Um abraço!

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  11. Muito bom texto. Qual a diferença mesmo entre uma menina pobre que corre para ter um autógrafo do Cauã e a filhinha de papai da sociedade que contrata o mesmo para dançar com ela na sua festa de 15 anos? Somos todos provincianos, uns se julgam menos, outros se deliciam em ser mais. E viva o primeiro marketing viral genuinamente maranhense (não contando as fotos das "musas" maranhenses que rolam pelos emails da cidade).

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