Praça João Lisboa / Foto: suacidade.com
Cláudia Baima*
Quatrocentos e catorze anos de história. Quem melhor poderia falar sobre São Luís se não os seus paralelepípedos? Como não sei ouvir as pedras, pedi a amigos e amigas para enviar um tantinho de suas memórias da cidade. Qualquer coisa: locais, personagens, festas, lendas, comidas, passeios, livros, músicas, bebidas, gentes, saberes e sabores.
Começamos dos anos 1970 para cá, coletando miudezas inesquecíveis, como sentar na praça João Lisboa para sentir a tarde cair. Coisas que vivemos nos mais de mil e quatrocentos quilômetros quadrados cercados de águas, nessa terra tão plural que se veste de Upaon-Açu, de Atenas ou Jamaica brasileira, Ilha do Amor ou a Bela de Gonçalves Dias.
A palavra ‘infância’ foi a chave para sintonizar uma São Luís de tempos atrás. Tomar banho na Fonte do Ribeirão e aventurar-se pelos túneis subterrâneos até o minadouro d'água (acesso hoje bloqueado); ver passar a banda da Escola Técnica nos desfiles da Semana da Pátria; torcer pelo time do colégio nos JEMs; curtir os carnavais do Casino, Lítero e Jaguarema, ou os entrudos de rua fantasiados de fofão. Isso mesmo. Entrudo: “antiga festa popular de origem europeia e o principal ancestral do Carnaval moderno no Brasil e em Portugal. A palavra vem do latim introitus, que significa "entrada" (o início da Quaresma) ”.
O entrudo era uma brincadeira carnavalesca de rua. As pessoas jogavam água, maisena, ovos, tinta e lança-perfumes. De tão bagunçada que ficou, foi proibida em 1853, enquanto os foliões do “corso carnavalesco” desfilavam em carros abertose enfeitados - tradição que inspirou os atuais alegóricos e trios elétricos. Moradores da rua do Egito relembram as carrocerias cobertas de palha, simulando casas com personagens de nossa cultura. O fofão merece prosa. Desde criança, ter um fofão para brincar era uma iniciação. Com máscaras horríveis e uma roupa de chita muito fofa, no sentido literal de fofa. A diversão era correr atrás dos outros. Daí a expressão: “gruda no meu fofão” para entrar no cordão e não se perder na folia.
Juntar caquinhos de vivências não foi peleja. Foi mais um brincar de Jogo de Memória, Ligue os Pontos e Quebra-Cabeças no Planeta das Memórias. O mosaico foi ganhando coesão e nitidez. Um fogo no meio do peito aquecia os neurônios como marshmellow na brasa que derrete e expande! A batata frita no Lusitana; a finada árvore barrigudeira (Sumaúma) no Monte Castelo; a comida do Solar do Ribeirão e o visual de um antigo restaurante, na cobertura do prédio do Banco BEM – hoje Mirante da Cidade, de onde apreciamos 360 graus de beleza insular. A caldeirada da Base do Rabelo ou da Lenoca; os piqueniques nas dunas do rio Pimenta, atrás do Hotel Quatro Rodas; o sorvete de ameixa servido em taças, no Hotel Central; a paquera em frente ao edifício Caiçara, na rua Grande e os amores proibidos na Fonte da Saudade. Aliás, logo ali, o Mercado Central tem muita história no ar.…haja mocotó de manhã cedo!
Animado, o bastão de fala circulava: descer de rolimã as ladeiras do centro; catar sarnambi na praia; lambuzar-se com o cachorro-quente do Souza, na Praia Grande, ou do Cláudio, no Renascença; o caldo de ovos de Seu João e os tabuleiros de quebra-queixo da rua do Sol; o pastel do japonês da Praia Grande; a pimenta de Seu Tonico (pai do Zeca Baleiro); o jogo de chucho em terra batida; filmes de qualidade no Cine Passeio, Cine Eden e Roxy; os quibes e esfirras do trailer Ali Babá; o sanduba no Bom de Boca da Lagoa ou do Flerte; o Samba da Fonte do Ribeirão.
O pôr do sol é capítulo à parte, assim como os bares. A começar pelo nosso Baixo Leblon, na Beira-Mar. E o Ferro de Engomar? Quem sabe, sabe. O sol vem e vai lindamente em vários pontos da ilha, de todas as praias. Bate uma luz diferente no Largo dos Leões, na praça Gonçalves Dias ou Largo dos Amores, nos mirantes de casarões. Quantas risadas no Bar Travessia do Beco do Teatro. O Ponto de Fuga e a catuaba do Diquinho, na Madredeus; o bar do Cajueiro, na Ponta d´Areia – palco de tantas criações da música maranhense, assim como os bares do Teteia e Onde o Vento faz a Curva; a carne de sol do Cabeça Branca; o Bar da Galeana, na esquina da rua da Cruz com a Saavedra; a cachaça do Batista ou a gelada do Bar do Leo, no Mercado do Vinhais; o caranguejo toc-toc na barraca Estrela d´Alva, na Litorânea ou do Nonato do Olho d´Água; o peixe frito do Capial, na Praia do Meio.
Há remanescentes: os sorvetes de tamarindo, jaca, murici, tapioca e sapoti da lendária Elefantinho do Canto da Fabril ou na Sorveteria Stop; o batizado de bumba meu boi na Capela de São Pedro; as festas da Casa Fanti Ashanti, no Anil; ir de catamarã para a Festa do Divino em Alcântara; os arraiais do IPEM; queimar palhinha no presépio de Terezinha Jansen em Dia de Reis; a cerveja com camarão seco no Mercado das Tulhas; as bolachinhas da padaria Santa Maria (centro); o reggae coladinho das radiolas descoladas; o cuscuz Ideal e o sorvete de coco (“vêêête côco”); a juçara com farinha d´água no Maracanã; o vento saliente da esquina do Egito com Afogados; o guaraná Jesus super gelado...
Longe de mim pincelar de melancolia tais lembranças. É só saudade, sem saudosismo. A pauta sempre é amor. E a ação pela qual se clama é conjugar o verbo amar. Todos os dias cuidar, proteger, garimpar e preservar maravilhas. É esticar o olhar para um futuro belo, bom e justo para todos. Afinal, a beleza do mosaico é o seu poder fractal de conter, na finitude da parte, o mistério do todo. Que venham nessa vibe os próximos anos desta cidade linda que a gente ama porque ama.
Eita, já tinha saído e voltei ao sentir ausências cruciais: bar Cafua das Mercês (no Ribeirão), bar do Badauê, Barril 2000, bar do Rui, Carnaval de segunda no Laborarte; Discotecas: 707 (no Júnior Center), Zig Zag (Salão Social do Lítero na João Lisboa), Jaguar (Clube Jaguarema), Gênesis (retorno do Calhau), PH (na av. Kennedy).
E você, lembra de quê? Ou o que sugere na São Luís de hoje?
*Maria Cláudia Baima, jornalista e caçadora de vivências interessantes.
