terça-feira, 8 de setembro de 2026

Breve inventário afetivo de São Luís

 

Praça João Lisboa e Largo do Carmo são entregues revitalizadas

Praça João Lisboa / Foto: suacidade.com 


Cláudia Baima*

 

Quatrocentos e catorze anos de história. Quem melhor poderia falar sobre São Luís se não os seus paralelepípedos? Como não sei ouvir as pedras, pedi a amigos e amigas para enviar um tantinho de suas memórias da cidade. Qualquer coisa: locais, personagens, festas, lendas, comidas, passeios, livros, músicas, bebidas, gentes, saberes e sabores.

 

Começamos dos anos 1970 para cá, coletando miudezas inesquecíveis, como sentar na praça João Lisboa para sentir a tarde cair. Coisas que vivemos nos mais de mil e quatrocentos quilômetros quadrados cercados de águas, nessa terra tão plural que se veste de Upaon-Açu, de Atenas ou Jamaica brasileira, Ilha do Amor ou a Bela de Gonçalves Dias.

 

A palavra ‘infância’ foi a chave para sintonizar uma São Luís de tempos atrás. Tomar banho na Fonte do Ribeirão e aventurar-se pelos túneis subterrâneos até o minadouro d'água (acesso hoje bloqueado); ver passar a banda da Escola Técnica nos desfiles da Semana da Pátria; torcer pelo time do colégio nos JEMs; curtir os carnavais do Casino, Lítero e Jaguarema, ou os entrudos de rua fantasiados de fofão. Isso mesmo. Entrudo: “antiga festa popular de origem europeia e o principal ancestral do Carnaval moderno no Brasil e em Portugal. A palavra vem do latim introitus, que significa "entrada" (o início da Quaresma) ”.

 

O entrudo era uma brincadeira carnavalesca de rua. As pessoas jogavam água, maisena, ovos, tinta e lança-perfumes. De tão bagunçada que ficou, foi proibida em 1853, enquanto os foliões do “corso carnavalesco” desfilavam em carros abertose enfeitados - tradição que inspirou os atuais alegóricos e trios elétricos. Moradores da rua do Egito relembram as carrocerias cobertas de palha, simulando casas com personagens de nossa cultura. O fofão merece prosa. Desde criança, ter um fofão para brincar era uma iniciação. Com máscaras horríveis e uma roupa de chita muito fofa, no sentido literal de fofa. A diversão era correr atrás dos outros. Daí a expressão: “gruda no meu fofão” para entrar no cordão e não se perder na folia.

 

Juntar caquinhos de vivências não foi peleja. Foi mais um brincar de Jogo de Memória, Ligue os Pontos e Quebra-Cabeças no Planeta das Memórias. O mosaico foi ganhando coesão e nitidez. Um fogo no meio do peito aquecia os neurônios como marshmellow na brasa que derrete e expande! A batata frita no Lusitana; a finada árvore barrigudeira (Sumaúma) no Monte Castelo; a comida do Solar do Ribeirão e o visual de um antigo restaurante, na cobertura do prédio do Banco BEM – hoje Mirante da Cidade, de onde apreciamos 360 graus de beleza insular. A caldeirada da Base do Rabelo ou da Lenoca; os piqueniques nas dunas do rio Pimenta, atrás do Hotel Quatro Rodas; o sorvete de ameixa servido em taças, no Hotel Central; a paquera em frente ao edifício Caiçara, na rua Grande e os amores proibidos na Fonte da Saudade. Aliás, logo ali, o Mercado Central tem muita história no ar.…haja mocotó de manhã cedo!

 

Animado, o bastão de fala circulava: descer de rolimã as ladeiras do centro; catar sarnambi na praia; lambuzar-se com o cachorro-quente do Souza, na Praia Grande, ou do Cláudio, no Renascença; o caldo de ovos de Seu João e os tabuleiros de quebra-queixo da rua do Sol; o pastel do japonês da Praia Grande; a pimenta de Seu Tonico (pai do Zeca Baleiro); o jogo de chucho em terra batida;  filmes de qualidade no Cine Passeio, Cine Eden e Roxy; os quibes e esfirras do trailer Ali Babá; o sanduba no Bom de Boca da Lagoa ou do Flerte; o Samba da Fonte do Ribeirão.

 

O pôr do sol é capítulo à parte, assim como os bares. A começar pelo nosso Baixo Leblon, na Beira-Mar. E o Ferro de Engomar? Quem sabe, sabe. O sol vem e vai lindamente em vários pontos da ilha, de todas as praias. Bate uma luz diferente no Largo dos Leões, na praça Gonçalves Dias ou Largo dos Amores, nos mirantes de casarões. Quantas risadas no Bar Travessia do Beco do Teatro. O Ponto de Fuga e a catuaba do Diquinho, na Madredeus; o bar do Cajueiro, na Ponta d´Areia – palco de tantas criações da música maranhense, assim como os bares do Teteia e Onde o Vento faz a Curva; a carne de sol do Cabeça Branca; o Bar da Galeana, na esquina da rua da Cruz com a Saavedra; a cachaça do Batista ou a gelada do Bar do Leo, no Mercado do Vinhais; o caranguejo toc-toc na barraca Estrela d´Alva, na Litorânea ou do Nonato do Olho d´Água; o peixe frito do Capial, na Praia do Meio. 

 

Há remanescentes: os sorvetes de tamarindo, jaca, murici, tapioca e sapoti da lendária Elefantinho do Canto da Fabril ou na Sorveteria Stop; o batizado de  bumba meu boi na Capela de São Pedro; as festas da Casa Fanti Ashanti, no Anil; ir de catamarã para a Festa do Divino em Alcântara; os arraiais do IPEM; queimar palhinha no presépio de Terezinha Jansen em Dia de Reis; a cerveja com camarão seco no Mercado das Tulhas; as bolachinhas da padaria Santa Maria (centro); o reggae coladinho das radiolas descoladas; o cuscuz Ideal e o sorvete de coco (“vêêête côco”); a juçara com farinha d´água no Maracanã; o vento saliente da esquina do Egito com Afogados; o guaraná Jesus super gelado...

 

Longe de mim pincelar de melancolia tais lembranças. É só saudade, sem saudosismo. A pauta sempre é amor. E a ação pela qual se clama é conjugar o verbo amar. Todos os dias cuidar, proteger, garimpar e preservar maravilhas. É esticar o olhar para um futuro belo, bom e justo para todos. Afinal, a beleza do mosaico é o seu poder fractal de conter, na finitude da parte, o mistério do todo. Que venham nessa vibe os próximos anos desta cidade linda que a gente ama porque ama.

 

Eita, já tinha saído e voltei ao sentir ausências cruciais: bar Cafua das Mercês (no Ribeirão), bar do Badauê, Barril 2000, bar do Rui, Carnaval de segunda no Laborarte; Discotecas:  707 (no Júnior Center), Zig Zag (Salão Social do Lítero na João Lisboa), Jaguar (Clube Jaguarema), Gênesis (retorno do Calhau), PH (na av. Kennedy). 

 

E você, lembra de quê? Ou o que sugere na São Luís de hoje?

 

 

*Maria Cláudia Baima, jornalista e caçadora de vivências interessantes.

 

30 anos depois


 

Zé Luiz Nogueira*

  

É bom voltar a São Luís e passear por duas cidades, uma de trinta anos atrás quando parti, permeada por lembranças e a mais pura invenção, com rostos que me assaltam à memória, amigos que morreram, outros que achei que morreram, mas estão muito vivos. A outra cidade é a que os meus pés percorrem agora sob o sol de setembro, caminhando com o olhar maravilhado, tonto, atento às pequenas magias desse fim de inverno com modos de outono. 

 

Já não duvido dos encantos e feitiços dessa ilha, porque a explosão de sabores e cores que ela me devolve são prazeres que pareciam esquecidos, extintos. 30 anos não é pouco tempo, são 10.957 dias, considerando os anos bissextos desta longa ausência. Ou, dilatando ainda mais a noção de tempo, 262.968 horas, ou quinze milhões setecentos e setenta e oito mil e oitenta minutos sem suco de bacuri, sem as matracas do Bumba-Meu-Boi, sem os ventos de trinta nós da praia do Meio em outubro, sem a modorra das tardes quentes no centro histórico. É tempo demais…

 

É curioso, porque nem maranhense sou, mas por ter voltado depois de tanto tempo, uma saudade e uma sensação de pertencimento se fizeram presentes. Por isso aqueles que me virem passeando pelas ruas da cidade, não tomem como lágrimas o que verte dos meus olhos. É que eles, às vezes, suam com a emoção de tantas descobertas. Como citei o bacuri, creio que devo endereçar de forma mais precisa essa saudade. Digo do seu gosto final, aquele lá do fundo do gole, ou do quinhão derradeiro do seu creme. Não traz um travo cítrico que brinca entre a língua e o palato? Não sei o que é, mas de novo, me assombra e me deslumbra trinta anos depois. A vinagreira no arroz de cuxá, o camarão seco, o sotaque da Baixada, a força das marés, as saias fustigadas pelo vento, tudo isso marca meu olhar forasteiro. 

 

E no alvoroço das reminiscências que teimam em invadir a minha caminhada, versos se misturam numa embolada do tempo. Gonçalves Dias com Félix Lima, palavras de Sousândrade se embaralham ao Poema Sujo de Gullar, trechos do “Dono do Mar” de José Sarney parecem mixados aos pontos cantados no Tambor de Mina. É o tempo soprando nos meus ouvidos, com a sua linguagem própria e tomada por mistérios que me surpreendem. Entre esses fragmentos que surgem da paisagem em movimento, vem com a clareza de uma manhã de sol a lembrança da mãe de santo Elisa Georgina Mendes de Souza vestida de branco num terreiro e cantando: “menino quanto tu fô, me escreve lá do caminho, se tu não achá papel, nas asas dum passarinho…” 

 

*Zé Luiz Nogueira, que depois de exatos 30 anos, voltou à ilha de São Luís. 

(foto: Félix Alberto)