terça-feira, 8 de setembro de 2026

30 anos depois


 

Zé Luiz Nogueira*

  

É bom voltar a São Luís e passear por duas cidades, uma de trinta anos atrás quando parti, permeada por lembranças e a mais pura invenção, com rostos que me assaltam à memória, amigos que morreram, outros que achei que morreram, mas estão muito vivos. A outra cidade é a que os meus pés percorrem agora sob o sol de setembro, caminhando com o olhar maravilhado, tonto, atento às pequenas magias desse fim de inverno com modos de outono. 

 

Já não duvido dos encantos e feitiços dessa ilha, porque a explosão de sabores e cores que ela me devolve são prazeres que pareciam esquecidos, extintos. 30 anos não é pouco tempo, são 10.957 dias, considerando os anos bissextos desta longa ausência. Ou, dilatando ainda mais a noção de tempo, 262.968 horas, ou quinze milhões setecentos e setenta e oito mil e oitenta minutos sem suco de bacuri, sem as matracas do Bumba-Meu-Boi, sem os ventos de trinta nós da praia do Meio em outubro, sem a modorra das tardes quentes no centro histórico. É tempo demais…

 

É curioso, porque nem maranhense sou, mas por ter voltado depois de tanto tempo, uma saudade e uma sensação de pertencimento se fizeram presentes. Por isso aqueles que me virem passeando pelas ruas da cidade, não tomem como lágrimas o que verte dos meus olhos. É que eles, às vezes, suam com a emoção de tantas descobertas. Como citei o bacuri, creio que devo endereçar de forma mais precisa essa saudade. Digo do seu gosto final, aquele lá do fundo do gole, ou do quinhão derradeiro do seu creme. Não traz um travo cítrico que brinca entre a língua e o palato? Não sei o que é, mas de novo, me assombra e me deslumbra trinta anos depois. A vinagreira no arroz de cuxá, o camarão seco, o sotaque da Baixada, a força das marés, as saias fustigadas pelo vento, tudo isso marca meu olhar forasteiro. 

 

E no alvoroço das reminiscências que teimam em invadir a minha caminhada, versos se misturam numa embolada do tempo. Gonçalves Dias com Félix Lima, palavras de Sousândrade se embaralham ao Poema Sujo de Gullar, trechos do “Dono do Mar” de José Sarney parecem mixados aos pontos cantados no Tambor de Mina. É o tempo soprando nos meus ouvidos, com a sua linguagem própria e tomada por mistérios que me surpreendem. Entre esses fragmentos que surgem da paisagem em movimento, vem com a clareza de uma manhã de sol a lembrança da mãe de santo Elisa Georgina Mendes de Souza vestida de branco num terreiro e cantando: “menino quanto tu fô, me escreve lá do caminho, se tu não achá papel, nas asas dum passarinho…” 

 

*Zé Luiz Nogueira, que depois de exatos 30 anos, voltou à ilha de São Luís. 

(foto: Félix Alberto)

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