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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Ferreira Gullar: “Não entro para a academia; não quero ser exceção nenhuma”



A entrevista abaixo com o poeta maranhense Ferreira Gullar, que hoje à noite toma posse na Academia Brasileira de Letras, foi publicada em dezembro de 1999 na revista Parla, editada pelas jornalistas Flávia Regina e Dadá Coelho. Gullar viera a São Luís para ser homenageado pelo governo do Maranhão como nome de avenida. A rápida passagem ficou marcada como a última visita do poeta à cidade retratada no antológico “Poema sujo”. Ora no saguão do antigo Hotel La Ravardiere [hoje Holliday Inn], ora caminhando no calçadão da Avenida Ferreira Gullar, fiz a entrevista acompanhado pelo inspiradíssimo bom humor – estratégico para quebrar a sisudez do poeta – de Dadá Coelho e pelo olhar atento e sensível do fotografo Márcio Vasconcelos.


Fotos: Márcio Vasconcelos
Produção: Dadá Coelho

Ferreira Gullar é o tipo do cara que, nos primeiros quinze minutos de conversa, você pensa em desistir da entrevista. Ele resiste a se entregar completamente à pauta, responde sem entusiasmo às primeiras perguntas e franze a testa. Mistura de charme de poeta feito e impertinência da idade, talvez. Mas se você insistir um pouco mais, vai perceber que uma hora e meia de bate-papo com o poeta não é o bastante. Gullar fala da infância, dos assombros da morte, da gramática como uma barreira nos primeiros anos de poesia, da música, de vaidades e academia de letras. “A quantidade de maravilhoso que existe no mundo é pouco. É preciso criar o maravilhoso [...]. Os artistas são fabricantes de maravilha”. Leia.

Quem é o Ferreira Gullar?
Eu me considero uma pessoa comum. Mas dizer que é comum parece que não é. Na verdade, sou uma pessoa comum, tenho a minha própria história. Cada pessoa tem a sua própria história. Essa cidade me revelou, ainda garoto, que o mundo é maravilhoso, que nascer aqui é maravilhoso. O que você sabe quando nasce? Nada. Você é um bicho que nasceu e olha a cidade, olha o céu, a manhã, a luz... Então eu vivia deslumbrado com a cidade, com o mundo, que o mundo era isso, era a cidade com os seus ventos, suas árvores, o verde e a luz, o verdadeiro paraíso. Quando descobri que as pessoas morriam fiquei espantado. É uma coisa meio chocante.

A morte ainda lhe causa espanto?
A morte é uma coisa constante na minha poesia. Não que eu viva pensando nisso, mas é para mim e todo mundo um problema fundamental, um problema essencial, é a tua finitude, ou seja, a festa vai acabar. Se o cara ficar pensando nisso, não vive. Não vivo pensando nisso naturalmente, mas de vez em quando, contra a minha vontade, a morte surge de um canto qualquer da cidade, ou na voz de alguém ou em algum momento. Essa lembrança, essa ideia... O livro “Muitas Vozes” trata muito disso e evidentemente quanto mais você vai vivendo, mais próximo você está do fim. Falo isso com um jeito meio mole, mas não encaro assim, não. Apesar de não desejar a morte, sei que é ela inevitável e encaro isso com naturalidade. Um dia vai acontecer. Eu até comento, às vezes, que eu desejo a morte, surpreendo-me desejando-a. É uma coisa estranha. Adoro viver, mas existe essa presença. No livro há, inclusive, estratagemas que invento para escapar, tentando me esconder do problema, que na verdade é um problema sem saída. Mas isso não é a minha preocupação constante. Fico preocupado é com o viver, como todo mundo.

Agora, em outro plano, como é o seu cotidiano?
Atualmente estava fazendo uma tradução das “Mil e uma noites” a pedido do editor e passava parte do dia trabalhando nisso. E sempre tenho alguma conferência ou palestra para fazer. Então vou escalonando o tipo de ocupação que tenho. Uma das coisas que faço é desenhar. Também vou ao supermercado, passeio pela praia. Como moro próximo à praia, de vez em quando largo o que estou fazendo e saio, vou passear na praia, no calçadão ou do lado de cá da avenida. Às vezes, encontro um mendigo que não me conhece, alguns veem na televisão minha cara, outros me cumprimentam, me saúdam. Tem uma espécie de colônia de mendigos na rua Ministro Vieira de Castro. Há uns cinco deitados ali o tempo todo. Eu passei uma vez lá e um deles levantou-se e disse: - Poeta Ferreira Gullar, esporadicamente, leio os seus livros!

O volume de trabalho não provoca ciúmes nas pessoas que estão a sua volta?
A Cláudia [a namorada Cláudia Ahinsa, poeta carioca] mora com a mãe dela e eu moro com o Paulo, meu filho, numa outra casa. Nós adotamos esse sistema de nos encontrarmos quase todo dia. Vou na casa dela ou ela vai na minha. Vamos ao cinema, saímos para jantar. É melhor que ficar permanentemente um grudado no outro. Isso só desgasta a relação. O Ziraldo, quando estava me entrevistando para a revista Palavra, perguntou: - E você e a Cláudia? Cadê a Cláudia? Eu disse: - A Cláudia não mora aqui, não. Mora com a mãe. E ele então falou: - Mas você conseguiu o ideal, cara?!

Muitos casais mais novos não admitem morar em casas separadas.
Mas é que eles estão for fora. Os casais mais novos em geral não entendem muito das coisas. Essa ideia é besteira, bobagem. Também fui jovem, era um babaca... O jovem em geral é babaca. O jovem tem muita vitalidade, muita coisa altamente positiva. Agora, entende pouco das coisas. A vida é que vai dando experiência. O jovem não sabe de nada, o jovem é radical, não entende muito das coisas. Eu também fui jovem, queria tocar fogo em tudo, queria ir pra luta armada...

O senhor quis tocar fogo em tudo?
Eu não. Os jovens queriam. Quando fui jovem era um pouco mais afoito, mas nunca fui de querer tocar fogo. Sempre fui um pouco desconfiado, a realidade é mais complexa do que se pensa. O que faz o cara ser radical é pensar que a realidade é simples. É pensar algo do tipo “vou derrotar a ditadura com luta armada!”.



A gramática foi uma barreira no começo?
Uma vez a professora passou para a minha turma da escola uma redação sobre o Dia do Trabalho. Fiz a redação, mas descobri um caminho diferente para escrevê-la. Como no Dia do Trabalho ninguém trabalha, descrevi os escritórios vazios, as lojas fechadas e então ficou uma coisa que, para a professora, pareceu muito original. Quando foi dar a nota, ela disse na turma que a melhor redação era a do Ribamar, que só não ganhou dez porque havia dois erros de gramática no texto. Fui ver quais eram os erros e comecei a estudar gramática, porque achava que para ser escritor eu tinha que saber gramática. Fiquei dois anos só lendo gramática, até hoje sei o nome dos autores. Acho meio maluco uma pessoa que, de repente, fica só lendo gramática.

O senhor quis ser músico no início da carreira?
Eu era adolescente e tinha que ter um ruma na vida. Como meu pai era comerciante, a alternativa seria seguir a profissão dele. Mas não queria, absolutamente. E quando disse isso, ele sugeriu que eu fizesse um concurso para o Banco do Brasil. Meu pai me levou na agência do Banco do Brasil, aqui em São Luís, onde trabalhava um primo meu. Cheguei lá e vi todo mundo batendo máquina, fiquei horrorizado. Eu falei: - O sol lá fora, uma manhã linda e esses caras aqui trancados? Eu não quero isso de jeito nenhum! Eu não vou fazer concurso. Aí eu pensava: o que eu iria ser na vida. Mais aí vi na revista Vamos Ler, que era vendida aqui numa banca da Praça João Lisboa, uma foto do Vinícius [Vinícius de Moraes], o poeta tocando violão. Eu disse: - Essa é que é a boa profissão, tocando violão, cantando e tal. Vou ficar trabalhando num banco? Lembro bem dessa foto do Vinicius, ele está jovem. Não é que eu quisesse ser compositor, isso não era a minha praia. Mas ser poeta. Eu não tinha ideia clara, mas queria ser poeta, escritor, só não queria entrar naquela de ficar trabalhando como um maluco. Isso eu tenho horror!

A poesia tem muito isso do jovem que vislumbra aquela coisa boa da vida?
Acho que é isso. É um lado de encantamento e também uma coisa com relação à infância, porque no fundo a infância será sempre a idade de ouro, a idade maravilhosa em que você não trabalha, está descobrindo o mundo, a vida tem mais alegrias do que obrigações. Depois de adulto você tem que enfrentar os problemas. No fundo, o poeta, é um cara que não quer trabalhar, não quer assumir que é adulto. Ele quer preservar a criança, quer o encanto, preservar na vida – e ainda que seja na literatura – aquele lado maravilhoso que descobre no começo da vida.

A poesia, como em qualquer manifestação artística, tem o perfume da vaidade? Qual é o seu nível de vaidade?
Vaidoso todo mundo é, não existe pessoa sem vaidade. Os virginianos se caracterizam pela modéstia. A vaidade implica um pouco de burrice, pretensão. Há pessoas muito inteligentes que são extremamente vaidosas. Mas a pessoa mais inteligente que conheci foi o Darci Ribeiro e nunca vi ninguém mais vaidoso que ele. A vaidade é uma bobagem, uma coisa sem cabimento. As pessoas são iguais. O fato de você se tornar conhecido, de você realizar uma coisa bem, é algo que te dá satisfação. Tenho muito prazer, muita alegria de poder fazer a minha poesia, uma coisa que eu acho que eu faço com alguma qualidade, que as pessoas gostam. Agora isso não me faz superior a ninguém.

O senhor cuida da aparência?
Meu cabelo é comprido porque tenho preguiça de cortar, de ir ao barbeiro. Meu cabelo, quando eu cortava normal, como se cortava na época, ficava todo espetado e eu ficava irritado. Se cortar curto fica um troço que nem um porco espinho. Então fui deixando ele crescer e percebi quanto maior ele ficava, mais fácil de pentear era. Agora quero cortar, mas as amigas e a namorada não deixam. Se eu cortar o cabelo a Cláudia me larga. Esses dias está um pouco maior do que eu costumo usar.

Alguns compositores musicaram poemas seus. Mas como foi sua participação em “Borbulhas de amor”?
É, eu traduzi a pedido do Fagner.

O que o senhor achou do resultado?
A tradução ficou legal...

Então era a melodia que não prestava?
Não, não é isso...

E essa história de “dentro de ti um peixe?”
Não, aquilo eu liberei porque...

Era pior?
Eu liberei porque aquilo ali era brabo...Era pior. Agora é interessante o sucesso que aquela música fez.

A música [“Borbulhas de amor”] lhe diz alguma coisa?
A mim, não. Não me diz coisa alguma.

Como é que o senhor entrou nessa história?
O Fagner é meu irmão. Ele me ligou e disse: - Ô, parceiro tenho uma música aí que eu acho que vai fazer sucesso... Eu faço, profissionalmente. Ele me pede, eu faço. Então melhorei, a música era bem mais grossa, mas não podia tirar o negócio do peixe porque tirava o próprio sentindo da música. Mas aquilo é uma coisa de música popular, que não tem importância. É pro pessoal cantar mesmo, não é obra literária. E tenho uma opinião melhor que você sobra a música. Não acho que seja a coisa mais idiota. Acho que tem um certo mau gosto, que é esse negocio do peixe, mas é uma coisa erótica e que o pessoal adorou quando a versão saiu. Com uma semana estava no primeiro lugar. E não ganhei quase nada com aquilo porque Fagner, maluco, mandou traduzir sem autorização do autor. E o cara pediu de volta os direitos autorais. Resultado: uma cagada da braba. Ainda saí no prejuízo.

Há quem não goste de música, como o poeta João Cabral de Melo Neto, que fazia questão de assumir essa posição. É possível alguém rejeitar um música, independentemente do gênero?
Uma vez João Cabral me disse que preferia Ritchie a Beethoven. É claro que na gozação. Mas ele realmente não gostava de música. É porque João era muito intranquilo interiormente, muito inseguro. E ele tinha a necessidade de controlar a emoção. Tanto que a poesia dele é rigidamente estruturada por essa necessidade de controle da confusão interior. Ao contrario do que se pensa, a vida interior do João era de um tumulto muito grande, daí a necessidade de ter a ordem fora para controlar aquilo. A música é uma coisa invasora, a música não se controla, é uma coisa que arrebata, exatamente o que ele não queria. Para ele, a coisa pior era a emoção. Ficar emocionado era a pior coisa para o João.

Chico Buarque musicou o poema “Morte e vida Severina”. O que ele achou?
É, João me disse: – Não gosto daquilo. E completou: - Fui apresentado para esse Chico Buarque e falei assim: - Eu gosto muito do seu pai. Ele me contou isso.

As experimentações estão inundando as artes. Como o senhor avalia as instalações?
Alguma instalações são interessantes, mas isso é uma arte de segunda categoria. A arte efêmera é uma besteira. A arte tem que permanecer, a arte sempre foi isso desde que nasceu. Efêmero é tudo, não precisa fazer arte, caralho! A arte efêmera não é necessária. O que eu quero ver é fazer a arte permanecer, é fazer a Monalisa, que tem cinco séculos. É fazer o poema que fica, a quinta sinfonia, a nona, que as pessoas ouvem, os anos passam e o cara continua apaixonado. Isso que é o difícil de fazer. E enriquece o mundo, porque o homem é parte da natureza e a outra parte dele é cultura. Ele é imaginação, ele é invenção dele mesmo. Então, ele inventou a música, o teatro, o cinema, as artes plásticas para fazer a vida melhor. Para criar o maravilhoso. Porque a quantidade de maravilhoso que existe no mundo é pouco. É preciso criar o maravilhoso. Então, com a sinfonia, você cria uma coisa maravilhosa. Não é búzio que você achou na rua, na beira do rio. Não se acha o maravilhoso a toda hora. A arte cria. Os artistas são fabricantes de maravilha.

O senhor sempre criticou as academias, mas foi homenageado agora pela Academia Maranhense de Letras. Como é essa relação?
É esquisito, porque não sou acadêmico e jamais vou entrar para Academia nenhuma. O Sarney outro dia me ligou: - Gullar, você tem que entrar porque você é o grande poeta. Eu disse que não vou entrar para a Academia de jeito nenhum, sou teimoso e chato, não entro. Sinceramente, não tenho nada contra a Academia, mas não sou acadêmico. A Academia é uma institucionalização, ela tem a função de preservar... Agora, o cara entra pra Academia, depois vai ser enterrado num mausoléu – os imortais ficam enterrados num mausoléu, são exceção. Eu quero ser enterrado como todo mundo, não quero exceção nenhuma, o meu barato é ser igual às pessoas, o barato é ser igual e fazer poesia. Se eu puder fazer uma poesia maravilhosa e ser o moleque periquito, isso é que é o barato. Agora, se sou um príncipe encantado e faço poesia, é uma merda! A poesia é feita por gente comum, é nossa, pertence a todos nós. Não sou escola de samba, caralho!

E o poeta ficou impregnado na cidade, agora em forma de avenida?
Aquela avenida [Avenida Ferreira Gullar, em São Luís] pra mim é uma coisa inacreditável, porque posso imaginar que estou eternizado – eternizado é um pouco forte. Mas agora estou na cidade, pertenço à cidade, sou parte da cidade, virei avenida, virei pedra, virei nome. É maravilhoso porque sou desta cidade, sou filho desta cidade, me identifico com ela. Eu disse para Roseana [então governadora Roseana Sarney] que nenhum presente mais maravilhoso poderiam ter me dado. Não há outra maneira de você permanecer a não ser essa, de você ser alguma parte da cidade. É uma grande alegria, embora seja estranho porque ao mesmo tempo ando de chinelo pela Rua Duvivier, [no bairro de Copacabana] no Rio, e fico pensando: - Sou avenida lá em São Luís e estou andando aqui nessa rua de chinelo? É uma coisa meio estranha, mas a vida é assim mesmo.

domingo, 7 de agosto de 2011

Restos de poesia e carnaval

Ferreira Gullar e Joãosinho Trinta relembram, 60 anos depois, a partida de São Luís para o Rio e a confluência de temas em suas obras definitivas

Há 60 anos eles trocavam São Luís pelo Rio de Janeiro. João Jorge Clemente Trinta deixava para trás a família e o berço de menino gauche. Aos 18 anos levava para longe, a bordo do vapor Ita, o tempero da encantaria. José Ribamar Ferreira carregava o espanto na bagagem e, pelo retrovisor da viação Estrela Dalva na estrada comprida, o olho fitava o último pedaço de ilha estirado sobre o oceano. Tinha 21 anos quando partiu a vida em duas metades – parte vertigem, para sempre impregnada na alma; parte linguagem, construída, negada, renovada ao sabor do tempo. Era 1951, o ano da greve que inventou a rebeldia na Ilha de São Luís. Eles não estavam na praça, não carregavam bandeiras. João e José mal se conheciam e sequer desconfiavam que no futuro um reluziria daquilo que é lixo, outro imortalizaria a sua pena naquilo que é sujo.


Joãosinho Trinta e Ferreira Gullar ganharam o Rio de Janeiro para depois ganhar o Brasil, ganhar o mundo. Jogaram o jogo da arte, que nem sempre permite os sete erros. João abriu mão do Clemente e do Jorge no nome. Trocou o “z” pelo “s” e foi viver o Joãosinho Trinta que o Carnaval não esquece. Como um José que não era e um Ribamar que não foi, Ferreira juntou-se ao Goulart da mãe Alzira até se revelar o poeta que é. E assim seguiram o rito de passagem. Dois personagens divididos bem no centro do século 20. Uma cidade pacata e miúda e amada, uma ilha recortada pela água turva do Anil. Outra cidade densa e bela e imperfeita, da Guanabara caprichosa, da então capital dos brasileiros, do retiro de bandeirantes nordestinos. Era São Luís. Era o Rio.


A timidez da velha aldeia tupinambá fazia crescer a vontade de partir. O plano na bagagem era um só: abrir caminhos. Se ficassem, talvez não restassem caminhos ou planos, talvez o chão da cidade encolhesse ainda mais. Se partissem, deixariam a incerteza submersa na baía de São Marcos, morta por afogamento. O visgo eram a família, a casa quieta, a praça Gonçalves Dias, os amigos, as ruas da Paz, da Alegria, de São Pantaleão, a pelada depois das quatro no campo do Ourique, os encontros fortuitos, as bronhas reveladas nos buracos das fechaduras das meia-moradas (o “cuspo morno no membro”), o mar lambendo a soleira dos casarios.

Joãosinho Trinta conta que alimentava uma paixão arrebatadora por uma garota chamada Lígia, filha de Silvestre Fernandes, diretor da escola onde estudava. O sonho era partir com ela para o Rio. “Nosso plano não vingou, éramos muito novos, paixão de adolescente”. Lígia ficou. Joãosinho recebia as primeiras lições de teatro na escola, mas o que o fascinava mesmo era a dança. Conspiração do destino, desembarcou no Rio no domingo de Carnaval, Praça Mauá, roteiro inicial da festa carioca. Aturdido com tanta informação, saiu em busca do primeiro endereço, um pensionato no Flamengo. “Embora admirado com tudo o que vi, ali o Carnaval ainda não pulsava em mim definitivamente. Saí de São Luís em busca da dança, do teatro e da ópera”.
Gullar e Joãosinho desceram num Rio desconhecido, sem qualquer carta de recomendação, sem as bênçãos da Corte, o apadrinhamento político, a mão estendida de parentes. Cara e coragem. Eram jovens, filhos de famílias simples, e por isso mesmo enfrentaram dificuldades no primeiro ciclo da travessia.

O salário minguado no emprego de auxiliar de escritório ajudava Joãosinho a pagar as aulas de dança clássica. Aprovado no concurso para o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio, antes mesmo de assumir a nova atividade pediu as contas do escritório. Sem salário, foi despejado da pensão e viveu um dos períodos mais difíceis de sua vida, segundo relata, até se iniciar na carreira de bailarino profissional. Chegou a dormir em trens do subúrbio e a comer as sobras das amêndoas que caíam na Praça Paris, como relata o publicitário Fábio Gomes no seu livro “O Brasil é um luxo – trinta carnavais de Joãosinho Trinta” (2008).

Ferreira Gullar chegou ao Rio em agosto, bairro da Glória. Deixou em São Luís o primeiro testamento, a investida inaugural na literatura, o livro “Um pouco acima do chão” (1949), depois abjurado pelo poeta. Só mais tarde descobriria que o poema não estava exatamente acima do chão, mas no rés dele, no fundo, quem sabe apodrecido feito restos no monturo, na lavagem, no ferro retorcido. Não levou planos de colação de grau, diploma de universidade, uma graduação qualquer acadêmica. Mas havia nele o impulso para a leitura devoradora. Fez dela um sacerdócio. A incursão pelos livros de filosofia indicados pelo amigo Mário Pedrosa e a sensibilidade de poeta deram a Gullar a água tônica do discurso sobre as artes, despertaram nele a verve de crítico tenaz do trabalho de artistas plásticos. Logo passou a escrever para jornais e a fazer parte da roda de artistas como Lígia Clark, Hélio Oiticica e Amílcar de Castro, além do próprio Mário Pedrosa.


Vergonha do Maranhão

Gullar diz que conheceu Joãosinho logo que chegou ao Rio, por intermédio do amigo em comum Kléber Fernandes. Encontraram-se outras vezes e até se visitaram. Cada um com o seu traçado. Joãosinho entrou de vez para o corpo de baile do Municipal. Obstinado no ofício da dança e do teatro, dedicou-se a acompanhar a montagem da cenografia dos espetáculos. Foi dando pitacos aqui e ali que conheceu os cenógrafos Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, com quem se envolveria tempos depois na engrenagem colorida do Carnaval carioca. Primeiro como aderecista de Pamplona e Rodrigues, influências generosas e definitivas. E logo em voo solo, como maestro principal da alegria.

Depois de “Um pouco acima do chão”, Gullar pôs em conflito a sua linguagem de poeta até “entender” o que de fato era poesia. Encontrou resposta ainda em São Luís numa leitura de versos assombrosos, segundo ele, contidos no livro “Elegias de Duíno”, de Rilke. Passou a ler em outra direção experimentando nos sebos os solavancos de Valéry, Rimbaud, T.S.Eliot e Hoffmann até chegar em Drummond e Bandeira. Descobriu que, aos 20 anos, era um poeta novo empunhando uma linguagem velha, fruto de uma base parnasiana rigorosa. Foi nesse transe que já chegou ao Rio carregando as primeiras tintas de “A luta corporal”, livro-ruptura lançado em 1954, mesmo ano em que se casa com a atriz Thereza Aragão. Gullar, aos 24 anos, chegara à conclusão, com a publicação de “A luta corporal”, de que a sua poesia havia chegado ao fim, a linguagem havia se desintegrado. A conclusão perturbadora o levaria à poesia concreta dos irmãos Campos, com quem romperia pouco depois para lançar o “Manifesto da Poesia Neoconcreta”.

Assombros recorrentes deixaram Ferreira Gullar e Joãosinho Trinta afastados de São Luís em dado período. Gullar, pelo conflito permanente com a poesia e o instinto natural da sobrevivência em terra nova, passou cerca de dez anos sem voltar ao Maranhão. Foi ainda estudando dança nos galpões da União Nacional dos Estudantes (UNE), por onde passavam alguns maranhenses em visita ao Rio, que Joãosinho enfrentou um dos seus maiores dissabores. Certo dia um cunhado o viu dançando no palco e esbravejou:

- Você é a vergonha do Maranhão!

Aquilo soou como uma sentença para Joãosinho, condenado por alguém de casa a se manter distante de sua terra, de sua gente, porque vestia uma malha apertada ao corpo e calçava as sapatilhas da desonra. Dança, para o parente envergonhado, era coisa de mulher ou de veado. E assim cumpriu uma pena dolorosa, de mais de 40 anos, acreditando ser, de fato, a vergonha do Maranhão. Só voltaria a São Luís em meados dos anos 1990 para receber uma homenagem do governo estadual, convencido enfim de que nunca fora motivo de vergonha para os maranhenses, mas de orgulho. “Aquilo ficou guardado, me remoendo como uma doença sem cura. Eu já era tímido, e aquela atitude me tornou uma pessoa ainda mais reservada”.

A timidez, contudo, não cortou as asas do artista que trocou o palco do Theatro Municipal pelos barracões incandescentes do Salgueiro e ali começou a escrever a história do maior carnavalesco que o Brasil já conheceu. Como alinhava Fábio Gomes, de 1974 em diante, quando tomou a frente dos desfiles do Salgueiro, “foram nove títulos, mas poderiam ter sido dez, onze, até quinze, caso houvesse maior isenção e os jurados tivessem feito justiça a Carnavais memoráveis”.

A obra de Joãosinho Trinta, segundo Fábio Gomes, não pode ser analisada somente pelos títulos conquistados. Os melhores carnavais, aqueles mais impactantes e provocadores, não levaram o campeonato. Do Salgueiro para a Beija-flor e depois Viradouro e Grande Rio. Em cada uma dessas escolas deixou a marca do inventor incomum de cores e luzes. Alucinado, usou o delírio para fustigar os seus monstros com lampejos de genialidade. Da passarela resplandeciam suas visões de paraísos e infernos. Joãosinho fazia um espetáculo não para a televisão, mas para o asfalto, como se tablado de teatro o asfalto fosse. Era mais enredo, menos samba.


Samba, descaminhos e estilhaços da memória

Foi Thereza Aragão quem acabou juntando um pouco mais Joãosinho e Gullar no Rio. Ela era muito ligada ao samba e participava de uma ala no Salgueiro. “Eu também gostava de samba, de assistir aos desfiles, e íamos juntos aos ensaios, primeiro no Salgueiro e depois na Beija-flor. Thereza e o samba acabaram me aproximando do Joãosinho”, relata, por telefone, o poeta.

Do neoconcretismo para o Centro Popular de Cultura da UNE. De um ponto a outro, Gullar fundiu poesia e política, cordel e comunismo, teatro e clandestinidade até lançar, em 1975, “Dentro da noite veloz”, seu livro mais denso, carregado, o verso subvervo. Com o país sob a nuvem do Ato Institucional nº 5 da ditadura militar, o engajamento político ensejou a prisão do poeta. O exílio o levou ainda para mais longe de São Luís: Moscou, Santiago, Lima e Buenos Aires. Tão distante, bafejado pelo mundo grande que ao mesmo tempo “espanca e comove”, o poeta deixou-se levar pela explosão de sentimento como se estivesse exorcizando, por meio da acidez da palavra, a infância e a juventude vividas em São Luís, até então latentes em sua obra. “Poema sujo”, lançado em 1976 no Brasil sem a presença do autor exilado, é o livro definitivo de Gullar, o anti-hino derradeiro, brasileiro e universal, de quem grita ao longe a sua cidade velha e nua, parida no garrancho de uma Remington.

“Ah, minha cidade suja
de muita dor em voz baixa
de vergonha que a família abafa
em suas gavetas mais fundas
de vestidos desbotados (...)”


Os estilhaços da memória se espalharam na resma de papel de maio a outubro de 1975. Ao escrever as primeiras linhas de “Poema sujo”, num só fôlego, Gullar estava convencido do peso de cada palavra, da força do moinho das reminiscências. Não era um réquiem à saudade, mas uma sinfonia em retalhos alternando êxodo (São Luís) e exílio (a Via Láctea, naquele instante): o azul da cidade úmida, o moedor de pimenta da tia Bizuza, o quintal da casa, o cheiro do jasmim ainda que sujo, o bordado das toalhas de mesa, a dor silenciosa da gente humilhada, o pouco dinheiro, o perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno. Uma canção de exilado sem pássaro ou palmeira, um grito de socorro. Quando tudo parecia chegar ao fim, o homem acossado em Buenos Aires encontrou a porta de saída no horizonte brumoso do poema, na imunda platibanda vista da varanda, nas dobras da brisa dos 45 anos de idade. “Estou certo de que o poema me salvou: quando a vida parecia não ter sentido e todas as perspectivas estavam fechadas, inventei, através dele, outro destino”.

O poema sujo de Joãosinho Trinta viria a lume 13 anos depois do lançamento do livro-espasmo de Gullar. De intensidade similar, porém de vida efêmera como deve ser uma festa de Carnaval, a poética de Joãosinho vestiu-se de mendigo e invadiu a passarela do samba carioca com o tema “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”, em desfile antológico da escola Beija-flor. O carnavalesco maranhense já havia ousado em outras apresentações, mas não de forma tão polêmica. E a ousadia era mesmo o excesso de beleza nas fantasias, na caracterização do enredo, no banho de criatividade das alegorias. Acuado pela crítica por abusar do luxo nos adereços em desfiles anteriores, com “Ratos e urubus” Joãosinho dera a resposta em grande estilo aos seus detratores, uma espécie de inventário da sobrevivência, como fora o poema na vida de Gullar.

“Ratos e urubus”, de 1989, foi um soco na desatenção, um olhar instigante sobre as mazelas de um país vice-feliz. No lugar do luxo escancarado, o lixo. Restos da rua, farrapos humanos, material em decomposição. Do desperdício, da sujeira de homens e máquinas, do descartável foi montado um dos maiores espetáculos de Carnaval no Brasil. Uma imagem do Cristo Redentor, apesar da contra-ordem da Igreja Católica, provocou euforia no público e repercussão na imprensa ao entrar na avenida, coberta por sacos de lixo e uma faixa com a mensagem “Mesmo proibido, olhai por nós!”. Joãosinho Trinta juntou no mesmo tacho o lixo do sexo com a sujeira da política, o lixo das trevas com a descrença em templos e catedrais de fachada, o lixo dos loucos e a podridão de cartolas do futebol. O mais memorável de todos os desfiles de Joãosinho, contudo, ficou em segundo lugar no somatório das notas do júri. Para o público, aquele fora o enredo mais vibrante, inteligente e provocador. Ou “escandaloso, criativo e profundo”, como proclamou o “Jornal da Tarde”, de São Paulo. “Quando fiz aquele Carnaval, no Brasil ainda nem se falava em reciclagem. Certamente foi um trabalho de vanguarda. Ali nasceu uma ideia de transformar o lixo em algo útil e belo”, explica o carnavalesco.


No primeiro desfile solo de Joãosinho Trinta, em 1974, ainda no Salgueiro, o Maranhão estava presente no enredo “O Rei de França na Ilha da Assombração”, primeiro lugar entre as escolas do grupo especial. Outra homenagem ao torrão natal viria em 2002, já na escola Grande Rio, com o enredo “Os Papagaios Amarelos nas Terras Encantadas do Maranhão”. Mesmo distante por longos anos, Joãosinho alimentou uma relação de cumplicidade com São Luís em sua obra. Por meio de amigos, por meio de lembranças fugidias. “Sempre estive por perto. Nunca tirei certas pessoas do meu coração, mesmo sem vir a São Luís”.

Nos últimos 12 anos, Gullar adquiriu um certo temor de viajar de avião em roteiros longos. “Acabei me afastando da minha cidade em decorrência disso, coisa que lamento muito”. Ele diz que se não tivesse nascido em São Luís não seria poeta, mas certamente outra coisa, outra pessoa. Não teria crescido com o cheiro na memória de fruta passada da quitanda do pai Newton Ferreira. Ou compartilhado o desassossego da primeira juventude e o gozo de descobertas traquinas com os amigos Esmagado, Espírito da Garagem da Bosta e Canhoteiro. “São referências que não se apagam. São Luís faz parte de mim, do meu sangue, da minha alma; é onde está a minha família”. O poeta que nasceu na rua dos Prazeres, esquina com a rua dos Afogados, e virou nome de avenida em São Luís, recebeu em 2010, aos 80 anos de vida, o Prêmio Camões, o mais importante reconhecimento a um autor de língua portuguesa.

Somente depois de instigados é que um e outro se dão conta de um paralelo acidental em suas vidas. O eixo? São Luís e Rio. Poema lixo e carnaval dos sujos. “Ambos, cada um com os seus fantasmas, pegamos aquilo que estava à margem, podre, e transformamos em matéria-prima da arte”, constata o menino-luz encantador de plateias, que voltou a morar na velha aldeia de ontem. “Ferreira Gullar é para mim o encantado”, diz ele. Gullar considera Joãosinho também um poeta. “À maneira dele, mas é um poeta”. “Logo ali no início, quando passamos a conviver no Rio, eu já tinha a certeza da estrela de Gullar”, devolve Joãosinho.

Ferreira Gullar e Joãosinho Trinta. Nenhum dos dois se prende ao particular, ao saudosismo de partida e chegada de qualquer cais. Trocaram de mar em 1951. Como marinheiros de penúltima viagem, se confundem com o próprio farol. Sem guizo, são senhores de upaon a sul.

Fragmentos de entrevista

“Além da admiração por Gullar, existem entre nós laços de amizade muito fortes. É como se ele fosse um irmão para mim”

Joãosinho Trinta

“Por diversas vezes escrevi sobre Joãosinho Trinta nas minhas crônicas. Uma delas foi quando ele provocou aquele choque com o desfile sobre o lixo. Esse enredo foi formidável”

Ferreira Gullar

“Nesse convívio com o grupo de Gullar, com a turma do grupo Opinião, com o estudo de dança, a vivência no teatro, a ópera gritando dentro de mim... Foi esse conhecimento da época que me fez dar o salto para o Carnaval”

Joãosinho Trinta

“Foi em São Luís onde eu cresci, vivi a minha infância e parte da juventude. Isso ninguém esquece. Esmagado, Espírito, Canhoteiro, a quitanda do meu pai, as praças. Essas são referências que não se apagam. O Poema Sujo nasceu disso tudo”

Ferreira Gullar

“O mundo, na verdade, é um espanto! É uma surpresa extraordinária. Eu não sou poeta. Poeta é Gullar. Só ele fala como ninguém, como ninguém, como ninguém!”

Joãosinho Trinta

“Mesmo distante, mantenho ligação afetiva com a minha cidade, onde mora boa parte da minha família. Sempre falo com meus irmãos, tenho notícias daí. Dificilmente poderei voltar, e eu lamento”

Ferreira Gullar

“Poucas pessoas compreendem tanto Ferreira Gullar como eu, por mais que a linguagem dele seja universal”

Joãosinho Trinta


Trechos de "Poema sujo", recitado por Ferreira Gullar

Trechos do desfile "Ratos e Urubus", de Joãosinho Trinta