segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Os Paralamas e a galera nos tempos de Platão

 

Entre 1996 e 1999, vivi um daqueles períodos que, vistos de longe, ressurgem como retrato iluminado em sépia no canto mais lisonjeiro da memória. Ao lado da jornalista Francília Cutrim, fui repórter e editor do Galera, caderno juvenil do jornal O Estado do Maranhão. Fazíamos tudo. Texto, pauta, edição, revisão, dúvida, aposta e, na maioria das vezes, um certo salto no escuro.

 

Foi ali que aprendemos uma lição que a faculdade não ensinava: escrever para jovens não era apenas simplificar a linguagem ou trocar palavras difíceis por sinônimos mais amigáveis. Era outra pegada. Um deslocamento quase físico. Lírico. Exigia atenção ao ritmo, às gírias, aos silêncios. Pedia que a escrita soasse como fala, não como fala adulta disfarçada, mas como um discurso que pudesse, de fato, circular entre eles sem pedir licença. O desafio era escrever como se fôssemos da tribo, ainda que já não fôssemos – eles estavam na casa dos quatorze, quinze, dezesseis... Nós havíamos atravessado os vinte e poucos anos. 

 

A cada semana, nos jogávamos em novas pautas tentando chegar mais perto. Às vezes errávamos o tom, outras vezes acertávamos em cheio. Eu me apoiava quase sempre nas leituras feitas ainda nos corredores da Universidade Federal do Maranhão, especialmente em O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger. Aquele fluxo de consciência meio insolente de Holden Caulfield me parecia um manual não declarado de como falar com quem ainda estava descobrindo o mundo e, sobretudo, desconfiando dele.

 

Mas Francília quis ir além. Teve a ousadia de criar um colunista fictício para o Galera: Platão. Meio adolescente, meio filósofo de porta de cursinho, cheio de ideias e dúvidas, uma espécie de porta-voz improvisado das aflições, neuras e desejos da geração. Platão tinha espaço próprio e assinava a coluna Esse Lance em página nobre do caderno. Os primeiros textos foram escritos, a convite de Francília, pelo saudoso professor Nilson Amorim, do curso de Jornalismo da UFMA. Depois, eu e Francília passamos a nos revezar na redação da coluna. Sempre no anonimato, como convém a certos personagens.

 

Foi um período mágico. Um experimento raro, desses que só a juventude do jornalismo permite. Em muitas ocasiões, tivemos de emular sentimentos de meninos e meninas em fases difíceis, às vezes transformadoras, às vezes perturbadoras. Não era fingimento; era escuta atenta. Um exercício de empatia que deixava marcas.

 

Agora, começo a transcrever por aqui alguns dos textos que assinei como Platão. Inicio pegando mais uma vez carona no tema Os Paralamas do Sucesso – no último sábado reproduzi entrevista que a banda concedeu ao Galera em março de 1996 – para publicar a crônica “Lágrimas por ninguém”, datada de 14 de novembro de 1998.

 

Todos os textos que escrevi sob o pseudônimo de Platão foram atravessados por autoironia e recortes de música e poesia. Eu sentia essa necessidade de falar com os leitores usando uma certa musicalidade no meio — como se o texto fosse uma cantada tímida, um convite à escuta. Um jeito de tentar ser um deles. E, ao menos para mim, acho que funcionava.

 

“Lágrimas por ninguém” nasce de fragmentos da letra de Ela disse adeus (Herbert Vianna), canção incluída no álbum Hey na na. A crônica fala sobre relacionamentos que chegam ao fim com seus pequenos dramas – de antes e depois. Essa mesma edição do Galera traz ainda uma resenha do radialista Gilberto Mineiro (colaborador assíduo do caderno) sobre o lançamento do disco, como se tudo conspirasse para que aquela música continuasse ecoando, em prosa, na cabeça de quem lia.

 

Revisitar esses textos hoje é como abrir um caderno antigo e reconhecer, na caligrafia torta, alguém que a gente foi. Ou tentou ser. Platão era isso: uma tentativa honesta de diálogo. Um lance. E, quem sabe, era o bastante.

 

 

Lágrimas por ninguém

(publicado em 14 de novembro de 1998 – O Estado do Maranhão/Galera) 

 

Platão

 

Ela disse adeus e chorou – já sem nenhum sinal de amor. Pois é, assim como na música do Paralamas, alguém tem que chorar na vã tentativa de esboçar aquele tipo de sentimento quase-que-sacana. Outro amor se acabou. Como é difícil! O leitor das mal traçadas linhas aqui do Platãozinho a essa altura do campeonato já deve estar montando a seguinte equação: pé-na-bunda + chifre = dor de cotovelo.

 

Mas, cá pra nós, o que será pior: dizer adeus ou receber um reluzente cartão vermelho? Os mais afoitos responderão de imediato que um fora é sempre uma grande tragédia na vida de alguém. E é. Já vi neguinho baixar na emergência do São Domingos por causa de uma paixão mal resolvida. Não há fortaleza que não desmorone nessas horas. O cara perde o prumo e começa a descer o barranco do pânico. Só porque é triste o fim.

 

Mas a situação do Guto é diferente. Ela quis lhe pedir pra ficar – de nada ia adiantar. O meu chapa não sabia o que fazer diante da decisão de pôr fim a um rolo de quase quatro meses. Começou por onde quase todo mundo começa:

 

– Sabe, Cris, você é uma pessoa muito especial! (Se um dia alguém vier com esse início de papo pra cima de você, desconfie de cara, pois coisa boa não é. Essa história de pessoa especial é o equivalente ao gato que subiu no telhado. É morte na certa!). Pois é, mas Guto tentou ser sutil: – A nossa amizade é algo inabalável (outra treta que não merece muito crédito é essa conversa de amizade. Fuja desses “amigos”!). E continuou tentando dizer à Cris que tudo havia acabado, só que não conseguia chegar ao ponto: – Você merece coisa melhor na vida (pelamordedeus, isso é ridículo! É como se ele fosse o cara mais indicado do mundo pra apontar o caminho ideal a ser seguido pela mina. Vê se pode!). E fechou o diálogo com a batida frase: – A gente precisa dar um tempo para avaliar melhor os nossos sentimentos (Guto não precisava ser tão piegas, mas foi). O clichê ensaiado por ele provocou uma hecatombe no coração de Cris.

 

Quis lhe prometer melhorar – e quem iria acreditar? Cris tentou. Guto só não teve habilidade para conduzir a conversa final, mas uma coisa era certa: ele tava pra lá de decidido. Mais uma vez a lágrima e a impressão de que tudo não passou de um sonho. Cris – que nos momentos mais difíceis ofereceu abrigo nuclear a Guto – sentiu-se usada. Putz, a pior parte! Ele não precisa mais de você – sempre a última a saber.

 

Claro que é phoda ser esnobado, colocado pra escanteio – principalmente se tiver uma terceira pessoa na jogada. É uma verdadeira nóia. Só que a vida, maninho, segue.

 

Chato também é o outro lado da moeda. Justificar, explicar, não magoar... E uma porrada de coisas, sabe! É deselegante acabar um relacionamento. Mas, assim como as músicas, os romances tocam as pessoas – e passam! Senão não seriam romances.

 

 

Paralamas do pop

(publicado em 14 de novembro de 1998 – O Estado do Maranhão/Galera)

 

Gilberto Mineiro

 

Inaugurando uma nova forma de trabalhar, com o produtor Chico Neves, Os Paralamas do Sucesso fazem em Hey na na seu trabalho mais objetivo em termos musicais. Para os caras, trabalhar no minúsculo estúdio do produtor teve uma grande vantagem, apesar do espaço limitado e da tecnologia vintage: foi “da hora” ficar bem juntinho da música. Os três num estúdio – sem técnicos, operadores, auxiliares, etc. –, somente com o produtor e seu computador, deram origem a um disco no mínimo diferente.


 

Puxado pelo single Ela disse adeus nas FMs, Hey na na decola com vendagens iniciais que já garantem ao trio um novo disco de platina. E se o mercadão está nas mãos, o disco não faz feio com músicas rápidas, batidas eletrônicas e aquelas fusões características da rapeize da banda. Por sempre andar, a primeira faixa do disco, denuncia de cara as mudanças sonoras de Chico Neves. Os instrumentos vão ficando mais claros, com a guitarra mais na cara que os sopros e os vocais super cristalinos.

 

Depois da queda o coice, a segunda faixa (que é o single na Argentina, onde o disco tem cinco versões em castelhano), abre com diálogos de estúdio e segue com a mesma sonoridade. O refrão, que rendeu o título do álbum – no melhor estilo De do do do, de da da Da (Police) – tem tudo pra pegar... talvez até mais na Argentina do que aqui.

 

Muito legal o trabalho de Dado Villa-Lobos nas músicas Brasília 5:31O amor não sabe esperar e Um dia em Provença, digno de registro. 

 

A tônica do maracatu – O amor não sabe esperar, aliás, revela-se um reggae no melhor estilo Cidade Negra e logo se transforma no novo hit da banda (é tema de novela e tudo), solidificado pelo quase-dueto de Herbert com Marisa Monte. Chico Science desejava que Herbert fizesse a versão de uma de suas composições para o inglês – já tinha o título de Scream poetry, mas faltava virar letra. Vianna trouxe para o estúdio o maracatu atômico Jorge Mautner e utilizou a letra original de uma música que fez com o Bi Ribeiro.

 

O disco fecha com duas músicas descoladas. Primeiramente, Um dia em Provença (parceria de Herbert com Thedy Correa, líder do grupo gaúcho Nenhum de Nós); e depois Santorini blues, faixa título do recente solo acústico de Herbert. Grande citação aos Beach Boys, com direito a capela y otras cositas más.

 

O próximo trabalho dos Paralamas será tirado de um unplugged da MTV. Até lá, com a popularização de Eu sei – nas simultâneas interpretações de Paulinho Moska e Pato Fu – ninguém garante que a versão dos Paralamas vá sobreviver. Mesmo com bela levada beatle e o fechamento de Eight days a week. Na highway do mercado pop, os Paralamas vão cumprindo o seu papel de referência à longevidade na cena.

Um comentário:

  1. Que delícia de memória. Bons tempos vividos na redação de O Estado do Maranhão; bons tempos de aprendizados e descobertas de novas formas de expressão e compartilhamentos. Vida real, ainda que sob pseudônimo.

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