segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Galera (capítulo 2) - Daphne faz rock com sotaque nem wave

(texto publicado no jornal O Estado do Maranhão em 23 de março de 1996)

Félix Alberto Lima

Foi em 1988 que tudo começou. Era uma brincadeira de garotos estudantes. Paulo tinha um teclado e Alexander, um violão. Começaram a fazer ruídos na garagem da casa de Paulo. Mas faltava alguma coisa. Descolaram uma bateria e chamaram Renato. Depois veio César com o baixo e a panaceia estava formada. Juntaram tudo e passaram a animar festinhas com covers dos Beatles, Pink Floyd, Legião Urbana e mais um magote de bandas que infernizaram o cenário do pop brasileiro na década passada.



Com essa formação, a Daphne ficou até o início de 1990. César e Renato deixaram o barco e foram substituídos por Otávio e Cacique de New York (isso mesmo!). Mas as mudanças não pararam por aí. Em 1993, o Cacique deixa a tribo para dar lugar a Nuna. Eis então que surge a formação atual da banda: Paulo Pellegrini no teclado; Alexander de Carvalho no vocal e guitarra; Otávio Parga no baixo; e Nuna Gomes na bateria. Ainda em 1993 a Daphne gravou uma demo e as músicas “Os sonhos não podem sonhar” e “Metade de quê?” chegaram a ser executadas nas rádios Mirante e Universidade.

Depois de mais de seis anos de estrada, os meninos da banda acharam por bem fazer o registro do trabalho em disco. Mas nem sempre a história das produções de disco independente, em São Luís, tem esse enredo. Algumas bandinhas fuleiras mal começam a fazer show em botecos e já se acham em condições de “gravar” – saem por aí babando patrocínios com pose de artistas. Muitos não sabem ainda – e fazem questão de não saber – que música é coisa séria e requer conhecimento, estudo e, sobretudo, harmonia.

“Partimos do nada para fazer esse disco. Fizemos de tudo no trabalho, da criação das músicas à montagem final da capa”, revela Alexander de Carvalho, 22. O CD “Semblantes” pode ser considerado o primeiro disco gravado por uma banda de rock em São Luís. Gravado em 1994 no estúdio Sonata, da Cohama, “Semblantes” chega às lojas com o apoio de algumas empresas e também com recursos dos próprios caras da banda. “Investimos dinheiro do nosso bolso. Ninguém vive da banda. Todo mundo aqui estuda ou trabalha. E o nosso objetivo é mostrar uma música de qualidade e de fácil assimilação. Quem sabe a ideia não abre as portas para outras bandas de rock?”, conta Alexander.

O CD deixa claro que as influências da banda vêm do Pink Floyd, U2, Legião Urbana, Engenheiros do Hawaí, Barão Vermelho e Paralamas do Sucesso. Os integrantes da Daphne beberam no pote da new wave e gravaram 12 músicas com um toque de inspiração do rock progressivo. “A nossa música, embora fuja do rótulo de comercial, é de fácil digestão”, reconhece Alexander. Sem muitas pretensões, “Semblantes” é uma espécie de janela para outras investidas desse tipo por parte da banda. “O disco foi gravado há quase dois anos. Hoje já evoluímos bastante em termos de musicalidade. Já tocamos bem melhor. Mas o disco é o produto que temos. E quem ouvir vai gostar”, afirma Paulo Pellegrini, 21.

O CD abre com a faixa-título, uma balada com misto de RPM e Legião Urbana. A ingenuidade dos versos de “Semblantes” (a música) soa como uma cantiga de ninar: “Mas fez doce o meu cantar/ Para brincar de viver e chorar então / Mas para que deformar/ Meu semblante com mais ilusão”. Depois vem “Clamor ao vento”, a música que tem tudo para pegar nas rádios e cair no gosto da moçada. Nela fica bem claro que o espírito dos pampas Engenheiros está presente. “Versos antigos” tem uma abertura que cansa. O teclado tem inspiração gospel e a faixa pode servir para animar qualquer reunião dos carismáticos.

Em “Tão poucas palavras” a balada dos meninos lembra um som que vem de Brasília. “Algozes do povo” (levada titânica) e “Contrastes” são as músicas engajadas do disco. Refletem um pouco do mundo universitário, que é o público mais fiel da banda. “Contrastes”, entretanto, é o som mais ousado da Daphne, com o peso das guitarras de Alexander e Otávio. É difícil não lembrar do Capital Inicial em “Metade de quê?”. As outras músicas mantêm o traço característico da Daphne e não chegam a surpreender.

“A ideia agora é fazer shows para divulgar o disco. Na verdade serão vários pré-lançamentos”, anuncia Paulo. Os shows da Daphne podem acontecer em qualquer lugar, dos bares e boates às calouradas universitárias. O CD “Semblantes” deve ser divulgado em rádios de Brasília, Manaus, São Paulo e Teresina. “Tecnicamente, a produção ainda precisa ser melhorada para conquistar o mercado do centro-sul, que é mais exigente”, reconhece Paulo Pellegrini. Ele garante que o grande barato do disco, que chega ao mercado com mil cópias, é mostrar que aqui em São Luís existe uma cultura roqueira.

CD "Semblantes", faixa por faixa

1 - Semblantes (Otávio Parga)
2 - Clamor ao vento (Otávio Parga)
3 - Versos Antigos (Paulo Pelegrini/Cacique de New York)
4 - Choro Inocente (Alexander de Carvalho)
5 - Tão poucas palavras (Otávio Parga)
6 - Contrastes (Alexander de Carvalho/Cacique de New York)
7 - Os sonhos não podem sonhar (Paulo Pellegrini/Cacique de New York)
8 - Algozes do povo (Paulo Pellegrini/Alexander de Carvalho)
9 - Acreditar (Paulo Pellegrini/Alexander de Carvalho)
10 - A única ciranda (Paulo Pellegrini)
11 - Metade de quê? (Paulo Pellegrini)
12 - O que falar? (Alexander de Carvalho)

Um comentário:

  1. Boa tarde, Félix. O Neto Borges me falou para entrar em contato com você. Sou assistente de produção da Gaya Filmes. Somos produtora de conteúdo e entretenimento de Brasília e estamos em fase de produção do nosso mais recente projeto, a série documental BRASIL MIGRANTE, de 13 episódios de 52 minutos cada. Esta série conta com o patrocínio da ANCINE e da TV Brasil e será exibida em todos os canais públicos de tv no Brasil, totalizando mais de 200. Trata-se de produto audiovisual de cunho cultural e educativo, sem qualquer fim lucrativo.

    Um dos episódios da série irá falar de Eliésio Monteiro da Silva, natural de Santa Cruz, Maranhão, em 1953.
    Eliésio conta como foi a saga da mudança de sua família, saindo do Maranhão para Rondônia.
    Na longa viagem da família de Eliésio, a pé e em lombo de burro entre o local de nascimento de nosso personagem e a cidade de Imperatriz, eles dormiram algumas noites em áreas indígenas. Ele não diz qual é a etnia desses índios, mas é quase certo que se trata dos Guajajaras, que são imensa maioria da população indígena nesse trecho do Maranhão.

    Portanto, será de grande importância a inclusão de imagens em vídeo ou fotografias do povo Guajajaras e o local onde vivem.
    As imagens seriam da década de 1960 ou o mais próximo dessa época.

    Você teria alguma imagem de arquivo que poderia disponibilizar? Ou saberia me indicar alguém que pode ter essas imagens?

    Precisamos das imagens com a maior brevidade possível, desde já agradeço e me ponho à disposição para eventuais informações adicionais necessárias e aguardo contato.

    karina@gayafilmes.com

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