segunda-feira, 29 de abril de 2019

Elegante sinfonia de "Filarmônica para fones de ouvido"



Maristela Sena
Jornalista

Se é pra falar do tempo contínuo, lembro que um intervalo de quatro anos separa os livros de poesia O que me importa tanto agora e Filarmônica para fones de ouvido do jornalista e escritor, Félix Alberto Lima. Pergunto-me se somos os mesmos. Sem me preocupar com respostas percebo que estamos mais tristes do que um dia pudemos ser. E talvez por isso a poesia é e esteja aqui. “Uma página em branco é tudo o que tenho agora” para “o poema raivoso hoje em dia é bem mais elegante”. Arrancando imagens do mundo estéril, a letra generosa nos preenche a falta no pretérito, no hoje e naquilo que chega já amanhã cedinho. É esse ofertório de conforto para almas no tempo de ruptura, violências e autoritarismo, entre assombrações e a réstia de esperança no dia novo e bom, que transformamos outra vez em passado.

A página aberta informa a estação “da luz negra” com um pedido de “desacelera a vida”. A literatura é invenção que pede não necessariamente o tempo, mas a engrenagem da hora que passa e pertence ao homem que ainda vê “o menino galopando o jumentinho”, àquele que escreve e lê o verbo-verso sem ter de provar nada da letra criada e refeita: “amanhã estarei à frente do meu tempo. como um maquinista”.

Filarmônica contém dez estações, passagem sugestiva para “além das paredes que ouvem e transpiram” ou que ousam conter imaginação. “Debaixo da minha pele há um só palito de fósforo cambaleando prestes a correr o risco da alumiação”. Porque palavra acesa incensa a noite escura dos homens. “Vamos ver a lancha nova que do céu caiu do mar” e “cruzaremos o sertão que há dentro dos peixes”.

Félix Alberto não está sozinho ao construir a palavra. O grego Aristóteles nos ensina que o fazer poesia surge da recriação da realidade na obra literária. Não à toa dizemos que a vida imita a arte em um movimento cíclico de espelhamento. O historiador Henrique Borralho explica essa relação coletiva em que estão em jogo a realidade, o pensamento e a linguagem. “Para Aristóteles, o processo contínuo de imitar, leva a um processo de inventar. A invenção se dá pela imitação, logo a poesia se encarregaria de reverberar aquilo que universalmente é sentido por homens e mulheres, quer dizer, independentemente do lugar ou da situação histórica da humanidade, tudo o que for preceituado por estes pode ser intuído, transformado em linguagem poética”.

A ordem é que habitemos poeticamente o mundo, então vamos ao encontro de Filarmônica. A obra é uma publicação da editora carioca 7Letras, formada por 80 poemas e 116 páginas.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Filarmônica para fones de ouvido



Joãozinho Ribeiro
Poeta e compositor

Na antessala do dentista ou do urologista todo poeta sempre treme, ou se prepara pra ser um fingidor posteriormente, como profetizava o Pessoa. Estava numa destas situações, numa tarde do fevereiro último, levando comigo um exemplar do “Filarmônica para fones de ouvido”, que havia recebido de presente das mãos do próprio autor pela manhã, com direito a autógrafo e um pouco de cumplicidade compartilhada com o ineditismo da obra.

Com a mente impregnada de uma música do parceiro Zeca Baleiro, intitulada “Muzak”, preenchia o tempo de espera na antessala com a leitura dos versos cometidos pelo poeta Félix Alberto Lima. Àquelas alturas, tentava entender a sutileza de “estou aqui em Arari em Nova Iorque...”, da música. Não consegui me descolar da leitura, materializada numa espécie de decálogo, que o poeta arquitetou como divisão, para conduzir os leitores incautos, ou nem tanto, para um território em que a palavra sempre tem razão – o da linguagem dos sentidos.
Iniciando com DA LUZ NEGRA até o encerramento, com DO LINHO QUE HÁ NA PALAVRA. Entre o ponto de partida e aquele que deveria ser o de chegada não há tréguas poéticas, o que há são açoites, como na provocação inicial de AMOR DE NUNCA MAIS:

“O que vai durar não é o capricho/mas a pirotecnia/da paixão destrambelhada/um beijo da boca pra fora/sem gozo ou estardalhaço”

Açoites que não chegam a ferir, mas que parecem lamber algumas cicatrizes da existência comum, assim como um cimento a colar os caquinhos das paixões ensandecidas de outrora; substituídas, hoje, pela mansidão manifesta na contemplação de um cais, acariciado pela sinfonia das vagas errantes.

A palavra que nos apedreja também comete inusitados afagos na poética de Félix, e distribui afetos, a barganhar alguma peraltice de meninos marotos, cantarolando CANTIGA DE RODA e de rodar as águas da memória:

“Ovo não tem pelo/alma não tem pena/aqui nesse pé de página/o macaco pula/e a pomba gira/é a ciranda do poema”

É da memória, talvez de uma gaveta entreaberta, esquecida no tempo, com cheiro das águas de infância e saudades, que o poeta resgata e costura uma das paisagens mais bonitas em MEMÓRIA AO REDOR DA CASA...

“Há um velho/na cadeira de balanço,/uma coleção de relógios/tristes sobre a mesa da sala/e o tempo fustigando/samambaias/suspensas nos cobogós”

O elemento vazado, pra efeito de decoração e carinho das samambaias, parece costurar também na tarde que frequento, na antessala do consultório médico, todas as possibilidades que a poesia ainda é capaz de introduzir em nossas almas céticas e desencantadas. Assim como atesta a existência de “...um ponto cego entre um ouvido e outro”, extraído DO OCO DO MUNDO.

De Arari a Nova Iorque, o Muzak da antessala agora se traduz em outras geografias e distâncias poéticas, percorridas pelo autor; de Barra do Corda a São Luís; de São Luís para o mundo, levando consigo toda a infinitude das estrofes, e a finitude da passagem por esta breve estação terrena. Na conversa DE ÁGUA E SAL tenta fixar uma espécie de pacto com os elementos, e se aventura nos desenhos, por ONDE CAMINHA O SOL À TARDE...

“abre uma página em branco na areia/percebe a imensidão de lamento no longo apito das/embarcações”

Do ofício de viver e dos seus diversificados vícios, difícil encontrar exatidão geométrica nas escolas literárias para enquadrar estilo ou métrica das construções concentradas no canteiro desta obra inacabada denominada “Filarmônica para fones de ouvido”. Em alguns momentos nos insere em sonetos, como em TUDO ERA QUIMERA...

“essa canção que toca no rádio agora/bem que poderia falar do nosso amor/do primeiro bilhete deixado no guardanapo/molhado pela chuva de tanto desejo”

Tarefa ingrata essa reservada a um poeta, falar da poesia e de uma determinada obra de um outro poeta, desafiando os mistérios e os limites, dos quais Goethe já nos alertava, ao descrever sua relação com a sua própria elaboração criativa: “O início e o fim de toda atividade literária é a reprodução do mundo que me cerca por meio do mundo que está dentro de mim.”

A tarde vai trucidando as horas, e eu vou mergulhando num Rio Corda imaginário, na inútil tentativa de decifrar este mundo reproduzido pelos versos do poeta Félix Alberto Lima, provocando as nascentes que estão dentro de mim e dele, como O TEMPO DEPOIS DO ALUVIÃO...

“a vida era quase um bolero/nos arrebóis dos olhos do menino/que via estrelas correrem sem pressa/no céu do seu primeiro ano ginasial”

No livro que está exposto à minha frente, diante dos meus olhos de poeta, os versos irrompem como as águas de uma barragem recém rompida e preenche todos os espaços da antessala, fazendo com que fiquem despercebidos todos os objetos e pessoas que estão compartilhando o lugar comigo.

A chuva castiga lá fora, inundando as ruas, as pedras e as ladeiras da cidade, anunciando os rigores de um inverno, tempo propício para a embriaguez de versos, tal como avisa o poema RIBAMARES...

“chove a essa hora da manhã/na rua duvivier/chove em volta do apartamento/chove dentro da sala/no vão de uma calçada qualquer/em são Luís”

Estamos no ano de 2019, que carrega consigo signos indecifráveis e sombrios, a poesia se faz mais do que necessária para expurgar milhões de demônios que regateiam as almas dos poetas. Com todo o afeto das canções, que por vezes nos separam e mais generosamente nos unem, o poeta se revela em MEU LADO ALADO, com a precisão de um menino, armado de baladeira pra não deixar de ser de aqui e de agora, e de todos os tempos repassados da memória...

“sou mais passarinho/que cometa/vivo entre coisas/e isso me basta/sou da terra e me alimento das águas/e do mato/rasgo o céu e me farto/na imensidão”

Com certeza, nem moderno nem eterno, apesar de o terem declarado imortal, o poeta seguirá combinando essas pequenas diabruras poéticas, do seu quintal ludovicense para as avenidas do universo, sem direito a um último BACKUP...

“não sou de vergar./se for preciso/eu ponho/o meu poema/na nuvem,/engulo teu sorriso/de mil likes/encomendados/e sumo por aí.../pode apostar./e aí eu quero ver:/sofrer/será teu próximo post”.

terça-feira, 23 de abril de 2019



A afinação poética de Félix Alberto Lima

José Neres
Professor, escritor, membro da AML e da Sobrames

Reconhecido como uma das boas referências nos campos do jornalismo, da publicidade e da pesquisa, o escritor e acadêmico Félix Alberto Lima, nos últimos anos, tem mostrado para o público um outro talento que, embora cultivado há bastante tempo, era mais conhecido entre seus familiares e seus círculos de amizade: o dom para a Poesia.

Em 2015, ele publicou o livro O que importa agora tanto, que foi muito bem recebido pelo público em geral e mereceu alguns elogiosos comentários por parte da crítica especializada. Como bons textos acabam atraindo bons leitores, o contato com os poemas de Félix Alberto Lima acabou criando nas pessoas a expectativa sobre possíveis outras publicações no âmbito da Poesia. Para felicidade dos amantes das boas letras, o poeta acaba de brindar seus leitores com a chegada do livro Filarmônica para fones de ouvido (Editora 7 Letras, 2018, 114 páginas).

Dividido em dez partes temáticas que se completam (1. Da luz negra, 2. Do oco do mundo, 3. Dos livros que falam, 4. Do fio da navalha, 5. Do retrato em sépia, 6. De agora em diante, 7. Do rito de passagem, 8. De água e sal, 9. Do mar e ilha, 10. Do linho que há nas palavras), o livro conta também com o prefácio do poeta e crítico literário Tom Farias e traz em seu bojo um arranjo harmônico entre a forma, o ritmo e o conteúdo de cada um dos textos. Não se trata de uma coletânea de poemas soltos que se enfeixam em um livro que o autor deseja publicar por publicar, mas sim de um trabalho minuciosamente articulado em busca de um conjunto imagético e melódico que casasse com cada um dos ritmos inerentes à grande partitura poética que é o próprio livro.

Cada uma das dez partes do livro é marcada por uma melodia própria e em cada bloco de poemas o autor faz um passeio pelos diversos matizes da musicalidade, indo da toada à cantiga e passando por blues, ópera, jazz, rock e muitos outros ritmos, mas isso não é por acaso. Essas escolhas vão muito além da simples variedade lexical e citação de tendências e gostos. Em cada ritmo explorado nos poemas é possível perceber as angústias, sofrimentos, apreensões, dúvidas e acasos que cercam o eu lírico, que se multiplica em vários e ao mesmo tempo torna a expressão do uno, de todos os seres humanos que se bifurcam nas encruzilhadas dos problemas pessoas que são compartilhados para (e por) todos nós.

No texto que dá nome ao livro, o poeta sintetiza parte das angústias humanas e chama a atenção para um ser que mergulha em si e em diversas músicas selecionadas de acordo com seu estado de espírito, servindo também como uma espécie de fuga da realidade em meio a um mundo pós-moderno que muito cobra e pouco oferece. Essa mesma sensação de vazio existencial pode ser sentida em diversos outros poemas do autor. Nos versos de Félix Alberto Lima é possível sentir tanto um pouco do incômodo gauche drummondiano quanto o desejo de fuga emanado pela Pasárgada idealizada por Manuel Bandeira. Nos versos desse jovem poeta maranhense é possível também sentir as brisas de Macondo, de Antares e de Comala e de Santa Maria e de tantas outras cidades literariamente imaginadas e edificadas em monumentos verbais e que se solidificam em versos dedicados à terra natal.

Essa profusão de temas ocorre por que o poeta optou por mesclar em seu livro variadas nuances que percorrem desde o mundo suprametalinguístico de um poema como Hoje não é todo dia (p. 39) até o contundente teor realista de alguém que “aprendeu a mentir juntando sílabas / e nunca mais parou” (p.20), com espaço para “tirar os fones de ouvido e escutar a paisagem” (p. 88, adaptado) ou mesmo para o eu lírico sentir-se como “um refugiado de deus” (p. 89). Os seja, nesse livro, o escritor se preocupa tanto com esfera metafísica do Ser quanto com as questões sociais, uma vez que um Ser acaba sendo o somatório infinito de outros seres e olhares.

Não importando qual seja o ritmo adotado, o que fica claro na poética de Félix Alberto Lima é que o Ser Humano (não como matéria, mas sim como essência) é o que realmente importa. Independentemente do Tropel de cores (p. 110), de uma Febre terçã (p. 81), de Uma noite longa (p. 30) ou mesmo do Juízo final (p.22), é o lado humano que prevalece nas páginas desse livro, e mesmo diante da Ânsia de um homem comum (p. 37) e até mesmo da Compaixão cívica (p. 107), tudo pode ser visto como um grande Ensaio sobre a irrelevância (p. 66) das coisas passageiras.

Filarmônica para fones de ouvido é um livro que pode ser lido por pessoas de todas as idades, independentemente das tendências sociais, políticas, religiosas ou musicais. Em cada página fica a certeza de que do olhar atento do poeta “nada passa despercebido” (p.37) e que, embora haja “gemidos que não cabem num soneto” (p. 102), os versos de qualidade sobrevivem para alegria de olhos e ouvidos ávidos da indelével suavidade da Poesia.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Mapas para utopias



Jozias Benedicto*

Frente às crises e desafios de nosso tempo, a poesia ainda representa uma das formas de resistência, uma nave que tira o homem da aridez do dia a dia para transportá-lo para novos mundos, para a possibilidade de viver e cantar utopias. Penso nesta palavra, resistência, ao ler – depois de mais um dia bombardeado pela algazarra das redes sociais – os livros recém lançados de dois poetas maranhenses, “A sagração dos lobos”, de Salgado Maranhão, e “Filarmônica para fones de ouvido”, de Félix Alberto Lima, ambos publicados, com trabalhos gráficos primorosos, pela editora 7Letras (Rio).

Félix Alberto Lima é membro da Academia Maranhense de Letras, e este livro vem se juntar ao “O que me importa agora tanto” (7Letras, 2015), também de poemas. Jornalista e escritor, com bem sucedidas incursões na música e em cinema, Félix tece, com os versos livres e melódicos de seu novo livro, caminhos que passeiam por mares e pela cidade antiga e eterna (“o azulejo velho / na parede / da rua portugal”), por trilhas urbanas e periferias do terceiro mundo, por paisagens áridas e pelos sentimentos humanos (“essa canção que toca no rádio agora / bem que poderia falar do nosso amor”). Na “ciranda do poema”, em cada janela ou cada praia alguém nos espreita – “um refugiado de deus”. É impossível deixar de caminhar com o poeta por estas passagens; sua voz de “o último junkie do ocidente” nos envolve e nos exorta a querer ser também “aquele menino / que vendeu carvão e alegria / no desvão do tempo que embrutece”.

“A sagração dos lobos”, do poeta Salgado Maranhão, vem se somar à sua extensa obra literária, consagrada através de prêmios como o Jabuti (por “Mural dos ventos”, em 1999, e “Ópera de nãos”, em 2016) e o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras (“A cor da palavra”, em 2011). Neste livro mais recente, o poeta toma como norte e epígrafe uma lenda dos índios Cherokee que nos coloca a questão: que lobo dentro de nós vamos alimentar? – o animal interno do medo, da cólera, da mentira e de outros sentimentos negativos – ou o da paz, da fé, do amor e das qualidades positivas? Esta interrogação perpassa as belas imagens dos poemas – que nos contam de “mamíferos / que colidem com o pó”, de um “rio de açúcares / e vocábulos”, de comer “flores de pólvoras / e constelações de sílabas” – e para a qual não há uma resposta única e dogmática. Como uma obra aberta, o livro nos indica um caminho possível, a transcendência, ao se encerrar com “o poema pede silêncio / para sonhar”.

Somente com o sonho – e a arte, sua irmã – podemos calar esta barulheira do quotidiano deste século que mal atingiu a maioridade e já se tornou velho e, transformando a resistência em resiliência, olhando firme para o futuro, voltar a construir nossas utopias.

* Escritor e artista visual

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Quando a poesia é música clássica e popular

Jorge Abreu



Do título ao último poema, o livro Filarmônica para fones de ouvido, de Félix Alberto Lima, é instigante e encantador. Em tempos de extremismo em todas as esferas, e do que costumo chamar de imbecilidade generalizada que assola o planeta, Félix Alberto nos dá lições de como a simplicidade é, realmente, o último grau da sofisticação, como muito bem a definiu o gênio Leonardo da Vinci. Uma simplicidade que só se consegue através de muito trabalho, de acordo com a sempre profunda e visceral Clarice Lispector.

Na sinfonia clássica e mais que contemporânea e popular da filarmônica de Félix Alberto Lima temos a dor da solidão do provável suicida (“Uma noite longa”, pag. 30), e a confissão do contentamento do autor, que se nega ao poema raivoso, mesmo sendo ele, hoje em dia, bem mais elegante (“Destempo”, pag. 43).

Como o título sugere, é um livro musical, esse do Félix Alberto. Que vai do mais puro rock and roll (“Back up”, pag. 47) à “Cantiga de roda”, título do curto e ousado poema da página 44. Ao longo da sua leitura, confesso que me senti como se ouvisse de Bach a Beethoven, passando por Rolling Stones e Zeca Baleiro.

Mas, sem spoiler dos poemas, eu digo que Filarmônica para fones de ouvido vai mais além: nele tem lembranças de infância e juventude que remetem à poética dos inevitáveis Ferreira Gullar e Nauro Machado; e à grandiosidade de Aluísio de Azevedo e José Chagas (“Cartografia dos mares de dentro”, “Resinas resignadas”, “Insulano” e “Ribamares”).

Impossível não lembrar de Antônio Carlos Jobim e Machado de Assis ao ler/ouvir a potente e delicada Filarmónica de Félix Alberto Lima. Imprescindível ressaltar que o livro tem uma pegada de crônica de costumes que considero sensacional (“A mesa quando vai ser posta”, pag. 33; e “Ânsia de um homem comum”, pag. 37, para ficar em apenas dois poemas).

É um livro para ser lido de uma vez só, esse do Félix Alberto Lima. De preferência no silêncio de uma madrugada pós noite de chuva, como eu o fiz. Foi assim que mergulhei na identidade do poeta, no cerne da sua escrita, que me levou de Barra do Corda a São Luís do Maranhão, do Rio de Janeiro a Nova York, embriagado pela poesia de um autor em sua plenitude. Um poeta consciente de que a poesia é para provocar. É para gerar sentimentos e emoções. Fazer o leitor pensar e viajar. Eu senti, e fiz tudo isso, meu caro Félix Alberto Lima. E tenho mais é que dizer: muito obrigado, poeta! Todos os meus aplausos à tua Filarmônica para fones de ouvido!

[Jorge Abreu, 15 de janeiro de 2019]

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A ruptura e o medo



A crise econômica de 2008 nos Estados Unidos, que provocou impactos na Europa e em outros pontos do planeta, desencadeou uma onda de manifestações em várias partes do mundo. Muitas delas foram ativadas pelas redes sociais e replicadas via smartphones, numa espécie de levante transnacional – embora cada uma com características e motivações peculiares.

Num intervalo de cinco anos, mais precisamente entre 2010 e 2015, essas manifestações mudaram radicalmente o panorama cultural e político de alguns países. A primavera digital deu origem a um novo padrão de grupo, a comunidade virtual, habitante de um território imaginário, próprio do ambiente de rede.

Sem fronteiras, a comunicação sem fio uniu desconhecidos e conectou, com acentuada velocidade, projetos de cidadãos inconformados – ou com governos alinhados às elites financeiras, responsáveis diretamente pela crise que ainda perdura em algum canto, ou com o estado repressor.

As pautas represadas ganharam eco e se multiplicaram. O mundo mudou naqueles cinco anos. Os efeitos políticos podem ser medidos ainda hoje em diferentes países. Nos Estados Unidos, no mundo árabe, na Europa e no Brasil.

O fim das fronteiras físicas abriu caminhos para a invisibilidade, o anonimato da informação, a realidade imaterial e a famigerada pós-verdade. Em tese, o indivíduo imaginou-se menos vigiado e patrulhado pelo estado para experimentar uma nova liberdade de comunicação no espaço virtual.

A partir das atitudes individuais, até então limitadas a um contexto regional, emergiram os ativistas digitais e, com eles, encorajados por ações coletivas, nasceu o fim do medo. Os movimentos sociais de outrora desvaneceram-se na poeira das novas mídias. Perderam a cor partidária. Deixaram de ser de esquerda, de direita ou de centro.

Algumas lideranças políticas foram ungidas ao poder por estarem mais afinadas com as reivindicações desses novos movimentos e com as pautas do ambiente de rede, estimuladas por ideias às vezes vagas sobre economia (números inconsistentes, ausência de fontes confiáveis, estatísticas confusas) e política (quase todos os políticos e partidos jogados na vala comum da corrupção).

No caso específico do Brasil, os movimentos sociais que brotaram no calor das jornadas de maio e junho de 2013, influenciados pelas insurreições mundo afora, não duraram uma estação. Mas ainda perduram batendo panelas no oco das redes sociais. Multiplicaram-se até, ainda que desconfigurados. E resultaram no afastamento da então presidente Dilma Rousseff, em 2016, e na eleição de Jair Bolsonaro, em 2018.

É esse enigmático rizoma, fundamentado talvez nas idiossincrasias dos novos tempos, que, há mais de dez anos, os estudos do sociólogo espanhol Manuel Castells vêm tentando desvendar. Em 2013, ele reuniu parte de sua densa pesquisa no livro Redes de indignação e esperança.

Agora, ele publica Ruptura, livro complementar, de leitura indispensável, que reflete sobre os efeitos dos movimentos políticos potencializados pelas redes sociais no mundo e o possível desmantelamento da democracia liberal. Castells sentencia o fim das instituições políticas como intermediárias entre governantes e governados.

O fim do medo – medo da corrupção, do desemprego, da violência – enseja o fim dos partidos, “um colapso gradual do atual modelo de representação”, que tende a forjar a ideia de uma “democracia real”. A crise política relatada por Castells tem uma dimensão global. Mas, seguramente, é o Brasil um complexo estudo de caso.

O presidente eleito Jair Bolsonaro dá sinais de que governará abrindo diálogo diretamente com sua plateia de seguidores digitais, “sem a intermediação” do Congresso, já condenado ao extermínio por ativistas da rede.

E o Judiciário, cuja alegoria preferencial na teia da rede é o STF, virou alvo de pilhéria nas mensagens compartilhadas diariamente por esses agentes diretos da ruptura.

Há uma batalha às cegas batendo à porta. E, por enquanto, ninguém sabe sequer como ela vai começar.

Um pensador da sociedade em rede

O espanhol Manuel Castells é considerado um dos principais pensadores do mundo. Sociólogo, foi professor da Universidade de Paris e tem vasto estudo sobre movimentos sociais, sociedade em rede e a influência das novas tecnologias no cotidiano das pessoas. Há alguns anos, Castells investiga os efeitos da informação sobre a economia, a cultura, a vida política e a sociedade.

Manuel Castells é professor emérito da Universidade da Califórnia, membro da Academia Americana de Ciências Políticas e Sociais, da Academia Britânica, da Real Academia Espanhola e tem mais de 25 livros já publicados.

Meu primeiro contato com as ideias de Castells veio com a leitura de Redes de indignação e esperança. O livro, originalmente publicado em espanhol em 2012, ganhou versão em português no ano seguinte e um posfácio dedicado à análise das manifestações ocorridas no Brasil naquele período.

Mais recentemente, nos seminários de investigação das cadeiras de mestrado em Relações Internacionais, do IURJ/Universidade Autônoma de Lisboa, tive acesso mais direto à obra de Manuel Castells.

domingo, 9 de dezembro de 2018

A cidade esquecida



Palmira, Menphis, Cartago, Pompeia, Hattusa e Petra são alguns exemplos de cidades esquecidas ao longo da História – ou porque foram abandonadas, saqueadas, ou porque ruíram em disputas políticas e guerras. Alcântara, no Maranhão, é o arquétipo de monumento no Brasil solenemente esquecido pelo establishment. Apesar de invisível aos olhos do poder, ignorada, a cidade, desde meados dos anos 1980, abriga um sítio para experiências espaciais que frequenta, com inquieta regularidade, o noticiário nacional e internacional.

A pauta do momento é o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas que o governo brasileiro ensaia retomar com os Estados Unidos a pretexto da comercialização de satélites de fabricação norte-americana pelo Centro de Lançamento de Alcântara (CLA). Parceria semelhante foi assinada entre os dois países em 18 abril de 2000, mas em 2002 o Congresso brasileiro rejeitou-a alegando ameaça à soberania nacional.

Pelo acordo de 2000, conforme relatório técnico dos parlamentares, os Estados Unidos teriam “o direito” de controlar áreas restritas dentro da base de Alcântara. Para entrar nessas áreas, qualquer brasileiro, inclusive o presidente da República, dependeria de autorização prévia dos norte-americanos. E mais: o Brasil não poderia ter acesso aos contêineres de “equipamentos” desembarcados dos Estados Unidos.

Nem mesmo inspeções alfandegárias seriam permitidas. Os escombros de eventuais lançamentos fracassados não poderiam ser resgatados, estudados ou fotografados pelo governo brasileiro. Ou seja, pelo teor daquele acordo de salvaguardas, Alcântara, com sua localização estratégica, a 2º18' sul da linha do Equador, de frente para a África Ocidental, facilmente viraria um novo Porto das Pérolas.

As negociações foram suspensas, porém, quando, em 22 de agosto de 2003, uma grande explosão seguida de incêndio na plataforma de lançamento de Alcântara destruiu o foguete VLS-1 e provocou a morte de 21 técnicos civis envolvidos no programa espacial brasileiro.

Somente no ano passado o governo formalizou novo protocolo de intenções com os Estados Unidos para exploração da base maranhense. Em maio último, 15 anos após o acidente, os Estados Unidos retomaram as negociações para uso do CLA, em contraproposta enviada ao Palácio do Planalto. Após as eleições no Brasil, já houve acenos e prévias garantias do presidente eleito Jair Bolsonaro para a efetivação do acordo.

Alcântara não deu certo como cidade antiga. A aristocracia tombou falida e a cidade, com seus andrajos de pedra, casarões silenciosos e fantasmas indolentes, aguarda a visita de quem um dia ainda virá: ou o imperador de fancaria ou um astronauta de faiança ou um turista redentor.

Na Alcântara antiga os escombros gemem na rua da Amargura, idosos protegem a moleira na paisagem desenhada pelo sol intenso, quilombolas de Frechal resistem numa trincheira imaginária e mulheres cozem doces de espécie para transeuntes improváveis. Sob a terra cálida, velhos tupinambás velam o monumento à indiferença coletiva.

Como cidade do futuro, Alcântara ainda não acertou a rota. A parceria com os ucranianos no projeto Cyclone Space resultou em grande prejuízo financeiro ao programa espacial brasileiro e, em 2011, foi parar na teia internacional do WikiLeaks.

Alcântara tenta dar certo agora como o novo Eldorado para os americanos; feito uma Fênix que rapidamente se refaz das cinzas de um foguete; ou – quem sabe! – qual uma Troia e seu grande cavalo escondido entre as ruínas da praça, o presente majestoso pronto a nos surpreender.

Quem, ao fim da próxima corrida espacial, vai lembrar de Alcântara? Talvez uma caixeira branca, de olhos azuis, com seu tarol de ladainhas ao Divino. Em inglês.

(foto: portal penaestrada)