segunda-feira, 22 de junho de 2026

O futebol de Cabo Verde revela a força crioula de seu povo



Maria Cláudia Baima*[1]

 

Ontem vimos mais um empate vitorioso da seleção de Cabo Verde deixando o mundo perplexo. O primeiro foi em sua estreia na Copa jogando com a campeã Espanha dia 15 de junho. Muita gente perguntou: “Cabo o quê? ”. Poucos dias depois, vencendo todas as improbalidades, Cabo Verde repete o feito e emplaca 2 x 2 com o Uruguai, veterana bicampeã. A pergunta agora já não é tão simples. Queremos saber mais sobre esse desconhecido país que toma conta da mídia mundial e entrega farto material para criadores de conteúdo. Os temas falam de superação, união, fé, humildade, coragem, fracos contra fortes...mas olha, de fraco o povo cabo-verdiano não tem nada mesmo! Eu passei uns dias lá, antes do início da Copa. E conferi.

A História mostra que Cabo Verde é bem graduado na luta contra o improvável. Em 5 de julho de 1975, quando se tornou independente de Portugal, boa parte do mundo achava que Cabo Verde não se afirmaria como país.  “Improvável” era o veredito para as dez ilhas do arquipélago (as estrelas da bandeira) que, até 1460, era totalmente desabitado. Meio século depois, vencendo um percurso tão árido quanto as rochas de suas montanhas, Cabo Verde canta com garra e alegria a força de sua crioulidade, palavra essa cuja essência o mundo ainda está por conhecer. Penso até que essa retumbante presença dos Tubarões Azuis na Copa soa como as boas-vindas para que o mundo conheça Cabo Verde.

Viajei em um dos primeiros voos da Cabo Verde Airlines, depois de retomada a rota Recife – Praia, inativa desde a pandemia. Fui com a amiga Ana Lourdes Viana, também jornalista e maranhense. Devo a ela o impulso dessa viagem, pois tudo era apenas um esboço de sonho desde que conheci Misá Kouassi, em oficina de arte em Brasília, em 2013. Misá é uma artista cabo-verdiana que idealiza projetos como África Unificada e Aldeia Criativa para residência artística entre o Brasil e Cabo Verde. 

Com Misá Kouassi e senhoras de Porto Madeira, limpando as ruas para a festa de Santo Antônio. Atrás, escultura Anjo da Morabeza.

 

Cheguei em Praia no dia 28 de maio deste ano, com o dia nascendo, excepcionalmente nublado e úmido, como se a própria natureza nos dissesse: “meninas, aqui é seco e quente, mas hoje as recebo com a morabeza de 24 graus e um breve chuvisco”. Xuba ta chobê (A chuva está a cair)

Chegando no Aeroporto Internacional de Praia – Nelson Mandela.


Calhou de nossa chegada coincidir com um evento histórico no país: o I Encontro Internacional da Crioulidade Atlântica, promovido pelo presidente da República, José Maria Pereira Neves. É ele quem diz: “Não temos ouro, não temos diamante, não temos petróleo, temos apenas cabo-verdianas e cabo-verdianos e essa paz de Deus que no mundo de cá tem”. Ele é mesmo desse jeito: poético, simples, diplomático e muito amado pela população. Foi primeiro-ministro de Cabo Verde de 2001 a 2016 e venceu as eleições presidenciais de 2021. Tivemos o prazer de encontrá-lo. Depois conto mais.

De uns tempos para cá, recuso-me a ter pressa...devem ser os 60+. Últimas na fila da alfândega, mostramos o recibo da taxa de 38 euros para quem ficaria menos de 30 dias. Ainda no aeroporto, a fim de escapar da roubalheira do roaming, compramos um chip da Alou, operadora local. E aí conhecemos o arquiteto alagoano Enio Ricardo, que estava no mesmo voo. Papo vai, papo vem, ficamos no mesmo hotel, selando uma amizade que só muito de vez em quando acontece. Tem que ser louca o suficiente para ver sinal em tudo e sim, sou louca desse tanto e mais um pouco para sentir a morabeza de Cabo Verde em todo canto. A palavra morabeza deriva de morabi, do português antigo amorável (carinhoso, afável ou que inspira amor). Morabezapassou a ser dicionarizada na língua portuguesa como um regionalismo oficial de Cabo Verde para designar a arte de bem receber.

Esse encanto de pessoa é a Isa Oliveira ou Isa Baixinha, que me abraçou com seu gigante “Kurason”. Inspira-se no Brasil para tocar seu negócio de decoração de festas e cestas.

 

"Pa es terra li, morabeza é de kurason." (Nesta terra, o acolhimento vem do coração).

Voltando ao evento da Crioulidade Atlântica, é claro que nós três – Ana, Enio e eu estávamos na noite cultural do evento, que não por acaso (afinal, nada é) rolou bem perto do hotel, ao lado do point Café Sofia. Ao contrário de nós que fazíamos apenas turismo, Enio estava em pesquisa de campo para o doutorado e havia marcado com Aidil Borges, geógrafa cabo-verdiana. Mal sabíamos que Aidil seria mais uma abençoada amizade. Assistimos os shows e virei fã de um talento local conhecido no Brasil, chamado Princezito. Embora o português seja a língua oficial, o crioulo é a língua de fato falada. É a fala do coração. Princezito fez piada dizendo que só falam português quando pedem dinheiro emprestado a um amigo. Foi aflitivo querer entender e participar das risadas. Quando não resistia, pedia tradução para Aidil, que gentilmente explicava. Aliás, muito do que escrevo aqui resulta das conversas que tivemos com Aidil, tomando o vinho Chã, o Café do Fogo e degustando a parrilhada de mariscos. No cardápio típico, o destaque vai para a cachupa, prato nacional à base de um guisado de milho e feijão, variando as carnes. O cheiro da cachupa está por todo lado desde que o sol nasce. Tem ainda caldeirada de cabrito com feijão, queijo de cabra e muitos peixes. Evite um que se chama Bica - saboroso, mas cheio de espinhas.

Restaurante Casa da Sogra, no Plateau. Delícia de peixe serra!

(700 escudos ou R$ 38)

 

E o crioulo nasceu!

Aidil contou-nos sobre a diáspora que ainda perdura e sobre a gênese do crioulo, que evoluiu do pidgin, um sistema simples de comunicação que surge quando pessoas que não falam o mesmo idioma precisam se comunicar. A expressão “crioulo” vem de criar. Nesse caso, criada a partir da mistura de africanos, portugueses, genoveses a serviço da Coroa portuguesa e judeus sefarditas que atuavam na “colonização” de Cabo Verde. Quando um pidgin é adotado por uma comunidade e segue para as próximas gerações, sua gramática fica mais complexa e torna-se língua materna. O ALUPEC (Alfabeto Unificado para a Escrita do Cabo-Verdiano) é o sistema de escrita oficial de Cabo Verde, criado em 1998 e oficializado em 2005 para padronizar e valorizar o crioulo. 

 

Outras palavras do crioulo cabo-verdiano para definir sentimentos e estados de espírito complexos:

 Sodade: Embora derive da "saudade" portuguesa, ganhou contornos únicos na alma crioula. Representa a dor da separação provocada pela emigração histórica do povo, a falta de quem partiu e o desejo profundo de regressar às ilhas. 

Cretcheu: Significa o amor da sua vida, a pessoa mais querida ou o seu bem mais precioso. Deriva da expressão portuguesa antiga "querer cheio" (amar plenamente) e é usada para se referir ao parceiro ou parceira com imenso afeto. 

Magoado: Estar magoado em crioulo vai além da simples chateação. É uma tristeza d'alma, uma melancolia ou decepção emocional densa que afeta o comportamento.

Sabi: Define plenitude, bem-estar e felicidade extrema. Um momento ou um lugar que "está sabi" transmite uma paz gostosa, alegria e satisfação. 

Kizomba: Embora hoje seja gênero musical, a palavra de origem banta expressa congraçamento, celebração coletiva e a alegria de festejar em comunidade.

 

"Ken mostrá-be es kaminhu lonje? / Es kaminhu pa Santumé?"
letra da música Sodade, de Cesária Évora: (Quem te mostrou esse caminho longe? / Esse caminho para São Tomé?)

O cabo-verdiano passou por muita dor e sofrimento desde que as ilhas foram povoadas. Atravessou secas, fome, mortandades, diásporas e escravização. Resistiu, aprendeu a dialogar apesar das diferenças, superou e reinventou-se como pátria no meio do Atlântico. Esse caminho permeia a alma da música cabo-verdiana, seja na nostalgia da morna ou na elétrica celebração do funaná. A icônica morna Sodade, mundialmente eternizada na voz de Cesária Évora, canta o momento da partida não como uma escolha romântica, mas como uma separação dolorosa e forçada, quando os cabo-verdianos deixaram suas ilhas castigadas pela seca para trabalhar em condições análogas à escravidão nas roças de cacau e café de São Tomé e Príncipe. Devido à intensa miscigenação por várias gerações, é bastante numerosa a população de origem e ascendência cabo-verdiana em São Tomé e Príncipe. A presidência de Cabo Verde promove missões oficiais de escuta a essa população, estruturando agendas de apoio mútuo que incluem, por exemplo, documentação, bolsas de estudo e apoio a idosos e agricultores. Na atualidade, Mayra Andrade é uma das artistas mais versáteis do país. Sua música mistura a morna tradicional com jazz e música popular brasileira. E foi por causa de sua doce voz que minha amiga Ana decidiu conhecer Cabo Verde. 

"Tudo dretu, e bô?" (Tudo bem, e contigo?)

Feira da Várzea aos domingos, em Praia.


Mercado Sucupira, em Praia

 

O povo cabo-verdiano é realmente a maior riqueza desse país. O vento espalha a alegria dos sotaques crioulo em alto e bom som, e é nos mercados que essa cantoria se concentra. O mercado Sucupira funciona de segunda a segunda. Tem de tudo, até barracas de almoço com pratos de diferentes etnias africanas. Fica na Zona da Fazenda, Várzea, a poucos minutos a pé da região histórica do Plateau, onde nos hospedamos. É na Várzea também que acontece, todo domingo, a feira saldão-de-tudo-um-pouco, especialmente roupas, novas e usadas. Parte da avenida é interditada e vale a pena. Lá ganhei mais uma amizade: D. Fátima, a simpatia em pessoa e irredutível na barganha – qualquer peça é 200 escudos (R$ 11) ...e pode garimpar à vontade! Fiz um elogio ao pano que ela usava na cabeça. Rindo, disse que era uma saia enrolada e que agora passava a ser minha. Marcou de encontrar comigo dois dias depois para entregar a saia, lavada e passada.

 

D. Fátima na feira da Várzea e, depois, entregando a saia

 

Como disse, chegamos em Praia durante um evento histórico. Não foi exagero. Em várias entrevistas o presidente José Maria Neves confirma sua proposta de fazer da crioulidade um projeto de futuro: “Cabo Verde encontra-se hoje em um momento raro da sua história.  Momento em que a memória e o futuro se encontram; momento em que aquilo que fomos nos interpela sobre aquilo que ousamos ser. E é precisamente nesse cruzamento entre história, identidade e visão que nasce o encontro internacional da crioulidade”. Na noite cultural, o presidente passou por nós e cumprimentou Aidil. Ela disse: “esse é o nosso presidente, estudamos na mesma escola”. Hã?! Sim, ela completa…presidente da República de Cabo Verde. Sem seguranças, sem comitivas, sem pompas. Aproximou-se, fez fotos com a gente e confessou que o Brasil é sua segunda pátria, pois morou em São Paulo quando estudou na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Falamos do trânsito na 23 de Maio, de nossa irmandade ancestral e brincamos se Cabo Verde seria um pequeno Brasil ou se o Brasil seria um grande Cabão. 


José Maria Neves, presidente da República de Cabo Verde e Enio Ricardo, arquiteto alagoano.

 

Passeio a Tarrafal

Ir a Tarrafal é indispensável para quem está em Praia. O melhor mesmo é ir de taxi e pagar cerca de dois mil escudos cabo-verdianos (cve) = R$ 107,50. Optamos por vivenciar a corrida nas yasis (vans coletivas) que custa 600 cve (R$ 33) e só saem do terminal quando lotam. Ou seja, chegamos lá 6h30 da manhã e a van só saiu 9h. Fez parte, claro, mas quem avisa, amigo é. Até porque o percurso é ladeira acima por uma hora e meia, espiralando até o extremo norte da ilha. Lá chegando, só beleza. Areias claras, coqueiros, ondas mansas e água cristalina, nem morna nem fria – um convite sedutor para nadar de boa! É zona pesqueira e a paisagem é colorida de barquinhos vermelhos. Almoçamos uma garoupa grelhada com arroz e legumes, preparado ali mesmo na nossa frente. 

Casa em Tarrafal, próxima à ladeira de acesso à praia


Estacionamento de barcos de pesca, em Tarrafal


Caminhar pelas ruas é tranquilo. Tudo limpo, banheiros públicos nas praças e surpresas à noite: jovens travando batalhas de rua (rimas ou repentes). Sem álcool, sem drogas. Esse é o @arylopes16


Palmarejo, bairro pertinho do Plateau, vale a saída. Aidil, Ana e eu caminhamos pela orla e curtimos a paisagem no Nice Kriola. O pastel de milho é item básico!

 

Cidade Velha - o berço da nação

Fundada em 1462, a Cidade Velha (Ribeira Grande de Santiago) é Patrimônio Mundial da Humanidade e foi o primeiro povoamento europeu nos trópicos, por onde passaram navegadores como Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Cristóvão Colombo. Fica a 15 km da capital Praia e desta vez fomos de taxi por 1600 cve. “Morabezamente”, o motorista Carlos esticou o passeio até a Fortaleza Real de São Filipe, de onde se vê toda a Cidade Velha. Passeamos pelas lindas casinhas de pedra da Rua da Banana e visitamos a Igreja Nossa Sra. do Rosário, construída em 1495. Comprei de um alfaiate local um lindo tecido africano 100% algodão e subimos até a Fábrica de Grogue, onde produzem uma excelente cachaça, com visita guiada para conhecer todo o processo. Voltamos outro dia com Aidil e nos deliciamos com a famosa parrilhada de mariscos no restaurante Old City.

Rua da Banana e suas casinhas de pedra


Gente, é o seguinte. Não dá para contar tudo, até porque nem seria possível ver tudo. Enio viajou para outras ilhas, como São Vicente e Santo Antão, e fez a gentileza de compartilhar fotos. Faltou falar dos rabelados, grupo que se rebelou contra a igreja católica que quis impor regras diferentes às suas centenárias tradições e se isolaram nas montanhas. Aos poucos retornaram e as crianças já frequentam a escola. Sou grata à morabeza de Sr. Julião Varela que cedeu carro e o simpático motorista Neném para levar-nos à aldeia de Porto Madeira, sob a guiança de Misá Kouassi. É lá que ela pretende revitalizar com as residências artísticas. Almocei um feijão cultivado na roça do quintal do Sr. Pidito. Ele conta que antes havia cerca de 350 moradores em Porto Madeira e hoje restam 25 - um exemplo gritante da atual diáspora cabo-verdiana. A creche funciona em uma pequena sala frequentada por apenas cinco crianças. 

Creche em Porto Madeira

 

Spadjado na mundo (Espalhados no mundo)

A diáspora cabo-verdiana é uma questão séria. Estima-se que só nos Estados Unidos vivam mais de 750 mil cabo-verdianos de quatro gerações. Segue-se Portugal, onde se acredita morarem mais de 360 mil cabo-verdianos. E depois França, Angola, São Tomé e Príncipe. “Nunca houve uma estatística rigorosa, embora sempre soubéssemos que havia mais cabo-verdianos nos Estados Unidos do que aqui. No ano passado foi feito um recenseamento pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e Comunidades e foi concluído que, ao todo, são dois milhões, ou seja, dois terços vivem fora de Cabo Verde e um terço está aqui ”, revela Aidil.


Memória e futuro

O lema do evento Crioulidade Atlântica - “edificar pontes e construir um futuro melhor” - lembra o importante símbolo dos povos Akan, de Gana e Costa do Marfim – o Sankofa, que representa a importância de voltar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro. Segundo o presidente, símbolo escolhido para o evento foi a tartaruga – porque ela atravessa oceanos sem fronteiras, regressa sempre à origem, liga silenciosamente as margens do mundo, tal como a crioulidade. Hoje, em um mundo fragmentado por identidades rígidas, por tensões culturais e por crescentes incompreensões, a crioulidade surge como uma proposta. Uma proposta de humanidade. Uma proposta de convivência pacífica. Uma proposta de um futuro melhor. (...) este encontro não é apenas sobre Cabo Verde, nem sequer apenas sobre o Atlântico. É sobre o mundo que queremos construir. É sobre a capacidade de transformar diversidade em força. De transformar memória em futuro. E de transformar identidade em pontes. (...) não estamos apenas a organizar um evento. Estamos a iniciar um movimento - um movimento de ideias, um movimento de ligação, um movimento de futuro que queremos seja muito melhor. E é nesse espírito que dirigimos um convite claro aos Estados, às organizações internacionais, às Universidades, às empresas, às diásporas, a todos e a todas para que se associem a esta iniciativa. Para que participem, para que contribuam, para que co-construam, porque a crioulidade não se celebra apenas: constrói-se, projeta-se, partilha-se. E Cabo Verde está pronto a liderar esse caminho. (...) o diálogo é possível, o encontro é possível, a paz é possível e podemos ter um mundo mais humano. Podemos ser humanistas e as nações crioulas referem-se a tudo isto”. 


A crioulidade é a soft power de Cabo Verde 

Fala-se muito em soft power para explicar a ideia de conseguir o apoio de outros países por meio da admiração e do respeito. A crioulidade é a soft power cabo-verdiana - esse talento de criar possibilidades dentro dos mais improváveis cenários. O grande herói da independência Amílcar Cabral já trazia em si essa força branda capaz de semear a independência com paciência e determinação. Seu corpo foi morto dois anos antes da vitória contra as armas portuguesas, mas sua alma imortal soube escrever o destino de liberdade para Cabo Verde. 

É “bonitu” ver o orgulho que homens, mulheres e crianças têm de sua pátria. Mesmo antes da Copa começar, a cidade de Praia exibia bandeiras em janelas, carros e roupas. Um sorriso profético parecia dançar nos rostos de cada um. Com este segundo jogo com o Uruguai, mais da força crioula ganha asas e pinta as cores da bandeira cabo-verdiana em muitos kurasons. O meu, que já era verde e amarelo, agora tem dez estrelinhas amarelas. Voltei ao Brasil antes da Copa, mas estou festejando como se lá estivesse. E por haver ainda tanto a conhecer é que pretendo voltar. Cabo Verde, nka ta skeci de bô (Não me vou esquecer de ti).


FOTOS:

Ponta do Sol, Ilha de Santo Antão  (foto Enio Ricardo)

 

Porto Novo, Ilha de Santo Antão  (foto Enio Ricardo)

 

Praia, Ilha de Santiago (um dos muitos vendedores de cangas e vestidos -  foto Enio Ricardo)

 

Paul, Ilha de Santo Antão (foto Enio Ricardo)


Mercado de Mindelo, Ilha de São Vicente (foto Enio Ricardo)


Mindelo, Ilha de São Vicente (foto Enio Ricardo)


Praia da Laginha, Mindelo, Ilha de São Vicente (foto Enio Ricardo)


Aula de Capoeira - Centro Cultural Mindelo, Ilha de S. Vicente (foto Enio Ricardo)


Boteco em Mindelo. A frase Fidju di Tera é muito comum em vários muros e fachados do país. Significa Filho da terra (foto Enio Ricardo)


Fila do sorvete no Dia da Criança, feriado nacional, em 1º. de junho (foto Ana Lourdes Viana)


No voo de volta, a simpática companhia de Armandinha Cunha, Miss Cabo Verde e candidata a Miss Universo (foto Ana Lourdes Viana)


 

 

TEM MAIS...

·       Sobre Cabo Verde - https://feelcaboverde.com/

·       Cesária Évora – A Diva dos Pés Descalços - https://www.youtube.com/watch?v=ky5yjog0O0k&list=PLjaRk8qNNioxK8lvSksW32rC06Dh5-IGH

·       Cesária Évora Nha Sentimento -Documentário 2010

https://youtu.be/qzQWOdojzaA

 

·       Documentário Revolução nos Rabelados - de Mario Cabral) -  https://www.youtube.com/watch?v=UQ9ocee6Yi8

·       Documentário “Um Milagre no Atlântico”, estreia prevista para o último trimestre de 2026. Narração e produção executiva do cantor Seu Jorge, que se diz bisneto de mulher cabo-verdiana. Filmado entre as ilhas cabo-verdianas e comunidades da diáspora, o projeto acompanha os Tubarões Azuis numa jornada que liga futebol, música, língua crioula e memória coletiva.

·       Documentário Rua Banana Cidade Velha, de https://www.youtube.com/watch?v=2OUZXUqAq18

·       Batukadeiras de Cabo Verde https://youtu.be/SSFt4ewGNOg?list=PLTqL0gf1J3BNSOsaxISrt_RxkKpU9GH6l

 

 

 

 

 

[1] Maria Cláudia Baima é jornalista, pedagoga e interessada em detectar sinais de um mundo melhor e mais humano em tudo que acontece (ou ainda não). 

sábado, 21 de março de 2026

No bairro da Lapa, em Lisboa, a poesia como resistência


Caminho pela tarde de sábado na Lapa, em Lisboa. O bairro oferece, com uma naturalidade antiga, duas impressões aparentemente opostas: a elegância aristocrática dos palacetes e embaixadas e um certo ar boêmio que se insinua nas ruas inclinadas, nos miradouros inesperados, na vista larga do Tejo que aparece de repente entre os prédios, como uma promessa azul ao fundo. A Lapa tem o viés pictórico de bairro que se ilumina com o charme do passado e essa solidão da contemporaneidade.


Na rua de São Ciro, o silêncio é quase uma companhia. Não é um silêncio vazio; é um silêncio que observa. Passos raros, janelas fechadas, algum rumor distante de trânsito que sobe das ruas mais baixas. Caminho devagar até parar à altura do número 26.


Ali, no térreo de um prédio de três andares, numa porta-e-janela modesta, está, há pouco mais de sete anos, a Livraria Poesia Incompleta. 


Não chego ao endereço por acaso. O lugar já estava marcado no meu roteiro. Finalmente conheceria aquela que talvez seja a única livraria do mundo (ou, ao menos, uma das raríssimas) dedicada exclusivamente à poesia.


Entro e ali no canto alto, estratégico, está Mário Guerra. Sentado diante do computador, em meio à fumaça do cigarro e a desordem de dezenas de livros espalhados sobre a mesa, magro, cabelo desalinhado, ele responde e-mails enquanto procura fotografias para publicar nos perfis de redes sociais da livraria. O silêncio do espaço é interrompido apenas pela voz rouca de Tom Waits, que escapa de algum alto-falante invisível e preenche o ambiente com uma melancolia adequada ao lugar.


As estantes guardam pilhas de livros de poesia vindos de várias partes do mundo, em diferentes línguas. Há cartazes e convites de antigos saraus colados no teto, lembranças de encontros que já passaram por ali. Um varal improvisado exibe gravatas penduradas, doação do poeta Carlos Mota de Oliveira, como se fossem bandeiras discretas de uma república literária.


Mário Guerra (ou Changuito, como o chamam amigos e clientes mais assíduos) levanta-se para me receber. Com naturalidade, começa a mostrar as seções da Poesia Incompleta. Além de livreiro, Mário é também editor e conta que o nome da livraria é uma referência à antologia Poesia incompleta, do poeta português Mario Dionísio. “Na incompletude está o encanto de uma livraria”, diz ele. A meu pedido, aponta alguns livros de sua predileção, retirando volumes das prateleiras com a intimidade de quem apresenta velhos conhecidos.


De humor ácido e frases curtas, que soam quase como aforismos improvisados, ele passa a falar sobre poesia, autores, leitores e resistência. E, enquanto conversamos, fica claro que aquela pequena livraria silenciosa na rua de São Ciro é menos uma loja de livros e mais um posto avançado de sobrevivência da poesia no mundo contemporâneo.


Livreiro por vocação e leitor por destino, Mário Guerra, aos 52 anos, fala da idade com ironia: diz que nunca se deve perguntar quantos anos tem um bêbado ou uma senhora. Ainda assim, confessa que já carrega algumas décadas convivendo com livros, poemas e leitores ocasionais.


A livraria teve três vidas ao longo do tempo. Passou pelo bairro lisboeta do Príncipe Real, onde funcionou entre 2008 e 2012, depois atravessou o oceano para se estabelecer por um ano e meio no Rio de Janeiro. Desde 2018 está na Lapa, onde a paisagem social parece condensar vários mundos numa mesma rua. E onde convivem ricos, pobres e remediados. Um mosaico urbano em que a livraria ocupa um lugar discreto.


– Aqui ninguém compra livros – diz ele com ironia. – É uma rua democrática nesse sentido: todos têm uma falta de interesse cósmica pela livraria.


O comentário não traz amargura. Antes, parece carregar uma espécie de resignação bem-humorada, própria de quem escolheu trabalhar com poesia em pleno século XXI.


 

A herança invisível


Mário não escreve poemas. Não reivindica esse lugar. Prefere se definir como leitor.


Mas a relação dele com a poesia nasceu cedo, quase inevitável. Cresceu numa casa onde versos circulavam como parte natural da vida. A avó sabia poemas de cor. A mãe, atriz, recitava versos desde a infância. Um tio jornalista também os decorava. O pai mantinha livros pela casa. E havia ainda a irmã mais velha, que se trancava no quarto para cantar Maria Bethânia e Caetano Veloso, algo que, para o jovem Mário, já tinha a força da poesia.


– Tive sorte de nascer numa família onde se lia – lembra.


Mesmo assim, começou a ler poesia relativamente tarde, por volta dos 16 anos. Desde então, nunca mais parou.


 

Uma casa de dez mil livros


Entre sete e dez mil títulos ocupam hoje as prateleiras da Poesia Incompleta. Mário não sabe ao certo. O número varia constantemente, como se a livraria respirasse.


Há clássicos e contemporâneos, autores consagrados e nomes quase desconhecidos. Poetas de diferentes países, épocas e estilos.


– Temos de tudo – diz ele. – Poetas vivos, poetas mortos, poetas gordos, poetas novos, antigos. Poetas de muitos lugares do mundo.


Os clientes são poucos, mas curiosos. E, ao contrário do que se poderia imaginar, não são acadêmicos ou especialistas em poesia.


– Quase não aparecem professores – comenta.


Quem chega costuma ser o que ele chama de leitores selvagens: pessoas de outras áreas, médicos, arquitetos, fotógrafos, advogados, que encontram na poesia uma forma particular de atenção ao mundo.

 

O mal-entendido da poesia


Mário diz acreditar que boa parte da distância entre o público e a poesia nasce na escola. Segundo ele, muitos estudantes aprendem desde cedo que a poesia é difícil, hermética, inacessível.


– Fica aquela ideia: isso não é para mim.


Para explicar o equívoco, ele recorre a uma comparação simples. Ninguém diz que não gosta do mar porque não o compreende. Ninguém rejeita as árvores por não saber explicá-las.


Mas com a poesia acontece algo curioso: muitos afirmam não gostar dela justamente por não entendê-la.


– A poesia carrega um anátema na cabeça por causa da escola – diz.


No entanto, quando alguém escuta um poema que toca alguma experiência íntima, a reação costuma ser imediata.


– Quando o poema fala, as pessoas ficam encantadas.


 

Jovens entre os versos


Contrariando um certo pessimismo cultural, muitos leitores da livraria são jovens. Existe o clichê de que poesia é coisa de juventude, da mesma maneira que se costuma dizer que ser de esquerda é um impulso juvenil. Mário ri dessa ideia, mas reconhece que, no caso da livraria, há um fundo de verdade.


– Uma parte grande desse pequeno público é jovem.


Há também leitores de idade avançada, de 70 ou 80 anos, claro. Mas frequentemente entram pessoas de vinte ou trinta anos, curiosas, inquietas, em busca de algo que talvez nem saibam definir.


Para o livreiro, isso indica que a poesia continua viva.


– A poesia ainda tem salvação – diz. – Ao contrário da humanidade.


 

Séculos de sobrevivência


Quando se pergunta se a poesia pode desaparecer, Mário responde com um raciocínio simples.


O cinema tem pouco mais de um século. As instalações artísticas e performances são ainda mais recentes. Já a poesia atravessa milênios.


– A poesia existe há muitos séculos – afirma. – A poesia é uma senhora velha, mas sempre fit e que desperta interesse, apesar dos pesares. 


Por isso, arrisca uma provocação:


– Talvez seja mais duradoura que o McDonald’s.


Ele vê na poesia um território híbrido entre pensamento e emoção. Há quem tente separar intelecto e sentimento, mas os poemas parecem ignorar essa divisão. Um verso pode atingir ao mesmo tempo a memória, a razão e o coração.


– É uma mistura muito bonita.


 

Os poetas que resistem


Quando fala da poesia contemporânea, Mário evita diagnósticos categóricos. Diz que é autodidata e que os autodidatas vivem “patinando em gelo fino”. Mas tem uma convicção: bons poetas sempre existirão.


– Poetas novos são os poetas que resistem [ao tempo] – comenta. E cita exemplos históricos que atravessaram séculos sem perder vitalidade: Gregório de Matos, Camões e o maranhense Sousândrade. Autores que continuam vivos porque seus versos ainda dialogam com leitores de hoje.


– Sousândrade tem 23 anos, porque uma pessoa que lê [o poema] hoje em dia sabe que aquilo continua bom.  


Mário Guerra reconhece que há muita poesia interessante sendo escrita em Portugal, Espanha e Brasil.


Entre os nomes que aprecia estão os espanhóis Luis García Montero, Pablo Fidalgo Lareo e Roger Wolfe (embora britânico de nascimento, vive na Espanha desde a infância), além de poetas portugueses como António Barahona, Alberto Pimenta e António Franco Alexandre.


Mas ressalta que o julgamento definitivo pertence ao tempo.


– Só o tempo decide o que fica – vaticina. – Só o tempo salva as coisas extraordinárias.


 

Ler como um animal livre


Perguntado sobre o que lê atualmente, Mário sorri. Como livreiro, ele lê várias coisas ao mesmo tempo. Alterna livros novos e releituras. Recentemente estava mergulhado numa novíssima tradução de poemas do grego Konstantínos Kaváfis, feita por um amigo, ou relendo a poesia da polonesa Wisława Szymborska.


– Eu sou um leitor um pouco selvagem – diz. – Leio fragmentos, volto a livros antigos, descubro coisas novas.


Da poesia portuguesa mais arejada, ou arrojada, ele cita Nuno Moura, Maria Brás Ferreira, Margarida Vale de Gato, além de Franco Alexandre, Alberto Pimenta e António Barahona.


– Mas aí entramos numa questão de gosto – ressalta.  


Essa liberdade de leitura talvez explique a relação de Mário com a poesia: uma convivência sem método rígido, mais próxima da curiosidade do que da erudição.


 

A falsa glória de ser poeta


Se há algo que preocupa Mário Guerra no presente é o fenômeno das redes sociais. Nunca houve tanta gente publicando poemas. E, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil transformar a palavra “poeta” em uma espécie de título honorífico.


– Há pessoas que acham que poesia dá status – observa.


Ele vê nisso um equívoco histórico.


A tradição poética, lembra, é feita de figuras marginais: bêbados, putas, pobres, rebeldes, órfãos, rejeitados, exilados.


– A história da poesia não é uma história de prestígio.


Mesmo assim, permanece otimista. A poesia, diz ele, tem algo de criatura mitológica.


– É como uma medusa. Cortam-lhe a cabeça e ela volta a crescer.


E talvez seja por isso que, mesmo numa rua em que quase ninguém compra livros, a livraria continua ali. Viva!


Entre prateleiras silenciosas, esperando pacientemente a chegada de leitores.