sábado, 14 de fevereiro de 2026

Os Paralamas, trinta anos depois

 

Há trinta anos, Os Paralamas do Sucesso estiveram em São Luís para apresentar o show Vamo batê lata. Era uma quarta-feira, 27 de março, data que coincidia com meu aniversário, um detalhe quase circunstancial diante do que realmente importava naquele dia.


Na época, eu e a jornalista Francília Cutrim éramos os editores/repórteres do Galera, caderno juvenil do jornal O Estado do Maranhão. Antes do show, fomos ao antigo Hotel Vila Rica, no Centro de São Luís, para uma entrevista que se estendeu muito além do protocolo. Foi uma conversa longa, atravessada por ideias e algumas digressões, como costumavam ser as entrevistas daquele tempo.


O jornalista Otávio Rodrigues (profundo conhecedor do reggae e amigo da turma da banda) e o radialista Gilberto Mineiro acompanharam o encontro e também participaram do bate-papo. Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone viviam um momento especialmente fértil da trajetória do grupo. A conversa passou por temas como mercado fonográfico, heranças e limites do rock dos anos 1980, resquícios de censura, América Latina, reggae e a força criativa de Carlinhos Brown. Tudo tratado com franqueza, sem discurso pronto.


O material publicado dias depois no Galera tentou dar conta desse clima: menos entrevista formal, mais registro de um pensamento em movimento. Como era comum naquela fase, havia entusiasmo, informalidade, texto leve, alguma pretensão e a vontade de compreender um cenário musical que já dava sinais de transformação.


Vieram outros shows dos Paralamas na capital maranhense ao longo desses trinta anos (2003, 2012, 2014). A banda teve de se reinventar após o acidente com um ultraleve em Mangaratiba (RJ), em 2001, que deixou Herbert Vianna paraplégico – e que resultou na morte de sua esposa, a jornalista britânica Lucy Needham.


   

Hoje, 14 de fevereiro de 2026, os Paralamas retornam a São Luís, agora em pleno Carnaval (e acho que vai chover!), num Brasil bastante diferente daquele de 1996. Ao final desta republicação, recupero também uma resenha que escrevi naquele mesmo ano sobre Nove luas, disco então lançado pela banda. O texto carrega os excessos e as “convicções” típicas de alguém na quebrada dos vinte e poucos anos, tentando analisar os rumos do rock brasileiro em meio à transição de uma década para outra.


Reapresentado agora, o texto vale sobretudo como registro. Não como ajuste de contas com o passado, mas como lembrança de um tempo em que escrever sobre música ainda parecia uma forma legítima de participar do debate cultural, com mais perguntas que certezas. (As fotos da época são de A.Baêta)


Confere aí. 

 

 

Paralamas e os sons na batida da lata

(publicado em 30 de março de 1996 – O Estado do Maranhão/Galera)

 

Quarta-feira, 27 de março. A chuva castiga a noite, mas o público – adolescentes, a maioria – chega de mansinho no terreiro da AABB. Dez da noite e o pátio já está tomado de gente. Os Paralamas do Sucesso entram em cena para fazer quase três horas de show, a quarta vez que a banda se apresenta em São Luís. Lama, Cerpa, rock, reggae, funk e chuva fina. A novidade é o começo de tudo. Ninguém fica parado. O som bem que poderia estar melhor – um problema no transporte de equipamento impediu a passagem de som – mas não compromete a performance da batida da lata.

 

Será que vai chover? é uma provocação. A plateia está mais para Alagados ou Lanterna dos afogados. Aliás, essa é a música que mais bate nos corações e mentes da moçada. Mais pela poesia e pela batida que propriamente pelo prefácio de Herbert Vianna: a canção é inspirada num livro de Jorge Amado, cuja história fala de mulheres que ficam no porto à espera dos maridos pescadores. ‘Quando tá escuro/ E ninguém te ouve/ Quando chega a noite/ E você pode chorar/ Há uma luz no túnel/ Dos desesperados/ Há um cais de porto/ Pra quem precisa chegar’.

 

O funk come solto também numa viagem incidental em Luís Inácio (300 picaretas). Pesa ainda a titânica Diversão, que não deixa ninguém parado. E o reggae, irmão? Tem de tudo. Das baladas dos discos antigos, como O beco e A novidade, ao passeio bobmarleyano de Kaya. No show, uma coisa fica definitivamente provada: o reggae está no sangue dos maranhenses. 

 

Herbert Vianna, guitarra e voz; João Barone, bateria; e Bi Ribeiro, baixo. Que eles sacam muito de música, isso todo mundo sabe. O grande barato do show Vamo batê lata é a participação de outros bichos: o caso de João Fera, que debulha o teclado como quem reza. Tem ainda Eduardo Lyra, na percussão; Monteiro Júnior, no sax; Senô Bezerra, no trombone; e Demétrio Bezerra, no trompete.

 

Antes do show, porém, o Galera leva um longo papo com Herbert, Bi e Barone. Os caras falam de quase tudo. Pra começo de conversa, fazem questão de dizer que a música feita na América Latina é muito rica, mas que os brasileiros aprenderam a olhar atravessado pra ela.

 

As pesquisas, o reggae, os discos, o show, Carlinhos Brown, pop rock, nada passa batido na conversa. 

 

Respostas básicas:

 

“Em 1983, quando começaram a surgir as bandas, as gravadoras estavam atrás de coisas novas. A gente teve sorte de assinar um contrato, de escolher a gravadora que fosse mais legal. Isso aconteceu no Rio, e não em Brasília como costumam dizer. Já tínhamos uma fita demo com Vital e sua moto, que havíamos levado para a Rádio Fluminense”

 

“O sucesso aconteceu mesmo só em 1984, quando saiu o segundo disco, O Passo do Lui – que tem Óculos e Meu erro, as primeiras a ficarem mais conhecidas – e na verdade foi o primeiro porque tornou a banda mais conhecida (tirando Vital e sua moto, que é o hit da banda). Depois veio o Rock in Rio que ajudou a projetar o nome da banda e que nos ajudou, inclusive, a cruzar as fronteiras”

 

Como vocês analisariam a travessia do rock brasileiro dos anos 1980 para essa variedade de ritmos e tendências nos dias de hoje?

 

João Barone – O rock que sobreviveu aos anos 1980 e o som que apareceu de novo dessa época pra cá acharam os seus próprios meios para levar adiante uma coisa que já não era mais a moda do momento. Então, todo mundo sabe como é que a geração que apareceu com a gente sobreviveu a essa coisa toda da moda do rock brasileiro. De lá pra cá, sobraram algumas bandas daquela época e depois apareceu um monte de gente que descobriu uma estrutura pra sobreviver. O rock já não precisava aparecer nas novelas da Globo. Isso fez do rock uma coisa séria, que tem um público específico, que não precisa disputar com o pagode nas vendagens. Os Paralamas não fazem parte de nenhuma tribo. A gente faz a música de que gosta e acha legal quando toca no rádio. A gente gosta principalmente de poder tocar. E gravar um disco significa reciclar todas as ideias anteriores, tentar fazer alguma coisa diferente.

Herbert Vianna – Não há como comparar. Cada pessoa está o tempo inteiro tentando fazer uma coisa bem feita, tentando fazer música e dizer alguma coisa por diferentes razões. Uns, para fazer sucesso, porque é uma coisa justa e nobre; alguns fazem para expressar um ponto de vista; já outros, por pura paranoia. Enfim, é difícil comparar.


 

Sobre a censura que vocês sofreram em Brasília com a música Luís Inácio (300 picaretas), como foi isso?

 

João Barone – Bom, a gente tá agradecendo até agora a polêmica que gerou, porque vendeu pra caramba, além de provocar uma discussão séria sobre as coisas que estavam acontecendo na época... De repente, a volta da censura acabou projetando um pouco o nome da banda e nos trazendo mais pra berlinda. Acabou que não deu em nada, era uma coisa tão ridícula, tão caótica...

 

Como é que surgiu esse sucesso todo dos Paralamas no mercado latino-americano? 

 

Herbert Vianna – Foi muito batalhado. Começou mesmo por uma casualidade, quando no Rock in Rio I [1985] veio uma quantidade muito grande de pessoas de países como Venezuela e Argentina. Foi o primeiro grande festival na América Latina. E foi uma época em que a gente estava fazendo muito sucesso no Brasil. O público estava predisposto a receber a gente. Aproveitamos a oportunidade e nos saímos bem no festival. E essas pessoas levaram – e como levam! – as coisas boas feitas no Brasil. No ano de 1986 a gente foi pela primeira vez à Argentina, numa época em que a banda tinha um status muito elevado dentro da música brasileira. Fomos aos subúrbios de Buenos Aires, carregando caixas [de equipamentos de som] nas costas e tocando em botecos. A gente descobriu um prazer grande nisso. Era o início da conquista. Começar do zero... Isso fez com que a gente estudasse o nosso trabalho e foi definitivo no rumo que as coisas tomaram daí pra frente.

 

Como vocês situariam o Brasil no pop rock da América Latina?

 

Herbert Vianna – É uma grande presunção nossa achar que a música do Brasil é melhor que a feita nos outros países latinos. Os brasileiros acreditam que são os melhores. Os brasileiros, em geral, veem a América Latina como uma coisa inferior. Tudo que vem de Miami é excelente – embora seja uma bosta, mas para os brasileiros é excelente. Tudo que é da Europa ou dos Estados Unidos é fabuloso. Para isso existem explicações sociológicas ou culturais. Por que não se fala que a música brasileira é melhor que a música pop chinesa ou indiana? Isso é parte da filosofia norte-americana que o Brasil importou juntamente com o milagre econômico. A gente ignora e não tem a menor curiosidade. Tem muito preconceito. Todo mundo acha que espanhol é uma coisa brega. As pessoas não suportam. Eu tenho um amigo – que trabalha no meio musical – que diz o seguinte: “Se bosta falasse, falaria em espanhol”. Isso exemplifica muito esse tipo de pensamento. Eles são menos preconceituosos e aceitam a gente. Fito Paez é fabuloso.

Bi Ribeiro – E eles têm coisas boas lá, cara! Excelentes!


 

Como o reggae surgiu na praia dos Paralamas?

 

Bi Ribeiro – Na verdade, isso foi porque a gente começou a ouvir os grupos que misturavam reggae com rock. E também o punk, que tinha o Clash, no fim dos anos 1970. Foi daí que a gente começou a ouvir reggae mesmo. Antes ouvíamos Bob Marley e tal, mas não era uma coisa que nos influenciava diretamente. E logo depois do disco O Passo do Lui, o ‘Tatá’ ali [aponta para o jornalista Otávio Rodrigues, o Doctor Reggae, que acompanha a nossa entrevista] me apresentou muita coisa.

Herbert Vianna – O que levou a gente a ter vontade de ter uma banda e de tocar foi justamente a coisa pós-punk inglesa. Antes eu tocava jazz no violão. E no comecinho gostava de rock’n’ roll, ouvia Jimi Hendrix. Mas o rock naquela época virou uma coisa tão aborrecida... Então veio o punk que tocava coisas simples e rápidas, e falava de coisas da rua. Depois do punk, essas bandas tocavam ska e misturavam um pouco de reggae com rock. E isso foi o que realmente pegou a gente. Depois começamos a ouvir as bandas de reggae originais.

 

Depois do peso de Severino, o disco e o show Vamo batê lata podem ser considerados uma síntese do trabalho dos Paralamas?

 

Herbert Vianna – Acho que Vamo batê lata é um disco muito mais simples. As canções novas, especificamente, trazem uma coisa que a gente tinha no começo. Sem fazer juízo de valor, mas é que naquela época fazíamos uma coisa muito boa e abandonamos durante muito tempo, ou durante um certo tempo. Severino foi o nosso disco que menos vendeu [60 mil cópias]. E ele surgiu numa época em que o mercado fonográfico menos vendeu. Foi um disco que teve sucesso comercial fora do Brasil. Teve um momento em que a gente redescobriu o valor de fazer canções simples, com letras menos elaboradas e mais diretas, que refletiam mais o que acontece nas ruas, tipo Luís Inácio e Saber amar.

 

E o peso de Carlinhos Brown no cenário do pop brasileiro?

 

Herbert Vianna – Carlinhos Brown é justamente a vitória da ausência das fórmulas. Ele fez a música mais bem sucedida comercialmente do Caetano [Veloso] nos últimos tempos. A Marisa [Monte] ganhou vários prêmios com a música do Carlinhos. Transformou o Sepultura, nos transformou e deu ao Sérgio Mendes um Grammy. Brown é um polvo... Extremamente talentoso. Já conheci muita gente da música, mas nunca tive a sensação tão clara de estar diante do gênio como tenho diante do Brown.

 

O que vem pela frente?

 

Herbert Vianna – O novo disco já está pronto. Já gravamos a [fita] demo e agora, no dia 15 de abril, começaremos a produzir o disco com esse material novo. O disco deve ser lançado até julho, porque a gente quer trabalhar no segundo semestre em cima das coisas novas. É um trabalho que está mais para Vamo batê lata do que para Severino.

 

E qual o melhor disco dos Paralamas?

 

João Barone – É esse novo que a gente vai gravar.

Herbert Vianna – O disco que mais ouço – e que tenho o maior prazer em ouvir – porque é o mais bem feito, é Os grãos.

Bi Ribeiro – Eu tenho dois favoritos, que são Bora Bora e Selvagem.

Herbert Vianna – A gente passa muito tempo sem ouvir um disco e aí você põe ele pra tocar... Recentemente comecei a escutar Big bang e foi uma coisa. Nesse disco tem coisas muito boas. Severino, mais do que tudo, é um disco feito pra gente.

 

E o que explica essa longevidade dos Paralamas, quando muitas bandas brasileiras ficaram no ostracismo no início dos anos 1990?

 

Herbert Vianna – A gente teve sorte.

Bi Ribeiro – Ninguém naquela época pensava se iria durar um ou dois meses, ou dois anos.

Herbert Vianna – Ninguém nem pensava em gravar disco. O que todo mundo queria no começo era conseguir tocar no Circo Voador e participar da farra. Era uma festa. O Rio era uma espécie de suingue. A sorte é o fato de termos uma convivência pessoal tão boa. Somos três, mas há uns vinte, um monte de gente viajando e convivendo intensamente por muito tempo. Depois, é porque a nossa trajetória nos levou no pior momento da indústria brasileira – e no pior momento do rock brasileiro em termos de mídia, quando todo mundo estava de saco cheio. A gente estava começando a fazer sucesso fora do Brasil. E fizemos muito mesmo. Na Argentina lançamos três discos, e ganhamos dois de platina e um de platina duplo. E temos lá o nosso recorde de público num show, que foi de 90 mil pessoas. Então o nosso ego estava meio saciado numa época em que as vacas eram magras.

 

 

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Nove luas resgata a musicalidade dos Paralamas

(publicado em 17 de agosto de 1996 – O Estado do Maranhão/Galera)

 

Quem vem acompanhando o tra­balho de Os Paralamas do Sucesso, de 1994 pra cá, é capaz de arriscar um palpite tão óbvio quanto prático: a banda mudou da água pro vinho. Quando estiveram em São Luís em março deste ano, Os Paralamas cantaram a pedra do disco Nove luas, lançado agora pela Emi.

 

Em entrevista ao Galera, Herbert Vianna disse que o disco pretendia dar sequência à veia pop presente em trabalhos anteriores da banda. “É um trabalho que está mais para Vamo batê lata do que para Severino”. Poucos dias depois do show em São Luís, Os Paralamas entraram no Estúdio Impressão, no Rio de Janeiro, e mandaram ver na prova final de Nove luas.

 

É natural que alguns mais afoitos condenem esse retorno aos anos 1980 da banda formada por Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone. Afinal, Severino é um trabalho meio experimental, de pesquisa carregada e de poesia densa. Muito bom. Mas para os ouvi­dos menos exigentes da geração MTV, o disco soava intelectualóide demais. 

 

Resgatar o baiano Tom Zé para quem está acostumado a ouvir Raimundos e coisas afins parece uma heresia. Vamo batê lata inicialmente não significaria uma ruptura com Severino e con­sequente retorno às origens da banda. O disco, gravado ao vivo e com algumas faixas-bônus – como Uma brasileira e Saber amar –, representava uma espécie de louvação à difícil cruzada de gerações. Seria, enfim, uma coletânea, uma festa de aniversário. Mas não. Foi muito mais.

 

Vamo batê lata (1995) vendeu mais de 800 mil cópias. Severino (1994) não passou de 60 mil discos vendidos. Taí a guinada dos Paralamas. “As músicas de Severino, por exemplo, partiam de conceitos. O resul­tado foram experimentos, não canções. Ficamos cheios daquilo, queríamos fazer can­ções de novo”, explica Herbert Vianna. Ele conta que hoje cansou de usar computa­dores na criação e que, defini­tivamente, voltou a tocar gui­tarra.

 

Música ligeira

 

Em Nove luas há 12 ata­lhos numa estrada já conheci­da pelo fiel público dos Paralamas. Há uma sonoridade mais simples e de fácil digestão. A banda voltou a passear pelo estilo pop, com variações afro-latinas. Das músicas do disco, La bella luna, composi­ção de Herbert, é a que apresenta maior suavidade melódica. “A noite passada/ Você veio me ver/ A noite passada/ Eu sonhei com você”. É uma música simples com uma letrinha ingênua e sem pretensões. Mas é aí que mora toda a combinação criativa dos três Paralamas.

 

Herbert Viana voltou a compor para o público e recuperou o tempero juvenil da banda. Pra isso, ele buscou o auxílio luminoso de Lulu Santos para a letra de Outra beleza. Herbert entregou o poema e Lulu devolveu com um samba cheio de suingue latino. Para a poesia quase concreta de Nando Reis em O caroço da cabeça, Herbert compôs uma baladinha bem ao estilo de Caleidoscópio.

 

No capítulo destinado às regravações, há espaço para coisas boas. É o caso de De música ligeira, versão em português para a canção da Soda Stereo, banda argentina que detona no mercado do pop latino-americano. É um pop rock pulsante que traz o brilho da guitar­ra de Herbert. Sem dúvida, o melhor momento do disco.

 

Lourinha Bombril, de outra banda argentina, a Pericos – essa ficou conhecida da galera de São Luís com o malhado reggae Runaway (ou “Melô de Jorge Balboa”) – abre o CD Nove luas com uma batida de ska. Os Paralamas desenterraram cuidado­samente a dupla Marcos e Paulo Sérgio Valle, que participou da cena musical brasileira nos anos 1970, e regravaram Capitão de indústria. Pegaram a letra politicamente corre­ta, deram um banho de harmonia e transformaram a música em outro grande momento do disco. Regravaram ainda Sempre te quis, de Herbert, uma velha conhecida das rádios que estourou na voz de Daniela Mercury.

 

Destaque ainda para a faixa Busca vida, para neguinho escutar deitado numa rede, de preferência em noite de lua & vinho. Difícil mesmo é descartar alguma música de Nove luas. É um disco pra ser ouvi­do do começo ao fim, sem moderação. Vale dizer também que é um trabalho feito sob medida para inundar a programação das rádios com pelo menos sete músicas. Fato raro hoje em dia na produção pop brasileira. Ah, só pra lembrar: o encarte do CD é de uma elegância marginal.

 

 

Onde o rock errou?

 

O sucesso dos Paralamas ficou eviden­ciado logo no começo da carreira. A músi­ca de estreia, Vital e sua moto, abriu caminho para uma carreira vitoriosa. O disco O Passo do Lui, de 1984, emplacou pelo menos seis músicas nas paradas. A explosão da banda era um reflexo do cal­deirão formado na década passada por um punhado de grupos de rock.

 

O momento era adequado. A cada dia surgia uma banda nova com o sotaque que ficou conhecido como rock nacional (ou rock brazuca ou BRock). A história de O Passo do Lui se repetia com o disco Dois, do Legião Urbana, que jogou nas rádios músicas como Daniel na cova dos leõesMúsica urbana IITempo per­didoÍndiosQuase sem quererEduardo e Mônica, entre outras.

 

Titãs detonava uma penca de hits com sua batida tribal no álbum Cabeça Dinossauro. Outros grupos ajudaram a engordar o mercado do gênero, que ven­deu discos aos turros. Assim vieram à luz Barão Vermelho, Blitz, Capital Inicial, João Penca, Ira!, Plebe Rude, Hojeriza, Heróis da Resistência, Inimigos do Rei, Nenhum de Nós, Metrô, Hanoi Hanoi, Uns & Outros, RPM, Engenheiros do Hawai... Havia também Lulu Santos, Lobão e Léo Jaime. E ainda tinha espaço para uma banda formada só por mulheres, a Sempre Livre. O movimento fer­via e era abençoado por festivais apoteóticos, como o Rock in Rio e o Hollywood Rock.

 

Era muito gente. A criação musical cedeu lugar para a produção em série, encomendada por gravadoras deslumbra­das com aquele filão de época. Resultado: não houve inovação no estilo, o embalo foi se perdendo no espaço como uma bolha de sabão – não tinha mais pernas para andar – e a criatividade chegou ao fundo do poço. Daí surgiram pérolas como “O meu coração é um porta-avião...”, “O amor é como um sabonete dentro d’água...”, “Minha mãe me falou que eu preciso casar, pois eu já fiquei mocinha...”.

 

O rock errou e a maioria das bandas sucumbiu à nova ordem do pop. Da turma dos anos 1980 sobreviveram Os Paralamas do Sucesso, Titãs, Legião Urbana e Barão Vermelho. O mais é pura insistência, porque o rock hoje fala uma outra língua.

 

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Jimmy Cliff e o reggae que resiste ao tempo


 

Não há como falar de reggae no Maranhão sem mencionar o nome de Jimmy Cliff, que partiu hoje aos 81 anos. A música do Jimmy chegou ao Maranhão antes mesmo do reggae aqui criar raízes. 

 

É que antes de tudo – das radiolas, dos clubes, dos DJs, dos contrabandistas de discos e da aparição dos “magnatas” – havia um álbum do Jimmy chamado “Follow my mind”, de 1976.

 

Um fenômeno, 12 faixas, cada uma melhor que a outra. Não sei se está no topo da crítica especializada (vieram depois outros trabalhos potentes), mas “Follow my mind” será sempre, pra mim, o álbum definitivo. Por tudo. Amizades. Afeto guardado. Fogueirinhas de papel que iluminam a memória. 

 

Nas ruas, nas rádios, no alto-falante dos cinemas nas cidades do interior, o disco de Jimmy encurtou distâncias entre a ilha e o continente. O reggae de “Follow my mind” não era só São Luís. Era o Maranhão. Sertão e litoral. Ouvi desde menino. “Look at the mountains”, “Hypocrites” e “No woman, no cry” (de Bob Marley) fizeram grande sucesso no Brasil. Esta última ganhou a versão “Não chore mais”, de Gilberto Gil, no álbum “Realce” de 1979. 

 

Mas o álbum guardava faixas que pareciam pertencer só a nós, como “Going mad”, “The news”, “I’m gonna live, I’m gonna love” e, principalmente, “Who feels it, knows it”.

 

Jimmy fez história entre os maranhenses. No dia 14 de novembro de 1990, ao desembarcar no Rio para uma temporada de shows no Brasil, ele disse estar curioso pra conhecer “a capital do reggae no Brasil”, o que deu origem à lenda de “Capital Brasileira do Reggae” e, adiante, de “Jamaica Brasileira”. Duas semanas depois, o cantor comandou aquele que é considerado o maior show em área aberta em São Luís, com mais de cem mil pessoas em volta do antigo pátio da RFFSA (atual praça Maria Aragão).

 

“Follow my mind” resiste ao tempo. Continua atualíssimo, tocando corações e mentes. Mas não está no Spotify (no Youtube é mais fácil). Reencontrei-me com o LP tempos atrás, por intermédio de Joaquim Zion. E sigo a batida daquele reggae que nunca deixou de pulsar. Como quem sente. Como quem quer saber. 

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Novo livro de Félix Alberto Lima destila poesia em meio às feridas do extremismo


Jotabê Medeiros, farofafa.com.br (01.10.2025)

Livros de poesia nunca venderão extraordinariamente e nem despertarão tão cedo a cobiça das IAs de resultados. Por isso, sempre espouca um sentimento de resistência e singularidade (e, por que não?, de alegria) quando um livro de poesia chega com o carteiro. No caso de um livro do poeta maranhense Félix Alberto Lima, aí então é quase como garrafa de náufrago – a mensagem é sempre de puro resgate.

com o coração na boca (7Letras, 2025) é o quarto livro do autor e o encerramento de uma trilogia que começou com Filarmônica para fones de ouvido(2018) e Nas profundezas desses olhos rasos (2020). Poeta com ligação profunda com a origem, a geografia humana de São Luís do Maranhão, a “colheita de meninos” da lagoa, ao mesmo tempo que em sintonia descompromissada com as tradições históricas (dos provençais aos beats, de Ferreira Gullar João Cabral), galo que não tece sozinho sua manhã literária, Félix carrega sempre consigo uma brisa de ruptura. “mudança não é aroma é/víscera exposta arame. única forma de manter-se de pé sem apodrecer por dentro”.

À margem da preocupação de aderir aos movimentos da conveniência literária do momento, longe da queda de braço das tertúlias hegemônicas, o poeta retoma o manifesto dos sentimentos com o coração na boca. Seus novos poemas tateiam as angústias e belezas que abastecem seu humanismo, invertendo a olímpica propositura da literatura a enfileirar angústias e belezas.

Isso não quer dizer descuido com o rigor da linguagem, nem adesão a qualquer populismo esportivo. As visões são dignas de Milton: “os calcanhares eram deus/abrindo picadas num sertão de areia/e espelhos”. Seus versos evocam personagens que garantiram a eternidade na indiferença, de um sacrílego casal em um motel até a Beata da Sé, uma mulher vestida de santa de vitral que postou-se durante décadas na frente da Igreja da Sé, na capital maranhense, até desaparecer em 2018. “um dia joana foi encontrada morta/com uma pequena pedra escondida/por entre as veias escuras da palma da mão esquerda – na mão direita o velho testamento. e deus constrangido teve de recebê-la de braços/abertos”.

Os tributos se sucedem como retomadas. Em Ibegeé, pode-se enxergar um tributo a Dentro da Noite Veloz (1975), clássico de Ferreira Gullar (“pelo menos dezesseis milhões de pessoas adultas no brasil nao têm sequer um dente na boca”). Da saudade da mesa de bar com Celso Borges à hierarquia da própria estante. “trediakóvsk não se entende com ferlinghetti/o mundo é agora diz um ao outro”. Outras lembranças são explícitas, como a visão de Nauro Machado (1935-2015) cantando Ramones com um sem teto na Rua do Sol, no Centro de São Luís. “tanto faz se é terça-feira ou domingo/para quem sabe de cor/morder o relento”.

A barbárie nacional também angustia o poeta, que aborda a erupção do fascismo, a corrosão da humanidade em meio ao abandono, à miséria progressiva, ao elogio do ódio feito pelo extremismo. Nenhum poeta passa incólume por essa paisagem do tempo. “o assombro de estar inteiro/mesmo repartido o peito/ao meio”. O coração não se apresentou à toa para o título do livro. Ele se encontra espalhado pelos poemas, às vezes agreste, às vezes como uma consciência polvilhada. “a boca o idioma o coração uma cratera no quintal”.

É como se o poeta artesão tivesse se dado conta de que não consegue caminhar ileso pelas ruínas do mundo somente com a armadura dos versos. Então, faz um livro de seu próprio espanto, corrosão, revolta. “caríssimo leitor, não me peça para voltar. meus passos não retrocedem/nem sangram sépia”, escreve Félix. “É nessa zona de vulnerabilidade, onde a vida pulsa mais forte, que encontro a voz para dizer o que quero, e que não tem tradução”, diz o poeta. “Se um dia perceber que já não há espanto, que o coração repousa sereno e que nenhuma palavra mais lateja, saberei que chegou o tempo de calar”.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

De volta à sala de aula

 


Há poucos meses, na condição de professor convidado, participei da banca examinadora de alguns trabalhos de conclusão do curso de Letras da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA). Meio sem tempo e já alguns anos fora das salas de aula, acabei topando o gentil convite da professora Maya Felix. E voltei para continuar aprendendo. 

 

Uma das peças apresentadas à época foi a monografia intitulada “A influência da revisão textual na qualidade da produção escrita de trabalhos de conclusão de curso: um estudo de caso na Universidade Estadual do Maranhão”, defendida pela estudante Nataly Pará Santos. Lembro disso agora, no Dia dos Professores, afinal já fui um deles num passado não tão distante assim da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e da então Faculdade São Luís (atual Estácio). 


A pesquisa de Nataly partia de um universo aparentemente restrito (o próprio curso de Letras da UEMA), mas desvelava uma questão mais ampla: a fragilidade linguístico-discursiva dos trabalhos acadêmicos, mesmo daqueles agraciados com a nota máxima. Uma contradição que, de tão reiterada, parece ter se naturalizado entre nós.


A autora analisou TCCs aprovados com nota dez, produzidos entre 2021 e 2024 na UEMA, submetendo-os a um crivo quali-quantitativo, pautado por critérios objetivos de correção linguística, como ortografia, pontuação, concordância e regência. O resultado foi ao mesmo tempo perturbador e revelador: 82% dos textos apresentavam erros ignorados pelas bancas avaliadoras, com predominância de deslizes microestruturais, esses pequenos ruídos da língua que, somados, denunciam o enfraquecimento de nossa relação com o texto.


Tais dados sinalizam para um colapso silencioso nos critérios de avaliação acadêmica. Bancas que se pretendem zelosas com a forma e o conteúdo mostram-se, não raro, indulgentes – quando não completamente omissas – diante de falhas que comprometem a própria natureza do discurso científico.


O mérito de Nataly, contudo, vai além da denúncia. A reflexão sobre a ausência da revisão textual nos TCCs desloca o debate para o campo epistemológico da escrita. A revisão, para ela, não é mera depuração gramatical, mas um gesto interpretativo e dialógico, um processo que exige domínio dos gêneros acadêmico-científicos e consciência de que a linguagem é o próprio instrumento de construção do saber.


Ao afirmar que todo texto não revisado é, por definição, inconcluso, Nataly convoca professores, orientadores e discentes a compreenderem a revisão não como apêndice, mas como parte orgânica do processo de escrita, uma etapa de reflexão, de autocrítica e de amadurecimento discursivo.


Outro ponto luminoso de sua pesquisa é a crítica à persistente mitologia da “Atenas Brasileira”, esse sumo fundacional que associa o Maranhão a uma excelência linguística. Em vez de reforçá-lo, Nataly o desarma com contundência: demonstra que, mesmo nos espaços de maior prestígio intelectual, a precariedade textual é regra, não exceção. É uma crítica que atinge em cheio o coração do nosso narcisismo cultural, ao lembrar que a erudição proclamada pouco resiste à leitura atenta de nossos próprios textos.


A autora da monografia oferece caminhos. Propõe a criação de disciplinas específicas de revisão textual, a capacitação de orientadores para uma leitura linguístico-discursiva mais criteriosa e a revisão dos próprios instrumentos de avaliação das bancas. São propostas urgentes, sobretudo se quisermos formar professores e pesquisadores capazes de lidar com a linguagem não apenas como meio, mas como matéria viva do pensamento.


O trabalho de Nataly Pará Santos lança luz sobre uma zona de sombra das universidades brasileiras: a conivência com textos mal escritos, ainda que consagrados com a nota máxima. Essa monografia é um lembrete incômodo, mas necessário, de que a excelência acadêmica não se mede apenas pelo domínio do tema, mas pela precisão da palavra.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Um livro sobre escrita literária e inteligência artificial

 


Ela reagiu com um lampejo de espanto quando lhe revelei estar lendo um livro recém-lançado pela Companhia das Letras, dedicado aos efeitos da automação sobre a literatura contemporânea. “Como assim?”, perguntou ela, entre curiosa e incrédula. “Há tantos livros escritos por inteligência artificial?”. Sim, já existe uma série de obras publicadas, escritas com o auxílio da IA, algumas delas até “premiadas” em países como Japão e China. Respondi rapidamente, meio desajeitado. Poderia ter ido mais adiante: no caso do Brasil, jurados de prêmios literários importantes têm sido surpreendidos com obras escritas ou coescritas com inteligência artificial generativa.

 

Escrever é humano – como dar vida à sua escrita em tempo de robôs, de autoria de Sérgio Rodrigues, cronista da língua e da literatura e ficcionista (O brible e A vida futura), é o título do livro que mencionei na conversa. Em pouco mais de cento e noventa páginas, o escritor defende, com paixão e clareza, a natureza visceralmente humana do ato de escrever. Escrever, sustenta ele, é gesto subjetivo, trabalho de alma, de carne e hesitação. Jamais de algoritmo. 

 

Não se trata, contudo, de um libelo contra a inteligência artificial. Sérgio prefere alinhar-se à tradição: recorre a vozes de Clarice Lispector, Jorge Luís Borges, Tchékhov, Orwell, Chimamanda, Ruy Castro, Julián Fuks, Stephen King e tantos outros para iluminar o território humano da criação. Ainda que busque escapar à forma de um manual, o livro percorre com inventividade e humor as sendas da literatura, mostrando o que nenhuma máquina jamais poderá alcançar: imaginação, emoção, desejo, e aquela trama invisível que faz pulsar os personagens no interior de uma ficção.

 

Logo nas primeiras páginas, o autor adverte: este é um livro para quem ama a leitura – contos, romances, histórias – mesmo que não pretenda escrever, mas alimente o desejo de compreender o ofício, essa delicada artesania que insufla vida às palavras.

 

O clichê, esse refúgio das máquinas, é apontado como o oposto da boa literatura. Para Sérgio Rodrigues, o texto literário exige a centelha da originalidade, a faísca que, ao tocar o leitor, o faz sentir “a sensação sempre perturbadora de que algo verdadeiro acontece ali, pela primeira vez, no próprio ato da leitura”.

 

O autor recomenda a reescrita como gesto essencial, o ato de lapidar até que o texto respire por si. Valoriza as minúcias, o detalhe sobre o genérico: “O que uma história não diz é tão importante quanto o que ela diz – se não for mais.” E, num sopro de normalidade, adverte: nada é proibido na literatura. Embalado por bons exemplos, o livro toca na precisão vocabular, no ritmo, na pontuação, na escolha da voz narrativa.

 

Em Escrever é humano, Sérgio Rodrigues desenha três caminhos possíveis ao aspirante a escritor: o do profissionalismo, que encara gêneros e mercado; o do voto de pobreza, em que se aceita o tempo que a escrita consome e o despojamento que ela impõe; e o da renúncia, quando se reconhece que talvez o talento ou o fôlego não bastem para suportar o calvário da criação.

 

O escritor observa que a inteligência artificial “sabe muito, mas não sabe que não sabe”.  E é justamente nessa falha luminosa que habita o espaço da nossa resistência.

 

Ao fim, Escrever é humano nos reconduz ao essencial: escrever como atitude, como forma de estar no mundo, de dialogar, de reconhecer o outro. O legado maior é este: não permitir que as máquinas nos convençam de nossa dispensabilidade. Com elegância, rigor e uma intimidade rara com o idioma, Sérgio Rodrigues oferece-nos um farol: escrever continua sendo um ato humano e, por isso mesmo, insubstituível.

 

Nada mais oportuno, neste Dia do Escritor, do que essa leitura. O próprio autor confessa ter apressado a publicação de sua obra, amadurecida ao longo de anos, diante do frenesi dos robôs que agora rondam o mercado editorial. É um livro para escritores e aspirantes, mas também para leitores atentos, estudantes, professores e todos os que ainda creem que a literatura é um milagre do humano.

 

Mariana, a interlocutora que manifestara espanto com a proliferação da escrita de livros por meio da IA, dá sinais de que é uma leitora de fôlego, e talvez bem mais exigente que eu. Ela sabe, nessa jornada pelos sertões da literatura, que não se constrói Diadorim (e sua multidão de personagem) com o auxílio de robôs, e que não se atravessa a aridez do Liso do Sussuarão montado no lombo de um algoritmo.  

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

De bocas e corações...



Joãozinho Ribeiro* 

 

Sobre a palavra palavra, escrevi um dia sob a forma de canção registrada definitivamente pelo parceiro Zeca Baleiro: “Se eu cometo uma canção / E me sinto impune e são / A palavra sempre tem razão”.

Nesta última semana, ao me deparar com o novo livro do meu amigo e parceiro musical Félix Alberto Lima, que eu chamo carinhosamente de poeta das águas do Corda, fiquei simplesmente tomado por uma cumplicidade cultural sem precedentes. 

Assim como quem se associa para cometer delitos poéticos gostosos e, ao mesmo tempo, é declarado culpado pelo conjunto da obra resultante desta parceria inusitada, feita de palavras e paixões.

Com o coração na boca é o título do seu quarto livro de poemas, que acomete os leitores desavisados de uma carência múltipla dos órgãos na primeira impressão, quer dizer, leitura. Pra ser lido sem moderação ou restrições. 

Fi-lo, como costumava asseverar aquele presidente complicado, de uma tacada só. Não deu pra fazer intervalos.

“no circo do metaverso / o poema na boca / feito bolas de fogo / em círculo / não vale um versículo.” (BOCA QUENTE)

A palavra impera e conduz a poesia, como se estivesse a proferir sussurros e ruídos capazes de provocar nas bocas o que as cabeças deixaram de imaginar possível. O livro permite ser aberto em qualquer página, apesar do ordenamento autoral em oito partes sequenciais, incitando o leitor a cometer buscas irreverentes e desordenadas...

“uma colheita de meninos / adorna a tarde da lagoa. / os carros passam velozes na avenida / alheios ao cio do mangue.” (SOBRESSALTO).

O poeta está completo, com o coração exposto nos poemas que constroem coletivamente uma possibilidade da palavra ir além, feito um desenho das horas de contemplação, nem sempre passiva; porém precisa, para descrever uma paisagem que invade as existências e transborda para o coração de quem resolve compartilhar deste instante mágico do desalinhamento do verbo e do sujeito...

“pode ser um susto / o pulo do gato um salto / ou de repente a vida / engasgada de futuros / o coração entre os dentes / a respiração ofegante / um tijolo no peito / o tempo sem tempo / no exílio do afeto.” (TEMPO SEM TEMPO).

Como diria nosso cantador Josias Sobrinho: “as palavras que chegam não vão ajudar” (“Queima Madeira”, parceria sua com Augusto Bastos). Talvez, não para traduzir o sentimento dos intentos do poeta Félix em suas integralidades; porém, para assegurar uma certa cumplicidade, digna de um coração encharcado de afetos e de uma boca ansiosa por compartilhá-los com a humanidade em volta.


* poeta e compositor

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

A intimidade sob as dobras da imaginação


Há livros que nos pedem menos pressa, pé no freio. Na intimidade de um ser estranho (editora Mondru) é um desses. O novo livro de poemas de Adriana Gama de Araújo, que será lançado nesta sexta-feira, às 18h, na livraria Poeme-se, ao lado de Catálogo de acasos, de Franck Santos, e O livro das nuvens, de Samuel Marinho, percorre espaços pequenos e cotidianos – a casa, o jardim, a rua deserta – para encontrar neles uma voz.

A poesia de Adriana se constrói a partir do mínimo. Versos como “Cantar a rodoviária/ vazia”, “cantar/ ainda hoje/ mesmo agora/ que ninguém nos ouve”, além de outros tantos, delatam a moenda lírica e insurgente da autora. O que poderia passar despercebido ganha corpo no conjunto das palavras. Movimento sutil de quem insiste em cantar mesmo quando não há plateia, de quem transforma a solidão em matéria de poesia.

No livro anterior, Metábole (Urutau, 2021), Adriana já experimentava derrubar a cerca ao redor do próprio umbigo, com palavras. Era o desafio do silêncio. Agora, nesse virtuoso desafio de atravessar o deserto, a poeta parece buscar outro movimento: “dar outro corpo ao tempo”, “esticar o corpo além da alma”. São versos que se aproximam de uma meditação, mas sem perder o pulso concreto da experiência.

Os poemas são curtos, diretos, quase anotações de um passeio sob a luz incessante das cores quentes do dia. Têm a força do que é dito sem ornamento: “num estranho estado de vida/ acima do tempo/ acima da guerra”. Há neles uma disposição para observar o mundo e devolvê-lo em estado bruto, mas não frio – antes, em estado de vigília.

Adriana lê poesia como quem reza, como quem cantarola uma canção antiga de Roberto. Tem ritmo próprio, e talvez por isso sua voz encontre ressonância: não procura convencer, apenas permanecer. Quem a acompanha de perto percebe que sua poesia chega de mansinho, e não nos deixa. A poesia fica. Só as estrelam mudam de lugar. 

Na intimidade “alheia”, a poeta conversa, indaga, provoca, muda de direção, fazendo o uso natural dos recursos da língua, nua e sem nome. No rebuliço das folhagens espalhadas nas páginas, o leitor desconfiará que a resposta pode estar soprando no vento selvagem. Pode ser Dylan. Mas pode ser Whitman.  

São poemas colhidos pela manhã numa dessas caminhadas feitas do suor que irriga a vida. A poesia de Adriana Gama de Araújo chega sem pedir licença e nos arrebata. Eu leio o livro e a ouço cantando.