sábado, 21 de março de 2026

No bairro da Lapa, em Lisboa, a poesia como resistência


Caminho pela tarde de sábado na Lapa, em Lisboa. O bairro oferece, com uma naturalidade antiga, duas impressões aparentemente opostas: a elegância aristocrática dos palacetes e embaixadas e um certo ar boêmio que se insinua nas ruas inclinadas, nos miradouros inesperados, na vista larga do Tejo que aparece de repente entre os prédios, como uma promessa azul ao fundo. A Lapa tem o viés pictórico de bairro que se ilumina com o charme do passado e essa solidão da contemporaneidade.


Na rua de São Ciro, o silêncio é quase uma companhia. Não é um silêncio vazio; é um silêncio que observa. Passos raros, janelas fechadas, algum rumor distante de trânsito que sobe das ruas mais baixas. Caminho devagar até parar à altura do número 26.


Ali, no térreo de um prédio de três andares, numa porta-e-janela modesta, está, há pouco mais de sete anos, a Livraria Poesia Incompleta. 


Não chego ao endereço por acaso. O lugar já estava marcado no meu roteiro. Finalmente conheceria aquela que talvez seja a única livraria do mundo – ou, ao menos, uma das raríssimas – dedicada exclusivamente à poesia.


Entro e ali no canto alto, estratégico, está Mário Guerra. Sentado diante do computador, em meio à fumaça do cigarro e a desordem de dezenas de livros espalhados sobre a mesa, magro, cabelo desalinhado, ele responde e-mails enquanto procura fotografias para publicar nos perfis de redes sociais da livraria. O silêncio do espaço é interrompido apenas pela voz rouca de Tom Waits, que escapa de algum alto-falante invisível e preenche o ambiente com uma melancolia adequada ao lugar.


As estantes guardam pilhas de livros de poesia vindos de várias partes do mundo, em diferentes línguas. Há cartazes e convites de antigos saraus colados no teto, lembranças de encontros que já passaram por ali. Um varal improvisado exibe gravatas penduradas, doação do poeta Carlos Mota de Oliveira, como se fossem bandeiras discretas de uma república literária.


Mário Guerra – ou Changuito, como o chamam amigos e clientes mais assíduos – levanta-se para me receber. Com naturalidade, começa a mostrar as seções da Poesia Incompleta. Além de livreiro, Mário é também editor e conta que o nome da livraria é uma referência à antologia Poesia incompleta, do poeta português Mario Dionísio. “Na incompletude está o encanto de uma livraria”, diz ele. A meu pedido, aponta alguns livros de sua predileção, retirando volumes das prateleiras com a intimidade de quem apresenta velhos conhecidos.


De humor ácido e frases curtas, que soam quase como aforismos improvisados, ele passa a falar sobre poesia, autores, leitores e resistência. E, enquanto conversamos, fica claro que aquela pequena livraria silenciosa na rua de São Ciro é menos uma loja de livros e mais um posto avançado de sobrevivência da poesia no mundo contemporâneo.


Livreiro por vocação e leitor por destino, Mário Guerra, aos 52 anos, fala da idade com ironia: diz que nunca se deve perguntar quantos anos tem um bêbado ou uma senhora. Ainda assim, confessa que já carrega algumas décadas convivendo com livros, poemas e leitores ocasionais.


A livraria teve três vidas ao longo do tempo. Passou pelo bairro lisboeta do Príncipe Real, onde funcionou entre 2008 e 2012, depois atravessou o oceano para se estabelecer por um ano e meio no Rio de Janeiro. Desde 2018 está na Lapa, onde a paisagem social parece condensar vários mundos numa mesma rua. E onde convivem ricos, pobres e remediados. Um mosaico urbano em que a livraria ocupa um lugar discreto.


– Aqui ninguém compra livros – diz ele com ironia. – É uma rua democrática nesse sentido: todos têm uma falta de interesse cósmica pela livraria.


O comentário não traz amargura. Antes, parece carregar uma espécie de resignação bem-humorada, própria de quem escolheu trabalhar com poesia em pleno século XXI.


 

A herança invisível


Mário não escreve poemas. Não reivindica esse lugar. Prefere se definir como leitor.


Mas a relação dele com a poesia nasceu cedo, quase inevitável. Cresceu numa casa onde versos circulavam como parte natural da vida. A avó sabia poemas de cor. A mãe, atriz, recitava versos desde a infância. Um tio jornalista também os decorava. O pai mantinha livros pela casa. E havia ainda a irmã mais velha, que se trancava no quarto para cantar Maria Bethânia e Caetano Veloso, algo que, para o jovem Mário, já tinha a força da poesia.


– Tive sorte de nascer numa família onde se lia – lembra.


Mesmo assim, começou a ler poesia relativamente tarde, por volta dos 16 anos. Desde então, nunca mais parou.


 

Uma casa de dez mil livros


Entre sete e dez mil títulos ocupam hoje as prateleiras da Poesia Incompleta. Mário não sabe ao certo. O número varia constantemente, como se a livraria respirasse.


Há clássicos e contemporâneos, autores consagrados e nomes quase desconhecidos. Poetas de diferentes países, épocas e estilos.


– Temos de tudo – diz ele. – Poetas vivos, poetas mortos, poetas gordos, poetas novos, antigos. Poetas de muitos lugares do mundo.


Os clientes são poucos, mas curiosos. E, ao contrário do que se poderia imaginar, não são acadêmicos ou especialistas em poesia.


– Quase não aparecem professores – comenta.


Quem chega costuma ser o que ele chama de leitores selvagens: pessoas de outras áreas – médicos, arquitetos, fotógrafos, advogados – que encontram na poesia uma forma particular de atenção ao mundo.

 

O mal-entendido da poesia


Mário diz acreditar que boa parte da distância entre o público e a poesia nasce na escola. Segundo ele, muitos estudantes aprendem desde cedo que a poesia é difícil, hermética, inacessível.


– Fica aquela ideia: isso não é para mim.


Para explicar o equívoco, ele recorre a uma comparação simples. Ninguém diz que não gosta do mar porque não o compreende. Ninguém rejeita as árvores por não saber explicá-las.


Mas com a poesia acontece algo curioso: muitos afirmam não gostar dela justamente por não entendê-la.


– A poesia carrega um anátema na cabeça por causa da escola — diz.


No entanto, quando alguém escuta um poema que toca alguma experiência íntima, a reação costuma ser imediata.


– Quando o poema fala, as pessoas ficam encantadas.


 

Jovens entre os versos


Contrariando um certo pessimismo cultural, muitos leitores da livraria são jovens. Existe o clichê de que poesia é coisa de juventude, da mesma maneira que se costuma dizer que ser de esquerda é um impulso juvenil. Mário ri dessa ideia, mas reconhece que, no caso da livraria, há um fundo de verdade.


– Uma parte grande desse pequeno público é jovem.


Há também leitores de idade avançada, de 70 ou 80 anos, claro. Mas frequentemente entram pessoas de vinte ou trinta anos, curiosas, inquietas, em busca de algo que talvez nem saibam definir.


Para o livreiro, isso indica que a poesia continua viva.


– A poesia ainda tem salvação – diz. – Ao contrário da humanidade.


 

Séculos de sobrevivência


Quando se pergunta se a poesia pode desaparecer, Mário responde com um raciocínio simples.


O cinema tem pouco mais de um século. As instalações artísticas e performances são ainda mais recentes. Já a poesia atravessa milênios.


– A poesia existe há muitos séculos – afirma. – A poesia é uma senhora velha, mas sempre fit e que desperta interesse, apesar dos pesares. 


Por isso, arrisca uma provocação:


– Talvez seja mais duradoura que o McDonald’s.


Ele vê na poesia um território híbrido entre pensamento e emoção. Há quem tente separar intelecto e sentimento, mas os poemas parecem ignorar essa divisão. Um verso pode atingir ao mesmo tempo a memória, a razão e o coração.


– É uma mistura muito bonita.


 

Os poetas que resistem


Quando fala da poesia contemporânea, Mário evita diagnósticos categóricos. Diz que é autodidata e que os autodidatas vivem “patinando em gelo fino”. Mas tem uma convicção: bons poetas sempre existirão.


– Poetas novos são os poetas que resistem [ao tempo] – comenta. E cita exemplos históricos que atravessaram séculos sem perder vitalidade: Gregório de Matos, Camões e o maranhense Sousândrade. Autores que continuam vivos porque seus versos ainda dialogam com leitores de hoje.


– Sousândrade tem 23 anos, porque uma pessoa que lê [o poema] hoje em dia sabe que aquilo continua bom.  


Mário Guerra reconhece que há muita poesia interessante sendo escrita em Portugal, Espanha e Brasil.


Entre os nomes que aprecia estão os espanhóis Luis García Montero, Pablo Fidalgo Lareo e Roger Wolfe (embora britânico de nascimento, vive na Espanha desde a infância), além de poetas portugueses como António Barahona, Alberto Pimenta e António Franco Alexandre.


Mas ressalta que o julgamento definitivo pertence ao tempo.


– Só o tempo decide o que fica – vaticina. – Só o tempo salva as coisas extraordinárias.


 

Ler como um animal livre


Perguntado sobre o que lê atualmente, Mário sorri. Como livreiro, ele lê várias coisas ao mesmo tempo. Alterna livros novos e releituras. Recentemente estava mergulhado numa novíssima tradução de poemas do grego Konstantínos Kaváfis, feita por um amigo, ou relendo a poesia da polonesa Wisława Szymborska.


– Eu sou um leitor um pouco selvagem – diz. – Leio fragmentos, volto a livros antigos, descubro coisas novas.


Da poesia portuguesa mais arejada, ou arrojada, ele cita Nuno Moura, Maria Brás Ferreira, Margarida Vale de Gato, além de Franco Alexandre, Alberto Pimenta e António Barahona.


– Mas aí entramos numa questão de gosto – ressalta.  


Essa liberdade de leitura talvez explique a relação de Mário com a poesia: uma convivência sem método rígido, mais próxima da curiosidade do que da erudição.


 

A falsa glória de ser poeta


Se há algo que preocupa Mário Guerra no presente é o fenômeno das redes sociais. Nunca houve tanta gente publicando poemas. E, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil transformar a palavra “poeta” em uma espécie de título honorífico.


– Há pessoas que acham que poesia dá status – observa.


Ele vê nisso um equívoco histórico.


A tradição poética, lembra, é feita de figuras marginais: bêbados, putas, pobres, rebeldes, órfãos, rejeitados, exilados.


– A história da poesia não é uma história de prestígio.


Mesmo assim, permanece otimista. A poesia, diz ele, tem algo de criatura mitológica.


– É como uma medusa. Cortam-lhe a cabeça e ela volta a crescer.


E talvez seja por isso que, mesmo numa rua em que quase ninguém compra livros, a livraria continua ali. Viva!


Entre prateleiras silenciosas, esperando pacientemente a chegada de leitores. 

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Os Paralamas e a galera nos tempos de Platão

 

Entre 1996 e 1999, vivi um daqueles períodos que, vistos de longe, ressurgem como retrato iluminado em sépia no canto mais lisonjeiro da memória. Ao lado da jornalista Francília Cutrim, fui repórter e editor do Galera, caderno juvenil do jornal O Estado do Maranhão. Fazíamos tudo. Texto, pauta, edição, revisão, dúvida, aposta e, na maioria das vezes, um certo salto no escuro.

 

Foi ali que aprendemos uma lição que a faculdade não ensinava: escrever para jovens não era apenas simplificar a linguagem ou trocar palavras difíceis por sinônimos mais amigáveis. Era outra pegada. Um deslocamento quase físico. Lírico. Exigia atenção ao ritmo, às gírias, aos silêncios. Pedia que a escrita soasse como fala, não como fala adulta disfarçada, mas como um discurso que pudesse, de fato, circular entre eles sem pedir licença. O desafio era escrever como se fôssemos da tribo, ainda que já não fôssemos – eles estavam na casa dos quatorze, quinze, dezesseis... Nós havíamos atravessado os vinte e poucos anos. 

 

A cada semana, nos jogávamos em novas pautas tentando chegar mais perto. Às vezes errávamos o tom, outras vezes acertávamos em cheio. Eu me apoiava quase sempre nas leituras feitas ainda nos corredores da Universidade Federal do Maranhão, especialmente em O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger. Aquele fluxo de consciência meio insolente de Holden Caulfield me parecia um manual não declarado de como falar com quem ainda estava descobrindo o mundo e, sobretudo, desconfiando dele.

 

Mas Francília quis ir além. Teve a ousadia de criar um colunista fictício para o Galera: Platão. Meio adolescente, meio filósofo de porta de cursinho, cheio de ideias e dúvidas, uma espécie de porta-voz improvisado das aflições, neuras e desejos da geração. Platão tinha espaço próprio e assinava a coluna Esse Lance em página nobre do caderno. Os primeiros textos foram escritos, a convite de Francília, pelo saudoso professor Nilson Amorim, do curso de Jornalismo da UFMA. Depois, eu e Francília passamos a nos revezar na redação da coluna. Sempre no anonimato, como convém a certos personagens.

 

Foi um período mágico. Um experimento raro, desses que só a juventude do jornalismo permite. Em muitas ocasiões, tivemos de emular sentimentos de meninos e meninas em fases difíceis, às vezes transformadoras, às vezes perturbadoras. Não era fingimento; era escuta atenta. Um exercício de empatia que deixava marcas.

 

Agora, começo a transcrever por aqui alguns dos textos que assinei como Platão. Inicio pegando mais uma vez carona no tema Os Paralamas do Sucesso – no último sábado reproduzi entrevista que a banda concedeu ao Galera em março de 1996 – para publicar a crônica “Lágrimas por ninguém”, datada de 14 de novembro de 1998.

 

Todos os textos que escrevi sob o pseudônimo de Platão foram atravessados por autoironia e recortes de música e poesia. Eu sentia essa necessidade de falar com os leitores usando uma certa musicalidade no meio — como se o texto fosse uma cantada tímida, um convite à escuta. Um jeito de tentar ser um deles. E, ao menos para mim, acho que funcionava.

 

“Lágrimas por ninguém” nasce de fragmentos da letra de Ela disse adeus (Herbert Vianna), canção incluída no álbum Hey na na. A crônica fala sobre relacionamentos que chegam ao fim com seus pequenos dramas – de antes e depois. Essa mesma edição do Galera traz ainda uma resenha do radialista Gilberto Mineiro (colaborador assíduo do caderno) sobre o lançamento do disco, como se tudo conspirasse para que aquela música continuasse ecoando, em prosa, na cabeça de quem lia.

 

Revisitar esses textos hoje é como abrir um caderno antigo e reconhecer, na caligrafia torta, alguém que a gente foi. Ou tentou ser. Platão era isso: uma tentativa honesta de diálogo. Um lance. E, quem sabe, era o bastante.

 

 

Lágrimas por ninguém

(publicado em 14 de novembro de 1998 – O Estado do Maranhão/Galera) 

 

Platão

 

Ela disse adeus e chorou – já sem nenhum sinal de amor. Pois é, assim como na música do Paralamas, alguém tem que chorar na vã tentativa de esboçar aquele tipo de sentimento quase-que-sacana. Outro amor se acabou. Como é difícil! O leitor das mal traçadas linhas aqui do Platãozinho a essa altura do campeonato já deve estar montando a seguinte equação: pé-na-bunda + chifre = dor de cotovelo.

 

Mas, cá pra nós, o que será pior: dizer adeus ou receber um reluzente cartão vermelho? Os mais afoitos responderão de imediato que um fora é sempre uma grande tragédia na vida de alguém. E é. Já vi neguinho baixar na emergência do São Domingos por causa de uma paixão mal resolvida. Não há fortaleza que não desmorone nessas horas. O cara perde o prumo e começa a descer o barranco do pânico. Só porque é triste o fim.

 

Mas a situação do Guto é diferente. Ela quis lhe pedir pra ficar – de nada ia adiantar. O meu chapa não sabia o que fazer diante da decisão de pôr fim a um rolo de quase quatro meses. Começou por onde quase todo mundo começa:

 

– Sabe, Cris, você é uma pessoa muito especial! (Se um dia alguém vier com esse início de papo pra cima de você, desconfie de cara, pois coisa boa não é. Essa história de pessoa especial é o equivalente ao gato que subiu no telhado. É morte na certa!). Pois é, mas Guto tentou ser sutil: – A nossa amizade é algo inabalável (outra treta que não merece muito crédito é essa conversa de amizade. Fuja desses “amigos”!). E continuou tentando dizer à Cris que tudo havia acabado, só que não conseguia chegar ao ponto: – Você merece coisa melhor na vida (pelamordedeus, isso é ridículo! É como se ele fosse o cara mais indicado do mundo pra apontar o caminho ideal a ser seguido pela mina. Vê se pode!). E fechou o diálogo com a batida frase: – A gente precisa dar um tempo para avaliar melhor os nossos sentimentos (Guto não precisava ser tão piegas, mas foi). O clichê ensaiado por ele provocou uma hecatombe no coração de Cris.

 

Quis lhe prometer melhorar – e quem iria acreditar? Cris tentou. Guto só não teve habilidade para conduzir a conversa final, mas uma coisa era certa: ele tava pra lá de decidido. Mais uma vez a lágrima e a impressão de que tudo não passou de um sonho. Cris – que nos momentos mais difíceis ofereceu abrigo nuclear a Guto – sentiu-se usada. Putz, a pior parte! Ele não precisa mais de você – sempre a última a saber.

 

Claro que é phoda ser esnobado, colocado pra escanteio – principalmente se tiver uma terceira pessoa na jogada. É uma verdadeira nóia. Só que a vida, maninho, segue.

 

Chato também é o outro lado da moeda. Justificar, explicar, não magoar... E uma porrada de coisas, sabe! É deselegante acabar um relacionamento. Mas, assim como as músicas, os romances tocam as pessoas – e passam! Senão não seriam romances.

 

 

Paralamas do pop

(publicado em 14 de novembro de 1998 – O Estado do Maranhão/Galera)

 

Gilberto Mineiro

 

Inaugurando uma nova forma de trabalhar, com o produtor Chico Neves, Os Paralamas do Sucesso fazem em Hey na na seu trabalho mais objetivo em termos musicais. Para os caras, trabalhar no minúsculo estúdio do produtor teve uma grande vantagem, apesar do espaço limitado e da tecnologia vintage: foi “da hora” ficar bem juntinho da música. Os três num estúdio – sem técnicos, operadores, auxiliares, etc. –, somente com o produtor e seu computador, deram origem a um disco no mínimo diferente.


 

Puxado pelo single Ela disse adeus nas FMs, Hey na na decola com vendagens iniciais que já garantem ao trio um novo disco de platina. E se o mercadão está nas mãos, o disco não faz feio com músicas rápidas, batidas eletrônicas e aquelas fusões características da rapeize da banda. Por sempre andar, a primeira faixa do disco, denuncia de cara as mudanças sonoras de Chico Neves. Os instrumentos vão ficando mais claros, com a guitarra mais na cara que os sopros e os vocais super cristalinos.

 

Depois da queda o coice, a segunda faixa (que é o single na Argentina, onde o disco tem cinco versões em castelhano), abre com diálogos de estúdio e segue com a mesma sonoridade. O refrão, que rendeu o título do álbum – no melhor estilo De do do do, de da da Da (Police) – tem tudo pra pegar... talvez até mais na Argentina do que aqui.

 

Muito legal o trabalho de Dado Villa-Lobos nas músicas Brasília 5:31O amor não sabe esperar e Um dia em Provença, digno de registro. 

 

A tônica do maracatu – O amor não sabe esperar, aliás, revela-se um reggae no melhor estilo Cidade Negra e logo se transforma no novo hit da banda (é tema de novela e tudo), solidificado pelo quase-dueto de Herbert com Marisa Monte. Chico Science desejava que Herbert fizesse a versão de uma de suas composições para o inglês – já tinha o título de Scream poetry, mas faltava virar letra. Vianna trouxe para o estúdio o maracatu atômico Jorge Mautner e utilizou a letra original de uma música que fez com o Bi Ribeiro.

 

O disco fecha com duas músicas descoladas. Primeiramente, Um dia em Provença (parceria de Herbert com Thedy Correa, líder do grupo gaúcho Nenhum de Nós); e depois Santorini blues, faixa título do recente solo acústico de Herbert. Grande citação aos Beach Boys, com direito a capela y otras cositas más.

 

O próximo trabalho dos Paralamas será tirado de um unplugged da MTV. Até lá, com a popularização de Eu sei – nas simultâneas interpretações de Paulinho Moska e Pato Fu – ninguém garante que a versão dos Paralamas vá sobreviver. Mesmo com bela levada beatle e o fechamento de Eight days a week. Na highway do mercado pop, os Paralamas vão cumprindo o seu papel de referência à longevidade na cena.

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Os Paralamas, trinta anos depois

 

Há trinta anos, Os Paralamas do Sucesso estiveram em São Luís para apresentar o show Vamo batê lata. Era uma quarta-feira, 27 de março, data que coincidia com meu aniversário, um detalhe quase circunstancial diante do que realmente importava naquele dia.


Na época, eu e a jornalista Francília Cutrim éramos os editores/repórteres do Galera, caderno juvenil do jornal O Estado do Maranhão. Antes do show, fomos ao antigo Hotel Vila Rica, no Centro de São Luís, para uma entrevista que se estendeu muito além do protocolo. Foi uma conversa longa, atravessada por ideias e algumas digressões, como costumavam ser as entrevistas daquele tempo.


O jornalista Otávio Rodrigues (profundo conhecedor do reggae e amigo da turma da banda) e o radialista Gilberto Mineiro acompanharam o encontro e também participaram do bate-papo. Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone viviam um momento especialmente fértil da trajetória do grupo. A conversa passou por temas como mercado fonográfico, heranças e limites do rock dos anos 1980, resquícios de censura, América Latina, reggae e a força criativa de Carlinhos Brown. Tudo tratado com franqueza, sem discurso pronto.


O material publicado dias depois no Galera tentou dar conta desse clima: menos entrevista formal, mais registro de um pensamento em movimento. Como era comum naquela fase, havia entusiasmo, informalidade, texto leve, alguma pretensão e a vontade de compreender um cenário musical que já dava sinais de transformação.


Vieram outros shows dos Paralamas na capital maranhense ao longo desses trinta anos (2003, 2012, 2014). A banda teve de se reinventar após o acidente com um ultraleve em Mangaratiba (RJ), em 2001, que deixou Herbert Vianna paraplégico – e que resultou na morte de sua esposa, a jornalista britânica Lucy Needham.


   

Hoje, 14 de fevereiro de 2026, os Paralamas retornam a São Luís, agora em pleno Carnaval (e acho que vai chover!), num Brasil bastante diferente daquele de 1996. Ao final desta republicação, recupero também uma resenha que escrevi naquele mesmo ano sobre Nove luas, disco então lançado pela banda. O texto carrega os excessos e as “convicções” típicas de alguém na quebrada dos vinte e poucos anos, tentando analisar os rumos do rock brasileiro em meio à transição de uma década para outra.


Reapresentado agora, o texto vale sobretudo como registro. Não como ajuste de contas com o passado, mas como lembrança de um tempo em que escrever sobre música ainda parecia uma forma legítima de participar do debate cultural, com mais perguntas que certezas. (As fotos da época são de A.Baêta)


Confere aí. 

 

 

Paralamas e os sons na batida da lata

(publicado em 30 de março de 1996 – O Estado do Maranhão/Galera)

 

Quarta-feira, 27 de março. A chuva castiga a noite, mas o público – adolescentes, a maioria – chega de mansinho no terreiro da AABB. Dez da noite e o pátio já está tomado de gente. Os Paralamas do Sucesso entram em cena para fazer quase três horas de show, a quarta vez que a banda se apresenta em São Luís. Lama, Cerpa, rock, reggae, funk e chuva fina. A novidade é o começo de tudo. Ninguém fica parado. O som bem que poderia estar melhor – um problema no transporte de equipamento impediu a passagem de som – mas não compromete a performance da batida da lata.

 

Será que vai chover? é uma provocação. A plateia está mais para Alagados ou Lanterna dos afogados. Aliás, essa é a música que mais bate nos corações e mentes da moçada. Mais pela poesia e pela batida que propriamente pelo prefácio de Herbert Vianna: a canção é inspirada num livro de Jorge Amado, cuja história fala de mulheres que ficam no porto à espera dos maridos pescadores. ‘Quando tá escuro/ E ninguém te ouve/ Quando chega a noite/ E você pode chorar/ Há uma luz no túnel/ Dos desesperados/ Há um cais de porto/ Pra quem precisa chegar’.

 

O funk come solto também numa viagem incidental em Luís Inácio (300 picaretas). Pesa ainda a titânica Diversão, que não deixa ninguém parado. E o reggae, irmão? Tem de tudo. Das baladas dos discos antigos, como O beco e A novidade, ao passeio bobmarleyano de Kaya. No show, uma coisa fica definitivamente provada: o reggae está no sangue dos maranhenses. 

 

Herbert Vianna, guitarra e voz; João Barone, bateria; e Bi Ribeiro, baixo. Que eles sacam muito de música, isso todo mundo sabe. O grande barato do show Vamo batê lata é a participação de outros bichos: o caso de João Fera, que debulha o teclado como quem reza. Tem ainda Eduardo Lyra, na percussão; Monteiro Júnior, no sax; Senô Bezerra, no trombone; e Demétrio Bezerra, no trompete.

 

Antes do show, porém, o Galera leva um longo papo com Herbert, Bi e Barone. Os caras falam de quase tudo. Pra começo de conversa, fazem questão de dizer que a música feita na América Latina é muito rica, mas que os brasileiros aprenderam a olhar atravessado pra ela.

 

As pesquisas, o reggae, os discos, o show, Carlinhos Brown, pop rock, nada passa batido na conversa. 

 

Respostas básicas:

 

“Em 1983, quando começaram a surgir as bandas, as gravadoras estavam atrás de coisas novas. A gente teve sorte de assinar um contrato, de escolher a gravadora que fosse mais legal. Isso aconteceu no Rio, e não em Brasília como costumam dizer. Já tínhamos uma fita demo com Vital e sua moto, que havíamos levado para a Rádio Fluminense”

 

“O sucesso aconteceu mesmo só em 1984, quando saiu o segundo disco, O Passo do Lui – que tem Óculos e Meu erro, as primeiras a ficarem mais conhecidas – e na verdade foi o primeiro porque tornou a banda mais conhecida (tirando Vital e sua moto, que é o hit da banda). Depois veio o Rock in Rio que ajudou a projetar o nome da banda e que nos ajudou, inclusive, a cruzar as fronteiras”

 

Como vocês analisariam a travessia do rock brasileiro dos anos 1980 para essa variedade de ritmos e tendências nos dias de hoje?

 

João Barone – O rock que sobreviveu aos anos 1980 e o som que apareceu de novo dessa época pra cá acharam os seus próprios meios para levar adiante uma coisa que já não era mais a moda do momento. Então, todo mundo sabe como é que a geração que apareceu com a gente sobreviveu a essa coisa toda da moda do rock brasileiro. De lá pra cá, sobraram algumas bandas daquela época e depois apareceu um monte de gente que descobriu uma estrutura pra sobreviver. O rock já não precisava aparecer nas novelas da Globo. Isso fez do rock uma coisa séria, que tem um público específico, que não precisa disputar com o pagode nas vendagens. Os Paralamas não fazem parte de nenhuma tribo. A gente faz a música de que gosta e acha legal quando toca no rádio. A gente gosta principalmente de poder tocar. E gravar um disco significa reciclar todas as ideias anteriores, tentar fazer alguma coisa diferente.

Herbert Vianna – Não há como comparar. Cada pessoa está o tempo inteiro tentando fazer uma coisa bem feita, tentando fazer música e dizer alguma coisa por diferentes razões. Uns, para fazer sucesso, porque é uma coisa justa e nobre; alguns fazem para expressar um ponto de vista; já outros, por pura paranoia. Enfim, é difícil comparar.


 

Sobre a censura que vocês sofreram em Brasília com a música Luís Inácio (300 picaretas), como foi isso?

 

João Barone – Bom, a gente tá agradecendo até agora a polêmica que gerou, porque vendeu pra caramba, além de provocar uma discussão séria sobre as coisas que estavam acontecendo na época... De repente, a volta da censura acabou projetando um pouco o nome da banda e nos trazendo mais pra berlinda. Acabou que não deu em nada, era uma coisa tão ridícula, tão caótica...

 

Como é que surgiu esse sucesso todo dos Paralamas no mercado latino-americano? 

 

Herbert Vianna – Foi muito batalhado. Começou mesmo por uma casualidade, quando no Rock in Rio I [1985] veio uma quantidade muito grande de pessoas de países como Venezuela e Argentina. Foi o primeiro grande festival na América Latina. E foi uma época em que a gente estava fazendo muito sucesso no Brasil. O público estava predisposto a receber a gente. Aproveitamos a oportunidade e nos saímos bem no festival. E essas pessoas levaram – e como levam! – as coisas boas feitas no Brasil. No ano de 1986 a gente foi pela primeira vez à Argentina, numa época em que a banda tinha um status muito elevado dentro da música brasileira. Fomos aos subúrbios de Buenos Aires, carregando caixas [de equipamentos de som] nas costas e tocando em botecos. A gente descobriu um prazer grande nisso. Era o início da conquista. Começar do zero... Isso fez com que a gente estudasse o nosso trabalho e foi definitivo no rumo que as coisas tomaram daí pra frente.

 

Como vocês situariam o Brasil no pop rock da América Latina?

 

Herbert Vianna – É uma grande presunção nossa achar que a música do Brasil é melhor que a feita nos outros países latinos. Os brasileiros acreditam que são os melhores. Os brasileiros, em geral, veem a América Latina como uma coisa inferior. Tudo que vem de Miami é excelente – embora seja uma bosta, mas para os brasileiros é excelente. Tudo que é da Europa ou dos Estados Unidos é fabuloso. Para isso existem explicações sociológicas ou culturais. Por que não se fala que a música brasileira é melhor que a música pop chinesa ou indiana? Isso é parte da filosofia norte-americana que o Brasil importou juntamente com o milagre econômico. A gente ignora e não tem a menor curiosidade. Tem muito preconceito. Todo mundo acha que espanhol é uma coisa brega. As pessoas não suportam. Eu tenho um amigo – que trabalha no meio musical – que diz o seguinte: “Se bosta falasse, falaria em espanhol”. Isso exemplifica muito esse tipo de pensamento. Eles são menos preconceituosos e aceitam a gente. Fito Paez é fabuloso.

Bi Ribeiro – E eles têm coisas boas lá, cara! Excelentes!


 

Como o reggae surgiu na praia dos Paralamas?

 

Bi Ribeiro – Na verdade, isso foi porque a gente começou a ouvir os grupos que misturavam reggae com rock. E também o punk, que tinha o Clash, no fim dos anos 1970. Foi daí que a gente começou a ouvir reggae mesmo. Antes ouvíamos Bob Marley e tal, mas não era uma coisa que nos influenciava diretamente. E logo depois do disco O Passo do Lui, o ‘Tatá’ ali [aponta para o jornalista Otávio Rodrigues, o Doctor Reggae, que acompanha a nossa entrevista] me apresentou muita coisa.

Herbert Vianna – O que levou a gente a ter vontade de ter uma banda e de tocar foi justamente a coisa pós-punk inglesa. Antes eu tocava jazz no violão. E no comecinho gostava de rock’n’ roll, ouvia Jimi Hendrix. Mas o rock naquela época virou uma coisa tão aborrecida... Então veio o punk que tocava coisas simples e rápidas, e falava de coisas da rua. Depois do punk, essas bandas tocavam ska e misturavam um pouco de reggae com rock. E isso foi o que realmente pegou a gente. Depois começamos a ouvir as bandas de reggae originais.

 

Depois do peso de Severino, o disco e o show Vamo batê lata podem ser considerados uma síntese do trabalho dos Paralamas?

 

Herbert Vianna – Acho que Vamo batê lata é um disco muito mais simples. As canções novas, especificamente, trazem uma coisa que a gente tinha no começo. Sem fazer juízo de valor, mas é que naquela época fazíamos uma coisa muito boa e abandonamos durante muito tempo, ou durante um certo tempo. Severino foi o nosso disco que menos vendeu [60 mil cópias]. E ele surgiu numa época em que o mercado fonográfico menos vendeu. Foi um disco que teve sucesso comercial fora do Brasil. Teve um momento em que a gente redescobriu o valor de fazer canções simples, com letras menos elaboradas e mais diretas, que refletiam mais o que acontece nas ruas, tipo Luís Inácio e Saber amar.

 

E o peso de Carlinhos Brown no cenário do pop brasileiro?

 

Herbert Vianna – Carlinhos Brown é justamente a vitória da ausência das fórmulas. Ele fez a música mais bem sucedida comercialmente do Caetano [Veloso] nos últimos tempos. A Marisa [Monte] ganhou vários prêmios com a música do Carlinhos. Transformou o Sepultura, nos transformou e deu ao Sérgio Mendes um Grammy. Brown é um polvo... Extremamente talentoso. Já conheci muita gente da música, mas nunca tive a sensação tão clara de estar diante do gênio como tenho diante do Brown.

 

O que vem pela frente?

 

Herbert Vianna – O novo disco já está pronto. Já gravamos a [fita] demo e agora, no dia 15 de abril, começaremos a produzir o disco com esse material novo. O disco deve ser lançado até julho, porque a gente quer trabalhar no segundo semestre em cima das coisas novas. É um trabalho que está mais para Vamo batê lata do que para Severino.

 

E qual o melhor disco dos Paralamas?

 

João Barone – É esse novo que a gente vai gravar.

Herbert Vianna – O disco que mais ouço – e que tenho o maior prazer em ouvir – porque é o mais bem feito, é Os grãos.

Bi Ribeiro – Eu tenho dois favoritos, que são Bora Bora e Selvagem.

Herbert Vianna – A gente passa muito tempo sem ouvir um disco e aí você põe ele pra tocar... Recentemente comecei a escutar Big bang e foi uma coisa. Nesse disco tem coisas muito boas. Severino, mais do que tudo, é um disco feito pra gente.

 

E o que explica essa longevidade dos Paralamas, quando muitas bandas brasileiras ficaram no ostracismo no início dos anos 1990?

 

Herbert Vianna – A gente teve sorte.

Bi Ribeiro – Ninguém naquela época pensava se iria durar um ou dois meses, ou dois anos.

Herbert Vianna – Ninguém nem pensava em gravar disco. O que todo mundo queria no começo era conseguir tocar no Circo Voador e participar da farra. Era uma festa. O Rio era uma espécie de suingue. A sorte é o fato de termos uma convivência pessoal tão boa. Somos três, mas há uns vinte, um monte de gente viajando e convivendo intensamente por muito tempo. Depois, é porque a nossa trajetória nos levou no pior momento da indústria brasileira – e no pior momento do rock brasileiro em termos de mídia, quando todo mundo estava de saco cheio. A gente estava começando a fazer sucesso fora do Brasil. E fizemos muito mesmo. Na Argentina lançamos três discos, e ganhamos dois de platina e um de platina duplo. E temos lá o nosso recorde de público num show, que foi de 90 mil pessoas. Então o nosso ego estava meio saciado numa época em que as vacas eram magras.

 

 

****

 

 

Nove luas resgata a musicalidade dos Paralamas

(publicado em 17 de agosto de 1996 – O Estado do Maranhão/Galera)

 

Quem vem acompanhando o tra­balho de Os Paralamas do Sucesso, de 1994 pra cá, é capaz de arriscar um palpite tão óbvio quanto prático: a banda mudou da água pro vinho. Quando estiveram em São Luís em março deste ano, Os Paralamas cantaram a pedra do disco Nove luas, lançado agora pela Emi.

 

Em entrevista ao Galera, Herbert Vianna disse que o disco pretendia dar sequência à veia pop presente em trabalhos anteriores da banda. “É um trabalho que está mais para Vamo batê lata do que para Severino”. Poucos dias depois do show em São Luís, Os Paralamas entraram no Estúdio Impressão, no Rio de Janeiro, e mandaram ver na prova final de Nove luas.

 

É natural que alguns mais afoitos condenem esse retorno aos anos 1980 da banda formada por Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone. Afinal, Severino é um trabalho meio experimental, de pesquisa carregada e de poesia densa. Muito bom. Mas para os ouvi­dos menos exigentes da geração MTV, o disco soava intelectualóide demais. 

 

Resgatar o baiano Tom Zé para quem está acostumado a ouvir Raimundos e coisas afins parece uma heresia. Vamo batê lata inicialmente não significaria uma ruptura com Severino e con­sequente retorno às origens da banda. O disco, gravado ao vivo e com algumas faixas-bônus – como Uma brasileira e Saber amar –, representava uma espécie de louvação à difícil cruzada de gerações. Seria, enfim, uma coletânea, uma festa de aniversário. Mas não. Foi muito mais.

 

Vamo batê lata (1995) vendeu mais de 800 mil cópias. Severino (1994) não passou de 60 mil discos vendidos. Taí a guinada dos Paralamas. “As músicas de Severino, por exemplo, partiam de conceitos. O resul­tado foram experimentos, não canções. Ficamos cheios daquilo, queríamos fazer can­ções de novo”, explica Herbert Vianna. Ele conta que hoje cansou de usar computa­dores na criação e que, defini­tivamente, voltou a tocar gui­tarra.

 

Música ligeira

 

Em Nove luas há 12 ata­lhos numa estrada já conheci­da pelo fiel público dos Paralamas. Há uma sonoridade mais simples e de fácil digestão. A banda voltou a passear pelo estilo pop, com variações afro-latinas. Das músicas do disco, La bella luna, composi­ção de Herbert, é a que apresenta maior suavidade melódica. “A noite passada/ Você veio me ver/ A noite passada/ Eu sonhei com você”. É uma música simples com uma letrinha ingênua e sem pretensões. Mas é aí que mora toda a combinação criativa dos três Paralamas.

 

Herbert Viana voltou a compor para o público e recuperou o tempero juvenil da banda. Pra isso, ele buscou o auxílio luminoso de Lulu Santos para a letra de Outra beleza. Herbert entregou o poema e Lulu devolveu com um samba cheio de suingue latino. Para a poesia quase concreta de Nando Reis em O caroço da cabeça, Herbert compôs uma baladinha bem ao estilo de Caleidoscópio.

 

No capítulo destinado às regravações, há espaço para coisas boas. É o caso de De música ligeira, versão em português para a canção da Soda Stereo, banda argentina que detona no mercado do pop latino-americano. É um pop rock pulsante que traz o brilho da guitar­ra de Herbert. Sem dúvida, o melhor momento do disco.

 

Lourinha Bombril, de outra banda argentina, a Pericos – essa ficou conhecida da galera de São Luís com o malhado reggae Runaway (ou “Melô de Jorge Balboa”) – abre o CD Nove luas com uma batida de ska. Os Paralamas desenterraram cuidado­samente a dupla Marcos e Paulo Sérgio Valle, que participou da cena musical brasileira nos anos 1970, e regravaram Capitão de indústria. Pegaram a letra politicamente corre­ta, deram um banho de harmonia e transformaram a música em outro grande momento do disco. Regravaram ainda Sempre te quis, de Herbert, uma velha conhecida das rádios que estourou na voz de Daniela Mercury.

 

Destaque ainda para a faixa Busca vida, para neguinho escutar deitado numa rede, de preferência em noite de lua & vinho. Difícil mesmo é descartar alguma música de Nove luas. É um disco pra ser ouvi­do do começo ao fim, sem moderação. Vale dizer também que é um trabalho feito sob medida para inundar a programação das rádios com pelo menos sete músicas. Fato raro hoje em dia na produção pop brasileira. Ah, só pra lembrar: o encarte do CD é de uma elegância marginal.

 

 

Onde o rock errou?

 

O sucesso dos Paralamas ficou eviden­ciado logo no começo da carreira. A músi­ca de estreia, Vital e sua moto, abriu caminho para uma carreira vitoriosa. O disco O Passo do Lui, de 1984, emplacou pelo menos seis músicas nas paradas. A explosão da banda era um reflexo do cal­deirão formado na década passada por um punhado de grupos de rock.

 

O momento era adequado. A cada dia surgia uma banda nova com o sotaque que ficou conhecido como rock nacional (ou rock brazuca ou BRock). A história de O Passo do Lui se repetia com o disco Dois, do Legião Urbana, que jogou nas rádios músicas como Daniel na cova dos leõesMúsica urbana IITempo per­didoÍndiosQuase sem quererEduardo e Mônica, entre outras.

 

Titãs detonava uma penca de hits com sua batida tribal no álbum Cabeça Dinossauro. Outros grupos ajudaram a engordar o mercado do gênero, que ven­deu discos aos turros. Assim vieram à luz Barão Vermelho, Blitz, Capital Inicial, João Penca, Ira!, Plebe Rude, Hojeriza, Heróis da Resistência, Inimigos do Rei, Nenhum de Nós, Metrô, Hanoi Hanoi, Uns & Outros, RPM, Engenheiros do Hawai... Havia também Lulu Santos, Lobão e Léo Jaime. E ainda tinha espaço para uma banda formada só por mulheres, a Sempre Livre. O movimento fer­via e era abençoado por festivais apoteóticos, como o Rock in Rio e o Hollywood Rock.

 

Era muito gente. A criação musical cedeu lugar para a produção em série, encomendada por gravadoras deslumbra­das com aquele filão de época. Resultado: não houve inovação no estilo, o embalo foi se perdendo no espaço como uma bolha de sabão – não tinha mais pernas para andar – e a criatividade chegou ao fundo do poço. Daí surgiram pérolas como “O meu coração é um porta-avião...”, “O amor é como um sabonete dentro d’água...”, “Minha mãe me falou que eu preciso casar, pois eu já fiquei mocinha...”.

 

O rock errou e a maioria das bandas sucumbiu à nova ordem do pop. Da turma dos anos 1980 sobreviveram Os Paralamas do Sucesso, Titãs, Legião Urbana e Barão Vermelho. O mais é pura insistência, porque o rock hoje fala uma outra língua.