terça-feira, 8 de setembro de 2026

Breve inventário afetivo de São Luís

 

Praça João Lisboa e Largo do Carmo são entregues revitalizadas

Praça João Lisboa / Foto: suacidade.com 


Cláudia Baima*

 

Quatrocentos e catorze anos de história. Quem melhor poderia falar sobre São Luís se não os seus paralelepípedos? Como não sei ouvir as pedras, pedi a amigos e amigas para enviar um tantinho de suas memórias da cidade. Qualquer coisa: locais, personagens, festas, lendas, comidas, passeios, livros, músicas, bebidas, gentes, saberes e sabores.

 

Começamos dos anos 1970 para cá, coletando miudezas inesquecíveis, como sentar na praça João Lisboa para sentir a tarde cair. Coisas que vivemos nos mais de mil e quatrocentos quilômetros quadrados cercados de águas, nessa terra tão plural que se veste de Upaon-Açu, de Atenas ou Jamaica brasileira, Ilha do Amor ou a Bela de Gonçalves Dias.

 

A palavra ‘infância’ foi a chave para sintonizar uma São Luís de tempos atrás. Tomar banho na Fonte do Ribeirão e aventurar-se pelos túneis subterrâneos até o minadouro d'água (acesso hoje bloqueado); ver passar a banda da Escola Técnica nos desfiles da Semana da Pátria; torcer pelo time do colégio nos JEMs; curtir os carnavais do Casino, Lítero e Jaguarema, ou os entrudos de rua fantasiados de fofão. Isso mesmo. Entrudo: “antiga festa popular de origem europeia e o principal ancestral do Carnaval moderno no Brasil e em Portugal. A palavra vem do latim introitus, que significa "entrada" (o início da Quaresma) ”.

 

O entrudo era uma brincadeira carnavalesca de rua. As pessoas jogavam água, maisena, ovos, tinta e lança-perfumes. De tão bagunçada que ficou, foi proibida em 1853, enquanto os foliões do “corso carnavalesco” desfilavam em carros abertose enfeitados - tradição que inspirou os atuais alegóricos e trios elétricos. Moradores da rua do Egito relembram as carrocerias cobertas de palha, simulando casas com personagens de nossa cultura. O fofão merece prosa. Desde criança, ter um fofão para brincar era uma iniciação. Com máscaras horríveis e uma roupa de chita muito fofa, no sentido literal de fofa. A diversão era correr atrás dos outros. Daí a expressão: “gruda no meu fofão” para entrar no cordão e não se perder na folia.

 

Juntar caquinhos de vivências não foi peleja. Foi mais um brincar de Jogo de Memória, Ligue os Pontos e Quebra-Cabeças no Planeta das Memórias. O mosaico foi ganhando coesão e nitidez. Um fogo no meio do peito aquecia os neurônios como marshmellow na brasa que derrete e expande! A batata frita no Lusitana; a finada árvore barrigudeira (Sumaúma) no Monte Castelo; a comida do Solar do Ribeirão e o visual de um antigo restaurante, na cobertura do prédio do Banco BEM – hoje Mirante da Cidade, de onde apreciamos 360 graus de beleza insular. A caldeirada da Base do Rabelo ou da Lenoca; os piqueniques nas dunas do rio Pimenta, atrás do Hotel Quatro Rodas; o sorvete de ameixa servido em taças, no Hotel Central; a paquera em frente ao edifício Caiçara, na rua Grande e os amores proibidos na Fonte da Saudade. Aliás, logo ali, o Mercado Central tem muita história no ar.…haja mocotó de manhã cedo!

 

Animado, o bastão de fala circulava: descer de rolimã as ladeiras do centro; catar sarnambi na praia; lambuzar-se com o cachorro-quente do Souza, na Praia Grande, ou do Cláudio, no Renascença; o caldo de ovos de Seu João e os tabuleiros de quebra-queixo da rua do Sol; o pastel do japonês da Praia Grande; a pimenta de Seu Tonico (pai do Zeca Baleiro); o jogo de chucho em terra batida;  filmes de qualidade no Cine Passeio, Cine Eden e Roxy; os quibes e esfirras do trailer Ali Babá; o sanduba no Bom de Boca da Lagoa ou do Flerte; o Samba da Fonte do Ribeirão.

 

O pôr do sol é capítulo à parte, assim como os bares. A começar pelo nosso Baixo Leblon, na Beira-Mar. E o Ferro de Engomar? Quem sabe, sabe. O sol vem e vai lindamente em vários pontos da ilha, de todas as praias. Bate uma luz diferente no Largo dos Leões, na praça Gonçalves Dias ou Largo dos Amores, nos mirantes de casarões. Quantas risadas no Bar Travessia do Beco do Teatro. O Ponto de Fuga e a catuaba do Diquinho, na Madredeus; o bar do Cajueiro, na Ponta d´Areia – palco de tantas criações da música maranhense, assim como os bares do Teteia e Onde o Vento faz a Curva; a carne de sol do Cabeça Branca; o Bar da Galeana, na esquina da rua da Cruz com a Saavedra; a cachaça do Batista ou a gelada do Bar do Leo, no Mercado do Vinhais; o caranguejo toc-toc na barraca Estrela d´Alva, na Litorânea ou do Nonato do Olho d´Água; o peixe frito do Capial, na Praia do Meio. 

 

Há remanescentes: os sorvetes de tamarindo, jaca, murici, tapioca e sapoti da lendária Elefantinho do Canto da Fabril ou na Sorveteria Stop; o batizado de  bumba meu boi na Capela de São Pedro; as festas da Casa Fanti Ashanti, no Anil; ir de catamarã para a Festa do Divino em Alcântara; os arraiais do IPEM; queimar palhinha no presépio de Terezinha Jansen em Dia de Reis; a cerveja com camarão seco no Mercado das Tulhas; as bolachinhas da padaria Santa Maria (centro); o reggae coladinho das radiolas descoladas; o cuscuz Ideal e o sorvete de coco (“vêêête côco”); a juçara com farinha d´água no Maracanã; o vento saliente da esquina do Egito com Afogados; o guaraná Jesus super gelado...

 

Longe de mim pincelar de melancolia tais lembranças. É só saudade, sem saudosismo. A pauta sempre é amor. E a ação pela qual se clama é conjugar o verbo amar. Todos os dias cuidar, proteger, garimpar e preservar maravilhas. É esticar o olhar para um futuro belo, bom e justo para todos. Afinal, a beleza do mosaico é o seu poder fractal de conter, na finitude da parte, o mistério do todo. Que venham nessa vibe os próximos anos desta cidade linda que a gente ama porque ama.

 

Eita, já tinha saído e voltei ao sentir ausências cruciais: bar Cafua das Mercês (no Ribeirão), bar do Badauê, Barril 2000, bar do Rui, Carnaval de segunda no Laborarte; Discotecas:  707 (no Júnior Center), Zig Zag (Salão Social do Lítero na João Lisboa), Jaguar (Clube Jaguarema), Gênesis (retorno do Calhau), PH (na av. Kennedy). 

 

E você, lembra de quê? Ou o que sugere na São Luís de hoje?

 

 

*Maria Cláudia Baima, jornalista e caçadora de vivências interessantes.

 

30 anos depois


 

Zé Luiz Nogueira*

  

É bom voltar a São Luís e passear por duas cidades, uma de trinta anos atrás quando parti, permeada por lembranças e a mais pura invenção, com rostos que me assaltam à memória, amigos que morreram, outros que achei que morreram, mas estão muito vivos. A outra cidade é a que os meus pés percorrem agora sob o sol de setembro, caminhando com o olhar maravilhado, tonto, atento às pequenas magias desse fim de inverno com modos de outono. 

 

Já não duvido dos encantos e feitiços dessa ilha, porque a explosão de sabores e cores que ela me devolve são prazeres que pareciam esquecidos, extintos. 30 anos não é pouco tempo, são 10.957 dias, considerando os anos bissextos desta longa ausência. Ou, dilatando ainda mais a noção de tempo, 262.968 horas, ou quinze milhões setecentos e setenta e oito mil e oitenta minutos sem suco de bacuri, sem as matracas do Bumba-Meu-Boi, sem os ventos de trinta nós da praia do Meio em outubro, sem a modorra das tardes quentes no centro histórico. É tempo demais…

 

É curioso, porque nem maranhense sou, mas por ter voltado depois de tanto tempo, uma saudade e uma sensação de pertencimento se fizeram presentes. Por isso aqueles que me virem passeando pelas ruas da cidade, não tomem como lágrimas o que verte dos meus olhos. É que eles, às vezes, suam com a emoção de tantas descobertas. Como citei o bacuri, creio que devo endereçar de forma mais precisa essa saudade. Digo do seu gosto final, aquele lá do fundo do gole, ou do quinhão derradeiro do seu creme. Não traz um travo cítrico que brinca entre a língua e o palato? Não sei o que é, mas de novo, me assombra e me deslumbra trinta anos depois. A vinagreira no arroz de cuxá, o camarão seco, o sotaque da Baixada, a força das marés, as saias fustigadas pelo vento, tudo isso marca meu olhar forasteiro. 

 

E no alvoroço das reminiscências que teimam em invadir a minha caminhada, versos se misturam numa embolada do tempo. Gonçalves Dias com Félix Lima, palavras de Sousândrade se embaralham ao Poema Sujo de Gullar, trechos do “Dono do Mar” de José Sarney parecem mixados aos pontos cantados no Tambor de Mina. É o tempo soprando nos meus ouvidos, com a sua linguagem própria e tomada por mistérios que me surpreendem. Entre esses fragmentos que surgem da paisagem em movimento, vem com a clareza de uma manhã de sol a lembrança da mãe de santo Elisa Georgina Mendes de Souza vestida de branco num terreiro e cantando: “menino quanto tu fô, me escreve lá do caminho, se tu não achá papel, nas asas dum passarinho…” 

 

*Zé Luiz Nogueira, que depois de exatos 30 anos, voltou à ilha de São Luís. 

(foto: Félix Alberto)

terça-feira, 21 de julho de 2026

Os livros de Daniel


Estudante de escola pública de São Luís leu 95 livros em 2023 


Parece uma cena comum, dessas que passam diante dos olhos tantas vezes que acabam ficando invisíveis. Mas, por alguma razão, a cena nunca foi invisível pra mim: uma senhora que todas as manhãs atravessa a minha rua em direção à casa do vizinho, onde trabalha como doméstica. Nas primeiras vezes a via levando o filho pequeno pela mão ou carregando-o nos braços. À distância, eu notava aquele esforço. No inverso, ela abria o guarda-chuva com uma das mãos e, com a outra, sustentava o menino junto ao corpo, como quem protege da água um pequeno amuleto. Não era esforço. Era algo maior. 

Eu não sabia os nomes deles. Sabia apenas que havia algo de extraordinário naquela travessia. Talvez fosse a maneira com que ela conduzia o menino até o local de trabalho. Talvez o modo como ele a acompanhava em silêncio, observando as pessoas, as árvores, a calçada. Ou talvez fosse apenas aquela impressão insistente de que algumas histórias caminham ao nosso lado muito antes de se deixarem conhecer.

Daniel com a mãe, dona Lauracy Oliveira Santos

Os anos passaram. Descobri há pouco tempo que ela se chama Laura. O menino, Daniel. E descobri, sobretudo, que a travessia não terminava na calçada da casa onde Laura trabalhava. Continuava nos livros.

Em 2023, aos nove anos de idade, Daniel leu noventa e cinco livros. Noventa e cinco. Não é exagero. Não é uma dessas histórias que crescem de boca em boca até se tornarem verossímeis. É um número registrado pela Unidade Integrada Padre Antônio Vieira, escola onde Daniel recebeu um diploma impresso em papel comum, simples, quase artesanal, mas capaz de valer mais que uma colação de grau na faculdade.

No alto do diploma, a direção da escola destacou o reconhecimento que talvez Daniel ainda não compreendesse em toda a sua dimensão: Leitor do Ano.

Há diplomas que registram uma conquista. Este registrava uma possibilidade. Porque, convenhamos, noventa e cinco livros não impressionam apenas pela quantidade. Impressionam pelo tempo em que vivemos. 

Vivemos na era das notificações que interrompem pensamentos, dos vídeos que duram segundos, das telas que disputam nossa atenção com a voracidade de quem nunca se satisfaz. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Ipec, o brasileiro lê, em média, apenas 2,4 livros por ano, considerando obras lidas integralmente ou em parte. Mais da metade da população sequer pode ser considerada leitora. Muitos alegam falta de tempo. Outros preferem as redes sociais. Ou simplesmente nunca adquiriram o hábito.

Daniel leu noventa e cinco. Enquanto o mundo acelerava, ele desacelerava página por página. Enquanto tantos passavam os dedos sobre telas, ele passava os olhos sobre palavras. Em 2022, Daniel havia lido 27 livros.

Dona Laura diz que se realiza no projeto do filho

Dona Laura, a mãe, conta que essa história começou em casa, quando fazia do momento de dormir um pequeno ritual. Daniel só fechava os olhos depois que ela lia uma história. Ela própria nunca teve facilidade para estudar. Cresceu no interior do Maranhão, onde os sonhos frequentemente precisavam esperar pela próxima oportunidade, que quase nunca chegava. Ainda jovem tornou-se doméstica. A jornada de trabalho foi ocupando os espaços que antes pertenciam aos cadernos.

Mas nunca deixou que a falta de oportunidades se transformasse em falta de esperança. Com o pouco que podia, comprava livros. Quando não podia comprar, buscava emprestados.

Os livros paradidáticos das filhas de Saulo e Luciana, os vizinhos donos da casa onde Laura trabalha, tornaram-se também companheiros inseparáveis de Daniel.

É curioso como a literatura quase sempre encontra uma fresta por onde entrar. Às vezes chega pelas grandes bibliotecas. Às vezes entra pela porta lateral.

Laura não mede esforços para alimentar essa fome do filho. “Minha luta é pensar no futuro dele”, diz. E acrescenta uma frase forte, difícil de esquecer:

– Talvez eu me realize no meu filho. Ele está fazendo o que eu não pude fazer.

Há uma delicadeza imensa nessa confissão. Não é alguém querendo viver a vida do filho. É alguém querendo vê-lo alcançar lugares aos quais nunca pôde chegar. E quando Laura diz que “o conhecimento que a leitura oferece poderá levar o Daniel a qualquer lugar”, a frase carrega um misto de metáfora e profecia. A mãe fala de destino, porque há lugares que só a leitura conhece.

Daniel, a professora Rúbia e a mãe Laura na premiação da escola

A professora Rúbia Oliveira percebeu cedo que formar leitores era muito mais do que melhorar notas de Português. Ela acompanhou Daniel e sua turma entre 2022 e 2025. Ajudou a criar um projeto simples, mas poderoso: incentivar a leitura de contos e fábulas para fortalecer a escrita.

Os resultados apareceram, a produção textual floresceu. Por meio do projeto Ciranda do Livro, a escola lançou um desafio improvável: os alunos reescreveriam, à mão, um livro inteiro de fábulas.

Escrever à mão. E num tempo em que quase tudo se digita. Talvez porque certas aprendizagens precisem passar antes pelos dedos para finalmente chegar ao pensamento.

Daniel mergulhou nesse universo. Leu praticamente todas as fábulas de Esopo. Apaixonou-se pelo mangá (a história em quadrinhos de origem japonesa) e descobriu o prazer do desenho. Hoje passa boa parte das férias desenhando personagens e sonhando com um livro que pretende escrever e ilustrar sozinho.

Quando fala disso, resume toda a experiência de leitura numa frase que parece ter sido escrita por alguém muito mais velho:

– Depois que a gente começa a ler, cria uma intimidade com as palavras.

É uma frase de menino. Mas também de escritor. Agora, aos onze anos, Daniel já revisou os próprios sonhos. Como quase todos os garotos brasileiros, quis ser jogador de futebol. Depois percebeu que talvez o caminho fosse outro. Hoje pensa em cursar Arquitetura. Ou lá na frente, quem sabe, abrir uma gráfica, imprimir os próprios livros.

É bonito imaginar esse futuro. O menino que um dia atravessava a minha rua nos braços da mãe talvez projete casas, edifícios. Talvez publique livros. Talvez desenhe cidades. Talvez faça tudo isso.

Ou talvez faça algo completamente diferente. Pouco importa, porque há coisas que já aconteceram. Ninguém poderá desfazer os livros que ele leu. Ninguém poderá apagar as palavras que passaram a morar dentro dele.

Volto à imagem de sete anos atrás. Dona Laura atravessando a rua, Daniel nos braços. Na época, eu imaginava que ela estava apenas indo trabalhar. Mas não. Ela carregava um menino. E carregava, junto dele, noventa e cinco livros que ainda nem haviam sido lidos. Uma fábula. 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Antes de Wonderwall, o Oasis já havia embalado torcedores ingleses em 2018


A Copa do Mundo e o canto das torcidas

 

A Copa do Mundo de 2026 chegará ao fim neste domingo deixando imagens que permanecerão por muito tempo. Avenidas tomadas por bandeiras, rostos pintados, trens e metrôs convertidos em procissões de cores, a alegria de quem viajou milhares de quilômetros apenas para dividir um abraço com desconhecidos unidos por um mesmo escudo. 

Dentro dos estádios, um espetáculo paralelo acontecia a cada partida. Não importava quem estivesse em campo: havia sempre uma torcida determinada a provar que futebol também se joga com a voz.

Argentinos, colombianos, equatorianos, cabo-verdianos, noruegueses. Cada povo levou consigo um jeito particular de ocupar o silêncio. Cantaram antes da bola rolar, durante o jogo e depois do apito final. Transformaram arquibancadas em corais improvisados, lembrando que uma seleção nunca entra sozinha em campo quando carrega atrás de si um povo inteiro.

O Brasil, infelizmente, perdeu essa partida.

É curioso perceber que justamente o país que ensinou ao mundo que futebol pode ser dança, que fez do samba uma linguagem universal e da alegria um patrimônio cultural, tenha se tornado tão tímido nas arquibancadas. Nossa torcida parece ter desaprendido a cantar. Não deixou uma marca sonora, não criou um refrão inesquecível, não empurrou a Seleção como já fez tantas vezes. 

Talvez ninguém tenha traduzido melhor a força dessa comunhão de vozes do que os ingleses.

Eles transformaram a canção Wonderwall, do Oasis, num hino universal da Copa. Ao final das partidas, jogadores e torcedores permaneciam juntos nas arquibancadas, cantando como se a música fosse uma extensão do próprio uniforme. A cena emocionou até quem não compreendia uma palavra de inglês. Porque certos coros dispensam tradução: basta sentir a vibração de milhares de vozes dizendo, ao mesmo tempo, que ninguém vence sozinho. 

Wonderwall fala daquela esperança que talvez seja capaz de nos salvar quando tudo parece confuso. É uma canção sobre confiar em algo maior que nós mesmos, mesmo sem saber exatamente o que é. No futebol, essa esperança ganha rosto coletivo. Deixa de ser um indivíduo para se tornar uma arquibancada inteira.

Na Copa da Rússia, em 2018, depois da derrota por 2 a 1 para a Croácia na semifinal, os ingleses já haviam evocado o Oasis ao cantar Don't look back in anger (a canção veio à tona nos estádios ingleses após ataque terrorista em Manchester em 2017). Não era uma celebração da derrota. A música convida a seguir em frente sem permitir que a raiva aprisione o passado. Diz, em outras palavras, que algumas dores precisam ser deixadas para trás para que a esperança continue encontrando lugar no coração. Naquele dia, perderam o jogo, mas ensinaram ao mundo que existe dignidade também no fracasso.

Uma torcida não existe somente para comemorar gols. Ela existe para sustentar afetos. Para lembrar aos jogadores que há um país respirando junto com eles. Para cantar quando se vence, mas também quando se perde. 

Talvez seja esse o maior aprendizado que esta Copa nos deixe.

O Brasil precisa reaprender a cantar alto nos estádios. E não falo daquele refrão batido e insosso “sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”. Precisa abandonar o grito de ofensa e recuperar o canto de encontro. 

Quando as arquibancadas da FIFA voltarem a ser mais coloridas, multirraciais e inclusivas, talvez o futebol recupere uma parte de sua alma. Porque nenhuma Copa é lembrada apenas pelos gols. As melhores permanecem vivas por causa das vozes que ecoam muito depois do apito final.

E, às vezes, um coro de milhares de desconhecidos consegue dizer sobre um país muito mais do que os jogadores que entram em campo.

 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

O futebol de Cabo Verde revela a força crioula de seu povo



Maria Cláudia Baima*[1]

 

Ontem vimos mais um empate vitorioso da seleção de Cabo Verde deixando o mundo perplexo. O primeiro foi em sua estreia na Copa jogando com a campeã Espanha dia 15 de junho. Muita gente perguntou: “Cabo o quê? ”. Poucos dias depois, vencendo todas as improbalidades, Cabo Verde repete o feito e emplaca 2 x 2 com o Uruguai, veterana bicampeã. A pergunta agora já não é tão simples. Queremos saber mais sobre esse desconhecido país que toma conta da mídia mundial e entrega farto material para criadores de conteúdo. Os temas falam de superação, união, fé, humildade, coragem, fracos contra fortes...mas olha, de fraco o povo cabo-verdiano não tem nada mesmo! Eu passei uns dias lá, antes do início da Copa. E conferi.

A História mostra que Cabo Verde é bem graduado na luta contra o improvável. Em 5 de julho de 1975, quando se tornou independente de Portugal, boa parte do mundo achava que Cabo Verde não se afirmaria como país.  “Improvável” era o veredito para as dez ilhas do arquipélago (as estrelas da bandeira) que, até 1460, era totalmente desabitado. Meio século depois, vencendo um percurso tão árido quanto as rochas de suas montanhas, Cabo Verde canta com garra e alegria a força de sua crioulidade, palavra essa cuja essência o mundo ainda está por conhecer. Penso até que essa retumbante presença dos Tubarões Azuis na Copa soa como as boas-vindas para que o mundo conheça Cabo Verde.

Viajei em um dos primeiros voos da Cabo Verde Airlines, depois de retomada a rota Recife – Praia, inativa desde a pandemia. Fui com a amiga Ana Lourdes Viana, também jornalista e maranhense. Devo a ela o impulso dessa viagem, pois tudo era apenas um esboço de sonho desde que conheci Misá Kouassi, em oficina de arte em Brasília, em 2013. Misá é uma artista cabo-verdiana que idealiza projetos como África Unificada e Aldeia Criativa para residência artística entre o Brasil e Cabo Verde. 

Com Misá Kouassi e senhoras de Porto Madeira, limpando as ruas para a festa de Santo Antônio. Atrás, escultura Anjo da Morabeza.

 

Cheguei em Praia no dia 28 de maio deste ano, com o dia nascendo, excepcionalmente nublado e úmido, como se a própria natureza nos dissesse: “meninas, aqui é seco e quente, mas hoje as recebo com a morabeza de 24 graus e um breve chuvisco”. Xuba ta chobê (A chuva está a cair)

Chegando no Aeroporto Internacional de Praia – Nelson Mandela.


Calhou de nossa chegada coincidir com um evento histórico no país: o I Encontro Internacional da Crioulidade Atlântica, promovido pelo presidente da República, José Maria Pereira Neves. É ele quem diz: “Não temos ouro, não temos diamante, não temos petróleo, temos apenas cabo-verdianas e cabo-verdianos e essa paz de Deus que no mundo de cá tem”. Ele é mesmo desse jeito: poético, simples, diplomático e muito amado pela população. Foi primeiro-ministro de Cabo Verde de 2001 a 2016 e venceu as eleições presidenciais de 2021. Tivemos o prazer de encontrá-lo. Depois conto mais.

De uns tempos para cá, recuso-me a ter pressa...devem ser os 60+. Últimas na fila da alfândega, mostramos o recibo da taxa de 38 euros para quem ficaria menos de 30 dias. Ainda no aeroporto, a fim de escapar da roubalheira do roaming, compramos um chip da Alou, operadora local. E aí conhecemos o arquiteto alagoano Enio Ricardo, que estava no mesmo voo. Papo vai, papo vem, ficamos no mesmo hotel, selando uma amizade que só muito de vez em quando acontece. Tem que ser louca o suficiente para ver sinal em tudo e sim, sou louca desse tanto e mais um pouco para sentir a morabeza de Cabo Verde em todo canto. A palavra morabeza deriva de morabi, do português antigo amorável (carinhoso, afável ou que inspira amor). Morabezapassou a ser dicionarizada na língua portuguesa como um regionalismo oficial de Cabo Verde para designar a arte de bem receber.

Esse encanto de pessoa é a Isa Oliveira ou Isa Baixinha, que me abraçou com seu gigante “Kurason”. Inspira-se no Brasil para tocar seu negócio de decoração de festas e cestas.

 

"Pa es terra li, morabeza é de kurason." (Nesta terra, o acolhimento vem do coração).

Voltando ao evento da Crioulidade Atlântica, é claro que nós três – Ana, Enio e eu estávamos na noite cultural do evento, que não por acaso (afinal, nada é) rolou bem perto do hotel, ao lado do point Café Sofia. Ao contrário de nós que fazíamos apenas turismo, Enio estava em pesquisa de campo para o doutorado e havia marcado com Aidil Borges, geógrafa cabo-verdiana. Mal sabíamos que Aidil seria mais uma abençoada amizade. Assistimos os shows e virei fã de um talento local conhecido no Brasil, chamado Princezito. Embora o português seja a língua oficial, o crioulo é a língua de fato falada. É a fala do coração. Princezito fez piada dizendo que só falam português quando pedem dinheiro emprestado a um amigo. Foi aflitivo querer entender e participar das risadas. Quando não resistia, pedia tradução para Aidil, que gentilmente explicava. Aliás, muito do que escrevo aqui resulta das conversas que tivemos com Aidil, tomando o vinho Chã, o Café do Fogo e degustando a parrilhada de mariscos. No cardápio típico, o destaque vai para a cachupa, prato nacional à base de um guisado de milho e feijão, variando as carnes. O cheiro da cachupa está por todo lado desde que o sol nasce. Tem ainda caldeirada de cabrito com feijão, queijo de cabra e muitos peixes. Evite um que se chama Bica - saboroso, mas cheio de espinhas.

Restaurante Casa da Sogra, no Plateau. Delícia de peixe serra!

(700 escudos ou R$ 38)

 

E o crioulo nasceu!

Aidil contou-nos sobre a diáspora que ainda perdura e sobre a gênese do crioulo, que evoluiu do pidgin, um sistema simples de comunicação que surge quando pessoas que não falam o mesmo idioma precisam se comunicar. A expressão “crioulo” vem de criar. Nesse caso, criada a partir da mistura de africanos, portugueses, genoveses a serviço da Coroa portuguesa e judeus sefarditas que atuavam na “colonização” de Cabo Verde. Quando um pidgin é adotado por uma comunidade e segue para as próximas gerações, sua gramática fica mais complexa e torna-se língua materna. O ALUPEC (Alfabeto Unificado para a Escrita do Cabo-Verdiano) é o sistema de escrita oficial de Cabo Verde, criado em 1998 e oficializado em 2005 para padronizar e valorizar o crioulo. 

 

Outras palavras do crioulo cabo-verdiano para definir sentimentos e estados de espírito complexos:

 Sodade: Embora derive da "saudade" portuguesa, ganhou contornos únicos na alma crioula. Representa a dor da separação provocada pela emigração histórica do povo, a falta de quem partiu e o desejo profundo de regressar às ilhas. 

Cretcheu: Significa o amor da sua vida, a pessoa mais querida ou o seu bem mais precioso. Deriva da expressão portuguesa antiga "querer cheio" (amar plenamente) e é usada para se referir ao parceiro ou parceira com imenso afeto. 

Magoado: Estar magoado em crioulo vai além da simples chateação. É uma tristeza d'alma, uma melancolia ou decepção emocional densa que afeta o comportamento.

Sabi: Define plenitude, bem-estar e felicidade extrema. Um momento ou um lugar que "está sabi" transmite uma paz gostosa, alegria e satisfação. 

Kizomba: Embora hoje seja gênero musical, a palavra de origem banta expressa congraçamento, celebração coletiva e a alegria de festejar em comunidade.

 

"Ken mostrá-be es kaminhu lonje? / Es kaminhu pa Santumé?"
letra da música Sodade, de Cesária Évora: (Quem te mostrou esse caminho longe? / Esse caminho para São Tomé?)

O cabo-verdiano passou por muita dor e sofrimento desde que as ilhas foram povoadas. Atravessou secas, fome, mortandades, diásporas e escravização. Resistiu, aprendeu a dialogar apesar das diferenças, superou e reinventou-se como pátria no meio do Atlântico. Esse caminho permeia a alma da música cabo-verdiana, seja na nostalgia da morna ou na elétrica celebração do funaná. A icônica morna Sodade, mundialmente eternizada na voz de Cesária Évora, canta o momento da partida não como uma escolha romântica, mas como uma separação dolorosa e forçada, quando os cabo-verdianos deixaram suas ilhas castigadas pela seca para trabalhar em condições análogas à escravidão nas roças de cacau e café de São Tomé e Príncipe. Devido à intensa miscigenação por várias gerações, é bastante numerosa a população de origem e ascendência cabo-verdiana em São Tomé e Príncipe. A presidência de Cabo Verde promove missões oficiais de escuta a essa população, estruturando agendas de apoio mútuo que incluem, por exemplo, documentação, bolsas de estudo e apoio a idosos e agricultores. Na atualidade, Mayra Andrade é uma das artistas mais versáteis do país. Sua música mistura a morna tradicional com jazz e música popular brasileira. E foi por causa de sua doce voz que minha amiga Ana decidiu conhecer Cabo Verde. 

"Tudo dretu, e bô?" (Tudo bem, e contigo?)

Feira da Várzea aos domingos, em Praia.


Mercado Sucupira, em Praia

 

O povo cabo-verdiano é realmente a maior riqueza desse país. O vento espalha a alegria dos sotaques crioulo em alto e bom som, e é nos mercados que essa cantoria se concentra. O mercado Sucupira funciona de segunda a segunda. Tem de tudo, até barracas de almoço com pratos de diferentes etnias africanas. Fica na Zona da Fazenda, Várzea, a poucos minutos a pé da região histórica do Plateau, onde nos hospedamos. É na Várzea também que acontece, todo domingo, a feira saldão-de-tudo-um-pouco, especialmente roupas, novas e usadas. Parte da avenida é interditada e vale a pena. Lá ganhei mais uma amizade: D. Fátima, a simpatia em pessoa e irredutível na barganha – qualquer peça é 200 escudos (R$ 11) ...e pode garimpar à vontade! Fiz um elogio ao pano que ela usava na cabeça. Rindo, disse que era uma saia enrolada e que agora passava a ser minha. Marcou de encontrar comigo dois dias depois para entregar a saia, lavada e passada.

 

D. Fátima na feira da Várzea e, depois, entregando a saia

 

Como disse, chegamos em Praia durante um evento histórico. Não foi exagero. Em várias entrevistas o presidente José Maria Neves confirma sua proposta de fazer da crioulidade um projeto de futuro: “Cabo Verde encontra-se hoje em um momento raro da sua história.  Momento em que a memória e o futuro se encontram; momento em que aquilo que fomos nos interpela sobre aquilo que ousamos ser. E é precisamente nesse cruzamento entre história, identidade e visão que nasce o encontro internacional da crioulidade”. Na noite cultural, o presidente passou por nós e cumprimentou Aidil. Ela disse: “esse é o nosso presidente, estudamos na mesma escola”. Hã?! Sim, ela completa…presidente da República de Cabo Verde. Sem seguranças, sem comitivas, sem pompas. Aproximou-se, fez fotos com a gente e confessou que o Brasil é sua segunda pátria, pois morou em São Paulo quando estudou na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Falamos do trânsito na 23 de Maio, de nossa irmandade ancestral e brincamos se Cabo Verde seria um pequeno Brasil ou se o Brasil seria um grande Cabão. 


José Maria Neves, presidente da República de Cabo Verde e Enio Ricardo, arquiteto alagoano.

 

Passeio a Tarrafal

Ir a Tarrafal é indispensável para quem está em Praia. O melhor mesmo é ir de taxi e pagar cerca de dois mil escudos cabo-verdianos (cve) = R$ 107,50. Optamos por vivenciar a corrida nas yasis (vans coletivas) que custa 600 cve (R$ 33) e só saem do terminal quando lotam. Ou seja, chegamos lá 6h30 da manhã e a van só saiu 9h. Fez parte, claro, mas quem avisa, amigo é. Até porque o percurso é ladeira acima por uma hora e meia, espiralando até o extremo norte da ilha. Lá chegando, só beleza. Areias claras, coqueiros, ondas mansas e água cristalina, nem morna nem fria – um convite sedutor para nadar de boa! É zona pesqueira e a paisagem é colorida de barquinhos vermelhos. Almoçamos uma garoupa grelhada com arroz e legumes, preparado ali mesmo na nossa frente. 

Casa em Tarrafal, próxima à ladeira de acesso à praia


Estacionamento de barcos de pesca, em Tarrafal


Caminhar pelas ruas é tranquilo. Tudo limpo, banheiros públicos nas praças e surpresas à noite: jovens travando batalhas de rua (rimas ou repentes). Sem álcool, sem drogas. Esse é o @arylopes16


Palmarejo, bairro pertinho do Plateau, vale a saída. Aidil, Ana e eu caminhamos pela orla e curtimos a paisagem no Nice Kriola. O pastel de milho é item básico!

 

Cidade Velha - o berço da nação

Fundada em 1462, a Cidade Velha (Ribeira Grande de Santiago) é Patrimônio Mundial da Humanidade e foi o primeiro povoamento europeu nos trópicos, por onde passaram navegadores como Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Cristóvão Colombo. Fica a 15 km da capital Praia e desta vez fomos de taxi por 1600 cve. “Morabezamente”, o motorista Carlos esticou o passeio até a Fortaleza Real de São Filipe, de onde se vê toda a Cidade Velha. Passeamos pelas lindas casinhas de pedra da Rua da Banana e visitamos a Igreja Nossa Sra. do Rosário, construída em 1495. Comprei de um alfaiate local um lindo tecido africano 100% algodão e subimos até a Fábrica de Grogue, onde produzem uma excelente cachaça, com visita guiada para conhecer todo o processo. Voltamos outro dia com Aidil e nos deliciamos com a famosa parrilhada de mariscos no restaurante Old City.

Rua da Banana e suas casinhas de pedra


Gente, é o seguinte. Não dá para contar tudo, até porque nem seria possível ver tudo. Enio viajou para outras ilhas, como São Vicente e Santo Antão, e fez a gentileza de compartilhar fotos. Faltou falar dos rabelados, grupo que se rebelou contra a igreja católica que quis impor regras diferentes às suas centenárias tradições e se isolaram nas montanhas. Aos poucos retornaram e as crianças já frequentam a escola. Sou grata à morabeza de Sr. Julião Varela que cedeu carro e o simpático motorista Neném para levar-nos à aldeia de Porto Madeira, sob a guiança de Misá Kouassi. É lá que ela pretende revitalizar com as residências artísticas. Almocei um feijão cultivado na roça do quintal do Sr. Pidito. Ele conta que antes havia cerca de 350 moradores em Porto Madeira e hoje restam 25 - um exemplo gritante da atual diáspora cabo-verdiana. A creche funciona em uma pequena sala frequentada por apenas cinco crianças. 

Creche em Porto Madeira

 

Spadjado na mundo (Espalhados no mundo)

A diáspora cabo-verdiana é uma questão séria. Estima-se que só nos Estados Unidos vivam mais de 750 mil cabo-verdianos de quatro gerações. Segue-se Portugal, onde se acredita morarem mais de 360 mil cabo-verdianos. E depois França, Angola, São Tomé e Príncipe. “Nunca houve uma estatística rigorosa, embora sempre soubéssemos que havia mais cabo-verdianos nos Estados Unidos do que aqui. No ano passado foi feito um recenseamento pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e Comunidades e foi concluído que, ao todo, são dois milhões, ou seja, dois terços vivem fora de Cabo Verde e um terço está aqui ”, revela Aidil.


Memória e futuro

O lema do evento Crioulidade Atlântica - “edificar pontes e construir um futuro melhor” - lembra o importante símbolo dos povos Akan, de Gana e Costa do Marfim – o Sankofa, que representa a importância de voltar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro. Segundo o presidente, símbolo escolhido para o evento foi a tartaruga – porque ela atravessa oceanos sem fronteiras, regressa sempre à origem, liga silenciosamente as margens do mundo, tal como a crioulidade. Hoje, em um mundo fragmentado por identidades rígidas, por tensões culturais e por crescentes incompreensões, a crioulidade surge como uma proposta. Uma proposta de humanidade. Uma proposta de convivência pacífica. Uma proposta de um futuro melhor. (...) este encontro não é apenas sobre Cabo Verde, nem sequer apenas sobre o Atlântico. É sobre o mundo que queremos construir. É sobre a capacidade de transformar diversidade em força. De transformar memória em futuro. E de transformar identidade em pontes. (...) não estamos apenas a organizar um evento. Estamos a iniciar um movimento - um movimento de ideias, um movimento de ligação, um movimento de futuro que queremos seja muito melhor. E é nesse espírito que dirigimos um convite claro aos Estados, às organizações internacionais, às Universidades, às empresas, às diásporas, a todos e a todas para que se associem a esta iniciativa. Para que participem, para que contribuam, para que co-construam, porque a crioulidade não se celebra apenas: constrói-se, projeta-se, partilha-se. E Cabo Verde está pronto a liderar esse caminho. (...) o diálogo é possível, o encontro é possível, a paz é possível e podemos ter um mundo mais humano. Podemos ser humanistas e as nações crioulas referem-se a tudo isto”. 


A crioulidade é a soft power de Cabo Verde 

Fala-se muito em soft power para explicar a ideia de conseguir o apoio de outros países por meio da admiração e do respeito. A crioulidade é a soft power cabo-verdiana - esse talento de criar possibilidades dentro dos mais improváveis cenários. O grande herói da independência Amílcar Cabral já trazia em si essa força branda capaz de semear a independência com paciência e determinação. Seu corpo foi morto dois anos antes da vitória contra as armas portuguesas, mas sua alma imortal soube escrever o destino de liberdade para Cabo Verde. 

É “bonitu” ver o orgulho que homens, mulheres e crianças têm de sua pátria. Mesmo antes da Copa começar, a cidade de Praia exibia bandeiras em janelas, carros e roupas. Um sorriso profético parecia dançar nos rostos de cada um. Com este segundo jogo com o Uruguai, mais da força crioula ganha asas e pinta as cores da bandeira cabo-verdiana em muitos kurasons. O meu, que já era verde e amarelo, agora tem dez estrelinhas amarelas. Voltei ao Brasil antes da Copa, mas estou festejando como se lá estivesse. E por haver ainda tanto a conhecer é que pretendo voltar. Cabo Verde, nka ta skeci de bô (Não me vou esquecer de ti).


FOTOS:

Ponta do Sol, Ilha de Santo Antão  (foto Enio Ricardo)

 

Porto Novo, Ilha de Santo Antão  (foto Enio Ricardo)

 

Praia, Ilha de Santiago (um dos muitos vendedores de cangas e vestidos -  foto Enio Ricardo)

 

Paul, Ilha de Santo Antão (foto Enio Ricardo)


Mercado de Mindelo, Ilha de São Vicente (foto Enio Ricardo)


Mindelo, Ilha de São Vicente (foto Enio Ricardo)


Praia da Laginha, Mindelo, Ilha de São Vicente (foto Enio Ricardo)


Aula de Capoeira - Centro Cultural Mindelo, Ilha de S. Vicente (foto Enio Ricardo)


Boteco em Mindelo. A frase Fidju di Tera é muito comum em vários muros e fachados do país. Significa Filho da terra (foto Enio Ricardo)


Fila do sorvete no Dia da Criança, feriado nacional, em 1º. de junho (foto Ana Lourdes Viana)


No voo de volta, a simpática companhia de Armandinha Cunha, Miss Cabo Verde e candidata a Miss Universo (foto Ana Lourdes Viana)


 

 

TEM MAIS...

·       Sobre Cabo Verde - https://feelcaboverde.com/

·       Cesária Évora – A Diva dos Pés Descalços - https://www.youtube.com/watch?v=ky5yjog0O0k&list=PLjaRk8qNNioxK8lvSksW32rC06Dh5-IGH

·       Cesária Évora Nha Sentimento -Documentário 2010

https://youtu.be/qzQWOdojzaA

 

·       Documentário Revolução nos Rabelados - de Mario Cabral) -  https://www.youtube.com/watch?v=UQ9ocee6Yi8

·       Documentário “Um Milagre no Atlântico”, estreia prevista para o último trimestre de 2026. Narração e produção executiva do cantor Seu Jorge, que se diz bisneto de mulher cabo-verdiana. Filmado entre as ilhas cabo-verdianas e comunidades da diáspora, o projeto acompanha os Tubarões Azuis numa jornada que liga futebol, música, língua crioula e memória coletiva.

·       Documentário Rua Banana Cidade Velha, de https://www.youtube.com/watch?v=2OUZXUqAq18

·       Batukadeiras de Cabo Verde https://youtu.be/SSFt4ewGNOg?list=PLTqL0gf1J3BNSOsaxISrt_RxkKpU9GH6l

 

 

 

 

 

[1] Maria Cláudia Baima é jornalista, pedagoga e interessada em detectar sinais de um mundo melhor e mais humano em tudo que acontece (ou ainda não).