terça-feira, 21 de julho de 2026

Os livros de Daniel


Estudante de escola pública de São Luís leu 95 livros em 2023 


Parece uma cena comum, dessas que passam diante dos olhos tantas vezes que acabam ficando invisíveis. Mas, por alguma razão, a cena nunca foi invisível pra mim: uma senhora que todas as manhãs atravessa a minha rua em direção à casa do vizinho, onde trabalha como doméstica. Nas primeiras vezes a via levando o filho pequeno pela mão ou carregando-o nos braços. À distância, eu notava aquele esforço. No inverso, ela abria o guarda-chuva com uma das mãos e, com a outra, sustentava o menino junto ao corpo, como quem protege da água um pequeno amuleto. Não era esforço. Era algo maior. 

Eu não sabia os nomes deles. Sabia apenas que havia algo de extraordinário naquela travessia. Talvez fosse a maneira com que ela conduzia o menino até o local de trabalho. Talvez o modo como ele a acompanhava em silêncio, observando as pessoas, as árvores, a calçada. Ou talvez fosse apenas aquela impressão insistente de que algumas histórias caminham ao nosso lado muito antes de se deixarem conhecer.

Daniel com a mãe, dona Lauracy Oliveira Santos

Os anos passaram. Descobri há pouco tempo que ela se chama Laura. O menino, Daniel. E descobri, sobretudo, que a travessia não terminava na calçada da casa onde Laura trabalhava. Continuava nos livros.

Em 2023, aos nove anos de idade, Daniel leu noventa e cinco livros. Noventa e cinco. Não é exagero. Não é uma dessas histórias que crescem de boca em boca até se tornarem verossímeis. É um número registrado pela Unidade Integrada Padre Antônio Vieira, escola onde Daniel recebeu um diploma impresso em papel comum, simples, quase artesanal, mas capaz de valer mais que uma colação de grau na faculdade.

No alto do diploma, a direção da escola destacou o reconhecimento que talvez Daniel ainda não compreendesse em toda a sua dimensão: Leitor do Ano.

Há diplomas que registram uma conquista. Este registrava uma possibilidade. Porque, convenhamos, noventa e cinco livros não impressionam apenas pela quantidade. Impressionam pelo tempo em que vivemos. 

Vivemos na era das notificações que interrompem pensamentos, dos vídeos que duram segundos, das telas que disputam nossa atenção com a voracidade de quem nunca se satisfaz. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Ipec, o brasileiro lê, em média, apenas 2,4 livros por ano, considerando obras lidas integralmente ou em parte. Mais da metade da população sequer pode ser considerada leitora. Muitos alegam falta de tempo. Outros preferem as redes sociais. Ou simplesmente nunca adquiriram o hábito.

Daniel leu noventa e cinco. Enquanto o mundo acelerava, ele desacelerava página por página. Enquanto tantos passavam os dedos sobre telas, ele passava os olhos sobre palavras. Em 2022, Daniel havia lido 27 livros.

Dona Laura diz que se realiza no projeto do filho

Dona Laura, a mãe, conta que essa história começou em casa, quando fazia do momento de dormir um pequeno ritual. Daniel só fechava os olhos depois que ela lia uma história. Ela própria nunca teve facilidade para estudar. Cresceu no interior do Maranhão, onde os sonhos frequentemente precisavam esperar pela próxima oportunidade, que quase nunca chegava. Ainda jovem tornou-se doméstica. A jornada de trabalho foi ocupando os espaços que antes pertenciam aos cadernos.

Mas nunca deixou que a falta de oportunidades se transformasse em falta de esperança. Com o pouco que podia, comprava livros. Quando não podia comprar, buscava emprestados.

Os livros paradidáticos das filhas de Saulo e Luciana, os vizinhos donos da casa onde Laura trabalha, tornaram-se também companheiros inseparáveis de Daniel.

É curioso como a literatura quase sempre encontra uma fresta por onde entrar. Às vezes chega pelas grandes bibliotecas. Às vezes entra pela porta lateral.

Laura não mede esforços para alimentar essa fome do filho. “Minha luta é pensar no futuro dele”, diz. E acrescenta uma frase forte, difícil de esquecer:

– Talvez eu me realize no meu filho. Ele está fazendo o que eu não pude fazer.

Há uma delicadeza imensa nessa confissão. Não é alguém querendo viver a vida do filho. É alguém querendo vê-lo alcançar lugares aos quais nunca pôde chegar. E quando Laura diz que “o conhecimento que a leitura oferece poderá levar o Daniel a qualquer lugar”, a frase carrega um misto de metáfora e profecia. A mãe fala de destino, porque há lugares que só a leitura conhece.

Daniel, a professora Rúbia e a mãe Laura na premiação da escola

A professora Rúbia Oliveira percebeu cedo que formar leitores era muito mais do que melhorar notas de Português. Ela acompanhou Daniel e sua turma entre 2022 e 2025. Ajudou a criar um projeto simples, mas poderoso: incentivar a leitura de contos e fábulas para fortalecer a escrita.

Os resultados apareceram, a produção textual floresceu. Por meio do projeto Ciranda do Livro, a escola lançou um desafio improvável: os alunos reescreveriam, à mão, um livro inteiro de fábulas.

Escrever à mão. E num tempo em que quase tudo se digita. Talvez porque certas aprendizagens precisem passar antes pelos dedos para finalmente chegar ao pensamento.

Daniel mergulhou nesse universo. Leu praticamente todas as fábulas de Esopo. Apaixonou-se pelo mangá (a história em quadrinhos de origem japonesa) e descobriu o prazer do desenho. Hoje passa boa parte das férias desenhando personagens e sonhando com um livro que pretende escrever e ilustrar sozinho.

Quando fala disso, resume toda a experiência de leitura numa frase que parece ter sido escrita por alguém muito mais velho:

– Depois que a gente começa a ler, cria uma intimidade com as palavras.

É uma frase de menino. Mas também de escritor. Agora, aos onze anos, Daniel já revisou os próprios sonhos. Como quase todos os garotos brasileiros, quis ser jogador de futebol. Depois percebeu que talvez o caminho fosse outro. Hoje pensa em cursar Arquitetura. Ou lá na frente, quem sabe, abrir uma gráfica, imprimir os próprios livros.

É bonito imaginar esse futuro. O menino que um dia atravessava a minha rua nos braços da mãe talvez projete casas, edifícios. Talvez publique livros. Talvez desenhe cidades. Talvez faça tudo isso.

Ou talvez faça algo completamente diferente. Pouco importa, porque há coisas que já aconteceram. Ninguém poderá desfazer os livros que ele leu. Ninguém poderá apagar as palavras que passaram a morar dentro dele.

Volto à imagem de sete anos atrás. Dona Laura atravessando a rua, Daniel nos braços. Na época, eu imaginava que ela estava apenas indo trabalhar. Mas não. Ela carregava um menino. E carregava, junto dele, noventa e cinco livros que ainda nem haviam sido lidos. Uma fábula. 

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