A Copa do Mundo de 2026 chegará ao fim neste domingo deixando imagens que permanecerão por muito tempo. Avenidas tomadas por bandeiras, rostos pintados, trens e metrôs convertidos em procissões de cores, a alegria de quem viajou milhares de quilômetros apenas para dividir um abraço com desconhecidos unidos por um mesmo escudo.
Dentro dos estádios, um espetáculo paralelo acontecia a cada partida. Não importava quem estivesse em campo: havia sempre uma torcida determinada a provar que futebol também se joga com a voz.
Argentinos, colombianos, equatorianos, cabo-verdianos, noruegueses. Cada povo levou consigo um jeito particular de ocupar o silêncio. Cantaram antes da bola rolar, durante o jogo e depois do apito final. Transformaram arquibancadas em corais improvisados, lembrando que uma seleção nunca entra sozinha em campo quando carrega atrás de si um povo inteiro.
O Brasil, infelizmente, perdeu essa partida.
É curioso perceber que justamente o país que ensinou ao mundo que futebol pode ser dança, que fez do samba uma linguagem universal e da alegria um patrimônio cultural, tenha se tornado tão tímido nas arquibancadas. Nossa torcida parece ter desaprendido a cantar. Não deixou uma marca sonora, não criou um refrão inesquecível, não empurrou a Seleção como já fez tantas vezes.
Talvez ninguém tenha traduzido melhor a força dessa comunhão de vozes do que os ingleses.
Eles transformaram a canção Wonderwall, do Oasis, num hino universal da Copa. Ao final das partidas, jogadores e torcedores permaneciam juntos nas arquibancadas, cantando como se a música fosse uma extensão do próprio uniforme. A cena emocionou até quem não compreendia uma palavra de inglês. Porque certos coros dispensam tradução: basta sentir a vibração de milhares de vozes dizendo, ao mesmo tempo, que ninguém vence sozinho.
Wonderwall fala daquela esperança que talvez seja capaz de nos salvar quando tudo parece confuso. É uma canção sobre confiar em algo maior que nós mesmos, mesmo sem saber exatamente o que é. No futebol, essa esperança ganha rosto coletivo. Deixa de ser um indivíduo para se tornar uma arquibancada inteira.
Na Copa da Rússia, em 2018, depois da derrota por 2 a 1 para a Croácia na semifinal, os ingleses já haviam evocado o Oasis ao cantar Don't look back in anger (a canção veio à tona nos estádios ingleses após ataque terrorista em Manchester em 2017). Não era uma celebração da derrota. A música convida a seguir em frente sem permitir que a raiva aprisione o passado. Diz, em outras palavras, que algumas dores precisam ser deixadas para trás para que a esperança continue encontrando lugar no coração. Naquele dia, perderam o jogo, mas ensinaram ao mundo que existe dignidade também no fracasso.
Uma torcida não existe somente para comemorar gols. Ela existe para sustentar afetos. Para lembrar aos jogadores que há um país respirando junto com eles. Para cantar quando se vence, mas também quando se perde.
Talvez seja esse o maior aprendizado que esta Copa nos deixe.
O Brasil precisa reaprender a cantar alto nos estádios. E não falo daquele refrão batido e insosso “sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”. Precisa abandonar o grito de ofensa e recuperar o canto de encontro.
Quando as arquibancadas da FIFA voltarem a ser mais coloridas, multirraciais e inclusivas, talvez o futebol recupere uma parte de sua alma. Porque nenhuma Copa é lembrada apenas pelos gols. As melhores permanecem vivas por causa das vozes que ecoam muito depois do apito final.
E, às vezes, um coro de milhares de desconhecidos consegue dizer sobre um país muito mais do que os jogadores que entram em campo.
