quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"400 Carnavais": louvação à folia de São Luís


Uma das novidades do Carnaval deste ano é o reencontro de artistas locais em um disco que reúne os principais ritmos da folia do Maranhão. O CD "400 Carnavais", que tem lançamento programado para os próximos dias, traz nomes como os de Alcione, Carlinhos Veloz, Erasmo Dibell, Ronald Pinheiro, Gerude, Celso Reis, Djalma Chaves, Mano Borges, Alê Muniz e Luciana Simões, além de grupos consagrados como Bicho Terra, Jeguefolia, Vagabundos do Jegue, Cordão do Ponto Com e Bloco do Betto.

"400 Carnavais" é um disco de celebração a São Luís, aos artistas que cantam, divertem e amam a cidade e sua pintura de euforia. O CD, idealizado pela Clara Comunicação e com direção musical do cantor e compositor Betto Pereira, é a voz das ruas cantando em poesia ritmada - ora com irreverência, ora no calor da tradição - a chegada em 2012 do Quarto Centenário de fundação da capital dos maranhenses.

O CD tem 15 faixas inéditas com batidas que remetem ao bloco tradicional, ao frevo, à marchinha, ao tambor de crioula, ao merengue e ao reggae. A cantora Alcione abre o disco com o batuque de bloco "Temperô", parceria de Betto Pereira e Celso Reis. "O disco é uma forma de promover ainda mais a música de qualidade produzida no Maranhão", explica Betto Pereira. Segundo ele, o CD materializa um projeto antigo de vários artistas e que deve ter desdobramentos promissores no que diz respeito à divulgação e promoção da música do Maranhão Brasil afora.

O diretor da Clara Comunicação, Félix Alberto Lima, que também assina a direção executiva do CD, afirma que o que motivou a agência de comunicação a acreditar no projeto foi o diferencial do Carnaval de São Luís, simples e visualmente atrativo que mistura lenda e folia, serpente e serpentina. "E o chão da praça, o tempero das ruas, o batuque de mina e o gemido da coreira, tudo no mesmo cenário", acrescenta. Sobre a qualidade musical do disco, Betto Pereira diz que "400 Carnavais" é um dos melhores CDs já produzidos no Maranhão. "O disco tem padrão nacional, gravado por músicos de expressão como Sávio Araújo, com conteúdo regional e elementos universais", frisa.

Os artistas que interpretam as 15 músicas estão programando um grande show de lançamento do CD, que deve acontecer na segunda quinzena de fevereiro. O disco não é um produto comercial, tem caráter meramente promocional e já pode ser ouvido, inicialmente, nas principais rádios do Maranhão.

Repertório:

1 – TEMPERÔ – Alcione (Betto Pereira e Celso Reis)

2 – XAVECO – Celso Reis (Celso Reis e Gerude)

3 – EU QUERO É MAIS – Carlinhos Veloz (Carlinhos Veloz)

4 – ADRENALINA – BICHO TERRA - Inácio Pinheiro e Roberto Brandão (Betto Pereira e Josias Sobrinho)

5 – ME LEVA – BLOCO DO BETTO - Betto Pereira (Betto Pereira e Félix Alberto)

6 – BAILARINA – Gerude, César Roberto e Fernando Sarney (Antônio Carlos “Pipoca” Lima - Gerude – Jorge Thadeu)

7 – MICK JEGUE – JEGUEFOLIA - Erlanes (Betto Pereira e Félix Alberto)

8 – BLOCO TRADICIONAL – Ronald Pinheiro e Fernando Sarney (Ronald Pinheiro, Nosly e Gerude)

9 – DOCE AMOR – Fabrícia (Betto Pereira)

10 – CHAPADINHA – Alê Muniz e Luciana Simões (Betto Pereira e Félix Alberto)

11 – MENINA MALUCA – Erasmo Dibell (Erasmo Dibell)

12 – LOVELAND – Artistas do disco (Betto Pereira e Félix Alberto)

13 – SWING BOM – CORDÃO DO PONTO COM - Djalma Chaves (Betto Pereira)

14 – QUEM SOU EU – VAGABUNDOS DO JEGUE – Wellington Reis (Wellington Reis)

15 – VAI DANÇAR NENÉM – MANOBLOCO - Mano Borges (Mano Borges)

(release Clara Comunicação)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

paz sem voz

Tá tudo tão estranho lá fora.

É melhor armar a cama na varanda.

Ou quem sabe preparar a cadeira de balanço para o futuro.





terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O melhor o tempo esconde


Já não se leva a vida no laço quando se chega aos 30 anos. A idade é um passo. É na curva dos 30 que se perde a rédea da distração, do sarro, da maresia. Aos 15, aos 20, aos 25 anos, qualquer emoção é um bom pretexto para driblar o destino, vagarosamente. Ali se faz a verdadeira tempestade em copo d’água. É só depois dos 30 que se ouve falar de apólice, coca light, ômega 3, imposto de renda, ração humana. Depois que se ultrapassa a barreira dos 30 o cinema é quase um albergue.

Não venha me dizer que alguém é sério aos 18 anos, que é maníaco depressivo aos 21 e que parou de beber e virou evangélico aos 23! Depois dos 30 todos querem voltar aos 20 anos. O espelho, porém, começa a fazer troça e não adoça mais o gosto da cereja. O medo dos 40? O peso dos 30 é igualmente doloroso!

Passa o tempo, passa a vida, o passo encurta e o ombro emite o primeiro sinal de parábola. A vida é meio serenidade, meio compromisso na idade decantada na literatura para compor o flamejante universo feminino. É na faixa dos 30 que o americano começa a sonhar acordado com a ideia fixa do primeiro milhão. Triste daqueles que nem chegaram aos 30. Não puderam experimentar a sensação da responsabilidade, da conta no final do mês. Não puderam ler jornal e nem batizar o filho do casal vizinho. Não foram ao supermercado sábado pela manhã. Nem ouviram música clássica. Não sabem de cor o capítulo da novela. Não beberam vinho no silêncio da noite mal dormida e nunca compreenderam exatamente qual o sentido da vida. E quem haverá de compreender?

Depois dos 30 a contagem é regressiva. A memória, uma armadilha: insiste em remexer com voracidade no baú das velhas músicas da década passada e no álbum de retratos dos acampamentos, das viagens de última hora, do beijo pela metade e de outras tantas carradas de paixão. Viva a máquina digital. No cristal líquido a imagem não amarela!

Aos 30 submergimos naquilo que se convencionou chamar de o primeiro ano do resto de nossas vidas. E, afinal, por que a vida desacelera quando mais se pretende decifrá-la em movimento? Só depois dos 30 é que se olha para trás. Todo mundo quer casa, filhos, comida e roupa com cheiro de lavanda. Depois dos 30 bate aquele medo da solidão, do caritó, da exceção do amor. Bate o medo da vida breve. Daí a ração, o ômega e o seguro. Daí os acasalamentos, as ressonâncias magnéticas, o guarda-chuva, o pára-quedas, a neosaldina. Metade Prozac, metade Balzac.

A propósito, já passei dos 40. Mas o retrovisor é qualquer coisa parecida com uma usina de reciclagem do tempo.

(foto: Meireles Jr.)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Putas tristes?

Elas não se entregam. Não sem antes fechar o negócio. Acertam o preço e só então abrem passagem para o gemido. E aí se doam alucinadamente. Se preciso, choram com o suor do próprio corpo. Riem por vocação e amam como ninguém. São umas injustiçadas, mas não perdem a ternura e o rebolado. Incompreendidas por boa parte da sociedade, elas estão dispostas a dar a volta por cima. O I Encontro Regional Norte/Nordeste de Profissionais do Sexo Feminino, que acontece a partir de amanhã no Convento das Mercês, é a janela aberta para discussões de interesse de mulheres que ganham a vida na função.

“É uma profissão como outra qualquer”, avalia Maria de Jesus Costa, 50 anos, presidente da ong Associação das Profissionais do Sexo Feminino do Maranhão (Aprosma). Ela reconhece, para espanto das amigas mais novas, que não há qualquer glamour no trabalho. Hoje parcialmente afastada da atividade diária “por absoluta falta de tempo” – os homens, segundo ela, não pagam para fazer amor com mulheres mais velhas -, Maria de Jesus conta que a entidade foi criada há três anos com o objetivo de reduzir preconceitos e orientar mulheres sobre riscos, direitos e deveres na profissão.

Não há provocação. O convento é apenas o local do encontro. Elas não ousam abalar o templo da Ordem dos Mercedários, tampouco pretendem despertar a ira e o escárnio do Padre Antônio Vieira em sermões reinventados. Haverão de “traçar metas rumo aos novos e velhos desafios”, conforme anuncia o cartaz do evento.

E quais são os novos e os velhos desafios, se não existe vida fácil na prostituição profissional? Superar o preconceito de ontem, inibir a violência de agora? São 1.050 mulheres associadas à ong. Muitas delas dirão suas meias verdades durante os três dias de encontro no convento. Outras continuarão apoiadas sobre o colchão de amar. Algumas estarão sob o sol tecendo a vida, com suas vulvas encharcadas de suor e corrimento. Todas, contudo, vigiadas pelo medo de velhas e novas doenças sexualmente transmissíveis.

Não há piso salarial, férias, licença prêmio ou recesso de Natal. As crianças nascem, e a jornada das mulheres prostitutas limita-se a meio expediente, ao serviço pela metade. Elas não vão alcançar a licença maternidade. Pais desconhecidos. A geração de filhos da puta vai se multiplicando de bairro em bairro. Eles, na opinião de Maria de Jesus, são vítimas da sociedade, da falta de informação e da miséria.

No João Paulo e no João de Deus elas estão no ponto e não há salvação a prazo. No Inferninho do aterro, vendem a alma a quem se arrisca a pagar um trago. A rua da Saúde herdou a clientela da 28 e os riscos do HIV de turistas que se hospedam nas soturnas pousadas da vizinhança. Não se pode dizer, todavia, que as remanescentes da Faustina estão por baixo. O maior número de profissionais do sexo gira na órbita do Xirizal do Oscar Frota, por onde ancoram pescadores, camelôs e estivadores em busca do prazer self-service. Lá um programa de primeiro grau pode começar a R$ 7,50. Não há melhor preço na cidade. Elas também estão na Vila Fialho, nas avenidas Médici e Guajajaras, na praça Pedro II e no Posto Magnólia. Na área do Porto do Itaqui, onde imperam exigências de marinheiros mareados, o programa chega a custar R$ 300,00. É pegar ou zarpar.

O perfil do cliente é descrito conforme o ponto do programa. Os navios garantem a freguesia no Itaqui. O Xirizal do Oscar Frota não seria o que é hoje sem o intenso movimento no Mercado do Peixe e no Mercado Central. A área da Praia Grande, incluindo a rua da Saúde, é alimentada pela moeda dos estrangeiros e pela mirra de alguns boêmios nativos. Os caminhoneiros se revezam entre a avenida Guajajaras e o Posto Magnólia, na BR.

O espetáculo do crescimento chega sem pressa às alcovas. Excomungadas em ritos sumários ao longo da história, as prostitutas querem mostrar ao mundo que há dignidade na profissão. Não há motivo para vergonha, dizem. “Temos o direito de usar o nosso corpo da forma que bem entendermos”, pesa e pondera Maria de Jesus. Elas pagam impostos e estão nas filas dos bancos e dos crediários como qualquer virgem.

Há uma linha tênue que separa as profissionais do sexo e as garotas de programa que frequentam as faculdades particulares. Nos dois casos elas estão vendendo a força de trabalho: as profissionais, com suas penteadeiras enfeitadas e perfumes carregados na essência, devidamente assumidas; as “amadoras”, com suas roupas de grife e saídas sorrateiras para o infortúnio dos amores servis. Lá e cá excedem no prazer, na dor e no sussurro.

Difícil saber quando há afeto ou beijo na boca. Depende do que se paga. Há um mandamento único no exercício da prostituição: é preciso ter renda. Nem amor, generosidade ou gratidão. Do parceiro, exige-se pouco mais que o pagamento. Pode ser dinheiro, cartão, uma pedra falsa ou um corte de cetim. E a fila anda.

Texto postado em 23.08.2006, no site www.claraonline.com.br.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Mil palavras


Boas imagens são caras porque são raras. Marcam, impregnam, identificam, decodificam, inspiram, emocionam, chocam, arrebatam, provocam reações imprevisíveis. Certas imagens são como música: incendeiam a memória, despertam a paisagem adormecida na lembrança e fazem passeios fugazes pelos arredores da alma.

A fotografia tem desses truques! Revela o novelo do rápido instante, subverte o real, recorta a cena e surpreende o artesão do clique. O truque da fotografia é uma arte sem trinco. Obturador aberto. Não pega no tranco, pois há técnica na arte de quem trata e retrata a imagem, no lambe-lambe chinfrim, no estúdio sofisticado. Há no ofício dos fotógrafos o contraste de cores que ninguém faz, a luz que poucos enxergam, o detalhe que não se alcança a olho nu, o enquadramento.

Boas imagens são caras. O fotógrafo não vende um pedaço de papel estampado. Ele vende o olhar. Olhar de fotógrafo não tem tabela de preço. Não existe atualização monetária para o olhar. Certas imagens são definitivas. Fotografias não são máquinas, mas observações raras. Não é a Nikon que faz a diferença. É a intrepidez de quem manuseia a lente. Pode ser Canon, Polaroid, Love ou Xereta.

Elas estão nos jornais, nas revistas, nos pôsteres, nos postais, nas gavetas, nos outdoors, no porta-retrato, no computador e no imaginário. Há fotos que são uma outra linhagem da poesia, que saltam do papel feito um soneto, que não largam o cais da retina porque estão ancoradas em redondilhas. E quando elas falam? As fotos têm as suas verdades recitadas. As fotos têm essas manias.

Há quem não perceba o movimento que é peculiar em algumas fotografias. Fotos que dançam um balé quase perfeito, que desfilam imponentes pelos álbuns de recordação, que se remexem de tão vivas que estão no fosco do papel couchê. As fotos não param.
Fotografias relembram datas, pessoas, lugares e coisas. As fotos digitais desafiam o tempo com a evolução quilométrica de seus pixels. Já as imagens em preto e branco nos remetem ao passado. Fotos amareladas com cheiro de mofo refletem o passado em sépia dos nossos avós na parede. A fotografia, depois de remexida nas gavetas, faz pactos de convivência amistosa com a saudade.

As boas imagens não têm preço na praça. Não disputam mercado, não estão nas prateleiras do comércio. O olhar do fotógrafo está à espreita, sem sossego ou cerimônia. Afinal, ele não se contenta. O fotógrafo é um artista plástico que pinta a sua tela com uma câmera apoiada na mão e o olhar captando o infinito cotidiano.

domingo, 29 de agosto de 2010

No encalço de Julio Cortázar


Um dos nomes mais expressivos da literatura do século 20, o escritor Julio Cortázar, que completaria 96 anos na última quinta-feira, 26 de agosto, vai ganhar biografia assinada por um maranhense. O livro “Um tal Julio Cortázar”, de autoria do jornalista e tradutor Cassiano Viana, já está no prelo e será lançado até o final deste ano com o selo da editora Civilização Brasileira. Em cerca de 300 páginas, o autor traz detalhes sobre a vida e a obra daquele que é considerado um dos principais expoentes do realismo fantástico.

Circunstancialmente nascido em Bruxelas no ano de 1914 – os pais argentinos trabalhavam na embaixada da Bélgica -, Cortazar viveu a infância em Banfield e ficou em Buenos Aires até os 37 anos, quando transferiu-se definitivamente para Paris por não concordar com o modelo político adotado por Juan Domingo Perón. Ainda na Argentina, trabalhou como professor de literatura em algumas cidades do interior e foi funcionário da Câmara do Livro de Buenos Aires. A convite da Universidade de Porto Rico, traduziu para o espanhol a obra completa em prosa de Edgar Allan Poe. Traduziu também inúmeros trabalhos para a Unesco.

A primeira produção literária de Cortázar data de 1938, quando publicou, sob o pseudônimo de Julio Denis, o livro de poemas “Presencia”. Ganhou notoriedade com o livro de contos “Final de jogo”, lançado no México em 1956. A fama, porém, só viria em 1962 com o romance “O jogo da amarelinha”, um novelo com expressa recomendação para leitura de capítulos seguindo série numérica rigorosamente não-linear.

O envolvimento político de Cortázar rendeu-lhe respeito e desconfiança ao longo dos anos. O paradoxo está presente na sua criação – como em “Nicarágua tão violentamente doce”. Ora era visto pelas esquerdas como o admirável incendiário das ditaduras da América Latina. Ora era classificado como instrumento do imperialismo por criticar a prisão e o desaparecimento de artistas cubanos e soviéticos.

Julio Cortázar só voltaria à Argentina em 1983, com o processo de abertura política. Um ano depois de visitar amigos, lugares e personagens imaginários, o autor de “Bestiario” e “Histórias de Cronópios e de Famas”, dentre outros clássicos, morreu de leucemia em Paris. Antes de partir, ganhou a nacionalidade francesa.
Em 2004, quando foi celebrado o Ano Cortázar, Cassiano Viana começou a mergulhar no universo biográfico de Cortázar. Quantro anos antes, o argentino Mario Goloboff havia lançado “Julio Cortázar, a biografia” pela editora Six Barral. Cassiano tem 37 anos, é jornalista formado pela Universidade Federal do Maranhão e estreia em livro-solo com o peso da responsabilidade de biografar um artista complexo, de história densa, e por uma editora com indiscutível lastro intelectual.

Cassiano Viana vive no Rio há quase dez anos. Ainda no Maranhão, foi um dos autores do livro “As melhores crônicas do Claraonline” (Clara Editora, 2004). No Rio, escreveu para sites literários como Paralelos, Portal Literal, Bestiário e Cronópios. Atualmente é colaborador dos cadernos Prosa e Verso, do jornal “O Globo”, e Ideias & Livros, do “Jornal do Brasil”, e publica regularmente textos nas revistas “Bravo”, “Cult” e “Coyote”. Também publicou alguns contos na revista “Storm”, de Portugal.

Para o caderno Ideias & Livros traduziu autores como Ted Hughes, Dylan Thomas, e.e. cummings, Cortázar e Alejandra Pizarnik. Na “Coyote”, Cassiano publicou um dossiê com os poemas e entrevistas inéditos do contista belgo-argentino.

Sobre a obra “Um tal Julio Cortázar”, Cassiano Viana fala da experiência reveladora, das viagens de pesquisa, do engajamento político do contista e da simetria rítmica entre Borges, Poe e o autor de “As armas secretas”. Confira na entrevista.

Como e quando surgiu a ideia de escrever sobre Julio Cortázar?

CASSIANO VIANA - Surgiu em 2004, durante o Ano Cortázar, comemorado em todo o mundo. Uma amiga enviou as “Obras completas” publicadas na Espanha, com vários textos inéditos no Brasil, sobretudo três tomos de cartas - cada tomo com quase 500 páginas. Passei a traduzi-los para amigos. Um dia percebi que tinha material suficiente para uma biografia.

Quais as suas principais fontes de pesquisa?

CV - Além da correspondência de Cortázar e de alguns livros publicados lá fora sobre o autor, consegui entrevistar pessoas ligadas a ele, como o artista plástico Julio Silva, capista e amigo íntimo dele. Hoje, também um bom amigo meu que prometeu fazer a capa de um livro um dia. Na verdade, hoje tenho um livro “Retorno a Silvalândia”, uma espécie de caminho de volta à Silvalândia criada por Cortázar a partir de telas de Silva. Outro que entrevistei foi o também artista plástico Luis Tomasello, para quem Cortázar escreveu dois poemas: “Un elogio del três” e “Negro el 10”, este último no leito de morte. Também entrevistei o poeta cubano Roberto Fernandez Retamar, da Casa de las Americas, em Cuba. Percorri Buenos Aires, visitei duas vezes a primeira casa da família em Banfield, cenário de vários contos, sobretudo do livro “Bestiário”, e Paris, em momentos distintos, para fotografar e realizar entrevistas.

No livro há relatos de que a família Cortázar viveu ou passou pelo Brasil. Como foi essa experiência?

CV - Cortázar visitou o Brasil por três vezes, na década de 70. Numa das visitas saiu fugido do país, pois agentes da Triple A argentina (Alianza Anticomunista Argentina) sabiam que ele estava no Brasil e queriam matá-lo. Cortázar ficou amigo de vários intelectuais brasileiros, dentre eles Haroldo de Campos. Do Brasil, gostava da música. Dizia brincando que Caetano e Maria Bethania nunca eram vistos juntos pois eram, afinal, a mesma pessoa. Gostava também de autores como Clarice Lispector - citou várias vezes “Água Viva” em seus livros.

De fato houve um naufrágio envolvendo familiares de Cortázar no Brasil?

CV – Recém casados, os pais de Cortázar tentavam a vida na Europa quando explodiu a Primeira Guerra. Cortázar nasceu em Bruxelas, durante a invasão alemã. A ideia era fugir de país em país até a poeira baixar. O avô materno de Cortázar, Luis Descotte Jourdan, era quem financiava a aventura. Só que, durante uma viagem, no regresso a Buenos Aires, após três semanas em Zurique, visitando a família, o navio Príncipe de Astúrias, que fazia a rota do Atlântico, naufraga no Brasil. O acidente é considerado o segundo maior nas Américas, atrás apenas do Titanic.

O engajamento político exacerbado em algum momento comprometeu a criação literária de Cortázar?

CV - Sim. Cortázar ficou envolvido seriamente com a Revolução Cubana e com os movimentos na Nicarágua. Chegou a ir para a linha de guerrilha quando Carol Dunlop, sua última mulher, morreu, no início da década de 1980. Além disso, participou ativamente do Tribunal Bertrand Russell denunciando a situação de penúria das ditaduras na América Latina.

Mesmo engajado politicamente, Cortázar foi hostilizado por Fidel Castro por pedir informações sobre o desparecimento do poeta Heberto Padilla.

CV – É verdade. Esse foi um ponto crítico da relação de Cortázar com a Revolução Cubana. Fidel chegou a proibir a entrada em Cuba de intelectuais radicados na Europa. Estes, por sua vez, começaram a repensar a Revolução. Cortázar mobilizou vários intelectuais como Calvino e Susan Sontag a publicarem manifestos críticos no “Le Monde”.

Há similaridade entre as obras de Cortázar, Jorge Luís Borges e Edgar Alan Poe (de quem talvez tenha sido o seu mais fiel tradutor)?

CV - Borges foi o primeiro a publicar Cortázar, ainda na Argentina. Um exemplo disso é o conto “A casa tomada”, na revista “Sur”. Borges vinha de uma educação clássica, enquanto Cortázar vivenciou o efervescente Maio de 68. São dois escritores do signo de virgem, um nascido no dia 24 (Borges) e o outro no dia 26 de agosto. Pode parecer bobagem, mas isso explica alguma coisa. Décadas depois, os dois se encontraram em um corredor da Unesco em Paris, onde Cortázar trabalhava, os dois já autores consagrados. Borges disse: “Esse Cortázar, eu fui o primeiro a publicá-lo. A casa tomada, lembra?". Sobre Edgar Allan Poe, é possível encontrar influências na obra cortazariana desde os primeiros contos. Cortázar traduziu as obras completas dele, just for fun, como dizia. Na verdade, a tradução foi um exercício de escrita.

Ao empreender a prosa poética e utilizar uma linguagem não-linear nos seus contos, Cortázar deixou como legado o flerte da literatura com o cinema?

CV - Vários cineastas utilizaram a obra de Cortázar como referência para filmes. O mais conhecido é “Blow up”, de Antonioni. Um outro cineasta foi Godard, em “Weekend à francesa”. No Brasil, temos o “Jogo subterrâneo”, de Roberto Gervitz, um filme maravilhoso, talvez o melhor feito tendo como base uma obra de Cortázar.

Algum fato revelador na concepção do mosaico biográfico?

CV - Para além de qualquer mitologia, o mais importante: era um escritor que, apesar do rigor e da preocupação com a obra, não buscava o canônico. Tinha uma facilidade incrível de tornar um acontecimento mínimo em um texto estupendo, sem utilizar os clichês recorrentes da literatura. Escrevia para presentear os amigos - me confessou Julio Silva - com seus relatos. Era uma pessoa simples e solar.

Entrevista publicada no jornal "O Estado do Maranhão" do dia 29.08.2010

No labirinto como um minotauro

Na última quarta-feira, 25, véspera do aniversário de Julio Cortázar, o jornalista Cassiano Viana lançou, em parceria com Diego Paleólogo, a revista Minotauro, publicação temática de circulação trimestral sobre literatura e artes plásticas.

A primeira edição traz como mote a mitologia do labirinto, tão cara e intensa na obra de autores como Borges e Cortázar. Entre os colaboradores da revista estão os veteranos Antônio Cícero e Bráulio Tavares e novos autores como Francesca Angiolillo, Maykson de Souza, Mariana Amaral, Bia Dias e Paola Refinetti.

“Minotauro” carrega no charme da tinta das fotografias e obras de Diego Paleólogo, Sergio Werner (fotógrafo paulista radicado em Paris), Manuel Caeiro (artista plástico português) e Clarissa Cestari (brasileira radicada em Madri).