quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O violão e eu


 

A música sempre esteve por perto. Antes mesmo que eu soubesse o que fazer com ela, já fazia parte dos ruídos da casa, misturada às conversas, aos discos, às festas, às vozes da família. Meu irmão Antônio Carlos tocava violão, e eu, ainda moleque, tinha uma atração inevitável por qualquer roda em que aparecesse um instrumento musical. O violão exercia sobre mim um fascínio que, infelizmente, nunca foi correspondido.

Porque a verdade é que nunca aprendi a tocar violão.

Não foi por falta de tentativas. E tem também uma justificativa bastante conveniente: sou canhoto. Durante anos atribuí à minha condição de canhoto boa parte do fracasso. As cordas pareciam estar do lado errado, os dedos não obedeciam, os acordes exigiam posições que eu imaginava incompatíveis com a anatomia humana. Talvez houvesse mesmo alguma dificuldade. Ou talvez a “canhotice” tenha sido por muito tempo a melhor desculpa que encontrei para esconder minha absoluta falta de jeito.

Mas todo fracasso, quando devidamente administrado, pode produzir uma habilidade paralela. Subversiva! E foi isso que aconteceu comigo. Aprendi a fingir que tocava violão. Não me perguntem como. Não sei fazer um acorde direito, mas sei bater nas cordas. E bato com convicção. Há uma diferença importante entre saber tocar e parecer que sabe tocar, e nessa segunda modalidade cheguei a alcançar certo “virtuosismo”.


Nos tempos de estudante, essa técnica atingiu o auge. Numa roda, uma viagem, um encontro, um corredor, um alojamento, uma garrafa passando de mão em mão... Nessas ocasiões, eu assumia o violão sem o menor constrangimento. E começava a batida nas estrepitosas cordas. Gente cantando alto, alguém errando a letra, outro gritando o refrão, meninas discutindo sobre a próxima música e, depois de alguns copos, ninguém mais tinha condições técnicas ou morais de avaliar o violonista.

O resultado era surpreendente, virava música. Ou pelo menos alguma coisa muito próxima dela.

Animei saraus, lançamentos de livros de amigos, encontros de estudantes e farras de procedência duvidosa. Em algumas viagens de ônibus, cheguei a sustentar musicalmente boa parte do itinerário. Horas e horas segurando o violão, comandando um repertório que eu, rigorosamente, não sabia tocar.

Só havia apenas uma condição para o meu sucesso: não podia aparecer por perto um violonista de verdade. Esse era meu maior risco profissional. Se surgisse alguém capaz de identificar um dó maior a uma distância de cinco metros, minha carreira estava ameaçada. 

O mais curioso é que alguns amigos só descobriam a fraude muito depois. Às vezes, na viagem de volta.

– Como assim, tu não sabes tocar violão?

E existia no olhar deles uma espécie de decepção. Sentiam-se enganados. Tinham cantado comigo, pedido músicas, talvez até elogiado algum acompanhamento, para descobrir depois que haviam sido vítimas de uma fraude musical sustentada pela amizade, pelo álcool e pelo excesso de barulho.

A eles, tanto tempo depois, apresento minhas desculpas sinceras. Mas alego em minha defesa uma causa nobre. Sempre foi por amor à música. Rsrsrs. E, mais ainda, por amor ao violão.

Talvez por isso eu ainda olhe para essas fotografias antigas com alguma ternura. Lá estou com o violão nas mãos, cercado de amigos, esbanjando a tranquilidade de quem conhece acordes, tons e harmonias. Ninguém diria que aquele sujeito estava apenas batendo nas cordas e confiando na generosidade acústica da plateia miúda.

O meu caso com o violão é uma história antiga. Passei a vida querendo conquistá-lo. Ele nunca me quis na intimidade. Mas, de vez em quando, numa roda de amigos suficientemente distraídos, bêbados, parecia até haver uma química.


(fotos restauradas por aplicativo de IA; registros do lançamento do primeiro livro do amigo Moisés Matias, na Área de Vivência da UFMA; 1987 d.C)