segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Sobre os dias de Flip

Estrela Leminski recita poemas do pai no estande da Companhia
 das Letras, enquanto o público filma para postagem nas redes sociais 

Paraty estava transbordante, fria e excessivamente cara. Mas bela. Se por esses dias até o mar andava de ressaca (beijando sem pudor as valas da cidade), quem não haveria de ficar? Há cidades que sabem guardar sua magia mesmo quando tumultuadas, invadidas por hordas de leitores, escritores, livreiros, malucos, poetas de ocasião, poetas de sempre, instagramáveis e ilegíveis. Paraty, nesses dias de Flip, era tudo isso. E também um pouco mais. Era Leminski.

 

Homenagear Paulo Leminski, aquele samurai camicase de Curitiba, foi uma dessas decisões acertadas que só a literatura provoca. Ele, que deslizou seus versos urbanos entre os anos 1980 e 1990, ressurgia agora embalado por reedições cuidadosas e por biografias que esmiúçam sua vida breve e intensa como se ainda houvesse algo a explicar. Jovens de classe média (majoritários entre os frequentadores da Flip) o postam como quem descobre um cometa numa madrugada de insônia. 

 

Lá estávamos, então, nós todos: ele presente em banners, falas, mesas, livrarias temporárias. Eu, em estado de deslocamento no tempo, buscava na memória o Leminski dos meus vinte e poucos anos, quando, ao lado dos amigos Eduardo Júlio, Andréa Oliveira, Mirtes Lopes, Zeca Pinheiro e Lurdinha Castro, empreendemos aquele programa de rádio, em 1991. Era um exercício de escuta e invenção. No final, uma “entrevista aos vivos”, póstuma: perguntas diretas, respostas do além retiradas dos próprios poemas. Leminski respondia com o que tinha de melhor: sua poesia. Foi nossa pequena Flip radiofônica, antes de tudo virar evento, credencial e café gourmet.

 

A 23ª Flip foi um caleidoscópio de temas e presenças. Debates sobre a Palestina, o meio ambiente, o devir negro, a escrita periférica, o feminino insurgente, os corpos LGBTQIA+ exigindo escuta e presença. E havia livros. Muitos. Caríssimos. Comprei alguns, sim, rendido à velha ilusão de que “tê-los é quase como lê-los”. Nos corredores improvisados, escritores eram assediados como se fossem celebridades. Selfies, abraços, pedidos de autógrafo. Uma cena que beirava o kitsch, não fosse ela tão sinceramente desejada por ambos os lados.

 

Uma ala curiosa se destacava entre as tendas: a dos autores e editoras independentes. Fiquei a matutar: os outros seriam, então, dependentes? De quê? De quem? Da benevolência dos conglomerados editoriais? Das políticas culturais erráticas? Da curadoria das grandes vitrines? A dúvida ficou ali, abraçando-me, como nos encontros afetivos que se davam pelas ruas de pedra da cidade.

 

Mas foi fora da programação oficial que a chama acesa por Leminski talvez tenha se propagado com mais liberdade. Na Casa Gueto, realizamos a intervenção Flip-se Quem Puder. Um nome debochado para uma ação oportuna: abrir espaço para a literatura livre, para o livro como ferramenta de subversão e reinvenção. Reunimos poetas, romancistas, artistas e curiosos. Houve leitura, canto indígena, silêncio, risos, pensamento. Não era preciso crachá. A festa foi bonita. Leminski teria engrossado o coro.

 

Enquanto os holofotes se voltavam para as mesas badaladas e as listas de mais vendidos, soubemos habitar a margem, esse lugar cada vez mais fértil da literatura. Porque no fim das contas, como dizia o homenageado: “isso de querer/ ser exatamente aquilo/ que a gente é/ ainda vai/ nos levar além”.

 

Paraty passou. Leminski deitou e rolou. E nós, seguimos.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Rua 28 de Julho – onde quase tudo é desterro

Socorro de Sena em frente ao Bar Meu Bem, na rua 28 de Julho, Centro

No calendário, o dia 28 de julho acende o “orgulho cívico” do Maranhão: a data em que a então província, hesitante e orgulhosa, enfim aderiu em 1823 à Independência do Brasil. Mas, em São Luís, o nome também habita o chão, gravado nas pedras de uma rua do Centro Histórico que carrega, no corpo de ladeira e azulejos, outra espécie de libertação: a da vida noturna, da música alta, do riso fácil e das mulheres que fizeram daquele território um palco de resistências e desejos.

 

A rua 28 de Julho, também conhecida como rua do Giz, é um corredor de memórias que sobrevive ao sol e ao sal da ilha. O bairro do Desterro, de onde ela brota, nunca foi apenas geografia: foi refúgio e trincheira. Durante décadas, entre os anos 1940 e 1980, o casario colonial testemunhou uma fauna urbana intensa: boates, cabarés, casas de prostituição e bares onde artistas, intelectuais, funcionários públicos e empresários dividiam mesas com prostitutas e marinheiros, todos unidos pela mesma fome de madrugada. Ali, a ZBM, a malafamada Zona do Baixo Meretrício, pulsava com o coração descompassado da cidade, enquanto na praça vizinha os sinos da igreja batiam o outro lado da vida.

 

Ainda hoje, quando a noite cai, parece possível ouvir o eco das vozes que se perdiam pelo beco. Há uma espécie de magnetismo que mistura decadência e charme, algo que as paredes úmidas não escondem: manchas de histórias que resistem ao tempo e às restaurações turísticas.

 

No número 426, o Bar Meu Bem é uma cápsula dessa boemia sobrevivente. Simples, com suas paredes decoradas por fotos de família, bandeirinhas de São João, pôsteres de Ivete Sangalo e Grazi Massafera, máscaras de cazumbá e frases de caminhão que parecem ter parado ali para descansar, o bar serve uma cerveja que, dizem os fiéis e a placa estampada na fachada, é a mais gelada da cidade. Dona Socorro de Sena, 65 anos, é quem segura o balcão e a memória. Foi ela quem, ao chamar a todos de “meu bem”, batizou o bar e a si mesma. Há mais de 20 anos, sua voz faz o contraponto suave aos fregueses que chegam ao fim da tarde, quando o reggae escorre das caixas de som e as primeiras mulheres aparecem, lembrando que a rua ainda sabe seduzir.


Vista interna do Bar Meu Bem

“Fiquei curiosa porque ela estava tomando uma cerveja e foi logo me chamando de meu bem, convidando-me para entrar”, conta Mariana Tsukamoto, professora da USP de passagem pela cidade. “Essa rua é charmosa e tem um protagonismo feminino que me encanta.” Mariana, sentada no batente da calçada, observa o movimento como quem lê uma história aberta: percebe que, muito antes da palavra “empoderamento” ganhar as redes sociais, aquelas mulheres já haviam escrito, com o próprio corpo, uma narrativa de autonomia, ainda que à margem de uma sociedade hipócrita, racista e seletiva.

 

Mariana, professora paulista em visita à 28 de Julho


A rua 28 de Julho é, no fundo, isso: um território que resiste ao apagamento. Entre o brilho dos azulejos e as sombras do passado, ela lembra que a independência, seja de um país ou de uma mulher, nunca se conquista de uma vez. É preciso defendê-la todos os dias, entre goles de cerveja, músicas que atravessam décadas e a coragem de permanecer onde muitos prefeririam que nada restasse.

 


Filhas do Desterro


Tudo é Desterro. Tudo é 28 de Julho. O sobrado de número 535 da rua da Estrela envelhece como uma ferida aberta. O tempo escorre pelas paredes. Ali, o que os mapas chamam de casarão é, visto por dentro, um cortiço, palavra antiga dos livros que nunca deixou de estar presente na realidade brasileira. 

 

Nove famílias comprimem-se em pequenos quartos, uma geografia precária onde cada centímetro sustenta biografias inteiras. No meio de tantas histórias está a de Maria de Jesus Costa, a Dijé, preta, 67 anos, três filhos, uma neta, quase três décadas de permanência.


Maria de Jesus, a Dijé, sob ameaça de despejo


Permanência que agora é ameaça: herdeiros de Elizete Mendes Cateb (por meio do inventariante Mauro Costa Mendes Cateb) exigem o imóvel de volta, e o processo arrasta-se pelos tribunais com a lentidão dos que não precisam de urgência. O recado, no entanto, já chegou: até dezembro, todos terão de sair. Depois, o casarão será posto à venda. À venda! Um lugar que jamais teve dono visível agora exige papéis, registros, carimbos.


Fachada do casarão da rua da Estrela, no bairro do Desterro


Dijé não fala disso enquanto mexe o molho da macarronada. Não tem tempo. É sábado, 26, e 100 quentinhas precisam ser entregues a pessoas que ela insiste em não chamar de “moradores de rua”. Só voltamos a nos falar no dia seguinte, agora com mais tempo, sentados na calçada da Cafua das Mercês. 

 

“Não é preciso estar na rua para sentir fome”, diz. “A pandemia da Covid deixou outra, mais funda: a pandemia da miséria. Gente sem casa, sem trabalho, sem cabeça.” Já tem alguns anos o grupo Terça Nobre cozinha, distribui, resiste. No Desterro. É uma forma de dizer: estamos aqui, mesmo que ninguém queira ver.

 

Conheci Dijé em agosto de 2006, durante o I Encontro Regional Norte/Nordeste de Profissionais do Sexo Feminino, no Convento das Mercês. Ela estava ali no início das lutas, abrindo caminhos. Voltei a encontrá-la agora por indicação da amiga Helena Galiza, arquiteta e árdua defensora do patrimônio arquitetónico e de um projeto de habitação popular do Centro Histórico de São Luís.   

 

Quase um século e meio depois de publicada a primeira edição de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, a cena repete-se em outra cidade: um casarão antigo, gente pobre, gente preta, a engrenagem da exclusão girando intacta. O ambiente que moldava destinos no romance do escritor maranhense, no Rio de Janeiro do século XIX, ainda persiste: quem não tem endereço não tem documento, não tem emprego, não existe. “Moradia é direito, não favor”, diz Dijé. “Sem gente morando, o Centro Histórico vira fachada morta. Para que ele viva, precisa de nós.”

 

Palavras no corpo


Pelas ruas do Desterro há regras que nenhum decreto escreveu: mulher não pode apanhar; filho não ergue a mão contra pai; idoso não é para ser violentado. Uma disciplina mínima e severa, nascida da falta. O Estado não chega, então criam-se leis próprias. A sobrevivência impõe sua própria moral.

 

Maria de Jesus carrega no corpo marcas mais antigas que o casarão. Aos 12 anos, foi abusada por quem deveria protegê-la. “Não tive infância. Era um tempo em que o homem podia tudo, e a vítima era sempre culpada.” Ela diz sem hesitar, sem suavizar, mas também sem pedir absolvição. Transformou a dor em ferramenta: presidiu a Associação das Profissionais do Sexo Feminino do Maranhão (Aprosma), coordena há dez anos a Central Única das Trabalhadoras e Trabalhadores do Sexo (CUTS) e ajudou a fundar o Coletivo Por Elas Empoderadas, com ativo perfil nas redes sociais. 

 

A prostituição, que lhe fora estigma, tornou-se bandeira.

 

“Eu não tenho problema com a palavra prostituta”, afirma. “Mas hoje há outros nomes: trabalhadora do sexo, profissional, acompanhante. Muitas fazem ‘jobs’, usam plataformas digitais, cuidam da própria segurança. O mundo mudou, e nós também.”

 

Dijé aprendeu a endurecer sem perder a ternura. “No nosso Coletivo, não se admite que mulher apanhe, que homem trepe e não pague, que profissional seja tratada como lixo. Elas têm de ocupar o lugar que escolherem. E informação errada não passa. Somos intocáveis.”

 

O Desterro, que já teve ruas dedicadas à prostituição, viu essas mulheres migrarem: Oscar Frota, Anel Viário, São Cristóvão. Mas Dijé ficou. Ficou no mesmo casarão que agora quer expulsá-la. Sabe que sua permanência é mais que disputa por paredes: é disputa por existência.

 

Porque antes de ser morada, seu corpo foi território de homens. Hoje é também trincheira. O cortiço pode ruir, o despejo pode chegar, mas há uma diferença: desta vez, há voz. E a voz de Maria de Jesus Costa não é eco de parede envelhecida. É pedra lançada. Ela não está mais sozinha. E não tem vocação pra desterrada.   

sábado, 19 de julho de 2025

De volta à casa

 

Voltar a Barra do Corda, depois de tanto tempo, foi como abrir uma velha caixa de brinquedos esquecida no sótão da vida. A poeira das décadas não conseguiu embaçar o brilho das lembranças. Pelo contrário: ao reencontrar a cidade onde vivi os primeiros doze anos da minha existência – os mais puros, talvez os mais felizes – tudo me pareceu ainda mais nítido, como se o tempo tivesse feito questão de preservar, com zelo, cada susto, cada rua, cada cheiro.

 

Nasci em Presidente Dutra, é verdade, mas foi em Barra do Corda que aprendi a caminhar pelo mundo. E caminhar por suas ruas, agora, mais de vinte anos depois da última visita, foi como reconhecer o próprio rosto no espelho: os traços estão lá, mas há rugas novas, silêncios outros, um jeito diferente de dizer o mesmo nome. Fui a Barra como integrante da Caravana da Academia Maranhense de Letras – mas voltei como filho, como menino, como memória que se reencontra com o próprio berço. De quebra, ainda recebi o título de Cidadão de Barra do Corda. Algo que já havia dentro de mim, e agora está em papel passado.

 

Não consegui esconder a emoção ao subir, mais uma vez, o alto do Calvário. A cidade, lá embaixo, se estendia como uma confissão: nua, sim, mas ainda enfeitada por aquele laço alaranjado que o entardecer costuma atar entre céu e telhados. Vi-me menino outra vez, correndo com os pés descalços pelos caminhos de barro, observando a vida passar como um rio. E lá estavam eles – o Mearim e o Corda – ainda enamorados, ainda se encontrando como se fosse a primeira vez, no Porto Guajajara. Um milagre cotidiano que, aos olhos da infância, parecia eternidade.


 

Entrei na Igreja Matriz com o coração indomável. Ali fui coroinha. Ali toquei sinos como quem rege os próprios sonhos. Era a orquestra da minha vida – desafinada às vezes, mas sempre ruidosa, distraída. Alegre. No alto da torre, um menino franzino comandava os sinos com a autoridade de um maestro de calças curtas. E era como se, naquele tempo, toda a cidade me ouvisse.

 

Houve também reencontros de carne e osso, como com dona Oclair, velha amiga da minha mãe, sentinela da memória atrás do balcão do seu armazém de secos e molhados, ainda de pé, ainda altiva aos 93 anos. Visitei a memória do jornal O Pássaro, nascido das mãos inquietas e letradas de meu saudoso irmão Antônio Carlos, impresso em mimeógrafo, com tinta e sonho, na última quadra dos anos 1970. E ouvi relatos que me fizeram lembrar as tertúlias do Clube Guajajara, com a banda Os Populares do Ritmo e as amigas de minhas irmãs em vestidos floridos, girando pelo salão.

 

Matei a saudade andando devagar, olhando para tudo com os olhos de agora e o coração de antes. A praça Melo Uchôa, hoje em obras, tentava esconder-se atrás dos tapumes, como quem esmorece ante a involução dos tempos. As ruas, antes calçadas de pedra, agora cobertas de asfalto, pareciam estranhas, mas não hostis. O convento dos frades capuchinhos, o Colégio Pio XI, o prédio da Funai... todos com novas fachadas ou simplesmente ausentes. A arquitetura da infância, onde o mundo cabia inteiro, agora reformada, redesenhada ou apagada.



Sim, o mundo mudou. Barra do Corda mudou. E eu também. Mas há algo que permanece: o silêncio cheio de sons da memória, a saudade que tem cheiro de terra molhada pela neblina nas noites de julho, o menino que ainda habita em mim e que, por alguns dias, voltou a correr sobre a piçarra e a se jogar nas águas frias do rio Corda no descuido generoso de uma tarde de calor.  

 

Não sei se foi uma visita ou um mergulho. Só sei que voltei mais inteiro. Como quem toca as margens do próprio umbigo e entende que o tempo, como os rios, dá muitas voltas antes de se perder por aí. De mar em mar. 




quinta-feira, 17 de julho de 2025

Almanaque Guarnicê, uma ponte de ida e volta aos anos 1980


 

Há livros que nascem no tempo certo. Outros, como o Almanaque Guarnicê (Clara Editora/Edições Guarnicê), preferem o desvio, a dobra, o atraso que dá sentido à memória. Publicado em 2003, vinte anos depois do nascimento da revista que o inspirou, o almanaque é menos um compêndio e mais uma pulsação remanescente de uma juventude que resistiu – e existiu – no momento em que a ditadura começava a soltar as rédeas de sua mão de ferro.

 

Guarnicê, suplemento cultural que estreou encartado no jornal O Estado do Maranhão em plena temporada de descompressão política, não era só um projeto gráfico, jornalístico ou literário. Era também um gesto coletivo de ousadia. Um levante de criatividade em tempos nos quais a esperança e o sarcasmo dividiam a mesma mesa de bar. 

 

Na edição de estreia, os editores do Guarnicê carregavam nas páginas o brilho do improviso, da cultura esfacelada, do risco como linguagem. E esse brilho, como que por teimosia, ressurgiu duas décadas depois impresso nas páginas do almanaque, como se fosse possível escutar ali as gargalhadas ao fundo, no canto do olho do texto.

 

Escrever sobre essa história – que não é apenas uma sucessão de edições, mas um estado de espírito – foi uma experiência que me devolveu o frescor do tempo em que tudo ainda era quase possível. Havia um fôlego juvenil, sim, mas também uma lucidez intuitiva combinada com uma anarquia despretensiosa e disruptiva: sabíamos que estávamos registrando uma época e, ao mesmo tempo, intervindo nela. A reportagem que costura o Almanaque Guarnicê fora empreendida com a leveza necessária para não aprisionar em categorias o que é essencialmente movimento, fluxo, inventividade.

 

A narrativa não segue ordem cronológica. Nem poderia. Seria uma traição à alma errante da revista. Os relatos, entrevistas e registros se distribuem como num caleidoscópio. Tudo se move: os nomes, os sons, as imagens. O leitor caminha entre as colunas tortas de uma São Luís que era, simultaneamente, palco e personagem, território e teatro. Ideia e aldeia. Está tudo lá. Ou quase tudo. Laborarte, Pedra de Cantaria, Rabo de Vaca, Projeto Pixinguinha, Maria Aragão, Rock in Rio, Diretas Já, Projeto Grande Carajás, Boi Barrica, Marimbondos de fogo, Aza do Maranhão, Madre Deus, Mirante FM, Chacal, Poeme-se, Baú de Cartuns… E tantos outros sopros que formaram o espírito de uma década marcada pela distração e pelo desejo de mudança.

 

Almanaque Guarnicê não é arqueologia. Não há resgate! Há arte de montagem. O livro tenta compor/recompor um tempo que insiste em permanecer vivo em quem dele tirou uma casquinha, um fino – ou em quem, mesmo sem ter vivido, se reconhece em suas entrelinhas. A ilha, no almanaque, é só uma máquina de edição. Um território onde o passado se mexe, como escrevi no prólogo, e recusa o silêncio.

 

A entrevista-chave com os idealizadores do Guarnicê – Joaquim Haickel, Celso Borges, Roberto Kenard, Paulo Coelho e Érico Junqueira Ayres – é o eixo por onde passam muitos dos fios dessa tapeçaria oral e afetiva. Ali se cruzam o jornalismo, a poesia, o cinema, a política, as artes gráficas, a trama, o drama, a ironia. Aquela ironia que nos mantinha a salvo da resignação.

 

Nas palavras de Mário Prata, que prefacia a obra, essa turma foi feita da matéria mais improvável e necessária: “sobreviventes do velho ofício de transformar o banal das conversas de botequim em bacanal de ideias, de extrair poesia do miolo de pote, de subverter o traço para alcançar o riso...”. Isso não é hosana. É confissão.

 

O texto relaxado fazia do Guanicê uma armadilha precária, subversiva. E essa precariedade era condição da liberdade. A ausência de recursos, longe de limitar, alargava a criatividade. A revista se fez com o que havia – e, sobretudo, com o que não havia: verba, patrocínios que não vingavam, mas exigiam espaço – às vezes no lugar de um poema.

 

E, ainda assim, o Guarnicê floresceu. Como planta que nasce no asfalto. Teve altos e baixos, acertos e desastres. Às vezes errático, às vezes certeiro, o suplemento oscilava entre a limitação dos meios e o excesso de ideias. Produziu 45 edições num tempo em que a precariedade era regra. Mas isso nunca garantiu coerência editorial nem propósito claro. E talvez aí resida o que foi a revista: um corpo em trânsito, atravessado por tensões, colagens e improvisos.

 

O livro Almanaque Guarnicê não foi (e não é) um projeto de continuação ou celebração. Está mais para um documento feito com os restos que o tempo não apagou. Um esforço para entender o que havia ali  nas entrelinhas, nos ruídos, nos impasses e também nos lampejos. O almanaque recompõe um percurso fragmentado, sem costura definitiva, e talvez só funcione mesmo como um exercício de leitura lateral da época.

 

Não há lição, nem modelo a seguir. O que o almanaque oferece é uma travessia possível por um tempo em que se escrevia com mais urgência do que método, mais desejo do que direção. E isso, longe de heroísmo, é só matéria bruta da aventura da juventude. O resto é lenda. 

quinta-feira, 26 de junho de 2025

O sussurro dos livros


Há uma delicadeza quase clandestina nas livrarias de Paris. Percorrendo as prateleiras, o olhar do leitor não depara apenas com capas bem diagramadas, títulos sedutores ou lombadas que gritam silenciosamente sua existência. Há algo mais. Um bilhete. Um post-it colado à capa, rabiscado à mão, com letras ligeiras, quase apressadas, como quem quis registrar uma urgência: a urgência de compartilhar uma revelação. Um lembrete!

 

Esse pequeno pedaço de papel, em amarelo, azul, verde ou rosa, carrega mais que tinta: carrega cumplicidade. Ali, alguém, talvez um livreiro apaixonado pela boa literatura, decidiu sussurrar ao leitor que aquele livro merece ser visto, folheado, desejado. Não se trata de marketing, de algoritmos, de pop-ups ou de promoções impositivas do mundo digital. É algo anterior, artesanal, íntimo. Uma espécie de correspondência secreta entre quem leu e quem, talvez, venha a ler.

 

Curiosamente, os post-its não são novidade no universo da leitura. Eles já ocupam, há muito, um lugar cativo nas mesas, nos cadernos, nas escrivaninhas e nas páginas de leitores atentos. Servem, nesse contexto privado, como pequenas âncoras de memória. São usados para marcar um parágrafo que emocionou, uma ideia que provocou, uma frase que se deseja guardar, quem sabe para repetir numa conversa; ou para pensar mais tarde; ou ainda para não se perder no fluxo ligeiro da vida.

 

Pesquisadores, estudantes, escritores, leitores obsessivos: todos conhecem bem esse gesto. É quase um ritual. Grudar um post-it na página 49 porque ali há uma definição de amor que desmonta todos os tratados filosóficos. Outro na página 121, onde o personagem, ao abrir uma janela, descobre o mundo – e, de quebra, quem lê também. Cada papelzinho colorido é uma tentativa de fixar no tempo aquilo que, de outra forma, poderia escapar como areia entre os dedos.

 

Mas eis que agora os post-its, antes confinados ao espaço íntimo da leitura, saem dos bastidores. Saltam das páginas escondidas e ganham protagonismo nas vitrines, nas prateleiras de destaque, nas capas dos livros. Tornam-se públicos. Tornam-se convite. Tornam-se cartazes minúsculos de afeto literário.

 

De certo modo, é como se a livraria inteira se transformasse no caderno de anotações de alguém. E o leitor, ao circular por aquele espaço, passeia também pelas impressões, pelas paixões e pelas epifanias de quem, antes dele, já habitou aquelas mesmas páginas. Cada bilhete é uma fresta aberta. “Um romance de tirar o fôlego e muito bem narrado”, diz um. Outro mais direto: “Se você gosta de Simone de Beauvoir, prepare-se.” Há ainda os lacônicos, que me parecem os mais potentes: “Leitura urgente”; ou “Pare de olhar e me devore logo”. Presa à capa da edição francesa de Auguries of Innocence (Présages d’Innocence), da poeta e roqueira norte-americana Patti Smith, há a seguinte advertência: “Estes poemas ressoam como oráculos da modernidade.” São alguns exemplos que me chamaram a atenção nas prateleiras de livrarias como Compagnie e A. Pedone Editeur. Mas a onda já se espalhou para além do Quartier Latin.  


 

Penso no quanto esse gesto, simples, despretensioso, quase doméstico, devolve à experiência da leitura uma dimensão perdida na lógica impessoal das recomendações automatizadas. Ali não há robôs. Não há metadados. Há alguém. Uma pessoa real, com caligrafia real, com entusiasmo real, dizendo: “Olha, eu li. E acho que você deveria ler também.” 

 

No Brasil, essa prática ainda não é tão comum. Mas começa a dar sinais de vida. Na Livraria Leonardo Da Vinci, no Centro do Rio, por exemplo, os bilhetes também costumam florescer entre os livros, por enquanto como jogos de humor (trechos risíveis de músicas populares casados com títulos de livro) e sedução literária (leia texto abaixo). 

 

Quem sabe esse flerte entre o papelzinho e o leitor seja o caminho?! Uma forma de devolver à livraria (e à própria leitura) aquilo que ela tem de mais fabuloso: a arte do encontro. A livraria também é uma praça pública.

 

Em verdade, cada livro é um bilhete que alguém escreveu para o mundo. E, por isso mesmo, essa iniciativa soa como algo inusitado, alvissareiro. O post-it, agora colado na capa do livro, é a mão de quem já leu estendida para quem ainda não leu – e talvez nem saiba que precisa ler. Urgentemente. 

 

Leituras invisíveis

 

A vitrine da Livraria Leonardo Da Vinci, no Rio, abriga um segredo embrulhado em papel pardo. Nada de capas brilhantes, sinopses reveladoras ou nomes consagrados em letras douradas. Ali, em alguns períodos do ano, os livros repousam disfarçados, como quem joga um charme discreto num baile de máscaras. 

 

A proposta é simples e engenhosa: sugerir aos curiosos uma leitura sem que eles saibam o título, o autor ou a história. Os leitores são provocados apenas por pistas breves e inventivas, escritas à mão no embrulho, tipo papel de pão. “História do Brasil – Você é do creme ou é do crime?” ou “Não tenho tempo pra ler. Preciso postar, desculpe” são alguns dos exemplos. E o leitor, cúmplice, se lança nessa espécie de roleta russa literária.


 

É uma travessura contra o consumo apressado e visual que tem moldado nossas escolhas. Num tempo em que tudo é imagem, sinopse, marketing, o “Encontro às cegas Da Vinci” devolve ao livro o mistério perdido, o susto bom da descoberta. É como entrar num quarto escuro e confiar que ali dentro mora algo que vale a pena. O jogo de adivinhação transforma a compra num ritual de intuição: será um romance melancólico? Um conto distópico? Uma biografia disfarçada de ficção? A graça está justamente em não saber. Ao leitor, resta se deixar levar, como quem aceita um convite para dançar sem perguntar qual é a música.


 



Mais que um projeto de livraria, a ideia aproxima-se da velha arte de contar histórias ao pé do ouvido. Aquela magia da infância, quando alguém nos entregava um livro dizendo apenas: “Leva, acho que você vai gostar”. Há um gesto de confiança envolvido – na curadoria, no acaso, no próprio desejo de se surpreender. E é também um gesto de escuta: ao escolher um pacote com a inscrição “os estranhos ecos do passado”, o leitor talvez esteja, sem saber, reconhecendo a si mesmo.

 

É bonito ver uma livraria apostando no invisível. Num tempo em que se escolhe vinho pela etiqueta e livro pela capa, o “Encontro às cegas Da Vinci” lembra-nos que a literatura, afinal, é um encontro que se dá no escuro – quando alguém escreve sem saber quem vai ler, e alguém lê sem saber o que vai encontrar. No fundo, todo bom livro é assim: um salto no desconhecido, embalado por palavras que, como esses pacotes de papel pardo, escondem o essencial. Apenas à espera de quem ouse abrir.

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Um minuto de fama na República Tcheca


 Entre alguns lugares por onde andei nestas férias – cada um com sua dose de estranheza e encanto – houve um episódio em particular que, embora não planejado, me arrancou boas risadas depois de digerido. Aconteceu em Praga, essa cidade que transpira cultura, e onde tudo parece ao mesmo tempo antigo e intenso. Um tabuleiro vivo de histórias, de turistas e residentes em disputa por espaço nas pequenas calçadas e nos templos artísticos.

 

Foi durante uma visita ao castelo que dizem ser o maior do mundo – e quem sou eu para duvidar de um castelo que começou a ser erguido no século IX e ainda insiste em não terminar – que me vi envolvido numa situação tão improvável quanto achar um banheiro público nas ruas de São Luís. 

 

Ali ao lado de Adriana, fazendo uma pausa estratégica no meio dos corredores infinitos do palácio, percebi que um casal nos ultrapassava em passos lentos, olhando fixamente para mim. Nada de hostilidade no gesto. Pelo contrário: sorridentes, curiosos, quase radiantes.

 

Acenei com discrição, um gesto de cordialidade universal, e segui conversando com Adriana sobre a riqueza de detalhes da catedral anexa ao castelo. Mas logo vi que os dois haviam parado poucos metros à frente, rindo entre si e voltando os olhos em minha direção com o entusiasmo de quem acabou de avistar uma celebridade. A moça cochichou ao companheiro algo que soou como “É ele mesmo, não é?”. O namorado, ou provavelmente marido, confirmou com a convicção de estar diante do ídolo. “Sim, certeza que é ele”. 

 

Foi aí que o rapaz se aproximou, risonho, e perguntou se poderia tirar uma foto comigo. Fui tomado de surpresa – o que, convenhamos, é sempre a melhor desculpa para qualquer omissão ética em viagens. Em seguida, a moça também quis uma foto. Os dois estavam eufóricos. A emoção era tamanha que, por um instante, me senti mesmo alguém digno de tietagem, em pleno Leste Europeu. Um jogador de futebol aposentado, mas ainda lacrando em programas de TV; um ator de seriado latino; um dançarino de mambo; um influenciador digital em decadência; um coach dos mistérios da sexualidade... Vai saber quem eu era àquela altura!

 

Não houve tempo para explicações. Fiquei em silêncio. Um silêncio consentidor. Conivente. Era visível que aquele encantamento era deles, não meu – e frustrá-los me pareceu uma crueldade gratuita. Preferi sustentar o mistério. Um crime sem vítima, pensei (que poderia ser tipificado como falsidade ideológica culposa? ou lesa-fama, por enganar admiradores incautos e usurpar o sacrossanto papel de um ídolo?). 

 

Claro que, passada a euforia e já com os dois sumindo pelos salões do castelo, bateu a ressaca moral. E se mostrassem a foto aos amigos? E se rissem deles? E se virassem motivo de piada no grupo da família? Comecei a imaginar o instante exato em que a verdade os atingiria: o Google Imagens confirmando que o “famoso” com quem posaram era só um turista brasileiro, com cara de quem se perdeu do grupo.

 

Pior ainda: e se, meia hora depois, eu os reencontrasse? Eles já sabendo da fraude, me olhando com a decepção de quem acabou de encontrar um autógrafo falso num guardanapo? Falando nisso – e se tivessem me pedido um autógrafo? Que nome eu assinaria? O meu? Ou um rabisco ilegível para manter a blague? E se perguntassem em qual novela eu mais gostei de atuar?

 

No fim das contas, essa crônica talvez sirva menos como confissão e mais como aviso. Se alguém conhecer um casal simpático de Punta Cana, República Dominicana, que anda mostrando por aí uma foto com um sujeito sorridente em Praga – esse cara sou eu. E peço desculpas. Não tive coragem de desmenti-los. Mas, por favor, ajudem-me a encontrar essas duas almas crédulas. Vai que ainda dá tempo de dizer a eles que sou só mais um entre tantos que caminham anônimos pelos corredores do mundo, mas que, por um instante, ganhou um papel principal numa história alheia.

 

E sejamos honestos: há personagens que a vida nos entrega que nem o mais caprichoso dos roteiristas saberia inventar.

 

quinta-feira, 5 de junho de 2025

A balzaquiana escarlate


 Tudo é efêmero às margens do Sena, como esse impactante registro captado pela lente iluminada do amigo Cidinho Marques. Não é uma foto pronta, uma capa de revista. É só o faro do flâneur, que da janela do táxi eterniza a elegância com que a dama de vermelho posa para o traço do artista. Um artista de rua, quem sabe!

 

Quem é ela? O que a espera no outro lado do rio? Um marido? Filhos? O casamento em desalinho? O desenho evolui lentamente. Ela ajusta o vestido. O vermelho salta pela calçada e vem dar nos meus olhos.

 

Ela talvez encarne ali a sensibilidade feminina que Balzac abordou com maestria em A mulher de trinta anos. Talvez. Assim como Julie, a protagonista de Balzac que transita entre as expectativas sociais e a busca por significado profundo, a mulher em vermelho carrega consigo não apenas a própria história, mas as narrativas compartilhadas de todas as mulheres que atravessaram séculos desafiando as amarras do destino. Com um leve ajuste no chapéu de aba larga, ela afirma sua presença, reconhecendo seu poder e seu papel no espaço que habita. Os transeuntes que a leiam, portanto.

 

O artista, ao observá-la, vai além do desenho ou da foto; ele busca capturar a essência de uma luta silenciosa. O olhar profundo da dama escarlate interrompe a banalidade do cotidiano, enquanto suas mãos acariciam a roupa, revelando a intenção por trás de cada gesto.

 

A tensão entre o que a sociedade espera e a realidade nua é um tema familiar nas obras de Balzac, e essa cena não é exceção. A mulher de vermelho não é um mero adorno na paisagem parisiense; ela desestabiliza a ordem, instigando novas referências entre o observador e o observado.

 

Os turistas refestelam-se, admirados. Os parisienses, mais habituados ao rio, ao rito, à beleza, embora desconectados à princípio, rapidamente se envolvem na mesma contemplação a que estou preso nos poucos segundos do engarrafamento. É como se, por um momento, a cidade suspendesse seu ritmo cosmopolita, frenético.

 

Tal como Julie, que ao completar trinta anos depara com a complexidade da maternidade, da solidão e de ambições não realizadas, a mulher de vermelho personifica os desafios e as nuances de sua própria narrativa.

 

Quando o vento do Sena acaricia os cabelos da dama da fotografia, a presença dela torna-se ainda mais extravagante: transforma o ambiente, dá vida ao cartaz vintage e às reproduções de obras de arte expostas nos cavaletes. De viés, também é capaz de revelar a crueza da vida de outras mulheres anônimas.

 

Mas a cada pincelada do artista, ela metamorfoseia de musa a símbolo de uma nova identidade feminina em ascensão no século XIX. Essa tendência, tão bem explorada por Balzac, indica que as mulheres desejam muito mais que um papel submisso em uma sociedade que as observa.

 

Antes de concluir a performance, a dama da beira do rio ajusta o chapéu mais uma vez, como se estivesse preparando-se para retornar à sua própria essência, à vida real. Com um último olhar direcionado ao retrato que se tornará eternamente uma parte dela, a dama se afasta.

 

O vestido escarlate, como uma chama, se dissipa na curva do cais, levando consigo a marca de um momento raro. O retrato, a essa hora talvez em suas mãos, permanece como um testemunho tangível de um encontro sublime entre vida e arte. Assim, as verdades da mulher de trinta anos, qual nossa Julie rouge, reverberam através do tempo, ecoando nas memórias eternas das águas do Sena.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

As viagens, os muros e a democracia


Viajar é também perder países, como escreveu o poeta Fernando Pessoa. Mas é, sobretudo, descobrir personagens no meio da paisagem urbana. Encontrar pessoas, colecionar histórias, enxergar os muros.

 

Ontem, vagando pelas ruas de Viena, parei diante de um painel gigante com a inscrição em alemão “Demokratie muss jeden tag erneuert werden”. Não entendo uma linha de alemão, mas a frase tinha algo de direto, incontornável: falava de democracia. Em português, seria algo como “A democracia deve ser renovada todos os dias”.

 

Comecei a fotografar o painel, que trazia, além da frase, rostos desenhados de indígenas, mulheres, crianças e trabalhadores. A impressão era clara: aquilo era mais do que arte urbana. Era um lembrete. Um chamado para os passantes – como eu – sobre a importância de cuidar da democracia como se cuida de algo vivo. Um bem coletivo que exige presença, atenção e responsabilidade.

 

Ali, em frente ao painel, também estava um homem. Meia-idade, barba grisalha, jeans surrado, colete, máquina fotográfica em punho. Um olhar que vasculhava detalhes. Perguntei, pelo que aparentava, se era fotógrafo profissional. Sim, era. Sergio Montero, espanhol, fotógrafo e documentarista.

 

Conversamos brevemente. Contou que estava de passagem por Viena e seguiria no dia seguinte para Mauthausen.

 

Na pequena cidade austríaca, Montero vai documentar um ato político amanhã, dia 5, organizado por familiares de vítimas do Holocausto. Uma manifestação em memória dos que perderam a vida sob o regime nazista. Um gesto coletivo para manter acesa a lembrança e, com ela, a consciência dos riscos que rondam os esquecimentos da história.

 

Mauthausen foi um campo de concentração durante a Segunda Guerra. Muitos prisioneiros passaram por lá, entre eles um número expressivo de espanhóis. Após a Guerra Civil espanhola, muitos republicanos que resistiram ao franquismo se exilaram, mas acabaram capturados e enviados para campos nazistas. Mauthausen, conhecido pela brutalidade dos trabalhos forçados, foi um desses destinos.

 

Milhares de espanhóis morreram ali e nos subcampos ligados a Mauthausen. Parte dolorosa da história da Espanha e do Holocausto europeu. Segundo o fotógrafo, em datas como esta de amanhã, familiares, ativistas e instituições se reúnem para homenagear as vítimas e lembrar o que não pode ser esquecido. Um encontro que, além da memória, quer afirmar os fundamentos da democracia: tolerância, respeito, direitos humanos.

 

Lábios cerrados

 

Montero é autor de um documentário intitulado “Los labios apretados” ("Os lábios cerrados", em tradução livre), lançado em 2018. O impulso para o filme veio de uma descoberta íntima: já adulto, soube que seu avô havia sido um dos mineiros envolvidos na Revolução de 1934 nas Astúrias. Um dado que nunca fora mencionado em casa. O silêncio não era acaso, mas herança.

 

A Revolução de 1934 é um marco da resistência operária na Espanha pré-Guerra Civil, uma tentativa de barrar o avanço de um governo que se alinhava ao fascismo e culminaria no regime de Francisco Franco.

 

Montero cresceu nas Astúrias, cercado por esse silêncio espesso. Como em tantas famílias espanholas, o passado foi trancado por medo ou trauma. O próprio título do filme é uma metáfora desse apagamento.

 

A produção levou nove anos. Depoimentos colhidos no Uruguai, Argentina e na própria Astúria. Acesso a 22 arquivos em diferentes cidades. A história da Revolução de 1934 havia sido sepultada durante o franquismo. Falar sobre ela era tabu. A repressão foi tão eficaz que muitos descendentes de militantes sequer souberam da existência desses episódios familiares.

 

Sergio Montero, meu interlocutor fortuito numa tarde nublada em Viena, é personagem de uma história que faz cruzamentos entre episódios públicos e sua vida privada. Uma história de resistência à repressão. E pela causa das liberdades. Da democracia, esta palavra de origem grega – e, com o perdão do trocadilho, também gregária, por juntar pessoas em frente a painéis aleatórios – que atravessa o tempo para se reinventar a todo instante. Nos muros. Nas viagens. Nos corações e mentes.

 

Escrevo este texto já no trem, na esperança de encontrar outras praças, mais histórias, sem saber se a ida de Montero a Mauthausen renderá um novo documentário. Ele mesmo diz não ter certeza do que o aguarda amanhã.