segunda-feira, 9 de junho de 2025

Um minuto de fama na República Tcheca


 Entre alguns lugares por onde andei nestas férias – cada um com sua dose de estranheza e encanto – houve um episódio em particular que, embora não planejado, me arrancou boas risadas depois de digerido. Aconteceu em Praga, essa cidade que transpira cultura, e onde tudo parece ao mesmo tempo antigo e intenso. Um tabuleiro vivo de histórias, de turistas e residentes em disputa por espaço nas pequenas calçadas e nos templos artísticos.

 

Foi durante uma visita ao castelo que dizem ser o maior do mundo – e quem sou eu para duvidar de um castelo que começou a ser erguido no século IX e ainda insiste em não terminar – que me vi envolvido numa situação tão improvável quanto achar um banheiro público nas ruas de São Luís. 

 

Ali ao lado de Adriana, fazendo uma pausa estratégica no meio dos corredores infinitos do palácio, percebi que um casal nos ultrapassava em passos lentos, olhando fixamente para mim. Nada de hostilidade no gesto. Pelo contrário: sorridentes, curiosos, quase radiantes.

 

Acenei com discrição, um gesto de cordialidade universal, e segui conversando com Adriana sobre a riqueza de detalhes da catedral anexa ao castelo. Mas logo vi que os dois haviam parado poucos metros à frente, rindo entre si e voltando os olhos em minha direção com o entusiasmo de quem acabou de avistar uma celebridade. A moça cochichou ao companheiro algo que soou como “É ele mesmo, não é?”. O namorado, ou provavelmente marido, confirmou com a convicção de estar diante do ídolo. “Sim, certeza que é ele”. 

 

Foi aí que o rapaz se aproximou, risonho, e perguntou se poderia tirar uma foto comigo. Fui tomado de surpresa – o que, convenhamos, é sempre a melhor desculpa para qualquer omissão ética em viagens. Em seguida, a moça também quis uma foto. Os dois estavam eufóricos. A emoção era tamanha que, por um instante, me senti mesmo alguém digno de tietagem, em pleno Leste Europeu. Um jogador de futebol aposentado, mas ainda lacrando em programas de TV; um ator de seriado latino; um dançarino de mambo; um influenciador digital em decadência; um coach dos mistérios da sexualidade... Vai saber quem eu era àquela altura!

 

Não houve tempo para explicações. Fiquei em silêncio. Um silêncio consentidor. Conivente. Era visível que aquele encantamento era deles, não meu – e frustrá-los me pareceu uma crueldade gratuita. Preferi sustentar o mistério. Um crime sem vítima, pensei (que poderia ser tipificado como falsidade ideológica culposa? ou lesa-fama, por enganar admiradores incautos e usurpar o sacrossanto papel de um ídolo?). 

 

Claro que, passada a euforia e já com os dois sumindo pelos salões do castelo, bateu a ressaca moral. E se mostrassem a foto aos amigos? E se rissem deles? E se virassem motivo de piada no grupo da família? Comecei a imaginar o instante exato em que a verdade os atingiria: o Google Imagens confirmando que o “famoso” com quem posaram era só um turista brasileiro, com cara de quem se perdeu do grupo.

 

Pior ainda: e se, meia hora depois, eu os reencontrasse? Eles já sabendo da fraude, me olhando com a decepção de quem acabou de encontrar um autógrafo falso num guardanapo? Falando nisso – e se tivessem me pedido um autógrafo? Que nome eu assinaria? O meu? Ou um rabisco ilegível para manter a blague? E se perguntassem em qual novela eu mais gostei de atuar?

 

No fim das contas, essa crônica talvez sirva menos como confissão e mais como aviso. Se alguém conhecer um casal simpático de Punta Cana, República Dominicana, que anda mostrando por aí uma foto com um sujeito sorridente em Praga – esse cara sou eu. E peço desculpas. Não tive coragem de desmenti-los. Mas, por favor, ajudem-me a encontrar essas duas almas crédulas. Vai que ainda dá tempo de dizer a eles que sou só mais um entre tantos que caminham anônimos pelos corredores do mundo, mas que, por um instante, ganhou um papel principal numa história alheia.

 

E sejamos honestos: há personagens que a vida nos entrega que nem o mais caprichoso dos roteiristas saberia inventar.

 

quinta-feira, 5 de junho de 2025

A balzaquiana escarlate


 Tudo é efêmero às margens do Sena, como esse impactante registro captado pela lente iluminada do amigo Cidinho Marques. Não é uma foto pronta, uma capa de revista. É só o faro do flâneur, que da janela do táxi eterniza a elegância com que a dama de vermelho posa para o traço do artista. Um artista de rua, quem sabe!

 

Quem é ela? O que a espera no outro lado do rio? Um marido? Filhos? O casamento em desalinho? O desenho evolui lentamente. Ela ajusta o vestido. O vermelho salta pela calçada e vem dar nos meus olhos.

 

Ela talvez encarne ali a sensibilidade feminina que Balzac abordou com maestria em A mulher de trinta anos. Talvez. Assim como Julie, a protagonista de Balzac que transita entre as expectativas sociais e a busca por significado profundo, a mulher em vermelho carrega consigo não apenas a própria história, mas as narrativas compartilhadas de todas as mulheres que atravessaram séculos desafiando as amarras do destino. Com um leve ajuste no chapéu de aba larga, ela afirma sua presença, reconhecendo seu poder e seu papel no espaço que habita. Os transeuntes que a leiam, portanto.

 

O artista, ao observá-la, vai além do desenho ou da foto; ele busca capturar a essência de uma luta silenciosa. O olhar profundo da dama escarlate interrompe a banalidade do cotidiano, enquanto suas mãos acariciam a roupa, revelando a intenção por trás de cada gesto.

 

A tensão entre o que a sociedade espera e a realidade nua é um tema familiar nas obras de Balzac, e essa cena não é exceção. A mulher de vermelho não é um mero adorno na paisagem parisiense; ela desestabiliza a ordem, instigando novas referências entre o observador e o observado.

 

Os turistas refestelam-se, admirados. Os parisienses, mais habituados ao rio, ao rito, à beleza, embora desconectados à princípio, rapidamente se envolvem na mesma contemplação a que estou preso nos poucos segundos do engarrafamento. É como se, por um momento, a cidade suspendesse seu ritmo cosmopolita, frenético.

 

Tal como Julie, que ao completar trinta anos depara com a complexidade da maternidade, da solidão e de ambições não realizadas, a mulher de vermelho personifica os desafios e as nuances de sua própria narrativa.

 

Quando o vento do Sena acaricia os cabelos da dama da fotografia, a presença dela torna-se ainda mais extravagante: transforma o ambiente, dá vida ao cartaz vintage e às reproduções de obras de arte expostas nos cavaletes. De viés, também é capaz de revelar a crueza da vida de outras mulheres anônimas.

 

Mas a cada pincelada do artista, ela metamorfoseia de musa a símbolo de uma nova identidade feminina em ascensão no século XIX. Essa tendência, tão bem explorada por Balzac, indica que as mulheres desejam muito mais que um papel submisso em uma sociedade que as observa.

 

Antes de concluir a performance, a dama da beira do rio ajusta o chapéu mais uma vez, como se estivesse preparando-se para retornar à sua própria essência, à vida real. Com um último olhar direcionado ao retrato que se tornará eternamente uma parte dela, a dama se afasta.

 

O vestido escarlate, como uma chama, se dissipa na curva do cais, levando consigo a marca de um momento raro. O retrato, a essa hora talvez em suas mãos, permanece como um testemunho tangível de um encontro sublime entre vida e arte. Assim, as verdades da mulher de trinta anos, qual nossa Julie rouge, reverberam através do tempo, ecoando nas memórias eternas das águas do Sena.

quarta-feira, 4 de junho de 2025

As viagens, os muros e a democracia


Viajar é também perder países, como escreveu o poeta Fernando Pessoa. Mas é, sobretudo, descobrir personagens no meio da paisagem urbana. Encontrar pessoas, colecionar histórias, enxergar os muros.

 

Ontem, vagando pelas ruas de Viena, parei diante de um painel gigante com a inscrição em alemão “Demokratie muss jeden tag erneuert werden”. Não entendo uma linha de alemão, mas a frase tinha algo de direto, incontornável: falava de democracia. Em português, seria algo como “A democracia deve ser renovada todos os dias”.

 

Comecei a fotografar o painel, que trazia, além da frase, rostos desenhados de indígenas, mulheres, crianças e trabalhadores. A impressão era clara: aquilo era mais do que arte urbana. Era um lembrete. Um chamado para os passantes – como eu – sobre a importância de cuidar da democracia como se cuida de algo vivo. Um bem coletivo que exige presença, atenção e responsabilidade.

 

Ali, em frente ao painel, também estava um homem. Meia-idade, barba grisalha, jeans surrado, colete, máquina fotográfica em punho. Um olhar que vasculhava detalhes. Perguntei, pelo que aparentava, se era fotógrafo profissional. Sim, era. Sergio Montero, espanhol, fotógrafo e documentarista.

 

Conversamos brevemente. Contou que estava de passagem por Viena e seguiria no dia seguinte para Mauthausen.

 

Na pequena cidade austríaca, Montero vai documentar um ato político amanhã, dia 5, organizado por familiares de vítimas do Holocausto. Uma manifestação em memória dos que perderam a vida sob o regime nazista. Um gesto coletivo para manter acesa a lembrança e, com ela, a consciência dos riscos que rondam os esquecimentos da história.

 

Mauthausen foi um campo de concentração durante a Segunda Guerra. Muitos prisioneiros passaram por lá, entre eles um número expressivo de espanhóis. Após a Guerra Civil espanhola, muitos republicanos que resistiram ao franquismo se exilaram, mas acabaram capturados e enviados para campos nazistas. Mauthausen, conhecido pela brutalidade dos trabalhos forçados, foi um desses destinos.

 

Milhares de espanhóis morreram ali e nos subcampos ligados a Mauthausen. Parte dolorosa da história da Espanha e do Holocausto europeu. Segundo o fotógrafo, em datas como esta de amanhã, familiares, ativistas e instituições se reúnem para homenagear as vítimas e lembrar o que não pode ser esquecido. Um encontro que, além da memória, quer afirmar os fundamentos da democracia: tolerância, respeito, direitos humanos.

 

Lábios cerrados

 

Montero é autor de um documentário intitulado “Los labios apretados” ("Os lábios cerrados", em tradução livre), lançado em 2018. O impulso para o filme veio de uma descoberta íntima: já adulto, soube que seu avô havia sido um dos mineiros envolvidos na Revolução de 1934 nas Astúrias. Um dado que nunca fora mencionado em casa. O silêncio não era acaso, mas herança.

 

A Revolução de 1934 é um marco da resistência operária na Espanha pré-Guerra Civil, uma tentativa de barrar o avanço de um governo que se alinhava ao fascismo e culminaria no regime de Francisco Franco.

 

Montero cresceu nas Astúrias, cercado por esse silêncio espesso. Como em tantas famílias espanholas, o passado foi trancado por medo ou trauma. O próprio título do filme é uma metáfora desse apagamento.

 

A produção levou nove anos. Depoimentos colhidos no Uruguai, Argentina e na própria Astúria. Acesso a 22 arquivos em diferentes cidades. A história da Revolução de 1934 havia sido sepultada durante o franquismo. Falar sobre ela era tabu. A repressão foi tão eficaz que muitos descendentes de militantes sequer souberam da existência desses episódios familiares.

 

Sergio Montero, meu interlocutor fortuito numa tarde nublada em Viena, é personagem de uma história que faz cruzamentos entre episódios públicos e sua vida privada. Uma história de resistência à repressão. E pela causa das liberdades. Da democracia, esta palavra de origem grega – e, com o perdão do trocadilho, também gregária, por juntar pessoas em frente a painéis aleatórios – que atravessa o tempo para se reinventar a todo instante. Nos muros. Nas viagens. Nos corações e mentes.

 

Escrevo este texto já no trem, na esperança de encontrar outras praças, mais histórias, sem saber se a ida de Montero a Mauthausen renderá um novo documentário. Ele mesmo diz não ter certeza do que o aguarda amanhã. 

segunda-feira, 7 de abril de 2025

O fracasso glorioso da poesia


 

Muitos livros nos seduzem nas prateleiras de sebos e livrarias ou pelos atributos do autor ou pelo tema abordado ou pela arte da capa ou pelo título. Para alguns leitores, o vigor do título é o visgo. Foi o título de O ódio pela poesia que me chamou a atenção para a leitura da obra do norte-americano Ben Lerner. Um texto provocativo que explora a paradoxal relação de amor e ódio que leitores, não leitores e até poetas nutrem pela poesia.

 

Publicado originalmente em 2016, em Nova Iorque, e só agora editado no Brasil pela editora Fósforo, com tradução para o português do poeta Leonardo Fróes, O ódio pela poesia é um ensaio que de saída, com base apenas na leitura do título, suscita algumas indagações: o que distancia a poesia do grande público? quem tem tempo pra poesia num mundo atravessado pela linguagem instantânea da sociedade digital? como é possível gostar de algo tão etéreo e que não faz parte da nossa cesta de consumo?   

 

Numa época em que nos “acostumamos” a conviver com o ódio através das telas dos smartphones, é quase natural que poucos confiem (ou alimentem algum tipo de expectativa) na poesia. Em meio aos enfrentamentos políticos forjados na polarização e, em alguns casos, no vazio das ideias, nos Estados Unidos, no Brasil e em outros cantos do mundo, quem vai apostar na poesia? Quem haverá de se servir do mel da poesia? 

 

Há uma desconfiança deliberada no ofício do poeta. “Ofício”, aliás, que soa até exagerado para quem enxerga de soslaio um poeta. “Poesia numa hora dessas?”, o hiperbólico ponto de interrogação de Luís Fernando Veríssimo, talvez seja a senha mais escrachada que justifique, aqui e ali, a resistência à poesia.  

 

Alguns cultuam a poesia em segredo, outros a escanteiam com desprezo solene. Poucos se arriscam a defendê-la em público sem parecer antigo, ridículo ou intelectualmente delirante. E talvez seja com base nesse constrangimento coletivo, nesse “ódio com afeto”, que Lerner transforma o brevíssimo O ódio pela poesia (74 páginas) em cardápio útil para quem amarga a ambivalência de amar e odiar a poesia ao mesmo tempo. 

 

Além de recorrer a críticos de literatura, Lerner, que também é poeta, bebe na fonte de Sócrates, Emily Dickinson, Walt Whitman, Charles Olson, Rimbaud, Charles Baudelaire,  T.S. Eliot, Ezra Pound, Sylvia Plath, Claudia Rankine e outros para explicar a sua linha de pensamento. “Eu, também, não gosto de poesia, mas em grande parte organizei minha vida ao redor dela”, diz o autor.    

 

Ele menciona, por exemplo, o ensaio de Platão em A República, no qual o filósofo expulsa os poetas de sua cidade ideal, argumentando que eles corrompem a juventude e distorcem a verdade. Também recorda as críticas de Thomas Love Peacock e a famosa investida de Adorno ao afirmar que “escrever poesia depois de Auschwitz é um ato de barbárie”, uma declaração que reflete a tensão entre a arte e a realidade brutal da história.

 

Lerner começa seu livro com uma constatação incômoda: odiamos a poesia porque ela nos promete o absoluto, a universalidade, mas não alcança. O poema é sempre menor que aquilo que poderia ou pelo menos deveria ser. Existe, segundo ele, uma lacuna intransponível entre a “poesia ideal” (sublime, transcendente, perfeita) e a “poesia real”, que tropeça na linguagem, nas formas, nas leituras. O poema, no fundo, é a crônica de um fracasso anunciado.

 

Mas é um fracasso glorioso.

 

Ao revisitar figuras históricas que desprezaram a poesia e poetas que foram ignorados, censurados ou taxados de excêntricos, Lerner não tenta absolvê-los. Em vez disso, ele se diverte com o paradoxo: a repulsa à poesia é o combustível secreto da própria poesia. O desprezo é também um tributo. Só se odeia aquilo que nos confronta. Odiar poemas, segundo ele, pode bem ser uma espécie de “fúria defensiva contra a simples sugestão de que outro mundo, outra escala de valor, é possível”. Odiar a poesia talvez seja um truque honesto para tentar desvendá-la, ainda que minimamente. 

 

O autor escreve com leveza e sarcasmo, sem perder a profundidade. A tese de Lerner parece simples (a poesia falha, e é nisso que reside sua força), mas de uma potência inventiva, cheia de atalhos e pontes improváveis entre o clássico e o contemporâneo, entre o universal e o particular.

 

A tese impõe-se contra o mito. Contra a ideia de que todo poema é uma parábola. Um oráculo. Uma flor no caos. A poesia, diz Lerner, nasceu com um defeito de fábrica. E ainda assim nos seduz. Por isso a raiva. Por isso a resistência.

 

O livro não se destina apenas a escritores, aspirantes a poetas, críticos e estudantes. “O ódio pela poesia convida os que se sentiram excluídos, levados a crer que a poesia não é para eles, a compreender seu desprezo, e reconsiderá-lo, sem uma defesa moralista de que ler poemas é algo bom ou que nos torna melhores”, diz o texto de apresentação de Stephanie Borges.  

 

Improvável não trazer a lume, a partir dessa leitura, a poesia que brota de contextos periféricos e que, exatamente por isso, foi muitas vezes rejeitada. Alguns poetas maranhenses, por exemplo, foram desacreditados em seu tempo. Sousândrade, visionário do século XIX e precursor do modernismo brasileiro, escreveu O Guesa em linguagem experimental, rompeu com padrões e fora incompreendido por muitos de seus contemporâneos, que o acusaram de hermetismo e delírio. 

 

A poesia de Nauro Machado é vista ainda como hermética, de difícil interpretação. E a obra de Bandeira Tribuzi talvez nunca tenha alcançado o reconhecimento do valor intelectual e da dimensão lírica que de fato ela possui.  

 

Dessacralizar o papel da poesia tem sido um desafio raro, engendrado em alguns núcleos de discussão e leitura, em blogs, portais de internet e podcasts espalhados pelo Brasil. Em São Luís, exemplos de boas iniciativas que dissecam a poesia – não como totem, tabu ou rotina missionária, mas como exercício da fala, seguindo o rito da poesia como imperfeição possível – são os encontros Reverso e Sarau das Mercês, ambos realizados mensalmente. 

 

Reverso, que conta com o entusiasmo de Eduardo Júlio, Adriana Gama de Araújo, Fernando Abreu, Luís Inácio Costa e outros, elege a cada encontro aberto um poeta para discussões livres sobre vida e obra e leitura em voz alta de poemas do bardo da vez. O Sarau das Mercês, idealizado pela poeta Laura Amélia Damous, no Convento das Mercês, convida a cada edição poetas para lerem poemas e falarem de suas obras. Além disso, correm pelas beiradas os grupos de slam, a poesia de rua que a cada dia ganha mais força em aglomerados urbanos da capital maranhense. Esse recorte regional que aqui faço não está inserido no livro de Lerner, mas pode ser pauta de uma próxima prosa. 

 

O autor de O ódio pela poesia, em sua escrita quase apocalíptica, mas necessária, nos lembra que o poema nunca será aquilo que prenuncia. E também nos diz, com uma boa dose de ironia, que isso não importa. Tanto faz! A poesia não precisa vencer o leitor. Basta que ela resista. Basta que continuemos escrevendo. E lendo, ainda que com toda a falha.

 

terça-feira, 25 de março de 2025

“Adolescência”: a série, as redes sociais e a epidemia do ódio


A minissérie “Adolescência” expõe, com crueza, o desmoronamento psicológico de uma família em meio à acusação de assassinato praticado por um garoto de 13 anos. Com temática densa e mais apropriada para debates em fóruns de psicólogos, psiquiatras, sociólogos ou educadores, o conjunto da obra – a história, a atuação do elenco, a ousadia na linguagem cinematográfica e, sobretudo, o impacto da abordagem – entrou rapidamente na pauta de diferentes rodas de conversa. Virou “trend”, no dialeto juvenil. 

 

“Adolescência” é um choque de realidade no streaming. Os pais, diante do susto causado pela série, “descobrem” que estão desconectados dos filhos; que há um universo paralelo no quarto da casa; que no mundo digital existe uma comunicação cifrada e quase imperceptível a olho nu; que a violência é moldada na tessitura das vulnerabilidades humanas e na busca por aceitação social. 

 

Bullying, misoginia e crime no ambiente tóxico das redes sociais são os ingredientes para o sucesso avassalador da minissérie. Embora ficcional, a produção britânica ecoa a realidade da era digital e evoca o papel das redes sociais como catalisadoras da mentira e dos discursos de ódio. 

 

Plataformas como X (ex-Twitter), Instagram, Facebook, Tik Tok e YouTube operam sob a bandeira da “liberdade de expressão”, mas, na prática, normalizam a misoginia, o racismo, a homofobia e falas e atitudes fascistas. A defesa estridente dessa liberdade, encampada por figuras públicas como Elon Musk, não é um princípio democrático, mas uma cortina de fumaça para a multiplicação de seguidores e a irresponsabilidade corporativa.  

 

Em “Adolescência”, o garoto Jamie, acusado de assassinato, encontra refúgio em comunidades online que validam sua raiva e suas frustações. Esses espaços, dominados pela retórica dos chamados incels (celibatários involuntários), propagam a ideia de que mulheres são objetos a serem controlados ou punidos. 

 

Não é difícil perceber como algoritmos recomendam conteúdo cada vez mais extremista, transformando a frustração em ódio estruturado. Este é talvez o pano de fundo da série, que expõe a violência como sintoma de um ecossistema digital doente, sem freios, que monetiza o engajamento e normaliza a barbárie. 

 

Desde que adquiriu o Twitter, Musk falseia a realidade como paladino da liberdade de expressão, a partir de seu quartel-general na Casa Branca, onde atualmente mira adversários, reais e imaginários, sentado na poltrona de primeiro-ministro de Trump. 

 

Na prática, a gestão do bilionário transformou o X em um paraíso para neonazistas, teóricos da conspiração e misóginos, sem qualquer filtro. Contas antes banidas por discurso de ódio agora são reativadas, moderadores foram demitidos e políticas de combate à desinformação, esvaziadas.  

 

No YouTube, algoritmos promovem conteúdo de extrema direita a usuários jovens; no Instagram, perfis misóginos acumulam milhões de seguidores; no Facebook, grupos neonazistas florescem sob a falácia do “debate aberto”. Todas essas plataformas lucram com a polarização, usando a desculpa da neutralidade para evitar responsabilidade. Enquanto isso, adolescentes como Jamie são forjados em comunidades que os ensinam a odiar — e a matar.  

 

A minissérie, embora potente, peca ao reduzir a crise a um drama individual ou familiar – sim, o drama é também familiar! Mas na produção britânica o vilão direto é o garoto perturbado. Onde estão os outros? 

 

A “liberdade de expressão”, no código de Musk e de tantos outros expoentes da extrema-direita, inclusive parte expressiva da malta bolsonarista no Brasil, é apenas uma mentira conveniente, largamente compartilhada. Ela serve para proteger o direito de odiar, não o direito de existir ou resistir. O assassinato da garota na série não é um acidente, mas a crônica anunciada de um ecossistema que valoriza mais o clique no isolamento do quarto que a vida.

 

Também tenho um filho de 13 anos e me vi no espelho, assustado. Mas a minissérie “Adolescência” pode ser interpretada, dentro e fora de casa, como um convite ao diálogo. Para além do peso temático, há uma construção cinematográfica que entra para a história, com o impacto do plano sequência, o desempenho técnico por trás das câmeras, a direção de fotografia e a performance arrebatadora do elenco, notadamente o principiante Owen Cooper que interpreta Jamie. 

 

limafelixalberto@gmail.com

domingo, 12 de janeiro de 2025

Dois livros para ler, ouvir e pensar

 


Lançados no final de 2024, It’s a long way, o exílio em Caetano Veloso, de Márcia Fráguas, e a reedição de Rabo de foguete, os anos de exílio, de Ferreira Gullar (publicado originalmente em 1998), oferecem perspectivas complementares sobre a experiência do desterro durante a ditadura militar brasileira. Enquanto Fráguas investiga, pelo viés acadêmico, como o exílio moldou a produção artística de Caetano Veloso, em um relato visceral e autobiográfico Gullar narra as dores e reflexões de sua vivência forçada longe do Brasil. Juntas, as obras compõem um retrato denso e multifacetado sobre como a arte emergiu como forma de resistência e reinvenção frente às brutalidades do regime autoritário.

 

Márcia Fráguas, em It’s a long way, o exílio em Caetano Veloso (Garota FM Books), apresenta uma análise sobre um dos períodos mais marcantes na trajetória do cantor e compositor baiano e, por extensão, na música popular brasileira. Resultado de sua dissertação de mestrado na USP, o livro lançado há menos de um mês oferece um estudo detalhado dos três álbuns produzidos por Caetano no exílio (1969–1972), amparado por extensa pesquisa documental e um mergulho interpretativo nas letras e contextos históricos de produção dessas obras.

 

A narrativa de Márcia Fráguas oscila entre o rigor acadêmico e a potência de uma história construída a partir de fontes primárias, como uma entrevista exclusiva concedida por Caetano, além de livros, jornais e revistas, como O Pasquim e Verdade Tropical e Narciso em férias (ambos de Caetano) e Tropical sol da liberdade (de Ana Maria Machado). O trabalho da autora mapeia as transformações emocionais e estéticas do artista, interpretando como a experiência da prisão e do desterro reverbera nas canções dos álbuns Caetano Veloso (1969), Caetano Veloso (1971) e Transa (1972).

 

No primeiro capítulo, dedicado ao disco de 1969, a autora explica como a obra, conhecida como “o álbum branco de Caetano” (o artista fora obrigado pelos militares a não usar na capa do disco qualquer foto que remetesse aos horrores da época), encapsula o impacto do confinamento. 


Gravado em condições atípicas – com a voz de Caetano registrada em Salvador, em pleno confinamento, e os instrumentos adicionados em São Paulo, sob a direção de Rogério Duprat –, o disco de 1969 carrega uma atmosfera de angústia e melancolia, apesar de conter faixas de tom aparentemente mais leve, como o frevo Atrás do trio elétrico e o samba de roda Marinheiro só. Canções como Irene, Os argonautas e Não identificado transbordam as emoções de um artista confrontado pela censura e pelo silêncio forçado. O “álbum branco” foi lançado no Brasil em agosto, um mês após a partida de Caetano Veloso e Gilberto Gil para o exílio – em 27 de julho de 1969.

 

O exílio em Londres, narrado no segundo capítulo, traz uma nova camada de complexidade à análise. O álbum de 1971 expõe a tensão entre o luto e a reinvenção artística, com músicas como London, London – um hino nostálgico e introspectivo com recorte chuvoso, triste e belo, dos gramados verdes e o céu azul dos britânicos – e a reinterpretação de Asa branca (de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira), que conecta Caetano às suas raízes enquanto dialoga com o cenário pop-rock inglês da época em A little more blueMaria Bethânia e Shoot me dead

 

Márcia Fráguas descreve como essas canções refletem a tentativa de sobrevivência e resistência simbólica diante do distanciamento e do desencantamento expressos pelo próprio Caetano em correspondências da época ao jornal O Pasquim, como neste trecho: “Talvez alguns caras no Brasil tenham querido nos aniquilar; talvez tudo tenha acontecido por acaso. Mas eu agora quero dizer aquele abraço a quem quer que tenha querido me aniquilar porque conseguiu. Gilberto Gil e eu enviamos de Londres aquele abraço para esses caras. Não muito merecido porque agora sabemos que não era tão difícil assim nos aniquilar. Mas virão outros. Nós estamos mortos. Ele está mais vivo do que nós”.

 

O último capítulo, dedicado a Transa, um disco com produção do britânico Ralph Mace e direção musical de Jards Macalé, sintetiza a multiplicidade sonora e cultural do período londrino. Com influências que vão do reggae ao samba, da capoeira a Jimi Hendrix e do jazz aos Beatles, o trabalho é uma declaração de renascimento artístico e emocional. O álbum é primoroso porque, além de incorporar uma sonoridade universal, traz canções inspiradas e um time de músicos de primeira grandeza, como Tutty Moreno, Moacyr Albuquerque, Áureo de Sousa e o próprio Macalé.

 

Canções como You don’t know me e Nine out of ten dão sinais de um Caetano renovado, um tanto refeito da angústia por ter sido obrigado pela ditadura a deixar o Brasil, e por isso tudo “irreconhecível para o público, para a própria MPB e para aqueles que participaram de sua morte simbólica” logo no início do exílio. Outras faixas de destaque são Triste BahiaMora na filosofia e a música que dá nome ao livro de Márcia Fráguas, It’s a long way.     

 

O livro não apenas interpreta as nuances musicais e líricas dos álbuns, mas traduz os dilemas existenciais do exílio. Segundo as palavras de Leonardo Davino de Oliveira, no prefácio, as canções de Caetano durante o período evidenciam a “poética do exílio”, marcada por tensões entre alegria e luto, som e silêncio, pertencimento e afastamento. Os três discos flutuam entre a melancolia do desterro e a inventividade multicultural do Tropicalismo.

 

Embora em alguns momentos o texto submeta-se a determinados jargões acadêmicos, o livro It’s a long way é uma contribuição relevante para a compreensão do impacto da ditadura militar na arte brasileira e, especificamente, na obra de Caetano Veloso. Em pouco mais de 200 páginas, Márcia Fráguas consegue passar a ideia de como o desterro moldou uma das fases mais criativas e dolorosas do artista baiano, oferecendo às novas gerações, especialmente, uma leitura revedora da complexa relação entre arte, identidade e resistência.

 

Além de provocar uma imersão natural num dos momentos mais conturbados da história – os anos de ditadura militar no Brasil e os seus efeitos colaterais na cultura e no comportamento – o livro nos leva, ao final da leitura, a ouvir de uma maneira diferente os discos de Caetano Veloso analisados pela autora. It’s a long way é, portanto, uma obra para ler e ouvir.

 

Um exilado salvo pela poesia

 

Em Rabo de foguete, os anos de exílio, o poeta Ferreira Gullar nos conduz por um dos períodos mais tumultuados da política brasileira e detalha como a perseguição da ditadura o levou a viver como expatriado durante os anos de chumbo, especialmente após o Ato Institucional nº 5, o AI-5. Relançado pela Editora José Olympio em 2024, o livro retoma seu vigor crítico e histórico, permanecendo tão atual quanto essencial.

 

A obra, ao mesmo tempo uma autobiografia e um relato histórico, mistura memória, análise política e reflexões pessoais. Dividida em capítulos que se sucedem como fragmentos de um mosaico, Rabo de foguete reconstrói, cronologicamente, a passagem de Gullar por países como Uruguai, Chile, Peru, Argentina e a então União Soviética, entre 1971 e 1977, com detalhamento de uma jornada que vai do treinamento militar no Instituto Marxista-Leninista, em Moscou, até o drama para localizar um de seus filhos desaparecidos em Buenos Aires.

 

O livro, que pode ser lido como se fora um romance, captura o sentimento de deslocamento e incerteza vivido por Gullar. O autor faz uma densa reflexão sobre o exílio, a censura, a clandestinidade e a inexperiência para a luta de muitos que, como ele, não demonstravam vocação para embates armados: “Em Moscou passei a conhecer melhor o PCB [Partido Comunista Brasileiro], já que só então trabalhei e convivi com os quadros profissionais do partido, com seu aparato clandestino, e percebi que a muitos de nós faltava a mística do revolucionário, a convicção inabalável que determina o cumprimento rigoroso das decisões e o sacrifício sem limites.”

 

Gullar narra sua convivência com outros exilados latino-americanos, em especial os chilenos, durante o governo de Salvador Allende e o golpe de Augusto Pinochet. Esses episódios oferecem uma visão rica e detalhada sobre a “integração” das ditaduras na América Latina e como elas operavam sob a lógica do “terror transnacional”.

 

Em Rabo de foguete, Gullar revisita sua própria militância com um olhar crítico, mas nunca ressentido. Ele reconhece erros e excessos nas jornadas de luta nos movimentos à esquerda, mas sem abrir mão de suas convicções democráticas.

 

O poeta narra, com crueza e sinceridade, o impacto do isolamento sobre sua saúde mental. Ele não apenas enfrentou a perseguição política que o levou para fora do Brasil, mas viveu o exílio como um terreno de profundas dores pessoais. Um dos filhos sofria com surtos de esquizofrenia, um quadro que se agravava em meio às condições precárias e à constante instabilidade que marcavam a vida de um exilado. Um outro filho envolvia-se com drogas, amplificando o caos e a desesperança que cercavam a família.

 

Em Rabo de foguete, Gullar expõe a impotência de lidar com esses desafios enquanto tentava sobreviver ao desterro e manter viva sua própria identidade como poeta e intelectual. O leitor é confrontado com a vulnerabilidade de um homem que, ao mesmo tempo em que resistia ao regime opressor (também a Argentina estava entregue ao coturno dos generais), lutava para não cair em meio aos infortúnios no ambiente familiar.

 

E foi exatamente nesse período mais difícil que uma força imaginativa o empurrou, talvez como derradeira saída, para o Poema sujo. Gullar transmutou sua angústia, saudade e reflexão política em um poema monumental, considerado uma de suas maiores obras. Escrito em Buenos Aires, entre maio e outubro de 1975, Poema sujo é um grito visceral de socorro que, como dito por Otto Maria Carpeaux, encarna todas as experiências, vitórias, derrotas e esperanças da vida do homem brasileiro. “Hoje, ao refletir sobre aqueles momentos, estou certo de que o poema me salvou: quando a vida parecia não ter sentido e todas as perspectivas estavam fechadas, inventei, através dele, um outro destino”, conta Gullar em Rabo de foguete.

 

Numa curva da história em que o Brasil e outros países no mundo enfrentam debates sobre memória, verdade e o papel da democracia, o desafio de revisitar Rabo de foguete ganha agora uma nova camada de relevância. A luta, os riscos e dramas narrados por Gullar ecoam os desafios contemporâneos de resistência ao autoritarismo e de defesa dos direitos fundamentais. A leitura vale a viagem até o fim, quando pressentimos que o nó na garganta do poeta também é nosso. 

 

Interseções na prisão, na música e na poesia

 

Antes do exílio de ambos, Gullar e Caetano estiveram presos pelo regime militar no mesmo prédio, em finais dos anos 1960. “A imagem mais forte de Ferreira, para mim, vem do meu período na prisão. Ele estava, junto com Gil, Antonio Callado, Paulo Francis e outros, num xadrez ao lado do meu. Sua lucidez e sua firmeza faziam dele o melhor companheiro imaginável”, escreveu Caetano em 2016, ao saber da morte de Gullar. 

 

A prisão do cantor e compositor baiano teria sido motivada principalmente pela censura cultural e sua postura desafiadora como artista, ao passo que a do poeta maranhense teria relação direta com sua atuação intelectual crítica, além da militância política no Partido Comunista Brasileiro.

 

Gullar e Caetano compuseram o bolero Onde andarás, incluído no primeiro disco solo do baiano, em 1968, portanto antes de suas prisões. “Essa parceria não nasceu de uma relação minha com Caetano. Foi a Maria Bethânia que pediu se eu gostaria de escrever para ela duas letras de fossa, de dor de cotovelo, que ela queria gravar no seu disco de estreia. Então fiz e entreguei a ela duas letras: uma é Onde andarás; a outra é um poema que também é do mesmo livro, que adaptei para servir como letra, porque como poema era muito longo. Mas Caetano só musicou um deles. O outro poema acho que inspirou  Alegria alegria”, contou Gullar, em 2009, em entrevista ao jornalista sergipano Gilfrancisco Santos.  

 

Esse mesmo álbum de Caetano, que também inclui músicas como TropicáliaSoy loco por ti América e Alegria alegria, foi eleito pela revista Rolling Stone Brasil como o 37º melhor disco brasileiro de todos os tempos. Em 2001, o disco foi incluído no Hall da Fama do Grammy Latino. Depois de Caetano, a canção de Gullar e Caetano foi gravada por Maria Bethânia, Marisa Monte, Joanna, Gal Costa e Adriana Calcanhoto. 

 

Na interseção entre história e arte, o livro de Márcia Fráguas e a reedição da obra de Ferreira Gullar celebram, cada uma em seu tom, a resistência tecida pela criação em tempos de exílio. Se em It’s a long way somos conduzidos pela música transgressora e inventiva de Caetano Veloso, em Rabo de foguete mergulhamos na densidade poética e visceral do desterro vivido por Gullar. Os livros transcendem a experiência individual para oferecer um panorama coletivo de luta e expressão, realçando que, mesmo num cenário de sombras, a arte se mantém como farol e refúgio. Revisitar essas histórias é também não se deixar sucumbir ao esquecimento. É compreender que a poesia – como a música – sempre encontra algum atalho para nos salvar.

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Ainda estou aqui, um filme para não esquecer

Reprodução de imagem do filme de Salles: a família Paiva em foto para a imprensa


O filme Ainda estou aqui, de Walter Salles, é uma obra que perfura a bolha do cinema convencional e impõe-se em 2024 como divisor de águas na narrativa sobre a ditadura militar no Brasil. Com uma forte carga emocional, o longa-metragem evita deslizes apelativos ou panfletários para alcançar uma sofisticação rara ao retratar temas tão delicados e dolorosos.

 

No centro da trama, Fernanda Torres vive Eunice Paiva, uma mulher que se ergue como farol de resistência diante da brutalidade do regime militar. A personagem enfrenta uma jornada devastadora após o sequestro, prisão e morte do marido, o ex-deputado Rubens Paiva, um dos casos mais emblemáticos da violência estatal após o golpe militar de 1964. 

 

Fernanda interpreta Eunice com uma intensidade e sutileza extraordinárias, numa performance que mescla a dor interior com a firmeza na linguagem gestual e no percurso de luta por ela empreendido. Um dos aspectos mais marcantes de Eunice é sua capacidade de conduzir essa luta com dignidade e força, sem jamais permitir que sua fragilidade transpareça para os filhos ou para a opinião pública. 

 

Walter Salles, ao adaptar a obra de Marcelo Rubens Paiva para o cinema, opta por um enfoque que não é exclusivamente de denúncia, de protesto, mas que privilegia questões humanas, com ênfase na integridade moral e emocional de Eunice. A mensagem política é clara, tanto no livro como no filme, embora não seja ela a mola propulsora de arrebatamento que o longa-metragem provoca.

 

No livro de Marcelo Rubens Paiva (Alfaguara, 2015), o ponto de partida da narrativa é o Alzheimer de Eunice Paiva, mãe do autor e uma figura central em sua vida. Ao narrar o declínio cognitivo de Eunice, Marcelo reconstrói a história de sua família. O desaparecimento de Rubens Paiva é o eixo em torno do qual a trama se desenrola. No entanto, o livro não se limita à dimensão política desse evento; ele se aprofunda nas implicações humanas, emocionais e psicológicas que tal perda provocou.


Com o desaparecimento do marido, Eunice cria os filhos sozinha e assume um papel de resistência, engajando-se em causas políticas e sociais. Marcelo retrata a mãe com um misto de admiração, ternura e assombro. Eunice é a mãe fria, que pouco abraça ou beija os filhos, mas que não abre mão de tê-los por perto, debaixo de sua saia. 

 

As memórias de Eunice são reconstituídas com sensibilidade, revelando uma mulher que se recusou a ser definida pelo papel de vítima. “Não faríamos o papelão de sairmos tristes nas fotos. Nosso inimigo não iria nos derrubar. Família Rubens Paiva não chora na frente das câmeras, não faz cara de coitada, não se faz de vítima e não é revanchista. Trocou o comando, continua em pé e na luta. A família Rubens Paiva não é a vítima da ditadura, o país que é. O crime foi contra a humanidade, não contra Rubens Paiva. Precisamos estar saudáveis, bronzeados para a contraofensiva. Angústia, lágrimas, ódio, apenas entre quatro paredes. Foi a minha mãe quem ditou o tom, ela quem nos ensinou”, relata Marcelo na obra.

 

O livro Ainda estou aqui, vencedor do Prêmio Jabuti em 2015, aborda a questão da memória de maneira multifacetada. O Alzheimer de Eunice simboliza não apenas a perda individual de suas lembranças, mas também o perigo do esquecimento coletivo em relação aos horrores da ditadura. Nesse sentido, o livro funciona como um alerta: lembrar é resistir, e contar essas histórias é uma forma de preservar a verdade.

 

Em sua primeira empreitada literária – Feliz ano velho, lançado em 1982 pela editora Brasiliense – Marcelo Rubens Paiva, ao narrar os desdobramentos do acidente que o deixou tetraplégico, aborda também, ainda que de passagem, o drama familiar após o sequestro e morte do pai Rubens Paiva em plena ditadura militar. O livro virou best-seller, ganhou prêmios e reedições e foi adaptado para o teatro e cinema.    

 

No filme de Walter Salles, o recorte na trajetória da protagonista é, ao mesmo tempo, regional e universal, ao refletir sobre a capacidade de resistência de mulheres que, diante de adversidades inimagináveis, encontram forças para abalar o establishment. Quantas Eunices mundo afora não moeram a corda de sustentação do estado? Daí a repercussão de Ainda estou aqui nos mais importantes festivais de cinema, em diferentes países e culturas. 

 

Inicialmente apresentada como uma esposa e mãe buscando respostas, Eunice gradualmente vai se tornando uma militante ativa, moldada pelo trauma da perda do marido, pela condição de chefe de família que o destino lhe impôs, até ser completamente dragada pelo Alzheimer.

 

Vale frisar que o filme também merece atenção por abrir discussões que ecoam nos dias atuais. Ao abordar a brutalidade do regime militar, Ainda estou aqui convida o espectador a traçar paralelos com a situação de grupos vulneráveis na contemporaneidade — como pretos, pobres, indígenas e LGBTQIA+ — que enfrentam formas de repressão institucionalizadas. Salles, com sutileza, aponta para as semelhanças entre os mecanismos de opressão do passado e do presente, sem perder de vista o foco humano e pessoal da narrativa.

 

Muitos brasileiros, de diferentes correntes políticas, já foram às salas de cinema para assistir ao badalado Ainda estou aqui. O filme está no centro das conversas, entrou em pauta nas repartições públicas e mesas de botequins. Mas o que dizem, afinal, sobre a história de Eunice Paiva os defensores de uma nova intervenção militar no País, da volta das forças armadas ao comando da política brasileira? Aprovam a narrativa de Walter Salles? Se reconhecem na história? Relativizam?   

 

Ainda estou aqui é, em suma, uma obra que se destaca por sua narrativa envolvente, pela atuação excepcional de Fernanda Torres e pelo impacto emocional duradouro. Ao deixar o cinema, o telespectador segue com o filme ressoando alma adentro. Walter Salles cria uma experiência cinematográfica que não apenas honra a memória de Rubens Paiva, mas que celebra a resistência das Eunices que enfrentaram o regime militar e encontraram, na dor, uma razão para continuar lutando.