terça-feira, 12 de julho de 2022

De Daomé à Casa das Minas, a rota de escravidão da rainha


Rio - Ao perceber a presença de maranhenses na fila de autógrafos do terceiro volume da série Escravidão (editora Globo Livros), o historiador Laurentino Gomes foi logo chamando a atenção para um capítulo especial do livro dedicado a Nã Agotimé. Na noite de ontem estávamos eu, o poeta Salgado Maranhão e meu filho João Vítor com a namorada Jorgeanna na Livraria da Travessa, no lançamento da obra que fecha a trilogia e faz um recorte temporal da Independência do Brasil à Lei Áurea.  

 

Laurentino bebe nas fontes do historiador Alberto da Costa e Silva e dos antropólogos Pierre Verger (também etnógrafo e fotógrafo) e Sérgio Ferretti para associar a história da rainha africana Nã Agotimé às origens do Querebentan de Zomadonu, a popular Casa das Minas que resiste ao tempo na rua de São Pantaleão, no Centro de São Luís. 

 

Não obstante o volume de segredos e mistérios guardados nos rituais de culto afro no Brasil, respeitados na maioria dos estudos antropológicos, Nã Agotimé teria fundado a Casa das Minas no Maranhão depois de ser vendida ao Brasil como escrava durante guerra familiar pela sucessão do trono de Daomé (atual Benim) no final do século XVIII.

 

Oficialmente, a Casa das Minas foi fundada por Maria Jesuína, em nome de quem está a escritura mais antiga do imóvel, datada de 1847. Há quem diga, porém, que Maria Jesuína nunca teria existido. Seria apenas um codinome para esconder “a verdadeira responsável pela criação desse local de culto, cuja identificação por razões obscuras se manteria até hoje como um segredo muito bem guardado pelas suas sucessoras”.   

 

Nã Agotimé foi uma das muitas esposas do rei Agonglô. Nã tomou partido de um dos filhos para assumir o reinado após a morte de Agonglô. Mas a guerra civil levou ao trono Adandozan, um rei vingativo e sanguinário que governou Daomé por duas décadas. A Casa das Minas seria, portanto, um pedaço do reino daometano – exatamente aquele em contraposição a Adandozan – transportado para o outro lado do Atlântico pela rainha exilada.

 

Laurentino Gomes chama a atenção, com essa e outras histórias da trilogia, para o fato de que a escravidão afetava não somente pobres, mas pessoas ricas e poderosas. “A perversa engrenagem do tráfico negreiro não poupava ninguém”. Segundo ele, a exemplo do caso de Nã Aglotimé, uma fatia representativa da nobreza africana foi lançada nos porões de navios “rumo a um destino muitas vezes anônimo e misterioso no cativeiro no Brasil”.     

 

Em 2005, o terreiro da Casa das Minas fora tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Ao longo do tempo, sem a renovação de filhas e mães de santo, os rituais e segredos – como o culto aos chamados vuduns – deixaram de ser passados de uma geração para outra. Em 2015 morreu a última chefe da casa, Deni Prata Jardim, aos 89 anos.    

 

De acordo com pesquisas de Laurentino Gomes, em seis anos de viagens por doze países, no período de chegada da rainha Nã Agotimé ao Brasil o Maranhão era uma das principais rotas do comércio negreiro no continente americano. De 1741 a 1842, aproximadamente 100 mil africanos desembarcaram em São Luís.  

 

Como na definição de José Bonifácio de Andrada e Silva, destacada em boa hora no livro de Laurentino Gomes – que lança um olhar de estudioso, mas também de agudeza crítica, sobre triste período da história da humanidade – a escravidão era “um cancro que contaminava e roía as entranhas da sociedade brasileira”. 

 

Por fim, ao finalizar a leitura do capítulo recomendado por Laurentino, sobre a rainha Nã Agotimé, deixo aqui o registro de uma composição memorável da música produzida no Maranhão que retrata com poesia e engenho melódico o eco dos tambores de choro da Casa das Minas. Trata-se do enredo Do Daomé à Casa das Minas – a origem de um povo, de Betto Pereira e Augusto César Maia, um dos mais belos da história dos carnavais maranhenses defendido em 1980 pela escola Flor do Samba.  

 

Foi Dã quem deu origem a Daomé

E de lá pra cá a África se transportou

Guardadas no comé da Casa das Minas

Memória de um povo exaltada ao som de um tambor

 

Uma família Davice

Aqui impõe sua cultura e tradição

Acolhe escravos, cresce forte

E a nação gege rompe a aurora dos seus deuses

Pra Zomadonu com todo seu panteão

Negro dança a noite inteira

Cantando lamentos, de pés no chão

 

Toca o tambor de choro

É mais um negro que se vai

Morre um negro nasce outro

Deixa o negro em sua paz

 

Negra Fulô era feirante do amor

E o negrinho Cosme se fez barão dos bem-te-vis

E ostentou toda uma raça, Catarina Mina

Negros brotaram das raízes do reinado de Abomei

Mãe Andreza encheu de amor todo Querebentan

Evoca o teu orixá e oferenda abobó, caruru e cuxá

 

Roda saia preta mina

Que o atabaque ecoou

Mostra a beleza e a nobreza

Que o povo fon te deixou

 

sexta-feira, 27 de maio de 2022

A elegância em sépia na mochila

Aqui e ali ainda haveremos de encontrar o sopro da quarentena nas folhas desses livros de agora – agora que parece uma eternidade! Inevitável. O cheiro de dentro da casa persevera em meio a sustos, anseios, os lírios no quintal, o café morno, os gatos na varanda, a solidão em trova e uma nesga de esperança. Mas a poesia, ainda bem, vai além do aqui, do ali e do agora, porque viceja fora da caixa. 

Este terceiro livro de poemas de Eduardo Júlio, O sopro do lugar junto ao tempo, respira e transpira fora do quarteirão da quarentena. Nele, o autor, com sua rajada de versos, irrompe a espessa casca do espaço-tempo: de um lado, uma nuvem sobre a sala, as cidades que habitam o poeta, a montanha à espreita e o mar além; de outro, a miragem líquida de anteontem, a poeira no deserto dos olhos no presente e o atalho nefando para o amanhã que não ri, que não rima. 

Em Alguma trilha além, o livro de estreia (2005), Eduardo Júlio visitou os poemas de acampamento, a beira da estrada, as pegadas na areia e os ponches da mocidade. Em 2020, com O mar que restou nos olhos, o poeta deu um salto quase olímpico – não por acaso o livro foi um dos finalistas do festejado Prêmio Jabuti – ao fundir memória e maresia, a Chapada Diamantina e uma praia selvagem de Alcântara, a melancolia do exílio e algumas janelas de afeto. 

O sopro do lugar junto ao tempo é uma extensão em cinemascope do engenhoso livro anterior, com planos abertos e imagens mais nítidas, quase balsâmicas, mas que ainda preservam aquela elegância em sépia dos versos de outrora. Não há passadismo algum na poesia de Eduardo Júlio, mas uma nostalgia rara, franca, de uma velha modernidade que se esconde por trás da decantada primavera digital. O poeta, ‘observando o declínio sistemático/ da existência’, espicha os olhos por entre as antenas de telefonia até alcançar bianas enfeixando amores no oceano que corre logo ali depois dos telhados da cidade antiga. 

Como nos primeiros livros, Eduardo Júlio segue errante escavando a vida pela margem, com a pá da palavra e suas sementes de guaraná e girassol, sempre decidido a se perder, feito um mochileiro que se recusa a enterrar as últimas quimeras de Ginsberg & Kerouac & Burroughs. Em ‘Um dia antes do fim do mundo’, talvez um dos poemas mais certeiros do livro, o poeta desembainha a sua toada: 

pela manhã 
tentei atravessar o continente 
da minha janela 

O autor recria imagens que nos parecem familiares, muito próximas de uma realidade coletiva. Parecem. Porém, revirada a carapaça do poema, há de se reconhecer que são imagens só dele, de tessitura muito particular. ‘O rio parecia correr ao contrário/ desde sempre’. Em algum momento, sem bilhete de embarque, transportamo-nos com o autor para Basra, ali no começo do mundo, no sopro mesopotâmico que ele nos proporciona, embalados por esse sussurro célere de encantamento metafórico, polifônico. 

O livro de Eduardo Júlio abre caminhos improváveis e alimenta presságios como se o ‘para sempre’ fosse apenas uma questão de ‘abraçar o mar por instantes’. No poema ‘Inventário’ ele revisita um velho baú de saudade e madeira, como que se reencontrando com o pai, e em silêncio desfia uma oração feito salvaguarda de um tempo que não findará. Em ‘Alento’, ouve-se em certa frequência alguém cantando sob os escombros. E escuta-se a tinta clareando o céu de ‘Van Gogh’: 

resta a noite estrelada 
pronta para devolver algum fulgor 
aos girassóis 

Os sopros de lirismo estão em toda parte. Nas marés imprecisas de uma juventude que não secou (‘de três dias ou cinquenta anos/ nunca vou saber ao certo’). Nos uivos de um poeta convidando outro poeta a se lançar na tormenta. E na ventura de querer olhar o mundo outra vez com os pés. Mas nem tudo leva a crer que a poesia não suporta vicissitudes do futuro. O livro apenas sugere um lugar possível, um tempo verossímil, em que a inércia do leitor possa bater asas.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Celso Borges, Chico Maranhão e uma oração ao tempo imóvel

 

Uma pena que a pandemia ainda persista e nos mantenha ilhados. Mas a saída, como de costume, é pela ponte. Ou pelas pontes, como a que o poeta e jornalista Celso Borges nos acalanta hoje ao publicar o livro Lembranças lenços lances de agora – memórias e sons da cidade na voz de Chico Maranhão, com o selo da editora Palavra Acesa. 

 

Para saber como tem pulsado a ilha nesses últimos cinquenta anos é preciso atravessar essa ponte. E Celso Borges usa como pretexto para a travessia episódios e personagens que ainda gravitam no imaginário cultural maranhense, com as gravações do antológico disco Lances de agora, do cantor e compositor Chico Maranhão, na sacristia da Igreja do Desterro, em 1978.


 

De costura poética envolvente, muitíssimo bem ilustrado com fotografias (algumas delas inéditas) que revelam diferentes facetas de uma cidade antiga e do espírito libertino de seus artistas, o livro tem o mérito de juntar pesquisa minuciosa, fundamentada, com um inapelável desleixo lírico –  sutilmente necessário, para uma obra que tem na roda um dos poetas mais engenhosos da música produzida no Maranhão.

 

Em Lembranças lenços lances de agora, Celso Borges sai por aí inventando outro mapa, revirando terras mal socadas, flanando por fontes e pontes paralelas, no encalço de um Chico Maranhão arredio, desconfiado, até dar no mar, na lenda, no tambor, na arquitetura dos afetos, no descampado da poesia... 

 

Celso Borges mergulhou nesse projeto por conta e risco, apaixonado, mas não como sacristão preocupado em servir um prato feito ao leitor e muito menos ao personagem estudado. Foi fiel tão somente ao seu instinto de poeta, de artista, de alguém no meio dessa usina. 

 

São lenços e lances de agora – as trupiadas políticas, o reggae e algumas contradições de Chico. São também lembranças que remetem a um momento distante, ao selo Discos Marcus Pereira, aos festivais de música, à Gabriela, ao Bandeira de aço, ao Pedra de cantaria, ao Laborarte, à Fonte nova e a outras nuvens. Remetem ainda a nomes como Dona Camélia Viveiros, Maestro Nonato, Antônio Vieira, Ubiratan Sousa, João Pedro Borges, Turíbio Santos, Pixixita, Valdelino Cécio, Nélson Brito, Sérgio Habibe, Chico Saldanha, Zezé Alves, Ronald Pinheiro e a tantos mais.  

 

Se o LP Lances de agora vale uma missa, o que dizer então de um livro que é quase uma celebração ao tempo? Ao tempo imóvel – dos discos, do Chico, do Maranhão, da aldeia mínima. Talvez uma oração ao tempo do próprio autor. E por tudo isso vale a liturgia da leitura. 

 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Quando as cartas gritam


As cartas não mentem. Jamais. O mantra cai como uma luva no livro recém-publicado da jornalista e escritora Maristela Sena dos Santos. Jogo de cartas entre Hannah Arendt e Mary McCarthy – impressões de duas mulheres sobre o próprio tempo é uma obra que esmiúça, com privilegiada astúcia, acontecimentos que marcaram o século XX. 

 

Pelas correspondências trocadas entre a filósofa Hannah e a escritora Mary, Maristela nos ajuda a pisar nesse território recente da história povoado por ideias, obras, movimentos sociais, conflitos étnicos, tragédias coletivas, relatos de viagens, política etc.

 

Observatório valioso da história contemporânea, que ajuda a compreender a realidade de agora, o livro está dividido em três partes: o gênero epistolar, a escrita de se fazer conhecer; cartas para o futuro; e papel de carta, mensagens de Hannah e Mary em forma de verbetes. Este último, meio manual, meio almanaque. 

 

A obra, resultado da dissertação de mestrado de Maristela no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Maranhão, traz a lume temas como nazismo e holocausto, feminismo, racismo, política internacional, populismo e muito mais.  

 

As cartas trocadas entre Hannah e Mary, de acordo com o prefácio de Henrique Borralho, são como testemunhos para além das escrituras, “registros de um tempo” com “visões de mundo subjetivas” que ajudam a nos colocar em posição de alerta em meio ao obscurantismo que corrompe a inteligência humana.

 

O Jogo de cartas de Maristela Sena nos faz enxergar a complexidade da degradação do homem, e talvez um tanto das origens do comportamento de alguns em tempos tão sombrios. As cartas não mentem. Pelo contrário, sugerem informações fundamentais que ajudam a decifrar, por exemplo, fatos ou situações bizarras dos tempos atuais. 

 

Nenhum idiota propõe a criação de um partido nazista no Brasil, assim do acaso. Não! Esse antissemitismo moderno, como assinala Hannah Arendt, advém em grande parte do ambiente de torpor da sociedade. É daí que nascem a tensão permanente e o ódio à cultura, aos índios, aos pobres, aos negros, aos homossexuais...

 

O livro de Maristela Sena, mais do que oportuno, é necessário. Traça, de forma objetiva, a importância da literatura para o ensino de História, “como instrumento facilitador do processo de aprendizagem”. Diferentemente das escolhas acadêmicas caretas, às vezes enfadonhas, a obra tem passagens de uma leveza sedutora, a exemplo das cartas de duas mulheres ativistas do Maranhão, Silvane Magali e Diane Pereira, para Hannah e Mary. “Eu saí de um portal em pequena cidade do interior do Maranhão para criar outro portal, só que dessa vez ele não possui parede, o portal sou eu. E nesse momento eu me transporto para dentro do que você [Mary] escreve, eu me conecto, eu te agradeço e me reinvento”, diz um dos trechos da correspondência de Diane.        

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

100 anos da Semana de Arte Moderna – Graça Aranha e o "cancelamento" precoce dos modernistas

O maranhense Graça Aranha (foto: internet)

               Idealizador do evento, o escritor maranhense, ao longo dos anos, foi posto em plano secundário pela vanguarda paulista


“Nem sempre a fatura desse grupo é homogênea, porque cada um dos artistas obedece fatalmente aos impulsos misteriosos do seu próprio temperamento, e assim mais uma vez se confirma a característica da arte moderna, que é do mais livre subjetivismo”. Trocando em miúdos, era “cada um por si” na Semana de Arte Moderna, de acordo com as palavras do maranhense Graça Aranha, no dia 13 de fevereiro de 1922, na conferência de abertura do evento que ficou marcado como um divisor de águas na produção artística brasileira. 

 

A fatura quase nada homogênea do futuro não era uma mera questão semântica. Por trás da vanguarda paulista, que ansiava romper com o passado e incorporar ao Brasil a estética futurista que já fazia barulho na Europa, estava a oligarquia cafeeira, a família tradicional, cristã. E mesmo alguns dos modernistas ou eram de famílias influentes, endinheiradas, ou tinham laços com a elite intelectual de São Paulo. 

 

A ideia de que havia um grupo coeso identificado tão somente com novos modelos de expressão artística, essa ilusão gregária que recaía sobre a Semana de Arte moderna, ilustrava com frequência o noticiário. Internamente, porém, ecoavam mais alto as diferenças. Sobre literatura, artes, filosofia, visão de mundo... E não demorou muito para Graça Aranha virar o alvo preferencial dessas diferenças.

 

Culto, articulado, de ideias humanistas e reformistas (e até certo ponto controversas) pela experiência de anos vividos na Europa, frequentador das altas rodas, em pouco tempo Graça Aranha viria a ser – como se diz hoje no jargão das redes sociais – “cancelado” pelos principais expoentes paulistas do modernismo. 

 

Forjou-se, inicialmente nos bastidores e depois em público, uma acentuada ciumeira à projeção e liderança de Graça Aranha, àquela altura figura badalada, com alguns livros publicados, como o romance Canaã, de 1902. Já os paulistas, até então pouco conhecidos no campo editorial, não queriam dividir com um escritor nordestino, “de elegância europeia”, o protagonismo de uma festa e de um movimento que haveriam de entrar para a história. Desadornado na autoironia, foi o paulista Guilherme de Almeida quem cunhou a frase “Éramos os playboys intelectuais de 1922”.

 

Realizada de 13 a 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, a Semana de Arte Moderna teve como propósito reunir o que havia de mais atual na literatura, nas artes plásticas, na música, na arquitetura e no teatro. Dela participaram Di Cavalcante, Anita Malfatti, Mário e Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, Manuel Bandeira, Victor Brecheret, Guiomar Novaes, Heitor Villa-Lobos, Ronald de Carvalho, Oswaldo Goeldi e Graça Aranha, entre outros.

 

O maranhense havia retornado da Europa em novembro de 1921, depois de atuar por alguns anos como diplomata na Suíça, Noruega, Dinamarca e França. Nascido em São Luís no dia 20 de junho de 1868, estava com 54 anos à época da Semana de Arte Moderna, enquanto que os demais modernistas eram bem mais jovens, a maioria com idade inferior a 30 anos. 

 

Graça Aranha foi discípulo de Tobias Barreto nos tempos da faculdade de Direito no Recife. Depois tornou-se amigo e acólito de Joaquim Nabuco, que lhe abriu as portas da diplomacia e das relações com a política e a intelectualidade. Foi Nabuco quem apresentou o maranhense à família Prado, de forte poder econômico e influência na vida social e cultural de São Paulo. 

 

Na Europa, Graça Aranha esteve em contato com diferentes correntes literárias e linhas de pensamento. Pressentiu a gênese da revolução modernista antes mesmo do modernismo, em sutil mimetismo com a filosofia. Retornara ao Brasil com a ideia de organizar um festival de artes e literatura. 

 

Em conversa com o pintor Di Cavalcanti, na livraria de Jacinto Silva, em São Paulo, o escritor e diplomata associou-se a um projeto semelhante do grupo paulista para idealizar a Semana de Arte Moderna. Montaram a programação, convidaram artistas, definiram a data. Contudo, faltava o principal. Quem iria bancar o dispendioso evento? Graça Aranha sugeriu então que o grupo procurasse seu amigo Paulo Prado, que de pronto assumiu, com outros empresários, todas as despesas da festa modernista.  

 

Paulo Prado, além de fazendeiro, era escritor, ensaísta e colecionador de arte. Graça Aranha, casado com Maria Genoveva, era tido como interlocutor de alguns negócios da família Prado e mantinha um longo caso extraconjugal com a irmã de Paulo, Maria Nazareth, esposa de Oduvaldo Pacheco Silva.

 

Ao longo dos anos, o nome de Graça Aranha foi perdendo força no contexto da Semana de Arte Moderna e do próprio modernismo. Não por acaso, página do governo de São Paulo, aberta agora na internet para celebrar o centenário do movimento, faz questão de frisar que a Semana de 22 é um fenômeno eminentemente urbano e paulista. O bairrismo menospreza um outro Brasil, talvez rural, dos cariocas Di Cavalcanti, Ronald de Carvalho e Villa-Lobos, do pernambucano Manuel Bandeira e do mineiro Agenor Barbosa, só para citar alguns nomes. 

 

Como esquecer atores de outras regiões do País que ajudaram a construir a Semana e o pensamento modernista? Como deixar em segundo plano alguém que fez a conferência de abertura do evento? Como não lembrar que foi Graça Aranha também o responsável por convidar artistas do Rio a se juntarem aos paulistas na programação da festa? Como ignorar o fato de que as primeiras reuniões do grupo modernista aconteceram no hotel paulista onde Graça Aranha estava hospedado?  

 

A grilagem do modernismo


Mário e Oswald de Andrade assumiram o protagonismo da Semana de 22 (foto: internet)

Em reportagem do Jornal do Comércio, à época da Semana de Arte Moderna, mencionada no livro 1922, a semana que não terminou (Companhia das Letras, 2012)de Marcos Augusto Gonçalves, Graça Aranha era reverenciado como a grande figura pública “à frente dessa iniciativa que pretende fazer uma completa demonstração das nossas modernas correntes estéticas”. Ainda no auge do evento no Teatro Municipal, é fato que Graça Aranha, pela sua retórica, recebera o reconhecimento da imprensa, naturalmente com algumas exceções. 




Obtivera também, de início, o apreço público daqueles que com o tempo se transformaram nos “papas” do modernismo no Brasil, a ponto de de ser chamado de “protomártir da nova era”, por Oswald de Andrade; e de “a antemão da Semana”, por Mário de Andrade. Mas, depois, fora estigmatizado e desprezado intelectualmente pelos dois escritores paulistas, que assumiram, sem cerimônia, a paternidade da Semana de Arte Moderna.

 

Ao longo de décadas, Mário de Andrade liderou uma espécie de resistência ao nome de Graça Aranha. O autor de Pauliceia desvairada considerava o escritor maranhense como um potencial aproveitador e “interesseiro”, capaz de “grilar” o happening modernista. “Grilar”, de acordo com a diatribe de Mário, era usurpar dos paulistas o papel de legítimos “latifundiários” do modernismo.

 

Mário de Andrade dizia aos quatro ventos que o modernismo não viera ao Brasil “dentro da mala de Graça Aranha”. No livro de Marcos Augusto Gonçalves, há referência a uma palestra de Mário, de 1942, nas comemorações dos 20 anos do festival. Perguntado sobre quem teria sido o autor da ideia da Semana de Arte Moderna, o autor de Macunaímarespondera com a seguinte evasiva: – Por mim não sei quem foi, nunca soube, só posso garantir que não fui eu. Mário dizia apenas que “alguém” lançara a ideia dos festivais de literatura. – Foi o próprio Graça Aranha? Foi Di Cavalcanti? – titubeava. 

 

No livro de memórias Um homem sem profissão (Globo, 1990), também Oswald de Andrade destila sua imanente antipatia ao escritor maranhense, alguém “geralmente confuso e parlapatão, filho duma abominável formação filosofante do século XIX”.   

 

O negacionismo acadêmico  

 

Levado pelo amigo Joaquim Nabuco e apoiado por Machado de Assis, Graça Aranha foi um dos fundadores, em 1897, da Academia Brasileira de Letras, mesmo sem ainda ter publicado um único livro. Escreveu Canaã ainda no Espírito Santo, mas só o publicou quando estava na Europa, em 1902. O livro é tido como um romance de temática modernizante, povoado de questões filosóficas e multiétnicas, e por isso mesmo pouco lido nos anos que sucederam à sua publicação.     

 

Em 1924, Graça Aranha rompeu com a Academia Brasileira de Letras, acusada por ele de passadista, alheia a uma produção literária de caráter nacional e avessa ao modernismo em ebulição no Brasil. “Se a Academia se desvia desse movimento regenerador, se a Academia não se renova, morra a Academia!”, bramiu o escritor.

 

Ao se voltar contra a ABL e o “arcadismo” latente de muitos intelectuais de vanguarda no Brasil, Graça Aranha fora vítima, dias depois, da ira de um Oswald de Andrade supostamente acossado. Em artigo no jornal A Manhã, ele brada: “Graça Aranha é um dos mais perigosos fenômenos de cultura que uma nação analfabeta pode desejar. Leu mais duas linhas do que os outros, apanhou três ideias além das de uso corrente e, faquirizado por uma hipnose interior, crédulo e ingênuo, quer impor à outrance os seus últimos conhecimentos, quase sempre confusos e caóticos”.

 

A estética do cosmos 


Grupo de artistas envolvidos na realização da Semana de Arte Moderna (foto: internet) 

Parte da imprensa paulista considerou o manifesto “A emoção estética da arte moderna”, de Graça Aranha, na abertura da Semana de 22, decepcionante por não defender, objetivamente, a chamada escola futurista. Em editorial do dia 14 de fevereiro de 1922, o jornal A Gazeta cobrava algo mais contundente: “Era de se esperar que uma arte que pretende ser nova recebesse do seu paladino ilustre a marca indelével e elucidativa de algum princípio também novo com que a pretensa escola se apresenta à conquista de modernos ideais”. 

 

Do subjetivismo estético defendido por Graça Aranha enxergava-se qualquer coisa, inclusive o próprio passadismo a que a Semana se opunha. “É no sentimento vago do Infinito que está a soberana emoção artística derivada do som, da forma e da cor”, pregava o maranhense no palco do Teatro Municipal.

 

Nas palavras de Graça, toda manifestação estética é precedida de um movimento de ideias gerais, “de um impulso filosófico, e a filosofia se faz Arte para se tornar vida”. O manifesto é carregado de senhas e algumas pistas falsas, como se depura no seguinte trecho:  “E eis chegado o grande enigma que é o de precisar as origens da sensibilidade na arte moderna. Este supremo movimento artístico se caracteriza pelo mais livre e fecundo subjetivismo”. 


Se, de um lado, o individualismo exacerbado defendido por Graça Aranha, ateu convicto, causava arrepios em parte da intelectualidade que flertava com os preceitos do socialismo emergente (com a Revolução Russa, de 1917); de outro, a inspiração darwinista do maranhense ia de encontro à formação religiosa de muitos modernistas paulistas.

 

Mas o individual era, em tese, a identidade nacional; e a realidade cósmica, o caráter universal. É essa comunhão entre o átomo e o cosmos a base do pensamento modernista de Graça Aranha, que muitos faziam questão de não compreender. Do alto de sua bagagem intelectual, e na azáfama da organização de uma semana de rupturas, Graça Aranha mistura, de chofre, Darwim, Rousseau, Cézanne, Debussy, o romantismo, o cosmos, o Renascimento, a Revolução Francesa, Rodin, a filosofia e o escambau no manifesto.

 

Um cosmopolita incompreendido e controverso 

 

Graça Aranha pregava a integração do espírito humano à unidade do cosmos. Incompreendido, em certas ocasiões suas ideias foram motivo de pilhéria, inclusive pelos próprios modernistas.

 

O livro A estética da vida, de 1921 – como reiterado um ano depois em manifesto lido na abertura da Semana de Arte Moderna – expunha a intransigente e complexa defesa da arte como locomotiva da “unidade do cosmos”. Em conferência aberta, em 1942, Mário de Andrade tratou o livro de Graça Aranha com escárnio.  

 

Alguns episódios na seara dos negócios expuseram a personalidade controversa de Graça Aranha ante seus amigos modernistas. Como amigo e interlocutor comercial da família Prado, o maranhense fora envolvido em polêmica, em 1917, por intermediar suspeita transação do café brasileiro para a França. Fato que o levou a ser classificado por Lima Barreto como o “caixeiro-viajante” da família Prado.   

 

Do escritor e crítico Sérgio Milliet recebeu, em artigo na revista Lumière, em 1922, a advertência acerca da verdadeira estética perseguida pelos futuristas brasileiros: – “Graça Aranha, autor de Canaã, livro já traduzido em francês, e de Estética da vida, membro da Academia Brasileira, teve a enorme coragem de romper com o passado para se colocar à frente dos jovens. Ele tem entusiasmo, convicção e influência, mas temo que não compreenda bem o verdadeiro intuito dos modernos, que não é a procura de uma liberdade absoluta, mas sobretudo de novas regras de construção”. 

 

Di Cavalcanti, apesar de atribuir a Graça Aranha o “caráter festivo” da Semana de 22, enxergava no escritor e diplomata um misto de sabedoria e iniludível simplicidade. No livro de memórias Viagem da minha vida (Civilização Brasileira, 1955), ele assevera: “Fiz-me seu amigo e dele recebi admiráveis lições de cordialidade, distinção e inteligência. Sua grande ingenuidade de eterno adolescente foi o maior prêmio que ele me deu. Graça Aranha é para mim sempre como uma árvore florida diante da janela do meu espírito”.  

 

Graça Aranha faleceu no dia 26 de janeiro de 1931, no Rio de janeiro, aos 63 anos. 

domingo, 12 de dezembro de 2021

O jornaleiro

Já não há quase bancas de jornais em São Luís. Estão sumindo também os jornaleiros. São poucos agora nas ruas. Estão minguando os jornais, com suas edições franzinas e tiragens minúsculas. Quem haverá de vendê-los? Quem haverá de encontrá-los impressos na esquina? Os jornaleiros estão pagando o pato. 

Aos domingos encontro ainda o César Roberto sentado ali no seu ponto, na rotatória do Olho d’Água. Aos 43 anos, o solitário jornaleiro resiste ao tempo. Não sabe até quando. Sempre de bom humor, ele mantém o otimismo e se protege como pode nesses dias de calor intenso, no sol de quase dezembro. 

Albino, César usa filtro fator 70 para proteger a pele sensível. Há mulher e dois filhos em casa o aguardando todos os dias. O motorista apressado para e toca alto a buzina de sua Land Rover . É a senha. César corre e entrega mais um jornal pela janela do automóvel. 

Os leitores também estão desaparecendo das ruas, como o papel e a tinta. Depois de tudo, César entrega o meu exemplar do jornal e me pergunta quem vai ler tanta notícia amanhã. Saio calado, sem deixar qualquer resposta. César segue na sombra dos domingos.

O erro

A música My mistake, dos Pholhas, fez um sucesso estupendo no final dos anos 70/começo dos 80 e embalou as tertúlias frequentadas pelos meus irmãos mais velhos em Barra do Corda. Era o tempo da música lenta. Na pista, todo mundo agarradinho, indiferente ao que dizia a canção... Cresci ouvindo em casa essa espécie de “hino” de um romantismo puro, quase ingênuo, carregado de nostalgia. 

Só há pouco tempo, ao assistir à série “História secreta do pop brasileiro”, uma adaptação do livro Pavões misteriosos, de André Barcinski, me dei conta de que My mistake é, literalmente, uma tragédia. A letra da música fala de um cara que matou a esposa - porque ela andava saindo com outro – e foi parar na prisão.

Muitas bandas no Brasil, ou “conjuntos musicais” como os Pholhas, só gravavam em inglês, por imposição da indústria fonográfica que inundava o mercado de “enlatados” estrangeiros, especialmente norte-americanos. E o inglês da turma da música não era lá essas coisas. No caso dos Pholhas, aqui e ali eles compilavam frases chupadas aleatoriamente de livros e revistas em inglês e chegavam a uma canção. Foi o caso de My mistake, um espelho das letras do blues, que invariavelmente carregavam nas tragédias cotidianas. 

“Eu perdi a cabeça e atirei nela”, diz um dos trechos da música, e os casais lá dançando sob aquela luz negra, como se não houvesse amanhã... Esse “feminicídio” melódico/meloso fez história, engatou romances nas danceterias, rendeu aos Pholhas um cobiçado “disco de ouro” e abriu caminhos para uma breve carreira internacional. 

A foto de capa do álbum é um capítulo à parte, algo emblemático, com os quatro integrantes entonados em traje que indicaria, anos depois, um flerte da banda com o rock progressivo. 

My mistake não morreu. Só a mulher que saiu com outro.