sábado, 5 de setembro de 2020

A península dos carcarás

Há cerca de quatro meses um casal de carcará iniciou em São Luís, mais precisamente na janela de um apartamento no bairro da Ponta d’Areia (na área onde alguns renomearam de Península), uma jornada insólita que tem chamado a atenção de veículos de comunicação e biólogos de outras regiões do Brasil. O macho e a fêmea esmeram-se dia após dia na construção de um enorme ninho, que provavelmente servirá de local para incubação de ovos e abrigo de futura ninhada.

 A aventura vem sendo acompanhada de perto por Mariana Carvalho, a dona do apartamento, que se dedica a documentar em fotografias e vídeos a evolução do ninho e o comportamento das aves. Tudo começou como uma espécie de efeito natural da pandemia da Covid-19. Com as medidas de isolamento e o lockdown em São Luís, Mariana mudou com a família para a casa dos pais. E logo nas primeiras visitas ao apartamento desabitado, para recolher correspondências, começou a perceber a presença de alguns gravetos na janela de um dos quartos.   

 

Ao voltar de vez para o apartamento, no início de julho, Mariana viu que além de gravetos havia pregos, arames, fios elétricos e até sacos, todos já devidamente emaranhados formando um ninho gigante. E Mariana percebeu que havia também duas aves incomuns no prédio onde mora. Ao fotografá-las, e depois de pesquisar na internet, soube que estava hospedando em sua janela dois carcarás adultos.


 

Nos últimos dois meses o ninho só cresce. Mariana diz estar impressionada com o engenho das aves, com o zelo para erguer o ninho, com a riqueza do trançado. Em nenhum momento ela pensou em se desfazer daquela paisagem. A curiosidade pelos caprichos da natureza tem falado mais alto. 

 

É claro que a presença dos carcarás provocou uma mudança de hábitos em casa. Todas as janelas são mantidas fechadas e, para não espantar as aves com os movimentos dentro de casa, Mariana instalou uma película de fumê na vidraça onde está localizado o ninho. Assim, até a filha bebê pode assistir com segurança aos movimentos de “pássaros tão esquisitos”. 

 

Mariana fez do quarto um set de gravação das cenas de acasalamento dos carcarás. Tudo isso virou um quadro chamado “Diário de um ninho”, na página Terra da Gente, no portal eletrônico G1 de Campinas (SP).  


 

Eternizado na música de João do Vale, com a terrível fama de quem “pega, mata e come”, o carcará é uma ave de rapina da família dos falcões e dos gaviões, presente na região central e no sul da América do Sul, e pode medir de 60 a 70 centímetros de altura e até 1,20 metro de envergadura. 

 

Os novos inquilinos de Mariana chegam ao apartamento rotineiramente às cinco da manhã e por lá permanecem até as dez horas. Às vezes voltam à tarde – em determinada ocasião chegaram até a dormir no ninho. À janela no décimo andar costumam levar répteis, peixes e vísceras de outros animais para a refeição com vista para o mar.  

 

Não se sabe ao certo quanto tempo ainda vão levar para a conclusão do ninho. A situação inusitada é acompanhada virtualmente por curiosos e biólogos. A expectativa da família e dos amigos de Mariana é com a postura dos ovos e a cria de uma nova ninhada. Tudo pode acontecer nos próximos dois meses, a depender do grau de exigência das aves no acabamento do ninho.

sábado, 13 de junho de 2020

Fernando Pessoa e a mensagem ao mar



Único livro publicado em vida por Fernando Pessoa, um ano antes de sua morte, Mensagem é uma obra que, em mais de oito décadas, ganhou várias edições e ainda hoje suscita debates e diferentes interpretações de críticos e estudiosos que se dedicam à fortuna literária deixada pelo escritor português. Hoje, 13 de junho, dia do nascimento do poeta, mais uma vez Mensagem vem a lume pela extraordinária engenhosidade poética, e pelas características peculiares de livro épico com os pés no mundo, na modernidade.

Entre a poesia e o poeta existe um imenso mar. E há muito tempo pesquisadores aventuram-se na marcha inglória de compreender esse mar de hipóteses que vai muito além do Bojador, o limite entre homem e o mundo. Mas, entre compreender, impassível, e mergulhar nas águas salgadas de Pessoa, é melhor seguir viagem, ainda que apenas “fitando a proibida azul distância”.

Há 25 anos, a Academia Maranhense de Letras, numa iniciativa do seu então presidente Jomar Moraes, e com o apoio do empresário português Manoel Alves Ferreira, do Grupo Lusitana, empreendeu uma edição histórica da obra de Pessoa, por ocasião da passagem dos 60 anos de morte do poeta.

A Mensagem maranhense de 1995, com uma versão extra, limitada, impressa em capa dura – os cinquenta exemplares, devidamente numerados, não chegaram a ser vendidos – contém texto introdutório e notas assinados por Jomar Moraes, além de recheio iconográfico que ajuda a compor a biografia do poeta e a dinâmica da sua poesia, como a foto de uma tela do artista plástico Floriano Teixeira retratando a lenda do Rei Dom Sebastião.

Segundo o professor Ivo Castro, à época coordenador do Grupo de Trabalho para o Estudo do Espólio e Edição da Obra Completa de Fernando Pessoa, o livro impresso no Maranhão era, até aquele período de sua publicação, a “melhor e mais completa” edição de Mensagem. Isso porque, segundo apurou o escritor e acadêmico Sebastião Moreira Duarte, a edição maranhense fez um criterioso cotejo da edição com os poemas originais datilografados e corrigidos à mão por Fernando Pessoa. Os originais, reproduzidos em páginas do livro da Academia Maranhense de Letras, foram trazidos a São Luís por Ivo Castro, que também fez a revisão final da obra.



O primeiro poema de Mensagem foi escrito em 1913, quando Pessoa tinha 25 anos: “Cheio de Deus, não temo o que virá,/ Pois, venha o que vier, nunca será/ Maior do que a minha alma”. Mas o livro, cujo título inicial era Portugal, só foi publicado em 1934, quando o autor, incentivado por amigos a participar do Prêmio Antero de Quental, do Secretariado Nacional de Informação, o SNI do governo português, reuniu às pressas alguns dos poemas escritos naqueles últimos vinte anos.

O concurso tinha como objetivo premiar em cinco mil escudos o melhor livro de poesia com estampa nacionalista. Portugal vivia, em 1934, o Estado Novo e estava sob o comando de António de Oliveira Salazar, que reproduzia no país o modelo do fascismo italiano de Mussolini.

O regulamento do concurso exigia um livro com o mínimo 100 páginas. Os 44 poemas de Mensagem, somados a algumas folhas em branco enxertadas de última hora no livro, não chegavam às 100 páginas e o conjunto da obra não era exatamente a exaltação patriótica almejada pela comissão julgadora do certame. Nem mesmo por António Ferro, presidente do júri e amigo de Pessoa.

O Prêmio Antero de Quental foi conferido ao missionário franciscano Vasco Reis pelo livro Romaria, de forte carga ufanista e religiosa, como o próprio título sugere. A Fernando Pessoa coube uma condecoração de segunda categoria, como poesia solta, um prêmio de consolação arranjado por António Ferro, também no valor de cinco mil escudos.

O escritor Sebastião Moreira Duarte aponta em pesquisa que há um elo entre Vasco Reis e um nome maranhense. O vencedor do Prêmio Antero de Quental foi seminarista no Colégio Seráfico de Montariol, em Braga, Portugal, por onde também passou o poeta Bandeira Tribuzi, entre os 10 e os 18 anos de idade. Além de contemporâneos, ambos teriam publicado juntos poemas na revista Alvorada Missionária.


Muitas vozes na Mensagem de Pessoa

Mensagem é uma obra aberta, um labirinto cheio de pistas, mas em determinadas passagens a leitura pede conhecimento mínimo da história de Portugal. Os 44 poemas estão divididos em três partes: Brasão, que aborda as origens de Portugal e estende-se até princípios da expansão marítima; Mar Português, que alcança o apogeu das conquistas marítimas de Portugal; e O Encoberto, que esboça a mística do sebastianismo.

Mas no meio de tudo está a lírica de Fernando Pessoa, capaz de dialogar com o imaginário de qualquer leitor, a exemplo de versos como estes: “Vale a pena? Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena” (o mais famoso deles); “Os Deuses vendem quando dão”; “A vida é breve, a alma é vasta:/ Ter é tardar”; “Triste de quem é feliz!”.

A ordem de apresentação dos poemas no livro não segue a cronologia da escrita. Como são poesias compostas em diferentes épocas, ao longo de quase 21 anos, Pessoa deu a elas uma certa unidade de compreensão, com base em personagens e passagens da história. Mensagem começa onde Os Lusíadas, a epopeia de Luís Vaz de Camões, provavelmente termina.

Há quem veja, nas entrelinhas, um diálogo entre as obras de Camões e Pessoa, embora em Mensagem não haja sequer uma menção a Os Lusíadas ou a Camões. Para o crítico literário Harold Bloom, Fernando Pessoa aprendeu a conviver com a “angústia da influência” de Luís de Camões. Ainda em 1912, Pessoa falava, em artigo sobre a nova poética portuguesa, de “uma renascença extraordinária, um ressurgimento assombroso”, capaz de gerar um supra Camões. Na avaliação dos estudiosos, Pessoa falava de si ao profetizar a chegada de um novo “Grande Poeta” em Portugal.

Apesar de fazer referências explícitas ao passado glorioso, a poesia de Fernando Pessoa em Mensagem tem na sua essência obsessão por aquilo que ainda viria a acontecer, servindo-se, para tanto, de múltiplos recursos enigmáticos, adivinhações, presságios.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
(Mar português)

Embora premiado em plena era do salazarismo – a tendência fascista mais duradoura da Europa –, os poemas de Mensagem são uma espécie de antítese ao discurso de Salazar, reconhecidamente descritivo, racional e enfadonho. A retórica de Salazar pregava um povo anestesiado no silêncio. Para ele, e em geral para o fascismo, o importante era o todo, e não o indivíduo. Com base nos feitos grandiosos do passado, seria Salazar “um predestinado a salvar o povo português”.

Com Mensagem, Fernando Pessoa embaralha passado, presente e futuro, com sua profusão de vozes – algo tão comum em suas dezenas de heterônimos – dentro de cada poema. Durante algum tempo, o fascismo de Salazar “apoderou-se” do livro de Pessoa, o que rendeu à obra do poeta um distanciamento longo e deliberado por parte do público e da crítica.

Só com o fim do salazarismo, e após a Revolução dos Cravos, já na década de 1970, Pessoa passou a ser cultuado como um poeta transgressor, de viés libertário, não vinculado a qualquer regime político, mas à sua pena somente, ao bom teatro do fingimento.

Mensagem não reflete, portanto, um nacionalismo cego, exacerbado. Há nele um país que enxerga o passado glorioso, mas que está ainda, como no último poema do livro, o enigmático Nevoeiro, preso em um presente turvo. O verso final é uma convocação otimista para o triunfo futuro: “É a hora!”. Mensagem é uma permanente procura do homem pela sua origem, pela sua alma.


O sebastianismo à espreita

O lado visionário e místico de Pessoa, a inquietação da personalidade, a complexidade e as contradições estão associados ao sebastianismo que, como dizem, é um pedaço indissociável da alma portuguesa. Sebastião, “O Desejado”, viveu no século XVI, assumiu o reinado de Portugal e Algarves aos 14 anos e desapareceu na batalha de Alcácer-Quibir contra os mouros.

Desde então, surgiu a lenda de que Dom Sebastião, como um messias redentor, voltaria das Ilhas Afortunadas numa manhã de nevoeiro para instalar no mundo o Quinto Império, um poder divino que emanaria de Portugal, profecia difundida pelo sapateiro Gonçalo Bandarra e também popularizada pelo padre António Vieira, a quem Pessoa chama em Mensagem de “Imperador da língua portuguesa”.

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar.
(O Quinto Império)

É por meio da imagem do sebastianismo que Fernando Pessoa reconstrói a lenda de Bandarra e Vieira para acender a chama, entre os portugueses, da identidade nacional, perdida ao longo de anos de declínio e ostracismo. Pessoa faz uma releitura da lenda para moldar aquilo que define de sebastianismo racional: “Mas a chama, que a vida em nós criou/ Se ainda há vida ainda não é finda”.

A lenda do Rei Dom Sebastião atravessou o Atlântico e veio ilustrar a imaginação popular e a literatura nos trópicos. O sebastianismo está presente em obras dos maranhenses Ferreira Gullar, Bandeira Tribuzi, Manoel Caetano Bandeira de Mello e Josué Montello, dentre outros.

Da costa africana para o litoral norte do Brasil. Sob as dunas da Ilha dos Lençóis, no município maranhense de Cururupu, dizem que habita o Rei Dom Sebastião. Segundo a crença popular, nas noites de São João “O Encoberto” surge em forma de um touro negro correndo assustadoramente pela praia.

“O encantamento do rei terminará no dia em que alguém que testemunhe a aparição se revista da necessária coragem para fazer na testa estrelada do touro uma incisão de que jorre sangue (...). O maremoto ocasionado por tal acontecimento fará submergir, na fúria das águas revoltas, a ilha de São Luís do Maranhão”, relata Jomar Moraes no livro O rei-touro e outras lendas maranhenses – trecho também citado na nota introdutória da edição maranhense de Mensagem.

Ou seja, na crendice que chegou ao Maranhão, bem como a outras paragens, a imagem do Rei Dom Sebastião não está associada a esperança ou redenção. No caso da Ilha dos Lençóis, onde existe até um pequeno memorial dedicado ao regente português, o símbolo do rei-touro remete a mistério, medo e tragédia: “Que guarda o Rei desterrado/ Em sua vida encantada?”.


O baú musical do poeta

Em 1985, na passagem dos 50 anos de morte de Fernando Pessoa, um cineasta e músico baiano, igualmente visionário, iniciou uma jornada que duraria 30 anos até o lançamento de um “baú” contendo três CDs e dois DVDs com gravações musicais dos 44 poemas de Mensagem. André Luiz Oliveira, há anos radicado em Brasília, fez história ao reunir no projeto grandes nomes da música brasileira, portuguesa e cabo-verdiana, em interpretações arrebatadoras.

André Luiz conta que foi “abduzido” pela poesia de Fernando Pessoa ainda na adolescência, nos anos 1960, e também quando passou uma temporada em Lisboa, onde conviveu com artistas e chegou a tocar na noite, na década de 1970. “Com o tempo, esse contato com a poesia de Pessoa virou admiração e as coisas foram acontecendo por uma questão de necessidade, ou talvez magia”. Segundo André Luiz, essa admiração transformou-se em encantamento. “Com o tempo, fui alimentando uma paixão enorme pela vida e obra do poeta, atordoado por saber que ele falava tão profundamente de mim mesmo”.



O primeiro espanto de André Luiz com a obra de Pessoa ocorreu pela TV, ao assistir a Caetano Veloso interpretando a provocadora É proibido proibir no Festival Internacional da Canção, em 1968. “Aquilo era um hino convocatório para nós, que vivíamos aquele momento de virada de costumes, brigando contra a ditadura militar, querendo mudar o mundo”. Em determinado trecho da música, entre solos estridentes de guitarra, Caetano vociferava Pessoa:

Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo que esteja a alma imersa
em sonhos que são Deus. (…)
(D. Sebastião)

Os versos ecoaram por algum tempo. Então, em 1985 o baiano resolveu transformar em melodia os poemas de Mensagem. E diz que as músicas surgiram em sua cabeça quase que subitamente, “algo sem explicação”. Compôs 12 faixas, de uma assentada, e convidou para interpretá-las nomes como Caetano Veloso (Padrão), Gilberto Gil (Prece), Zé Ramalho, Belchior, Moraes Moreira, Ney Matogrosso, Elizeth Cardoso, Gal Costa e Elba Ramalho. Ou seja, um time de primeira grandeza da MPB associado a interpretações da fadista Glória de Lourdes e do próprio André Luiz. E tudo isso com arranjos de Francis Hime.

Com o patrocínio da Gradiente, e as músicas já devidamente gravadas, no início de 1986 André Luiz procurou o governo federal para apresentar o projeto, que previa ainda a gravação de um videoclipe para cada música e a prensagem de um LP. No restaurante Beirute, em Brasília, conheceu o publicitário maranhense Fábio Gomes, que era adjunto da secretaria executiva do recém criado Ministério da Cultura. André apresentou o projeto a Fábio, que ficou impactado com o que ouviu.

Sarney estava com viagem programada em maio de 1986 para Portugal, onde receberia o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra. E pediu à equipe do Ministério da Cultura que providenciasse um presente protocolar a ser entregue na visita ao presidente português Mário Soares. Fábio Gomes sugeriu a Sarney que levasse um vídeo com os poemas de Fernando Pessoa cantados por artistas brasileiros.

Com o sinal verde de Sarney, André Luiz e Fábio Gomes tiveram pouco mais de um mês para a gravação de videoclipes com cada um dos intérpretes. Montaram uma equipe de quatro diretores publicitários, entre os melhores do Brasil, para o registro dos clipes em diferentes cenários.

Gil cantou Prece na catedral de Brasília; Gal Costa interpretou Nevoeiro nos jardins da Embaixada de Portugal; Elba Ramalho gravou O Infante na Restinga da Marambaia; e André Luiz Oliveira usou o litoral baiano para dar vida a Mar salgado, só para citar alguns. O poeta e crítico Mário Chamie escreveu o texto do vídeo – com base nos poemas de Pessoa, intercalando as músicas – que foi narrado pelo ator Raul Cortez.

Foi com o resultado de toda essa produção que Sarney desembarcou em Lisboa, três meses depois de ter lançado no Brasil o Plano Cruzado. O vídeo, entregue a Mário Soares com o título de “Mensagem a Portugal”, causou tanto impacto que foi exibido em horário nobre pela emissora RTP durante toda a semana da visita de Sarney.

Ainda no segundo semestre de 1986 o LP foi lançado pela gravadora Eldorado, com as 12 faixas e 30 mil cópias encomendadas pela Gradiente para distribuição a instituições acadêmicas, imprensa, parceiros e clientes.

Em 2003, André Luiz Oliveira lançou o disco Mensagem 2, dessa vez em CD e DVD, com outros poemas do livro de Pessoa, arranjos de Leandro Braga e a inclusão de novos intérpretes, como Milton Nascimento (D. Tareja), Daniela Mercury (Os Colombos) e Cida Moreira (Ocidente). O maranhense Zeca Baleiro participa da segunda edição do projeto interpretando Ulisses.

Em 2012, o cineasta e músico baiano iniciou as gravações do disco Mensagem 3, em São Paulo, Salvador e Lisboa, fechando o ciclo musical dos 44 poemas do livro de Fernando Pessoa. No terceiro CD, outra participação maranhense. A dupla Criolina (com Alê Muniz e Luciana Simões), convidada pelo produtor Deco Gedeon, interpreta Antemanhã. O disco conta ainda com Carlinhos Brown, Cláudia Leitte, Rubi, Zélia Duncan e outros.

Em 2015, 30 anos depois do início da jornada, André Luiz lançou uma caixa em madeira, simulando o formato do baú de escritos de Fernando Pessoa e seus heterônimos, com as três edições musicais de Mensagem em CD; dois DVDs com clipes, entrevistas, depoimentos e making of do projeto; uma edição do livro com os poemas; e um caderno de imagens colhidas por André Luiz ao longo dos anos de pesquisa sobre a vida e a obra do poeta.



“A minha ideia era fazer alguma coisa que chegasse próximo do tamanho que é Fernando Pessoa”, disse André Luiz Oliveira, que hoje, às 18h, faz no Youtube e no Facebook uma homenagem ao aniversário do poeta, com música e recital de poesias. “Pessoa é uma paixão que não cessa. É uma relação que se mantém viva na minha alma”.

E que, certamente, transcendeu para a alma de muitos amantes da obra do poeta português. A Mensagem musical de André Luiz é algo feérico, digno da poesia de Pessoa: “(...) É o som presente desse mar futuro,/ É a voz da terra ansiando pelo mar”.

terça-feira, 5 de maio de 2020

No dia da língua portuguesa



A língua portuguesa é bem mais que um elemento de comunicação comum entre povos espalhados por quatro dos cinco continentes do planeta. É, atualmente, a quinta língua mais falada do mundo. São mais de 280 milhões de pessoas que falam português em diferentes regiões, e o idioma ainda é o que apresenta um dos maiores potenciais de crescimento.

Mas a língua portuguesa não pode ser traduzida em números ou confundida com estatura ou estatística. Hoje, Dia Mundial da Língua Portuguesa, celebramos a importância histórica do nosso idioma, motivo de orgulho para muitos povos. Além das razões naturais de pertencimento e similaridades culturais, a língua une e reverbera certo laço sonoro com a literatura, dos trovadores do passado aos grandes escritores contemporâneos.

De Camões a Saramago, de Padre Antônio Vieira a Miguel Torga, de Fernando Pessoa a Antônio Lobo Antunes, além de vasta lista de escritores brasileiros, angolanos e moçambicanos, há um extenso inventário na literatura que excede em inteligência e elegância. O português virou quase um sinônimo da boa poesia.

Com as grandes navegações, de motivação meramente comercial, Portugal conseguiu expandir seus domínios e levou às terras conquistadas o seu idioma. Assim ocorreu com o Brasil, na América do Sul, e Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Equatorial, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, na África, que adotaram o português como língua oficial. No mesmo projeto colonizador de Portugal, a língua portuguesa também chegou a Macau, Timor-Leste e Goa, na Ásia.

Os povos que falam a língua portuguesa são sabedores do quão importante é a ação de valorizar, preservar e difundir esse patrimônio comum, que pode ser determinante no estreitamento das relações entre estados que comungam do mesmo idioma e, por consequência, de uma identidade cultural.

Foi em São Luís, em novembro de 1989, que se deu o salto inaugural para a criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), por iniciativa do ex-presidente José Sarney e do então embaixador do Brasil em Portugal, José Aparecido de Oliveira. Aqui, onde os ilhéus levam a fama – ou já levaram, em outras épocas – de falar o melhor português do País, ocorreu o primeiro encontro de chefes de Estado e de Governo do Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe.

No encontro de São Luís foi criado o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), órgão responsável pela promoção e difusão do idioma entre esses países e que daria origem, sete anos depois, à instalação oficial da CPLP.

O Brasil, país com a maior população falante da língua portuguesa no mundo, deu importantes passos na primeira década do século XXI para fortalecer preceitos do multilateralismo via CPLP. Mas, lamentavelmente, esse ímpeto arrefeceu devido ao cenário político atual no país, de tendência conservadora e populista. No âmbito institucional, o multilateralismo é tratado com desdém e a língua portuguesa volta e meia tem sido pisoteada em praça pública por agentes do governo.

Como língua mais falada do hemisfério sul, o português deve chegar ao ano de 2050 com cerca de 400 milhões de falantes no mundo. Devido à importância política, geográfica e econômica do Brasil, o português brasileiro é hoje o mais estudado, falado e escrito no mundo.

Entretanto, no momento em que a língua portuguesa expande-se e rompe o alegado isolamento cultural em relação ao hemisfério norte, o Brasil fecha portas e despreza essa fortuna intelectual que pavimenta caminhos inclusive para o crescimento econômico.

O Brasil dá as costas para a África, região que por longo período também padeceu de ocupação desordenada e foi pilhada na exploração prolongada de seus recursos naturais, o que retardou demasiadamente o seu processo de industrialização e desenvolvimento. Em verdade, o Brasil dá as costas a muitos irmãos de língua portuguesa enquanto submete-se, às vezes de forma vexatória, ao humor populista de Donald Trump.

Mas a língua portuguesa está acima dos países, e muito além da indiferença.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Um poeta insular



Jotabê Medeiros*

Editora 7Letras lança “Filarmônica para fones de ouvido”, impressionante livro de poemas do maranhense Félix Alberto Lima

Do Norte chegam notícias de mais um poeta fabuloso que já foi centro avante sem camisa no time de sua aldeia e invejou meninos carvoeiros de calção puído. O nome dele é Félix Alberto Lima, tem 52 anos, é maranhense como Ferreira Gullar e Nauro Machado, mas sua poesia é feita de imagens lindamente desconcertantes (quase penhascos, paredes de carmenère, penumbra de dicionários), crônicas de ruas sem placas e estilhaços visuais do noticiário distraído (em alepo em meio ao silêncio dos escombros”).

É possível reencontrar em sua poesia tanto o sabor de Lawrence Ferlinghetti (onde corriam rios sagrados junto às cidades costeiras) quanto de Walt Whitman (regurgitou folhas de relva aos quinze e uns quebrados) ou de Paulo Leminski (Sofrer vai ser minha última obra).

Félix fez do livro “Filarmônica para fones de ouvido” (editora 7 Letras) uma das melhores boas-novas da poesia brasileira desde a vitória do cearense Mailson Furtado no Prêmio Jabuti de 2019 com o livro artesanal À Cidade. Em 2015, Félix já havia publicado, pela mesma editora, “O que me importa agora tanto”, que não chegou até os Sudestes ou não foi procurado devidamente.

Esse novo livro traz uma poesia de ritmo, coreográfica, de cadência irresistível. É absolutamente maranhense, mas incontestavelmente do mundo, alcança todas as falas e todas as locações de um jeito instantâneo. Negras batendo caixas para o Divino nas ladeiras de Alcântara estão a um pulinho da noite fumegante do Covent Garden, em Londres.

Alguns dos seus poemas parecem revisitar outros, e não necessariamente poemas com páginas, mas a poesia cantada. O verso ‘Como nós os velhos vamos costurando nesgas de esperança’ lembra Cazuza e a sua canção “Só as mães são felizes” (‘Reparou como os velhos vão perdendo a esperança/ Com seus bichos de estimação e plantas?). Mas é menos e.e. cummings do que João Cabral. Há, principalmente, uma reverência às coisas, ao inerme, ao despercebido, e às marcas de uma formação insular, circundada por uma cidade antiga. ‘Começarei pelo grão das coisas, diz o mote do poema Cartografia dos Mares de Dentro, assinalando a geografia que destaca a ‘igreja e a cadeia pública/ fé e castigo lado a lado’.

A epígrafe cita o poeta catarinense Cruz e Souza (1861-1898), único negro entre literatos mestiços do seu tempo, como anotou o crítico Antonio Candido: “... E nas zonas de tudo, na candura de tudo, extremo, passa certo mistério mudo”. É desse mistério mudo que se alimenta a poesia de Félix Lima, certamente uma das grandes revelações da poesia brasileira deste final de década.


*Texto publicado na revista “Carta Capital”, de 7 de agosto de 2019.

terça-feira, 24 de março de 2020

Saudade de como a gente era



Hoje acordei com um nó na garganta. Aos poucos a manhã de terça-feira foi me tomando de saudade. Saudade de nada tão longe assim. Saudade de quando a vida lá fora era tão bruta e maravilhosa, e no meio da pressa ninguém se dava conta. Saudade de ver o mundo de perto, e não apenas pela fresta da janela como agora. Saudade de janeiro e fevereiro. Saudade de outubro e novembro. Saudade do Natal, das confraternizações enfadonhas carregadas de ternura e açúcar. Saudade até de agosto. Saudades de ontem mesmo.

Saudade de quando a gente se esbarrava no meio do expediente com um sorriso nos olhos. Saudade de quando a gente apertava as mãos sem desconfiança, sem aquele pensamento instantâneo no álcool em gel ou numa pia com água e sabão. Saudade de sermos nós mesmos, sem essa mania de higiene que nunca fomos. Sem essa desconfiança no outro. Sem máscara! Saudade do olho no olho.

Saudade de quando éramos um mundo cheio de problemas, de crises financeiras aqui e acolá, de opiniões divergentes sobre política, credo e economia, mas um mundo onde podíamos circular livremente, sem o toque de recolher, sem o som alto da sirene das ambulâncias chamando a atenção dos bairros para o confinamento. Saudade de um mundo sem a morte à espreita na esquina.

Saudade de levantar da cama cheio de planos – e não de despertar no meio de um pesadelo que mais parece uma dessas séries de TV cuja primeira temporada tem como clímax o pavor, o desespero. Vivemos um confinamento cerebral, um isolamento social que mexe com as emoções e nos joga mais ainda no labirinto das telas dos smartphones em busca de respostas e janelas de afeto que nunca se abrirão.

Hoje acordei com saudade de ir ao cinema no domingo, de ir á barbearia no sábado pela manhã, de assistir ao futebol com a galera na quarta-feira. Saudade de tomar uma cerveja com os amigos no bar, falar alto, rir de qualquer bobagem, abraçar forte um desconhecido na hora do gol.

Saudade das soluções milagrosas do Vick Vaporub e do Biotônico Fontoura. Saudade do aconchego em praça pública. De ir à banca de jornal, de correr no parque. Saudade daquele medo banal, de fantasmas e assombrações. Saudade de, na azáfama do dia, encontrar o mar e com ele trocar impressões sobre o homem e o tempo. Não temos mais o mar no percurso diário. Perdemos a brisa e o azul do céu. Perdemos a bravura. Somos poltrões encastelados na incerteza.

Saudade de ir à casa dos pais e avós e com eles ficar até o fim da vida, de colocar a cabeça no colo para aquele longo cafuné que só as mãos de uma mãe sabem empreender. Saudade de ouvi-los falar de suas saudades, sem pressa. Saudade de rezar um Pai Nosso de mãos dadas na igreja sentindo aquela energia que vem não se sabe de onde.

Saudade das minhas mãos como elas eram, quando em tudo podiam tocar, livres, desimpedidas, em pleno gozo de desobediência civil na antessala dos bons hábitos. Saudade dessas reuniões que nunca chegam ao fim, na repartição, nas assembleias de condomínio. Saudade de pisar na calçada, de visitar o quintal. Só isso. Saudade de atravessar a fronteira da minha rua. Hoje acordei com saudade de quando a gente se via. Saudade de como a gente era ontem. E não sabia.

sexta-feira, 6 de março de 2020

A terra plana em transe



Era uma vez uma imensa aldeia verdejante habitada por gente simples que, apesar da diversidade sociocultural, viveu por longo tempo em harmonia, sob a fronde da Amazônia. Viveu a realidade nos seus altos e baixos, mas uma realidade bem vivida, pé no chão, até um dia quedar-se anestesiada.

Metade da população da aldeia [ou era quase isso] não sentia mais dor, não se compadecia, não se incomodava, não enxergava escândalo em nada – somente no passado! Metade da população não tinha mais aquele mínimo sentimento de vergonha. Nem vergonha própria nem vergonha alheia.

Quando assistiam a algo grotesco, ofensivo, passavam a achar o ridículo absolutamente trivial. Ou usavam um argumento raso: o ridículo no passado era ainda muito mais ridículo, ora bolas! Compartilhavam entre eles a ideia de que “o ridículo de hoje” tinha uma razão quase bíblica, uma causa nobre. E com o ridículo cotidiano acostumaram-se. O esdrúxulo virou banal na velha aldeia. Os aldeões [ou quase metade deles] aninharam-se na barbárie como que entorpecidos em pajelanças algorítmicas.

Cavalgando panegíricos, abriram mão da história, da ciência e da arte a pretexto de uma tal faxina moral e ética, inadiável, iniciada por um homem que, voluntariamente, se filiava ao inferno enquanto imaginava julgar “a própria besta”.

Era uma vez uma imensa aldeia onde metade da população [ou quase isso], raivosa, perdia a noção do respeito. Eram tempos de escassez do amor próprio. Mulheres aldeãs aplaudiam a misoginia em praça pública. Trabalhadores assalariados celebravam a alta no mercado de ações. E empregadas domésticas, admoestadas pelo tesoureiro da aldeia, comemoravam a escalada do dólar e “o fim da festa” na Disney.

Como num filme de horror, a aldeia não se via doente, e Di Caprio era só um incendiário da Amazônia frustrando planos da terra plana em pleno século XXI. Ninguém sairia tão cedo daquele estado de torpor. De arma em punho, e sob os gritos dos generais, metade da população não tolerava mais índios, jornalistas, florestas, universidades, livros, artistas e o Papa.

Sem escrúpulo, sem culpa, metade da população [ou quase isso] só pensava em disparos nas redes sociais, em inimigos imaginários do progresso, numa nova economia redentora, em desafetos digitais... Era tanto tema em pauta na cabeça daqueles jovens que até o sexo fora proibido por decreto.

Era uma vez a gente. Era uma vez uma aldeia que, de súbito, perdeu a imensa alegria e a malícia até assistir, inerte, ao triunfo da milícia.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Vertigens da democracia



Já havia uma quase certeza de que Democracia em vertigem não levaria, na noite de ontem, o Oscar de melhor documentário. Não importam o nível dos concorrentes, a qualidade técnica da produção brasileira ou os recortes maniqueístas acerca da obra de Petra Costa. Você pode até não concordar com o olhar subjetivo da diretora sobre a realidade política no Brasil da última década, mas o filme cumpriu um importante papel: lançou luz sobre a fragilidade da democracia na era da comunicação digital.

O mundo tem assistido a um espetáculo de pirotecnia do algoritmo nos últimos dez anos. As redes sociais arrastam multidões para as ruas, orquestram protestos, manifestações, derrubam governos, forjam mitos e criam outras narrativas para a história e, estranhamente, até para a ciência. O algoritmo, agora pai da política, avança vorazmente sobre a democracia.

O documentário de Petra Costa, ainda que para alguns seja apenas uma miragem, “um filme de ficção”, prenuncia um cenário que vem chamando a atenção de pesquisadores de universidades norte-americanas e britânicas. Há pouco mais de uma semana, a Universidade de Cambridge divulgou pesquisa aterradora que constata aumento da insatisfação popular em relação à democracia como sistema político. A pesquisa ouviu mais de quatro milhões de pessoas em 154 países.

A insatisfação com a democracia remete, segundo os dados da pesquisa, a uma série de fatores, como a crise financeira iniciada em 2008, variados escândalos de corrupção, situação de migrantes e refugiados e o advento da propaganda do ódio e intolerância – amplificada, na voz de líderes populistas, por esse modelo de autocomunicação de massa, cujo fiador é o algoritmo.

Essa erosão democrática vem de longe, mas a pesquisa surpreende porque põe agora na berlinda, na conta de alto grau de insatisfação, duas das democracias consideradas mais sólidas do mundo. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, mais da metade de homens e mulheres, entre eles muitos jovens, já olham a democracia de esguelha.

A propagação de fake News e o uso de mídias sociais como instrumentos de manipulação do público, em vários países – inclusive no país da Petra Costa –, ajudam a criar a desconfiança na democracia como sistema de governo capaz de promover o bem comum.

Os algoritmos – usados hoje à exaustão para medir e ditar modelos de consumo e comportamento político-cultural – desaguam no revisionismo histórico como ferramenta para conjecturar o tempo presente e na formação de releituras sobre pensamentos filosófico-científicos já sedimentados. Dessa combinação de algoritmos medram sentimentos de racismo e a xenofobia. Medram desconfianças que vão além da própria democracia. Desconfiança na humanidade.

Democracia nada tem a ver com esquerda. Não é de partido algum. Democracia é democracia. O documentário brasileiro perdeu a estatueta. Mas a democracia não pode se perder por aí. Não pode a democracia virar vertigem.