terça-feira, 28 de abril de 2020

Um poeta insular



Jotabê Medeiros*

Editora 7Letras lança “Filarmônica para fones de ouvido”, impressionante livro de poemas do maranhense Félix Alberto Lima

Do Norte chegam notícias de mais um poeta fabuloso que já foi centro avante sem camisa no time de sua aldeia e invejou meninos carvoeiros de calção puído. O nome dele é Félix Alberto Lima, tem 52 anos, é maranhense como Ferreira Gullar e Nauro Machado, mas sua poesia é feita de imagens lindamente desconcertantes (quase penhascos, paredes de carmenère, penumbra de dicionários), crônicas de ruas sem placas e estilhaços visuais do noticiário distraído (em alepo em meio ao silêncio dos escombros”).

É possível reencontrar em sua poesia tanto o sabor de Lawrence Ferlinghetti (onde corriam rios sagrados junto às cidades costeiras) quanto de Walt Whitman (regurgitou folhas de relva aos quinze e uns quebrados) ou de Paulo Leminski (Sofrer vai ser minha última obra).

Félix fez do livro “Filarmônica para fones de ouvido” (editora 7 Letras) uma das melhores boas-novas da poesia brasileira desde a vitória do cearense Mailson Furtado no Prêmio Jabuti de 2019 com o livro artesanal À Cidade. Em 2015, Félix já havia publicado, pela mesma editora, “O que me importa agora tanto”, que não chegou até os Sudestes ou não foi procurado devidamente.

Esse novo livro traz uma poesia de ritmo, coreográfica, de cadência irresistível. É absolutamente maranhense, mas incontestavelmente do mundo, alcança todas as falas e todas as locações de um jeito instantâneo. Negras batendo caixas para o Divino nas ladeiras de Alcântara estão a um pulinho da noite fumegante do Covent Garden, em Londres.

Alguns dos seus poemas parecem revisitar outros, e não necessariamente poemas com páginas, mas a poesia cantada. O verso ‘Como nós os velhos vamos costurando nesgas de esperança’ lembra Cazuza e a sua canção “Só as mães são felizes” (‘Reparou como os velhos vão perdendo a esperança/ Com seus bichos de estimação e plantas?). Mas é menos e.e. cummings do que João Cabral. Há, principalmente, uma reverência às coisas, ao inerme, ao despercebido, e às marcas de uma formação insular, circundada por uma cidade antiga. ‘Começarei pelo grão das coisas, diz o mote do poema Cartografia dos Mares de Dentro, assinalando a geografia que destaca a ‘igreja e a cadeia pública/ fé e castigo lado a lado’.

A epígrafe cita o poeta catarinense Cruz e Souza (1861-1898), único negro entre literatos mestiços do seu tempo, como anotou o crítico Antonio Candido: “... E nas zonas de tudo, na candura de tudo, extremo, passa certo mistério mudo”. É desse mistério mudo que se alimenta a poesia de Félix Lima, certamente uma das grandes revelações da poesia brasileira deste final de década.


*Texto publicado na revista “Carta Capital”, de 7 de agosto de 2019.

terça-feira, 24 de março de 2020

Saudade de como a gente era



Hoje acordei com um nó na garganta. Aos poucos a manhã de terça-feira foi me tomando de saudade. Saudade de nada tão longe assim. Saudade de quando a vida lá fora era tão bruta e maravilhosa, e no meio da pressa ninguém se dava conta. Saudade de ver o mundo de perto, e não apenas pela fresta da janela como agora. Saudade de janeiro e fevereiro. Saudade de outubro e novembro. Saudade do Natal, das confraternizações enfadonhas carregadas de ternura e açúcar. Saudade até de agosto. Saudades de ontem mesmo.

Saudade de quando a gente se esbarrava no meio do expediente com um sorriso nos olhos. Saudade de quando a gente apertava as mãos sem desconfiança, sem aquele pensamento instantâneo no álcool em gel ou numa pia com água e sabão. Saudade de sermos nós mesmos, sem essa mania de higiene que nunca fomos. Sem essa desconfiança no outro. Sem máscara! Saudade do olho no olho.

Saudade de quando éramos um mundo cheio de problemas, de crises financeiras aqui e acolá, de opiniões divergentes sobre política, credo e economia, mas um mundo onde podíamos circular livremente, sem o toque de recolher, sem o som alto da sirene das ambulâncias chamando a atenção dos bairros para o confinamento. Saudade de um mundo sem a morte à espreita na esquina.

Saudade de levantar da cama cheio de planos – e não de despertar no meio de um pesadelo que mais parece uma dessas séries de TV cuja primeira temporada tem como clímax o pavor, o desespero. Vivemos um confinamento cerebral, um isolamento social que mexe com as emoções e nos joga mais ainda no labirinto das telas dos smartphones em busca de respostas e janelas de afeto que nunca se abrirão.

Hoje acordei com saudade de ir ao cinema no domingo, de ir á barbearia no sábado pela manhã, de assistir ao futebol com a galera na quarta-feira. Saudade de tomar uma cerveja com os amigos no bar, falar alto, rir de qualquer bobagem, abraçar forte um desconhecido na hora do gol.

Saudade das soluções milagrosas do Vick Vaporub e do Biotônico Fontoura. Saudade do aconchego em praça pública. De ir à banca de jornal, de correr no parque. Saudade daquele medo banal, de fantasmas e assombrações. Saudade de, na azáfama do dia, encontrar o mar e com ele trocar impressões sobre o homem e o tempo. Não temos mais o mar no percurso diário. Perdemos a brisa e o azul do céu. Perdemos a bravura. Somos poltrões encastelados na incerteza.

Saudade de ir à casa dos pais e avós e com eles ficar até o fim da vida, de colocar a cabeça no colo para aquele longo cafuné que só as mãos de uma mãe sabem empreender. Saudade de ouvi-los falar de suas saudades, sem pressa. Saudade de rezar um Pai Nosso de mãos dadas na igreja sentindo aquela energia que vem não se sabe de onde.

Saudade das minhas mãos como elas eram, quando em tudo podiam tocar, livres, desimpedidas, em pleno gozo de desobediência civil na antessala dos bons hábitos. Saudade dessas reuniões que nunca chegam ao fim, na repartição, nas assembleias de condomínio. Saudade de pisar na calçada, de visitar o quintal. Só isso. Saudade de atravessar a fronteira da minha rua. Hoje acordei com saudade de quando a gente se via. Saudade de como a gente era ontem. E não sabia.

sexta-feira, 6 de março de 2020

A terra plana em transe



Era uma vez uma imensa aldeia verdejante habitada por gente simples que, apesar da diversidade sociocultural, viveu por longo tempo em harmonia, sob a fronde da Amazônia. Viveu a realidade nos seus altos e baixos, mas uma realidade bem vivida, pé no chão, até um dia quedar-se anestesiada.

Metade da população da aldeia [ou era quase isso] não sentia mais dor, não se compadecia, não se incomodava, não enxergava escândalo em nada – somente no passado! Metade da população não tinha mais aquele mínimo sentimento de vergonha. Nem vergonha própria nem vergonha alheia.

Quando assistiam a algo grotesco, ofensivo, passavam a achar o ridículo absolutamente trivial. Ou usavam um argumento raso: o ridículo no passado era ainda muito mais ridículo, ora bolas! Compartilhavam entre eles a ideia de que “o ridículo de hoje” tinha uma razão quase bíblica, uma causa nobre. E com o ridículo cotidiano acostumaram-se. O esdrúxulo virou banal na velha aldeia. Os aldeões [ou quase metade deles] aninharam-se na barbárie como que entorpecidos em pajelanças algorítmicas.

Cavalgando panegíricos, abriram mão da história, da ciência e da arte a pretexto de uma tal faxina moral e ética, inadiável, iniciada por um homem que, voluntariamente, se filiava ao inferno enquanto imaginava julgar “a própria besta”.

Era uma vez uma imensa aldeia onde metade da população [ou quase isso], raivosa, perdia a noção do respeito. Eram tempos de escassez do amor próprio. Mulheres aldeãs aplaudiam a misoginia em praça pública. Trabalhadores assalariados celebravam a alta no mercado de ações. E empregadas domésticas, admoestadas pelo tesoureiro da aldeia, comemoravam a escalada do dólar e “o fim da festa” na Disney.

Como num filme de horror, a aldeia não se via doente, e Di Caprio era só um incendiário da Amazônia frustrando planos da terra plana em pleno século XXI. Ninguém sairia tão cedo daquele estado de torpor. De arma em punho, e sob os gritos dos generais, metade da população não tolerava mais índios, jornalistas, florestas, universidades, livros, artistas e o Papa.

Sem escrúpulo, sem culpa, metade da população [ou quase isso] só pensava em disparos nas redes sociais, em inimigos imaginários do progresso, numa nova economia redentora, em desafetos digitais... Era tanto tema em pauta na cabeça daqueles jovens que até o sexo fora proibido por decreto.

Era uma vez a gente. Era uma vez uma aldeia que, de súbito, perdeu a imensa alegria e a malícia até assistir, inerte, ao triunfo da milícia.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Vertigens da democracia



Já havia uma quase certeza de que Democracia em vertigem não levaria, na noite de ontem, o Oscar de melhor documentário. Não importam o nível dos concorrentes, a qualidade técnica da produção brasileira ou os recortes maniqueístas acerca da obra de Petra Costa. Você pode até não concordar com o olhar subjetivo da diretora sobre a realidade política no Brasil da última década, mas o filme cumpriu um importante papel: lançou luz sobre a fragilidade da democracia na era da comunicação digital.

O mundo tem assistido a um espetáculo de pirotecnia do algoritmo nos últimos dez anos. As redes sociais arrastam multidões para as ruas, orquestram protestos, manifestações, derrubam governos, forjam mitos e criam outras narrativas para a história e, estranhamente, até para a ciência. O algoritmo, agora pai da política, avança vorazmente sobre a democracia.

O documentário de Petra Costa, ainda que para alguns seja apenas uma miragem, “um filme de ficção”, prenuncia um cenário que vem chamando a atenção de pesquisadores de universidades norte-americanas e britânicas. Há pouco mais de uma semana, a Universidade de Cambridge divulgou pesquisa aterradora que constata aumento da insatisfação popular em relação à democracia como sistema político. A pesquisa ouviu mais de quatro milhões de pessoas em 154 países.

A insatisfação com a democracia remete, segundo os dados da pesquisa, a uma série de fatores, como a crise financeira iniciada em 2008, variados escândalos de corrupção, situação de migrantes e refugiados e o advento da propaganda do ódio e intolerância – amplificada, na voz de líderes populistas, por esse modelo de autocomunicação de massa, cujo fiador é o algoritmo.

Essa erosão democrática vem de longe, mas a pesquisa surpreende porque põe agora na berlinda, na conta de alto grau de insatisfação, duas das democracias consideradas mais sólidas do mundo. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, mais da metade de homens e mulheres, entre eles muitos jovens, já olham a democracia de esguelha.

A propagação de fake News e o uso de mídias sociais como instrumentos de manipulação do público, em vários países – inclusive no país da Petra Costa –, ajudam a criar a desconfiança na democracia como sistema de governo capaz de promover o bem comum.

Os algoritmos – usados hoje à exaustão para medir e ditar modelos de consumo e comportamento político-cultural – desaguam no revisionismo histórico como ferramenta para conjecturar o tempo presente e na formação de releituras sobre pensamentos filosófico-científicos já sedimentados. Dessa combinação de algoritmos medram sentimentos de racismo e a xenofobia. Medram desconfianças que vão além da própria democracia. Desconfiança na humanidade.

Democracia nada tem a ver com esquerda. Não é de partido algum. Democracia é democracia. O documentário brasileiro perdeu a estatueta. Mas a democracia não pode se perder por aí. Não pode a democracia virar vertigem.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

A feira das Luzias



Todas as terças e sábados Luzia está ali numa das calçadas do Campo de Santa Clara a vender o passado. Com o chapéu encobrindo parte dos cabelos avermelhados, de casaco e cachecol florido, um cobertor sobre as pernas e os olhos miúdos de esperança, ela ouve o mundo passar pela rua. Luzia é uma das muitas personagens da Feira da Ladra, uma tradição que há séculos resiste em Lisboa.

Pelos mais de quinhentos pontos de venda, como o da Luzia, passam muitos portugueses, espanhóis, italianos, franceses, alemães, chineses, russos e brasileiros. Luzia, que mais parece uma sessentona andina que uma feirante lisboeta, vende utensílios domésticos usados, como porcelanas, tapetes, cinzeiros, espelhos, cadeiras e alguns móveis e obras de arte, enquanto dona Teresa, a senhora de casaco vermelho, faz no telemóvel as contas do apurado do dia.



Sobre o nome da feira florescem lendas. Tudo começou ainda no século XII e, de lá para cá, o mercado mudou algumas vezes de endereço e identidade. Os taxistas da região falam de uma cigana que no passado roubava objetos das casas e os vendia na feira. Há quem diga que o nome Feira da Ladra deriva de “lada”, que num português mais arcaico significa aquilo que está à margem do rio. A feira, segundo pesquisadores, teria passado uns tempos ao “lado” do Tejo.

A explicação mais ouvida entre os comerciantes da área é a de que esse grande mercado a céu aberto de Lisboa foi inspirado nas feiras da Paris medieval, denominadas Saint-Ladre, nome que deriva de Saint-Lazare. Há, ainda, uma versão moura para o nome. Mas, como em toda feira, o freguês é quem escolhe a lenda mais verossímil.

Vende-se de tudo na Feira da Ladra, até artigos invisíveis. De peça de avião a caixa de absorvente vintage. De aparelhos de telefone a selos raros e moedas antigas. De livros, revistas e enciclopédias de diferentes épocas a azulejos de fachadas improváveis. De discos de vinil a uma cabeça empalhada de touro. De casacos de pele a chifre de alce da Escandinávia.

Ao lado da Feira da Ladra está o Panteão Nacional, na Igreja de Santa Engrácia, de onde se ouve baixinho a voz melancólica de Amália Rodrigues, os sussurros de Almeida Garrett e os versos de Guerra Junqueiro que ecoam das catacumbas ali existentes.



Há varandas com o fino de comidas e doces portugueses. Há música e gente desconfiada falando alto. Enquanto o euro passa de mão em mão na calçada das Luzias, seu Eduardo Martinho, o simpático livreiro que gosta de ouvir as declamações dramáticas de João Villaret, oferece-me uma edição brasileira comemorativa dos quatrocentos anos de Os Lusíadas.

Assim foi ontem na feira das Luzias!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

O padre e a revolta dos cordiais



Em outros tempos, o Padre Antônio Vieira teria o dia de seu nascimento [6 de fevereiro] festejado pela quase unanimidade dos portugueses. Mas não hoje. A imagem do aclamado orador, filósofo, diplomata e missionário jesuíta, como essa escultura em frente à Santa Casa da Misericórdia, em Lisboa, nos últimos anos virou alvo de arranhões e manifestações públicas.

Há quatro dias, em longo artigo publicado no jornal “Público”, as historiadoras Inês Barreiros e Patrícia Marcos, o professor Pedro Pereira e o arqueólogo Rui Coelho desfiaram um rosário de ataques à cultura da hegemonia lusotropical – segundo eles, na consciência de muitos, Portugal ainda hoje padece de um complexo de império – e ao missionário da Companhia de Jesus, que chegou ao Brasil ainda criança, viveu no Maranhão entre 1653 e 1661 e por lá cometeu alguns de seus sermões mais célebres.

A estátua de Vieira ao lado de três curumins, encomendada pela Câmara Municipal de Lisboa e esculpida pelo artista Marco Fidalgo ao custo de quase 100 mil euros, foi inaugurada em 2017 e reproduz a narrativa até então consensual sobre a trajetória do jesuíta: de um homem à frente do seu tempo, humanista e em permanente luta contra a escravização de índios por colonos portugueses no Brasil.

Tão logo inaugurada, a escultura foi atacada por pichadores e o Largo Trindade Coelho, onde encontra-se instalada, virou palco de manifestantes anticolonialistas que classificavam o Padre Antônio Vieira como “escravagista seletivo”. De acordo com o panfleto do grupo, mais de 6 milhões de africanos foram escravizados com apoio da Igreja Católica; a colonização portuguesa, em fins do século XVI, já havia dizimado 90% da população indígena; a evangelização jesuíta foi a maior responsável pelo etnocídio ameríndio; e que, portanto, Vieira, expressão maior da Companhia de Jesus, não seria digno de tal homenagem num momento em que portugueses semeiam planos para redenção da história.



A manifestação dos anticolonialistas foi barrada por um grupo de extrema-direita, que sobre o chão estendeu faixa com a frase “Portugueses primeiro!”, uma alusão tosca ao american first de Trump e ao nacionalismo míope para onde, tristemente, descamba a democracia liberal.

Mas, de volta ao argumento da hegemonia lusotropical [seguindo os rastros de Gilberto Freyre], o artigo dos pesquisadores portugueses expõe, assim como já ocorreu em outras publicações do universo acadêmico, uma ferida mal curada dos efeitos internos da colonização. Alguns batem-se contra a “narrativa mitológica” de uma “civilização benigna” patrocinada pelo império colonial português. E o pregador jesuíta, não obstante a erudição e o legado literário, é a representação materializada em bronze de uma grande fantasia da história.

A escultura, segundo os estudiosos, tenta fincar no presente a ideia de que a Igreja, nomeadamente a Companhia de Jesus, e aqui por meio do Padre Antônio Vieira de mãos dadas com a inocência dos curumins, foi legítima defensora dos índios quando da colonização portuguesa no Brasil. “Que a igreja atual se reveja na pose de um padre junto a crianças submissas é algo que preocupa”, alertam eles.

As invectivas dos pesquisadores deixam uma nuvem de polêmica no ar. Afirmam, sem meias palavras, que Vieira nada mais foi que um eloquente defensor da escravização dos africanos e que, mesmo hasteando bandeiras de liberdade aos indígenas, ajudou a impor a estes as armaduras da catequese cristã [crianças índias afastadas do convívio dos pais índios, selvagens] à moda do etnocentrismo europeu.

Apesar da polêmica de agora, Padre Antônio Vieira é reconhecido como um dos homens mais notáveis de Portugal, mestre da língua portuguesa e autor de uma das mais importantes obras do barroco luso-brasileiro que inclui sermões, cartas, discursos e poemas. Entre os textos de Vieira ainda hoje estudados e admirados estão o Sermão da Quinta Dominga da Quaresma e Sermão de Santo Antônio aos Peixes, escritos em São Luís; e Sermão da Sexagésima, escrito em Lisboa.

Nessa escalada de rebelião cultural tardia, em nenhum momento a qualidade da obra do Padre Antônio Vieira é posta em dúvida. A revolta dos homens cordiais de Lisboa mira, pelo menos por enquanto, apenas o anacronismo da homenagem a um importante ator desse imperialismo tão caro aos portugueses. O que já não é pouco!

terça-feira, 30 de abril de 2019

O dia em que o surfe parou


Gustavo Costa e Eduardo Júlio conversam sobre acidente com tubarão ocorrido em 1992 (foto: Joedson Silva)

Por Eduardo Júlio
Jornalista e poeta

Há quase 27 anos, Gustavo Costa sobreviveu a um ataque de tubarão na praia de São Marcos. O episódio marcou a história dele e a do esporte em São Luís. Para relembrar o caso, nós conversamos com Gustavo Costa e Marcelo Piu-Piu, que estavam juntos no mar na hora do acidente. Eles relataram com detalhes o fato e recordaram outros momentos da prática do surfe, nas praias de São Luís, no passado.

No dia 8 de julho de 1992, o jovem Gustavo Costa, à época com 25 anos, saiu da casa dos pais pela manhã, acompanhado do amigo Marcelo Bogéa Vaz, mais conhecido como Marcelo Piu-Piu, para surfar na praia de São Marcos, em São Luís. O que parecia ser mais um dia de sol e lazer sobre as ondas se transformou num episódio trágico, que marcou para sempre a sua vida e a história do surfe da capital maranhense.

Nascido no Rio de Janeiro, Gustavo era um jovem de classe média que se mudara para a ilha de São Luís dez anos antes. Seu pai trabalhava na Alcoa, multinacional de extração de alumínio, que se instalou no Maranhão no começo dos anos 80. Desde os tempos do Rio, a prática do surfe era a principal atividade desportiva do carioca.


Gustavo e Piu-Piu relembrando os bons tempos do surfe (foto: Eduardo Júlio)

Em São Luís, o surfista se deparou com ondas pouco apropriadas para a prática do esporte - se comparadas às do litoral fluminense - mas encontrou alguns jovens ávidos pelo surfe como ele, que conseguiam, com determinação e esforço, superar as limitações da natureza. Para esta turma, o hábito de pegar onda era uma atividade quase diária e a diversão era garantida.

Naquele fatídico dia, por volta das 11h, as ondas da praia de São Marcos estavam altas, convidativas para o surfe. Além disso, o mar apresentava uma cor esverdeada, algo raro em São Luís, onde as águas são, em quase todas as épocas do ano, turvas e cinzentas.

Ao chegarem à praia, Gustavo e Marcelo foram imediatamente alertados por alguns conhecidos sobre um acidente que acabara de acontecer com um surfista. A suspeita era de que a vítima, Márcio Bandeira, teria sido atacada por um tubarão e sofrido ferimentos - na verdade, o garoto perdera a metade de um dos pés. "As ondas pareciam perfeitas, e o mar estava com uma cor tão bonita, que não prestamos muita atenção ao que eles disseram e caímos logo na água", conta Marcelo Piu-Piu.

Depois de mais ou menos uma hora no mar, Marcelo estranhou a ausência de Gustavo sobre a prancha, que boiava sozinha. Em poucos instantes, o amigo reapareceu emergindo e submergindo, sendo jogado de um lado para o outro.

Gustavo havia sido atacado por um tubarão, que mordeu fortemente o seu braço esquerdo, dilacerando-o. Apavorado, perdendo muito sangue e pedindo socorro, ele foi resgatado por Marcelo e por outras pessoas que se encontravam na praia, incluindo um médico.

Às pressas, foi levado até a pista, onde rapidamente conseguiu uma carona para o Socorrão, o principal hospital público de emergência de São Luís. Na unidade, Gustavo recebeu os primeiros atendimentos. Ele sobreviveu, mas, devido à gravidade dos ferimentos, terminou perdendo o braço.

Da emergência, foi transferido para uma clínica particular, na qual permaneceu por 15 dias, em um doloroso processo de recuperação. A área do corpo atacada apresentou uma infecção e, apesar do esforço da equipe médica local, os ferimentos não cicatrizavam.

A bactéria que provocara o problema só foi identificada uma semana depois, após o envio de uma mostra do tecido para análise em um laboratório do Rio de Janeiro. "Para evitar piores consequências, tomava duas injeções especiais por dia. A primeira, ao acordar, e, a outra, na hora de dormir”, lembra Gustavo.

Ele acredita que tenha sido vítima do mesmo animal que atacara o outro jovem. “O tubarão deve ter ficado por lá rondando a praia em busca de alimento. Ao perceber a nossa presença, atacou”.

Férias

No ano do acidente, Gustavo estava residindo na Itália, na pequena comunidade de Trino, próxima às famosas e ricas cidades de Milão e Turim, no Norte do país. Na capital maranhense, ele passava as férias de julho junto à família. Um ano antes, tinha abandonado o curso de Comunicação Social no Rio, depois de estudar por quatro períodos. “Eu tinha voltado a morar no Rio, onde cursava Jornalismo. Mas surgiu a oportunidade de ir para a Itália e não pensei duas vezes. Abandonei tudo e segui rumo à Europa”.

Depois do acidente, foi obrigado a esquecer o sonho de continuar a viver na Itália e teve que se acostumar a uma nova vida no Brasil. Mas a readaptação foi rápida diante das graves consequências deixadas pelo ataque. A prática do surfe foi abandonada por ele, mas, no final do mesmo ano, voltou a ter contato direto com o mar e, em 1996, iniciou o aprendizado do mergulho. O trauma havia sido definitivamente superado.

Após a recuperação, Gustavo dividiu o tempo entre São Luís e o Rio de Janeiro, até que, em 1999, surgiu a oportunidade de sair novamente do país. Desta vez, o destino foi a cidade de Seattle, nos Estados Unidos, berço do movimento grunge, que sacudiu o rock no começo daquela década. Em terras gringas, ele permaneceu até 2010, quando retornou à capital maranhense.

Hoje, aos 52 anos, é casado, tem dois filhos: um menino de 9 anos e uma menina de 17. Empreendedor, possui um food truck, denominado Tuba Lanches, e é proprietário de um Food Park, localizado na praia do Calhau, na avenida Litorânea,por coincidência ou não em frente a um dos locais mais disputados pelos praticantes do surfe da cidade.

Calmaria

De acordo com o site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), São Luís possuía, em 1992, quase 700 mil habitantes. Era uma cidade com aspectos provincianos e com algumas opções de lazer para os mais jovens. Havia um shopping, cinco ou seis cinemas, alguns bares, restaurantes e boates.

A capital possuía praias relativamente limpas (a especulação imobiliária ainda não havia ocupado o litoral da ilha) e, nos finais de semana, o banho de mar era uma das principais opções de lazer da população, principalmente do público jovem.

O surfe era praticado desde o final dos anos 70, inicialmente na praia do Olho d’Água, onde até hoje aparecem algumas das melhores ondas. Mas o exercício, naqueles primeiros dias, exigia força de vontade, paciência, algum dinheiro e capacidade de improviso.

As primeiras lojas de surfe de São Luís só surgiram ao longo dos anos 80 - Imagination, Mano Surf e Hot Lines - em ordem cronológica. Antes disso, era difícil encontrar produtos e equipamentos para a prática do esporte. “No começo, não havia pranchas nem parafina. Tudo tinha que ser comprado fora do estado”, recorda Marcelo.

Se por um lado, a cidade carecia de infraestrutura, por outro, era muita tranquila, com poucos casos de violência, sem problemas de trânsito e muitos exemplos de respeito e solidariedade. “Muitas vezes íamos de carona, do bairro Renascença ao Olho d’Água, com prancha e tudo, e tínhamos que voltar da mesma forma. Era uma aventura, mas sempre aparecia alguém para ajudar”.

Gustavo concorda com as boas recordações do amigo em relação à atmosfera de São Luís no período. “O melhor tempo da cidade foram os anos 80. A tranquilidade era constante. Todo mundo se conhecia e havia muita confiança e companheirismo entre os jovens. Sempre encontrávamos amigos e conhecidos em qualquer lugar que íamos”.

Um dos primeiros campeonatos de surfe, realizado em São Luís, foi organizado justamente por Gustavo Costa e pelo irmão dele, por volta de 1985. O evento teve como cenário a praia de São Marcos, quando a área ainda não possuía via de acesso. “Nós fizemos o campeonato de forma improvisada. Era difícil o acesso ao São Marcos, mas conseguimos colocar um caminhão com um som e realizamos o encontro. Foi tudo muito divertido”, lembra.

Em 1992, no ano do acidente, a praia de São Marcos já tinha se tornado o principal ponto do esporte na capital. Antes quase inacessível, passou a ser muito frequentada após a terraplanagem da via que, dois anos depois, se tornaria a avenida Litorânea. Naquele tempo, o local também chegou a ser chamado de praia da Marcela, denominação que, na atualidade, parece devidamente esquecida.

Pioneiros

A primeira geração de surfistas de São Luís foi formada por nomes como Coelho, Zé do Valle, os irmãos Fábio e Pablito, Cícero e Cabeleira, pioneiros do esporte nos anos 70. Em seguida, figuraram o lendário Roberto Castro (Cachaça), João Marcelino, Nestor e Rogério Piolho. E foi justamente no meio desta geração que surgiram Marcelo Piu-Piu e, logo depois, Gustavo Costa. Também não se pode esquecer do jovem Bacana, que foi buscar a profissionalização em Santa Catarina, no começo dos anos 90.


Piu-Piu pegando uma onda no auge do surfe no Maranhão (foto: arquivo pessoal de Marcelo Piu-Piu)

“No início, éramos poucos. Inclusive, teve um curto espaço de tempo em que havia somente três surfistas na cidade: eu, o Billy e o Cachaça. Mas, no início dos anos 90, o surfe estava em alta. Centenas de jovens praticavam o esporte. Havia campeonatos, alguns atletas promissores e outros de grande talento”, conta Marcelo Piu-Piu, que naquela altura já era um dos mais respeitados surfistas de São Luís, tendo conquistado importantes troféus dentro e fora do Maranhão.

Hoje, aos 53 anos, Marcelo permanece como uma das principais referências do surfe na cidade, e divide a paixão pelas ondas – surfa quase todos os dias - com as atividades da Fisioterapia, área que escolheu para atuar profissionalmente.

Repercussão

O triste episódio com Gustavo Costa ganhou destaque nacional, com a veiculação de matérias sobre o assunto no Jornal Nacional e no Jornal da Globo, além de reportagens nas emissoras de TV e jornais impressos de São Luís. O assunto também foi registrado em importantes revistas nacionais de surfe, como a Trip e a extinta Fluir.

Especialista em tubarões, o biólogo Otto Bismarck Gadig, professor da Universidade Federal da Paraíba, veio à ilha, na semana posterior ao ataque, analisar o fenômeno da aproximação deste peixe da área de arrebentação.

Na época, algumas teorias foram levantadas sobre a causa do problema. Uma delas apontava a intensa movimentação de navios, no canal da baía de São Marcos, para o Porto do Itaqui. Resíduos de alimentos despejados no mar atrairiam os tubarões e as correntes marinhas conduziriam esses peixes até as praias.

Logo depois dos casos na capital maranhense, tubarões começaram a vitimar surfistas em Recife, onde muitos foram atacados. Na capital pernambucana, até hoje o problema ameaça os praticantes. Lá, surfar continua sendo uma atividade de intenso risco. Felizmente, em São Luís, não houve mais registros de ataques a surfistas.

Ruptura

A repercussão do incidente com Gustavo foi grande em São Luís. O caso sensibilizou a população, especialmente os jovens, e abalou profundamente a geração de surfistas da época. Dali em diante, o surfe praticamente deixou de ser praticado. Poucos se atreviam a entrar no mar. “O surfe parou e só voltou quando o episódio caiu no esquecimento e uma nova geração começou a ocupar as praias”, ressalta Gustavo.


Gustavo nunca perdeu o contato com a prancha, mesmo depois do acidente (foto: Joedson Silva)

Marcelo também confirma a ruptura na história do esporte na cidade. “Depois do acidente, não tinha mais quase ninguém com prancha na água. As pessoas ficaram com medo. Demorou algum tempo para o surfe voltar com regularidade e com um número significativo de atletas”.

Ele acrescenta que atualmente a quantidade de praticantes é muito grande. “Vivemos um momento especial com o surgimento de uma nova geração. Há muitos jovens pegando onda hoje em dia, dando continuidade à prática do surfe”.

Rádio

Na época do acidente, o jornalista que vos escreve era produtor musical do programa Ondas & Lombras, que ia ao ar todas as noites de sexta-feira, pela Mirante FM, sendo apresentado pelo cantor, compositor e jornalista Jorge Thadeu, que hoje reside em Salvador.

O Ondas & Lombras tocava rock e era dedicado ao surfe local. Todas as semanas um surfista da ilha era entrevistado no programa. Daí, o acidente com Gustavo repercutiu por, pelo menos, duas edições. Inclusive, o biólogo Otto Bismarck Gadig foi um dos entrevistados e fez algumas considerações sobre as supostas causas do ataque dos tubarões.

Assim como parte da juventude de São Luís da época, nós que produzíamos o Ondas & Lombras ficamos muito tristes e perplexos com o ocorrido. Tendo ou não motivo para continuar existindo, o programa deixou de ir ao ar no final de 1992.