terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Mapas para utopias



Jozias Benedicto*

Frente às crises e desafios de nosso tempo, a poesia ainda representa uma das formas de resistência, uma nave que tira o homem da aridez do dia a dia para transportá-lo para novos mundos, para a possibilidade de viver e cantar utopias. Penso nesta palavra, resistência, ao ler – depois de mais um dia bombardeado pela algazarra das redes sociais – os livros recém lançados de dois poetas maranhenses, “A sagração dos lobos”, de Salgado Maranhão, e “Filarmônica para fones de ouvido”, de Félix Alberto Lima, ambos publicados, com trabalhos gráficos primorosos, pela editora 7Letras (Rio).

Félix Alberto Lima é membro da Academia Maranhense de Letras, e este livro vem se juntar ao “O que me importa agora tanto” (7Letras, 2015), também de poemas. Jornalista e escritor, com bem sucedidas incursões na música e em cinema, Félix tece, com os versos livres e melódicos de seu novo livro, caminhos que passeiam por mares e pela cidade antiga e eterna (“o azulejo velho / na parede / da rua portugal”), por trilhas urbanas e periferias do terceiro mundo, por paisagens áridas e pelos sentimentos humanos (“essa canção que toca no rádio agora / bem que poderia falar do nosso amor”). Na “ciranda do poema”, em cada janela ou cada praia alguém nos espreita – “um refugiado de deus”. É impossível deixar de caminhar com o poeta por estas passagens; sua voz de “o último junkie do ocidente” nos envolve e nos exorta a querer ser também “aquele menino / que vendeu carvão e alegria / no desvão do tempo que embrutece”.

“A sagração dos lobos”, do poeta Salgado Maranhão, vem se somar à sua extensa obra literária, consagrada através de prêmios como o Jabuti (por “Mural dos ventos”, em 1999, e “Ópera de nãos”, em 2016) e o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras (“A cor da palavra”, em 2011). Neste livro mais recente, o poeta toma como norte e epígrafe uma lenda dos índios Cherokee que nos coloca a questão: que lobo dentro de nós vamos alimentar? – o animal interno do medo, da cólera, da mentira e de outros sentimentos negativos – ou o da paz, da fé, do amor e das qualidades positivas? Esta interrogação perpassa as belas imagens dos poemas – que nos contam de “mamíferos / que colidem com o pó”, de um “rio de açúcares / e vocábulos”, de comer “flores de pólvoras / e constelações de sílabas” – e para a qual não há uma resposta única e dogmática. Como uma obra aberta, o livro nos indica um caminho possível, a transcendência, ao se encerrar com “o poema pede silêncio / para sonhar”.

Somente com o sonho – e a arte, sua irmã – podemos calar esta barulheira do quotidiano deste século que mal atingiu a maioridade e já se tornou velho e, transformando a resistência em resiliência, olhando firme para o futuro, voltar a construir nossas utopias.

* Escritor e artista visual

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Quando a poesia é música clássica e popular

Jorge Abreu



Do título ao último poema, o livro Filarmônica para fones de ouvido, de Félix Alberto Lima, é instigante e encantador. Em tempos de extremismo em todas as esferas, e do que costumo chamar de imbecilidade generalizada que assola o planeta, Félix Alberto nos dá lições de como a simplicidade é, realmente, o último grau da sofisticação, como muito bem a definiu o gênio Leonardo da Vinci. Uma simplicidade que só se consegue através de muito trabalho, de acordo com a sempre profunda e visceral Clarice Lispector.

Na sinfonia clássica e mais que contemporânea e popular da filarmônica de Félix Alberto Lima temos a dor da solidão do provável suicida (“Uma noite longa”, pag. 30), e a confissão do contentamento do autor, que se nega ao poema raivoso, mesmo sendo ele, hoje em dia, bem mais elegante (“Destempo”, pag. 43).

Como o título sugere, é um livro musical, esse do Félix Alberto. Que vai do mais puro rock and roll (“Back up”, pag. 47) à “Cantiga de roda”, título do curto e ousado poema da página 44. Ao longo da sua leitura, confesso que me senti como se ouvisse de Bach a Beethoven, passando por Rolling Stones e Zeca Baleiro.

Mas, sem spoiler dos poemas, eu digo que Filarmônica para fones de ouvido vai mais além: nele tem lembranças de infância e juventude que remetem à poética dos inevitáveis Ferreira Gullar e Nauro Machado; e à grandiosidade de Aluísio de Azevedo e José Chagas (“Cartografia dos mares de dentro”, “Resinas resignadas”, “Insulano” e “Ribamares”).

Impossível não lembrar de Antônio Carlos Jobim e Machado de Assis ao ler/ouvir a potente e delicada Filarmónica de Félix Alberto Lima. Imprescindível ressaltar que o livro tem uma pegada de crônica de costumes que considero sensacional (“A mesa quando vai ser posta”, pag. 33; e “Ânsia de um homem comum”, pag. 37, para ficar em apenas dois poemas).

É um livro para ser lido de uma vez só, esse do Félix Alberto Lima. De preferência no silêncio de uma madrugada pós noite de chuva, como eu o fiz. Foi assim que mergulhei na identidade do poeta, no cerne da sua escrita, que me levou de Barra do Corda a São Luís do Maranhão, do Rio de Janeiro a Nova York, embriagado pela poesia de um autor em sua plenitude. Um poeta consciente de que a poesia é para provocar. É para gerar sentimentos e emoções. Fazer o leitor pensar e viajar. Eu senti, e fiz tudo isso, meu caro Félix Alberto Lima. E tenho mais é que dizer: muito obrigado, poeta! Todos os meus aplausos à tua Filarmônica para fones de ouvido!

[Jorge Abreu, 15 de janeiro de 2019]

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A ruptura e o medo



A crise econômica de 2008 nos Estados Unidos, que provocou impactos na Europa e em outros pontos do planeta, desencadeou uma onda de manifestações em várias partes do mundo. Muitas delas foram ativadas pelas redes sociais e replicadas via smartphones, numa espécie de levante transnacional – embora cada uma com características e motivações peculiares.

Num intervalo de cinco anos, mais precisamente entre 2010 e 2015, essas manifestações mudaram radicalmente o panorama cultural e político de alguns países. A primavera digital deu origem a um novo padrão de grupo, a comunidade virtual, habitante de um território imaginário, próprio do ambiente de rede.

Sem fronteiras, a comunicação sem fio uniu desconhecidos e conectou, com acentuada velocidade, projetos de cidadãos inconformados – ou com governos alinhados às elites financeiras, responsáveis diretamente pela crise que ainda perdura em algum canto, ou com o estado repressor.

As pautas represadas ganharam eco e se multiplicaram. O mundo mudou naqueles cinco anos. Os efeitos políticos podem ser medidos ainda hoje em diferentes países. Nos Estados Unidos, no mundo árabe, na Europa e no Brasil.

O fim das fronteiras físicas abriu caminhos para a invisibilidade, o anonimato da informação, a realidade imaterial e a famigerada pós-verdade. Em tese, o indivíduo imaginou-se menos vigiado e patrulhado pelo estado para experimentar uma nova liberdade de comunicação no espaço virtual.

A partir das atitudes individuais, até então limitadas a um contexto regional, emergiram os ativistas digitais e, com eles, encorajados por ações coletivas, nasceu o fim do medo. Os movimentos sociais de outrora desvaneceram-se na poeira das novas mídias. Perderam a cor partidária. Deixaram de ser de esquerda, de direita ou de centro.

Algumas lideranças políticas foram ungidas ao poder por estarem mais afinadas com as reivindicações desses novos movimentos e com as pautas do ambiente de rede, estimuladas por ideias às vezes vagas sobre economia (números inconsistentes, ausência de fontes confiáveis, estatísticas confusas) e política (quase todos os políticos e partidos jogados na vala comum da corrupção).

No caso específico do Brasil, os movimentos sociais que brotaram no calor das jornadas de maio e junho de 2013, influenciados pelas insurreições mundo afora, não duraram uma estação. Mas ainda perduram batendo panelas no oco das redes sociais. Multiplicaram-se até, ainda que desconfigurados. E resultaram no afastamento da então presidente Dilma Rousseff, em 2016, e na eleição de Jair Bolsonaro, em 2018.

É esse enigmático rizoma, fundamentado talvez nas idiossincrasias dos novos tempos, que, há mais de dez anos, os estudos do sociólogo espanhol Manuel Castells vêm tentando desvendar. Em 2013, ele reuniu parte de sua densa pesquisa no livro Redes de indignação e esperança.

Agora, ele publica Ruptura, livro complementar, de leitura indispensável, que reflete sobre os efeitos dos movimentos políticos potencializados pelas redes sociais no mundo e o possível desmantelamento da democracia liberal. Castells sentencia o fim das instituições políticas como intermediárias entre governantes e governados.

O fim do medo – medo da corrupção, do desemprego, da violência – enseja o fim dos partidos, “um colapso gradual do atual modelo de representação”, que tende a forjar a ideia de uma “democracia real”. A crise política relatada por Castells tem uma dimensão global. Mas, seguramente, é o Brasil um complexo estudo de caso.

O presidente eleito Jair Bolsonaro dá sinais de que governará abrindo diálogo diretamente com sua plateia de seguidores digitais, “sem a intermediação” do Congresso, já condenado ao extermínio por ativistas da rede.

E o Judiciário, cuja alegoria preferencial na teia da rede é o STF, virou alvo de pilhéria nas mensagens compartilhadas diariamente por esses agentes diretos da ruptura.

Há uma batalha às cegas batendo à porta. E, por enquanto, ninguém sabe sequer como ela vai começar.

Um pensador da sociedade em rede

O espanhol Manuel Castells é considerado um dos principais pensadores do mundo. Sociólogo, foi professor da Universidade de Paris e tem vasto estudo sobre movimentos sociais, sociedade em rede e a influência das novas tecnologias no cotidiano das pessoas. Há alguns anos, Castells investiga os efeitos da informação sobre a economia, a cultura, a vida política e a sociedade.

Manuel Castells é professor emérito da Universidade da Califórnia, membro da Academia Americana de Ciências Políticas e Sociais, da Academia Britânica, da Real Academia Espanhola e tem mais de 25 livros já publicados.

Meu primeiro contato com as ideias de Castells veio com a leitura de Redes de indignação e esperança. O livro, originalmente publicado em espanhol em 2012, ganhou versão em português no ano seguinte e um posfácio dedicado à análise das manifestações ocorridas no Brasil naquele período.

Mais recentemente, nos seminários de investigação das cadeiras de mestrado em Relações Internacionais, do IURJ/Universidade Autônoma de Lisboa, tive acesso mais direto à obra de Manuel Castells.

domingo, 9 de dezembro de 2018

A cidade esquecida



Palmira, Menphis, Cartago, Pompeia, Hattusa e Petra são alguns exemplos de cidades esquecidas ao longo da História – ou porque foram abandonadas, saqueadas, ou porque ruíram em disputas políticas e guerras. Alcântara, no Maranhão, é o arquétipo de monumento no Brasil solenemente esquecido pelo establishment. Apesar de invisível aos olhos do poder, ignorada, a cidade, desde meados dos anos 1980, abriga um sítio para experiências espaciais que frequenta, com inquieta regularidade, o noticiário nacional e internacional.

A pauta do momento é o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas que o governo brasileiro ensaia retomar com os Estados Unidos a pretexto da comercialização de satélites de fabricação norte-americana pelo Centro de Lançamento de Alcântara (CLA). Parceria semelhante foi assinada entre os dois países em 18 abril de 2000, mas em 2002 o Congresso brasileiro rejeitou-a alegando ameaça à soberania nacional.

Pelo acordo de 2000, conforme relatório técnico dos parlamentares, os Estados Unidos teriam “o direito” de controlar áreas restritas dentro da base de Alcântara. Para entrar nessas áreas, qualquer brasileiro, inclusive o presidente da República, dependeria de autorização prévia dos norte-americanos. E mais: o Brasil não poderia ter acesso aos contêineres de “equipamentos” desembarcados dos Estados Unidos.

Nem mesmo inspeções alfandegárias seriam permitidas. Os escombros de eventuais lançamentos fracassados não poderiam ser resgatados, estudados ou fotografados pelo governo brasileiro. Ou seja, pelo teor daquele acordo de salvaguardas, Alcântara, com sua localização estratégica, a 2º18' sul da linha do Equador, de frente para a África Ocidental, facilmente viraria um novo Porto das Pérolas.

As negociações foram suspensas, porém, quando, em 22 de agosto de 2003, uma grande explosão seguida de incêndio na plataforma de lançamento de Alcântara destruiu o foguete VLS-1 e provocou a morte de 21 técnicos civis envolvidos no programa espacial brasileiro.

Somente no ano passado o governo formalizou novo protocolo de intenções com os Estados Unidos para exploração da base maranhense. Em maio último, 15 anos após o acidente, os Estados Unidos retomaram as negociações para uso do CLA, em contraproposta enviada ao Palácio do Planalto. Após as eleições no Brasil, já houve acenos e prévias garantias do presidente eleito Jair Bolsonaro para a efetivação do acordo.

Alcântara não deu certo como cidade antiga. A aristocracia tombou falida e a cidade, com seus andrajos de pedra, casarões silenciosos e fantasmas indolentes, aguarda a visita de quem um dia ainda virá: ou o imperador de fancaria ou um astronauta de faiança ou um turista redentor.

Na Alcântara antiga os escombros gemem na rua da Amargura, idosos protegem a moleira na paisagem desenhada pelo sol intenso, quilombolas de Frechal resistem numa trincheira imaginária e mulheres cozem doces de espécie para transeuntes improváveis. Sob a terra cálida, velhos tupinambás velam o monumento à indiferença coletiva.

Como cidade do futuro, Alcântara ainda não acertou a rota. A parceria com os ucranianos no projeto Cyclone Space resultou em grande prejuízo financeiro ao programa espacial brasileiro e, em 2011, foi parar na teia internacional do WikiLeaks.

Alcântara tenta dar certo agora como o novo Eldorado para os americanos; feito uma Fênix que rapidamente se refaz das cinzas de um foguete; ou – quem sabe! – qual uma Troia e seu grande cavalo escondido entre as ruínas da praça, o presente majestoso pronto a nos surpreender.

Quem, ao fim da próxima corrida espacial, vai lembrar de Alcântara? Talvez uma caixeira branca, de olhos azuis, com seu tarol de ladainhas ao Divino. Em inglês.

(foto: portal penaestrada)

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Um olhar sobre o Brasil de agora



Antes de mergulhar na leitura de Comunicação & Justiça – Dilemas da cidadania na sociedade contemporânea, desconfiei, pela elasticidade do título, que iria deparar com um caudaloso tratado jurídico ou, quem sabe, um meticuloso agrupamento de pequenas teses de inspiração acadêmica. Mero engano. Logo na primeira leitura encontrei um ambiente leve, didático, sem o formalismo do meio por onde transita o autor da obra. E esse ambiente estendeu-se por todas as páginas, não obstante a aridez premente em alguns temas abordados ao longo dos capítulos.

O livro de estreia de Antonio Carlos de Oliveira, experiente jornalista que dirige com zelo e talento a assessoria de comunicação social do Tribunal de Justiça do Maranhão, é, em verdade, uma oportuna agenda de temas caros à sociedade brasileira. São artigos lúcidos e bem delimitados que, embora já publicados na imprensa do Maranhão, não se perdem no tempo e no espaço.

A obra de Antonio Carlos dialoga, sem vícios de pedantismo, com a política, a cidadania, a justiça e a responsabilidade social. O autor faz uma análise acurada dos efeitos da inteligência artificial nos meandros do Judiciário, cotejando com parcimônia benefícios e assombros da tecnologia como ferramenta de trabalho.

A transversalidade é a tônica do livro. Está presente, por exemplo, na abordagem sobre a judicialização da política e a separação dos poderes. Antonio Carlos remonta o enredo que elevou ao protagonismo o Judiciário no atual cenário de crise política e institucional no Brasil.

Evita a análise rasa para enveredar em assuntos complexos. Para isso, recorre aqui e ali a elementos da história ou fundamenta os seus argumentos em recortes de Platão, Aristóteles, Montesquieu, Rui Barbosa, Monteiro Lobato, John Locke, Cesare Beccaria e Carlos Drummond de Andrade, só para citar alguns nomes do direito, da filosofia e da literatura.

Ao abordar o tema da violência contra as mulheres, Antonio Carlos ensaia uma verdadeira aula de sociologia e história. Sobre o quadro de iniquidade a que está exposta a mulher, o autor assevera que o Brasil contribui para a “feroz exclusão do gozo das mais básicas garantias”. O Fundo Partidário é classificado por ele como privilégio antirrepublicano, uma artimanha da política para espoliar o erário. Os partidos nadam em dinheiro fácil, enquanto a massa sofre afogada nas limitações de serviços públicos básicos.

A corrupção, na avaliação do autor, é prima-irmã da imunidade parlamentar – quando esta tem a sua finalidade desviada. O político utiliza-se da imunidade para cometer crimes e continuar circulando livremente por aí, como se invisível fosse.

As fake news, os falsos perfis na internet e a pistolagem cibernética transformaram os meios digitais, segundo Antonio Carlos, em um campo minado, uma terra de ninguém. Na agenda de Comunicação & Justiça estão também artigos sobre como a economia naufraga no oceano da politicagem; os transplantes ilegais; a democracia combalindo pela ameaça da política do clientelismo; a liberdade de expressão; o excesso de leis; o grampo ilegal e muitos outros.

Antonio Carlos de Oliveira é jornalista de formação, mas escreve com conhecimento de causa sobre matérias menos objetivas que o jornalismo: ora empunha a pena como um verdadeiro operador do Direito, ora expõe suas ideias como um cientista político na infalível tarefa de esmiuçar o tecido social do Brasil. “São milhares de sobreviventes da clausura compulsória, que por trás de grades, contidos em leitos, andam por pátios de instituições envelhecidas, mostrando o retrato fiel de um sistema medieval e desumano”, alerta ele em capítulo sobre a situação dos confinados “invisíveis”.

Comunicação & Justiça é uma madura compilação de pontos de vista do autor. O leitor poderá até discordar de um ângulo ou outro alcançado pela lente de Antonio Carlos, mas não da narrativa que ele oferece, sempre segura e envolvente. É uma obra aberta que sugere reflexões sobre essa encruzilhada institucional e ideológica de um país em torpor.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Galera (capítulo 3) – Ventos de Maio 68



(texto publicado no jornal O Estado do Maranhão em 25 de abril de 1998)

Félix Alberto Lima
Francília Cutrim


No último dia 17 de abril, o Fórum Galera reuniu centenas de estudantes no auditório do colégio Liceu Maranhense para discutir o tema “1968 a 1998 – 30 anos de mudanças no comportamento da juventude”. No dia anterior, como parte do fórum, os alunos assistiram ao filme O que é isso, companheiro?, de Bruno Barreto. O bate papo no Liceu foi dividido em três blocos, cada um relacionado a uma geração. Assim, participaram do fórum, como convidados do Galera, o radialista e produtor musical Gilberto Mineiro (que substituiu o cantor e compositor Sérgio Habibe); o poeta, jornalista e designer Paulo Melo Sousa; e a estudante de Radialismo, poeta e performer Beth Ysatis.

Por que esse tema? – o leitor deve estar se perguntando. Vamos aos fatos. Estamos entrando no mês de maio. E foi exatamente em maio de 68 que estudantes universitários iniciaram na França um movimento de contestação que iria se espalhar pelos quatro cantos. Quando o ano acabou, o mundo tinha experimentado uma daquelas explosões que alteram costumes, valores e culturas. Foi o ano das ideias, das barricadas do desejo, do poder em xeque, do sarro ao establishment. Nos Estados Unidos, a euforia foi quase simultânea. E no Brasil, que estava mergulhado numa ditadura militar, o eco veio das manifestações de rua e dos gritos nos porões do DOI-CODI.

1968 não foi um ano qualquer. Especialmente porque determinados fatos marcaram a juventude da época e influenciaram as novas gerações. Outro motivo? São 30 anos da história recente do Brasil, a história que não está contada nos livros didáticos. E olha que são 30 anos de transformações radicais.

Gilberto Mineiro falou, no Fórum Galera, sobre “O desbunde” (os anos 1970). Segundo ele, foi uma das décadas mais férteis, sob o ponto de vista da evolução cultural. Recorreu, antes de entrar nos anos da contracultura, à década de 1950 para explicar o espírito revolucionário de jovens americanos. “Nessa época, a juventude resolveu contestar o imperialismo dos Estados Unidos”. Para isso, relata, tiveram peso decisivo o surgimento do rock and roll e a geração beat.

As ideias existencialistas que vinham da França criavam, segundo Gilberto Mineiro, raízes na inquietação da juventude brasileira, tanto na literatura como na música e no teatro. “Os levantes dos universitários eram mais espontâneos, ao contrário do que vem acontecendo hoje. Os militantes de agora estão envolvidos na guerra político-partidária”. Havia, nas entrelinhas da política, a cultura (a Tropicália e os festivais de música, mais especificamente) polarizando com a ditadura. “Hoje não existem causas palpáveis que justifiquem uma luta, e isso deixa a geração dos anos 1990 meio perdida”, compara Gilberto.

Paulo Melo Sousa fez referência, antes de entrar no tema “Geração Coca-Cola” (os anos 1980), ao livro O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira, e ao movimento de 1979 pela meia passagem em São Luís. “Na década de 1970 havia motivos para a juventude ir à luta nas ruas. A geração seguinte, rotulada e desarmada, teve de recorrer a causas mais localizadas e específicas”.

O movimento estudantil e a luta contra a repressão – que na década de 1980 ainda imperava na Universidade Federal do Maranhão –, segundo Paulo Melo Sousa, eram os elementos que associavam o jovem de São Luís a algum tipo de rebeldia. O poeta e jornalista lembra que o Circo Voador armou sua tenda na cidade, na década passada, aglutinando todas as tendências culturais. “A onda do rock no país influenciou bandas locais e fomentou a realização de alguns festivais”.

Paulo Melo condenou a banalização da cultura nos anos 1990, especialmente os estilos musicais de consumo fácil (como pagode, forró e axé) e a profusão dos carnavais fora de época. Num determinado momento, comparou a cultura a um prato de comida que às vezes surge com ótima aparência na nossa frente. “Nem tudo que é servido é pra ser digerido”, disse. “Veja os filmes de ação que nos apresentam, com Stallone, Van Damme e outros. É sempre a mesma coisa. Só mudam os caras que apanham”.

A saída, de acordo com Paulo Melo Sousa, está na cultura. “É possível escapar da alienação”, salientou. “Tomara que esse debate aqui sirva como exemplo e que vocês possam ampliar a discussão para outras áreas do conhecimento”, concluiu ele.

“Sem botão, no tempo, no topo, no chão...” (os anos 1990) foi o tema abordado por Beth Ysatis. Argumentou, a princípio, em favor de uma geração que vive sem perspectivas ou ideais devido à ausência de causas. Beth falou da relação do reggae com a classe média e espetou a convicção daqueles que associam o estilo musical a um movimento cultural em São Luís. “Não existe movimento reggae em São Luís. Se existiu, ele foi puramente comercial. Não houve nada de movimento comportamental”.

A juventude de hoje, de acordo com Beth, está muito comedida em suas atitudes. “A mídia incentiva o consumo e o jovem, diante de sua dispersão, cede a todos os apelos. E tudo, é claro, vem muito bem enlatado, no ponto de ser consumido”. Beth Ysatis falou sobre a queda na qualidade do ensino público nos últimos anos e a indústria de cursinhos que vem se formando em todo o país.

A performer abordou também temas como ecologia, literatura de autoajuda e crise de identidade. “Hoje há uma descaracterização cultural acentuada, não há modelo, não há padrão. Você pode transitar por vários grupos e não se identificar com nenhum deles, sem cobranças”. Segundo Beth Ysatis, é preciso aproveitar as ferramentas oferecidas pela globalização. “Só assim poderemos ampliar nossos conhecimentos”.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Na pele de Gilberto Gil



Imaginei um dia Gilberto Gil quebrando o silêncio da sua poesia para acudir desterrados que vagam aflitos em pedaços de chão demarcados pela intolerância: de pena e pergaminho nas mãos, o artista põe os olhos no mar e anuncia aos navegantes sem destino a sua oração de fé e compaixão. Finda a noite, há um manifesto aos refugiados de ontem e hoje, de carne e ócio:

Vamos refugir (o manifesto)

Refugiar-se é recolonizar a alma atormentada dentro desse hemisfério físico chamado vida. É expandir-se ao nada, ao porém de cada coisa rarefeita na fábrica do imaginário. É, ao grunhir, fundar outra voz simbólica uma oitava acima das jaulas no canto onomatopeico.

Refugiar-se é sair da sala de jantar para comer no quarto dos fundos das angústias humanas. É reatar-se com o silêncio luminoso das árvores e decifrar o sortilégio dos pajés que, na quietude das florestas, espiam os passos insolentes de Maduro.

É auscultar o fragor dos terreiros, nadar na contramão das águas engarrafadas pela manufatura pet, violar o sagrado acorde dos violões de catedral, reinventar Arembepe em cada quarteirão de Pacaraima.

Quantas vezes no exílio refugiei-me de mim mesmo, ali estatelado sob aquela constelação de murmúrios! Daquela atmosfera enfumaçada da Denmark Street eu, de atabaque nas mãos, transportava-me heroicamente para um beco moçambicano na Cidade da Bahia. Era o bálsamo benigno. Era o meu refúgio naquele átomo do instante.

Vamos refugir em mais redes estendidas na varanda, desmontar o tabu do poder, surfar em ondas mídias e frequências modulados de afeto. Vamos refugir da favela, como nas caravanas de Chico. Chegou a hora de cruzar a faixa de Gaza da dúvida. Porque SIM é NÃO. NÃO é NÀO? NÃO é também um SIM de viés. Ou NÃO, digamos assim!

É imperativo despachar para o longe céu as nuvens escurecidas que encobrem Venezuelas e Sírias.

Vamos nos refugiar os baianos nas caravelas de Porto Seguro; os cubanos, num quarto escuro de Boca Raton. Vamos nos refugiar os paulistas nas entrelinhas de Oswald de Andrade tremeluzindo esquinas de neon e luxúria. Vamos refugir do Rio sitiado por generais de fancaria.

Refugiar-se é também desencontrar-se das origens, perder-se na estrada pedregosa da Amazônia, no mar raivoso do Mediterrâneo. É espreguiçar-se no chão de uma rua que não se conhece. É dar outro destino ao ameríndio chocolate e mel. Aflições de todos nós. De todos os nós!

Que todo refugiado tenha direito à água limpa da fonte. Que antes de dormir coma o pão quente do sossego. E que doravante o refugiado, depois de se jogar no oceano das incertezas, tenha uma acolhida de cintilância no azul da nossa indiferença.