segunda-feira, 27 de junho de 2016

A desunião europeia e os 80 anos de “Raízes do Brasil”

Causou perplexidade e susto em outras nações a ruptura dos britânicos com a União Europeia, o Brexit, sacramentado em plebiscito depois de um engenhoso jogo de interesses até agora tácitos para o resto do mundo. Passada a euforia do voto pelo sim, os ingleses, em especial, vivem dias de ressaca moral e sentem sobre os ombros o peso de um arrependimento mascarado, quase tardio. A ficha ainda cai. O Reino Unido, enfim, é uma ilha na Europa. Não há explicações objetivas a essa opção pelo isolamento. De costas para a Europa, os britânicos sairão fortalecidos? O velho mundo ficou pequeno para a Grã-Bretanha? Nem uma coisa nem outra. Essa mania de grandeza vem de longe, dos escaninhos da história, das profundezas da socioeconomia.

A imagem que se tinha dos ingleses, especialmente para quem visitava a Grã-Bretanha antes da Revolução Industrial da fase vitoriana, era a de um povo indolente, esbanjador, refestelado na “boa vida” e com um indisfarçável complexo de inferioridade em relação aos seus vizinhos europeus (holandeses, franceses e alemães), concorrentes por excelência. O ócio, o apego ao luxo e a imprevidência são características dos ingleses severamente atacadas no panfleto “England’s treasure by forraigne trade” (em tradução livre, “Tesouros da Inglaterra no comércio exterior”), assinado por Thomas Mun em 1664 e com trecho recortado no revelador ensaio “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda.


Sérgio Buarque de Holanda

Substancial e ao mesmo tempo concisa, amparada em farta argumentação histórica, a obra de Sérgio Buarque de Holanda fora publicada originalmente em 1936, portanto há 80 anos, e carrega em pouco mais de duzentas páginas um broquel de atualidade e transversalidade. O perfil dos britânicos é ligeiramente analisado no capítulo em que o autor aborda as origens do comportamento do povo brasileiro, forjadas na predisposição para a aventura dos povos ibéricos. Assim como portugueses e espanhóis, os ingleses misturavam deliberadamente trabalho & aventura no afã de “colher o fruto sem plantar a árvore”. Como os ibéricos, os ingleses não tinham “apreço pelas virtudes da pertinácia”.

No livro, Sérgio Buarque de Holanda recorre também ao escritor William Ralph Inge, deão da catedral de St. Paul, para sustentar a ideia de que os ingleses, já no segundo quartel do século XX, comparados com os seus vizinhos, não tinham aptidão para fainas duradouras: “O inglês médio não tem presentemente nenhum gosto pela diligência infatigável, laboriosa, dos alemães, ou pela frugalidade parcimoniosa dos franceses”. E vai mais longe o deão inglês, atirando contra seus compatriotas e outras gentes: “A indolência é vício que partilhamos com os naturais de algumas terras quentes, mas não com qualquer outro povo do Norte da Europa”.

“Raízes do Brasil”, como o próprio nome sugere, é um lúcido mergulho no (re)conhecimento das origens do Estado brasileiro. Ao lado de “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, e “Formação do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Junior, o livro de Sérgio Buarque de Holanda está no rol de obras clássicas essenciais para a compreensão do País e dos brasileiros. O autor enfeixa uma série de conceitos polares, antagônicos, como trabalho e aventura, método e capricho, rural e urbano, para descrever o traço patrimonialista e personalista presente na formação do povo brasileiro e na composição do Estado brasileiro.

A procura por uma identidade brasileira começa com o estudo das fronteiras do continente europeu. Os países ibéricos, segundo o autor, não faziam parte, até o início das grandes navegações, do bloco econômico e cultural predominante na Europa. Influenciados por ações religiosas e invasões de outros povos, principalmente do norte da África, portugueses e espanhóis formavam uma cultura miscigenada que se distanciava da tradicional cultura dos países ao centro e ao norte da Europa. É explicando, por exemplo, a inclinação de Portugal e Espanha para um “trabalho aventureiro” na colonização do novo mundo que Sérgio Buarque de Holanda chega, de viés, aos britânicos.

O autor define como aventureiro o homem que vive dos espaços ilimitados, dos projetos vastos, dos horizontes distantes; já o trabalhador é visto como o homem que enxerga primeiro a dificuldade a vencer, não o triunfo a alcançar, e por isso tem um campo visual restrito. Colonizar a América exigia façanha, grandes voos e audácia. O português, semeador na definição de Sérgio Buarque, foi o povo que melhor adaptou-se ao novo mundo, ainda que “com desleixo e certo abandono”, e ajudou a compor o perfil de “homem cordial” atribuído ao brasileiro – entendido não como bondoso, mas de aparência afetuosa.

Como explicar a preguiça de um povo que inventou o mercantilismo e que promoveu a grande revolução industrial ainda no século XIX, fatores que contribuíram sobremaneira para o florescimento do capitalismo no mundo? Onde encontraram forças os ingleses para erigir um império de conquistas na África, na Ásia e nas Treze Colônias ao norte da América? Como pode um povo indolente e aventureiro manter até hoje, por vaidade ou veleidade, um dos mais longevos projetos de monarquia? São questões perdidas no mesmo sopro de argumentos imponderáveis que ajudam a construir a sanha fratricida além dos muros do reino. Para entender o presente, como vaticinou Sérgio Buarque de Holanda, é preciso mergulhar no passado. Os britânicos certamente saberão reinventar-se com destreza. O big bang da velha Europa está apenas começando.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Maio oito meia (11) – Dez anos de festivais de música no campus

Eram tempos de turbulência na política e muita inquietação na comunidade acadêmica. A voz ativa da juventude ressoava pelos becos e palcos improvisados das universidades. Na UFMA, as coisas passavam naturalmente pelo curso de Comunicação Social, vanguarda involuntária dos movimentos estudantis nos anos 1980. As decisões políticas e conspirações culturais estavam concentradas entre a Área de Vivência do campus, onde também ficava a sede do DCE, o Auditório “Jarbas Passarinho” (no Centro de Ciências Humanas, o Castelão) e o prédio do Centro de Ciências Sociais, o afamado Pimentão, núcleo-base de Comunicação e de outros cursos como Direito, Serviço Social, Ciências Sociais, Pedagogia, Economia, Ciências Contábeis e Biblioteconomia.

Nesse território, o ambiente universitário reverberava os grandes festivais de música transmitidos via TV até meados daquela década. Som, fúria, ternura, protesto, irreverência e, quem sabe, trampolim para uma carreira profissional na música. Havia interessados dentro e fora do ambiente acadêmico, e os festivais, com seus altos e baixos, ocuparam por alguns anos essa arena fértil da Universidade Federal do Maranhão.

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segunda-feira, 2 de maio de 2016

Maio oito meia (10) - O jornal laboratório vai ao povo

A ideia de entrar para a universidade era o sonho de aprender mais, de abrir os horizontes do conhecimento. Era, sobretudo, o sonho de aprender a fazer, de por a mão na massa, a curto prazo descortinar a fábrica da academia. Os tempos de escola, das enfadonhas rotinas de aula e prova, haviam ficado para trás. Do grão em grão da teoria, rapidamente chegaríamos à prática. Mas o curso de Comunicação Social da UFMA, criado em 1970, tinha suas limitações – estruturais, tecnológicas etc. Até o final dos anos 1980 contavam-se duas salas de redação (equipadas com surradas máquinas datilográficas Olivetti, papel jornal A4 e folhas de carbono), um laboratório de fotografia, um laboratório de Relações Públicas e um laboratório de rádio.

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

O sexo verbal de Mônica

Não é de hoje que o sexo verbal de Mônica Moreira Lima soa provocador e assumidamente lúdico. Vem de longe essa vocação matreira pra falar com liberdade, dentro ou fora de casa, de temas tabus que em pleno terceiro milênio ainda ruborizam de interlocutores modernos a mocinhas pudibundas. Com o seu didatismo erétil, Mônica criou asas ao longo dos anos e chegou ao programa de TV que lhe deu projeção nacional, pelo estilo simples e pela maneira desbocada de tocar na libido alheia.

As crônicas aqui apresentadas, depois do livro de estreia “Sexo para maiores de 18 (cm)”, em 2008, realçam o discurso libertário e a embocadura literária de Mônica Moreira Lima. Não há meias palavras ou subterfúgios nos pequenos textos, por ela intitulados de ‘rapidinhas’, nem nas palavras que saem dos grandes lábios da apresentadora que semanalmente multiplica a audiência do programa Sem Vergonha com tiradas inteligentes e deliciosamente bem humoradas.

A desinibida da TV Guará deixa claro em cada página que pra ela sexo nunca foi um bicho de sete cabeças. Discorre sobre mulheres de vulva fácil, homens de fundo de quintal, cafajestes desejosos do compartimento feminino, fetiches e extravagâncias sexuais na mesma intensidade com que desmonta a sisudez de pautas como cuidados com a saúde, a psicologia do parceiro, carência afetiva e transtornos conjugais.

Não há recato. O livro pode ser lido de frente pra trás, de trás pra frente, tanto faz se dupla penetração... Nua em pelo, Mônica Moreira Lima expõe sem pudor a sua brinquedoteca de palavras aos passantes. Deixa em cada canto de página as suas impressões digitais. Como num jogo de sexo self service, a mulher madura se satisfaz em par ou ímpar. Acompanhada ou avulsa. Não importa, o que é dela está guardado. Não é a Monica Lewinski, mas se lhe pisam os calos ela chupa o pau da barraca.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Amigos extraordinários




O amigo extraordinário não sabe de cor as datas especiais, não requer cuidados, não exige atenção. Não precisa estar ao lado a vida inteira. O amigo extraordinário não vive de expectativas, não tem pressa para o próximo abraço, nunca pede explicações, não cobra um telefonema. O amigo extraordinário não discute a relação, não faz pacto de fidelidade, não combina horário, não torce para o mesmo time. Jamais torce o nariz.

Fazer amigos não é um bicho de sete cabeças. Eles estão por perto, não voam alto, não desaparecem. Mas amigo extraordinário é outra história. O amigo extraordinário cria asas, vai estudar fora, casa, muda de endereço e telefone, tem uma família pra cuidar, responsabilidades que naturalmente pesam ao longo dos anos. Frequenta novos círculos de relacionamento criados na faculdade, na pós-graduação, no clube, na igreja, no ambiente de trabalho. Tão completo é hoje esse amigo extraordinário - pensava eu com os meus botões – que ele é incapaz de olhar pelo retrovisor e enxergar o velho casarão da Rua do Passeio abarrotado de meninas e meninos sem plano de voo algum para o futuro, sem sobrenomes, becas ou jalecos; sem alianças, escrituras ou consórcios.

Mas não, ele não rompeu os laços com o passado. O amigo extraordinário é alguém que de fininho saiu da festa de formatura da escola – como quem foi ali na esquina comprar cigarros –, te reencontra trinta anos depois e o calor do abraço continua o mesmo, a mesma intensidade daquele afeto que jamais foi esquecido. O amigo extraordinário tem alma grande, acolhedora. Resignado, sabe esperar a vida lhe restituir amores guardados debaixo das cobertas de cada janeiro.

O tempo tem sido o nosso melhor amigo extraordinário, porque nos deu o privilégio de atravessar com lucidez e pés no chão um dos períodos mais fecundos da humanidade em matéria de evolução tecnológica e comportamento. Veja o que a vida fez com a nossa juventude! Furamos a fila e fizemos a travessia para o século 21 cheios de incertezas, mas altivos. Como fomos sortidos de solavancos tecnológicos, um atrás do outro! Da máquina datilográfica saltamos para o computador, e logo para a internet. Revolução que continuou com o telefone celular, a TV digital, o smartphone e a imensa teia de mídias sociais.  

E foi essa teia que remexeu o tempo e abriu o baú extraordinário da nossa amizade. Redescobrimos agora amigos extraordinários como se estivéssemos iniciando uma jornada nova, como se amanhã fosse o começo de mais um semestre letivo esplendoroso dentro dos nossos corações. Valeu, Adriana, pela culpa, pela coragem de abrir a primeira fresta, pela escavação desse tesouro, pela imensidão de entusiasmo e por essa vocação quase arqueológica de achar gente.

Muito obrigado, Ana Rosa, pela companhia diária dos teus jardins de Holanda e por essa brisa de otimismo que sai do Mar do Norte, atravessa o Atlântico e vem soprar na nossa praia. Vejo flores em você! Raquel, tua gargalhada sincera me interessa, é o nosso bálsamo. Riam mais vezes, Ana Lídia e Naíza, até que se esgotem todos os emotcons! Viramos dependentes químicos da alegria de vocês. Sweet Lilian, continue catando poesias e folhas de ipês pelo chão de Brasília, e não esqueça de oferecê-las aos amigos extraordinários nessas manhãs enfadonhas de segunda-feira. Rômulo, grande irmão, ouça “Sweet Virginia” qualquer dia desses nas tuas festas particulares, verossímeis, e não esquece de agradecer a Deus pelo vinho da sexta-feira. A tua imaginação refinada está na pressa escondida sob o sapato de couro apache.  

O que seria do vinho sem o farto queijo de Rosana? O que seria de nós sem essas orações de confiança na primeira hora da manhã? Vai, Enésio, estica o passo que a caminhada é longa. Curta a vida, Telma! Froz, uma cerveja antes do almoço é muito bom pra ficar contemplando melhor a paisagem que invade a tua janela. Viva o bom humor, Layra! Vamos nos permitir a piada maledicente, o vídeo desconcertante, a foto constrangedora. Vamos brincar de roda com a lucidez parabólica de Josy e a alegria hiperbólica de Maria Felix. Dancemos com Ana Silvina, dona da pista e dama da fotografia sempre à espreita, bem resolvida e pronta pra o que der e vier.

Mais solidário com os seus amigos extraordinários que solitário em aeroportos intermináveis, Ney é o agnóstico que todo bom cristão quer ter por perto, o grande menino barbado apanhador de histórias do mundo. Não há caminho sem paixão e fé, Stanys, Angélica, Eliza e Maria Alzina. Nildete e George, trabalhem com moderação e não esqueçam as origens. Dário e Gilberto, não importa o tempo, não importa se no rio Tejo, nós vamos sempre lembrar das peripécias do Cândido. 

Ritinha, Ana Célia, Celimar, Adilson, Viramy, Carmem, Ana Célia, Silvia, Joertha e Cristina sempre estarão do lado esquerdo do peito. Talvez eu não fosse a mesma pessoa se não tivesse um dia a sorte de sentar no mesmo banco do colégio com Leila, Marta, Gina, Totó, Silvinha e Célia. Talvez eu nem me arriscasse agora nas palavras não houvesse frequentado as aulas de mestre Valdivino. Talvez eu tivesse feito aquele discurso de formatura em 1985 se entre nós já não existisse um orador nato. Quem sabe o desfecho não seria outro? Quem sabe? Adelman, Mauro, Hélida, Silvia Maciel, Liane e Niedja, vocês fazem parte dessa história.

Rosa, não esquece de abrir a porta e acender o globo faiscante do paraíso. As cores são nossas, a casa é tua! Solta o grito, Goreth, e alimenta os teus amigos com folia e ceviche de poesia! A carne é fraca, Marcelo! Chega mais perto, Rogério, nosso querubim sem cachos, o anjo do enquadramento. A vida é um grande risco e carece de fantasia. Patrícia, Luciano e Sergei, quebrem o silêncio e apertem os cintos, o piloto Seba sumiu! Chris, esse avião azul desgovernado um dia pode até cair, mas ainda vai fazer mil piruetas no ar.

Só uma coisa é certa: amigos extraordinários não caem do céu. Porque é lá, num canto qualquer do azul de cima, que eles vão se encontrar casualmente depois da prova final. Pra esse tumulto de afeto dentro da gente. Pra última resenha. E para o que mais vier. Viva o extraordinário sentido da existência! 

domingo, 7 de dezembro de 2014

Maio oito meia (9) - A tribo isolada dos párias

Estudante de Engenharia Mecânica da UEMA, onde também era vice-presidente do DCE, Raimundo Garrone decidiu um dia trocar as aulas de cálculo vetorial no Campus Paulo VI pelas experiências mimeográficas do curso de Comunicação Social da UFMA. Cabeludo, óculos ao estilo Lennon, roupa despojada, Garrone logo fora entronizado na gangorra do movimento estudantil da Universidade Federal do Maranhão – ora altissonante, ora pasmaceira – pelas mãos da elite da militância e, na primeira oportunidade, elegeu-se secretário de cultura do DCE.

O prédio do Pimentão da UFMA era em parte povoado por gente como Garrone, transgressora em questões como sexo e drogas e embalada por boas doses de rock, reggae e poesia. Ali ele estava em casa, vivendo uma ciranda diferente com outros personagens, como Ademar Danilo e Fernando Abreu. Antes de entrar para o curso de Comunicação, em 1985, Ademar frequentou as salas de aula de Direito e Filosofia, empunhou bandeira como presidente de diretório acadêmico (D.A.) e candidato a vice-presidente do DCE na chapa “Guarnicê”, liderada por Francisco Gonçalves. Fernando Abreu também iniciou Direito, foi do diretório acadêmico mas abriu mão de uma promissora carreira jurídica para se entregar à poesia e estudar jornalismo no curso de Comunicação.

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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Ferreira Gullar: “Não entro para a academia; não quero ser exceção nenhuma”



A entrevista abaixo com o poeta maranhense Ferreira Gullar, que hoje à noite toma posse na Academia Brasileira de Letras, foi publicada em dezembro de 1999 na revista Parla, editada pelas jornalistas Flávia Regina e Dadá Coelho. Gullar viera a São Luís para ser homenageado pelo governo do Maranhão como nome de avenida. A rápida passagem ficou marcada como a última visita do poeta à cidade retratada no antológico “Poema sujo”. Ora no saguão do antigo Hotel La Ravardiere [hoje Holliday Inn], ora caminhando no calçadão da Avenida Ferreira Gullar, fiz a entrevista acompanhado pelo inspiradíssimo bom humor – estratégico para quebrar a sisudez do poeta – de Dadá Coelho e pelo olhar atento e sensível do fotografo Márcio Vasconcelos.


Fotos: Márcio Vasconcelos
Produção: Dadá Coelho

Ferreira Gullar é o tipo do cara que, nos primeiros quinze minutos de conversa, você pensa em desistir da entrevista. Ele resiste a se entregar completamente à pauta, responde sem entusiasmo às primeiras perguntas e franze a testa. Mistura de charme de poeta feito e impertinência da idade, talvez. Mas se você insistir um pouco mais, vai perceber que uma hora e meia de bate-papo com o poeta não é o bastante. Gullar fala da infância, dos assombros da morte, da gramática como uma barreira nos primeiros anos de poesia, da música, de vaidades e academia de letras. “A quantidade de maravilhoso que existe no mundo é pouco. É preciso criar o maravilhoso [...]. Os artistas são fabricantes de maravilha”. Leia.

Quem é o Ferreira Gullar?
Eu me considero uma pessoa comum. Mas dizer que é comum parece que não é. Na verdade, sou uma pessoa comum, tenho a minha própria história. Cada pessoa tem a sua própria história. Essa cidade me revelou, ainda garoto, que o mundo é maravilhoso, que nascer aqui é maravilhoso. O que você sabe quando nasce? Nada. Você é um bicho que nasceu e olha a cidade, olha o céu, a manhã, a luz... Então eu vivia deslumbrado com a cidade, com o mundo, que o mundo era isso, era a cidade com os seus ventos, suas árvores, o verde e a luz, o verdadeiro paraíso. Quando descobri que as pessoas morriam fiquei espantado. É uma coisa meio chocante.

A morte ainda lhe causa espanto?
A morte é uma coisa constante na minha poesia. Não que eu viva pensando nisso, mas é para mim e todo mundo um problema fundamental, um problema essencial, é a tua finitude, ou seja, a festa vai acabar. Se o cara ficar pensando nisso, não vive. Não vivo pensando nisso naturalmente, mas de vez em quando, contra a minha vontade, a morte surge de um canto qualquer da cidade, ou na voz de alguém ou em algum momento. Essa lembrança, essa ideia... O livro “Muitas Vozes” trata muito disso e evidentemente quanto mais você vai vivendo, mais próximo você está do fim. Falo isso com um jeito meio mole, mas não encaro assim, não. Apesar de não desejar a morte, sei que é ela inevitável e encaro isso com naturalidade. Um dia vai acontecer. Eu até comento, às vezes, que eu desejo a morte, surpreendo-me desejando-a. É uma coisa estranha. Adoro viver, mas existe essa presença. No livro há, inclusive, estratagemas que invento para escapar, tentando me esconder do problema, que na verdade é um problema sem saída. Mas isso não é a minha preocupação constante. Fico preocupado é com o viver, como todo mundo.

Agora, em outro plano, como é o seu cotidiano?
Atualmente estava fazendo uma tradução das “Mil e uma noites” a pedido do editor e passava parte do dia trabalhando nisso. E sempre tenho alguma conferência ou palestra para fazer. Então vou escalonando o tipo de ocupação que tenho. Uma das coisas que faço é desenhar. Também vou ao supermercado, passeio pela praia. Como moro próximo à praia, de vez em quando largo o que estou fazendo e saio, vou passear na praia, no calçadão ou do lado de cá da avenida. Às vezes, encontro um mendigo que não me conhece, alguns veem na televisão minha cara, outros me cumprimentam, me saúdam. Tem uma espécie de colônia de mendigos na rua Ministro Vieira de Castro. Há uns cinco deitados ali o tempo todo. Eu passei uma vez lá e um deles levantou-se e disse: - Poeta Ferreira Gullar, esporadicamente, leio os seus livros!

O volume de trabalho não provoca ciúmes nas pessoas que estão a sua volta?
A Cláudia [a namorada Cláudia Ahinsa, poeta carioca] mora com a mãe dela e eu moro com o Paulo, meu filho, numa outra casa. Nós adotamos esse sistema de nos encontrarmos quase todo dia. Vou na casa dela ou ela vai na minha. Vamos ao cinema, saímos para jantar. É melhor que ficar permanentemente um grudado no outro. Isso só desgasta a relação. O Ziraldo, quando estava me entrevistando para a revista Palavra, perguntou: - E você e a Cláudia? Cadê a Cláudia? Eu disse: - A Cláudia não mora aqui, não. Mora com a mãe. E ele então falou: - Mas você conseguiu o ideal, cara?!

Muitos casais mais novos não admitem morar em casas separadas.
Mas é que eles estão for fora. Os casais mais novos em geral não entendem muito das coisas. Essa ideia é besteira, bobagem. Também fui jovem, era um babaca... O jovem em geral é babaca. O jovem tem muita vitalidade, muita coisa altamente positiva. Agora, entende pouco das coisas. A vida é que vai dando experiência. O jovem não sabe de nada, o jovem é radical, não entende muito das coisas. Eu também fui jovem, queria tocar fogo em tudo, queria ir pra luta armada...

O senhor quis tocar fogo em tudo?
Eu não. Os jovens queriam. Quando fui jovem era um pouco mais afoito, mas nunca fui de querer tocar fogo. Sempre fui um pouco desconfiado, a realidade é mais complexa do que se pensa. O que faz o cara ser radical é pensar que a realidade é simples. É pensar algo do tipo “vou derrotar a ditadura com luta armada!”.



A gramática foi uma barreira no começo?
Uma vez a professora passou para a minha turma da escola uma redação sobre o Dia do Trabalho. Fiz a redação, mas descobri um caminho diferente para escrevê-la. Como no Dia do Trabalho ninguém trabalha, descrevi os escritórios vazios, as lojas fechadas e então ficou uma coisa que, para a professora, pareceu muito original. Quando foi dar a nota, ela disse na turma que a melhor redação era a do Ribamar, que só não ganhou dez porque havia dois erros de gramática no texto. Fui ver quais eram os erros e comecei a estudar gramática, porque achava que para ser escritor eu tinha que saber gramática. Fiquei dois anos só lendo gramática, até hoje sei o nome dos autores. Acho meio maluco uma pessoa que, de repente, fica só lendo gramática.

O senhor quis ser músico no início da carreira?
Eu era adolescente e tinha que ter um ruma na vida. Como meu pai era comerciante, a alternativa seria seguir a profissão dele. Mas não queria, absolutamente. E quando disse isso, ele sugeriu que eu fizesse um concurso para o Banco do Brasil. Meu pai me levou na agência do Banco do Brasil, aqui em São Luís, onde trabalhava um primo meu. Cheguei lá e vi todo mundo batendo máquina, fiquei horrorizado. Eu falei: - O sol lá fora, uma manhã linda e esses caras aqui trancados? Eu não quero isso de jeito nenhum! Eu não vou fazer concurso. Aí eu pensava: o que eu iria ser na vida. Mais aí vi na revista Vamos Ler, que era vendida aqui numa banca da Praça João Lisboa, uma foto do Vinícius [Vinícius de Moraes], o poeta tocando violão. Eu disse: - Essa é que é a boa profissão, tocando violão, cantando e tal. Vou ficar trabalhando num banco? Lembro bem dessa foto do Vinicius, ele está jovem. Não é que eu quisesse ser compositor, isso não era a minha praia. Mas ser poeta. Eu não tinha ideia clara, mas queria ser poeta, escritor, só não queria entrar naquela de ficar trabalhando como um maluco. Isso eu tenho horror!

A poesia tem muito isso do jovem que vislumbra aquela coisa boa da vida?
Acho que é isso. É um lado de encantamento e também uma coisa com relação à infância, porque no fundo a infância será sempre a idade de ouro, a idade maravilhosa em que você não trabalha, está descobrindo o mundo, a vida tem mais alegrias do que obrigações. Depois de adulto você tem que enfrentar os problemas. No fundo, o poeta, é um cara que não quer trabalhar, não quer assumir que é adulto. Ele quer preservar a criança, quer o encanto, preservar na vida – e ainda que seja na literatura – aquele lado maravilhoso que descobre no começo da vida.

A poesia, como em qualquer manifestação artística, tem o perfume da vaidade? Qual é o seu nível de vaidade?
Vaidoso todo mundo é, não existe pessoa sem vaidade. Os virginianos se caracterizam pela modéstia. A vaidade implica um pouco de burrice, pretensão. Há pessoas muito inteligentes que são extremamente vaidosas. Mas a pessoa mais inteligente que conheci foi o Darci Ribeiro e nunca vi ninguém mais vaidoso que ele. A vaidade é uma bobagem, uma coisa sem cabimento. As pessoas são iguais. O fato de você se tornar conhecido, de você realizar uma coisa bem, é algo que te dá satisfação. Tenho muito prazer, muita alegria de poder fazer a minha poesia, uma coisa que eu acho que eu faço com alguma qualidade, que as pessoas gostam. Agora isso não me faz superior a ninguém.

O senhor cuida da aparência?
Meu cabelo é comprido porque tenho preguiça de cortar, de ir ao barbeiro. Meu cabelo, quando eu cortava normal, como se cortava na época, ficava todo espetado e eu ficava irritado. Se cortar curto fica um troço que nem um porco espinho. Então fui deixando ele crescer e percebi quanto maior ele ficava, mais fácil de pentear era. Agora quero cortar, mas as amigas e a namorada não deixam. Se eu cortar o cabelo a Cláudia me larga. Esses dias está um pouco maior do que eu costumo usar.

Alguns compositores musicaram poemas seus. Mas como foi sua participação em “Borbulhas de amor”?
É, eu traduzi a pedido do Fagner.

O que o senhor achou do resultado?
A tradução ficou legal...

Então era a melodia que não prestava?
Não, não é isso...

E essa história de “dentro de ti um peixe?”
Não, aquilo eu liberei porque...

Era pior?
Eu liberei porque aquilo ali era brabo...Era pior. Agora é interessante o sucesso que aquela música fez.

A música [“Borbulhas de amor”] lhe diz alguma coisa?
A mim, não. Não me diz coisa alguma.

Como é que o senhor entrou nessa história?
O Fagner é meu irmão. Ele me ligou e disse: - Ô, parceiro tenho uma música aí que eu acho que vai fazer sucesso... Eu faço, profissionalmente. Ele me pede, eu faço. Então melhorei, a música era bem mais grossa, mas não podia tirar o negócio do peixe porque tirava o próprio sentindo da música. Mas aquilo é uma coisa de música popular, que não tem importância. É pro pessoal cantar mesmo, não é obra literária. E tenho uma opinião melhor que você sobra a música. Não acho que seja a coisa mais idiota. Acho que tem um certo mau gosto, que é esse negocio do peixe, mas é uma coisa erótica e que o pessoal adorou quando a versão saiu. Com uma semana estava no primeiro lugar. E não ganhei quase nada com aquilo porque Fagner, maluco, mandou traduzir sem autorização do autor. E o cara pediu de volta os direitos autorais. Resultado: uma cagada da braba. Ainda saí no prejuízo.

Há quem não goste de música, como o poeta João Cabral de Melo Neto, que fazia questão de assumir essa posição. É possível alguém rejeitar um música, independentemente do gênero?
Uma vez João Cabral me disse que preferia Ritchie a Beethoven. É claro que na gozação. Mas ele realmente não gostava de música. É porque João era muito intranquilo interiormente, muito inseguro. E ele tinha a necessidade de controlar a emoção. Tanto que a poesia dele é rigidamente estruturada por essa necessidade de controle da confusão interior. Ao contrario do que se pensa, a vida interior do João era de um tumulto muito grande, daí a necessidade de ter a ordem fora para controlar aquilo. A música é uma coisa invasora, a música não se controla, é uma coisa que arrebata, exatamente o que ele não queria. Para ele, a coisa pior era a emoção. Ficar emocionado era a pior coisa para o João.

Chico Buarque musicou o poema “Morte e vida Severina”. O que ele achou?
É, João me disse: – Não gosto daquilo. E completou: - Fui apresentado para esse Chico Buarque e falei assim: - Eu gosto muito do seu pai. Ele me contou isso.

As experimentações estão inundando as artes. Como o senhor avalia as instalações?
Alguma instalações são interessantes, mas isso é uma arte de segunda categoria. A arte efêmera é uma besteira. A arte tem que permanecer, a arte sempre foi isso desde que nasceu. Efêmero é tudo, não precisa fazer arte, caralho! A arte efêmera não é necessária. O que eu quero ver é fazer a arte permanecer, é fazer a Monalisa, que tem cinco séculos. É fazer o poema que fica, a quinta sinfonia, a nona, que as pessoas ouvem, os anos passam e o cara continua apaixonado. Isso que é o difícil de fazer. E enriquece o mundo, porque o homem é parte da natureza e a outra parte dele é cultura. Ele é imaginação, ele é invenção dele mesmo. Então, ele inventou a música, o teatro, o cinema, as artes plásticas para fazer a vida melhor. Para criar o maravilhoso. Porque a quantidade de maravilhoso que existe no mundo é pouco. É preciso criar o maravilhoso. Então, com a sinfonia, você cria uma coisa maravilhosa. Não é búzio que você achou na rua, na beira do rio. Não se acha o maravilhoso a toda hora. A arte cria. Os artistas são fabricantes de maravilha.

O senhor sempre criticou as academias, mas foi homenageado agora pela Academia Maranhense de Letras. Como é essa relação?
É esquisito, porque não sou acadêmico e jamais vou entrar para Academia nenhuma. O Sarney outro dia me ligou: - Gullar, você tem que entrar porque você é o grande poeta. Eu disse que não vou entrar para a Academia de jeito nenhum, sou teimoso e chato, não entro. Sinceramente, não tenho nada contra a Academia, mas não sou acadêmico. A Academia é uma institucionalização, ela tem a função de preservar... Agora, o cara entra pra Academia, depois vai ser enterrado num mausoléu – os imortais ficam enterrados num mausoléu, são exceção. Eu quero ser enterrado como todo mundo, não quero exceção nenhuma, o meu barato é ser igual às pessoas, o barato é ser igual e fazer poesia. Se eu puder fazer uma poesia maravilhosa e ser o moleque periquito, isso é que é o barato. Agora, se sou um príncipe encantado e faço poesia, é uma merda! A poesia é feita por gente comum, é nossa, pertence a todos nós. Não sou escola de samba, caralho!

E o poeta ficou impregnado na cidade, agora em forma de avenida?
Aquela avenida [Avenida Ferreira Gullar, em São Luís] pra mim é uma coisa inacreditável, porque posso imaginar que estou eternizado – eternizado é um pouco forte. Mas agora estou na cidade, pertenço à cidade, sou parte da cidade, virei avenida, virei pedra, virei nome. É maravilhoso porque sou desta cidade, sou filho desta cidade, me identifico com ela. Eu disse para Roseana [então governadora Roseana Sarney] que nenhum presente mais maravilhoso poderiam ter me dado. Não há outra maneira de você permanecer a não ser essa, de você ser alguma parte da cidade. É uma grande alegria, embora seja estranho porque ao mesmo tempo ando de chinelo pela Rua Duvivier, [no bairro de Copacabana] no Rio, e fico pensando: - Sou avenida lá em São Luís e estou andando aqui nessa rua de chinelo? É uma coisa meio estranha, mas a vida é assim mesmo.