terça-feira, 13 de maio de 2014

A cidade era feita de poesia



Há muito de São Luís na poesia de José Chagas. Mas há muito mais de Chagas impregnado na cidade que o recebeu de janelas e portas abertas. O poeta tingiu ruas, becos e mirantes com sua pena ao mesmo tempo generosa e ácida, e coloriu o imaginário de leitores com uma obra densa e definitiva. Impossível avistar o topo da maré-memória do poeta sem o livre-navegar na prosa quase cantada.

José Chagas, poeta e amigo, nos deixa hoje caídos num imenso fosso de saudade.

Abaixo, transcrevo fragmentos do livro “Chagas em pessoa” (Edições FUNC, 2006), de minha autoria e do jornalista Manoel Santos Neto.



Sandália de couro, manga de camisa e uma calça de tergal cinza. Os óculos não escondem o olhar profundo, fugidio. Nem o cabelo grisalho reflete a cumplicidade entre o ombro ligeiramente encurvado e um cheiro de alfazema de quem mal se refez da sesta. Com o irmão Izídio e a sobrinha Deusana, José Francisco das Chagas mora numa casa simples.

Da janela do mirante, ele derrama sobre a rua a terna melodia do instrumento. Na biblioteca, em meio ao cheiro de mofo de livros espalhados na estante e outros tantos amontoados sobre a mesa de pau d’arco, percebe-se a intimidade de Chagas com a literatura sem fronteiras. Lê Susan Sontag com a mesma disciplina com que devora Saramago.

Ocupa-se do ofício da leitura e da escrita, como se as duas fossem uma coisa só. Sem o capricho da inspiração. E sem horário de expediente. Chagas nasceu canhoto e ainda cedo, na escola, foi obrigado a escrever a seco com a mão direita. “Continuei a fazer tudo na vida com a mão esquerda, exceto escrever. Chego a desconfiar que não só graficamente, mas até mentalmente escrevo de maneira torta”.

Chagas ilhou-se na literatura dentro da própria casa, desde ainda menino na Paraíba. Na travessia das léguas tiranas do Nordeste, a família do poeta continua em busca da chuva. À procura do colégio dos ventos que o tempo não apagou. Chagas cultiva o arroz do sonho. Os amigos ficaram na lembrança do arrozal. Antônio Jovino, Sólon, Zé Alencar, Socorro e Lina fincaram pé em Santana dos Garrotes. João de Maria Anselmo, vizinho, Chagas o perdeu de vista no caminho. “Mas, pobre, seja agora ele o que for/ Faço-lhe este soneto onde adivinho/ Que mais do que eu João é merecedor”.

São histórias que vão surgindo ao sabor da prosa e da poesia. De cada passagem de sua vida, Chagas tira um verso da manga e o recita com prazer. É quase uma liturgia. É nesse caminho que o poeta vai durando e dourando a vida.
Nada faz o poeta subir ao olimpo das vaidades. Mantém com inteligência uma simplicidade que faz dele um personagem incomum.

Dali da Estrada da Vitória o poeta vai nos conduzindo ao passado, até chegar em algum lugar da cidade onde ele enfim se reconhece. A rua da Palma é o começo de tudo. A primeira morada. A rua é para ele tão familiar como a própria palma da mão. Do meio da rua ele aponta para o tempo cravado no casarão de número 117. Uma quarta-feira de 1948. Da rua da Palma vai cruzando a pé o centro histórico. Não há beco que não revele um capítulo de glória e desencanto.

Ruas da Manga, Regente Bráulio, da Estrela e 14 de Julho. Em cada uma delas há um pedaço vivo de Chagas. Depois da pausa para uma água de coco na praça da Praia Grande, o poeta nos leva ao Desterro. Ali senta-se num banco da praça em frente à igreja e, com o pôr do sol à espreita, lê compulsivamente poemas do livro Os azulejos do tempo.

Nascido no ano de 1924, em Piancó (área hoje pertencente ao município de Santana dos Garrotes), na Paraíba, numa família de lavradores, Chagas é o mais antigo cronista vivo de São Luís, mas prefere se definir como “um violeiro sem viola”. Ele revela que é viciado em escrever: “O tempo inteiro eu vivo fazendo versos. Eu sempre faço versos. Eu tenho até mais facilidade de fazer versos do que de escrever em prosa”.

A lavra mais densa na obra de José Chagas é o primoroso retrato que, ao longo de sua carreira literária, ele construiu da cidade de São Luís. O fascínio que a cidade dos azulejos passou a exercer sobre o poeta levou-o a compor um sem-número de crônicas e poemas, celebrando ruas, telhados, pontes, moças, ondas, marés, silêncios, sobradões e bem-te-vis da velha capital maranhense. Hoje, aposentado, o poeta leva uma vida mansa, rodeado de livros.

O primeiro contato de Chagas foi com a literatura de cordel, a que mais próxima estava do pai dele. Sobre a influência definitiva de seu Francisco Firmo na poesia de Chagas há uma explicação em soneto: “Devo a meu pai a alegria de saber/ que ele levou escondido de mim/ o meu primeiro soneto/ para mostrar ao padre da freguesia / que era escritor e poeta./ A opinião do vigário não me impressionou (aliás bem pouco favorável)/ mas o gesto do meu pai me deu a certeza/ de que um poeta na família não fazia mal/ e seria bem recebido/ ainda que fosse um poeta pequeno/ porque também nossa família/ não tinha desses luxos”.

Foi na árdua tarefa de cavar a terra e o sonho que Chagas ficou no meio do caminho dos estudos. Mas não guarda arrependimentos. A vida, segundo ele, tem sido um eterno aprendizado. Fez com paciência a travessia da lavoura verde para a lavoura azul. E a lavoura azul estava a muitas léguas da Paraíba.

SONETO 13

MUITO CEDO plantei o arroz real,
e o arroz do sonho era o que mais crescia;
também ao capinar o milharal,
mais me ocupava em minha fantasia,
pois da lavra não vinha por igual
o que eu da terra e da ilusão colhida,
e a esperança do verde, por sinal,
murchava no verão, como a alegria;
só o plantio da alma é que era tal
que quanto menos chuva mais floria,
e isso era bom, porquanto é natural
nem só de pão a boca ser vazia,
e se pouco era o pão e pouco o sal,
muito era o doce bem da poesia.

Quando desembarcou em São Luís, José Chagas “espiritualmente já era um pouco maranhense”, porque quando estudava em João Pessoa, a influência cultural do Maranhão, por lá e por outros cantos do Brasil, era muito forte. Os livros didáticos da época continham textos de autores maranhenses, como Gonçalves Dias, Coelho Neto, Humberto de Campos, Viriato Corrêa, Raimundo Correia, João Lisboa, Aluísio e Arthur Azevedo e tantos outros. “Eu já conhecia tanto a literatura maranhense, de um certo modo, que quando cheguei a São Luís e comecei a me entrosar com a intelectualidade da terra, passei a descobrir que eu tinha lido mais autores maranhenses do que os próprios intelectuais daqui”.

Ainda hoje, além de “brincar com as palavras”, Chagas gosta de dedicar-se aos seus prazeres simples: percorrer as ruas de São Luís, observando as pessoas e detendo-se a contemplar casarões; ir a bancas de revistas e às reuniões da Academia Maranhense de Letras, onde desde o ano de 1975 ocupa a Cadeira nº 28. Aliás, no seu discurso de posse na Academia, Chagas disse que, ao chegar a São Luís, já trazia um caderno com poesias feitas na Paraíba. “Como nordestino que vem puxando uma cachorra, pois vim puxando a cachorra, que era a minha poesia”.

Juntou-se, num primeiro momento, à velha guarda da poesia maranhense. Ao lado de nomes consagrados da época, como Corrêa de Araújo, Fernando Viana, Assis Garrido, Manuel Sobrinho, Raul de Freitas e Clodoaldo Cardoso, Chagas foi espalhando pela cidade o seu arroz do sonho. O poeta também juntou-se à nova safra daqueles anos inaugurais. Bandeira Tribuzi, que havia chegado de Portugal, trazia a bordo o farol incandescente da Europa para uma província ainda refratária ao Modernismo. Ao lado de Tribuzi estavam Lago Burnett, Ferreira Gullar, José Sarney, Macedo Neto, Manuel Lopes, Carlos Madeira e muitos outros.

Em todo o percurso de sua vida literária, José Chagas nunca deixou de se reportar às dificuldades do povo nordestino, que ano após ano enfrenta a seca e a aridez do sertão. Retratando esses dramas, ele compôs inúmeros poemas que refletem a força telúrica que sempre serviu para inspirar sua obra. Salta aos olhos, logo no seu primeiro livro – Canção da expectativa -, a preocupação com o flagelo da fome. “Não vou dizer que passei realmente fome. Sou homem da terra da fome, vi a fome de perto e a ameaça dela em torno da nossa família”.

No livro autobiográfico Colégio do Vento, Chagas apresenta 40 sonetos retratando suas raízes e o cenário da terra natal, com os lugares, pessoas e bichos com os quais conviveu na paisagem de seu torrão paraibano. Mas o “fascínio louco” que São Luís passou a exercer sobre o poeta levou-o a compor um vastíssimo conjunto de crônicas e poemas, celebrando a simplicidade e complexidade da velha capital maranhense.

Graças à cumplicidade de um amigo fraterno, Antônio Justa, o jovem José Chagas acabou sendo funcionário da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Depois, exerceu diversos cargos em comissão na administração pública.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Felizes anos velhos

Texto originalmente publicado no jornal O Estado do Maranhão, no dia 25 de abril de 1998



"Tchau, mãe. Se cuida, tá? Thaís e Ana, vocês são belas mulheres; Cassy, continue tocando, que você chega lá. Virgínia, pena você não ter me amado como eu te amei. Veroca, Eliana, Nalu e Big, juízo, hein? Gorda, você é um cara incrível. Ricardo, meu irmãozinho, o cara que mais me conhece. Nana, querida, não fique com raiva de mim, eu tentei gostar de você, mas não dava, eu tava muito chato. Marcinha, gracinha, você é uma fofa. Fabião, vá à luta, meu chapa, Mariúsa, mãezinha, valeu a força que você me deu. Gureti, vê se fica menos briguenta. Maurão, seu veado, não beba tanto. Bundão, querido, cuida bem delas, tá? Zequinha, seu louco, largue um pouco os livros, bata mais punheta. Celso, lindo, você é duca. Nélson e Olaf, cuidem bem da chácara. Betão, Rubão, Max, lembrem de minhas posições. Laurinha, fofa, emagreça um pouquinho. Milu, você tá me devendo uma transa, hein? Tchau, pessoal, feliz ano novo pra vocês".

Foi assim que fui apresentado ao livro Feliz Ano Velho, de um cara chamado Marcelo Rubens Paiva. Cândido, um grande amigo dos tempos de escola, mal tinha começado a ler a obra, andava eufórico e fez questão de me mostrar esse trecho no meio de uma sonolenta aula de matemática. Ele sabia que aquilo iria mexer com minha curiosidade. E mexeu mesmo, tipo um soco! "Cara, é a maior viagem. Olha só a linguagem...", me disse ele, com ar de devoção. Foi assim! No outro dia corri até a livraria JC, no Edifício Caiçara, e comprei o livro. E terminamos a leitura quase ao mesmo tempo.

O ano era 1984. Feliz Ano Velho havia sido lançado em 1982 e caiu em nossas mãos no segundo ano científico, em meio às turbulências dos 15 ou 16 anos de idade. Devorei o livro em pouquíssimo tempo, reli, fiz umas anotações ao lado de cada trecho que achava interessante e passei adiante. As coisas ali no Dom Bosco – pelo menos entre os amigos de sala de aula e corredor – aconteciam mais ou menos desse jeito: se rolava algo legal, todo mundo experimentava. Assim, acho que o meu exemplar de Feliz Ano Velho foi lido por Leila, Gina, Célia, Ana, George, Cláudia, Maria. Talvez Marta, Ana Rosa, Sílvia, Gil... Já não lembro bem.

Lembro apenas que até hoje o livro não chegou de volta às minhas mãos. Pude vê-lo certa vez escondido dentro de uma apostila de Botânica de alguém da turma 203. Notei que aos meus rascunhos juntaram-se vários delírios daquela geração. Infinitas confissões, distrações, abobrinhas, desencantos.

No dia a dia da escola líamos Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, O Mulato, O Guarani, Éramos seis, A Pata da Gazela... Era batata: cairiam questões nas provas bimestrais de literatura e o mestre Valdivino não hesitaria em pedir uma resenha de cada livro. Muitas vezes limitávamos a ler as resenhas que ali surgiam já prontinhas, o que não exigia muito esforço. Não que os livros de Machado de Assis, José de Alencar, Aluísio de Azevedo (e outros tantos medalhões da literatura) fossem desinteressantes. Pelo contrário. Hoje, relendo alguns desses clássicos, fica a certeza de que estávamos muito bem servidos. Mas havia o fato da imposição. E isso, às vezes, mexia como uma espoleta na alma de adolescentes inconformados a pretexto de tudo.

Pela contramão, numa espécie de mercado negro do nosso conhecimento pueril, Feliz Ano Velho surgia como um alento. Espontâneo. Não haveria provas ou arguição. Ninguém te pediria uma resenha ou análise de cinco linhas num almaço sequer. E se exigissem, as páginas rabiscadas e comentadas exibiam a cumplicidade de cada leitor com a história de Marcelo Rubens Paiva.

O livro expunha o nosso dialeto. A história? Um jovem buscando superar com doses de humor e lirismo alguns traumas que marcaram sua vida, como o desaparecimento do pai (o deputado Rubens Paiva), em janeiro de 1971, e o acidente que o deixou paraplégico aos 20 anos de idade, em dezembro de 1980. A trama é enriquecida pelo carisma do narrador que, ao tocar em determinados assuntos, transforma tabus da época em banalidade. Sexo sem frescura ou meias palavras, os primeiros tragos e a música como fundamento. Prato cheio para cativar leitores de todas as tendências, dos mais exigentes aos eventuais – como nós que, sentados no pátio da escola, líamos desarmados.

Havia um tempo em que livros eram compartilhados como se fossem sorvetes de tapioca, na porta da lanchonete Stop, na Rua do Passeio. O tempo em que li Feliz Ano Velho. Tempo em que Stairway to heaven do Led Zeppelin embalava os nossos sonhos. A buzina do Chacrinha, os filmes Bete Balanço e Menino do Rio, Flávio Cavalcante, o Thriller de Michael Jackson, a explosão do rock nacional, entre outras coisas, formavam o cenário do romantismo adolescente.

Feliz Ano Velho esteve por diversas vezes na lista dos livros mais vendidos, ganhou prêmios importantes, como o Jabuti e Moinho Santisfa, e chegou a ser traduzido para vários idiomas. Foi adaptado, ainda na década de 1980, para teatro e cinema. Ao completar 15 anos, no final de 1997, "Feliz Ano Velho" ganhou uma edição especial, ilustrada com fotos de personagens do livro e de alguns momentos que marcaram a carreira do autor.

Cândido, o cara que me apresentou a Marcelo Rubens Paiva, nasceu em 1968 (tinha de ser 1968!) e era uma dessas cabeças iluminadas que a gente tem o prazer de chamar de amigo. Conheci, através dele, um pouco do que estava acontecendo lá fora, o valor da amizade e aprendi a amar os Beatles, Adelino Nascimento, a estética do Cinema Novo e os Rolling Stones. Em 1993, pouco tempo depois de concluir o curso de Medicina, Cândido foi morar com os anjos e deixou uma baita saudade.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O violão que nos representa

(texto de apresentação do livro “João Pedro Borges – violonista por excelência”)



Com a publicação de “João Pedro Borges – violonista por excelência”, do escritor Wilson Marques, a Clara Editora inicia o projeto Perfis Maranhenses, uma despretensiosa coleção de histórias sobre personagens que, por diferentes meios e maneiras, fizeram ou continuam fazendo do Maranhão um estado melhor. Não um estado melhor que outros - nem mais bonito ou de histórias mais gloriosas. Mas um Maranhão melhor do que ele realmente é notado.

O melhor do Maranhão não está no seu venturoso passado econômico, mas na sua gente, nos seus personagens de ontem e de hoje. São os seus filhos ilustres e anônimos. São nomes como Ribamar, Maria, Teresa, Raimundo, Pedro, José ou João. São expressões como Gonçalves Dias, Sousândrade, Catulo da Paixão Cearense, Lago Burnett, Celso Antônio, Ferreira Gullar, Floriano Teixeira, Turíbio Santos, João do Vale, Nauro Machado, Chico Maranhão, Coxinho, Dona Teté, Alcione, Querubina, Terezinha Jansen, Mestre Felipe, Lenoca, Humberto do Maracanã e tantas outras. Essa história de mais de quatrocentos anos é feita de pessoas simples e cidadãos notáveis que se destacaram em suas áreas de atuação.

A coleção Perfis Maranhenses não é uma homenagem ao Maranhão, mas a homens e mulheres do Maranhão representados aqui por gente como o músico João Pedro Borges, o Sinhô, e outros expoentes nas artes, no esporte, na cultura popular, na economia, na religião etc. O primeiro título é uma reverência ao maranhense que conquistou um lugar de destaque entre os maiores violonistas do Brasil, com passagens por grandes palcos internacionais, como o Lincoln Center, em Nova York.

Como Sinhô, há muitos personagens do Maranhão inseridos no fecundo contexto histórico que compreende a segunda metade do século 20 e os primeiros anos deste século 21. Nomes que só caberiam em volumosos cadernos ou enciclopédias de temas maranhenses, como fizera César Augusto Marques no seu “Dicionário Histórico-Geográfico da Província do Maranhão”. A coleção Perfis Maranhenses, no entanto, é um breve recorte do protagonismo maranhense, sem formalismos ou compromissos com teses acadêmicas, forjado em narrativas que podem fluir tanto do ensaio como da reportagem ou de uma resenha.

Perfis maranhenses é um leve memorial de consulta, um projeto de sobrevoo com o requinte da pesquisa necessária, objetiva. Com esta obra inaugural – e outras que ainda virão -, o leitor chegará à última página de “João Pedro Borges – violonista por excelência” com o sentimento de que o Maranhão é de fato muito maior e melhor do que aparenta. O leitor estará convencido, afinal, que João Pedro Borges nos representa.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Três noites não dormidas em Ouro Preto

Por Eduardo Júlio

Faz 20 anos. O ano, lógico, era 1993. Tempo em que nós ainda bem jovens desfrutávamos de certo alívio pela retirada, com certa ajuda nossa, de Fernando Collor, da direção do país, no ano anterior. Passada a euforia, estávamos tranquilos numa tarde na UFMA, quando ouvimos alguém anunciar: “Vai acontecer o Festival de Cultura e Arte da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ouro Preto. Um ônibus vai sair da UEMA e eles liberaram duas vagas para nós”. Pensei eufórico instantaneamente: “Opa! Uma vaga tem que ser minha”.



Antes que alguém questione o que estudantes de Veterinária, Agronomia e Engenharia Civil da UEMA fariam num encontro de arte da UNE, esclareço: naquele tempo o estudante da universidade estadual e militante do PCdoB, Stephano Nunes - atualmente empresário - era vice-presidente da UNE. Daí, a razão de um ônibus de lá partir para um encontro, digamos, lúdico, em Minas Gerais.

Já tinha conhecido Ouro Preto, de forma rápida, no ano anterior, quando participei do Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação (Enecom), ocorrido em Belo Horizonte. Não sei exatamente a razão do meu encantamento pela cidade colonial mineira. Talvez me agrade a beleza da arquitetura, com casarões e ruas de pedra tristes, calmas e saudosas. Magia que também existe no Centro Histórico de São Luís e nos de outras cidades brasileiras.

Mas Ouro Preto tem uma geografia muito singular, uma aura suntuosa, em razão de estar situada entre montanhas. À noite, fica tomada pela neblina. Se não me engano, é a segunda cidade mais alta de Minas.

Em 1993, a chapa Contraponto venceu as eleições para o DCE da UFMA. Os meus amigos Elício Pacífico, que então cursava Economia (depois se formou em Letras), era diretor de Cultura da entidade, enquanto o estudante de Direito Jorge Moreno presidia o diretório. Por isso, teoricamente, as duas únicas vagas da Federal eram deles. Mas a sorte iria se voltar para mim.

Dois dias antes da viagem, eu estava batendo papo no corredor do Pimentão (como sempre fazíamos nos intervalos ou não das aulas), quando Jorge Moreno passou caminhando devagar, divagando. Sem grandes esperanças, aproveitei para abordá-lo sobre o encontro: “Você vai para Ouro Preto?”. Ele prontamente respondeu; “Não vou. Fique com a minha vaga. Vá amanhã na UEMA e inscreva-se. Corra, que o prazo vai encerrar. Dei literalmente pulos de alegria e até hoje sou grato pela gentileza de Jorge Moreno.

Mas a jornada para Ouro Preto se configuraria numa verdadeira aventura cheia de lances legais desde a largada. Pra começo de conversa, no dia da viagem, os servidores da UEMA, apoiados pelos estudantes, resolveram deflagrar greve. Então, estávamos todos na praça Deodoro, por volta das 19h, hora marcada para a partida, mas o ônibus nada de aparecer. E haja espera. Só foi chegar às 23h, depois que vários pais se mobilizaram para negociar com o reitor e buscar o motorista em casa, se não me engano, na Cidade Operária.

Nesse intervalo, dois estudantes da UFMA, Marcio Jardim e Iroan Bezerra, que passavam pela Deodoro, vindos da universidade, avistaram o burburinho e resolveram integrar a caravana com a roupa do corpo e livros na mochila. Iroan ainda deu uma passada em sua residência para pegar alguns pertences, afinal, ele morava bem pertinho da Deodoro, na famosa Vila Inah Rêgo. Márcio Jardim, que morava bem longe do Centro, nem cogitou em passar em casa. Ficou por lá mesmo e, quando o ônibus chegou, foi um dos primeiros a escolher o assento, cheio de moral e entusiasmo.

Portanto, a UFMA ficou um pouco mais representada na viagem.

Um detalhe: Iroan era famoso pela capacidade de suportar baixas temperaturas com pouca roupa. Uma lenda universitária dizia que num encontro em Curitiba, realizado no final dos anos 80, ele teria enfrentado, numa boa, uma temperatura de 4ºC à noite, só de camiseta. Em Ouro Preto, iríamos, de fato, comprovar a fama do rapaz. Iroan repetiria a performance, andando tranquilamente pelas ladeiras da cidade, debaixo de um frio que fazia encolher a alma, vestindo somente uma camiseta regata, daquelas que se usa na praia.

O ônibus partiu e, se não estou enganado, deu algumas voltas pelo Maranhão, antes de seguir para Minas, catando estudantes da UEMA no interior. Num dos municípios, subiu Fábio Kerouac, um aluno de Letras da cidade de Caxias, famoso pelo apelido que reverenciava ou referenciava o escritor norte-americano da geração beat, Jack Kerouac. Há quem diga que este foi o único encontro de Fábio Kerouac com Eduardo Beat, como me chamavam no passado. Fabio Kerouac, dizem, mora hoje na Alemanha, o país.

Fábio, além de ter proporcionado um pouco de irreverência ao ônibus, trouxe várias boas fitas cassetes e fomos ouvindo uma trilha sonora que incluía o disco “Misplaced Childhood”, do Marillion, e um da Sinead O'Connor em que ela canta standards de jazz. Foi lindo apreciar os campos verdes de Goiás e as montanhas de Minas ao som do rock progressivo do Marillion. Não esqueço também a chegada ao Planalto Central, em pleno pôr-do-sol, seguido de lua cheia, curtindo o piano etéreo de Keith Jarrett, no “Köln Concert”, cuja fita levei na mochila.

A viagem de ida somada com a de volta durou seis dias, porque o motorista sabiamente não dirigiu à noite. Encostava num posto de gasolina qualquer e seguia pela manhã, mesmo com o protesto dos passageiros, que não viam a hora de chegar. Portanto, passamos dois terços da viagem na estrada.

Durante todo o festival, que durou três dias, eu só dormi cinco horas e, justamente, na primeira noite. Quando não estávamos em bares, andávamos, subindo e descendo as ladeiras da cidade, acompanhados de amigos que fizemos no encontro e que nunca mais encontramos.

No segundo dia, por exemplo, amanheci, sob o frio, num gramado próximo a uma igreja, curtindo uma vista panorâmica. Foi a forma que encontrei de aproveitar o máximo de tempo em Ouro Preto. O sono acumulado tentei compensar na volta dentro do ônibus.

A delegação do Maranhão ficou hospedada na famosa república Aquarius - fundada em 1969 em plena efervescência do movimento hippie - que, dizem, é a mais antiga de Ouro Preto. E, ao contrário do que podem suscitar as más línguas, estas casas são bastante organizadas, com normas rígidas de convivência. Por mais de uma vez, estudantes internos do local chamaram a atenção da gente, reclamando dos exageros cometidos pela delegação maranhense. Inclusive, quando um rapaz acendeu um cigarro de maconha na hora errada. Pelo menos, na época era assim.



Em frente à república, na famosa Rua Direita, encontramos um barzinho que vendia somente Kaiser. Na época, essa cerveja era uma novidade e achamos uma delícia. Daí, decidimos fazer daquele bar o nosso ponto de encontro. Eu, Elício e o estudante da UEMA Joaquim, que não me recordo o sobrenome, e que conhecia de vista de longas datas, passamos uma boa parte do tempo naquele boteco. Assim, tomávamos café da manhã por lá, bebendo Kaiser. Pode? Ok, estávamos todos com pouco mais de 20 anos, ou seja, não tínhamos paladar apurado e sequer conhecíamos cerveja de verdade.

Enquanto bebíamos, as oficinas agitavam o encontro. A mais disputada de longe era a de somaterapia do psiquiatra e escritor Roberto Freire (1927-2008). A prática criada pelo autor de “Ame e dê Vexame”, que esteve por duas vezes em São Luís, atraía a juventude em razão do caráter libertário das vivências, com lindas garotas e rapazes alternativos exercitando a libido e a afetividade.

À noite, Roberto Freire era facilmente visto rodeado de belas jovens e discípulos em pizzarias e restaurantes. Naquela altura, eu tinha sido um leitor assíduo dele, mas tinha me decepcionado com o terapeuta, depois de uma resposta displicente dada a uma pergunta feita por Félix Alberto, no ano anterior, quando o escritor tinha passado por São Luís. Toda a admiração que tinha por ele acabou instantaneamente. Resultado: no dia seguinte, vendi no sebo do Poeme-se todos os livros de sua autoria que eu tinha lido.

Mas em 1999 ou 2000, não recordo exatamente o ano, Roberto Freire passou por São Luís novamente e eu fiz as pazes com ele ao entrevistá-lo de novo, lá no extinto restaurante Xique-Xique, que ficava próximo ao retorno do São Francisco, onde hoje resta um terreno baldio. Lembro que foi uma tarde bastante agradável.

SANFONA

O Festival de Cultura e Arte da UNE foi substituído posteriormente pela Bienal da UNE, que não sei se ainda existe. Em 1993, a programação cultural foi bastante rica, principalmente a musical. A memória me escapa um pouco, mas lembro que as três noites foram divididas por temas. Na sexta-feira, tocaram os melhores músicos de acordeon do país. Subiram ao palco da Praça Tiradentes, Renato Borghethi, Dominguinhos (1941-2013), Oswaldinho do Acordeon e Sivuca (1930-2006), acompanhados por feras como o violista Heraldo do Monte e o guitarrista Arismar do Espírito Santo. De todos, o que mais me encantou foi Dominguinhos, com uma performance arrebatadora.

O segundo dia foi dedicado ao rock e teve na abertura a banda brasiliense Os Cachorros das Cachorras, que executou uma engraçadíssima versão de “Black Dog”, do Led Zeppelin: “Ei mãe, me dê um boi zebu/ que é pra ele cagar e eu catar cogu/ ei mãe, eu já catei cogu/ agora eu tô curtindo esse visu”. Deu para sacar?

Mas a grande atração da noite foi a banda mineira Virna Lisi. Antes da entrada em cena do mangue beat pernambucano, o grupo era uma das promessas do rock nacional dos anos 90, misturando guitarras distorcidas com células de samba. O show da Virna Lisi tinha peso e uma energia e tanto, mas a banda não atingiu o estrelato e hoje é lembrada por poucos.

O último dia foi dedicado aos sons percussivos. A atração principal foi o Olodum, mas já era hora de voltar.

LEMINSKI

A poesia também teve um espaço especial no evento. Logo que chegamos, tinha sido montado um imenso varal com poemas na Praça Tiradentes. E eu aproveitei para pendurar algumas folhas com textos de minha autoria.

No ano anterior, a brasiliense tinha lançado o livro póstumo de Paulo Leminski, “La Vie en Close”, repleto de poemas memoráveis. Lembro de ter visto, no palco, um garoto magro, vestido com uma camiseta que tinha a imagem de Maiakóvski estampada. Ele recitou alguns poemas do livro de Leminski, incluindo "Lápide 1- Epitáfio para o Corpo", emocionando a plateia: aqui jaz um grande poeta/ nada deixou escrito/ este silêncio, acredito/ são suas obras completas. "Que a alma de Leminski esteja com vocês", disse o rapaz. Jamais esquecerei dessa passagem.

CONGELADOS

Para completar a viagem, ainda iríamos passar o maior perrengue morrendo de frio no pátio da rodoviária, à espera do ônibus da nossa delegação. A questão foi a seguinte: a volta estava marcada para as 21h do domingo, mas o motorista dormiu e só foi acordar por volta da meia-noite, deixando toda a delegação ao relento, congelando os ossos e a alma. Foram quase quatro horas de espera. Nenhum agasalho foi suficiente.

Quem conhece Ouro Preto, sabe que carros pesados, como ônibus e caminhões, não costumam descer. Estacionam no ponto mais alto e mais frio da cidade. E foi assim que terminou. Quando acordei, já passávamos por Goiás.

Foi uma viagem como tantas outras que fizemos no período, mas guardo com zelo a sua memória, como quem protege um pequeno objeto de valor afetivo numa caixa.

(imagens do arquivo pessoal de Eduardo Júlio)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Maio oito meia (7) - Era um filme de Godard

Primeiro ano da Nova República. O País vivia o transe total do Plano Cruzado e avistava com certa desconfiança o futuro da economia. O governo do então presidente José Sarney era de incertezas, apesar da lua de mel do congelamento de preços. Líquida e certa mesmo só a fé na conquista do tetra campeonato de futebol no México. Sarney, bombardeado noite e dia pelo PMDB de Ulysses Guimarães e acossado pelas instituições da República, experimentava os primeiros dissabores do cargo.

Pressionado pela Igreja Católica, e contrariando o que havia dito o ministro Lyra em nome da abertura política, o presidente Sarney decidira, em fevereiro de 1986, proibir a exibição pública no Brasil do filme “Je vous salue, Marie” (França, 1985), do cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard. A mesma estética provocadora, às vezes anárquica, usada por Godard em outros filmes que o consagraram como um dos maiores cineastas da segunda metade do século 20 estava presente no longa-metragem que expunha uma Virgem Maria de carne e osso.

Leia mais em maiooitomeia.com.br.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O Maranhão com brilho



“Uma estreia com direção certeira”. Com esse título, o crítico de cinema Daniel Shenker faz uma avaliação positiva do longa-metragem “O exercício do caos”, do maranhense Frederico Machado, no caderno Rio Show, do Globo, edição de hoje. Segundo Shenker, Frederico demonstra domínio das ferramentas cinematográficas, com bem construídas passagens sem fala e expressiva fotografia.

De acordo com a crítica, “O exercício do caos” representa o Maranhão com brilho. “É uma iniciativa de pequeno porte que presta uma importante contribuição ao atual panorama do cinema brasileiro”, analisa Shenker, que recomenda o filme com aplauso do famoso Bonequinho do Globo.

“O exercício do caos” estreia hoje nos cinemas do Rio. Em São Luís, o filme está em cartaz no Cine Lume, Cine Praia Grande e no Kinoplex Shopping da Ilha.

O longa conta a história de um pai autoritário que vive com suas três filhas adolescentes em uma fazenda isolada no interior do Maranhão. As meninas sofrem com a ausência da mãe, supostamente desaparecida, e ao mesmo tempo precisam lidar com a exploração de um capataz, que se aproveita da sua inocência e fragilidade.

Além da direção geral, Frederico Machado assina o roteiro e a fotografia do filme. No elenco estão Auro Juriciê, Elza Gonçalves, Di Ramalho e Thalyta Sousa.

Os 70 anos de Turíbio Santos



Aos 70 anos, o violonista maranhense Turíbio Santos será homenageado hoje à noite dentro da programação do Festival Villa-Lobos, ao lado da Orquestra Sinfônica Brasileira. O concerto está marcado para as 20h no Espaço Tom Jobim.

Reconhecido como um dos maiores violonistas brasileiros, Turíbio Santos está preparando a sua biografia, que deve ser lançada em março de 2014 (provavelmente no dia 7, data em que o músico de fato completa os 70 anos).

As informações sobre a homenagem a Turíbio Santos estão no Segundo Caderno do jornal “O Globo” de hoje (veja o link).

A propósito, Turíbio assina o prefácio do livro “João Pedro Borges, violonista por excelência”, biografia do também maranhense Sinhô, de autoria de Wilson Marques. O livro é o primeiro da série Perfis Maranhenses, da Clara Editora.