Primeiro ano da Nova República. O País vivia o transe total do Plano Cruzado e avistava com certa desconfiança o futuro da economia. O governo do então presidente José Sarney era de incertezas, apesar da lua de mel do congelamento de preços. Líquida e certa mesmo só a fé na conquista do tetra campeonato de futebol no México. Sarney, bombardeado noite e dia pelo PMDB de Ulysses Guimarães e acossado pelas instituições da República, experimentava os primeiros dissabores do cargo.
Pressionado pela Igreja Católica, e contrariando o que havia dito o ministro Lyra em nome da abertura política, o presidente Sarney decidira, em fevereiro de 1986, proibir a exibição pública no Brasil do filme “Je vous salue, Marie” (França, 1985), do cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard. A mesma estética provocadora, às vezes anárquica, usada por Godard em outros filmes que o consagraram como um dos maiores cineastas da segunda metade do século 20 estava presente no longa-metragem que expunha uma Virgem Maria de carne e osso.
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segunda-feira, 18 de novembro de 2013
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
O Maranhão com brilho

“Uma estreia com direção certeira”. Com esse título, o crítico de cinema Daniel Shenker faz uma avaliação positiva do longa-metragem “O exercício do caos”, do maranhense Frederico Machado, no caderno Rio Show, do Globo, edição de hoje. Segundo Shenker, Frederico demonstra domínio das ferramentas cinematográficas, com bem construídas passagens sem fala e expressiva fotografia.
De acordo com a crítica, “O exercício do caos” representa o Maranhão com brilho. “É uma iniciativa de pequeno porte que presta uma importante contribuição ao atual panorama do cinema brasileiro”, analisa Shenker, que recomenda o filme com aplauso do famoso Bonequinho do Globo.
“O exercício do caos” estreia hoje nos cinemas do Rio. Em São Luís, o filme está em cartaz no Cine Lume, Cine Praia Grande e no Kinoplex Shopping da Ilha.
O longa conta a história de um pai autoritário que vive com suas três filhas adolescentes em uma fazenda isolada no interior do Maranhão. As meninas sofrem com a ausência da mãe, supostamente desaparecida, e ao mesmo tempo precisam lidar com a exploração de um capataz, que se aproveita da sua inocência e fragilidade.
Além da direção geral, Frederico Machado assina o roteiro e a fotografia do filme. No elenco estão Auro Juriciê, Elza Gonçalves, Di Ramalho e Thalyta Sousa.
Os 70 anos de Turíbio Santos

Aos 70 anos, o violonista maranhense Turíbio Santos será homenageado hoje à noite dentro da programação do Festival Villa-Lobos, ao lado da Orquestra Sinfônica Brasileira. O concerto está marcado para as 20h no Espaço Tom Jobim.
Reconhecido como um dos maiores violonistas brasileiros, Turíbio Santos está preparando a sua biografia, que deve ser lançada em março de 2014 (provavelmente no dia 7, data em que o músico de fato completa os 70 anos).
As informações sobre a homenagem a Turíbio Santos estão no Segundo Caderno do jornal “O Globo” de hoje (veja o link).
A propósito, Turíbio assina o prefácio do livro “João Pedro Borges, violonista por excelência”, biografia do também maranhense Sinhô, de autoria de Wilson Marques. O livro é o primeiro da série Perfis Maranhenses, da Clara Editora.
Os Tambores de São Luís – o filme!
Por Alessandro Lamar
Quando publiquei aqui minha aventura para filmar ‘Os Tambores de São Luís’, quis apenas recordar um divertido e aventureiro momento da vida e compartilhar com os amigos, na intenção apenas de relembrar e sorrir. Mas o poder das redes sociais é algo gigantesco, incontrolável, imprevisível. Minha humilde crônica foi compartilhada no blog do amigo e parceiro de recontar e escrever fatos vividos de nossas épocas Felix Alberto Lima.
Pois eis que um cineasta carioca chamado Flavio Leandro vai produzir o filme!!! Ele entrou em contato com Felix, estava pesquisando sobre ‘Os Tambores de São Luís’ e encontrou o blog 'o redemoinho', leu a “agradável crônica”, manteve contato e, resumindo, acabei de ligar pra ele pra marcarmos um almoço. Ele já adquiriu os direitos do livro e 2014 é o ano de produzir.
Como todo bom carioca, o cara foi super atencioso comigo, educado e gentil. Falou que quer nos conhecer e quer nos (“nos” significa eu e o antigo roteirista Christian Noronha) inserir nessa jornada.
Quem diria... Chego a me emocionar! Bom, de qualquer maneira, caso não tenha vaga na equipe de produção ou qualquer outra, pedirei a ele apenas uma participação especial, que já defini em 05 possibilidades:
- Posso aparecer em alguma cena servido um café ou arrumando alguma coisa, que pode ser também um cocheiro, peão de fazenda;
- Posso fazer uma cena de figurante do POVO em destaque, aqueles que ficam bem na frente, gritando, protestando sobre algo (que pode ser inclusive no momento do julgamento da Baronesa de Grajaú);
- Posso fazer o papel do meu bisavô, o maestro Pedro Gromwell, que encontra Damião no centro da cidade;
- Posso também carregar uma das alças de um caixão, aparecer num bar, sentando numa calçada, mas sempre com alguma frase ou close;
- Posso fazer uma figuração de algum seminarista.
Quanto a Christian, pensei em personagens de destaque para ele no filme:
- Qualquer personagem barrigudo, ou
- O cara dentro do caixão.
Vamos aguardar os próximos capítulos!
Quando publiquei aqui minha aventura para filmar ‘Os Tambores de São Luís’, quis apenas recordar um divertido e aventureiro momento da vida e compartilhar com os amigos, na intenção apenas de relembrar e sorrir. Mas o poder das redes sociais é algo gigantesco, incontrolável, imprevisível. Minha humilde crônica foi compartilhada no blog do amigo e parceiro de recontar e escrever fatos vividos de nossas épocas Felix Alberto Lima.
Pois eis que um cineasta carioca chamado Flavio Leandro vai produzir o filme!!! Ele entrou em contato com Felix, estava pesquisando sobre ‘Os Tambores de São Luís’ e encontrou o blog 'o redemoinho', leu a “agradável crônica”, manteve contato e, resumindo, acabei de ligar pra ele pra marcarmos um almoço. Ele já adquiriu os direitos do livro e 2014 é o ano de produzir.
Como todo bom carioca, o cara foi super atencioso comigo, educado e gentil. Falou que quer nos conhecer e quer nos (“nos” significa eu e o antigo roteirista Christian Noronha) inserir nessa jornada.
Quem diria... Chego a me emocionar! Bom, de qualquer maneira, caso não tenha vaga na equipe de produção ou qualquer outra, pedirei a ele apenas uma participação especial, que já defini em 05 possibilidades:
- Posso aparecer em alguma cena servido um café ou arrumando alguma coisa, que pode ser também um cocheiro, peão de fazenda;
- Posso fazer uma cena de figurante do POVO em destaque, aqueles que ficam bem na frente, gritando, protestando sobre algo (que pode ser inclusive no momento do julgamento da Baronesa de Grajaú);
- Posso fazer o papel do meu bisavô, o maestro Pedro Gromwell, que encontra Damião no centro da cidade;
- Posso também carregar uma das alças de um caixão, aparecer num bar, sentando numa calçada, mas sempre com alguma frase ou close;
- Posso fazer uma figuração de algum seminarista.
Quanto a Christian, pensei em personagens de destaque para ele no filme:
- Qualquer personagem barrigudo, ou
- O cara dentro do caixão.
Vamos aguardar os próximos capítulos!
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Polêmica das biografias
Chico Maranhão: “É preciso tirar a roupa, ficar nu”
Papete: “Me decepciono com meus ídolos”

O que pensam artistas maranhenses sobre a polêmica das biografias? O que acham da posição tomada por nomes ilustres da MPB como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Djavan, que se juntam a Roberto Carlos e defendem uma autorização prévia e negociada do artista para a publicação de livros biográficos? O tom de alguns, como Chico Maranhão e Papete, é de certo desapontamento. Ambos afirmam que não há o que temer.
O cantor e compositor Chico Maranhão, em texto que me fora encaminhado por ele via email, diz que os artistas são instrumentos de suas obras, ações, comportamentos e pensamentos, tudo isso posto em nome da construção de “uma sociedade melhor”. Fatos registrados numa biografia, segundo ele, dependem da força das palavras lançadas ao longo da história. E as palavras, afirma, têm interpretações diferentes, leituras diversas.
O autor de “Ponto de fuga” não vê razões para receios ou resistências às biografias. “Não há que ter medo”. Papete, cantor, compositor e instrumentista, comunga da mesma ideia. “Quem não deve não teme”, disse ele em post na sua página do Facebook. Segundo Papete, quem leva uma vida digna, decente e honesta não tem com o que se preocupar. “Afinal, o que teriam a esconder da gente?”, questiona.

O tema das biografias não autorizadas está na ordem do dia e virou pauta recorrente nos principais jornais, revistas, blogs e programas de TV do País. A Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel) reacendeu a polêmica ao mover ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra artigos do Código Civil que protegem artistas biografados.
De acordo com o artigo 20 do Código Civil, salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, publicação, exposição ou utilização da imagem de uma pessoa “poderão ser proibidas se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade”, ou se destinadas a fins comerciais.
O grupo Procure Saber, que tem como porta-voz a ex-atriz e produtora cultural Paula Lavigne, levanta a bandeira do direito à privacidade e, subliminarmente, defende interesses comerciais dos biografados. “Se a obra diz respeito à vida e à carreira do artista, é natural que ele (o biografado) também obtenha direitos sobre a comercialização do produto”, é o que prega, nos bastidores da Justiça e do Congresso Nacional (onde há um projeto de lei em tramitação sobre o tema), a associação Procure Saber.
Roberto Carlos, que em 2007 proibiu na justiça a venda do livro “Roberto Carlos em detalhes”, de autoria de Paulo César de Araújo, disse ontem no programa “Fantástico”, da TV Globo, que é a favor das biografias não autorizadas, desde que haja um entendimento preliminar entre o biógrafo e o biografado. "O biógrafo pesquisa uma história que está feita pelo biografado. Ele não cria uma história. Narra aquela história que não é dele, que é do biografado. Mas, a partir de quando escreve, ele passa a ser dono daquela história. Isso não é certo", reagiu o “Rei” em entrevista à apresentadora Renata Vasconcelos.
Chico Maranhão conta que percebeu um inútil e desconfortável sentimento nas manifestações de alguns integrantes do Procure Saber, “principalmente em Chico Buarque, casualmente ex-colega e amigo meu da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo)”. O cantor e compositor maranhense pisa mais fundo: “É preciso reduzir mais, tirar a roupa, ficar nu! Nós, artistas, podemos mostrar o nosso esqueleto sem nenhum problema”.
Papete revela-se decepcionado com seus ídolos, que em outros tempos defendiam a liberdade de expressão e lutavam contra todo tipo de censura. “Dá pra desconfiar se naquele época isso acontecia porque era oportuno e conveniente”. Rechaça o esconderijo oficial, os segredos guardados a sete chaves, “como se o seu infinito e leal séquito de admiradores não tivesse o direito de saber de suas vidas, seus aspectos, curiosidades, passagens pitorescas, sua forma de pensar”.
Leia abaixo o que dizem Chico Maranhão e Papete:
Considerações ainda sobre a polêmica das biografias não autorizadas
Chico Maranhão
Cantor, compositor e escritor
Tive notícia do assunto quarta feira, dia 16 deste mês, assistindo ao programa da TV Brasil 3a1 com Luiz Carlos Azevedo. Lá, três entrevistados discutiam a questão “Biografias” levantada por um grupo de artistas. Como achei um excelente programa, nem sempre comum na televisão brasileira, resolvi comentar com minha amiga jornalista Rô Caetano perguntando se ela tinha também visto. Ao me responder que não, questionou-me sobre qual meu posicionamento e logo percebi que há muito a polêmica já estava ocorrendo: um grupo de artistas, do meu tempo, isto é, da década de 1960 com quem eu convivi no período dos festivais, fustigava sobre o direito a suas privacidades. Hoje, pessoas famosas por suas obras, por seus feitos, suas ações, estavam, à minha vista, inquietas, preocupadas com a possível interpretação e divulgação de suas vidas íntimas, no que diz respeito a biografias sem autorizações dos biografados. E então, tentei colocar no ar meu ponto de vista, pois, numa primeira aproximação, percebi um inútil e desconfortável sentimento. Principalmente em Chico Buarque, casualmente ex-colega e amigo meu da FAU (Faculdade de Arquitetura). Escrevi um pequeno texto mostrando o quanto estava perplexo com os acontecimentos e enviei a Rô (sexta/18/10) que passou a alguns amigos. A polêmica cresceu como era de se esperar e hoje volto ao assunto.
Muita coisa foi dita e muita gente se manifestou, ampliou-se o quadro das discussões, reconhecimentos surgiram. Acho que houve evolução, sim, mas em que sentido? No alcance da humildade para se compreender melhor a questão? Sim, porque no início, e sempre no início, a radicalidade imperou e os pequenos e grandes poderes se manifestaram. Só se não fôssemos humanos, talvez, seria o contrário. E é aí que está o “espaço” não tocado, a condição humana, que, insisti no meu posicionamento, à resposta para minha amiga Rô Caetano. Tudo isto que os homens fazem, sentem, produzem... obras, ações, comportamentos, pensamentos, está aí para construir uma sociedade melhor. E nós artistas, especialmente, estamos aí para sermos instrumentos disto. E, assim, não há do que ter receio. Não há que ter medo! A construção de fatos que uma biografia cria depende dos fatos que nós fixamos com as palavras. E elas próprias, as palavras, têm interpretações diferentes, leituras diversas. E assim, necessariamente, desencadeiam uma miríade de conjecturas, de outras ideias, suposições, de outros fatos, outras realidades. Quem poderá dimensionar esta verdade? E por que então não aceitar este futuro passado? É preciso reduzir mais, tirar a roupa, ficar nu! Nós, artistas, podemos mostrar o nosso esqueleto sem nenhum problema. A sociedade brasileira, por acaso, não está neste caminho? Há ou não uma necessidade de se mostrar mais? Não é só coisa do privado, do público, sei lá mais o quê?! Não é isso, é mais e principalmente coisa da intuição. Da sensibilidade! Essas polêmicas, esses questionamentos, essas inquietações, a construção desses objetos, são imprescindíveis ao crescimento social. Por isso mesmo são louváveis. Portanto, amigos, acalmem-se, ainda precisamos muito das palavras, desta relação linguagem-mundo. E nem tudo estará nos textos, nas biografias, nas músicas, nas obras dos artistas, mas, obviamente, quem sabe?!, no conjunto de tudo isto.
"Quem não deve não teme"
Papete
Cantor, compositor e instrumentista
Sinceramente, pessoal, vamos combinar então: quem não deve não teme!!! Digo isso pelo fato de estar já ficando meio sem paciência com essas declarações e matérias referentes à questão das biografias, se pode ou não, se tem de autorizar ou não, se é certo ou não..., me decepciono com meus ídolos de outros tempos quando eles defendiam a liberdade de expressão e lutavam contra todo tipo de censura. Dá pra desconfiar se naquele época isso acontecia porque era oportuno e conveniente, mas o que pega mesmo é as pessoas ficarem escondidas sob segredos guardados a sete chaves como se o seu infinito e leal séquito de admiradores não tivesse o direito de saber de suas vidas, seus aspectos, curiosidades, passagens pitorescas, sua forma de pensar, e por aí vai.
O que me causa espanto é toda essa reação ao simples fato de que alguém pode ou não publicar aquilo que sabe sobre este ou aquele, e aqui quero fazer uma analogia ao tecer um comentário sobre pessoas tais como os reis da Suécia e da Noruega, que andam de bicicletas pelas ruas como pessoas comuns, exatamente por não terem nada a temer de seus súditos, que os admiram e respeitam, o que fatalmente aconteceria com essas pessoas que aqui no Brasil brigam pela não publicação de suas biografias - mais uma vez digo e repito: quem nada deve ou então sempre viveu uma vida digna, decente e honesta não tem de se preocupar com isso, afinal o que teriam a esconder da gente?
Papete: “Me decepciono com meus ídolos”

O que pensam artistas maranhenses sobre a polêmica das biografias? O que acham da posição tomada por nomes ilustres da MPB como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Djavan, que se juntam a Roberto Carlos e defendem uma autorização prévia e negociada do artista para a publicação de livros biográficos? O tom de alguns, como Chico Maranhão e Papete, é de certo desapontamento. Ambos afirmam que não há o que temer.
O cantor e compositor Chico Maranhão, em texto que me fora encaminhado por ele via email, diz que os artistas são instrumentos de suas obras, ações, comportamentos e pensamentos, tudo isso posto em nome da construção de “uma sociedade melhor”. Fatos registrados numa biografia, segundo ele, dependem da força das palavras lançadas ao longo da história. E as palavras, afirma, têm interpretações diferentes, leituras diversas.
O autor de “Ponto de fuga” não vê razões para receios ou resistências às biografias. “Não há que ter medo”. Papete, cantor, compositor e instrumentista, comunga da mesma ideia. “Quem não deve não teme”, disse ele em post na sua página do Facebook. Segundo Papete, quem leva uma vida digna, decente e honesta não tem com o que se preocupar. “Afinal, o que teriam a esconder da gente?”, questiona.

O tema das biografias não autorizadas está na ordem do dia e virou pauta recorrente nos principais jornais, revistas, blogs e programas de TV do País. A Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel) reacendeu a polêmica ao mover ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra artigos do Código Civil que protegem artistas biografados.
De acordo com o artigo 20 do Código Civil, salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, publicação, exposição ou utilização da imagem de uma pessoa “poderão ser proibidas se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade”, ou se destinadas a fins comerciais.
O grupo Procure Saber, que tem como porta-voz a ex-atriz e produtora cultural Paula Lavigne, levanta a bandeira do direito à privacidade e, subliminarmente, defende interesses comerciais dos biografados. “Se a obra diz respeito à vida e à carreira do artista, é natural que ele (o biografado) também obtenha direitos sobre a comercialização do produto”, é o que prega, nos bastidores da Justiça e do Congresso Nacional (onde há um projeto de lei em tramitação sobre o tema), a associação Procure Saber.
Roberto Carlos, que em 2007 proibiu na justiça a venda do livro “Roberto Carlos em detalhes”, de autoria de Paulo César de Araújo, disse ontem no programa “Fantástico”, da TV Globo, que é a favor das biografias não autorizadas, desde que haja um entendimento preliminar entre o biógrafo e o biografado. "O biógrafo pesquisa uma história que está feita pelo biografado. Ele não cria uma história. Narra aquela história que não é dele, que é do biografado. Mas, a partir de quando escreve, ele passa a ser dono daquela história. Isso não é certo", reagiu o “Rei” em entrevista à apresentadora Renata Vasconcelos.
Chico Maranhão conta que percebeu um inútil e desconfortável sentimento nas manifestações de alguns integrantes do Procure Saber, “principalmente em Chico Buarque, casualmente ex-colega e amigo meu da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo)”. O cantor e compositor maranhense pisa mais fundo: “É preciso reduzir mais, tirar a roupa, ficar nu! Nós, artistas, podemos mostrar o nosso esqueleto sem nenhum problema”.
Papete revela-se decepcionado com seus ídolos, que em outros tempos defendiam a liberdade de expressão e lutavam contra todo tipo de censura. “Dá pra desconfiar se naquele época isso acontecia porque era oportuno e conveniente”. Rechaça o esconderijo oficial, os segredos guardados a sete chaves, “como se o seu infinito e leal séquito de admiradores não tivesse o direito de saber de suas vidas, seus aspectos, curiosidades, passagens pitorescas, sua forma de pensar”.
Leia abaixo o que dizem Chico Maranhão e Papete:
Considerações ainda sobre a polêmica das biografias não autorizadas
Chico Maranhão
Cantor, compositor e escritor
Tive notícia do assunto quarta feira, dia 16 deste mês, assistindo ao programa da TV Brasil 3a1 com Luiz Carlos Azevedo. Lá, três entrevistados discutiam a questão “Biografias” levantada por um grupo de artistas. Como achei um excelente programa, nem sempre comum na televisão brasileira, resolvi comentar com minha amiga jornalista Rô Caetano perguntando se ela tinha também visto. Ao me responder que não, questionou-me sobre qual meu posicionamento e logo percebi que há muito a polêmica já estava ocorrendo: um grupo de artistas, do meu tempo, isto é, da década de 1960 com quem eu convivi no período dos festivais, fustigava sobre o direito a suas privacidades. Hoje, pessoas famosas por suas obras, por seus feitos, suas ações, estavam, à minha vista, inquietas, preocupadas com a possível interpretação e divulgação de suas vidas íntimas, no que diz respeito a biografias sem autorizações dos biografados. E então, tentei colocar no ar meu ponto de vista, pois, numa primeira aproximação, percebi um inútil e desconfortável sentimento. Principalmente em Chico Buarque, casualmente ex-colega e amigo meu da FAU (Faculdade de Arquitetura). Escrevi um pequeno texto mostrando o quanto estava perplexo com os acontecimentos e enviei a Rô (sexta/18/10) que passou a alguns amigos. A polêmica cresceu como era de se esperar e hoje volto ao assunto.
Muita coisa foi dita e muita gente se manifestou, ampliou-se o quadro das discussões, reconhecimentos surgiram. Acho que houve evolução, sim, mas em que sentido? No alcance da humildade para se compreender melhor a questão? Sim, porque no início, e sempre no início, a radicalidade imperou e os pequenos e grandes poderes se manifestaram. Só se não fôssemos humanos, talvez, seria o contrário. E é aí que está o “espaço” não tocado, a condição humana, que, insisti no meu posicionamento, à resposta para minha amiga Rô Caetano. Tudo isto que os homens fazem, sentem, produzem... obras, ações, comportamentos, pensamentos, está aí para construir uma sociedade melhor. E nós artistas, especialmente, estamos aí para sermos instrumentos disto. E, assim, não há do que ter receio. Não há que ter medo! A construção de fatos que uma biografia cria depende dos fatos que nós fixamos com as palavras. E elas próprias, as palavras, têm interpretações diferentes, leituras diversas. E assim, necessariamente, desencadeiam uma miríade de conjecturas, de outras ideias, suposições, de outros fatos, outras realidades. Quem poderá dimensionar esta verdade? E por que então não aceitar este futuro passado? É preciso reduzir mais, tirar a roupa, ficar nu! Nós, artistas, podemos mostrar o nosso esqueleto sem nenhum problema. A sociedade brasileira, por acaso, não está neste caminho? Há ou não uma necessidade de se mostrar mais? Não é só coisa do privado, do público, sei lá mais o quê?! Não é isso, é mais e principalmente coisa da intuição. Da sensibilidade! Essas polêmicas, esses questionamentos, essas inquietações, a construção desses objetos, são imprescindíveis ao crescimento social. Por isso mesmo são louváveis. Portanto, amigos, acalmem-se, ainda precisamos muito das palavras, desta relação linguagem-mundo. E nem tudo estará nos textos, nas biografias, nas músicas, nas obras dos artistas, mas, obviamente, quem sabe?!, no conjunto de tudo isto.
"Quem não deve não teme"
Papete
Cantor, compositor e instrumentista
Sinceramente, pessoal, vamos combinar então: quem não deve não teme!!! Digo isso pelo fato de estar já ficando meio sem paciência com essas declarações e matérias referentes à questão das biografias, se pode ou não, se tem de autorizar ou não, se é certo ou não..., me decepciono com meus ídolos de outros tempos quando eles defendiam a liberdade de expressão e lutavam contra todo tipo de censura. Dá pra desconfiar se naquele época isso acontecia porque era oportuno e conveniente, mas o que pega mesmo é as pessoas ficarem escondidas sob segredos guardados a sete chaves como se o seu infinito e leal séquito de admiradores não tivesse o direito de saber de suas vidas, seus aspectos, curiosidades, passagens pitorescas, sua forma de pensar, e por aí vai.
O que me causa espanto é toda essa reação ao simples fato de que alguém pode ou não publicar aquilo que sabe sobre este ou aquele, e aqui quero fazer uma analogia ao tecer um comentário sobre pessoas tais como os reis da Suécia e da Noruega, que andam de bicicletas pelas ruas como pessoas comuns, exatamente por não terem nada a temer de seus súditos, que os admiram e respeitam, o que fatalmente aconteceria com essas pessoas que aqui no Brasil brigam pela não publicação de suas biografias - mais uma vez digo e repito: quem nada deve ou então sempre viveu uma vida digna, decente e honesta não tem de se preocupar com isso, afinal o que teriam a esconder da gente?
terça-feira, 15 de outubro de 2013
A outra trilha de Betto Pereira

Betto Pereira tem um bom pedaço da vida dedicado à música. Já se vão mais de 35 anos de palco, desde o primeiro contato com o cavaquinho em encontros boêmios com os amigos, no final dos anos 1970, até a gravação do seu último disco, o CD “Samba que é bom”. E como uma arte puxa a outra, a música o aproximou do teatro no acabamento de trilhas sonoras nas peças encenadas por Aldo Leite.
Mas foi durante a formatação de “Samba que é bom”, no segundo semestre de 2012, que Betto Pereira desaguou de vez na pintura. Desde muito cedo ele já ensaiava os passos iniciais com o pincel e chegara a presentear amigos com pinturas quando ainda morava em São Paulo na casa do amigo Chico Saldanha. Seguiu pintando algumas pequenas telas, mas sempre de maneira tímida e para consumo meramente doméstico, como se tomado pelo medo das cores ou do movimento das mãos e da combinação de tons. Era o artista plástico ensimesmado em plena rebelião do casulo.
Um dia decidiu ousar na primeira tela, e depois na segunda, na terceira... Experimentou cores e se deixou levar pelo traço errante, novo, menos figurativo e mais lúdico. Quando se deu conta, já havia criado toda a cena de botequim de “Samba que é bom”, material utilizado na arte gráfica do disco.
Dos botequins, Betto partiu para as bicicletas multicoloridas, que ganharam forma e movimento e tomaram as ruas de São Luís do Maranhão, a sua cidade cantada. A música, parceira inescapável, transformou-se em presença quase obrigatória com os seus instrumentos e personagens bailando no acrílico sobre tela. A pintura cresceu, as telas multiplicaram-se no tamanho e na inventividade.
“Telas & tons”, esse conjunto expressivo de cores com o qual Betto Pereira debuta nas artes plásticas, representa a leitura de cenas que de alguma forma identificam-se com o universo onírico do menino aprendiz, autodidata e de forte personalidade, como a máquina fotográfica, o disco de vinil, a radiola de reggae, os pregoeiros, os barcos que singram a baía de São Marcos, o bumba-meu-boi, o pandeirão, o cazumbá, a gafieira, os papagaios de papel.
A essência da pintura de Betto Pereira está no movimento. Mas não é um movimento qualquer, abusado ou fora de contexto. Não é a velocidade da urbe, mas o movimento forjado na leveza que a vida nos cobra numa tarde de sábado, por exemplo. Quanto mais refestelado nas tradições, na cultura popular da sua aldeia, mais moderno Betto Pereira se espicha no traço. A coleção “Telas & tons”, assim como as tardes de sábado, é um convite ao contentamento.
(A exposição “Telas & tons” acontece nesta quarta-feira, dia 15 de outubro, às 19h, no Shopping da Ilha, com pocket show do disco “Samba que é bom”)
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
O Maranhão e a primeira tragédia da família Kennedy
No dia 30 de setembro de 1933, a cidade de São Luís entrou no centro de uma crise diplomática envolvendo o Brasil e os Estados Unidos, e que se arrastou por quase 15 anos. Há exatamente oitenta anos o centro histórico de São Luís foi palco daquela que é considerada por alguns como a primeira tragédia da família Kennedy. José de Ribamar Mendonça, um cidadão comum da cidade, aos 25 anos, matou com dois tiros de revólver calibre 32, marca O.V., o norte-americano John Harold Kennedy, de 31 anos, em pleno sábado ensolarado da Rua da Estrela, no escritório da Ulen Management Company.


Mendonça era bilheteiro dos bondes da Ulen, empresa dos Estados Unidos que explorava, desde 1928, os serviços de água, esgoto, luz, tração e prensagem de algodão em São Luís. John Harold trabalhava como contador da companhia.
Não existe comprovação oficial sobre o grau de parentesco entre John Harold e a família do ex-presidente John Fitzgerald Kennedy. Segundo a Academy of Genealogy, de Nova York, não há registros de parentesco entre os dois. Mas ainda persistem rumores de que John Harold era tio do ex-presidente John Kennedy e do ex-senador Robert Kennedy, que também tiveram mortes trágicas. Tanto o contador da Ulen como o ex-presidente dos EUA nasceram no estado de Massachusetts. Outro indício de parentesco entre a vítima da Ulen e a família Kennedy: o pai de John Fitzgerald Kennedy, Joseph Patrick, era embaixador dos Estados Unidos na Inglaterra.
O que poderia ser apenas mais um crime estampado nas páginas da crônica policial maranhense da época acabou ganhando contornos políticos. O bilheteiro recebera a carta de demissão dias antes de completar dez anos de serviços prestados à Ulen. Acaso chegasse ao ciclo dos dez anos, teria a estabilidade assegurada pela legislação da época. A demissão intempestiva pode ter empurrado o maranhense ao crime. Mas havia outros indícios, segundo relata José Joffily no livro “Morte na Ulen Company” (Record, 1983).
São Luís atravessou a segunda década do século XX com sérios problemas de infraestrutura. De acordo com dados da Associação Comercial do Maranhão, a população da cidade era de aproximadamente 50 mil habitantes. Das oito mil residências existentes, 216 delas contavam com telefone e apenas 1.600 consumiam luz elétrica. O índice de mortalidade infantil em 1924 chegou a 56,3%, segundo pesquisa divulgada no dia 12 de outubro de 1926, no jornal “Pacotilha”. “Nas eleições para Assembleia Nacional Constituinte que se realizariam em 1º de outubro de 1933, quando o Maranhão contava com 1.108.877 habitantes, votaram apenas 12.432 eleitores. O percentual de votantes era, portanto, de 1,12%, inferior ao do Piauí, com 1,40%”, segundo pesquisa de José Joffily.
A chegada da Ulen Company a São Luís, em 1928, representava um alento para a população, que sonhava com melhores dias na prestação de serviços públicos. Os primeiros contatos com a Ulen foram intermediados, seis anos antes, pelo oficial da Marinha José Maria Magalhães de Almeida, genro de Urbano Santos, então governador do Estado. O contrato com a Ulen, empresa de propriedade de Henry Charles Ulen, teria sido uma das condições para que o governo maranhense obtivesse do Bankers Trust Company, de Nova York, um empréstimo de 1.750.000 dólares.
Pouco tempo depois do início do contrato vieram as primeiras reclamações da comunidade contra os serviços da Ulen. As queixas eram decorrentes da arrogância dos administradores da empresa, da baixa remuneração paga à mão de obra local, das altas tarifas dos serviços e, principalmente, das cláusulas draconianas do contrato entre a Ulen e o governo estadual. Quatro dias antes do assassinato de John Harold Kennedy, o jornal “O Globo” publicara a seguinte informação: “(...) O empréstimo (de 1.750.000 dólares) transformou-se num polvo, que exaure todas as energias dos maranhenses, com os rigores de cláusulas leoninas e com a trama de exigências judaicas. Mais de um terço da receita pública desaparece no sorvedouro dos juros e amortizações periódicas. O interventor afirma: - Todas as bocas do Maranhão clamam contra a monstruosidade desses contratos, feitos, aliás, com todas as formalidades legais. Que fazer? Sem dúvida alguma a situação é dificílima”.
Foi nesse conturbado período que ocorreu o assassinato na rua da Estrela. E por essas razões a população deu uma conotação política ao crime, embora Mendonça não tivesse vínculo com qualquer partido, agremiação ou sindicato. Além de inconformado pela demissão fora de tempo, o bilheteiro teria atirado no patrão para se vingar dos “opressores” norte-americanos. O clamor anti-Ulen tomou conta da cidade e Mendonça fora a julgamento como o “herói vingador”.
Preso em flagrante, o bilheteiro confessou o crime e continuou detido na Penitenciária do Estado, no Largo dos Remédios, até a data do primeiro julgamento, em novembro de 1933. O maranhense foi levado a três julgamentos, entre 1933 e 1944.
Episódios etílicos
Mendonça foi ao primeiro júri popular no dia 21 de novembro de 1933, no Tribunal do Júri da antiga Rua Formosa, no Centro de São Luís. Uma multidão foi até o local para assistir à sessão presidida pelo juiz João Mata de Oliveira Roma. De um lado, os advogados de defesa José Nunes Arouche e Waldemar de Sousa Brito. Do outro, o promotor Edson Brandão. Instigado pela acusação de que Mendonça era um contumaz apreciador de cachaça, Waldemar Brito assim reagiu: “Se é para esclarecer e não para confundir, não me fale em alcoolismo. Cada um bebe o que pode. Mr. Kennedy, cujo trágico desaparecimento todos nós lamentamos, iniciava suas libações nos Lunáticos ao cair da tarde do sábado e entrava pela noite até a madrugada da segunda-feira na Pensão Lolita, onde nunca lhe faltou o generoso White Horse vindo diretamente de Nova York. Dali chegavam também pacotes de Lucky Strike que distribuía prodigamente entre fumantes do seu clube preferido”. Ao que foi emendado pelo colega José Arouche: “Se é para rememorar episódios etílicos, qual o motorista desta capital que ignora a carraspana do malogrado contador da Ulen na pensão da Leontina? Quantas vezes foi ele carregado nos braços até o carro?”.
O bilheteiro foi absolvido pelo Conselho de Sentença, por cinco votos contra dois, ante a alegação da defesa de que ele teria agido sob completa perturbação dos sentidos. Mendonça permaneceu preso por mais quatro meses. No dia 2 de abril de 1934, o Superior Tribunal de Justiça do Maranhão anulou o júri popular e marcou novo julgamento para duas semanas depois. No dia 18 de abril, Mendonça foi novamente absolvido pelo Conselho de Sentença, desta vez por ter cometido o crime “para evitar problema maior”.
Com a absolvição, aumentaram os protestos contra a Ulen. O governo dos Estados Unidos interveio no episódio e tentou sem sucesso, baseado em suposto erro judiciário, a extradição de Mendonça. Segundo Joffily, durante 11 anos a questão da Ulen e a absolvição de Mendonça envolveram nove ministros brasileiros e três embaixadores dos Estados Unidos. “Provocaram, pelo menos, 38 ofícios e telegramas para proteção da empresa americana e para garantir a condenação de José de Ribamar Mendonça. O Itamaraty aceitava a alegação dos diplomatas americanos segundo a qual a Justiça brasileira contrariou a prova dos autos”.
Em liberdade, o ex-bilheteiro da Ulen mudou-se em 1935 para o Rio de Janeiro, onde conseguiu emprego na Companhia Atlantic de Petróleo. Nesse período, o governo maranhense fez a primeira revisão de cláusulas do contrato com a empresa americana – que já havia sido suspenso entre 1930 e 1931. Em 1944 Mendonça foi novamente preso e transferido para São Luís, onde se submeteria ao terceiro julgamento. Finalmente absolvido, ele retornou ao Rio no dia 16 de agosto de 1944 para reassumir o emprego na Atlantic. Em dezembro do mesmo ano o irmão de John Harold, Russel F. Kennedy, ainda tentou recurso por meio de carta testemunhável. Oito anos depois Mendonça morreria no local de trabalho após um infarto.
“O crime da Ulen Company abalou as estruturas da sociedade maranhense naquele período”, avalia o historiador e desembargador Mílson Coutinho. Segundo ele, o assassinato entrou para a história dos grandes episódios da crônica forense no Maranhão, a exemplo do Caso Pontes Visgueiro e do Crime da Baronesa.
O crime na rua da Estrela, embora não tenha despertado na época o interesse da chamada grande imprensa no Brasil, foi assunto de primeira página no “The New York Times”, no “Evening Gazette” e no “Boston Evening Transcript”.
No dia 15 de julho de 1946, o governo maranhense assinou decreto cancelando o contrato com a Ulen Management Company. Atualmente, os serviços de energia em São Luís são explorados pela Cemar, empresa privada cujo controle acionário (84,7%) é do grupo norte-americano PPL - Pensilvânia Power Light, que tem sede em Allentown (EUA).
Mendonça era bilheteiro dos bondes da Ulen, empresa dos Estados Unidos que explorava, desde 1928, os serviços de água, esgoto, luz, tração e prensagem de algodão em São Luís. John Harold trabalhava como contador da companhia.
Não existe comprovação oficial sobre o grau de parentesco entre John Harold e a família do ex-presidente John Fitzgerald Kennedy. Segundo a Academy of Genealogy, de Nova York, não há registros de parentesco entre os dois. Mas ainda persistem rumores de que John Harold era tio do ex-presidente John Kennedy e do ex-senador Robert Kennedy, que também tiveram mortes trágicas. Tanto o contador da Ulen como o ex-presidente dos EUA nasceram no estado de Massachusetts. Outro indício de parentesco entre a vítima da Ulen e a família Kennedy: o pai de John Fitzgerald Kennedy, Joseph Patrick, era embaixador dos Estados Unidos na Inglaterra.
O que poderia ser apenas mais um crime estampado nas páginas da crônica policial maranhense da época acabou ganhando contornos políticos. O bilheteiro recebera a carta de demissão dias antes de completar dez anos de serviços prestados à Ulen. Acaso chegasse ao ciclo dos dez anos, teria a estabilidade assegurada pela legislação da época. A demissão intempestiva pode ter empurrado o maranhense ao crime. Mas havia outros indícios, segundo relata José Joffily no livro “Morte na Ulen Company” (Record, 1983).
São Luís atravessou a segunda década do século XX com sérios problemas de infraestrutura. De acordo com dados da Associação Comercial do Maranhão, a população da cidade era de aproximadamente 50 mil habitantes. Das oito mil residências existentes, 216 delas contavam com telefone e apenas 1.600 consumiam luz elétrica. O índice de mortalidade infantil em 1924 chegou a 56,3%, segundo pesquisa divulgada no dia 12 de outubro de 1926, no jornal “Pacotilha”. “Nas eleições para Assembleia Nacional Constituinte que se realizariam em 1º de outubro de 1933, quando o Maranhão contava com 1.108.877 habitantes, votaram apenas 12.432 eleitores. O percentual de votantes era, portanto, de 1,12%, inferior ao do Piauí, com 1,40%”, segundo pesquisa de José Joffily.
A chegada da Ulen Company a São Luís, em 1928, representava um alento para a população, que sonhava com melhores dias na prestação de serviços públicos. Os primeiros contatos com a Ulen foram intermediados, seis anos antes, pelo oficial da Marinha José Maria Magalhães de Almeida, genro de Urbano Santos, então governador do Estado. O contrato com a Ulen, empresa de propriedade de Henry Charles Ulen, teria sido uma das condições para que o governo maranhense obtivesse do Bankers Trust Company, de Nova York, um empréstimo de 1.750.000 dólares.
Pouco tempo depois do início do contrato vieram as primeiras reclamações da comunidade contra os serviços da Ulen. As queixas eram decorrentes da arrogância dos administradores da empresa, da baixa remuneração paga à mão de obra local, das altas tarifas dos serviços e, principalmente, das cláusulas draconianas do contrato entre a Ulen e o governo estadual. Quatro dias antes do assassinato de John Harold Kennedy, o jornal “O Globo” publicara a seguinte informação: “(...) O empréstimo (de 1.750.000 dólares) transformou-se num polvo, que exaure todas as energias dos maranhenses, com os rigores de cláusulas leoninas e com a trama de exigências judaicas. Mais de um terço da receita pública desaparece no sorvedouro dos juros e amortizações periódicas. O interventor afirma: - Todas as bocas do Maranhão clamam contra a monstruosidade desses contratos, feitos, aliás, com todas as formalidades legais. Que fazer? Sem dúvida alguma a situação é dificílima”.
Foi nesse conturbado período que ocorreu o assassinato na rua da Estrela. E por essas razões a população deu uma conotação política ao crime, embora Mendonça não tivesse vínculo com qualquer partido, agremiação ou sindicato. Além de inconformado pela demissão fora de tempo, o bilheteiro teria atirado no patrão para se vingar dos “opressores” norte-americanos. O clamor anti-Ulen tomou conta da cidade e Mendonça fora a julgamento como o “herói vingador”.
Preso em flagrante, o bilheteiro confessou o crime e continuou detido na Penitenciária do Estado, no Largo dos Remédios, até a data do primeiro julgamento, em novembro de 1933. O maranhense foi levado a três julgamentos, entre 1933 e 1944.
Episódios etílicos
Mendonça foi ao primeiro júri popular no dia 21 de novembro de 1933, no Tribunal do Júri da antiga Rua Formosa, no Centro de São Luís. Uma multidão foi até o local para assistir à sessão presidida pelo juiz João Mata de Oliveira Roma. De um lado, os advogados de defesa José Nunes Arouche e Waldemar de Sousa Brito. Do outro, o promotor Edson Brandão. Instigado pela acusação de que Mendonça era um contumaz apreciador de cachaça, Waldemar Brito assim reagiu: “Se é para esclarecer e não para confundir, não me fale em alcoolismo. Cada um bebe o que pode. Mr. Kennedy, cujo trágico desaparecimento todos nós lamentamos, iniciava suas libações nos Lunáticos ao cair da tarde do sábado e entrava pela noite até a madrugada da segunda-feira na Pensão Lolita, onde nunca lhe faltou o generoso White Horse vindo diretamente de Nova York. Dali chegavam também pacotes de Lucky Strike que distribuía prodigamente entre fumantes do seu clube preferido”. Ao que foi emendado pelo colega José Arouche: “Se é para rememorar episódios etílicos, qual o motorista desta capital que ignora a carraspana do malogrado contador da Ulen na pensão da Leontina? Quantas vezes foi ele carregado nos braços até o carro?”.
O bilheteiro foi absolvido pelo Conselho de Sentença, por cinco votos contra dois, ante a alegação da defesa de que ele teria agido sob completa perturbação dos sentidos. Mendonça permaneceu preso por mais quatro meses. No dia 2 de abril de 1934, o Superior Tribunal de Justiça do Maranhão anulou o júri popular e marcou novo julgamento para duas semanas depois. No dia 18 de abril, Mendonça foi novamente absolvido pelo Conselho de Sentença, desta vez por ter cometido o crime “para evitar problema maior”.
Com a absolvição, aumentaram os protestos contra a Ulen. O governo dos Estados Unidos interveio no episódio e tentou sem sucesso, baseado em suposto erro judiciário, a extradição de Mendonça. Segundo Joffily, durante 11 anos a questão da Ulen e a absolvição de Mendonça envolveram nove ministros brasileiros e três embaixadores dos Estados Unidos. “Provocaram, pelo menos, 38 ofícios e telegramas para proteção da empresa americana e para garantir a condenação de José de Ribamar Mendonça. O Itamaraty aceitava a alegação dos diplomatas americanos segundo a qual a Justiça brasileira contrariou a prova dos autos”.
Em liberdade, o ex-bilheteiro da Ulen mudou-se em 1935 para o Rio de Janeiro, onde conseguiu emprego na Companhia Atlantic de Petróleo. Nesse período, o governo maranhense fez a primeira revisão de cláusulas do contrato com a empresa americana – que já havia sido suspenso entre 1930 e 1931. Em 1944 Mendonça foi novamente preso e transferido para São Luís, onde se submeteria ao terceiro julgamento. Finalmente absolvido, ele retornou ao Rio no dia 16 de agosto de 1944 para reassumir o emprego na Atlantic. Em dezembro do mesmo ano o irmão de John Harold, Russel F. Kennedy, ainda tentou recurso por meio de carta testemunhável. Oito anos depois Mendonça morreria no local de trabalho após um infarto.
“O crime da Ulen Company abalou as estruturas da sociedade maranhense naquele período”, avalia o historiador e desembargador Mílson Coutinho. Segundo ele, o assassinato entrou para a história dos grandes episódios da crônica forense no Maranhão, a exemplo do Caso Pontes Visgueiro e do Crime da Baronesa.
O crime na rua da Estrela, embora não tenha despertado na época o interesse da chamada grande imprensa no Brasil, foi assunto de primeira página no “The New York Times”, no “Evening Gazette” e no “Boston Evening Transcript”.
No dia 15 de julho de 1946, o governo maranhense assinou decreto cancelando o contrato com a Ulen Management Company. Atualmente, os serviços de energia em São Luís são explorados pela Cemar, empresa privada cujo controle acionário (84,7%) é do grupo norte-americano PPL - Pensilvânia Power Light, que tem sede em Allentown (EUA).
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