segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Polêmica das biografias

Chico Maranhão: “É preciso tirar a roupa, ficar nu”
Papete: “Me decepciono com meus ídolos”




O que pensam artistas maranhenses sobre a polêmica das biografias? O que acham da posição tomada por nomes ilustres da MPB como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Djavan, que se juntam a Roberto Carlos e defendem uma autorização prévia e negociada do artista para a publicação de livros biográficos? O tom de alguns, como Chico Maranhão e Papete, é de certo desapontamento. Ambos afirmam que não há o que temer.

O cantor e compositor Chico Maranhão, em texto que me fora encaminhado por ele via email, diz que os artistas são instrumentos de suas obras, ações, comportamentos e pensamentos, tudo isso posto em nome da construção de “uma sociedade melhor”. Fatos registrados numa biografia, segundo ele, dependem da força das palavras lançadas ao longo da história. E as palavras, afirma, têm interpretações diferentes, leituras diversas.

O autor de “Ponto de fuga” não vê razões para receios ou resistências às biografias. “Não há que ter medo”. Papete, cantor, compositor e instrumentista, comunga da mesma ideia. “Quem não deve não teme”, disse ele em post na sua página do Facebook. Segundo Papete, quem leva uma vida digna, decente e honesta não tem com o que se preocupar. “Afinal, o que teriam a esconder da gente?”, questiona.



O tema das biografias não autorizadas está na ordem do dia e virou pauta recorrente nos principais jornais, revistas, blogs e programas de TV do País. A Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel) reacendeu a polêmica ao mover ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra artigos do Código Civil que protegem artistas biografados.
De acordo com o artigo 20 do Código Civil, salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, publicação, exposição ou utilização da imagem de uma pessoa “poderão ser proibidas se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade”, ou se destinadas a fins comerciais.

O grupo Procure Saber, que tem como porta-voz a ex-atriz e produtora cultural Paula Lavigne, levanta a bandeira do direito à privacidade e, subliminarmente, defende interesses comerciais dos biografados. “Se a obra diz respeito à vida e à carreira do artista, é natural que ele (o biografado) também obtenha direitos sobre a comercialização do produto”, é o que prega, nos bastidores da Justiça e do Congresso Nacional (onde há um projeto de lei em tramitação sobre o tema), a associação Procure Saber.

Roberto Carlos, que em 2007 proibiu na justiça a venda do livro “Roberto Carlos em detalhes”, de autoria de Paulo César de Araújo, disse ontem no programa “Fantástico”, da TV Globo, que é a favor das biografias não autorizadas, desde que haja um entendimento preliminar entre o biógrafo e o biografado. "O biógrafo pesquisa uma história que está feita pelo biografado. Ele não cria uma história. Narra aquela história que não é dele, que é do biografado. Mas, a partir de quando escreve, ele passa a ser dono daquela história. Isso não é certo", reagiu o “Rei” em entrevista à apresentadora Renata Vasconcelos.

Chico Maranhão conta que percebeu um inútil e desconfortável sentimento nas manifestações de alguns integrantes do Procure Saber, “principalmente em Chico Buarque, casualmente ex-colega e amigo meu da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo)”. O cantor e compositor maranhense pisa mais fundo: “É preciso reduzir mais, tirar a roupa, ficar nu! Nós, artistas, podemos mostrar o nosso esqueleto sem nenhum problema”.

Papete revela-se decepcionado com seus ídolos, que em outros tempos defendiam a liberdade de expressão e lutavam contra todo tipo de censura. “Dá pra desconfiar se naquele época isso acontecia porque era oportuno e conveniente”. Rechaça o esconderijo oficial, os segredos guardados a sete chaves, “como se o seu infinito e leal séquito de admiradores não tivesse o direito de saber de suas vidas, seus aspectos, curiosidades, passagens pitorescas, sua forma de pensar”.

Leia abaixo o que dizem Chico Maranhão e Papete:

Considerações ainda sobre a polêmica das biografias não autorizadas

Chico Maranhão
Cantor, compositor e escritor

Tive notícia do assunto quarta feira, dia 16 deste mês, assistindo ao programa da TV Brasil 3a1 com Luiz Carlos Azevedo. Lá, três entrevistados discutiam a questão “Biografias” levantada por um grupo de artistas. Como achei um excelente programa, nem sempre comum na televisão brasileira, resolvi comentar com minha amiga jornalista Rô Caetano perguntando se ela tinha também visto. Ao me responder que não, questionou-me sobre qual meu posicionamento e logo percebi que há muito a polêmica já estava ocorrendo: um grupo de artistas, do meu tempo, isto é, da década de 1960 com quem eu convivi no período dos festivais, fustigava sobre o direito a suas privacidades. Hoje, pessoas famosas por suas obras, por seus feitos, suas ações, estavam, à minha vista, inquietas, preocupadas com a possível interpretação e divulgação de suas vidas íntimas, no que diz respeito a biografias sem autorizações dos biografados. E então, tentei colocar no ar meu ponto de vista, pois, numa primeira aproximação, percebi um inútil e desconfortável sentimento. Principalmente em Chico Buarque, casualmente ex-colega e amigo meu da FAU (Faculdade de Arquitetura). Escrevi um pequeno texto mostrando o quanto estava perplexo com os acontecimentos e enviei a Rô (sexta/18/10) que passou a alguns amigos. A polêmica cresceu como era de se esperar e hoje volto ao assunto.

Muita coisa foi dita e muita gente se manifestou, ampliou-se o quadro das discussões, reconhecimentos surgiram. Acho que houve evolução, sim, mas em que sentido? No alcance da humildade para se compreender melhor a questão? Sim, porque no início, e sempre no início, a radicalidade imperou e os pequenos e grandes poderes se manifestaram. Só se não fôssemos humanos, talvez, seria o contrário. E é aí que está o “espaço” não tocado, a condição humana, que, insisti no meu posicionamento, à resposta para minha amiga Rô Caetano. Tudo isto que os homens fazem, sentem, produzem... obras, ações, comportamentos, pensamentos, está aí para construir uma sociedade melhor. E nós artistas, especialmente, estamos aí para sermos instrumentos disto. E, assim, não há do que ter receio. Não há que ter medo! A construção de fatos que uma biografia cria depende dos fatos que nós fixamos com as palavras. E elas próprias, as palavras, têm interpretações diferentes, leituras diversas. E assim, necessariamente, desencadeiam uma miríade de conjecturas, de outras ideias, suposições, de outros fatos, outras realidades. Quem poderá dimensionar esta verdade? E por que então não aceitar este futuro passado? É preciso reduzir mais, tirar a roupa, ficar nu! Nós, artistas, podemos mostrar o nosso esqueleto sem nenhum problema. A sociedade brasileira, por acaso, não está neste caminho? Há ou não uma necessidade de se mostrar mais? Não é só coisa do privado, do público, sei lá mais o quê?! Não é isso, é mais e principalmente coisa da intuição. Da sensibilidade! Essas polêmicas, esses questionamentos, essas inquietações, a construção desses objetos, são imprescindíveis ao crescimento social. Por isso mesmo são louváveis. Portanto, amigos, acalmem-se, ainda precisamos muito das palavras, desta relação linguagem-mundo. E nem tudo estará nos textos, nas biografias, nas músicas, nas obras dos artistas, mas, obviamente, quem sabe?!, no conjunto de tudo isto.


"Quem não deve não teme"

Papete
Cantor, compositor e instrumentista

Sinceramente, pessoal, vamos combinar então: quem não deve não teme!!! Digo isso pelo fato de estar já ficando meio sem paciência com essas declarações e matérias referentes à questão das biografias, se pode ou não, se tem de autorizar ou não, se é certo ou não..., me decepciono com meus ídolos de outros tempos quando eles defendiam a liberdade de expressão e lutavam contra todo tipo de censura. Dá pra desconfiar se naquele época isso acontecia porque era oportuno e conveniente, mas o que pega mesmo é as pessoas ficarem escondidas sob segredos guardados a sete chaves como se o seu infinito e leal séquito de admiradores não tivesse o direito de saber de suas vidas, seus aspectos, curiosidades, passagens pitorescas, sua forma de pensar, e por aí vai.

O que me causa espanto é toda essa reação ao simples fato de que alguém pode ou não publicar aquilo que sabe sobre este ou aquele, e aqui quero fazer uma analogia ao tecer um comentário sobre pessoas tais como os reis da Suécia e da Noruega, que andam de bicicletas pelas ruas como pessoas comuns, exatamente por não terem nada a temer de seus súditos, que os admiram e respeitam, o que fatalmente aconteceria com essas pessoas que aqui no Brasil brigam pela não publicação de suas biografias - mais uma vez digo e repito: quem nada deve ou então sempre viveu uma vida digna, decente e honesta não tem de se preocupar com isso, afinal o que teriam a esconder da gente?

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A outra trilha de Betto Pereira


Betto Pereira tem um bom pedaço da vida dedicado à música. Já se vão mais de 35 anos de palco, desde o primeiro contato com o cavaquinho em encontros boêmios com os amigos, no final dos anos 1970, até a gravação do seu último disco, o CD “Samba que é bom”. E como uma arte puxa a outra, a música o aproximou do teatro no acabamento de trilhas sonoras nas peças encenadas por Aldo Leite.

Mas foi durante a formatação de “Samba que é bom”, no segundo semestre de 2012, que Betto Pereira desaguou de vez na pintura. Desde muito cedo ele já ensaiava os passos iniciais com o pincel e chegara a presentear amigos com pinturas quando ainda morava em São Paulo na casa do amigo Chico Saldanha. Seguiu pintando algumas pequenas telas, mas sempre de maneira tímida e para consumo meramente doméstico, como se tomado pelo medo das cores ou do movimento das mãos e da combinação de tons. Era o artista plástico ensimesmado em plena rebelião do casulo.

Um dia decidiu ousar na primeira tela, e depois na segunda, na terceira... Experimentou cores e se deixou levar pelo traço errante, novo, menos figurativo e mais lúdico. Quando se deu conta, já havia criado toda a cena de botequim de “Samba que é bom”, material utilizado na arte gráfica do disco.

Dos botequins, Betto partiu para as bicicletas multicoloridas, que ganharam forma e movimento e tomaram as ruas de São Luís do Maranhão, a sua cidade cantada. A música, parceira inescapável, transformou-se em presença quase obrigatória com os seus instrumentos e personagens bailando no acrílico sobre tela. A pintura cresceu, as telas multiplicaram-se no tamanho e na inventividade.

“Telas & tons”, esse conjunto expressivo de cores com o qual Betto Pereira debuta nas artes plásticas, representa a leitura de cenas que de alguma forma identificam-se com o universo onírico do menino aprendiz, autodidata e de forte personalidade, como a máquina fotográfica, o disco de vinil, a radiola de reggae, os pregoeiros, os barcos que singram a baía de São Marcos, o bumba-meu-boi, o pandeirão, o cazumbá, a gafieira, os papagaios de papel.

A essência da pintura de Betto Pereira está no movimento. Mas não é um movimento qualquer, abusado ou fora de contexto. Não é a velocidade da urbe, mas o movimento forjado na leveza que a vida nos cobra numa tarde de sábado, por exemplo. Quanto mais refestelado nas tradições, na cultura popular da sua aldeia, mais moderno Betto Pereira se espicha no traço. A coleção “Telas & tons”, assim como as tardes de sábado, é um convite ao contentamento.

(A exposição “Telas & tons” acontece nesta quarta-feira, dia 15 de outubro, às 19h, no Shopping da Ilha, com pocket show do disco “Samba que é bom”)

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O Maranhão e a primeira tragédia da família Kennedy

No dia 30 de setembro de 1933, a cidade de São Luís entrou no centro de uma crise diplomática envolvendo o Brasil e os Estados Unidos, e que se arrastou por quase 15 anos. Há exatamente oitenta anos o centro histórico de São Luís foi palco daquela que é considerada por alguns como a primeira tragédia da família Kennedy. José de Ribamar Mendonça, um cidadão comum da cidade, aos 25 anos, matou com dois tiros de revólver calibre 32, marca O.V., o norte-americano John Harold Kennedy, de 31 anos, em pleno sábado ensolarado da Rua da Estrela, no escritório da Ulen Management Company.



Mendonça era bilheteiro dos bondes da Ulen, empresa dos Estados Unidos que explorava, desde 1928, os serviços de água, esgoto, luz, tração e prensagem de algodão em São Luís. John Harold trabalhava como contador da companhia.

Não existe comprovação oficial sobre o grau de parentesco entre John Harold e a família do ex-presidente John Fitzgerald Kennedy. Segundo a Academy of Genealogy, de Nova York, não há registros de parentesco entre os dois. Mas ainda persistem rumores de que John Harold era tio do ex-presidente John Kennedy e do ex-senador Robert Kennedy, que também tiveram mortes trágicas. Tanto o contador da Ulen como o ex-presidente dos EUA nasceram no estado de Massachusetts. Outro indício de parentesco entre a vítima da Ulen e a família Kennedy: o pai de John Fitzgerald Kennedy, Joseph Patrick, era embaixador dos Estados Unidos na Inglaterra.

O que poderia ser apenas mais um crime estampado nas páginas da crônica policial maranhense da época acabou ganhando contornos políticos. O bilheteiro recebera a carta de demissão dias antes de completar dez anos de serviços prestados à Ulen. Acaso chegasse ao ciclo dos dez anos, teria a estabilidade assegurada pela legislação da época. A demissão intempestiva pode ter empurrado o maranhense ao crime. Mas havia outros indícios, segundo relata José Joffily no livro “Morte na Ulen Company” (Record, 1983).

São Luís atravessou a segunda década do século XX com sérios problemas de infraestrutura. De acordo com dados da Associação Comercial do Maranhão, a população da cidade era de aproximadamente 50 mil habitantes. Das oito mil residências existentes, 216 delas contavam com telefone e apenas 1.600 consumiam luz elétrica. O índice de mortalidade infantil em 1924 chegou a 56,3%, segundo pesquisa divulgada no dia 12 de outubro de 1926, no jornal “Pacotilha”. “Nas eleições para Assembleia Nacional Constituinte que se realizariam em 1º de outubro de 1933, quando o Maranhão contava com 1.108.877 habitantes, votaram apenas 12.432 eleitores. O percentual de votantes era, portanto, de 1,12%, inferior ao do Piauí, com 1,40%”, segundo pesquisa de José Joffily.

A chegada da Ulen Company a São Luís, em 1928, representava um alento para a população, que sonhava com melhores dias na prestação de serviços públicos. Os primeiros contatos com a Ulen foram intermediados, seis anos antes, pelo oficial da Marinha José Maria Magalhães de Almeida, genro de Urbano Santos, então governador do Estado. O contrato com a Ulen, empresa de propriedade de Henry Charles Ulen, teria sido uma das condições para que o governo maranhense obtivesse do Bankers Trust Company, de Nova York, um empréstimo de 1.750.000 dólares.

Pouco tempo depois do início do contrato vieram as primeiras reclamações da comunidade contra os serviços da Ulen. As queixas eram decorrentes da arrogância dos administradores da empresa, da baixa remuneração paga à mão de obra local, das altas tarifas dos serviços e, principalmente, das cláusulas draconianas do contrato entre a Ulen e o governo estadual. Quatro dias antes do assassinato de John Harold Kennedy, o jornal “O Globo” publicara a seguinte informação: “(...) O empréstimo (de 1.750.000 dólares) transformou-se num polvo, que exaure todas as energias dos maranhenses, com os rigores de cláusulas leoninas e com a trama de exigências judaicas. Mais de um terço da receita pública desaparece no sorvedouro dos juros e amortizações periódicas. O interventor afirma: - Todas as bocas do Maranhão clamam contra a monstruosidade desses contratos, feitos, aliás, com todas as formalidades legais. Que fazer? Sem dúvida alguma a situação é dificílima”.

Foi nesse conturbado período que ocorreu o assassinato na rua da Estrela. E por essas razões a população deu uma conotação política ao crime, embora Mendonça não tivesse vínculo com qualquer partido, agremiação ou sindicato. Além de inconformado pela demissão fora de tempo, o bilheteiro teria atirado no patrão para se vingar dos “opressores” norte-americanos. O clamor anti-Ulen tomou conta da cidade e Mendonça fora a julgamento como o “herói vingador”.

Preso em flagrante, o bilheteiro confessou o crime e continuou detido na Penitenciária do Estado, no Largo dos Remédios, até a data do primeiro julgamento, em novembro de 1933. O maranhense foi levado a três julgamentos, entre 1933 e 1944.

Episódios etílicos

Mendonça foi ao primeiro júri popular no dia 21 de novembro de 1933, no Tribunal do Júri da antiga Rua Formosa, no Centro de São Luís. Uma multidão foi até o local para assistir à sessão presidida pelo juiz João Mata de Oliveira Roma. De um lado, os advogados de defesa José Nunes Arouche e Waldemar de Sousa Brito. Do outro, o promotor Edson Brandão. Instigado pela acusação de que Mendonça era um contumaz apreciador de cachaça, Waldemar Brito assim reagiu: “Se é para esclarecer e não para confundir, não me fale em alcoolismo. Cada um bebe o que pode. Mr. Kennedy, cujo trágico desaparecimento todos nós lamentamos, iniciava suas libações nos Lunáticos ao cair da tarde do sábado e entrava pela noite até a madrugada da segunda-feira na Pensão Lolita, onde nunca lhe faltou o generoso White Horse vindo diretamente de Nova York. Dali chegavam também pacotes de Lucky Strike que distribuía prodigamente entre fumantes do seu clube preferido”. Ao que foi emendado pelo colega José Arouche: “Se é para rememorar episódios etílicos, qual o motorista desta capital que ignora a carraspana do malogrado contador da Ulen na pensão da Leontina? Quantas vezes foi ele carregado nos braços até o carro?”.

O bilheteiro foi absolvido pelo Conselho de Sentença, por cinco votos contra dois, ante a alegação da defesa de que ele teria agido sob completa perturbação dos sentidos. Mendonça permaneceu preso por mais quatro meses. No dia 2 de abril de 1934, o Superior Tribunal de Justiça do Maranhão anulou o júri popular e marcou novo julgamento para duas semanas depois. No dia 18 de abril, Mendonça foi novamente absolvido pelo Conselho de Sentença, desta vez por ter cometido o crime “para evitar problema maior”.

Com a absolvição, aumentaram os protestos contra a Ulen. O governo dos Estados Unidos interveio no episódio e tentou sem sucesso, baseado em suposto erro judiciário, a extradição de Mendonça. Segundo Joffily, durante 11 anos a questão da Ulen e a absolvição de Mendonça envolveram nove ministros brasileiros e três embaixadores dos Estados Unidos. “Provocaram, pelo menos, 38 ofícios e telegramas para proteção da empresa americana e para garantir a condenação de José de Ribamar Mendonça. O Itamaraty aceitava a alegação dos diplomatas americanos segundo a qual a Justiça brasileira contrariou a prova dos autos”.

Em liberdade, o ex-bilheteiro da Ulen mudou-se em 1935 para o Rio de Janeiro, onde conseguiu emprego na Companhia Atlantic de Petróleo. Nesse período, o governo maranhense fez a primeira revisão de cláusulas do contrato com a empresa americana – que já havia sido suspenso entre 1930 e 1931. Em 1944 Mendonça foi novamente preso e transferido para São Luís, onde se submeteria ao terceiro julgamento. Finalmente absolvido, ele retornou ao Rio no dia 16 de agosto de 1944 para reassumir o emprego na Atlantic. Em dezembro do mesmo ano o irmão de John Harold, Russel F. Kennedy, ainda tentou recurso por meio de carta testemunhável. Oito anos depois Mendonça morreria no local de trabalho após um infarto.

“O crime da Ulen Company abalou as estruturas da sociedade maranhense naquele período”, avalia o historiador e desembargador Mílson Coutinho. Segundo ele, o assassinato entrou para a história dos grandes episódios da crônica forense no Maranhão, a exemplo do Caso Pontes Visgueiro e do Crime da Baronesa.

O crime na rua da Estrela, embora não tenha despertado na época o interesse da chamada grande imprensa no Brasil, foi assunto de primeira página no “The New York Times”, no “Evening Gazette” e no “Boston Evening Transcript”.

No dia 15 de julho de 1946, o governo maranhense assinou decreto cancelando o contrato com a Ulen Management Company. Atualmente, os serviços de energia em São Luís são explorados pela Cemar, empresa privada cujo controle acionário (84,7%) é do grupo norte-americano PPL - Pensilvânia Power Light, que tem sede em Allentown (EUA).

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

No cinema com Juliette



Fui ao cinema no sábado me reencontrar com Juliette na sessão das seis. Sempre uma emoção forte, um misto de encantamento e compaixão. A expressão de Juliette - o olhar profundo, algumas vezes languidamente perdido no horizonte – me seduz e espanta. De gestos brandos, voluptuosos, Juliette esboça uma sensualidade que se confunde com amargura envelhecida em barris de esperança. Tem sido assim ao longo dos anos.

Mais uma vez eu estava ali para o nosso encontro no escuro da sala cheia. Não um encontro fortuito, mas um encontro anunciado, com testemunhas de diferentes gerações: a adolescente com os dedos enfiados no iPhone, um jovem casal de calo nos lábios de tantos beijos, a professora solteira e quarentona falando alto em Lacan e Jung, a madame com casaco de pele e seu barulhento saco de pipocas, idosos de bengala etc.

Juliette não é mais a mesma. A pele alva, os cabelos negros embora tingidos pelos cosméticos já levemente esbranquiçados, as mãos delicadas e ternas, tudo aquilo me fazia crer estar afinal mais uma vez com ela. Mas Juliette não é a mesma. Eu não sou mais o mesmo. Juliette havia crescido e aparecido depois daquele ligeiro e movediço encontro de 1986, em que pela primeira vez a vi interpretando Julieta de Godard em “Je vous salue, Marie”. Agora eu estava de frente para uma Juliette madura, mais vivida que vívida, de poucas palavras, inconformada com o infortúnio da solidão e da demência, sem a família e os amigos, desconfiada e com mania de perseguição. Era essa a Juliette Binoche de sábado, que me fez novamente confundi-la com seus personagens intangíveis, no papel de uma mulher de vida intensa, tumultuada.

Em “Camille Claudel 1915”, de Bruno Dumont, Juliette Binoche vive a escultora francesa que foi aluna e amante de Auguste Rodin. Diferentemente da produção “Camille Claudel”, dirigida por Bruno Nuytten em 1988 e que tem Isabelli Adjani no papel principal contracenando com Gérard Depardieu, o filme de Dumont é mais severo com a plateia porque não passeia pela biografia da escultora. Faz apenas o recorte de um período da passagem de Camille pelo manicômio de Montdevergues, no sul da França. Quem não conhece a história de Camille Claudel – sobretudo a sua conflituosa relação sentimental e profissional com Rodin, fato que desencadeou os surtos de esquizofrenia - certamente passará a hora e meia no cinema enfiado no iPhone como a adolescente ou cochilando aqui e ali como a madame e seu casaco de pele.

“Camille Claudel 1915” é um filme silencioso, arrastado pela corrente cotidiana de um asilo, pelas dores, o gemido e o sussurro de doentes mentais de verdade, por onde transita o personagem de Juliette Binoche. Louca, sã, vítima de Rodin, desprezada, injustiçada? Quem é Camille Claudel? O filme de pouquíssimos diálogos – não tem mais que meia hora de fala - limita-se a expor a crua monotonia do hospício e o dia a dia de uma paciente visivelmente entediada com aquele universo, privada de exercer a sua arte, que vive à espera suplicante do irmão, o respeitado poeta francês Paul Claudel.

Juliette Binoche não é mais aquela menina dos primeiros encontros, das paixões arrebatadoras de “A insustentável leveza do ser”, “Os amantes da Ponte Neuf” e “Perdas e danos”; do labirinto cromático de Kieslowski em “A liberdade é azul”, “A igualdade é branca” e “A fraternidade é vermelha”; e dos inspirados “O paciente inglês” e “Chocolate”. Foi a atriz mais presente nos filmes da minha primeira juventude, essa fagulha que teima em permanecer acesa em mim. O tempo passou e Juliette é hoje uma jovem senhora com os mesmos traços de beleza e o mesmo talento cênico.

O tempo passou para Juliette como passou para Nastassja Kinski, Isabelle Adjani e Victoria Abril, mulheres com quem também me encontrei muitas vezes no cinema e a elas fui apresentado por gente descompensada como Polanski e Almodovar. Para mulheres assim o tempo é o que menos importa. Elas continuarão passando.

“Camille Claudel 1915” é frio como uma correnteza de inverno denso, eficiente no propósito de nadar contra as convenções. É provocador sem panfleto e necessário, apesar da imensa carga de melancolia jogada sobre os ombros de Juliette. Improvável deixar a sala sem se sentir arrastado como o filme.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O paraíso sitiado dos índios invisíveis


Foto: Sebastião Salgado

Não fui o primeiro jornalista a conviver durante um certo tempo com os índios Awá Guajá. Antes de mim lá estiveram outros que provaram do mesmo arrebatamento. Como eu, deixaram suas escrituras em folhas de jornal. E não importa quem chegou primeiro, quem virá depois para contar. Importa o tamanho da emoção de conhecer um povo tão mais brasileiro, tão mais índio dentre os índios de que se tem notícia na história mais recente do País. Conheci os Awá Guajá numa primeira viagem em setembro de 1995 e ainda hoje me desassossego com qualquer fato que os exponha no noticiário, porque, a rigor, estão em permanente ameaça de extinção. E pelos mesmos motivos que os vi vulneráveis há 18 anos.

Por meio do amigo Heider Moraes, recebi a informação de que o jornal “O Globo” publicara, nas edições de ontem e hoje, ampla reportagem sobre esses índios que vivem nas matas do Maranhão há quase 200 anos. O texto bem pontuado de Miriam Leitão bate nos mesmos pontos: a ação criminosa de madeireiros, grileiros e outros aproveitadores põe em risco a sobrevivência de um povo sem armas, que desconhece a guerra e a agricultura e que vive primitivamente da pesca e da coleta.

Sobre o texto não há novidades – nada que as autoridades já não saibam sobre invasões de terra e assalto à luz do dia sobre as nossas florestas. Acontece que Miriam Leitão foi convidada pelo talentoso fotógrafo Sebastião Salgado para acompanhá-lo nessa viagem de encontro aos Awá Guajá. E, claro, o que era pra ser apenas um texto sem sal, de uma jornalista moldada para cobrir as áridas pautas de economia, transforma-se numa obra de arte ilustrada por imagens do maior fotógrafo do mundo.

Em vídeo gravado para o site de “O Globo”, Miriam Leitão confessa que ninguém retorna de uma viagem como aquela impunemente. Veja alguns trechos do depoimento da repórter:

“Sempre achei que ser jornalista era um privilégio. Como jornalista, você consegue viver coisas impressionantes. É uma profissão tão intensa, tão cheia de surpresas... Mas a melhor coisas do jornalismo é a reportagem, é você sair, viver uma história, entender uma história e contar essa história. Só que um privilégio maior ainda é quando você recebe um telefonema de Sebastião Salgado com o convite para ir a uma tribo e passar alguns dias convivendo com os índios”.

“É muito difícil contar o que foi essa experiência, mas é como se eu tivesse aberto uma janela para o mundo que eu não conhecia, uma parte do Brasil que eu ainda não tinha visto, que vi e que me emocionou”.

É quase isso e mais alguma coisa. Uma experiência que não se apaga. Essa janela nunca mais se fecha e por isso mesmo o desassossego vira uma tocaia. Sou mais um jornalista sitiado pelo tema.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Vem pra Lua (o manifesto)



Vem pra Lua que domingo ela flutua alta, cheia, clara, quase nua estirada sobre o Atlântico, debruçada na baía.

Vem pra Lua que domingo ela brilha diferente e cobre a noite de poesia, cada estrela em volta é um vagalume iluminando a rua. Oh, imponente mãe, irmã e tia da razão e da euforia.

Vem pra Lua que domingo ela prateia a Terra com seu facho, faiscante e atrevida, como uma manifestante na avenida gritando que o buraco é mais embaixo.

Vem pra Lua que domingo ela se revolta com a bala de borracha e a pimenta, o azul do dia e o magenta, o céu nublado e o preço da polenta.

Vem que a Lua não é só dos namorados. Vem que a Lua não é do dragão. É de quem ama e protesta. É dos que cantam em voz alta e fazem a festa.

Só os loucos atiram pedras na Lua, esses podem. Porque a Lua mexe, a maré sobe e o juízo desce.

Vem correndo que a Lua não é lugar de vândalo, partido ou globocop. Vem que a Lua tem audiência mas não dá ibope.

Vem pra Lua, a maior de todas, e ouve os cães ganindo pelos becos, o mar de ressaca e o Brasil mais intenso ocupando a praça. Vem logo porque ela é rara.

Vem pra Lua e grite alto por um bilhete único no ônibus espacial, pelo passe livre em discos voadores, contra o aumento da tarifa no táxi lunar. Não é pelos 20 centavos. É pelos 20 anos que outra Lua assim vai demorar.

Chega de arquibancada, é hora de entrar em campo pra vencer. Sem patrão, sem Fifa. Fora o cartola! Viva a cartolina!

Chega de ficar em casa deitado no conforto do quarto minguante. Vem pra Lua Cheia. Vem!

domingo, 16 de junho de 2013

O poeta que roubava a cena



Há mais de 12 semanas na lista dos mais vendidos da revista “Veja” com o livro “Toda poesia” (Companhia das Letras, 2013), o poeta Paulo Leminski, acostumado da janela a atirar flechas no calcanhar dos passantes, virou nos últimos anos o autor preferido nas citações das redes sociais. Numa combinação rara de humor, fina ironia, amargura sem culpa e uma boa dose de inventividade, o autor de “Caprichos & relaxos” (editora Brasiliense, 1983) deixou pelo caminho um rastro de inquietação que, outrora perdido em meia dúzia de livros nas mãos de uns gatos pingados, hoje se acha com facilidade no vasto mundo da internet. “Não discuto com o destino/ O que pintar eu assino”. Assim o curitibano, morto aos 44 anos, segue pelas redes “assinando” o que deve e, mais ainda, o que não deve – há ruído em excesso atribuído equivocadamente a ele, entre mensagens de autoajuda, frases evangélicas e versos piegas.

“Toda poesia” pode servir de bússola para o redescobrimento da obra poética de Leminski. Com apresentação de Alice Ruiz, a companheira de quase todas as viagens do poeta, o livro não tem a cereja insípida de um best-seller estrangeiro, mas leva na capa o confeite de uma grande editora, com tiragem expressiva e distribuição profissional. Turbinado pelo sucesso que o autor experimenta nas redes sociais, o livro tem a cara dessa geração que pela internet compartilha do espirro ao luto: é leve, ligeiro, pode ter a leitura iniciada por qualquer página e os mais de 600 poemas seguramente resistem ao tempo pela originalidade, irreverência e, em alguns casos, pelo lirismo. Sem cerimônia, a poesia embalada de Leminski desbancou nas livrarias o fenômeno de vendas “Cinquenta tons de cinzas” e suas derivações.



Não obstante os “pangarés tentando correr na primeira raia”, Paulo Leminski optaria por uma antologia mais discreta, avessa ao ranking das vendas. Fleumático, preferiria chegar em seu corcel negro sem ser notado. Mas da catacumba o poeta deu um salto pop e se aboletou na exígua sala de estar das celebridades, numa espécie de dança dos famosos da literatura. O polaco black meio zen, meio-a-meio, está despido em “Toda poesia”, uma babel distraída infestada de lampejos, de drops e do quase haikai que ele traficava livremente para o Brasil. Desfilam pelas páginas do livro a forma direta, às vezes o coloquial, o trocadilho, aquela percepção enxuta e desencanada do cotidiano. Com seus motins ensaiados, o poeta se enfeita e ao mesmo tempo se enquadra:

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada

depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg

por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores


Paulo Leminski Filho foi um gerador de polêmicas, um poeta com legado insuspeito, nascido a 24 de agosto de 1945, naqueles tempos de estilhaços de final de guerra. Ensaiou os primeiros passos nas letras como professor de redação e história nos cursinhos da capital paranaense. Dava aulas e submergia na leitura. Mas foi na publicidade que se encontrou de vez com a poesia em estado de ebulição. Fez bicos em agências, transformou o teaser da propaganda no ganha-pão do poema e foi se erguendo aos trocos & barrocos. Do flerte com o oriente surgiu o samurai sem mestre que alcançou a faixa preta no judô.


Leminski e Alice Ruiz

A revista “Invenção”, esteio do movimento concretista dos irmãos Campos e de Décio Pignatari, foi o berço literário de Leminski. De lá saíram seus primeiros suspiros. Embora convivesse afetiva e profissionalmente com a célula tronco da poesia concreta, Leminski esboçava um DNA mais libertino, não carregava em tempo integral o rigor e a forma do concretismo. Pegou o bonde andando da “Invenção” e talvez por isso tenha sido fisgado por uma poesia mais sonora e visual, escrachada, nua em pelo. Como um transeunte urbano, pegou carona no modernismo remanescente de Oswald de Andrade, desembarcou na deselegância concreta de Sampa e bebeu no gargalo o vinho da poesia marginal mimeografada dos anos 1970. Em “Toda poesia”, a individualidade é o eixo da trama poética, do ponto de partida à bandeira de chegada.

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas


Com um rio vermelho inflamável correndo nas veias, Paulo Leminski foi um múltiplo tonitruante que guardou a mansidão dos tempos de seminarista adolescente no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, onde se aproximou do latim. Leu em inglês, francês, grego, japonês e mais alguma coisa. Leu Maiakoviski em russo. Traduziu Joyce, Fante, Mishima e Lennon. E escreveu as biografias de Cruz e Souza, Bashô, Leon Trótski e Jesus Cristo.

“Catatau” foi o romance experimental que em 1975 lançou o autor na fogueira das evidências. O livro distingue, na opinião do poeta baiano Antônio Risério, o ponto mais alto e denso do poder leminskiano de criação textual. Em prosa cometeu também “Agora é que são elas”, “Guerra dentro da gente” e outros ensaios. Em 2001, foi biografado em “Paulo Leminski, o bandido que sabia latim” (editora Record), livro do jornalista Toninho Vaz, amigo e colega de profissão.

“Toda poesia” reúne poemas dos livros “Quarenta clics em Curitiba”, “Caprichos & relaxos”, “Distraídos venceremos”, os póstumos “La vie en close” (1991), “O ex-estranho” (1996) e “Winterverno” (2001) e alguns trabalhos esparsos publicados em livros independentes lançados pelo autor antes da estreia em selo nacional (editora Brasiliense) em 1983.

Ora era exigente, talhado no capricho: “Um poema/que não se entende/ é digno de nota/ a dignidade suprema/ de um navio/ perdendo a rota”. Ora era lambada, relaxo descabelado: “Esta vida é uma viagem/ Pena eu estar/ Só de passagem”. Leminski não levava o país a sério. “O Brasil, para mim, é uma abstração jurídica com a qual nada tenho a ver. Gostaria de pertencer a uma nação onde eu pudesse ser patriota”. Considerava a poesia de Ferreira Gullar e Afonso Romano de Sant’Anna retórica, discursiva, média e baseada em lugares-comuns. Nem mesmo Gabriel Garcia Márquez escapava da língua afiada do poeta. Jorge Amado era apenas um redator que “desovava uma besteira, um best-seller todo ano”.


Leminski entre Caetano Veloso e Moraes Moreira

Tinha uma relação de dependência quase física com a música. Letrista bissexto, cultivava amizade com compositores estrelados da MPB. Com Caetano Veloso escreveu “Verdura”, música do disco “Outras palavras” (1981). São dele também as letras de “Xixi nas estrelas”, com Guilherme Arantes, “Mudança de estação”, com A Cor do Som, “Se houver céu”, com Paulinho Boca de Cantor, “Promessas demais”, parceria com Moraes Moreira gravada por Ney Matogrosso, e “Dor elegante”, com Itamar Assumpção, depois gravada por Zélia Duncan, entre outras músicas.

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, edens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra


Paulo Leminski evitava o caminho da poesia engajada e acreditava muito pouco em qualquer possibilidade de vanguarda, em porta-bandeira de causas aflitivas ou opositivas. Por ele, era cada um na sua. Poesia - assim como a roupa que se veste, a comida e o itinerário - não se tira de uma teta nem é pra ser feita com compromisso como quem tem hora marcada no consultório ou numa passeata. Não pode ser datada. “O escritor não tem tempo. Escrevo para ser lido por Ramsés II ou por algum biônico que vai nascer daqui a 1200 anos”. Havia um toque de que “a ideologia de um verso socialista não era o bastante para botar sal numa sopa para dois”, lembrado pelo poeta e jornalista Rodrigo Garcia Lopes.

“Toda poesia” é esse eficiente veneno antimonotonia de cabeceira, pra se consumir sem moderação. O livro é a gota d’água que faz chover no piquenique das conveniências, que mata a sede no deserto de qualquer estante, das livrarias abarrotadas de souvenir. Expõe um Leminski completo na poesia impressa e na vida e na alma impregnadas em cada verso. Na obra se percebe claramente que Leminski “não usava métrica, mas uísque” em seu labor intelectual.

O poeta era considerado uma espécie de malandro cosmopolita, um kamikaze inspirado nos devaneios etílicos que gostava de rock e venerava a geração beat. Viveu intensamente o underground da sua aldeia natal e pôs os pés no mundo. “Os Titãs são o que restou do rock, suas letras são o que restou de um país falido, um vice-país vice-governado, vice-feliz, vice-versa”. Foi num show da banda paulista sua última aparição em público.

A cirrose foi o inevitável corta-luz de um rito de passagem desregrado, extremado, “a vida por um fio, Leminski por um fígado”. Sete de junho de 1989: “Poeta com poesia se mata”. Dizia que a beleza era didática, que sem ela o artista estava morto. Paulo Leminski, como no poema de Emily Dickinson, morreu por beleza. Pela beleza de sua poesia, “toda poesia”.