quinta-feira, 15 de agosto de 2013

No cinema com Juliette



Fui ao cinema no sábado me reencontrar com Juliette na sessão das seis. Sempre uma emoção forte, um misto de encantamento e compaixão. A expressão de Juliette - o olhar profundo, algumas vezes languidamente perdido no horizonte – me seduz e espanta. De gestos brandos, voluptuosos, Juliette esboça uma sensualidade que se confunde com amargura envelhecida em barris de esperança. Tem sido assim ao longo dos anos.

Mais uma vez eu estava ali para o nosso encontro no escuro da sala cheia. Não um encontro fortuito, mas um encontro anunciado, com testemunhas de diferentes gerações: a adolescente com os dedos enfiados no iPhone, um jovem casal de calo nos lábios de tantos beijos, a professora solteira e quarentona falando alto em Lacan e Jung, a madame com casaco de pele e seu barulhento saco de pipocas, idosos de bengala etc.

Juliette não é mais a mesma. A pele alva, os cabelos negros embora tingidos pelos cosméticos já levemente esbranquiçados, as mãos delicadas e ternas, tudo aquilo me fazia crer estar afinal mais uma vez com ela. Mas Juliette não é a mesma. Eu não sou mais o mesmo. Juliette havia crescido e aparecido depois daquele ligeiro e movediço encontro de 1986, em que pela primeira vez a vi interpretando Julieta de Godard em “Je vous salue, Marie”. Agora eu estava de frente para uma Juliette madura, mais vivida que vívida, de poucas palavras, inconformada com o infortúnio da solidão e da demência, sem a família e os amigos, desconfiada e com mania de perseguição. Era essa a Juliette Binoche de sábado, que me fez novamente confundi-la com seus personagens intangíveis, no papel de uma mulher de vida intensa, tumultuada.

Em “Camille Claudel 1915”, de Bruno Dumont, Juliette Binoche vive a escultora francesa que foi aluna e amante de Auguste Rodin. Diferentemente da produção “Camille Claudel”, dirigida por Bruno Nuytten em 1988 e que tem Isabelli Adjani no papel principal contracenando com Gérard Depardieu, o filme de Dumont é mais severo com a plateia porque não passeia pela biografia da escultora. Faz apenas o recorte de um período da passagem de Camille pelo manicômio de Montdevergues, no sul da França. Quem não conhece a história de Camille Claudel – sobretudo a sua conflituosa relação sentimental e profissional com Rodin, fato que desencadeou os surtos de esquizofrenia - certamente passará a hora e meia no cinema enfiado no iPhone como a adolescente ou cochilando aqui e ali como a madame e seu casaco de pele.

“Camille Claudel 1915” é um filme silencioso, arrastado pela corrente cotidiana de um asilo, pelas dores, o gemido e o sussurro de doentes mentais de verdade, por onde transita o personagem de Juliette Binoche. Louca, sã, vítima de Rodin, desprezada, injustiçada? Quem é Camille Claudel? O filme de pouquíssimos diálogos – não tem mais que meia hora de fala - limita-se a expor a crua monotonia do hospício e o dia a dia de uma paciente visivelmente entediada com aquele universo, privada de exercer a sua arte, que vive à espera suplicante do irmão, o respeitado poeta francês Paul Claudel.

Juliette Binoche não é mais aquela menina dos primeiros encontros, das paixões arrebatadoras de “A insustentável leveza do ser”, “Os amantes da Ponte Neuf” e “Perdas e danos”; do labirinto cromático de Kieslowski em “A liberdade é azul”, “A igualdade é branca” e “A fraternidade é vermelha”; e dos inspirados “O paciente inglês” e “Chocolate”. Foi a atriz mais presente nos filmes da minha primeira juventude, essa fagulha que teima em permanecer acesa em mim. O tempo passou e Juliette é hoje uma jovem senhora com os mesmos traços de beleza e o mesmo talento cênico.

O tempo passou para Juliette como passou para Nastassja Kinski, Isabelle Adjani e Victoria Abril, mulheres com quem também me encontrei muitas vezes no cinema e a elas fui apresentado por gente descompensada como Polanski e Almodovar. Para mulheres assim o tempo é o que menos importa. Elas continuarão passando.

“Camille Claudel 1915” é frio como uma correnteza de inverno denso, eficiente no propósito de nadar contra as convenções. É provocador sem panfleto e necessário, apesar da imensa carga de melancolia jogada sobre os ombros de Juliette. Improvável deixar a sala sem se sentir arrastado como o filme.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O paraíso sitiado dos índios invisíveis


Foto: Sebastião Salgado

Não fui o primeiro jornalista a conviver durante um certo tempo com os índios Awá Guajá. Antes de mim lá estiveram outros que provaram do mesmo arrebatamento. Como eu, deixaram suas escrituras em folhas de jornal. E não importa quem chegou primeiro, quem virá depois para contar. Importa o tamanho da emoção de conhecer um povo tão mais brasileiro, tão mais índio dentre os índios de que se tem notícia na história mais recente do País. Conheci os Awá Guajá numa primeira viagem em setembro de 1995 e ainda hoje me desassossego com qualquer fato que os exponha no noticiário, porque, a rigor, estão em permanente ameaça de extinção. E pelos mesmos motivos que os vi vulneráveis há 18 anos.

Por meio do amigo Heider Moraes, recebi a informação de que o jornal “O Globo” publicara, nas edições de ontem e hoje, ampla reportagem sobre esses índios que vivem nas matas do Maranhão há quase 200 anos. O texto bem pontuado de Miriam Leitão bate nos mesmos pontos: a ação criminosa de madeireiros, grileiros e outros aproveitadores põe em risco a sobrevivência de um povo sem armas, que desconhece a guerra e a agricultura e que vive primitivamente da pesca e da coleta.

Sobre o texto não há novidades – nada que as autoridades já não saibam sobre invasões de terra e assalto à luz do dia sobre as nossas florestas. Acontece que Miriam Leitão foi convidada pelo talentoso fotógrafo Sebastião Salgado para acompanhá-lo nessa viagem de encontro aos Awá Guajá. E, claro, o que era pra ser apenas um texto sem sal, de uma jornalista moldada para cobrir as áridas pautas de economia, transforma-se numa obra de arte ilustrada por imagens do maior fotógrafo do mundo.

Em vídeo gravado para o site de “O Globo”, Miriam Leitão confessa que ninguém retorna de uma viagem como aquela impunemente. Veja alguns trechos do depoimento da repórter:

“Sempre achei que ser jornalista era um privilégio. Como jornalista, você consegue viver coisas impressionantes. É uma profissão tão intensa, tão cheia de surpresas... Mas a melhor coisas do jornalismo é a reportagem, é você sair, viver uma história, entender uma história e contar essa história. Só que um privilégio maior ainda é quando você recebe um telefonema de Sebastião Salgado com o convite para ir a uma tribo e passar alguns dias convivendo com os índios”.

“É muito difícil contar o que foi essa experiência, mas é como se eu tivesse aberto uma janela para o mundo que eu não conhecia, uma parte do Brasil que eu ainda não tinha visto, que vi e que me emocionou”.

É quase isso e mais alguma coisa. Uma experiência que não se apaga. Essa janela nunca mais se fecha e por isso mesmo o desassossego vira uma tocaia. Sou mais um jornalista sitiado pelo tema.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Vem pra Lua (o manifesto)



Vem pra Lua que domingo ela flutua alta, cheia, clara, quase nua estirada sobre o Atlântico, debruçada na baía.

Vem pra Lua que domingo ela brilha diferente e cobre a noite de poesia, cada estrela em volta é um vagalume iluminando a rua. Oh, imponente mãe, irmã e tia da razão e da euforia.

Vem pra Lua que domingo ela prateia a Terra com seu facho, faiscante e atrevida, como uma manifestante na avenida gritando que o buraco é mais embaixo.

Vem pra Lua que domingo ela se revolta com a bala de borracha e a pimenta, o azul do dia e o magenta, o céu nublado e o preço da polenta.

Vem que a Lua não é só dos namorados. Vem que a Lua não é do dragão. É de quem ama e protesta. É dos que cantam em voz alta e fazem a festa.

Só os loucos atiram pedras na Lua, esses podem. Porque a Lua mexe, a maré sobe e o juízo desce.

Vem correndo que a Lua não é lugar de vândalo, partido ou globocop. Vem que a Lua tem audiência mas não dá ibope.

Vem pra Lua, a maior de todas, e ouve os cães ganindo pelos becos, o mar de ressaca e o Brasil mais intenso ocupando a praça. Vem logo porque ela é rara.

Vem pra Lua e grite alto por um bilhete único no ônibus espacial, pelo passe livre em discos voadores, contra o aumento da tarifa no táxi lunar. Não é pelos 20 centavos. É pelos 20 anos que outra Lua assim vai demorar.

Chega de arquibancada, é hora de entrar em campo pra vencer. Sem patrão, sem Fifa. Fora o cartola! Viva a cartolina!

Chega de ficar em casa deitado no conforto do quarto minguante. Vem pra Lua Cheia. Vem!

domingo, 16 de junho de 2013

O poeta que roubava a cena



Há mais de 12 semanas na lista dos mais vendidos da revista “Veja” com o livro “Toda poesia” (Companhia das Letras, 2013), o poeta Paulo Leminski, acostumado da janela a atirar flechas no calcanhar dos passantes, virou nos últimos anos o autor preferido nas citações das redes sociais. Numa combinação rara de humor, fina ironia, amargura sem culpa e uma boa dose de inventividade, o autor de “Caprichos & relaxos” (editora Brasiliense, 1983) deixou pelo caminho um rastro de inquietação que, outrora perdido em meia dúzia de livros nas mãos de uns gatos pingados, hoje se acha com facilidade no vasto mundo da internet. “Não discuto com o destino/ O que pintar eu assino”. Assim o curitibano, morto aos 44 anos, segue pelas redes “assinando” o que deve e, mais ainda, o que não deve – há ruído em excesso atribuído equivocadamente a ele, entre mensagens de autoajuda, frases evangélicas e versos piegas.

“Toda poesia” pode servir de bússola para o redescobrimento da obra poética de Leminski. Com apresentação de Alice Ruiz, a companheira de quase todas as viagens do poeta, o livro não tem a cereja insípida de um best-seller estrangeiro, mas leva na capa o confeite de uma grande editora, com tiragem expressiva e distribuição profissional. Turbinado pelo sucesso que o autor experimenta nas redes sociais, o livro tem a cara dessa geração que pela internet compartilha do espirro ao luto: é leve, ligeiro, pode ter a leitura iniciada por qualquer página e os mais de 600 poemas seguramente resistem ao tempo pela originalidade, irreverência e, em alguns casos, pelo lirismo. Sem cerimônia, a poesia embalada de Leminski desbancou nas livrarias o fenômeno de vendas “Cinquenta tons de cinzas” e suas derivações.



Não obstante os “pangarés tentando correr na primeira raia”, Paulo Leminski optaria por uma antologia mais discreta, avessa ao ranking das vendas. Fleumático, preferiria chegar em seu corcel negro sem ser notado. Mas da catacumba o poeta deu um salto pop e se aboletou na exígua sala de estar das celebridades, numa espécie de dança dos famosos da literatura. O polaco black meio zen, meio-a-meio, está despido em “Toda poesia”, uma babel distraída infestada de lampejos, de drops e do quase haikai que ele traficava livremente para o Brasil. Desfilam pelas páginas do livro a forma direta, às vezes o coloquial, o trocadilho, aquela percepção enxuta e desencanada do cotidiano. Com seus motins ensaiados, o poeta se enfeita e ao mesmo tempo se enquadra:

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada

depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg

por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores


Paulo Leminski Filho foi um gerador de polêmicas, um poeta com legado insuspeito, nascido a 24 de agosto de 1945, naqueles tempos de estilhaços de final de guerra. Ensaiou os primeiros passos nas letras como professor de redação e história nos cursinhos da capital paranaense. Dava aulas e submergia na leitura. Mas foi na publicidade que se encontrou de vez com a poesia em estado de ebulição. Fez bicos em agências, transformou o teaser da propaganda no ganha-pão do poema e foi se erguendo aos trocos & barrocos. Do flerte com o oriente surgiu o samurai sem mestre que alcançou a faixa preta no judô.


Leminski e Alice Ruiz

A revista “Invenção”, esteio do movimento concretista dos irmãos Campos e de Décio Pignatari, foi o berço literário de Leminski. De lá saíram seus primeiros suspiros. Embora convivesse afetiva e profissionalmente com a célula tronco da poesia concreta, Leminski esboçava um DNA mais libertino, não carregava em tempo integral o rigor e a forma do concretismo. Pegou o bonde andando da “Invenção” e talvez por isso tenha sido fisgado por uma poesia mais sonora e visual, escrachada, nua em pelo. Como um transeunte urbano, pegou carona no modernismo remanescente de Oswald de Andrade, desembarcou na deselegância concreta de Sampa e bebeu no gargalo o vinho da poesia marginal mimeografada dos anos 1970. Em “Toda poesia”, a individualidade é o eixo da trama poética, do ponto de partida à bandeira de chegada.

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas


Com um rio vermelho inflamável correndo nas veias, Paulo Leminski foi um múltiplo tonitruante que guardou a mansidão dos tempos de seminarista adolescente no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, onde se aproximou do latim. Leu em inglês, francês, grego, japonês e mais alguma coisa. Leu Maiakoviski em russo. Traduziu Joyce, Fante, Mishima e Lennon. E escreveu as biografias de Cruz e Souza, Bashô, Leon Trótski e Jesus Cristo.

“Catatau” foi o romance experimental que em 1975 lançou o autor na fogueira das evidências. O livro distingue, na opinião do poeta baiano Antônio Risério, o ponto mais alto e denso do poder leminskiano de criação textual. Em prosa cometeu também “Agora é que são elas”, “Guerra dentro da gente” e outros ensaios. Em 2001, foi biografado em “Paulo Leminski, o bandido que sabia latim” (editora Record), livro do jornalista Toninho Vaz, amigo e colega de profissão.

“Toda poesia” reúne poemas dos livros “Quarenta clics em Curitiba”, “Caprichos & relaxos”, “Distraídos venceremos”, os póstumos “La vie en close” (1991), “O ex-estranho” (1996) e “Winterverno” (2001) e alguns trabalhos esparsos publicados em livros independentes lançados pelo autor antes da estreia em selo nacional (editora Brasiliense) em 1983.

Ora era exigente, talhado no capricho: “Um poema/que não se entende/ é digno de nota/ a dignidade suprema/ de um navio/ perdendo a rota”. Ora era lambada, relaxo descabelado: “Esta vida é uma viagem/ Pena eu estar/ Só de passagem”. Leminski não levava o país a sério. “O Brasil, para mim, é uma abstração jurídica com a qual nada tenho a ver. Gostaria de pertencer a uma nação onde eu pudesse ser patriota”. Considerava a poesia de Ferreira Gullar e Afonso Romano de Sant’Anna retórica, discursiva, média e baseada em lugares-comuns. Nem mesmo Gabriel Garcia Márquez escapava da língua afiada do poeta. Jorge Amado era apenas um redator que “desovava uma besteira, um best-seller todo ano”.


Leminski entre Caetano Veloso e Moraes Moreira

Tinha uma relação de dependência quase física com a música. Letrista bissexto, cultivava amizade com compositores estrelados da MPB. Com Caetano Veloso escreveu “Verdura”, música do disco “Outras palavras” (1981). São dele também as letras de “Xixi nas estrelas”, com Guilherme Arantes, “Mudança de estação”, com A Cor do Som, “Se houver céu”, com Paulinho Boca de Cantor, “Promessas demais”, parceria com Moraes Moreira gravada por Ney Matogrosso, e “Dor elegante”, com Itamar Assumpção, depois gravada por Zélia Duncan, entre outras músicas.

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, edens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra


Paulo Leminski evitava o caminho da poesia engajada e acreditava muito pouco em qualquer possibilidade de vanguarda, em porta-bandeira de causas aflitivas ou opositivas. Por ele, era cada um na sua. Poesia - assim como a roupa que se veste, a comida e o itinerário - não se tira de uma teta nem é pra ser feita com compromisso como quem tem hora marcada no consultório ou numa passeata. Não pode ser datada. “O escritor não tem tempo. Escrevo para ser lido por Ramsés II ou por algum biônico que vai nascer daqui a 1200 anos”. Havia um toque de que “a ideologia de um verso socialista não era o bastante para botar sal numa sopa para dois”, lembrado pelo poeta e jornalista Rodrigo Garcia Lopes.

“Toda poesia” é esse eficiente veneno antimonotonia de cabeceira, pra se consumir sem moderação. O livro é a gota d’água que faz chover no piquenique das conveniências, que mata a sede no deserto de qualquer estante, das livrarias abarrotadas de souvenir. Expõe um Leminski completo na poesia impressa e na vida e na alma impregnadas em cada verso. Na obra se percebe claramente que Leminski “não usava métrica, mas uísque” em seu labor intelectual.

O poeta era considerado uma espécie de malandro cosmopolita, um kamikaze inspirado nos devaneios etílicos que gostava de rock e venerava a geração beat. Viveu intensamente o underground da sua aldeia natal e pôs os pés no mundo. “Os Titãs são o que restou do rock, suas letras são o que restou de um país falido, um vice-país vice-governado, vice-feliz, vice-versa”. Foi num show da banda paulista sua última aparição em público.

A cirrose foi o inevitável corta-luz de um rito de passagem desregrado, extremado, “a vida por um fio, Leminski por um fígado”. Sete de junho de 1989: “Poeta com poesia se mata”. Dizia que a beleza era didática, que sem ela o artista estava morto. Paulo Leminski, como no poema de Emily Dickinson, morreu por beleza. Pela beleza de sua poesia, “toda poesia”.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Sem botão, no tempo, no topo, no chão (parte 3)


Papete na foto da contracapa do LP "Bandeira de Aço"

Em boa hora, o projeto BR 135, capitaneado por Alê Muniz e Luciana Simões, presta uma merecida homenagem aos 35 anos do lendário LP “Bandeira de Aço”, uma coletânea de músicas de compositores maranhenses gravada por Papete em 1978. Em show marcado para hoje no Teatro Arthur Azevedo, o BR 135 faz uma releitura do repertório e do arranjo do disco, com interpretações de Bruno Batista, Madian, Flávia Bittencourt, Dicy e Afrôs, além da dupla Criolina. O show é também uma celebração a Papete e aos autores das nove faixas do LP.

“Bandeira de Aço” foi um desses ventos buliçosos soprados na música popular brasileira na década de 1970 com o surgimento do selo independente Discos Marcus Pereira. São nove músicas no disco: “Boi da Lua”, “Flor do mal” e “Bandeira de Aço”, de César Teixeira; “Catirina”, “Dente de ouro”, “Engenho de flores” e “De Cajari pra Capital”, de Josias Sobrinho; “Boi de Catirina”, de Ronaldo Mota; e “Eulália”, de Sérgio Habibe. Gravado no estúdio Sonima, em São Paulo, com a participação dos músicos Carlão (viola de 12 cordas), Otacílio (contrabaixo), Sérgio Mineiro e Márcio Werneck (flauta), o disco fora produzido pelo próprio Papete (violão, percussão, voz e arranjo).

Criado extraoficialmente em 1967 pelo publicitário Marcus Pereira, o selo foi um divisor de águas na divulgação da música brasileira de qualidade, estranha ao circuito comercial das grandes gravadoras. Foram mais de 140 álbuns lançados em quase 15 anos de pesquisa e identificação de autores e gêneros inéditos ou relegados ao esquecimento, entre eles Paulo Vanzolini, Banda de Pífanos de Caruaru, Quinteto Violado, Renato Teixeira, Nara Leão, Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara. Foi pelo selo Marcus Pereira que Cartola gravou o seu primeiro disco, aos 66 anos.

Três anos antes de “Bandeira de Aço”, Papete já havia lançado pela Marcus Pereira o LP “Berimbau e percussão”, com oito faixas de autoria do próprio Papete, Théo de Barros e Manoel Onça. “Quando começamos a discutir o seu segundo disco [“Bandeira de Aço”], logo ficou claro que o melhor caminho seria mostrar ao Brasil aquela enorme riqueza escondida de São Luís do Maranhão. Ela aqui está, revelada pelo talento ímpar de Papete”, escreveu Marcus Pereira na contracapa do LP.

Na apresentação de “Bandeira de Aço”, Marcus Pereira conta que, numa viagem a São Luís para aproveitar as festas do final do ano de 1976, fora convidado por compositores locais para uma “reunião boêmia” no bairro da Madre Deus. E confessa que assistiu, perplexo, ao desfile de “composições surpreendentes” de Carlos César (o César Teixeira), Josias, Ronaldo e Sérgio Habibe. Outro maranhense, porém, já era velho conhecido de Marcus Pereira. Naquele mesmo ano de 1978 Chico Maranhão lançara também pelo selo Marcus Pereira o LP “Lances de agora”, com “Pastorinha”, “Ponto de fuga”, “Velho amigo poeta”, “Ponta d’Areia”, entre outras pérolas. No LP também estava a faixa “Cirano”, que já havia sido gravada em outro disco do selo Marcos Pereira, de Chico Maranhão e Renato Teixeira, de 1969. Sobre “Lances de agora”, Marcus Pereira fora categórico: “Merece um seminário para debate e penitência”.

Em meio aos problemas pessoais e de ordem profissional, Marcus Pereira acabou se suicidando em 1981. A Discos Marcus Pereira foi absorvida pela Copacabana Discos, que também fechou as portas na década de 1980. Todo o acervo da Marcus Pereira então foi comprado pela EMI e atualmente está sob a posse da Microservice, incluindo os discos de Papete e Chico Maranhão.

Em depoimento ao jornal “O Estado do Maranhão” de 1985, reproduzido no livro “Almanaque Guarnicê” (Clara Editora e Edições Guarnicê, 2003), Papete conta que o projeto, em 1978, era fazer mais um disco autoral de percussão. “Mas mudei de ideia para registrar o trabalho desse pessoal”.

Alguns anos depois de lançado, e contrariando os preceitos da jornada quase espartana de Marcus Pereira, “Bandeira de aço” gerou uma crise entre intérprete e compositores. O pomo da discórdia: a participação dos autores na venda do disco. Papete tomou conhecimento pelos jornais de que Josias Sobrinho e César Teixeira cobravam dele e do espólio de Marcus Pereira direitos autorais sobre as músicas do LP.

- Foi um disco que não vendeu nada. Ele pode ter tocado muito aqui (no Maranhão), mas se vendeu cinco mil cópias isso não representa nada. A Marcus Pereira, antes de ser uma gravadora, era uma fundação. Ela não tinha fins lucrativos, nunca gravou discos para vender, para ter lucro. Ela sempre gravou com o intuito de valorizar a cultura popular. Eles não entenderam isso. Acharam que deveriam receber grana pelo disco e não aceitaram as minhas explicações – disse Papete ao Guarnicê.

Ante o ziguezague que encobriu o acervo do selo Marcus Pereira, as diferenças entre Papete e os compositores se dissiparam com o tempo. O LP “Bandeira de Aço” é reconhecido como uma das melhores e mais importantes produções de música regional do Brasil e faz um recorte inteligente e original da cultura popular maranhense da segunda metade do século 20. O disco, depois lançado em CD pela EMI com tiragem limitada, faz parte da história. “Este disco é uma surpresa. Como certamente serão os que forem gravados com compositores fiéis aos valores das regiões em que vivem”, declarou Marcus Pereira, que tinha Papete na conta de um “irmão, afilhado e amigo”.

domingo, 26 de maio de 2013

Churrascaria no domingo

Ir à churrascaria no domingo é um desafio do primeiro ao último ato do programa. Sofro por antecipação, perco a fome antes mesmo de sair de casa, como que tomado por um bloqueio psicológico. Ainda assim me rendo ao convite da turminha aqui de casa que se realiza num prato de picanha. Não todo domingo, claro, mas pelo menos a cada aparição do cometa Halley eu assumo esse compromisso com a criançada na boa.

Churrascaria é meio um estádio de futebol, aqueles marmanjos vestidos com suas camisas do time preferido, fila pra entrar e gente falando alto. Com uma diferença: no estádio se come de maneira mais civilizada. Repare que o freguês contumaz de churrascaria vai a um rodízio como quem vai a um jogo e torce sem cerimônia contra o dono da casa. Sente prazer em comer demasiadamente, mesmo sem vontade, só pra ver o adversário derrotado, no prejuízo. E, qual um torcedor que deixa o estádio aos gritos de felicidade pela vitória do time, o freguês sai do almoço arrotando, contando vantagem para os amigos. Com o detalhe de que torcedores raramente externam sua barbárie.

Na churrascaria o tormento começa mesmo na mesa. Almoço, a rigor, é um ritual de bocas fechadas em processo de mastigação do alimento, demorado, pontuado aqui e ali por conversas sutis. No rodízio, você olha em volta e a impressão que se tem é a de que a clientela toda acabou de voltar da seca de 1930. O garotinho ao lado com um imenso pedaço de carne na boca e uma coxa de frango no garfo não disfarça o apetite e ainda zomba da irmã que não o acompanha na corrida contra o tempo. Sim, em churrascaria comer rápido é uma questão de método. Parece que que aqueles espetos todos vão desaparecer em minutos e que, portanto, não basta somente comer todas as carnes, é preciso devorá-las antes do apagão.

Voltando ao garotinho, já quase sem fôlego e empapuçado de tanta carne e gordura, por orientação da mãe ele faz uma trégua relâmpago na guerra que trava com a comida para entornar meio litro de Coca-Cola. O resultado é imediato e, refeito da quase congestão diante da família, ele empunha novamente os talheres e grita pelo garçom, que lhe empurra mais meio quilo de maminha no prato.

Fico embrulhado com o que vejo, mas não me entrego, afinal o nosso cometa Halley só vai passar de novo daqui a uns dois ou três meses. Com os garçons cruzando espetos gigantes sobre os meus ombros, aquela carne escorrendo sangue como se o boi acabasse de ser abatido ali no estacionamento da churrascaria, tento me esquivar como posso de um talho de faca nas costas ou no rosto. A salmoura descendo pelo canto da boca da madame que acabou de sentar na mesa da frente me devolve a náusea, porém resisto bravamente canalizando a energia que me resta para apreciar a desenvoltura do garotinho glutão.

As carnes de churrascaria são tantas e de tantos nomes que me perturbo na escolha. Vou no trivial para não arriscar entre o gato e a lebre. “O senhor aceita o javali?”. Olho desconfiado pro bicho e, pela aparência, percebo que a oferta está bem maior que a procura. “Prove, o senhor vai gostar”, insiste o garçom. “Não, obrigado”. O dócil javali fica pra uma outra partida. Saio com aquela sensação de quem está sendo observado pela clientela veterana da churrascaria, que me põe na conta de um torcedor cujo time, freguês por excelência, perdeu mais uma vez, e de goleada, para o dono da casa.

domingo, 19 de maio de 2013

De susto, de bala ou vício (parte 2)

Ou eu não entendo bem o que diz o secretário estadual de segurança do Maranhão ou ele consegue tropeçar nas palavras toda vez que tenta explicar a profusão de crimes no estado. Há poucos dias disse ele na imprensa que o ambiente de insegurança vivido no Maranhão é artificial. Hoje, em entrevista ao jornal “O Estado do Maranhão”, ele afirma com todas as letras que o “alto índice de homicídios não mostra a realidade”. Como assim “não mostra a realidade”? Muitas pessoas morrendo todos os dias não são parâmetro então para o modelo de segurança do secretário? Essa violência aterradora que mata, assalta, sequestra... não é parâmetro? Segundo ele, as estatísticas do crime hoje estão todas associadas à disputa de grupos de traficantes de drogas em São Luís. Será? Bom, e se for de fato? Isso muda o quadro? A violência é menor porque se restringe a uma gincana marginal?

Eu respondo com trechos da crônica do talentoso artista plástico Jesus Santos, na mesma edição de hoje do jornal “O Estado”:

“Ouço pelos quatro cantos o depoimento das pessoas que confessam ter medo”.

“A conversa na cidade é sobre o medo, o pânico, a insegurança”.

Nada tenho nada contra o secretário de segurança. Acredito que ele tenha boa vontade e empenho para resolver o problema da criminalidade, que parece bem maior do que aquele que Jesus Santos pinta em sua crônica. Torço para que o secretário acerte, e rápido, sem precisar tapar o sol com a peneira. As famílias que aqui vivem agradecerão penhoradamente.