sexta-feira, 21 de junho de 2013

Vem pra Lua (o manifesto)



Vem pra Lua que domingo ela flutua alta, cheia, clara, quase nua estirada sobre o Atlântico, debruçada na baía.

Vem pra Lua que domingo ela brilha diferente e cobre a noite de poesia, cada estrela em volta é um vagalume iluminando a rua. Oh, imponente mãe, irmã e tia da razão e da euforia.

Vem pra Lua que domingo ela prateia a Terra com seu facho, faiscante e atrevida, como uma manifestante na avenida gritando que o buraco é mais embaixo.

Vem pra Lua que domingo ela se revolta com a bala de borracha e a pimenta, o azul do dia e o magenta, o céu nublado e o preço da polenta.

Vem que a Lua não é só dos namorados. Vem que a Lua não é do dragão. É de quem ama e protesta. É dos que cantam em voz alta e fazem a festa.

Só os loucos atiram pedras na Lua, esses podem. Porque a Lua mexe, a maré sobe e o juízo desce.

Vem correndo que a Lua não é lugar de vândalo, partido ou globocop. Vem que a Lua tem audiência mas não dá ibope.

Vem pra Lua, a maior de todas, e ouve os cães ganindo pelos becos, o mar de ressaca e o Brasil mais intenso ocupando a praça. Vem logo porque ela é rara.

Vem pra Lua e grite alto por um bilhete único no ônibus espacial, pelo passe livre em discos voadores, contra o aumento da tarifa no táxi lunar. Não é pelos 20 centavos. É pelos 20 anos que outra Lua assim vai demorar.

Chega de arquibancada, é hora de entrar em campo pra vencer. Sem patrão, sem Fifa. Fora o cartola! Viva a cartolina!

Chega de ficar em casa deitado no conforto do quarto minguante. Vem pra Lua Cheia. Vem!

domingo, 16 de junho de 2013

O poeta que roubava a cena



Há mais de 12 semanas na lista dos mais vendidos da revista “Veja” com o livro “Toda poesia” (Companhia das Letras, 2013), o poeta Paulo Leminski, acostumado da janela a atirar flechas no calcanhar dos passantes, virou nos últimos anos o autor preferido nas citações das redes sociais. Numa combinação rara de humor, fina ironia, amargura sem culpa e uma boa dose de inventividade, o autor de “Caprichos & relaxos” (editora Brasiliense, 1983) deixou pelo caminho um rastro de inquietação que, outrora perdido em meia dúzia de livros nas mãos de uns gatos pingados, hoje se acha com facilidade no vasto mundo da internet. “Não discuto com o destino/ O que pintar eu assino”. Assim o curitibano, morto aos 44 anos, segue pelas redes “assinando” o que deve e, mais ainda, o que não deve – há ruído em excesso atribuído equivocadamente a ele, entre mensagens de autoajuda, frases evangélicas e versos piegas.

“Toda poesia” pode servir de bússola para o redescobrimento da obra poética de Leminski. Com apresentação de Alice Ruiz, a companheira de quase todas as viagens do poeta, o livro não tem a cereja insípida de um best-seller estrangeiro, mas leva na capa o confeite de uma grande editora, com tiragem expressiva e distribuição profissional. Turbinado pelo sucesso que o autor experimenta nas redes sociais, o livro tem a cara dessa geração que pela internet compartilha do espirro ao luto: é leve, ligeiro, pode ter a leitura iniciada por qualquer página e os mais de 600 poemas seguramente resistem ao tempo pela originalidade, irreverência e, em alguns casos, pelo lirismo. Sem cerimônia, a poesia embalada de Leminski desbancou nas livrarias o fenômeno de vendas “Cinquenta tons de cinzas” e suas derivações.



Não obstante os “pangarés tentando correr na primeira raia”, Paulo Leminski optaria por uma antologia mais discreta, avessa ao ranking das vendas. Fleumático, preferiria chegar em seu corcel negro sem ser notado. Mas da catacumba o poeta deu um salto pop e se aboletou na exígua sala de estar das celebridades, numa espécie de dança dos famosos da literatura. O polaco black meio zen, meio-a-meio, está despido em “Toda poesia”, uma babel distraída infestada de lampejos, de drops e do quase haikai que ele traficava livremente para o Brasil. Desfilam pelas páginas do livro a forma direta, às vezes o coloquial, o trocadilho, aquela percepção enxuta e desencanada do cotidiano. Com seus motins ensaiados, o poeta se enfeita e ao mesmo tempo se enquadra:

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada

depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg

por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores


Paulo Leminski Filho foi um gerador de polêmicas, um poeta com legado insuspeito, nascido a 24 de agosto de 1945, naqueles tempos de estilhaços de final de guerra. Ensaiou os primeiros passos nas letras como professor de redação e história nos cursinhos da capital paranaense. Dava aulas e submergia na leitura. Mas foi na publicidade que se encontrou de vez com a poesia em estado de ebulição. Fez bicos em agências, transformou o teaser da propaganda no ganha-pão do poema e foi se erguendo aos trocos & barrocos. Do flerte com o oriente surgiu o samurai sem mestre que alcançou a faixa preta no judô.


Leminski e Alice Ruiz

A revista “Invenção”, esteio do movimento concretista dos irmãos Campos e de Décio Pignatari, foi o berço literário de Leminski. De lá saíram seus primeiros suspiros. Embora convivesse afetiva e profissionalmente com a célula tronco da poesia concreta, Leminski esboçava um DNA mais libertino, não carregava em tempo integral o rigor e a forma do concretismo. Pegou o bonde andando da “Invenção” e talvez por isso tenha sido fisgado por uma poesia mais sonora e visual, escrachada, nua em pelo. Como um transeunte urbano, pegou carona no modernismo remanescente de Oswald de Andrade, desembarcou na deselegância concreta de Sampa e bebeu no gargalo o vinho da poesia marginal mimeografada dos anos 1970. Em “Toda poesia”, a individualidade é o eixo da trama poética, do ponto de partida à bandeira de chegada.

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas


Com um rio vermelho inflamável correndo nas veias, Paulo Leminski foi um múltiplo tonitruante que guardou a mansidão dos tempos de seminarista adolescente no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, onde se aproximou do latim. Leu em inglês, francês, grego, japonês e mais alguma coisa. Leu Maiakoviski em russo. Traduziu Joyce, Fante, Mishima e Lennon. E escreveu as biografias de Cruz e Souza, Bashô, Leon Trótski e Jesus Cristo.

“Catatau” foi o romance experimental que em 1975 lançou o autor na fogueira das evidências. O livro distingue, na opinião do poeta baiano Antônio Risério, o ponto mais alto e denso do poder leminskiano de criação textual. Em prosa cometeu também “Agora é que são elas”, “Guerra dentro da gente” e outros ensaios. Em 2001, foi biografado em “Paulo Leminski, o bandido que sabia latim” (editora Record), livro do jornalista Toninho Vaz, amigo e colega de profissão.

“Toda poesia” reúne poemas dos livros “Quarenta clics em Curitiba”, “Caprichos & relaxos”, “Distraídos venceremos”, os póstumos “La vie en close” (1991), “O ex-estranho” (1996) e “Winterverno” (2001) e alguns trabalhos esparsos publicados em livros independentes lançados pelo autor antes da estreia em selo nacional (editora Brasiliense) em 1983.

Ora era exigente, talhado no capricho: “Um poema/que não se entende/ é digno de nota/ a dignidade suprema/ de um navio/ perdendo a rota”. Ora era lambada, relaxo descabelado: “Esta vida é uma viagem/ Pena eu estar/ Só de passagem”. Leminski não levava o país a sério. “O Brasil, para mim, é uma abstração jurídica com a qual nada tenho a ver. Gostaria de pertencer a uma nação onde eu pudesse ser patriota”. Considerava a poesia de Ferreira Gullar e Afonso Romano de Sant’Anna retórica, discursiva, média e baseada em lugares-comuns. Nem mesmo Gabriel Garcia Márquez escapava da língua afiada do poeta. Jorge Amado era apenas um redator que “desovava uma besteira, um best-seller todo ano”.


Leminski entre Caetano Veloso e Moraes Moreira

Tinha uma relação de dependência quase física com a música. Letrista bissexto, cultivava amizade com compositores estrelados da MPB. Com Caetano Veloso escreveu “Verdura”, música do disco “Outras palavras” (1981). São dele também as letras de “Xixi nas estrelas”, com Guilherme Arantes, “Mudança de estação”, com A Cor do Som, “Se houver céu”, com Paulinho Boca de Cantor, “Promessas demais”, parceria com Moraes Moreira gravada por Ney Matogrosso, e “Dor elegante”, com Itamar Assumpção, depois gravada por Zélia Duncan, entre outras músicas.

Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Chegasse mais adiante

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa, um milhão de dólares
Ou coisa que os valha

Ópios, edens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra


Paulo Leminski evitava o caminho da poesia engajada e acreditava muito pouco em qualquer possibilidade de vanguarda, em porta-bandeira de causas aflitivas ou opositivas. Por ele, era cada um na sua. Poesia - assim como a roupa que se veste, a comida e o itinerário - não se tira de uma teta nem é pra ser feita com compromisso como quem tem hora marcada no consultório ou numa passeata. Não pode ser datada. “O escritor não tem tempo. Escrevo para ser lido por Ramsés II ou por algum biônico que vai nascer daqui a 1200 anos”. Havia um toque de que “a ideologia de um verso socialista não era o bastante para botar sal numa sopa para dois”, lembrado pelo poeta e jornalista Rodrigo Garcia Lopes.

“Toda poesia” é esse eficiente veneno antimonotonia de cabeceira, pra se consumir sem moderação. O livro é a gota d’água que faz chover no piquenique das conveniências, que mata a sede no deserto de qualquer estante, das livrarias abarrotadas de souvenir. Expõe um Leminski completo na poesia impressa e na vida e na alma impregnadas em cada verso. Na obra se percebe claramente que Leminski “não usava métrica, mas uísque” em seu labor intelectual.

O poeta era considerado uma espécie de malandro cosmopolita, um kamikaze inspirado nos devaneios etílicos que gostava de rock e venerava a geração beat. Viveu intensamente o underground da sua aldeia natal e pôs os pés no mundo. “Os Titãs são o que restou do rock, suas letras são o que restou de um país falido, um vice-país vice-governado, vice-feliz, vice-versa”. Foi num show da banda paulista sua última aparição em público.

A cirrose foi o inevitável corta-luz de um rito de passagem desregrado, extremado, “a vida por um fio, Leminski por um fígado”. Sete de junho de 1989: “Poeta com poesia se mata”. Dizia que a beleza era didática, que sem ela o artista estava morto. Paulo Leminski, como no poema de Emily Dickinson, morreu por beleza. Pela beleza de sua poesia, “toda poesia”.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Sem botão, no tempo, no topo, no chão (parte 3)


Papete na foto da contracapa do LP "Bandeira de Aço"

Em boa hora, o projeto BR 135, capitaneado por Alê Muniz e Luciana Simões, presta uma merecida homenagem aos 35 anos do lendário LP “Bandeira de Aço”, uma coletânea de músicas de compositores maranhenses gravada por Papete em 1978. Em show marcado para hoje no Teatro Arthur Azevedo, o BR 135 faz uma releitura do repertório e do arranjo do disco, com interpretações de Bruno Batista, Madian, Flávia Bittencourt, Dicy e Afrôs, além da dupla Criolina. O show é também uma celebração a Papete e aos autores das nove faixas do LP.

“Bandeira de Aço” foi um desses ventos buliçosos soprados na música popular brasileira na década de 1970 com o surgimento do selo independente Discos Marcus Pereira. São nove músicas no disco: “Boi da Lua”, “Flor do mal” e “Bandeira de Aço”, de César Teixeira; “Catirina”, “Dente de ouro”, “Engenho de flores” e “De Cajari pra Capital”, de Josias Sobrinho; “Boi de Catirina”, de Ronaldo Mota; e “Eulália”, de Sérgio Habibe. Gravado no estúdio Sonima, em São Paulo, com a participação dos músicos Carlão (viola de 12 cordas), Otacílio (contrabaixo), Sérgio Mineiro e Márcio Werneck (flauta), o disco fora produzido pelo próprio Papete (violão, percussão, voz e arranjo).

Criado extraoficialmente em 1967 pelo publicitário Marcus Pereira, o selo foi um divisor de águas na divulgação da música brasileira de qualidade, estranha ao circuito comercial das grandes gravadoras. Foram mais de 140 álbuns lançados em quase 15 anos de pesquisa e identificação de autores e gêneros inéditos ou relegados ao esquecimento, entre eles Paulo Vanzolini, Banda de Pífanos de Caruaru, Quinteto Violado, Renato Teixeira, Nara Leão, Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara. Foi pelo selo Marcus Pereira que Cartola gravou o seu primeiro disco, aos 66 anos.

Três anos antes de “Bandeira de Aço”, Papete já havia lançado pela Marcus Pereira o LP “Berimbau e percussão”, com oito faixas de autoria do próprio Papete, Théo de Barros e Manoel Onça. “Quando começamos a discutir o seu segundo disco [“Bandeira de Aço”], logo ficou claro que o melhor caminho seria mostrar ao Brasil aquela enorme riqueza escondida de São Luís do Maranhão. Ela aqui está, revelada pelo talento ímpar de Papete”, escreveu Marcus Pereira na contracapa do LP.

Na apresentação de “Bandeira de Aço”, Marcus Pereira conta que, numa viagem a São Luís para aproveitar as festas do final do ano de 1976, fora convidado por compositores locais para uma “reunião boêmia” no bairro da Madre Deus. E confessa que assistiu, perplexo, ao desfile de “composições surpreendentes” de Carlos César (o César Teixeira), Josias, Ronaldo e Sérgio Habibe. Outro maranhense, porém, já era velho conhecido de Marcus Pereira. Naquele mesmo ano de 1978 Chico Maranhão lançara também pelo selo Marcus Pereira o LP “Lances de agora”, com “Pastorinha”, “Ponto de fuga”, “Velho amigo poeta”, “Ponta d’Areia”, entre outras pérolas. No LP também estava a faixa “Cirano”, que já havia sido gravada em outro disco do selo Marcos Pereira, de Chico Maranhão e Renato Teixeira, de 1969. Sobre “Lances de agora”, Marcus Pereira fora categórico: “Merece um seminário para debate e penitência”.

Em meio aos problemas pessoais e de ordem profissional, Marcus Pereira acabou se suicidando em 1981. A Discos Marcus Pereira foi absorvida pela Copacabana Discos, que também fechou as portas na década de 1980. Todo o acervo da Marcus Pereira então foi comprado pela EMI e atualmente está sob a posse da Microservice, incluindo os discos de Papete e Chico Maranhão.

Em depoimento ao jornal “O Estado do Maranhão” de 1985, reproduzido no livro “Almanaque Guarnicê” (Clara Editora e Edições Guarnicê, 2003), Papete conta que o projeto, em 1978, era fazer mais um disco autoral de percussão. “Mas mudei de ideia para registrar o trabalho desse pessoal”.

Alguns anos depois de lançado, e contrariando os preceitos da jornada quase espartana de Marcus Pereira, “Bandeira de aço” gerou uma crise entre intérprete e compositores. O pomo da discórdia: a participação dos autores na venda do disco. Papete tomou conhecimento pelos jornais de que Josias Sobrinho e César Teixeira cobravam dele e do espólio de Marcus Pereira direitos autorais sobre as músicas do LP.

- Foi um disco que não vendeu nada. Ele pode ter tocado muito aqui (no Maranhão), mas se vendeu cinco mil cópias isso não representa nada. A Marcus Pereira, antes de ser uma gravadora, era uma fundação. Ela não tinha fins lucrativos, nunca gravou discos para vender, para ter lucro. Ela sempre gravou com o intuito de valorizar a cultura popular. Eles não entenderam isso. Acharam que deveriam receber grana pelo disco e não aceitaram as minhas explicações – disse Papete ao Guarnicê.

Ante o ziguezague que encobriu o acervo do selo Marcus Pereira, as diferenças entre Papete e os compositores se dissiparam com o tempo. O LP “Bandeira de Aço” é reconhecido como uma das melhores e mais importantes produções de música regional do Brasil e faz um recorte inteligente e original da cultura popular maranhense da segunda metade do século 20. O disco, depois lançado em CD pela EMI com tiragem limitada, faz parte da história. “Este disco é uma surpresa. Como certamente serão os que forem gravados com compositores fiéis aos valores das regiões em que vivem”, declarou Marcus Pereira, que tinha Papete na conta de um “irmão, afilhado e amigo”.

domingo, 26 de maio de 2013

Churrascaria no domingo

Ir à churrascaria no domingo é um desafio do primeiro ao último ato do programa. Sofro por antecipação, perco a fome antes mesmo de sair de casa, como que tomado por um bloqueio psicológico. Ainda assim me rendo ao convite da turminha aqui de casa que se realiza num prato de picanha. Não todo domingo, claro, mas pelo menos a cada aparição do cometa Halley eu assumo esse compromisso com a criançada na boa.

Churrascaria é meio um estádio de futebol, aqueles marmanjos vestidos com suas camisas do time preferido, fila pra entrar e gente falando alto. Com uma diferença: no estádio se come de maneira mais civilizada. Repare que o freguês contumaz de churrascaria vai a um rodízio como quem vai a um jogo e torce sem cerimônia contra o dono da casa. Sente prazer em comer demasiadamente, mesmo sem vontade, só pra ver o adversário derrotado, no prejuízo. E, qual um torcedor que deixa o estádio aos gritos de felicidade pela vitória do time, o freguês sai do almoço arrotando, contando vantagem para os amigos. Com o detalhe de que torcedores raramente externam sua barbárie.

Na churrascaria o tormento começa mesmo na mesa. Almoço, a rigor, é um ritual de bocas fechadas em processo de mastigação do alimento, demorado, pontuado aqui e ali por conversas sutis. No rodízio, você olha em volta e a impressão que se tem é a de que a clientela toda acabou de voltar da seca de 1930. O garotinho ao lado com um imenso pedaço de carne na boca e uma coxa de frango no garfo não disfarça o apetite e ainda zomba da irmã que não o acompanha na corrida contra o tempo. Sim, em churrascaria comer rápido é uma questão de método. Parece que que aqueles espetos todos vão desaparecer em minutos e que, portanto, não basta somente comer todas as carnes, é preciso devorá-las antes do apagão.

Voltando ao garotinho, já quase sem fôlego e empapuçado de tanta carne e gordura, por orientação da mãe ele faz uma trégua relâmpago na guerra que trava com a comida para entornar meio litro de Coca-Cola. O resultado é imediato e, refeito da quase congestão diante da família, ele empunha novamente os talheres e grita pelo garçom, que lhe empurra mais meio quilo de maminha no prato.

Fico embrulhado com o que vejo, mas não me entrego, afinal o nosso cometa Halley só vai passar de novo daqui a uns dois ou três meses. Com os garçons cruzando espetos gigantes sobre os meus ombros, aquela carne escorrendo sangue como se o boi acabasse de ser abatido ali no estacionamento da churrascaria, tento me esquivar como posso de um talho de faca nas costas ou no rosto. A salmoura descendo pelo canto da boca da madame que acabou de sentar na mesa da frente me devolve a náusea, porém resisto bravamente canalizando a energia que me resta para apreciar a desenvoltura do garotinho glutão.

As carnes de churrascaria são tantas e de tantos nomes que me perturbo na escolha. Vou no trivial para não arriscar entre o gato e a lebre. “O senhor aceita o javali?”. Olho desconfiado pro bicho e, pela aparência, percebo que a oferta está bem maior que a procura. “Prove, o senhor vai gostar”, insiste o garçom. “Não, obrigado”. O dócil javali fica pra uma outra partida. Saio com aquela sensação de quem está sendo observado pela clientela veterana da churrascaria, que me põe na conta de um torcedor cujo time, freguês por excelência, perdeu mais uma vez, e de goleada, para o dono da casa.

domingo, 19 de maio de 2013

De susto, de bala ou vício (parte 2)

Ou eu não entendo bem o que diz o secretário estadual de segurança do Maranhão ou ele consegue tropeçar nas palavras toda vez que tenta explicar a profusão de crimes no estado. Há poucos dias disse ele na imprensa que o ambiente de insegurança vivido no Maranhão é artificial. Hoje, em entrevista ao jornal “O Estado do Maranhão”, ele afirma com todas as letras que o “alto índice de homicídios não mostra a realidade”. Como assim “não mostra a realidade”? Muitas pessoas morrendo todos os dias não são parâmetro então para o modelo de segurança do secretário? Essa violência aterradora que mata, assalta, sequestra... não é parâmetro? Segundo ele, as estatísticas do crime hoje estão todas associadas à disputa de grupos de traficantes de drogas em São Luís. Será? Bom, e se for de fato? Isso muda o quadro? A violência é menor porque se restringe a uma gincana marginal?

Eu respondo com trechos da crônica do talentoso artista plástico Jesus Santos, na mesma edição de hoje do jornal “O Estado”:

“Ouço pelos quatro cantos o depoimento das pessoas que confessam ter medo”.

“A conversa na cidade é sobre o medo, o pânico, a insegurança”.

Nada tenho nada contra o secretário de segurança. Acredito que ele tenha boa vontade e empenho para resolver o problema da criminalidade, que parece bem maior do que aquele que Jesus Santos pinta em sua crônica. Torço para que o secretário acerte, e rápido, sem precisar tapar o sol com a peneira. As famílias que aqui vivem agradecerão penhoradamente.

O triunfo do cisne

Certa vez, em pleno palco, um bailarino russo torceu o calcanhar num desses rodopios de balé e foi parar no hospital. Ao examinar o raio X, o médico constatou que a estrutura anatômica do pé do bailarino era semelhante ao sistema ósseo de um pássaro. O médico, meio assombrado, disse que não se admiraria se um dia o bailarino viesse a voar. O bailarino russo era Vaslav Nijinsky, um dos principais nomes da história da dança, polêmico, de personalidade ambígua, alma atormentado, gênio e esquizofrênico. Nas suas inúmeras apresentações pelo mundo, no auge da sua forma física, fez do balé o seu voo nupcial, o seu casamento com o palco, a sua conexão com Deus, ele considerado o próprio “deus de sapatilhas”.

Assim como Nijinsky, bailarinos como Diaghilev, Anna Pavlova, Nureyev e Baryshnikov revolucionaram a dança com seus passos mágicos e fizeram do balé uma arte quase divina. Na segunda-feira 13, São Luís anoiteceu com uma espécie de revoada russa sobre o palco do Teatro Arthur Azevedo para festejar antecipadamente o aniversário de 65 anos do cronista Pergentino Holanda. Em cena, o Balé Nacional da Rússia apresentando “O Lago dos Cisnes” para uma plateia de convidados ilustres do aniversariante.

O Balé Nacional da Rússia, ao lado do Bolshoi, é uma das principais escolas de talento da dança internacional e por isso mesmo deixou o público maranhense de queixo caído durante cerca de duas horas e meia de apresentação. São Luís nunca viu nada igual nessa combinação de coreografia, iluminação, figurino e música. Jamais uma plateia se demorou por tanto tempo, perplexa e aparentemente extasiada no silêncio, diante da técnica e dos saltos de 40 bailarinos que pareciam desafiar a lei da gravidade com seus passos alados.

Não é preciso ser um conhecedor profundo ou frequentador assíduo dos grandes espetáculos de balé – e, por razões óbvias, o público maranhense não o é – para se encantar com a apresentação da companhia russa. Porque os bailarinos prendem a atenção do começo ao fim pelo movimento intenso, são viçosos na criatividade. E também porque “O Lago dos Cisnes”, do compositor russo Tchaikovsky, entrou para a história pelo clássico enredo que envolve sedução, magia e amor trágico em torno do príncipe Siegfried e da princesa Odette. Não é simplesmente um balé, mas uma obra de arte secular que cativa, sem fronteiras, o mais bárbaro dos homens. Originalmente dividido em quatro atos, “O Lago dos Cisnes” foi apresentado em São Luís em dois atos, os dois primeiros e os dois últimos mesclados no mesmo bloco, identificados somente pelo rápido fechamento e abertura da cortina.

E como não se deixar prender também pela música de Tchaikovsky, arrebatadora e envolvente, cheia de mistérios e evoluções que enfeixam com estupenda precisão o balé dramático dos cisnes? Mesmo sem uma orquestra de câmara a ditar pelas cordas do violino o compasso dos dissabores vividos por Siegfried e Odette, o som direto do teatro faz acompanhar os altos e baixos de um coração em escala. Nenhuma alma embrutecida haverá de resistir ao cortante “Cisne Negro” ou ao sopro de felicidade em “Swan Lake 38 no 21 danse espagnole”.

Um evento no teatro que une a Companhia do Balé Nacional da Rússia com seus dançarinos meticulosos e voadores, “O Lago dos Cisnes” e o gênio musical de Tchaikovsky não é uma comemoração de aniversário, mas uma celebração engenhosa, com a assinatura de quem aprendeu a se surpreender. Falei com PH por algumas vezes nos dias que antecederam o espetáculo, e o vi aflito como se aquele fosse o seu evento de estreia. Um esmero desmedido, uma atenção especial aos detalhes, ao refinamento para receber o lendário balé e o seu séquito de convidados.

Para alguns poucos, a apresentação do “Lago dos Cisnes” no Teatro Arthur Azevedo pode até ter parecido uma história longa e delirante, sem diálogo, exaustiva. Mas não para os amigos do PH, como Ceres Murad, que não titubeou ao dizer a ele, no foyer do teatro, que por aquela casa nunca havia passado um espetáculo tão virtuoso. “O maior e melhor de todos”, deixou escapar Ceres, conhecedora sagaz da arte pelo mundo. PH comemorava não só o aniversário, mas a sua volta ao Teatro Arthur Azevedo, do qual foi diretor no final da década de 1970 e de onde foi vitimado pela intolerância míope do maniqueísmo forjado durante o regime militar. Naquela noite se deu o triunfo do cisne, que hoje comemora de fato os seus 65 anos. Parabéns, Pergentino.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Sem botão, no tempo, no topo, no chão (parte 2)


O alquimista Fabão: tempero musical eclético

O contato entre a agulha e o vinil, ali sem fechadura eletrônica, cria a sensação de liberdade plena do som, um acasalamento de tamanha intimidade capaz de espicaçar a imaginação de voyeurs e castos. Mesmo no volume zero da vitrola é possível sentir a música em vibração. Ouvir LPs é redescobrir o movimento que o CD camufla ao girar acelerado demais na bandeja, é dar voltas no tempo. Só o vinil tem o lado B. E é o lado B da música que tem me empurrado para os bolachões mais improváveis.

Nessa recente cruzada analógica, sem muito esforço acabei virando alvo de boas doações. A mais emblemática delas veio do publicitário Fábio Gomes, o amigo Fabão. Convidado há pouco mais de uma semana por Adriana para um jantar, Fabão soube por ela da minha vitrola nova e chegou à nossa casa com um discreto envelope em papel de presente. Dentro havia o LP “Frutificar”, título lançado pela banda A Cor do Som em 1979. Agradeci pela lembrança e pus logo a tocar “Abri a porta”, “Beleza pura”, “Swingue menina” e outros sucessos do disco, enquanto falávamos sobre a onda retrô que volta e meia toma de assalto a cultura pop. De gosto apurado e sensibilidade extravagante, Fabão é maranhense do Olho d’Água, mas virou um desses mundanos do Morumbi e da Vila Madalena, depois de intercâmbios nos Estados Unidos, quatro anos gazeando aula de Economia em Genebra para se fartar de literatura nos arredores da Suiça e uma temporada de invenções publicitárias em Curitiba.

Ao perceber que a minha alegria com o LP não se desmanchava na evolução da conversa, Fabão disse então que o disco da Cor do Som era apenas parte do presente. E me surpreendeu ao sacar da mala do carro duas caixas enormes abarrotadas de LPs. Eram quinhentos discos, todos extremamente conservados em sacos plásticos especiais, catalogados um a um, separados por categoria musical. A vinilteca que ele levou anos para montar e cuidar agora era toda minha. A reação inicial foi um misto de alegria e receio. Receio da responsabilidade de levar adiante uma jornada com o mesmo requinte de zelo, o mesmo apego. Será que eu conseguiria? Como poderia recusar aquilo que de certa forma eu buscava no varejo, e que naquele momento caía no meu colo no atacado?

Fabão não me deixou escolha. Agora os LPs eram meus. Só me fez algumas recomendações: se um dia eu decidisse me desfazer dos discos, que fosse do acervo completo, de uma vez, e não a retalho; e que só passasse adiante para alguém com o mesmo compromisso de conservação e afeto. Fiz um juramento no improviso, topei o desafio e, daquele jantar em diante, me transformei no mais fiel depositário de uma obra heterogênea e abundantemente valiosa.

Mas o que há de tão especial nesse acervo, afinal, que requer tanta cerimônia? Os títulos são variados e, pelo volume, não daria para nomeá-los todos neste texto. Mas faço um exercício rápido advertindo que entre os LPs não há um melhor que o outro. Cada disco tem a sua história. Reflete a realidade do momento em que foi gravado. Não há uma ordem de importância. “Berra-boi”, por exemplo, é um álbum do Quinteto Violado datado de 1973, ou seja, um disco de 40 anos que parece ter sido gravado ontem, tanta é a agudeza poética e melódica em faixas como “Beira de estrada”, “De uma noite de festa”, “Minha ciranda” e “Cavalo marinho”, que se encaixa tão bem aos dias de hoje. Também de 1973 é o LP “Vivência”, da Banda de Pau e Corda, com texto de apresentação de Gilberto Freyre na contracapa.

“Às Próprias Custas S.A.” é um vinil meio cor-de-rosa translúcido que contém gravações ao vivo de Itamar Assumpção e a sua banda Isca de Polícia. De 1983, o disco tem clássicos como “Negra melodia”, de Jards Macalé e Waly Salomão; “Vide verso meu endereço”, de Adoniran Barbosa; e o reggae “Fico louco”, do próprio Assumpção. “Sampa midnight – isso não vai ficar assim” é outro disco de Itamar Assumpção, de 1986, que consta da lista de preciosidades guardadas por Fabão.



Grandes orquestras internacionais e luxuosas coleções de jazz e blues lançadas por selos como Abril Cultural ilustram a vinilteca sem fronteiras que chegara à minha casa pelas mãos de um amigo. E ainda John Coltrane, Miles Davis, Tom Waits, Sade, Raíces de América, Morrisey, Tarancon, Joan Baez, Jacob do Bandolim & Waldir Azevedo, Vítor Assis Brasil, Hermeto Pascoal, Baden Power, Heraldo do Monte e Cama de Gato.

No meio dos discos está o primeiro LP gravado por Martinho da Vila, de 1969, com apresentação de Romeo Nunes, contendo os sambas “Quem é do mar não enjoa”, “Tom maior”, “O pequeno burguês” e “Pra que dinheiro”. “A história de Hollywood através da música” faz um passeio pelas trilhas sonoras de dezenas de clássicos do cinema, como “Era uma vez... o Oeste”, “Perversa Paixão” e “A Noviça Rebelde”. O LP “Brasil” é outra quase miragem, de 1981, com João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia interpretando pérolas como “Aquarela do Brasil”, “Milagre” e “Disse alguém”.

E o que dizer então de “Samba na madrugada”, de Paulinho da Viola e Elton Medeiros, gravado em 1968? Por ele falam algumas músicas célebres como “O sol nascerá”, “Jurar com lágrimas”, “Sofreguidão” e “Arvoredo”. Certos cometas da música, como a banda Obina Shock, também fazem parte do acervo. O grupo, formado por filhos de diplomatas africanos em Brasília e mais uns três músicos brasileiros amigos de turma na UnB, gravou dois LPs: o primeiro deles, em 1986, que trouxe a música “Vida”, com a participação de Gilberto Gil e Gal Costa, e outros hits como “Lambarine”; o segundo, “Sallé”, foi lançado em 1988.

Nas caixas de Fabão, que ainda estou desbravando, encontrei também o LP “Dandá”, de Gerônimo, um dos precursores do emergente samba-reggae baiano da década de 1980, autor de coisas simples e prazerosas de se ouvir como “Jubiabá”, “Lambada da delícia” e “Namoro”, faixas presentes no disco. Outro achado, no meio de tantas capas, é um LP gravado por Zezé Motta em 1978 (consagrada internacionalmente dois anos antes como atriz pela atuação em “Xica da Silva”). O disco, o segundo na carreira de Zezé Motta, tem um valor histórico pelo capricho na produção de Liminha e pelos arranjos memoráveis em faixas como “Muito prazer Zezé” (de Rita Lee e Roberto de Carvalho), “Magrelinha” (de Luiz Melodia) e “Babá Alapalá” (de Gilberto Gil).



Não poderia faltar no acervo de Fabão certas raridades da música produzida no Maranhão no século passado, como um LP do grupo Nonato e Seu Conjunto, “O som e o balanço de Nonato”, de 1975. Gravado nos Estúdios Reunidos, de São Paulo, o disco animou bailes e estourou nas rádios regionais durante anos com os chicletes “Cafua”, “Tambor de crioula” e “A pamonha do José”.

Não ouvi tudo e ainda estou me acostumando com o desafio. Mas passo horas contemplando esse patrimônio. Meu olhar se perde nas capas. Como eram inventivas, algumas delas verdadeiras obras da arte gráfica! Os encartes saltam de dentro do LP como uma extensão do esmero estético. Nesse aspecto, o CD não foi suficientemente preparado para competir com o vinil, o formato não ajuda.

Ouvindo aqui e ali, nos intervalos em que me permito escapar da televisão e do computador, penso que discos são como livros. Contam histórias, há um quê de literatura em certas obras musicais. Alguns discos são prosa; outros, poesia. “Jubiabá” de Gerônimo remete ao romance homônimo de Jorge Amado. As cirandas do Quinteto Violado fazem um recorte sutil da pena de Ariano Suassuna. Ouvir Tom Waits é como ler uma página dos contos soturnos de Edgar Allan Poe.

E qual o valor de um disco já usado? Não há como mensurar. Usado não é velho, e velho é apenas uma questão de referência cronológica. Meus discos de hoje, alguns deles comprados em sebo, como o Adriano Discos, foram de outras pessoas, pertenceram a outros personagens, e por isso têm alma, como têm alma os livros de sebos e bibliotecas. A alma do primeiro ou segundo dono, talvez gravada lá atrás numa fita K7, ficou gravitando penada no LP, esteja ou não o nome escrito na capa, haja ou não um carimbo, um símbolo ou uma etiqueta de loja. E valor mesmo é coisa da matéria.

Vou seguindo com o meu diletantismo, o meu regalo novo. Adriana já não sabe mais onde arrumar espaço em casa para os LPs, que precisam ser guardados na vertical, em estante apropriada. Ainda assim, com o vinil copulando pelos cantos, não pretendo me livrar tão cedo dos CDs. Esses bichos também têm alma. E um dia eles ainda vão ser vintage.