sexta-feira, 3 de maio de 2013

Sem botão, no tempo, no topo, no chão (parte 1)



Lá no comecinho dos anos 1990 comprei um CD player da Phillips na Mesbla e fui deixando de lado a vitrola com as centenas de discos de vinil que compunham um bom acervo de títulos, alguns meus, a maioria deles dos meus irmãos mais velhos. A travessia para o som digital aconteceu de maneira gradativa, meio desconfiada, até me converter de vez à modernidade quando a indústria fonográfica, por volta de 1995, deixou de produzir em grande escala os discos de acetato. A velha vitrola, abandonada no canto da sala, restou obsoleta, sem utilidade, logo doada a uma oficina de eletrônicos. Os LPs e compactos ficaram guardados na casa dos meus pais, no quarto dos fundos. Sem esperança, alguns discos tomaram rumo ignorado, partiram sem deixar vestígio, outros se mutilaram com arranhões fatais ou foram parcialmente devorados pela larica de fungos entorpecidos.

Ao longo dos anos fui acumulando CDs, os mais variados estilos, da MPB ao rock, do blues à lambada e ao encostelado zouk, do reggae ao clássico, do tambor de crioula ao samba, ao jazz. Frequentei promoções das Lojas Americanas, garimpei em viagens e comprei pela internet. Nunca fui um colecionador, do tipo que armazena selos, figurinhas e moedas para exibição. Não guardei música. Música é para ser apreciada todos os dias, sem moderação.

Acontece que o som digital, com suas invenções em mp3, mp4, aplicações para iPods e celulares, quebrou a hegemonia do CD e desencadeou essa praticidade de se ouvir música no banheiro, na cozinha, no carro, na academia, no avião, nas caminhadas, no trabalho. No varejo da internet, enquanto a música digital tem levado o CD ao tatame, alguns apreciadores da boa música começaram a fazer o caminho de volta ao vinil. No Brasil, há cerca de três anos a indústria se reanimou, discos antológicos estão sendo relançados em vinil e artistas e bandas passaram a gravar suas músicas também em LP.

O longplay completa uma série de artigos clássicos do século passado – além de roupas, automóveis, alguns eletrodomésticos etc. - que os tempos modernos elegeram como vintage. E esse flerte com o passado tem o seu preço. Via de regra são produtos ainda caros nas lojas. Na Livraria da Travessa, no Rio, ou na Livraria Cultura, em São Paulo, o novo longplay nacional custa em média oitenta reais.

Também comecei a fazer o caminho de volta. Há dois meses comprei no Mercado Livre uma pequena vitrola modelo Ion Quick Play e depois fui me reencontrar com o vinil. Voltei ao quarto dos fundos e revirei as prateleiras mofadas até me deparar com algumas raridades que jamais ouvi em CD. Tem sido uma experiência quase terapêutica, uma viagem no tempo prazerosa que exige paciência e antialérgicos nesse ritual de passagem.

Discos antigos, por mais bem guardados que estejam, absorvem a poeira dos anos. O sol e a poeira acumulada são os maiores vilões do LP. O primeiro passo foi lavar os discos com água e sabão, retirando na ponta dos dedos as pequenas crostas com o cuidado necessário para não molhar o rótulo de identificação do vinil. Depois comecei a ouvi-los um a um, faixa por faixa, até reconhecê-los, decifrá-los outra vez. Vieram também os presentes de amigos, alguém que tinha um LP sobrando em casa, um Elomar Figueira Mello encostado, um Ramones solitário na estante, um Pablo Milanés desgarrado no guarda-roupa.

Foi no bairro do João Paulo, porém, que me vi perdido em meio a tantos discos de vinil. Na loja Adriano Discos, um sebo localizado numa travessa da avenida São Marçal, há uma profusão de LPs para todos os gostos. Das trilhas sonoras de novelas da Globo às antologias de grupos de bumba-meu-boi do Maranhão, os discos estão espalhados em todos os cantos, do chão ao teto, alguns em bom estado, outros nem tanto. São aproximadamente 24 mil títulos, entre LPs e compactos simples, segundo conta o seu Adriano, um senhor simpático que há mais de 30 anos vive de vender e comprar discos de vinil. Um LP de Black Sabbath, Iron Maiden, ACDC, Deep Purple, Sex Pistols ou qualquer outro nome do rock custa dez reais. Os outros discos – isso mesmo, seu Adriano faz essa distinção mirabolante! – ficam em cinco reais cada.


Seu Adriano: sebo com mais de 24 mil discos de vinil

De tudo que juntei, entre os discos antigos recuperados, os presentes de amigos, alguns poucos novos comprados e a feira que fiz no sebo do seu Adriano, cada um tem a sua história. Ouvir um LP não é como ouvir um CD. O LP não tem aquele botão pra mudar de faixa, não há um controle remoto pra virar o disco de lado. Não basta sentar na poltrona. É preciso ficar ali perto da vitrola fitando os rótulos da Ariola, da Phillips, da RCA Victor, da Som Livre, da Copacabana, da Polydor. As rotações por minuto não tocam no som do carro.

O vinil é mais fiel, dizem os entendidos. O som, mais puro. É pra se ouvir em casa, sozinho ou em boa companhia, uma garrafa de vinho, contemplando as capas, folheando os encartes, o braço torto da vitrola alcançando a primeira faixa, a agulha em espiral beijando as milimétricas ranhuras do disco. A música mexe com o estado de espírito, faz imaginar. Se o disco está muito gasto, o chiado cria o seu próprio charme, a poesia inventada no atrito.

domingo, 28 de abril de 2013

O garoto e seu cavalo prateado


Lembra do Carlinhos? A última década do milênio passado tem um pouco da história do Carlinhos. Foi nos anos 90, na escalada de maturação da Constituição de 1988, que se começou a falar com mais entusiasmo de cidadania e meio ambiente, dos direitos da criança, do adolescente e do consumidor e do respeito aos idosos. Do respeito a muitos Carlinhos.

Em 1997 apareceu Carlinhos na tela da TV girando num carrossel do parque de diversões. A televisão rodava junto com Carlinhos e o Brasil não era mais o mesmo. O mundo não era o mesmo. Porque tudo acontecia ao mesmo tempo e em quase toda parte. Carlinhos era a aldeia em movimento, em ebulição. O que poderia ser apenas mais uma propaganda bem feita para uma instituição cheia de boas intenções acabou se transformando no ícone de uma geração meio sem rumo, assombrada com a profusão de mudanças sociais e tecnológicas.

Carlinhos não falava nada no comercial da TV. Nem precisava. Apenas girava galopando em seu cavalo prateado enquanto a música “Fake plastic trees”, de uma quase desconhecida banda britânica Radiohead, nos deixava atônitos no sofá da sala fitando o rodopio do garoto que de tão vivo parecia tão feliz. E ali ele era a felicidade.

As legendas falavam lentamente no compasso da música do Radiohead. Espetavam a alma num jogo duvidoso. O comercial falava de um Carlinhos e mostrava dois garotos no carrossel. Os dois nas mesmas cenas em preto e branco enquanto o letreiro advertia: “Carlinhos vai à escola todos os dias. O amigo dele, não”. Um dos meninos em cena era portador da Síndrome de Down; o outro, não. A propaganda se propunha basicamente a pregar o respeito aos portadores de Down, sem panfleto ou proselitismo oficial. Diferentemente dos comerciais de sabonete ou sabão em pó, a mensagem fazia o público pensar. Era provocadora.

A legenda continuava: “Carlinhos faz natação todos os dias. O amigo dele, não”. Ninguém sabia qual dos dois era o Carlinhos, apesar das suspeitas do senso comum. “Carlinhos tem aulas de piano. O amigo dele, não”. E vinha a revelação, enquanto a câmera fechava no garoto com Síndrome de Down: “Ei, este é o Carlinhos”. Em seguida a câmera enquadrava o outro garoto com a seguinte legenda: “E este é o amigo dele. Ele é um menino de rua”. O comercial chegava ao fim com o letreiro: “Milhares de crianças no Brasil precisam de sua ajuda. Os portadores da Síndrome de Down só precisam do seu respeito”. E o arremate: “Down, a pior síndrome é a do preconceito”.

O filme publicitário, contratado pela Fundação Síndrome de Down, foi criado pela agência DM9DDB e figura hoje como uma das peças mais marcantes e populares da propaganda brasileira. A música “Fake plastic trees”, que fala da fraquezas humanas ante as superficialidades da matéria, de amores artificiais, ainda hoje é cultuada como a trilha sonora do Carlinhos. O desfecho da letra, “se eu pudesse ser quem você procura o tempo todo”, é a senha de uma geração que, ainda bem, não encontrou o eixo. A banda Radiohead, que cedeu os direitos da música para uso no comercial da Fundação Síndrome de Down, vendeu discos aos borbotões e ganhou uma legião de admiradores no Brasil.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

De susto, de bala ou vício?


A insegurança é artificial, eu sei, uma fantasia tola inventada talvez pelos fracos, canto delirante de inocentes que se fingem de mortos quando atacados em suas casas que não deveriam ter grades, quando vítimas de assaltos invisíveis nos becos. A insegurança é absolutamente artificial, ninguém sabe onde nem quando ela aparece feito uma virgem canônica, as câmeras penduradas nos postes não flagram temores e as gravações em videoteipe não alcançam um revólver falso com o seu estampido de espoleta.

Não existe a insegurança. Tanto falam, mas ninguém a vê de fato simplesmente porque ela não está no meio de nós. A insegurança é apenas o ópio dos covardes, gente de fé miúda, de poucas mãos levantadas aos céus. É artificial a insegurança assim como é artificial a inteligência de um povo que acredita em delegacias abarrotadas, sequestros relâmpagos, chacinas, crimes de encomenda, latrocínios e outras crendices dolosas.

A insegurança é tão artificial que não resiste sequer ao sussurro de uma polícia igualmente artificial. E como a insegurança é a própria falsidade manipulada em laboratório, soldos nos bancos e coturnos nas ruas são uma miragem programada em computadores de camelôs coreanos.

A bala alojada na cabeça de uma senhora que caminhava na lagoa era um projétil sem teto, sem brevê e com pouca autonomia de voo. Escapuliu de uma pistola de brinquedo que por acaso foi cair nas mãos de um jovem tão artificial quanto a insegurança que assombra poltrões à luz do dia. Mas fica decretado que é proibido ter medo da própria sombra, afinal a insegurança é prima-irmã da assombração.

Se existiu, a insegurança morreu de morte natural. O obituário está nos jornais de hoje. Não houve crime, não existem suspeitos ou provas de disparos, estilhaços ou qualquer cheiro de pólvora, não restaram vestígios do boletim de ocorrências. A insegurança repousa agora no seu sepulcro artificial.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Um grito de alerta pelos Awá Guajá



Não queria sair da universidade com aquela sensação de quem ao final de tudo resumiria a vida acadêmica, como era de praxe, ou continua sendo, sei lá, numa laudatória monografia recheada de citações dispersas e de correntes teóricas que não saciavam a sede do meu entusiasmo pelo jornalismo. Eu queria mais. Queria compensar um tempo perdido ou talvez justificar os dez anos cheios de hiatos deixados por greves, pela militância no movimento estudantil e por uma assiduidade pífia em sala de aula em razão dos compromissos profissionais assumidos desde muito cedo. Decidi então que escreveria não uma tese costurada por aspas de gente que jamais li, mas um livro reportagem. Fui o primeiro a correr o risco no curso de Comunicação Social da UFMA, a enfrentar o paredão de uma banca acostumada a julgar mais as referências bibliográficas penduradas em galhos de enciclopédias do que as ideias apanhadas do chão pelos próprios alunos.

Mesmo decidido a fazer um livro reportagem, me faltava ainda um tema instigante, uma história pra escarafunchar de verdade e me convencer do peso da responsabilidade de contá-la. Foi o amigo acreano Moisés Matias quem me falou pela primeira vez dos índios Awá Guajá. Falou pouco, me passou ideias vagas acerca de um povo das florestas do Maranhão que estava ameaçado de extinção. E tinha lido em algum lugar que eram índios nômades.

Pronto. Ali estava a pauta perambulando solta, quase virgem e afoita, à espera de uma atenção, de um afago. Moisés me dera a pista, troquei alguns dedos de prosa com o professor Nilson Matos, meu orientador no trabalho de conclusão do curso, disparei alguns telefonemas, marquei entrevistas e saí em busca de informações. Quatro meses de levantamento de dados, contatos com antropólogos e ativistas e mergulho em leituras. Formei um acervo de boas fontes, como o saudoso padre italiano Carlo Ubbiali, o antropólogo Mércio Pereira Gomes e o sertanista Sydney Possuelo, entre mais de quarenta pessoas entrevistadas.

A parte mais importante do trabalho era o encontro com os índios. Depois de algumas tentativas frustradas de receber autorização da Funai para entrar na área indígena dos Awá Guajá, em setembro de 1995 tomei o caminho da clandestinidade e, depois de uma viagem de trem até Auzilândia seguida de longa caminhada pelo mato e mais algumas horas de lancha por rios e igarapés, cheguei finalmente à aldeia Txipatxiá. Comecei então a decifrar, depois daquela primeira viagem, um recorte do mundo dos Awá Guajá. Observei muito, fiz anotações, me surpreendi com o que vi e ouvi e em muitos momentos me emocionei. Fotografei como um amador encantado. Muitas imagens hoje um tanto descoradas pela ação do tempo, muitas visões. Aquele era o meu primeiro olhar para dentro de um Brasil profundo. Foram duas semanas em duas viagens.

Concluí o livro e o apresentei em janeiro de 1996 à banca examinadora, que o recomendou para publicação pelo selo da editora da Universidade Federal. “Guajá, a odisseia dos últimos nômades” só fora publicado pela EDUFMA em 1998.

O livro tem para mim um valor sentimental inescapável. Retrata aquela experiência que não se mede. Talvez o escrevesse hoje com outra pena, outra pegada, mas com o mesmo alumbramento. O canto karawaiã dos Guajá quase sempre triste como o lamento do índio Irakatakoa ainda toca o meu ouvido. Estive no meio deles e fiz parte da karawarakaia, festa de preparação espiritual para a caça, um ritual raro que enaltece a força, a resistência e coragem dos bons caçadores e invade a madrugada. Ouvi de perto o tupi-guarani enraizado de Meraketxiá e Txipatxiá, os índios mais velhos da aldeia, símbolos de resistência daquele povo.

Classificados pela ong Survival International como a tribo indígena mais ameaçada do mundo, os Awá Guajá correm os mesmos riscos como há 18 anos, quando lá estive. Suas terras continuam alvo da cobiça de madeireiros, agropecuaristas e grileiros. O livro “Guajá, a odisseia dos últimos nômades” serviu de fonte de consulta para que o juiz federal José Carlos Madeira decidisse, em 30 de junho de 2009, pela tão esperada demarcação da terra Awá. A decisão histórica, contudo, ainda braceja em meio às procrastinações da justiça brasileira. Os invasores persistem nas terras dos índios transformando árvores frondosas em mobília nobre e, com o barulho da motosserra, espantando a caça para cada vez mais longe. Nos últimos dois anos, a Survival dedica-se a espalhar o seu grito de alerta pela Europa em apoio ao povo Awá Guajá. Até jogadores do famoso clube de futebol Chelsea já brandiram o lema “Salve os Awá”. O Brasil, por enquanto, desconhece essa luta.

“No coração da mata
Gente quer prosseguir
Quer durar
Quer crescer
Gente quer luzir”


Trechos do livro

A situação dos Guajá é preocupante. São índios acostumados com muita terra para perambular livremente. Há uma ameaça constante de extermínio físico e cultural. A história do povo Awá Guajá está diretamente relacionada com a trajetória de muitas populações indígenas que chegaram a ser exterminadas no início da colonização brasileira. Por ter uma origem nômade, os Guajá se resguardam dentro das matas e mantêm características culturais semelhantes aos grupos indígenas da época do Brasil Colônia. Com a diferença crucial de que esses últimos conheciam a agricultura e tiravam dela a mandioca, o milho, a batata, o feijão, o amendoim, a abóbora etc.

A história dos índios no Maranhão é apenas um reflexo da história já contada sobre os índios no Brasil. Com algumas variantes culturais, os índios no Maranhão também foram escravizados, usados como mão de obra em grandes plantações, selvagemente dizimados pela colonização e tiveram suas terras ocupadas ao longo dos anos. As missões religiosas fizeram a sua parte e mutilaram a alma e a cultura de alguns povos.

Quando os colonizadores chegaram ao Maranhão havia cerca de 250 mil índios espalhados por todo o estado. Hoje os dados da Funai anunciam uma população de pouco mais de 12 mil índios. Muitos dos povos encontrados no estado, a partir de 1612, foram extintos, como os Kenkatelê, Kapriekã, Araiose e Sakamekrã. Dos povos originários do Maranhão, sobreviveram apenas os Tenetehara (Guajajara e Tembé), Canela (Apaniekrá e Rankokamekra), Krikati e Gavião. Hoje, somam-se a eles os Urubu-Kaapor, Guajá e os Timbira da Geralda. Esses grupos estão situados em 16 áreas indígenas e dividem-se nos troncos lingüísticos Tupi (Guajajara, Tembé, Urubu-Kaapor e Guajá) e Jê da família dos Timbira (Canela-Apaniekrá, Canela-Rankokamekra, Krikati e Gavião).

As áreas indígenas do Maranhão têm uma superfície aproximada de 1 milhão 653 mil hectares, o que corresponde a cerca de 5% do território do estado. Os Awá Guajá são considerados povos tradicionalmente pacíficos. Atacam somente quando é preciso se defender. Os grupos isolados utilizam apenas o arco e a flecha feitos de fibra de tucum e de taboca. Os grupos contactados pela Funai acrescentaram ao seu convívio o uso de espingardas, facas e facões.

A convivência com outros grupos indígenas hoje pode ser considerada pacífica. No passado houve intensa disputa pelo território com os Urubu-Kaapor e com os Tenetehara. Os violentos confrontos causados pela guerra da Cabanagem, ocorrida entre os anos de 1835 e 1840, no Pará, podem ter sido a causa da migração dos Guajá da região situada entre o baixo Tocantins e o alto Moju para a direção leste. As primeiras notícias da presença dos Guajá nas matas do Maranhão datam de meados do século XIX. O antropólogo Mércio Pereira Gomes afirma em relatório que “é provável que os Guajá fizessem parte, por volta de 1500, junto com outros povos tupi-guarani, de um complexo cultural mais ou menos homogêneo”. Esse complexo seria formado pelos atuais Parakanã, Assurini, Urubu-Kaapor, Amanajós, Anambé, Tenetehara e outros grupos já extintos. Os grupos teriam se dividido em culturas específicas devido aos danos provocados pela colonização portuguesa no baixo Amazonas.

Desde a criação do primeiro posto indígena no Maranhão, em 1913, o Serviço de Proteção ao Índio (o antigo SPI, que depois deu origem à Funai) tomou conhecimento da existência dos Guajá. A população estimada era de aproximadamente 600 índios. Com o início dos anos 1930 essa população aumentou significativamente e chegou a quase mil índios na década de 1950. Estudos históricos contam que esse aumento se deu por quedas demográficas entre os Guajajara, Tembé e Urubu-Kaapor, tradicionais “inimigos” dos Guajá, provocadas por diversas epidemias. Mas os Guajá tiveram que enfrentar outra situação adversa. Vários lavradores provenientes dos vales dos rios Mearim e Itapecuru e de cidades do interior do Nordeste, tangidos pela seca, iniciaram a ocupação de terras nos vales dos rios Pindaré, Caru e Gurupi, área tradicional de perambulação dos índios. Os confrontos foram suficientes para reduzir drasticamente a população Guajá.

Algumas tentativas isoladas de contato foram feitas até o início da década de 1970. Mas foi em março de 1973 que uma equipe de funcionários da Funai e a antropóloga Valéria Parise fizeram oficialmente o primeiro contato com um grupo de 13 índios Guajá, na parte alta do rio Turiaçu. Pouco tempo depois foi criado o posto indígena Guajá, na área Alto Turiaçu, onde também vivem os índios Urubu-Kaapor.

Os contatos intensificaram-se de lá para cá e hoje existem cerca de 200 índios* registrados pela Funai e vivendo em aldeias próximas aos postos indígenas. Cada posto é assistido por um chefe, um enfermeiro e mais dois ou três funcionários. José Damasceno** está à frente do posto Awá há um ano, mas já havia trabalhado com os Guajá em épocas passadas. Além de televisão com parabólica, o posto conta também com geladeira, fogão e rádio-amador.

Hoje os índios ocupam os vales dos rios Gurupi, Turiaçu, Caru e Pindaré e estão espalhados também pelas serras do Tiracambu e da Desordem, na Reserva Biológica do Gurupi. Os grupos Guajá são formados por uma média de seis famílias e reúnem aproximadamente 30 pessoas. As aldeias de Txipatxiá e da reserva Alto Turiaçu, devido ao longo tempo de contato com a Funai, já extrapolaram esse "limite". Vivem basicamente da caça, da pesca e da coleta de frutos e armam seus acampamentos nas proximidades dos babaçuais. Da palmeira do babaçu, além da palha para cobrir os tapiris, retiram o coco para a alimentação.

Percebe-se logo que os grupos já integrados à Funai apresentam níveis razoáveis de aculturação. Os índios que permanecem isolados na mata preservam as características originais do povo Guajá.

- Hoje os índios Guajá contactados não querem andar nus. Por influência do branco, eles procuram estar sempre de roupa na comunidade, a não ser quando estão tomando banho de rio. As roupas são doadas por nós – diz o técnico da Funai.

Não existe chefe nas comunidades Guajá. As decisões são sempre tomadas em conjunto, por homens e mulheres. Na aldeia próxima ao posto de Damasceno prevalece a liderança informal dos índios Txipatxiá e Meraketxiá, que é o casal mais idoso. Essa "liderança" entre os Guajá é baseada em conceitos de bravura, de coragem. E a caça tem um significado para eles de tradição, respeito e virilidade. Txipaxiá e Meraketxiá são ouvidos e respeitados em tudo o que se refere aos interesses da aldeia. Meraketxiá, além de conselheira, atua como a parteira e todos a chamam de mãe na comunidade.

Os Guajá, ao contrário do povo Guajajara, não se pintam. Também não existe a figura do curandeiro ou pajé. A alimentação preferida é o macaco capelão e guariba, a cobra jibóia, o jabuti, a farinha de mandioca, o peixe e algumas frutas. Quando os índios voltam da caça, dividem o que foi coletado entre todos da aldeia. Não usam sal nos animais que trazem da caça, apenas nos peixes. A pesca do mandi, da sardinha, da piranha, do surubim e da arraia é feita com flecha ou anzol. Na aldeia de Txipatxiá utiliza-se o fósforo e panelas de alumínio para o preparo da comida.

- Se durante a caça eles abatem uma guariba que tem filhote, trazem o filhote para a aldeia e criam como se fosse um membro da família - informa o chefe do posto Awá.

As crianças brincam e, eventualmente, ajudam no plantio da mandioca ou caçam pequenas aves. Os homens, quando estão nus, amarram o prepúcio com fibra feita da palmeira do tucum. As índias amamentam os seus filhos até os 4 anos de idade. Amamentam também os filhotes de macaco, porco do mato, cutia e outros mamíferos de sua criação. Os funcionários da Funai dizem que os índios têm esses animais como parte da família.

A mulher Guajá casa-se com 6 ou 7 anos de idade. Desde cedo ela é "prometida" a alguém da família. Casa-se com um índio já adulto e passa a dormir com ele. A relação sexual, no entanto, acontece somente depois da primeira menstruação da índia. A mulher menstruada fica a maior parte do tempo deitada e não pode tocar nas armas dos índios.

- É pra não dá azar - explica o índio Takamã.

Os homens só casam depois de adultos, quando começam a participar dos grupos de caça. O índio pode ter mais de uma mulher. Em alguns casos, a mulher também pode ter mais de um marido. Na aldeia próxima ao posto Awá, quando Mereketxiá morrer, a pequena Yauatraí, que é sua neta, de aproximadamente 12 anos, se casará com Txipatxiá.

Depois que o homem Guajá casa, todo o resultado de seu trabalho é destinado à família da mulher. As índias ajudam na caça, na retirada de lenha, na plantação de mandioca e no preparo da farinha, além de cuidarem da casa. A comida é feita tanto pelo homem como pela mulher. Há um detalhe, porém, com relação às mulheres. Quando têm filhos pequenos, em fase de amamentação, as índias dedicam o tempo a eles, abdicando de outras atividades.

Chega a noite. É hora de ir à aldeia conhecer um pouco mais sobre os índios. A picada que nos leva aos Guajá é estreita e a escuridão da noite lembra uma longa madrugada. Durante a caminhada, o medo de onça e cobras é aparente.

O único ritual que movimenta a cultura Guajá é a realização da karawarakaia, uma espécie de preparação espiritual para a caça, em noite de lua cheia. Os homens cobrem parte do corpo com pena de gavião, usam pena de tucano nos braços e no cocar. Dançam e cantam dentro e fora de uma cabana coberta de palha, a takaia. A família reverencia o caçador ajudando-o a cantar. Quando o dia amanhece, saem para a caça e só voltam para a aldeia depois de semanas ou meses. Eles utilizam também o canto karawaiã e a dança em noites de reunião ou de festa na aldeia.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Virando a página


Vamos começar virando a página. Há um livro pesando nos ombros cheio de verdades, suave e terno, realista demais, às vezes dramático demais. É só um livro com suas verdades recortadas na página. Mas não o rasgue porque não se rasga esse papel que desbota naturalmente com o tempo. Quase sem vida, ele ainda respira e fala sozinho e nos conta coisas e nos surpreende, apesar de tudo. Não o amasse tanto, não o jogue fora, não o descarte. Reutilize dele o que for preciso, as notas de rodapé, o prefácio caso queira, recicle os principais parágrafos se necessário, grife os trechos mais marcantes e ria das passagens mais bizarras, do vexame, das mancadas. Ponha o espumante pra gelar, faça algumas ligações, esqueça as promessas do revéillon passado, não se encha de culpa e conte as horas. Vamos lá, chegou o momento de virar a página do ano, sem pressa.

Não espere muita coisa da loteria, não dê ouvidos aos astros nem a mão direita à cigana. Namore com a sorte, mas não confie nela tanto, não se apegue demais ao acaso. É só um ano que passa, nada mais. Não demora muito e a página fica pra trás com aqueles motins de alegria dentro da gente, as rebeliões distraídas e a guerra civil que não cessa. Não demora quase nada e uma contagem no calendário se inicia na alma cheia de fé, aquela que acredita que o mundo se reinventa em janeiro. É muita responsabilidade para o primeiro dia do ano, a primeira hora, o primeiro vento.

Refaça os números de sua aposta no futuro sem depositar todas as moedas na sorte, desenhe um novo itinerário, saia do roteiro previsível, deixe-se perder de vez em quando, invente outra trilha. A vida continua e as oferendas ao mar não vão mudar o curso das águas. Não é a cor da roupa nova que vai transformar você noutra pessoa, numa pessoa nova, diferente. É você quem faz a cor do seu destino. Cada ano é tão curto e tão intenso que atravessá-lo inteiro já é um presente.

Estamos quase lá e a página precisa ser virada. O ano precisa virar. A vida pode virar à meia-noite. E não depende de roupa nova. Amanhã não demora. E o que fazer com os rascunhos de última hora? Dor de cabeça, insônia, ansiedade, tensão, monotonia, falta de inspiração, mal de amor, medo, melancolia, saldo bancário. Pra onde levar essas sobras de texto? Na primeira manhã do ano experimente andar na praia, os pés na areia desviando do lixo das festas e das caravelas, a cortina de navios que rouba parte do infinito, o vento varrendo o peso das preocupações, dissipando as nuvens carregadas. Qualquer barquinho basta, qualquer vela colorida é uma festa para os olhos, qualquer arco-íris é uma bossa diferente. Não é com lexotan, prozac, energético, dieta, academia ou banho de sal grosso que se escreve uma página nova. Experimente andar na praia e deixe as suas pegadas na areia.

Pule aquela onda pequena. Que comece um ano realmente novo daqui a pouco, uma página leve que não amarele na primeira chuva. Que as manhãs não envelheçam, e os dias não descorem na primeira escassez de esperança. Vire a página, mas não vire as costas para o que nela foi escrito com os seus passos e o fardo de erros e acertos. Vamos terminar virando a página logo porque ano novo que atrasa não adianta.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Aonde você vai passar o fim do mundo?


Pensei em ficar em casa acompanhando o noticiário pela CNN, os primeiros destroços nos lugares mais ermos mostrados em tempo real, repórteres enlouquecidos em busca de testemunhas, o comércio fechando as portas. Imaginei sair perambulando pelas ruas em busca de sobreviventes, melhor não, diz o vizinho, ninguém sabe o que pode acontecer, o mundo anda muito agitado. Cogitei arrumar a mochila, algum lugar que não tenha vento forte ou mar, viagem rápida de avião. Mas aí lembrei dos aeroportos lotados, longas filas de embarque e dos capítulos iniciais de Lost.

Uma arca com GPS seria uma mão na roda na travessia, fauna sincera, dragões de fé e um pouco de silêncio na hora da novela, São Jorge à espreita. Jamais recorreria à alma fraca dos Maias de Eça de Queiroz para saber o que tanto querem os maias mesoamericanos nesse final de mundo de amanhã. É fatal mesmo como dizem ou ainda dá pra tirar o nome da lista? Haverá uma primeira leva, uma segunda e terceira? Ou todo mundo vai junto sem sorteio algum, tipo ordem alfabética?

Fui ler com cuidado a profecia e lá está bem claro que o mundo não acaba no início do dia 21, mas ao final dele, já encostando no dia 22, ou seja, temos aí mais algumas horas pra buscar uma saída honrosa. A virada mesmo, aquela tipo réveillon, é de sexta pra sábado e não de quinta pra sexta como a imprensa insiste em nos convidar. E olha que os maias nos apontam dois caminhos: ou sumir do mapa, evaporar, desaparecer de vez e nunca mais pôr os pés no planeta; ou evoluir na consciência de que somos parte do todo, aquele todo mesmo, e que podemos existir em uma era de luz. Entendeu?

Eu sei, é confuso e faltam poucas horas. Parece que o problema todo tá no deslocamento do eixo de rotação da Terra. É uma coisa meio diferente, acho que o último teste foi no dilúvio, só que agora tem a ver com mancha solar e a temperatura cada vez mais alta de Teresina. Para os maias, o nosso desafio de amanhã é atravessar o portão do medo, claro que passando antes pelo salão de espelhos, olho no olho com a nossa alma, o confessionário do último dia, muita gente aguardando uma resposta. Veja que com uma responsabilidade dessa pela frente e o Senado interessado no destino dos royalties do pré-sal. Pode? Segundo os maias, o fim do mundo nada mais é do que o veto à vida. Essas coisas de punição que os parlamentares não engolem. Não evolui, não produz, não consegue existir numa era iluminada, alguém vai acabar vetando algo maior, a existência, a matéria, sabe lá.

O sexto ciclo solar, de acordo com a profecia maia, começa no sábado e não tem hora pra acabar. Como assim, o mundo então vai ter uma segunda chamada, uma prova de recuperação, uma repescagem? O risco, meu caro, é o portão do medo que dá acesso livre à sala de espelhos. E não é assim em grupo, todo mundo de uma vez furando fila. O teste é individual com questões discursivas sobre autoconhecimento, vida pregressa no condomínio, frequência vibratória elevada, a respiração da galáxia, o “tempo-do-não-tempo” e outras coisas que você só encontra no Google mesmo.

Lenda ou não, o mundo de alguma forma vai sofrer um abalo amanhã. E não é por falta de aviso. O calendário maia há muito pede uma providência, clama por uma mudança de atitude. O que os mais birrentos ainda não entenderam é que a cura do planeta depende de uma consciência coletiva. O dia fora do tempo está dentro de cada um. O juízo final, como o próprio nome diz, é a última instância, tipo o voto do Joaquim Barbosa. Não há mais como recorrer.

Aonde passar, afinal, o dia de amanhã? Em casa, no porão, no clube, no meio da rua? Quem sabe na praia de Copacabana... Talvez não, os fogos de artifício podem parecer o primeiro sinal, e aí o tumulto se forma, ninguém se concentra e o fim do mundo acaba acontecendo antes da hora marcada. Na dúvida, ando lendo “1.000 lugares para conhecer antes de morrer”, de Patricia Schultz (Editora Sextante), em busca de alguma dica. Das 729 páginas, nem cheguei à metade. Passeei pelo Saara marroquino, subi o Himalaia, tomei chá em Machu Picchu, me hospedei num hotel de gelo na Suécia e avistei as ruínas maias de Palenque, no México. Por enquanto só pistas falsas. Mas acho que vou até o fim. E com que roupa?

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A igreja da minha infância


O domingo era um dia especial na minha infância em Barra do Corda. Acordava de uma noite embalada pelos sonhos carregados pela ansiedade de chegar logo a luz da manhã. Cedo começava a minha missão de acólito da Igreja Matriz. Durante certo tempo, fiz o caminho de casa à igreja, ambas na mesma rua, com dedicação fervorosa. Eu era um pequeno voluntário que até adoecia se não chegasse a tempo de ajudar a paróquia na missa do domingo. Vivia aquela inocente convicção de que sem mim a celebração não existia.

A igreja foi a principal referência das cidades do interior. E naqueles tempos essa referência parecia maior na impressão de um menino. O monumento de pé-direito exuberante dialogava com a praça Melo Uchoa florida de girassóis e acácias e suas palmeiras imperiais imensas. A torre alta, que se via ao longe de qualquer ponto da cidade, parecia um desenho caprichoso de Deus no caderno do colégio Pio XI. A arquitetura, o mosaico, os bancos de madeira em duas fileiras, os vitrais coloridos e aquelas gravuras de santos e passagens bíblicas na parede me fascinavam. Não era um lugar qualquer. Era a igreja da minha infância. E em tudo havia motivo de contemplação.

Fui um acólito aplicado, um coroinha devotado, bem como foram os amigos Denes, Rogério, Pedrinho, Roberto e outros que não lembro o nome, todos sob a orientação quase celestial de frei Jesualdo Lazzari. Tínhamos o papel de auxiliar o padre no ministério do altar. O ofício guardava as suas regalias. A batina vermelha com uma faixa azul na cintura nos dava um certo status. A igreja estava sempre cheia nas manhãs de domingo e, para o nosso contentamento escancarado, as mães levavam suas filhas de roupa nova e cheirando a alfazema para a fila da comunhão. Era o momento mais esperado, quando tínhamos enfim a chance de um contato mais próximo com o nosso alvo semanal. Olho no olho era o bastante, mãos ligeiramente trêmulas naquela fração de segundos. Tempo suficiente para o padre entregar a hóstia, enquanto um de nós apoiava a bandeja abaixo do queixo da menina – era assim para que não houvesse perda nas sobras do pão sagrado. O ritual durava uma eternidade na nossa cabeça. As hóstias que restavam da missa sumiam da sacristia e milagrosamente recheavam horas depois o nosso piquenique à beira do rio.

Mas antes de tudo havia outro rito prazeroso. O primeiro sinal da missa era o convite dos sinos que badalavam da torre da igreja e varavam as ruas da cidade. Aos dez anos de idade, me pendurava nas cordas dos sinos com a mesma desenvoltura com que saltava do alto da ponte do rio Corda. Era uma farra que exigia uma certa perícia de moleque. Não bastava pendurar-se nas cordas. Era preciso conhecer a cadência de cada nota de sino. Para as missas da semana, soavam dois sinos, com apenas um toque cada, alternando sequencialmente. Na missa do domingo ou em dias de celebração especial, tocávamos todos os sinos ao mesmo tempo. O segredo estava na cadência mais lenta das primeiras badaladas. Se morria alguém na cidade, eram dois sinos, que alternavam cada um em três toques sequenciais, com pausas fúnebres bem curtas – desse ritual eu pulava fora, inventada uma desculpa e ia pra casa calado na companhia solitária do meu medo.

Depois do sino, emendávamos da vitrola as músicas de Padre Zezinho pelo serviço de alto-falante que também ecoava da torre da Matriz para toda a cidade. Ninguém, naqueles tempos, deixou de ser alcançado no domingo por canções católicas como “Cidadão do infinito”, “De novo penso em Deus”, “Um certo Galileu”, “Hoje é domingo”, “Utopia”, “Maria da minha infância” e “Um dia uma criança me parou”, entre outras mais que a memória guardou no passado. São hinos da minha vida, e o catecismo na vida de muita gente. As músicas deixavam um clima de oração espalhado pela cidade, um certo cheiro de paz.

Ia todos os dias à missa e cheguei ao posto intermediário da carreira missionária quando assumi a “presidência” do clube dos acólitos. Sem combinar nada com os meus pais, planejei entrar para o seminário, passo inicial do sacerdócio. Corria longe a fama do time de futebol dos seminaristas. E nas poucas vezes que eles participavam da missa de domingo, entravam na igreja com pinta de celebridade. Mas o período que vivi em Barra do Corda foi mais curto que a minha pouca vocação.

Além de saber de cor e salteado o texto de celebração da missa, aprendi muito na minha rápida e intensa experiência de igreja. A Matriz de Barra do Corda foi também a minha casa, me ajudou a ser criança, me encheu de fé e me fez entender o valor da família e dos amigos. Os sermões de frei Jesualdo eram uma espécie de bálsamo da simplicidade, a fortuna de esperança da gente humilde. Falava direto ao coração das pessoas. A vida ficava mais plena. Por tudo isso, as manhãs de domingo têm esse sabor especial da infância que não quero esquecer.