domingo, 28 de abril de 2013

O garoto e seu cavalo prateado


Lembra do Carlinhos? A última década do milênio passado tem um pouco da história do Carlinhos. Foi nos anos 90, na escalada de maturação da Constituição de 1988, que se começou a falar com mais entusiasmo de cidadania e meio ambiente, dos direitos da criança, do adolescente e do consumidor e do respeito aos idosos. Do respeito a muitos Carlinhos.

Em 1997 apareceu Carlinhos na tela da TV girando num carrossel do parque de diversões. A televisão rodava junto com Carlinhos e o Brasil não era mais o mesmo. O mundo não era o mesmo. Porque tudo acontecia ao mesmo tempo e em quase toda parte. Carlinhos era a aldeia em movimento, em ebulição. O que poderia ser apenas mais uma propaganda bem feita para uma instituição cheia de boas intenções acabou se transformando no ícone de uma geração meio sem rumo, assombrada com a profusão de mudanças sociais e tecnológicas.

Carlinhos não falava nada no comercial da TV. Nem precisava. Apenas girava galopando em seu cavalo prateado enquanto a música “Fake plastic trees”, de uma quase desconhecida banda britânica Radiohead, nos deixava atônitos no sofá da sala fitando o rodopio do garoto que de tão vivo parecia tão feliz. E ali ele era a felicidade.

As legendas falavam lentamente no compasso da música do Radiohead. Espetavam a alma num jogo duvidoso. O comercial falava de um Carlinhos e mostrava dois garotos no carrossel. Os dois nas mesmas cenas em preto e branco enquanto o letreiro advertia: “Carlinhos vai à escola todos os dias. O amigo dele, não”. Um dos meninos em cena era portador da Síndrome de Down; o outro, não. A propaganda se propunha basicamente a pregar o respeito aos portadores de Down, sem panfleto ou proselitismo oficial. Diferentemente dos comerciais de sabonete ou sabão em pó, a mensagem fazia o público pensar. Era provocadora.

A legenda continuava: “Carlinhos faz natação todos os dias. O amigo dele, não”. Ninguém sabia qual dos dois era o Carlinhos, apesar das suspeitas do senso comum. “Carlinhos tem aulas de piano. O amigo dele, não”. E vinha a revelação, enquanto a câmera fechava no garoto com Síndrome de Down: “Ei, este é o Carlinhos”. Em seguida a câmera enquadrava o outro garoto com a seguinte legenda: “E este é o amigo dele. Ele é um menino de rua”. O comercial chegava ao fim com o letreiro: “Milhares de crianças no Brasil precisam de sua ajuda. Os portadores da Síndrome de Down só precisam do seu respeito”. E o arremate: “Down, a pior síndrome é a do preconceito”.

O filme publicitário, contratado pela Fundação Síndrome de Down, foi criado pela agência DM9DDB e figura hoje como uma das peças mais marcantes e populares da propaganda brasileira. A música “Fake plastic trees”, que fala da fraquezas humanas ante as superficialidades da matéria, de amores artificiais, ainda hoje é cultuada como a trilha sonora do Carlinhos. O desfecho da letra, “se eu pudesse ser quem você procura o tempo todo”, é a senha de uma geração que, ainda bem, não encontrou o eixo. A banda Radiohead, que cedeu os direitos da música para uso no comercial da Fundação Síndrome de Down, vendeu discos aos borbotões e ganhou uma legião de admiradores no Brasil.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

De susto, de bala ou vício?


A insegurança é artificial, eu sei, uma fantasia tola inventada talvez pelos fracos, canto delirante de inocentes que se fingem de mortos quando atacados em suas casas que não deveriam ter grades, quando vítimas de assaltos invisíveis nos becos. A insegurança é absolutamente artificial, ninguém sabe onde nem quando ela aparece feito uma virgem canônica, as câmeras penduradas nos postes não flagram temores e as gravações em videoteipe não alcançam um revólver falso com o seu estampido de espoleta.

Não existe a insegurança. Tanto falam, mas ninguém a vê de fato simplesmente porque ela não está no meio de nós. A insegurança é apenas o ópio dos covardes, gente de fé miúda, de poucas mãos levantadas aos céus. É artificial a insegurança assim como é artificial a inteligência de um povo que acredita em delegacias abarrotadas, sequestros relâmpagos, chacinas, crimes de encomenda, latrocínios e outras crendices dolosas.

A insegurança é tão artificial que não resiste sequer ao sussurro de uma polícia igualmente artificial. E como a insegurança é a própria falsidade manipulada em laboratório, soldos nos bancos e coturnos nas ruas são uma miragem programada em computadores de camelôs coreanos.

A bala alojada na cabeça de uma senhora que caminhava na lagoa era um projétil sem teto, sem brevê e com pouca autonomia de voo. Escapuliu de uma pistola de brinquedo que por acaso foi cair nas mãos de um jovem tão artificial quanto a insegurança que assombra poltrões à luz do dia. Mas fica decretado que é proibido ter medo da própria sombra, afinal a insegurança é prima-irmã da assombração.

Se existiu, a insegurança morreu de morte natural. O obituário está nos jornais de hoje. Não houve crime, não existem suspeitos ou provas de disparos, estilhaços ou qualquer cheiro de pólvora, não restaram vestígios do boletim de ocorrências. A insegurança repousa agora no seu sepulcro artificial.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Um grito de alerta pelos Awá Guajá



Não queria sair da universidade com aquela sensação de quem ao final de tudo resumiria a vida acadêmica, como era de praxe, ou continua sendo, sei lá, numa laudatória monografia recheada de citações dispersas e de correntes teóricas que não saciavam a sede do meu entusiasmo pelo jornalismo. Eu queria mais. Queria compensar um tempo perdido ou talvez justificar os dez anos cheios de hiatos deixados por greves, pela militância no movimento estudantil e por uma assiduidade pífia em sala de aula em razão dos compromissos profissionais assumidos desde muito cedo. Decidi então que escreveria não uma tese costurada por aspas de gente que jamais li, mas um livro reportagem. Fui o primeiro a correr o risco no curso de Comunicação Social da UFMA, a enfrentar o paredão de uma banca acostumada a julgar mais as referências bibliográficas penduradas em galhos de enciclopédias do que as ideias apanhadas do chão pelos próprios alunos.

Mesmo decidido a fazer um livro reportagem, me faltava ainda um tema instigante, uma história pra escarafunchar de verdade e me convencer do peso da responsabilidade de contá-la. Foi o amigo acreano Moisés Matias quem me falou pela primeira vez dos índios Awá Guajá. Falou pouco, me passou ideias vagas acerca de um povo das florestas do Maranhão que estava ameaçado de extinção. E tinha lido em algum lugar que eram índios nômades.

Pronto. Ali estava a pauta perambulando solta, quase virgem e afoita, à espera de uma atenção, de um afago. Moisés me dera a pista, troquei alguns dedos de prosa com o professor Nilson Matos, meu orientador no trabalho de conclusão do curso, disparei alguns telefonemas, marquei entrevistas e saí em busca de informações. Quatro meses de levantamento de dados, contatos com antropólogos e ativistas e mergulho em leituras. Formei um acervo de boas fontes, como o saudoso padre italiano Carlo Ubbiali, o antropólogo Mércio Pereira Gomes e o sertanista Sydney Possuelo, entre mais de quarenta pessoas entrevistadas.

A parte mais importante do trabalho era o encontro com os índios. Depois de algumas tentativas frustradas de receber autorização da Funai para entrar na área indígena dos Awá Guajá, em setembro de 1995 tomei o caminho da clandestinidade e, depois de uma viagem de trem até Auzilândia seguida de longa caminhada pelo mato e mais algumas horas de lancha por rios e igarapés, cheguei finalmente à aldeia Txipatxiá. Comecei então a decifrar, depois daquela primeira viagem, um recorte do mundo dos Awá Guajá. Observei muito, fiz anotações, me surpreendi com o que vi e ouvi e em muitos momentos me emocionei. Fotografei como um amador encantado. Muitas imagens hoje um tanto descoradas pela ação do tempo, muitas visões. Aquele era o meu primeiro olhar para dentro de um Brasil profundo. Foram duas semanas em duas viagens.

Concluí o livro e o apresentei em janeiro de 1996 à banca examinadora, que o recomendou para publicação pelo selo da editora da Universidade Federal. “Guajá, a odisseia dos últimos nômades” só fora publicado pela EDUFMA em 1998.

O livro tem para mim um valor sentimental inescapável. Retrata aquela experiência que não se mede. Talvez o escrevesse hoje com outra pena, outra pegada, mas com o mesmo alumbramento. O canto karawaiã dos Guajá quase sempre triste como o lamento do índio Irakatakoa ainda toca o meu ouvido. Estive no meio deles e fiz parte da karawarakaia, festa de preparação espiritual para a caça, um ritual raro que enaltece a força, a resistência e coragem dos bons caçadores e invade a madrugada. Ouvi de perto o tupi-guarani enraizado de Meraketxiá e Txipatxiá, os índios mais velhos da aldeia, símbolos de resistência daquele povo.

Classificados pela ong Survival International como a tribo indígena mais ameaçada do mundo, os Awá Guajá correm os mesmos riscos como há 18 anos, quando lá estive. Suas terras continuam alvo da cobiça de madeireiros, agropecuaristas e grileiros. O livro “Guajá, a odisseia dos últimos nômades” serviu de fonte de consulta para que o juiz federal José Carlos Madeira decidisse, em 30 de junho de 2009, pela tão esperada demarcação da terra Awá. A decisão histórica, contudo, ainda braceja em meio às procrastinações da justiça brasileira. Os invasores persistem nas terras dos índios transformando árvores frondosas em mobília nobre e, com o barulho da motosserra, espantando a caça para cada vez mais longe. Nos últimos dois anos, a Survival dedica-se a espalhar o seu grito de alerta pela Europa em apoio ao povo Awá Guajá. Até jogadores do famoso clube de futebol Chelsea já brandiram o lema “Salve os Awá”. O Brasil, por enquanto, desconhece essa luta.

“No coração da mata
Gente quer prosseguir
Quer durar
Quer crescer
Gente quer luzir”


Trechos do livro

A situação dos Guajá é preocupante. São índios acostumados com muita terra para perambular livremente. Há uma ameaça constante de extermínio físico e cultural. A história do povo Awá Guajá está diretamente relacionada com a trajetória de muitas populações indígenas que chegaram a ser exterminadas no início da colonização brasileira. Por ter uma origem nômade, os Guajá se resguardam dentro das matas e mantêm características culturais semelhantes aos grupos indígenas da época do Brasil Colônia. Com a diferença crucial de que esses últimos conheciam a agricultura e tiravam dela a mandioca, o milho, a batata, o feijão, o amendoim, a abóbora etc.

A história dos índios no Maranhão é apenas um reflexo da história já contada sobre os índios no Brasil. Com algumas variantes culturais, os índios no Maranhão também foram escravizados, usados como mão de obra em grandes plantações, selvagemente dizimados pela colonização e tiveram suas terras ocupadas ao longo dos anos. As missões religiosas fizeram a sua parte e mutilaram a alma e a cultura de alguns povos.

Quando os colonizadores chegaram ao Maranhão havia cerca de 250 mil índios espalhados por todo o estado. Hoje os dados da Funai anunciam uma população de pouco mais de 12 mil índios. Muitos dos povos encontrados no estado, a partir de 1612, foram extintos, como os Kenkatelê, Kapriekã, Araiose e Sakamekrã. Dos povos originários do Maranhão, sobreviveram apenas os Tenetehara (Guajajara e Tembé), Canela (Apaniekrá e Rankokamekra), Krikati e Gavião. Hoje, somam-se a eles os Urubu-Kaapor, Guajá e os Timbira da Geralda. Esses grupos estão situados em 16 áreas indígenas e dividem-se nos troncos lingüísticos Tupi (Guajajara, Tembé, Urubu-Kaapor e Guajá) e Jê da família dos Timbira (Canela-Apaniekrá, Canela-Rankokamekra, Krikati e Gavião).

As áreas indígenas do Maranhão têm uma superfície aproximada de 1 milhão 653 mil hectares, o que corresponde a cerca de 5% do território do estado. Os Awá Guajá são considerados povos tradicionalmente pacíficos. Atacam somente quando é preciso se defender. Os grupos isolados utilizam apenas o arco e a flecha feitos de fibra de tucum e de taboca. Os grupos contactados pela Funai acrescentaram ao seu convívio o uso de espingardas, facas e facões.

A convivência com outros grupos indígenas hoje pode ser considerada pacífica. No passado houve intensa disputa pelo território com os Urubu-Kaapor e com os Tenetehara. Os violentos confrontos causados pela guerra da Cabanagem, ocorrida entre os anos de 1835 e 1840, no Pará, podem ter sido a causa da migração dos Guajá da região situada entre o baixo Tocantins e o alto Moju para a direção leste. As primeiras notícias da presença dos Guajá nas matas do Maranhão datam de meados do século XIX. O antropólogo Mércio Pereira Gomes afirma em relatório que “é provável que os Guajá fizessem parte, por volta de 1500, junto com outros povos tupi-guarani, de um complexo cultural mais ou menos homogêneo”. Esse complexo seria formado pelos atuais Parakanã, Assurini, Urubu-Kaapor, Amanajós, Anambé, Tenetehara e outros grupos já extintos. Os grupos teriam se dividido em culturas específicas devido aos danos provocados pela colonização portuguesa no baixo Amazonas.

Desde a criação do primeiro posto indígena no Maranhão, em 1913, o Serviço de Proteção ao Índio (o antigo SPI, que depois deu origem à Funai) tomou conhecimento da existência dos Guajá. A população estimada era de aproximadamente 600 índios. Com o início dos anos 1930 essa população aumentou significativamente e chegou a quase mil índios na década de 1950. Estudos históricos contam que esse aumento se deu por quedas demográficas entre os Guajajara, Tembé e Urubu-Kaapor, tradicionais “inimigos” dos Guajá, provocadas por diversas epidemias. Mas os Guajá tiveram que enfrentar outra situação adversa. Vários lavradores provenientes dos vales dos rios Mearim e Itapecuru e de cidades do interior do Nordeste, tangidos pela seca, iniciaram a ocupação de terras nos vales dos rios Pindaré, Caru e Gurupi, área tradicional de perambulação dos índios. Os confrontos foram suficientes para reduzir drasticamente a população Guajá.

Algumas tentativas isoladas de contato foram feitas até o início da década de 1970. Mas foi em março de 1973 que uma equipe de funcionários da Funai e a antropóloga Valéria Parise fizeram oficialmente o primeiro contato com um grupo de 13 índios Guajá, na parte alta do rio Turiaçu. Pouco tempo depois foi criado o posto indígena Guajá, na área Alto Turiaçu, onde também vivem os índios Urubu-Kaapor.

Os contatos intensificaram-se de lá para cá e hoje existem cerca de 200 índios* registrados pela Funai e vivendo em aldeias próximas aos postos indígenas. Cada posto é assistido por um chefe, um enfermeiro e mais dois ou três funcionários. José Damasceno** está à frente do posto Awá há um ano, mas já havia trabalhado com os Guajá em épocas passadas. Além de televisão com parabólica, o posto conta também com geladeira, fogão e rádio-amador.

Hoje os índios ocupam os vales dos rios Gurupi, Turiaçu, Caru e Pindaré e estão espalhados também pelas serras do Tiracambu e da Desordem, na Reserva Biológica do Gurupi. Os grupos Guajá são formados por uma média de seis famílias e reúnem aproximadamente 30 pessoas. As aldeias de Txipatxiá e da reserva Alto Turiaçu, devido ao longo tempo de contato com a Funai, já extrapolaram esse "limite". Vivem basicamente da caça, da pesca e da coleta de frutos e armam seus acampamentos nas proximidades dos babaçuais. Da palmeira do babaçu, além da palha para cobrir os tapiris, retiram o coco para a alimentação.

Percebe-se logo que os grupos já integrados à Funai apresentam níveis razoáveis de aculturação. Os índios que permanecem isolados na mata preservam as características originais do povo Guajá.

- Hoje os índios Guajá contactados não querem andar nus. Por influência do branco, eles procuram estar sempre de roupa na comunidade, a não ser quando estão tomando banho de rio. As roupas são doadas por nós – diz o técnico da Funai.

Não existe chefe nas comunidades Guajá. As decisões são sempre tomadas em conjunto, por homens e mulheres. Na aldeia próxima ao posto de Damasceno prevalece a liderança informal dos índios Txipatxiá e Meraketxiá, que é o casal mais idoso. Essa "liderança" entre os Guajá é baseada em conceitos de bravura, de coragem. E a caça tem um significado para eles de tradição, respeito e virilidade. Txipaxiá e Meraketxiá são ouvidos e respeitados em tudo o que se refere aos interesses da aldeia. Meraketxiá, além de conselheira, atua como a parteira e todos a chamam de mãe na comunidade.

Os Guajá, ao contrário do povo Guajajara, não se pintam. Também não existe a figura do curandeiro ou pajé. A alimentação preferida é o macaco capelão e guariba, a cobra jibóia, o jabuti, a farinha de mandioca, o peixe e algumas frutas. Quando os índios voltam da caça, dividem o que foi coletado entre todos da aldeia. Não usam sal nos animais que trazem da caça, apenas nos peixes. A pesca do mandi, da sardinha, da piranha, do surubim e da arraia é feita com flecha ou anzol. Na aldeia de Txipatxiá utiliza-se o fósforo e panelas de alumínio para o preparo da comida.

- Se durante a caça eles abatem uma guariba que tem filhote, trazem o filhote para a aldeia e criam como se fosse um membro da família - informa o chefe do posto Awá.

As crianças brincam e, eventualmente, ajudam no plantio da mandioca ou caçam pequenas aves. Os homens, quando estão nus, amarram o prepúcio com fibra feita da palmeira do tucum. As índias amamentam os seus filhos até os 4 anos de idade. Amamentam também os filhotes de macaco, porco do mato, cutia e outros mamíferos de sua criação. Os funcionários da Funai dizem que os índios têm esses animais como parte da família.

A mulher Guajá casa-se com 6 ou 7 anos de idade. Desde cedo ela é "prometida" a alguém da família. Casa-se com um índio já adulto e passa a dormir com ele. A relação sexual, no entanto, acontece somente depois da primeira menstruação da índia. A mulher menstruada fica a maior parte do tempo deitada e não pode tocar nas armas dos índios.

- É pra não dá azar - explica o índio Takamã.

Os homens só casam depois de adultos, quando começam a participar dos grupos de caça. O índio pode ter mais de uma mulher. Em alguns casos, a mulher também pode ter mais de um marido. Na aldeia próxima ao posto Awá, quando Mereketxiá morrer, a pequena Yauatraí, que é sua neta, de aproximadamente 12 anos, se casará com Txipatxiá.

Depois que o homem Guajá casa, todo o resultado de seu trabalho é destinado à família da mulher. As índias ajudam na caça, na retirada de lenha, na plantação de mandioca e no preparo da farinha, além de cuidarem da casa. A comida é feita tanto pelo homem como pela mulher. Há um detalhe, porém, com relação às mulheres. Quando têm filhos pequenos, em fase de amamentação, as índias dedicam o tempo a eles, abdicando de outras atividades.

Chega a noite. É hora de ir à aldeia conhecer um pouco mais sobre os índios. A picada que nos leva aos Guajá é estreita e a escuridão da noite lembra uma longa madrugada. Durante a caminhada, o medo de onça e cobras é aparente.

O único ritual que movimenta a cultura Guajá é a realização da karawarakaia, uma espécie de preparação espiritual para a caça, em noite de lua cheia. Os homens cobrem parte do corpo com pena de gavião, usam pena de tucano nos braços e no cocar. Dançam e cantam dentro e fora de uma cabana coberta de palha, a takaia. A família reverencia o caçador ajudando-o a cantar. Quando o dia amanhece, saem para a caça e só voltam para a aldeia depois de semanas ou meses. Eles utilizam também o canto karawaiã e a dança em noites de reunião ou de festa na aldeia.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Virando a página


Vamos começar virando a página. Há um livro pesando nos ombros cheio de verdades, suave e terno, realista demais, às vezes dramático demais. É só um livro com suas verdades recortadas na página. Mas não o rasgue porque não se rasga esse papel que desbota naturalmente com o tempo. Quase sem vida, ele ainda respira e fala sozinho e nos conta coisas e nos surpreende, apesar de tudo. Não o amasse tanto, não o jogue fora, não o descarte. Reutilize dele o que for preciso, as notas de rodapé, o prefácio caso queira, recicle os principais parágrafos se necessário, grife os trechos mais marcantes e ria das passagens mais bizarras, do vexame, das mancadas. Ponha o espumante pra gelar, faça algumas ligações, esqueça as promessas do revéillon passado, não se encha de culpa e conte as horas. Vamos lá, chegou o momento de virar a página do ano, sem pressa.

Não espere muita coisa da loteria, não dê ouvidos aos astros nem a mão direita à cigana. Namore com a sorte, mas não confie nela tanto, não se apegue demais ao acaso. É só um ano que passa, nada mais. Não demora muito e a página fica pra trás com aqueles motins de alegria dentro da gente, as rebeliões distraídas e a guerra civil que não cessa. Não demora quase nada e uma contagem no calendário se inicia na alma cheia de fé, aquela que acredita que o mundo se reinventa em janeiro. É muita responsabilidade para o primeiro dia do ano, a primeira hora, o primeiro vento.

Refaça os números de sua aposta no futuro sem depositar todas as moedas na sorte, desenhe um novo itinerário, saia do roteiro previsível, deixe-se perder de vez em quando, invente outra trilha. A vida continua e as oferendas ao mar não vão mudar o curso das águas. Não é a cor da roupa nova que vai transformar você noutra pessoa, numa pessoa nova, diferente. É você quem faz a cor do seu destino. Cada ano é tão curto e tão intenso que atravessá-lo inteiro já é um presente.

Estamos quase lá e a página precisa ser virada. O ano precisa virar. A vida pode virar à meia-noite. E não depende de roupa nova. Amanhã não demora. E o que fazer com os rascunhos de última hora? Dor de cabeça, insônia, ansiedade, tensão, monotonia, falta de inspiração, mal de amor, medo, melancolia, saldo bancário. Pra onde levar essas sobras de texto? Na primeira manhã do ano experimente andar na praia, os pés na areia desviando do lixo das festas e das caravelas, a cortina de navios que rouba parte do infinito, o vento varrendo o peso das preocupações, dissipando as nuvens carregadas. Qualquer barquinho basta, qualquer vela colorida é uma festa para os olhos, qualquer arco-íris é uma bossa diferente. Não é com lexotan, prozac, energético, dieta, academia ou banho de sal grosso que se escreve uma página nova. Experimente andar na praia e deixe as suas pegadas na areia.

Pule aquela onda pequena. Que comece um ano realmente novo daqui a pouco, uma página leve que não amarele na primeira chuva. Que as manhãs não envelheçam, e os dias não descorem na primeira escassez de esperança. Vire a página, mas não vire as costas para o que nela foi escrito com os seus passos e o fardo de erros e acertos. Vamos terminar virando a página logo porque ano novo que atrasa não adianta.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Aonde você vai passar o fim do mundo?


Pensei em ficar em casa acompanhando o noticiário pela CNN, os primeiros destroços nos lugares mais ermos mostrados em tempo real, repórteres enlouquecidos em busca de testemunhas, o comércio fechando as portas. Imaginei sair perambulando pelas ruas em busca de sobreviventes, melhor não, diz o vizinho, ninguém sabe o que pode acontecer, o mundo anda muito agitado. Cogitei arrumar a mochila, algum lugar que não tenha vento forte ou mar, viagem rápida de avião. Mas aí lembrei dos aeroportos lotados, longas filas de embarque e dos capítulos iniciais de Lost.

Uma arca com GPS seria uma mão na roda na travessia, fauna sincera, dragões de fé e um pouco de silêncio na hora da novela, São Jorge à espreita. Jamais recorreria à alma fraca dos Maias de Eça de Queiroz para saber o que tanto querem os maias mesoamericanos nesse final de mundo de amanhã. É fatal mesmo como dizem ou ainda dá pra tirar o nome da lista? Haverá uma primeira leva, uma segunda e terceira? Ou todo mundo vai junto sem sorteio algum, tipo ordem alfabética?

Fui ler com cuidado a profecia e lá está bem claro que o mundo não acaba no início do dia 21, mas ao final dele, já encostando no dia 22, ou seja, temos aí mais algumas horas pra buscar uma saída honrosa. A virada mesmo, aquela tipo réveillon, é de sexta pra sábado e não de quinta pra sexta como a imprensa insiste em nos convidar. E olha que os maias nos apontam dois caminhos: ou sumir do mapa, evaporar, desaparecer de vez e nunca mais pôr os pés no planeta; ou evoluir na consciência de que somos parte do todo, aquele todo mesmo, e que podemos existir em uma era de luz. Entendeu?

Eu sei, é confuso e faltam poucas horas. Parece que o problema todo tá no deslocamento do eixo de rotação da Terra. É uma coisa meio diferente, acho que o último teste foi no dilúvio, só que agora tem a ver com mancha solar e a temperatura cada vez mais alta de Teresina. Para os maias, o nosso desafio de amanhã é atravessar o portão do medo, claro que passando antes pelo salão de espelhos, olho no olho com a nossa alma, o confessionário do último dia, muita gente aguardando uma resposta. Veja que com uma responsabilidade dessa pela frente e o Senado interessado no destino dos royalties do pré-sal. Pode? Segundo os maias, o fim do mundo nada mais é do que o veto à vida. Essas coisas de punição que os parlamentares não engolem. Não evolui, não produz, não consegue existir numa era iluminada, alguém vai acabar vetando algo maior, a existência, a matéria, sabe lá.

O sexto ciclo solar, de acordo com a profecia maia, começa no sábado e não tem hora pra acabar. Como assim, o mundo então vai ter uma segunda chamada, uma prova de recuperação, uma repescagem? O risco, meu caro, é o portão do medo que dá acesso livre à sala de espelhos. E não é assim em grupo, todo mundo de uma vez furando fila. O teste é individual com questões discursivas sobre autoconhecimento, vida pregressa no condomínio, frequência vibratória elevada, a respiração da galáxia, o “tempo-do-não-tempo” e outras coisas que você só encontra no Google mesmo.

Lenda ou não, o mundo de alguma forma vai sofrer um abalo amanhã. E não é por falta de aviso. O calendário maia há muito pede uma providência, clama por uma mudança de atitude. O que os mais birrentos ainda não entenderam é que a cura do planeta depende de uma consciência coletiva. O dia fora do tempo está dentro de cada um. O juízo final, como o próprio nome diz, é a última instância, tipo o voto do Joaquim Barbosa. Não há mais como recorrer.

Aonde passar, afinal, o dia de amanhã? Em casa, no porão, no clube, no meio da rua? Quem sabe na praia de Copacabana... Talvez não, os fogos de artifício podem parecer o primeiro sinal, e aí o tumulto se forma, ninguém se concentra e o fim do mundo acaba acontecendo antes da hora marcada. Na dúvida, ando lendo “1.000 lugares para conhecer antes de morrer”, de Patricia Schultz (Editora Sextante), em busca de alguma dica. Das 729 páginas, nem cheguei à metade. Passeei pelo Saara marroquino, subi o Himalaia, tomei chá em Machu Picchu, me hospedei num hotel de gelo na Suécia e avistei as ruínas maias de Palenque, no México. Por enquanto só pistas falsas. Mas acho que vou até o fim. E com que roupa?

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A igreja da minha infância


O domingo era um dia especial na minha infância em Barra do Corda. Acordava de uma noite embalada pelos sonhos carregados pela ansiedade de chegar logo a luz da manhã. Cedo começava a minha missão de acólito da Igreja Matriz. Durante certo tempo, fiz o caminho de casa à igreja, ambas na mesma rua, com dedicação fervorosa. Eu era um pequeno voluntário que até adoecia se não chegasse a tempo de ajudar a paróquia na missa do domingo. Vivia aquela inocente convicção de que sem mim a celebração não existia.

A igreja foi a principal referência das cidades do interior. E naqueles tempos essa referência parecia maior na impressão de um menino. O monumento de pé-direito exuberante dialogava com a praça Melo Uchoa florida de girassóis e acácias e suas palmeiras imperiais imensas. A torre alta, que se via ao longe de qualquer ponto da cidade, parecia um desenho caprichoso de Deus no caderno do colégio Pio XI. A arquitetura, o mosaico, os bancos de madeira em duas fileiras, os vitrais coloridos e aquelas gravuras de santos e passagens bíblicas na parede me fascinavam. Não era um lugar qualquer. Era a igreja da minha infância. E em tudo havia motivo de contemplação.

Fui um acólito aplicado, um coroinha devotado, bem como foram os amigos Denes, Rogério, Pedrinho, Roberto e outros que não lembro o nome, todos sob a orientação quase celestial de frei Jesualdo Lazzari. Tínhamos o papel de auxiliar o padre no ministério do altar. O ofício guardava as suas regalias. A batina vermelha com uma faixa azul na cintura nos dava um certo status. A igreja estava sempre cheia nas manhãs de domingo e, para o nosso contentamento escancarado, as mães levavam suas filhas de roupa nova e cheirando a alfazema para a fila da comunhão. Era o momento mais esperado, quando tínhamos enfim a chance de um contato mais próximo com o nosso alvo semanal. Olho no olho era o bastante, mãos ligeiramente trêmulas naquela fração de segundos. Tempo suficiente para o padre entregar a hóstia, enquanto um de nós apoiava a bandeja abaixo do queixo da menina – era assim para que não houvesse perda nas sobras do pão sagrado. O ritual durava uma eternidade na nossa cabeça. As hóstias que restavam da missa sumiam da sacristia e milagrosamente recheavam horas depois o nosso piquenique à beira do rio.

Mas antes de tudo havia outro rito prazeroso. O primeiro sinal da missa era o convite dos sinos que badalavam da torre da igreja e varavam as ruas da cidade. Aos dez anos de idade, me pendurava nas cordas dos sinos com a mesma desenvoltura com que saltava do alto da ponte do rio Corda. Era uma farra que exigia uma certa perícia de moleque. Não bastava pendurar-se nas cordas. Era preciso conhecer a cadência de cada nota de sino. Para as missas da semana, soavam dois sinos, com apenas um toque cada, alternando sequencialmente. Na missa do domingo ou em dias de celebração especial, tocávamos todos os sinos ao mesmo tempo. O segredo estava na cadência mais lenta das primeiras badaladas. Se morria alguém na cidade, eram dois sinos, que alternavam cada um em três toques sequenciais, com pausas fúnebres bem curtas – desse ritual eu pulava fora, inventada uma desculpa e ia pra casa calado na companhia solitária do meu medo.

Depois do sino, emendávamos da vitrola as músicas de Padre Zezinho pelo serviço de alto-falante que também ecoava da torre da Matriz para toda a cidade. Ninguém, naqueles tempos, deixou de ser alcançado no domingo por canções católicas como “Cidadão do infinito”, “De novo penso em Deus”, “Um certo Galileu”, “Hoje é domingo”, “Utopia”, “Maria da minha infância” e “Um dia uma criança me parou”, entre outras mais que a memória guardou no passado. São hinos da minha vida, e o catecismo na vida de muita gente. As músicas deixavam um clima de oração espalhado pela cidade, um certo cheiro de paz.

Ia todos os dias à missa e cheguei ao posto intermediário da carreira missionária quando assumi a “presidência” do clube dos acólitos. Sem combinar nada com os meus pais, planejei entrar para o seminário, passo inicial do sacerdócio. Corria longe a fama do time de futebol dos seminaristas. E nas poucas vezes que eles participavam da missa de domingo, entravam na igreja com pinta de celebridade. Mas o período que vivi em Barra do Corda foi mais curto que a minha pouca vocação.

Além de saber de cor e salteado o texto de celebração da missa, aprendi muito na minha rápida e intensa experiência de igreja. A Matriz de Barra do Corda foi também a minha casa, me ajudou a ser criança, me encheu de fé e me fez entender o valor da família e dos amigos. Os sermões de frei Jesualdo eram uma espécie de bálsamo da simplicidade, a fortuna de esperança da gente humilde. Falava direto ao coração das pessoas. A vida ficava mais plena. Por tudo isso, as manhãs de domingo têm esse sabor especial da infância que não quero esquecer.

sábado, 8 de setembro de 2012

Poeta de um breve memorial


Em maio de 1977, São Luís comemorou os 50 anos de vida do poeta Bandeira Tribuzi (nascido a 2 de fevereiro de 1927) com uma festa que se estendeu por três dias, cujo ponto alto foi o lançamento do livro “Breve memorial do longo tempo”, em noite de autógrafos no Teatro Arthur Azevedo. Com a presença de familiares, amigos e muitos admiradores, o evento acabou se transformando na última homenagem em vida ao poeta que tão profundamente cantou São Luís, e a ela dedicou a “Louvação” transformada em hino oficial. A programação da homenagem foi coordenada por Arlete Nogueira da Cruz. Em decorrência de um fulminante infarto, Tribuzi morreria no dia 8 de setembro do mesmo ano, data de aniversário de fundação da cidade.

O economista, jornalista, professor, compositor, ensaísta e poeta, filho do comerciante português Joaquim Pinheiro Ferreira Gomes e da maranhense Amélia Tribuzi Pinheiro Gomes, deixou a cidade de luto. Foram pouco mais de 18 mil dias e noites a “tontear os olhos de sol tropical e a salgar seu tempero humano no mar que invade a ilha”. O “Breve memorial do longo tempo” era, como disse Tribuzi, a taça imponderável de testemunho e solidariedade, um convite à meditação, para “amanhecer a existência”.

José Tribuzi Pinheiro Gomes, o Bandeira Tribuzi dos saraus na Movelaria Guanabara, da sandália no pé, dos livros de poesia (“Alguma existência”, “Rosa da esperança”, “Pele e osso” etc.), dos ensaios literários, dos apontamentos econômicos e dos textos jornalísticos, e um dos fundadores do jornal “O Estado do Maranhão”, estudou em Portugal e foi seminarista franciscano antes de se entregar de vez às letras na capital maranhense, no final de 1946, quando retornou da Europa. Deixou também farto material literário publicado postumamente. Classificado de agitador e subversivo pelos militares, Bandeira Tribuzi foi demitido do serviço público e chegou a ser preso pela ditadura.

Em 1986, em homenagem ao poeta, o então governador Luiz Rocha inaugurou o Memorial Bandeira Tribuzi, numa área de oito mil metros quadrados na península da Ponta d’Areia. Com projeto de traços modernos assinado pelo arquiteto Manoel Carlos Carvalho, a obra foi entregue com pompa à comunidade, e passaria a abrigar todo o acervo de fotografias, desenhos, charges, livros, originais de poesia, textos então inéditos e partituras de Tribuzi, documentos em sua maioria cedidos pela família do poeta e por amigos.

Não obstante a imponência do prédio e a importância da homenagem, a escolha equivocada do local levou o memorial a se transformar, em pouquíssimo tempo, num elefante branco. Sem um projeto adequado de funcionamento e sem a mínima estrutura para preservação do acervo, um ano depois de inaugurado o monumento a Tribuzi já estava fechado para reforma. Em 10 de dezembro de 1988 foi reaberto em evento oficial do governo do estado, e logo depois abandonado definitivamente. Até a fundação criada pela administração estadual em nome do poeta está esquecida.

Nesse vaivém de abandono ao monumento, grande parte dos documentos se perdeu no tempo ou está disperso em bibliotecas, para tristeza da família de Bandeira Tribuzi. O filho do poeta, Francisco Tribuzi, diz que muita coisa foi semidestruída pela falta de cuidados e pela ação da umidade e do salitre. E afirma que, ao completar 400 anos de fundação, São Luís deveria ter, no mínimo, um espaço apropriado para expor a obra do poeta. Não um poeta qualquer ou trovador bissexto, mas o poeta de fato e consumado, entranhado na alma da cidade pelo bafo dos seus versos e pelo berro de alforria ao canto parnasiano que pairou sobre a cidade até a chegada de “Alguma existência”.

Sem a memória de Bandeira Tribuzi exposta ao público, o Quarto Centenário de São Luís fica menor. Muito se falou na construção de novos monumentos para a cidade, grandes obras arquitetônicas, instalações luminosas, esculturas de artistas renomados, tudo para marcar o aniversário de quatro séculos. Mas não se lembrou do poeta nem da sua poesia. Talvez alguém inclua “Louvação” num desses ritos oficiais de passagem. Mas a memória de Tribuzi vai se perdendo, tomada pelo capim, abandonada como um sem teto debaixo da ponte que liga a cidade velha à cidade nova. Bandeira Tribuzi fora reduzido a nome de ponte.

Um monumento ao nada


Em 1999, ainda como coordenador das edições de domingo do jornal “O Estado do Maranhão”, sugeri à repórter Selma Cristina Rosa que produzisse uma reportagem especial sobre o estado de abandono do Memorial Bandeira Tribuzi. E mais: que ouvisse especialistas para avaliarem a funcionalidade do prédio - ou para darem a ele alguma real utilidade. A reportagem fora publicada na edição do dia 31 de outubro daquele ano. Selma Rosa ouviu a viúva do poeta, dona Maria Tribuzi, artistas, escritores e urbanistas.

O então presidente da Academia Maranhense de Letras, Jomar Moraes, disse que o espaço criado pelo governo foi uma “lembrança fadada ao insucesso”, em péssima localização. Segundo ele, o memorial ficaria mais apropriado num casarão do Centro Histórico, a ser desapropriado pelo próprio governo. Em lugar do Memorial Bandeira Tribuzi, na Ponta d’Areia, quem sabe um museu náutico, palpitou ele. Ou até mesmo a própria implosão do prédio em franco processo de deterioração.

O arquiteto Ronald Almeida recomendou transferir o espaço para a iniciativa privada. Sugeriu na área bares, restaurantes, loja de esportes náuticos, exposição e comercialização de produtos de pesca. E apresentou um projeto com planta baixa (divulgada na reportagem) que consistia na criação de um complexo turístico incluindo o espaço do Memorial Bandeira Trubuzi, a capelinha em frente ao Iate Clube (o marco zero da avenida dos Holandeses), o antigo Clube 1 de Regatas, o Forte de Santo Antônio (atual base do Corpo de Bombeiros) e um casarão abandonado à época (demolido alguns anos depois), num total de 35 mil metros quadrados.

Restou a dona Maria Tribuzi lamentar o desprezo à obra do poeta. Que salvem pelo menos as duas penas de concreto numa eventual restauração, defendeu ela. “Que cerquem as penas e ponham uma placa alusiva, então”. Quanto ao esqueleto cinza e sombrio do monumento, sem porta ou janela, sem as esquadrias originais de vidro, sem eira nem beira, que fizessem o que bem entendessem. Àquela altura, não importava mais o memorial, sucumbido em meio à vegetação. Mas o local era sagrado. “Ali na Ponta d’Areia ele passava horas pensando e contemplando a cidade antiga”.

ideias e projetos continuam à espera de uma ação do poder público.


Carta (imaginária) a São Luís (*)

Ponta d’Areia, 8 de setembro de 2012


Exausto da solidão ilhéu, já não trago a rebeldia dos cabelos e a carnação azul da barba séria. Já não trago mais. O tempo me consumiu pulmão e coração e mais ainda consome em velocidade a cidade velha. Não sobraram versos, nem a sandália tem sobrado. Daqui os olhos saltam o mar e encontram as paredes puídas e o vestido roto da tua meia morada. Sobre a paz de tua imagem flutuando no Atlântico flui a música do tempo e cresce o musgo dos telhados. Os meus oitenta e cinco anos não são os teus quatrocentos anos, a minha história é bem menor que a tua. Mas nos encontramos pelo menos uma vez por ano na finitude desse chão batido de setembro, aterrado, banhado de sal e sol.

Fui a tua última ponte, o teu anel, mandei o teu parnaso ao beleléu e me entreguei ao ludo real da poesia menina, aveira, sem formulário. Hoje, jubilado sob o cimento sem cor ou vida, entre o céu e o mar estou como um barco vivendo as marés, e a espuma vem dar em meus peitos em dias de ressaca. O arco do sol me refaz esperando o torvelinho dos teus dias. Morro onde o vento se revolta e faz a curva.

No teu novo ano, não venho com um canto de louvação ou um breve memorial pra despistar a minha fadiga. Deixo o louvor aceso no castiçal das igrejas e me visto de padre ou economista para compreender as tuas novas castas. Deixo no primeiro ano do teu quinto centenário o meu marco regulatório, tão em voga nos dias de hoje! De queixa e assombro, afinal sou filho do ruído das palavras.

Em verdade, vai-se acabando o tempo da homenagem, o tempo do reconhecimento. O que permanece é esse sempiterno musgo nos beirais da memória. Se ainda não chegou o final dos tempos em 2012, então chegou o dia do triunfo da folhagem. É esse o marco regulatório que prenuncio. Sem soberba alguma, o memorial que tu me deste era pouco e se acabou. Nada contra o cheiro forte do capim que me cobre a face, mas me sinto vegetal e terra a consubstanciar-se com meus ossos. Vizinho está o mar com sua espuma, com sua raiva e sua ânsia, misturando sua maresia com o acre cheiro do mato.

Do memorial me pego a ver os navios se afastando e uma saudade que não é de amigos nem de parentes subindo aos olhos. É a saudade do futuro que me aflige. Pelos próximos quatrocentos anos deverei ainda dormir à sombra de grandes árvores em noites de espanto, próximas do medo, do frio silêncio, da paz intangível, para depois despertar com o mundo vegetal e as aves roçando meus ombros materiais, sentindo-me pedra. Sim, sinto-me pedra com o barulho das pedras do reggae que ao lado sacodem a minha estrutura de concreto. Acordo um trapo, um trapiche. Desculpe-me se no século passado não tive traquejo para o teu chamego parnasiano. E me perdoe se não levo jeito agora para a tua ginga jamaicana.

Não, não te escrevo para lamuriar. Por todos os caminhos do mundo por onde fui ou ouvi falar, a erva cresce daninha, entre as ruínas de um homem qualquer destroçado. Onde havia poesia, há paredes carcomidas nas quais bichos espreitam sobejos de alguma estrofe.

Diga a Maria que ainda habito um outono enorme. Que um dia quando pó forem meus nervos e minha carne, quando já nada reste dos meus erros, possa ao menos alguém lembrar ao ler o mais triste dos poemas e, lembrando, ouça a música incontida da palavra comigo sepultada: doce, nítida, pura, azul e alada.

Ao povo diga que jamais haverá quem corte o laço que a ti me prende, anel unindo o amante à sua amada, no fatal abraço em que se funde a vida coruscante. E antes que a morte me proíba de renascer as manhãs, deixa-me contemplar mais uma vez essa nesga do teu céu.

Ainda velarei o azul dos teus dias com o que me sobra de esperança. Ainda hei de aprender a tua poesia. Felicidade.

Bandeira Tribuzi
(*) texto baseado livremente em fragmentos de poemas de Tribuzi