segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A igreja da minha infância


O domingo era um dia especial na minha infância em Barra do Corda. Acordava de uma noite embalada pelos sonhos carregados pela ansiedade de chegar logo a luz da manhã. Cedo começava a minha missão de acólito da Igreja Matriz. Durante certo tempo, fiz o caminho de casa à igreja, ambas na mesma rua, com dedicação fervorosa. Eu era um pequeno voluntário que até adoecia se não chegasse a tempo de ajudar a paróquia na missa do domingo. Vivia aquela inocente convicção de que sem mim a celebração não existia.

A igreja foi a principal referência das cidades do interior. E naqueles tempos essa referência parecia maior na impressão de um menino. O monumento de pé-direito exuberante dialogava com a praça Melo Uchoa florida de girassóis e acácias e suas palmeiras imperiais imensas. A torre alta, que se via ao longe de qualquer ponto da cidade, parecia um desenho caprichoso de Deus no caderno do colégio Pio XI. A arquitetura, o mosaico, os bancos de madeira em duas fileiras, os vitrais coloridos e aquelas gravuras de santos e passagens bíblicas na parede me fascinavam. Não era um lugar qualquer. Era a igreja da minha infância. E em tudo havia motivo de contemplação.

Fui um acólito aplicado, um coroinha devotado, bem como foram os amigos Denes, Rogério, Pedrinho, Roberto e outros que não lembro o nome, todos sob a orientação quase celestial de frei Jesualdo Lazzari. Tínhamos o papel de auxiliar o padre no ministério do altar. O ofício guardava as suas regalias. A batina vermelha com uma faixa azul na cintura nos dava um certo status. A igreja estava sempre cheia nas manhãs de domingo e, para o nosso contentamento escancarado, as mães levavam suas filhas de roupa nova e cheirando a alfazema para a fila da comunhão. Era o momento mais esperado, quando tínhamos enfim a chance de um contato mais próximo com o nosso alvo semanal. Olho no olho era o bastante, mãos ligeiramente trêmulas naquela fração de segundos. Tempo suficiente para o padre entregar a hóstia, enquanto um de nós apoiava a bandeja abaixo do queixo da menina – era assim para que não houvesse perda nas sobras do pão sagrado. O ritual durava uma eternidade na nossa cabeça. As hóstias que restavam da missa sumiam da sacristia e milagrosamente recheavam horas depois o nosso piquenique à beira do rio.

Mas antes de tudo havia outro rito prazeroso. O primeiro sinal da missa era o convite dos sinos que badalavam da torre da igreja e varavam as ruas da cidade. Aos dez anos de idade, me pendurava nas cordas dos sinos com a mesma desenvoltura com que saltava do alto da ponte do rio Corda. Era uma farra que exigia uma certa perícia de moleque. Não bastava pendurar-se nas cordas. Era preciso conhecer a cadência de cada nota de sino. Para as missas da semana, soavam dois sinos, com apenas um toque cada, alternando sequencialmente. Na missa do domingo ou em dias de celebração especial, tocávamos todos os sinos ao mesmo tempo. O segredo estava na cadência mais lenta das primeiras badaladas. Se morria alguém na cidade, eram dois sinos, que alternavam cada um em três toques sequenciais, com pausas fúnebres bem curtas – desse ritual eu pulava fora, inventada uma desculpa e ia pra casa calado na companhia solitária do meu medo.

Depois do sino, emendávamos da vitrola as músicas de Padre Zezinho pelo serviço de alto-falante que também ecoava da torre da Matriz para toda a cidade. Ninguém, naqueles tempos, deixou de ser alcançado no domingo por canções católicas como “Cidadão do infinito”, “De novo penso em Deus”, “Um certo Galileu”, “Hoje é domingo”, “Utopia”, “Maria da minha infância” e “Um dia uma criança me parou”, entre outras mais que a memória guardou no passado. São hinos da minha vida, e o catecismo na vida de muita gente. As músicas deixavam um clima de oração espalhado pela cidade, um certo cheiro de paz.

Ia todos os dias à missa e cheguei ao posto intermediário da carreira missionária quando assumi a “presidência” do clube dos acólitos. Sem combinar nada com os meus pais, planejei entrar para o seminário, passo inicial do sacerdócio. Corria longe a fama do time de futebol dos seminaristas. E nas poucas vezes que eles participavam da missa de domingo, entravam na igreja com pinta de celebridade. Mas o período que vivi em Barra do Corda foi mais curto que a minha pouca vocação.

Além de saber de cor e salteado o texto de celebração da missa, aprendi muito na minha rápida e intensa experiência de igreja. A Matriz de Barra do Corda foi também a minha casa, me ajudou a ser criança, me encheu de fé e me fez entender o valor da família e dos amigos. Os sermões de frei Jesualdo eram uma espécie de bálsamo da simplicidade, a fortuna de esperança da gente humilde. Falava direto ao coração das pessoas. A vida ficava mais plena. Por tudo isso, as manhãs de domingo têm esse sabor especial da infância que não quero esquecer.

sábado, 8 de setembro de 2012

Poeta de um breve memorial


Em maio de 1977, São Luís comemorou os 50 anos de vida do poeta Bandeira Tribuzi (nascido a 2 de fevereiro de 1927) com uma festa que se estendeu por três dias, cujo ponto alto foi o lançamento do livro “Breve memorial do longo tempo”, em noite de autógrafos no Teatro Arthur Azevedo. Com a presença de familiares, amigos e muitos admiradores, o evento acabou se transformando na última homenagem em vida ao poeta que tão profundamente cantou São Luís, e a ela dedicou a “Louvação” transformada em hino oficial. A programação da homenagem foi coordenada por Arlete Nogueira da Cruz. Em decorrência de um fulminante infarto, Tribuzi morreria no dia 8 de setembro do mesmo ano, data de aniversário de fundação da cidade.

O economista, jornalista, professor, compositor, ensaísta e poeta, filho do comerciante português Joaquim Pinheiro Ferreira Gomes e da maranhense Amélia Tribuzi Pinheiro Gomes, deixou a cidade de luto. Foram pouco mais de 18 mil dias e noites a “tontear os olhos de sol tropical e a salgar seu tempero humano no mar que invade a ilha”. O “Breve memorial do longo tempo” era, como disse Tribuzi, a taça imponderável de testemunho e solidariedade, um convite à meditação, para “amanhecer a existência”.

José Tribuzi Pinheiro Gomes, o Bandeira Tribuzi dos saraus na Movelaria Guanabara, da sandália no pé, dos livros de poesia (“Alguma existência”, “Rosa da esperança”, “Pele e osso” etc.), dos ensaios literários, dos apontamentos econômicos e dos textos jornalísticos, e um dos fundadores do jornal “O Estado do Maranhão”, estudou em Portugal e foi seminarista franciscano antes de se entregar de vez às letras na capital maranhense, no final de 1946, quando retornou da Europa. Deixou também farto material literário publicado postumamente. Classificado de agitador e subversivo pelos militares, Bandeira Tribuzi foi demitido do serviço público e chegou a ser preso pela ditadura.

Em 1986, em homenagem ao poeta, o então governador Luiz Rocha inaugurou o Memorial Bandeira Tribuzi, numa área de oito mil metros quadrados na península da Ponta d’Areia. Com projeto de traços modernos assinado pelo arquiteto Manoel Carlos Carvalho, a obra foi entregue com pompa à comunidade, e passaria a abrigar todo o acervo de fotografias, desenhos, charges, livros, originais de poesia, textos então inéditos e partituras de Tribuzi, documentos em sua maioria cedidos pela família do poeta e por amigos.

Não obstante a imponência do prédio e a importância da homenagem, a escolha equivocada do local levou o memorial a se transformar, em pouquíssimo tempo, num elefante branco. Sem um projeto adequado de funcionamento e sem a mínima estrutura para preservação do acervo, um ano depois de inaugurado o monumento a Tribuzi já estava fechado para reforma. Em 10 de dezembro de 1988 foi reaberto em evento oficial do governo do estado, e logo depois abandonado definitivamente. Até a fundação criada pela administração estadual em nome do poeta está esquecida.

Nesse vaivém de abandono ao monumento, grande parte dos documentos se perdeu no tempo ou está disperso em bibliotecas, para tristeza da família de Bandeira Tribuzi. O filho do poeta, Francisco Tribuzi, diz que muita coisa foi semidestruída pela falta de cuidados e pela ação da umidade e do salitre. E afirma que, ao completar 400 anos de fundação, São Luís deveria ter, no mínimo, um espaço apropriado para expor a obra do poeta. Não um poeta qualquer ou trovador bissexto, mas o poeta de fato e consumado, entranhado na alma da cidade pelo bafo dos seus versos e pelo berro de alforria ao canto parnasiano que pairou sobre a cidade até a chegada de “Alguma existência”.

Sem a memória de Bandeira Tribuzi exposta ao público, o Quarto Centenário de São Luís fica menor. Muito se falou na construção de novos monumentos para a cidade, grandes obras arquitetônicas, instalações luminosas, esculturas de artistas renomados, tudo para marcar o aniversário de quatro séculos. Mas não se lembrou do poeta nem da sua poesia. Talvez alguém inclua “Louvação” num desses ritos oficiais de passagem. Mas a memória de Tribuzi vai se perdendo, tomada pelo capim, abandonada como um sem teto debaixo da ponte que liga a cidade velha à cidade nova. Bandeira Tribuzi fora reduzido a nome de ponte.

Um monumento ao nada


Em 1999, ainda como coordenador das edições de domingo do jornal “O Estado do Maranhão”, sugeri à repórter Selma Cristina Rosa que produzisse uma reportagem especial sobre o estado de abandono do Memorial Bandeira Tribuzi. E mais: que ouvisse especialistas para avaliarem a funcionalidade do prédio - ou para darem a ele alguma real utilidade. A reportagem fora publicada na edição do dia 31 de outubro daquele ano. Selma Rosa ouviu a viúva do poeta, dona Maria Tribuzi, artistas, escritores e urbanistas.

O então presidente da Academia Maranhense de Letras, Jomar Moraes, disse que o espaço criado pelo governo foi uma “lembrança fadada ao insucesso”, em péssima localização. Segundo ele, o memorial ficaria mais apropriado num casarão do Centro Histórico, a ser desapropriado pelo próprio governo. Em lugar do Memorial Bandeira Tribuzi, na Ponta d’Areia, quem sabe um museu náutico, palpitou ele. Ou até mesmo a própria implosão do prédio em franco processo de deterioração.

O arquiteto Ronald Almeida recomendou transferir o espaço para a iniciativa privada. Sugeriu na área bares, restaurantes, loja de esportes náuticos, exposição e comercialização de produtos de pesca. E apresentou um projeto com planta baixa (divulgada na reportagem) que consistia na criação de um complexo turístico incluindo o espaço do Memorial Bandeira Trubuzi, a capelinha em frente ao Iate Clube (o marco zero da avenida dos Holandeses), o antigo Clube 1 de Regatas, o Forte de Santo Antônio (atual base do Corpo de Bombeiros) e um casarão abandonado à época (demolido alguns anos depois), num total de 35 mil metros quadrados.

Restou a dona Maria Tribuzi lamentar o desprezo à obra do poeta. Que salvem pelo menos as duas penas de concreto numa eventual restauração, defendeu ela. “Que cerquem as penas e ponham uma placa alusiva, então”. Quanto ao esqueleto cinza e sombrio do monumento, sem porta ou janela, sem as esquadrias originais de vidro, sem eira nem beira, que fizessem o que bem entendessem. Àquela altura, não importava mais o memorial, sucumbido em meio à vegetação. Mas o local era sagrado. “Ali na Ponta d’Areia ele passava horas pensando e contemplando a cidade antiga”.

ideias e projetos continuam à espera de uma ação do poder público.


Carta (imaginária) a São Luís (*)

Ponta d’Areia, 8 de setembro de 2012


Exausto da solidão ilhéu, já não trago a rebeldia dos cabelos e a carnação azul da barba séria. Já não trago mais. O tempo me consumiu pulmão e coração e mais ainda consome em velocidade a cidade velha. Não sobraram versos, nem a sandália tem sobrado. Daqui os olhos saltam o mar e encontram as paredes puídas e o vestido roto da tua meia morada. Sobre a paz de tua imagem flutuando no Atlântico flui a música do tempo e cresce o musgo dos telhados. Os meus oitenta e cinco anos não são os teus quatrocentos anos, a minha história é bem menor que a tua. Mas nos encontramos pelo menos uma vez por ano na finitude desse chão batido de setembro, aterrado, banhado de sal e sol.

Fui a tua última ponte, o teu anel, mandei o teu parnaso ao beleléu e me entreguei ao ludo real da poesia menina, aveira, sem formulário. Hoje, jubilado sob o cimento sem cor ou vida, entre o céu e o mar estou como um barco vivendo as marés, e a espuma vem dar em meus peitos em dias de ressaca. O arco do sol me refaz esperando o torvelinho dos teus dias. Morro onde o vento se revolta e faz a curva.

No teu novo ano, não venho com um canto de louvação ou um breve memorial pra despistar a minha fadiga. Deixo o louvor aceso no castiçal das igrejas e me visto de padre ou economista para compreender as tuas novas castas. Deixo no primeiro ano do teu quinto centenário o meu marco regulatório, tão em voga nos dias de hoje! De queixa e assombro, afinal sou filho do ruído das palavras.

Em verdade, vai-se acabando o tempo da homenagem, o tempo do reconhecimento. O que permanece é esse sempiterno musgo nos beirais da memória. Se ainda não chegou o final dos tempos em 2012, então chegou o dia do triunfo da folhagem. É esse o marco regulatório que prenuncio. Sem soberba alguma, o memorial que tu me deste era pouco e se acabou. Nada contra o cheiro forte do capim que me cobre a face, mas me sinto vegetal e terra a consubstanciar-se com meus ossos. Vizinho está o mar com sua espuma, com sua raiva e sua ânsia, misturando sua maresia com o acre cheiro do mato.

Do memorial me pego a ver os navios se afastando e uma saudade que não é de amigos nem de parentes subindo aos olhos. É a saudade do futuro que me aflige. Pelos próximos quatrocentos anos deverei ainda dormir à sombra de grandes árvores em noites de espanto, próximas do medo, do frio silêncio, da paz intangível, para depois despertar com o mundo vegetal e as aves roçando meus ombros materiais, sentindo-me pedra. Sim, sinto-me pedra com o barulho das pedras do reggae que ao lado sacodem a minha estrutura de concreto. Acordo um trapo, um trapiche. Desculpe-me se no século passado não tive traquejo para o teu chamego parnasiano. E me perdoe se não levo jeito agora para a tua ginga jamaicana.

Não, não te escrevo para lamuriar. Por todos os caminhos do mundo por onde fui ou ouvi falar, a erva cresce daninha, entre as ruínas de um homem qualquer destroçado. Onde havia poesia, há paredes carcomidas nas quais bichos espreitam sobejos de alguma estrofe.

Diga a Maria que ainda habito um outono enorme. Que um dia quando pó forem meus nervos e minha carne, quando já nada reste dos meus erros, possa ao menos alguém lembrar ao ler o mais triste dos poemas e, lembrando, ouça a música incontida da palavra comigo sepultada: doce, nítida, pura, azul e alada.

Ao povo diga que jamais haverá quem corte o laço que a ti me prende, anel unindo o amante à sua amada, no fatal abraço em que se funde a vida coruscante. E antes que a morte me proíba de renascer as manhãs, deixa-me contemplar mais uma vez essa nesga do teu céu.

Ainda velarei o azul dos teus dias com o que me sobra de esperança. Ainda hei de aprender a tua poesia. Felicidade.

Bandeira Tribuzi
(*) texto baseado livremente em fragmentos de poemas de Tribuzi

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A marca que ficou


Nas comemorações do Quarto Centenário de fundação de São Luís, um dos maiores motivos de orgulho da equipe Clara Comunicação foi a criação do selo comemorativo da data, por encomenda do São Luís Convention & Visitors Bureau e do Comitê Estratégico dos 400 Anos de São Luís.

O selo, criado pelo designer gráfico Jovelino Furtado, foi escolhido em votação popular no final de 2011 e adotado ao longo deste ano por instituições públicas, empresas privadas, produtos, eventos e entidades da sociedade civil.

Juntamente com o selo, a Clara Comunicação também criou o slogan da campanha dos 400 anos: “O melhor da nossa história é a nossa gente”

O desenho do selo traz um gradil colonial ao fundo e fitas estilizadas formando o número 400 nas cores verde, azul e amarelo ouro, presentes na bandeira do município de São Luís.

A marca pode ser facilmente encontrada em vasta papelaria oficial, em fachadas de prédios, nas laterais dos ônibus coletivos, em anúncios publicitários de várias empresas, em brindes diversos, camisetas, uniformes de escolas (estudantes da rede de ensino do Estado desfilaram no Dia da Raça com camiseta estampando o selo da Clara), na latinha do Guaraná Jesus e em medalha comemorativa da Casa da Moeda.

O livro “São Luís 400, um recital de imagens”, os CDs “400 Carnavais” e “A5”, o apoio ao filme “Upaon-Açu, Saint Louis, São Luís...” e a criação do selo oficial são o nosso presente à cidade.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Mais quatrocentos anos

Hoje tem mais dois produtos culturais com a marca da Clara Comunicação nas comemorações do Quarto Centenário de São Luís. A partir das 17h, o Teatro da Cidade (antigo Cine Roxy) será o palco de lançamento do livro “São Luís 400 anos – Um Recital de Imagens”, da Clara Editora em parceria com o Fotoclube Poesia do Olhar. E às 19h, também no Teatro da Cidade, acontece o lançamento do filme “Upaon-Açu, Saint Louis, São Luís...”, um desenho animado produzido e dirigido por Joaquim Haickel, com o apoio da Clara Comunicação, que conta a história de fundação da capital maranhense.

O livro “São Luís 400 anos – Um Recital de Imagens” traz imagens do cotidiano urbano da cidade captadas por fotógrafos profissionais e amadores, a maioria deles empresários, advogados, estudantes e profissionais liberais. São 240 belos cenários identificados por 39 fotógrafos, entre associados e colaboradores do Fotoclube Poesia do Olhar.

Com uma tiragem especial de mil exemplares, o livro traz textos do escritor e juiz federal Ney de Barros Bello Filho e do membro do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, Antonio Norberto. A apresentação do trabalho é de Oton Cardoso Pereira. O projeto gráfico e a diagramação do livro são assinados pelo designer Jovelino Furtado, da equipe da Clara Comunicação.

O filme “Upaon-Açu, Saint Louis, São Luís...”, patrocinado pela Alumar, Ambev e Emap, tem 13 minutos de duração, direção de arte de Beto Nicácio e produção executiva de Ariana Chediak e Nádia Nicácio. A trilha sonora original, mixagem de som e efeitos sonoros são de Yvo Ursini.

Após a exibição de lançamento, cópias do desenho animado em DVD serão distribuídas nas escolas da rede municipal e estadual de ensino e em diversas comunidades da cidade de São Luís.

O filme de Joaquim Haickel sobre a fundação de São Luís foi traduzido para o espanhol e para o francês. A versão de apresentação em português tem narração de Isaac Bardavid, um dos principais dubladores da companhia cinematográfica Herbert Richers. Bardavid participou de telenovelas da Globo como “O Astro”, “Escrava Isaura” e “A Padroeira”. Em 2006 e 2007, interpretou Seu Elias Turco no Sítio do Picapau Amarelo, substituindo José Augusto Branco.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

CD “A5”, da Clara Comunicação, em homenagem aos 400 anos de São Luís



A Clara Comunicação participa das comemorações dos 400 anos de fundação de São Luís com alguns projetos culturais, como a gravação de CD com músicas maranhenses, publicação de um livro de fotografias de São Luís e apoio na produção de filme que conta, em desenho animado, a história da nossa cidade.

Hoje vou falar do projeto “A5”, que é o CD com uma antologia da música maranhense, que leva o selo da Clara Comunicação. São 20 canções de cinco dos nossos artistas: Carlinhos Veloz, Betto Pereira, Erasmo Dibell, Mano Borges e Chiquinho França. O disco abre com “Ilha bela”, de Carlinhos Veloz, que também canta “Viagem de novembro”, “Imperador Tocantins” e “Beija-flor”.

De Erasmo Dibell, o CD “A5” traz as músicas “Filhos da precisão”, “Vidente”, “Sarará” e “Beijo na boca”. Chiquinho França incluiu no disco as instrumentais “Fissura”, “Czardas”, “Apego a Upaon-açu” e “Dindinha”.

Betto Pereira participa do CD com as músicas “Toque de amor”, “Terecô”, “Mana” e “Ana e a lua”. E de Mano Borges o disco traz “Bangladesh”, “Você é tudo”, “Amagni” e “Ça va”.

O CD “A5” será lançado pelos artistas amanhã, dia 1o de setembro, na festa de abertura do show de Gilberto Gil, na Lagoa.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Quando tentamos despistar Sotero e a noite em que Zeca Baleiro desafiou Alceu Valença

A noite da Praia Grande pulsava com música, bares e movimentos culturais

Por Eduardo Júlio

A Praia Grande foi entregue restaurada no final de 1989. Foi o primeiro Centro Histórico reformado das capitais do Nordeste - antes do Pelourinho e do Recife Antigo. Quando a Praia Grande, que muitos insistem em chamar de Projeto Reviver (denominação dada pelo então governador Cafeteira para o projeto de restauração), foi entregue, a maioria dos prédios passou a abrigar repartições públicas ou bares e restaurantes. A vida por lá, portanto, era dividida entre a burocracia e o entretenimento.

Um dos bares era o Risco de Vida, de propriedade do jornalista Luiz Pedro, onde se apresentava, nas noites de quinta-feira, do ano de 1990, o então jovem cantor e compositor Mano Borges, acompanhado do percussionista paraense Luiz Cláudio. Os shows de Mano, naquela época, eram seguidos por um público fiel. Ele cantava músicas autorais e de compositores da MPB, principalmente Caetano Veloso. As suas apresentações no Risco de Vida varavam a madrugada e atraíam dezenas de universitários e intelectuais da cidade. Costumávamos sair da UFMA, depois das 18h, direto para o Risco de Vida. Na volta, cansei de penar na parada de ônibus ao lado do colega César Choairy, esperando o corujão do Calhau. Mas, aos 19 anos, desconforto não nos afeta.

Além dos shows de Mano Borges, o Risco de Vida foi palco, em 1990, de apresentações de Zeca Baleiro, antes de partir para São Paulo, e do gaúcho Vítor Ramil, que no período gozava de muito prestígio em São Luís, porque canções de seu disco “Tango” eram muito executadas na Universidade FM.

O referido bar ficava exatamente onde hoje funciona o sebo e livraria Poeme-se. Se não me engano, o Risco de Vida era um dos poucos estabelecimentos da Praia Grande que vendia chope. No atendimento, atuava Sotero, uma figura lúdica e enigmática, habitué da Praia Grande, querida por todos que frequentam ou frequentaram a área. Magrinho como um saddhu (asceta santo indiano), ele era conhecido por alguns moradores do Centro (Sotero mora na Rua da Saúde) pelo apelido de Ventania. Naquela época, além de trabalhar como garçom (já tinha passado pelo lendário Taipa, que chegou a ser administrado por Zé Maria Medeiros, idealizador de "A Vida é uma Festa"), era o maior criador de gatos persas de São Luís. Hoje, exerce a atividade de artesão, confeccionando coloridas bolsas de pano. Embora possua alma terna e zen, Sotero é bastante rígido nas suas convicções. Não come carne e todas as tardes, religiosamente, faz leituras de autores da melhor literatura mundial como Kafka, Sartre, Herman Hesse e Camus, sentado à beira-mar.
Sotero, um dos personagens marcantes da Praia Grande

Pois bem, certa noite de quinta-feira, eu estava no Risco de Vida na companhia do meu amigo e estudante de comunicação José Luiz Diniz – hoje, jornalista e servidor, como eu, de uma instituição pública. Diniz era conhecido por sua gentileza, inteligência, simplicidade e, principalmente, pelo rigor ético. No entanto, naquela disputada noite, depois de umas e outras, e de ter tentado pedir a conta por diversas vezes a Sotero, sem obter sucesso, ele, muito indignado, propôs que saíssemos sem pagar. Tomei um susto. Nunca esperei que Diniz fizesse tal proposta. E pior, não tive tempo de argumentar o contrário, pois ele foi logo se levantando da mesa com os livros na mão, dirigindo-se à porta de saída do bar, que, como já contei, lotava nas noites de quinta-feira. Fui atrás carregando a minha inseparável mochila. Quando demos os primeiros passos na rua, fomos surpreendidos por Sotero que, como um gato esguio, saltou à nossa frente, fechando o ângulo, e exigindo o pagamento da conta. Na época, reclamei com Diniz. Hoje, acho muita graça, pois, na verdade, foi divertido ter passado por essa.

DESAFIO

E as quintas-feiras do Risco de Vida eram tão apreciadas que, quando o bar fechou, Mano Borges resolveu fazer uma apresentação de despedida no bar Antigamente, que ficava na rua da Estrela e se distinguia do Risco de Vida por realizar som de barzinho ao ar livre. Então, nós fomos para a calçada do Antigamente conferir a performance de Mano sob as estrelas. Entretanto, naquela noite, ele seria ofuscado por Zeca Baleiro, ainda longe de se tornar famoso, apenas um talentoso compositor aguardando o momento de pôr o pé na estrada.

Enquanto Zeca Baleiro tinha sido convidado a subir no palco para dar uma canja, Alceu Valença passeava pela Praia Grande. O pernambucano observou o burburinho do Antigamente e parou. Daí, foi convidado a participar da apresentação, disputando um repente com Zeca Baleiro. Alceu estava em São Luís promovendo a campanha de Edison Lobão para governador e Zeca parecia revoltado por ele, um ídolo de todos, apoiar a campanha de um político conservador como Lobão. Por isso, no duelo, não perdoou Alceu, dando um banho de criatividade nas rimas e praticamente humilhando o rival com um texto contundente. Surpreso com a atuação de Zeca, o público vibrava a cada verso afiado do maranhense.

Há quem diga que o artista pernambucano não estava disposto a disputar nada. Outros afirmam que ele nem entendeu direito a provocação. O certo é que aquela noite marcou uma geração e pôs fim ao primeiro período da história da boemia da Praia Grande pós-restauro.

Este encontro inusitado é lembrado por muitos, inclusive por Zeca, que me confessou, em uma entrevista, que sempre teve curiosidade de saber se Alceu conseguia lembrar do episódio e relacioná-lo ao fato.
Eduardo Júlio e Axel Brito perambulando pelas ruas de Alcântara

terça-feira, 31 de julho de 2012

A DITA DURA da massa

Visita às instalações da futura sede do DCE, acaso a DITA DURA chegasse ao poder

Por Joelson Dutra

Das batalhas ideológicas travadas no campus entre 1991 e 1996, saltava aos olhos o debate dualista de retórica colérica e imprecisão focal desencadeado em meio a temáticas como abertura política, nova ordem mundial e - por que não ? - reformulação do cardápio do R.U., afinal nem só de sopa vivia o ser humano.

A grita democrática era geral e todas as lutas, legítimas e urgentes. Porém, a dinâmica caótica dos diálogos mostrava-se tão sedutora quanto uma dor de dente, desanimando e afastando levas de incautos acadêmicos recém chegados ao front.

No divertido relato de Eduardo Júlio – “Uma aventura estética ou o dia em que pichamos as paredes do Pimentão” - encontro o gancho ideal para falar do que talvez fosse, ainda seja e será o mais coeso movimento sócio, etílico, político, esportivo, econômico, lúdico, cultural, etc. da cidade, talvez do país ou quiçá do universo, A DITA DURA.

Infelizmente, por ausência de estudos mais aprofundados, esse fenômeno carece de números para demonstrar a abrangência, relevância e perenidade na vida dos que o experimentaram.

Para entender melhor a gênese de tudo, vamos a um rápido panorama do período acadêmico. O ano para a turma 1991.1 começava com greve geral. O retorno às aulas, meses depois, dava-se num ambiente ainda não tão favorável. Nossa professora de História da Comunicação, cujo nome me escapa, avisara, sem margem para choro ou vela, que deixaria a disciplina no momento da oficialização de sua aposentadoria - e assim o fez, horas depois. Assume então o coordenador do curso, Ruben Carranza Gutierrez, que prontamente decreta:

- Aqui tem sete temas de pesquisa. Dividam-se em grupos que eu retorno no final do período para apresentação.

Era isso ou perder o semestre e, para o bem ou para o mal, o processo criativo gerou, em forma de esquetes, sete pérolas de conhecimento encharcadas de humor, sarcasmo e contestação.

Obviamente, o barulho da criação não agradou a todos. Ironicamente, soubemos que teríamos muito mais do que quinze minutos de fama ao ver o professor de Ética vociferando pelos corredores da comunicação: “São uns inconsequentes e alienados” e “Conversaremos quando forem meus alunos”.

Preocupados, tanto quanto nos permitia a agenda de calouradas, partimos então para palcos maiores e, após a compilação do material, encaramos nosso primeiro ComunicArte. Sucesso de público e renda que produziu a química necessária para grandes parcerias no curso e na vida.

O Rei Papel e parte dos seus súditos da área Itaqui-Bacanga e do Japão

O núcleo sindical da DITA DURA

A ala gospel da DITA DURA: canções evangélicas para "levantar fundos"

A chegada da segunda turma de 1991 e o retorno da manada de dinossauros, devido ao fantasma do jubilamento, proporcionaram, além de uma série de descobertas, o encontro de figuraças, que mais pareciam personagens ficcionais, e o enriquecimento do já espesso caldo cultural do curso completando a seara de onde nasceria A Dita Dura.

Nos anos seguintes, longe da condição de calouros, seguimos derrubando presidentes e aclamando reis. A bem da verdade, é preciso ressaltar que rifamos apenas um único presidente, mas era o da República, aclamamos tão somente um rei, mas foi pra sempre, e A DITA DURA ainda não existia como movimento organizado. Apenas seguíamos o fluxo natural da história, teorizando sobre o cotidiano, elegendo “certezas”, disparando “verdades” e principalmente nos divertindo com as polêmicas e repercussões advindas desse exercício.

O carisma e a alegria do Rei Papel, de nascença André Álvares Fernandes da Silva, aumentou exponencialmente a curiosidade do campus sobre quem éramos e o que fazíamos. Com isso vieram também as cobranças. A principal: por que não direcionávamos nosso potencial pra algo mais produtivo como a conscientização política dos alunos?

Desafiados, deixamos o conforto do Bambu Bar para defender os ideais arduamente edificados em anos de rodas de “mau-mau”. Encontramos na campanha eleitoral do DCE o espaço ideal para conquista de novos domínios. Precisávamos então de um nome e das antigas histórias do amigo Raimundo Nonato, pai de Cláudio Marques, sobre seu tempo de estudante e sua chapa “Canoa - O Pau que boia”. Veio a inspiração necessária para o surgimento de A DITA DURA.

Sem nenhuma premeditação, assumíamos oficialmente a condição de inconvenientes críticos do sistema, inimigos públicos número 4.397 (as outras posições estavam ocupadas por interlocutores mais politizados), ao menos assim parecia ser a época.

Com um monarca, vários súditos e muitos conceitos a contestar, ridicularizar talvez fosse o termo mais apropriado, nos apresentamos para o embate político e como sempre a reputação do grupo – pasmem, tínhamos uma! - e o boca-a-boca fizeram o resto.

Novamente, na tentativa de ser fiel aos fatos, devo acrescentar que não sei se alguém formalizou a candidatura. Conhecendo os envolvidos, acredito que não, mas isso pouco importou pois as demais chapas já nos consideravam uma ameaça a ponto de uma delas formalizar uma proposta de coligação. Como naqueles tempos, entre os muitos “bichos-grilos” do movimento estudantil, algo mais fedia, além da burguesia cantada por Cazuza, reforçamos o desodorante e optamos pelo voo solo. À base de negativas como - “A DITA DURA NÃO coliga”, “A DITA DURA não junta forças” - e encerrando reuniões com “coligamos se vocês tomarem banho” - percebemos que não seria fácil trazer novos ares ao campus.

No melhor espírito do “vamos fazer”, onde de fato nada acontecia até o último minuto, víamos o tempo passar e concretamente nenhuma peça da campanha nas ruas. As bases de nosso programa político eram passadas de forma oral em bares, festas, confraternizações, obrigatoriamente apenas para quem perguntasse e, graças aos céus, o eleitorado tinha outros interesses.

Ocorre, porém, que nossa estratégia desencadeou uma onda de especulações sobre a virilidade da DITA, obrigando o grupo a abraçar a campanha e aplacar o furor popular.

Fácil descrever o dia em que sentamos pra produzir/distribuir todo o material da campanha. Difícil é dar crédito a todos os envolvidos sem cometer injustiças, por isso nem vou tentar confiando que tudo dará certo no final.

Permito-me, porém, fazer uma exceção pra falar de quem, pra mim, teve o grande insight da campanha viabilizando na prática o início dos trabalhos. Laurene Leite que, além da preciosa assessoria criativa, providenciou todo o material necessário para produção (papel, cartolina, cola, hidrocor, tesoura, revistas jornais, etc.), anulando desculpas e gerando mobilização. A nós, anônimos e famosos, coube alimentar a fogueira de ideias e materializar as mais impactantes.

Numa única tarde, às vésperas da eleição, ao redor de uma das mesas da Área de Vivência do campus, com fartos recursos humanos e materiais, começamos a escrever a história da mais arrebatadora campanha que a UFMA já viveu, ou não, como diz o ilustre baiano.

Muitos dos nossos cartazes poderiam figurar como cases de sucesso em campanhas eleitorais. Alguns caíram instantaneamente no gosto popular e alcançaram fácil o objetivo maior: fazer rir.

O cartaz com gráfico de intenção de voto mostrava que DITA DURA saía do papel, passava pelo mural, continuava parede acima até alcançar o teto.

Outro cartaz emblemático exibia a caricatura do nosso Rei Papel acenando para uma multidão de “populares” do quilate de Daniela Mercury, José Sarney, Roseana Murad e outros.

E também o cartaz em que grandes nomes da arte, música e literatura declaravam: “Sou mais A DITA DURA e Papel”.

Com a campanha na rua, os ideais da DITA DURA consolidados e a boca de urna acusando vitória esmagadora, só restava comemorar.

No final vencemos sem levar. Com aceitação total, descobrimos que, por vários motivos, inclusive por falta de inscrição, estávamos inelegíveis, contudo com 1 milhão de amigos, isso antes do facebook, e bem mais forte podendo cantar: “A DITA DURA não precisa de eleição”.

Isso me lembra que, na eleição para o D.A. de Comunicação, única que realmente concorremos, a comemoração foi maior ainda. A vitória iminente nos levou à articulação de planos que incluíam pedidos de recontagem de votos, anulação e até renúncia, mesmo sem local apropriado pra exilar o Rei. Mas isso é outra história.

Tempos felizes aqueles em que a diversão era boa e barata.