sexta-feira, 31 de agosto de 2012
CD “A5”, da Clara Comunicação, em homenagem aos 400 anos de São Luís
A Clara Comunicação participa das comemorações dos 400 anos de fundação de São Luís com alguns projetos culturais, como a gravação de CD com músicas maranhenses, publicação de um livro de fotografias de São Luís e apoio na produção de filme que conta, em desenho animado, a história da nossa cidade.
Hoje vou falar do projeto “A5”, que é o CD com uma antologia da música maranhense, que leva o selo da Clara Comunicação. São 20 canções de cinco dos nossos artistas: Carlinhos Veloz, Betto Pereira, Erasmo Dibell, Mano Borges e Chiquinho França. O disco abre com “Ilha bela”, de Carlinhos Veloz, que também canta “Viagem de novembro”, “Imperador Tocantins” e “Beija-flor”.
De Erasmo Dibell, o CD “A5” traz as músicas “Filhos da precisão”, “Vidente”, “Sarará” e “Beijo na boca”. Chiquinho França incluiu no disco as instrumentais “Fissura”, “Czardas”, “Apego a Upaon-açu” e “Dindinha”.
Betto Pereira participa do CD com as músicas “Toque de amor”, “Terecô”, “Mana” e “Ana e a lua”. E de Mano Borges o disco traz “Bangladesh”, “Você é tudo”, “Amagni” e “Ça va”.
O CD “A5” será lançado pelos artistas amanhã, dia 1o de setembro, na festa de abertura do show de Gilberto Gil, na Lagoa.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Quando tentamos despistar Sotero e a noite em que Zeca Baleiro desafiou Alceu Valença
A noite da Praia Grande pulsava com música, bares e movimentos culturais
Por Eduardo Júlio
A Praia Grande foi entregue restaurada no final de 1989. Foi o primeiro Centro Histórico reformado das capitais do Nordeste - antes do Pelourinho e do Recife Antigo. Quando a Praia Grande, que muitos insistem em chamar de Projeto Reviver (denominação dada pelo então governador Cafeteira para o projeto de restauração), foi entregue, a maioria dos prédios passou a abrigar repartições públicas ou bares e restaurantes. A vida por lá, portanto, era dividida entre a burocracia e o entretenimento.
Um dos bares era o Risco de Vida, de propriedade do jornalista Luiz Pedro, onde se apresentava, nas noites de quinta-feira, do ano de 1990, o então jovem cantor e compositor Mano Borges, acompanhado do percussionista paraense Luiz Cláudio. Os shows de Mano, naquela época, eram seguidos por um público fiel. Ele cantava músicas autorais e de compositores da MPB, principalmente Caetano Veloso. As suas apresentações no Risco de Vida varavam a madrugada e atraíam dezenas de universitários e intelectuais da cidade. Costumávamos sair da UFMA, depois das 18h, direto para o Risco de Vida. Na volta, cansei de penar na parada de ônibus ao lado do colega César Choairy, esperando o corujão do Calhau. Mas, aos 19 anos, desconforto não nos afeta.
Além dos shows de Mano Borges, o Risco de Vida foi palco, em 1990, de apresentações de Zeca Baleiro, antes de partir para São Paulo, e do gaúcho Vítor Ramil, que no período gozava de muito prestígio em São Luís, porque canções de seu disco “Tango” eram muito executadas na Universidade FM.
O referido bar ficava exatamente onde hoje funciona o sebo e livraria Poeme-se. Se não me engano, o Risco de Vida era um dos poucos estabelecimentos da Praia Grande que vendia chope. No atendimento, atuava Sotero, uma figura lúdica e enigmática, habitué da Praia Grande, querida por todos que frequentam ou frequentaram a área. Magrinho como um saddhu (asceta santo indiano), ele era conhecido por alguns moradores do Centro (Sotero mora na Rua da Saúde) pelo apelido de Ventania. Naquela época, além de trabalhar como garçom (já tinha passado pelo lendário Taipa, que chegou a ser administrado por Zé Maria Medeiros, idealizador de "A Vida é uma Festa"), era o maior criador de gatos persas de São Luís. Hoje, exerce a atividade de artesão, confeccionando coloridas bolsas de pano. Embora possua alma terna e zen, Sotero é bastante rígido nas suas convicções. Não come carne e todas as tardes, religiosamente, faz leituras de autores da melhor literatura mundial como Kafka, Sartre, Herman Hesse e Camus, sentado à beira-mar.
Sotero, um dos personagens marcantes da Praia Grande
Pois bem, certa noite de quinta-feira, eu estava no Risco de Vida na companhia do meu amigo e estudante de comunicação José Luiz Diniz – hoje, jornalista e servidor, como eu, de uma instituição pública. Diniz era conhecido por sua gentileza, inteligência, simplicidade e, principalmente, pelo rigor ético. No entanto, naquela disputada noite, depois de umas e outras, e de ter tentado pedir a conta por diversas vezes a Sotero, sem obter sucesso, ele, muito indignado, propôs que saíssemos sem pagar. Tomei um susto. Nunca esperei que Diniz fizesse tal proposta. E pior, não tive tempo de argumentar o contrário, pois ele foi logo se levantando da mesa com os livros na mão, dirigindo-se à porta de saída do bar, que, como já contei, lotava nas noites de quinta-feira. Fui atrás carregando a minha inseparável mochila. Quando demos os primeiros passos na rua, fomos surpreendidos por Sotero que, como um gato esguio, saltou à nossa frente, fechando o ângulo, e exigindo o pagamento da conta. Na época, reclamei com Diniz. Hoje, acho muita graça, pois, na verdade, foi divertido ter passado por essa.
DESAFIO
E as quintas-feiras do Risco de Vida eram tão apreciadas que, quando o bar fechou, Mano Borges resolveu fazer uma apresentação de despedida no bar Antigamente, que ficava na rua da Estrela e se distinguia do Risco de Vida por realizar som de barzinho ao ar livre. Então, nós fomos para a calçada do Antigamente conferir a performance de Mano sob as estrelas. Entretanto, naquela noite, ele seria ofuscado por Zeca Baleiro, ainda longe de se tornar famoso, apenas um talentoso compositor aguardando o momento de pôr o pé na estrada.
Enquanto Zeca Baleiro tinha sido convidado a subir no palco para dar uma canja, Alceu Valença passeava pela Praia Grande. O pernambucano observou o burburinho do Antigamente e parou. Daí, foi convidado a participar da apresentação, disputando um repente com Zeca Baleiro. Alceu estava em São Luís promovendo a campanha de Edison Lobão para governador e Zeca parecia revoltado por ele, um ídolo de todos, apoiar a campanha de um político conservador como Lobão. Por isso, no duelo, não perdoou Alceu, dando um banho de criatividade nas rimas e praticamente humilhando o rival com um texto contundente. Surpreso com a atuação de Zeca, o público vibrava a cada verso afiado do maranhense.
Há quem diga que o artista pernambucano não estava disposto a disputar nada. Outros afirmam que ele nem entendeu direito a provocação. O certo é que aquela noite marcou uma geração e pôs fim ao primeiro período da história da boemia da Praia Grande pós-restauro.
Este encontro inusitado é lembrado por muitos, inclusive por Zeca, que me confessou, em uma entrevista, que sempre teve curiosidade de saber se Alceu conseguia lembrar do episódio e relacioná-lo ao fato.
Eduardo Júlio e Axel Brito perambulando pelas ruas de Alcântara
Por Eduardo Júlio
A Praia Grande foi entregue restaurada no final de 1989. Foi o primeiro Centro Histórico reformado das capitais do Nordeste - antes do Pelourinho e do Recife Antigo. Quando a Praia Grande, que muitos insistem em chamar de Projeto Reviver (denominação dada pelo então governador Cafeteira para o projeto de restauração), foi entregue, a maioria dos prédios passou a abrigar repartições públicas ou bares e restaurantes. A vida por lá, portanto, era dividida entre a burocracia e o entretenimento.
Um dos bares era o Risco de Vida, de propriedade do jornalista Luiz Pedro, onde se apresentava, nas noites de quinta-feira, do ano de 1990, o então jovem cantor e compositor Mano Borges, acompanhado do percussionista paraense Luiz Cláudio. Os shows de Mano, naquela época, eram seguidos por um público fiel. Ele cantava músicas autorais e de compositores da MPB, principalmente Caetano Veloso. As suas apresentações no Risco de Vida varavam a madrugada e atraíam dezenas de universitários e intelectuais da cidade. Costumávamos sair da UFMA, depois das 18h, direto para o Risco de Vida. Na volta, cansei de penar na parada de ônibus ao lado do colega César Choairy, esperando o corujão do Calhau. Mas, aos 19 anos, desconforto não nos afeta.
Além dos shows de Mano Borges, o Risco de Vida foi palco, em 1990, de apresentações de Zeca Baleiro, antes de partir para São Paulo, e do gaúcho Vítor Ramil, que no período gozava de muito prestígio em São Luís, porque canções de seu disco “Tango” eram muito executadas na Universidade FM.
O referido bar ficava exatamente onde hoje funciona o sebo e livraria Poeme-se. Se não me engano, o Risco de Vida era um dos poucos estabelecimentos da Praia Grande que vendia chope. No atendimento, atuava Sotero, uma figura lúdica e enigmática, habitué da Praia Grande, querida por todos que frequentam ou frequentaram a área. Magrinho como um saddhu (asceta santo indiano), ele era conhecido por alguns moradores do Centro (Sotero mora na Rua da Saúde) pelo apelido de Ventania. Naquela época, além de trabalhar como garçom (já tinha passado pelo lendário Taipa, que chegou a ser administrado por Zé Maria Medeiros, idealizador de "A Vida é uma Festa"), era o maior criador de gatos persas de São Luís. Hoje, exerce a atividade de artesão, confeccionando coloridas bolsas de pano. Embora possua alma terna e zen, Sotero é bastante rígido nas suas convicções. Não come carne e todas as tardes, religiosamente, faz leituras de autores da melhor literatura mundial como Kafka, Sartre, Herman Hesse e Camus, sentado à beira-mar.
Sotero, um dos personagens marcantes da Praia Grande
Pois bem, certa noite de quinta-feira, eu estava no Risco de Vida na companhia do meu amigo e estudante de comunicação José Luiz Diniz – hoje, jornalista e servidor, como eu, de uma instituição pública. Diniz era conhecido por sua gentileza, inteligência, simplicidade e, principalmente, pelo rigor ético. No entanto, naquela disputada noite, depois de umas e outras, e de ter tentado pedir a conta por diversas vezes a Sotero, sem obter sucesso, ele, muito indignado, propôs que saíssemos sem pagar. Tomei um susto. Nunca esperei que Diniz fizesse tal proposta. E pior, não tive tempo de argumentar o contrário, pois ele foi logo se levantando da mesa com os livros na mão, dirigindo-se à porta de saída do bar, que, como já contei, lotava nas noites de quinta-feira. Fui atrás carregando a minha inseparável mochila. Quando demos os primeiros passos na rua, fomos surpreendidos por Sotero que, como um gato esguio, saltou à nossa frente, fechando o ângulo, e exigindo o pagamento da conta. Na época, reclamei com Diniz. Hoje, acho muita graça, pois, na verdade, foi divertido ter passado por essa.
DESAFIO
E as quintas-feiras do Risco de Vida eram tão apreciadas que, quando o bar fechou, Mano Borges resolveu fazer uma apresentação de despedida no bar Antigamente, que ficava na rua da Estrela e se distinguia do Risco de Vida por realizar som de barzinho ao ar livre. Então, nós fomos para a calçada do Antigamente conferir a performance de Mano sob as estrelas. Entretanto, naquela noite, ele seria ofuscado por Zeca Baleiro, ainda longe de se tornar famoso, apenas um talentoso compositor aguardando o momento de pôr o pé na estrada.
Enquanto Zeca Baleiro tinha sido convidado a subir no palco para dar uma canja, Alceu Valença passeava pela Praia Grande. O pernambucano observou o burburinho do Antigamente e parou. Daí, foi convidado a participar da apresentação, disputando um repente com Zeca Baleiro. Alceu estava em São Luís promovendo a campanha de Edison Lobão para governador e Zeca parecia revoltado por ele, um ídolo de todos, apoiar a campanha de um político conservador como Lobão. Por isso, no duelo, não perdoou Alceu, dando um banho de criatividade nas rimas e praticamente humilhando o rival com um texto contundente. Surpreso com a atuação de Zeca, o público vibrava a cada verso afiado do maranhense.
Há quem diga que o artista pernambucano não estava disposto a disputar nada. Outros afirmam que ele nem entendeu direito a provocação. O certo é que aquela noite marcou uma geração e pôs fim ao primeiro período da história da boemia da Praia Grande pós-restauro.
Este encontro inusitado é lembrado por muitos, inclusive por Zeca, que me confessou, em uma entrevista, que sempre teve curiosidade de saber se Alceu conseguia lembrar do episódio e relacioná-lo ao fato.
Eduardo Júlio e Axel Brito perambulando pelas ruas de Alcântara
terça-feira, 31 de julho de 2012
A DITA DURA da massa
Visita às instalações da futura sede do DCE, acaso a DITA DURA chegasse ao poder
Por Joelson Dutra
Das batalhas ideológicas travadas no campus entre 1991 e 1996, saltava aos olhos o debate dualista de retórica colérica e imprecisão focal desencadeado em meio a temáticas como abertura política, nova ordem mundial e - por que não ? - reformulação do cardápio do R.U., afinal nem só de sopa vivia o ser humano.
A grita democrática era geral e todas as lutas, legítimas e urgentes. Porém, a dinâmica caótica dos diálogos mostrava-se tão sedutora quanto uma dor de dente, desanimando e afastando levas de incautos acadêmicos recém chegados ao front.
No divertido relato de Eduardo Júlio – “Uma aventura estética ou o dia em que pichamos as paredes do Pimentão” - encontro o gancho ideal para falar do que talvez fosse, ainda seja e será o mais coeso movimento sócio, etílico, político, esportivo, econômico, lúdico, cultural, etc. da cidade, talvez do país ou quiçá do universo, A DITA DURA.
Infelizmente, por ausência de estudos mais aprofundados, esse fenômeno carece de números para demonstrar a abrangência, relevância e perenidade na vida dos que o experimentaram.
Para entender melhor a gênese de tudo, vamos a um rápido panorama do período acadêmico. O ano para a turma 1991.1 começava com greve geral. O retorno às aulas, meses depois, dava-se num ambiente ainda não tão favorável. Nossa professora de História da Comunicação, cujo nome me escapa, avisara, sem margem para choro ou vela, que deixaria a disciplina no momento da oficialização de sua aposentadoria - e assim o fez, horas depois. Assume então o coordenador do curso, Ruben Carranza Gutierrez, que prontamente decreta:
- Aqui tem sete temas de pesquisa. Dividam-se em grupos que eu retorno no final do período para apresentação.
Era isso ou perder o semestre e, para o bem ou para o mal, o processo criativo gerou, em forma de esquetes, sete pérolas de conhecimento encharcadas de humor, sarcasmo e contestação.
Obviamente, o barulho da criação não agradou a todos. Ironicamente, soubemos que teríamos muito mais do que quinze minutos de fama ao ver o professor de Ética vociferando pelos corredores da comunicação: “São uns inconsequentes e alienados” e “Conversaremos quando forem meus alunos”.
Preocupados, tanto quanto nos permitia a agenda de calouradas, partimos então para palcos maiores e, após a compilação do material, encaramos nosso primeiro ComunicArte. Sucesso de público e renda que produziu a química necessária para grandes parcerias no curso e na vida.
O Rei Papel e parte dos seus súditos da área Itaqui-Bacanga e do Japão
O núcleo sindical da DITA DURA
A ala gospel da DITA DURA: canções evangélicas para "levantar fundos"
A chegada da segunda turma de 1991 e o retorno da manada de dinossauros, devido ao fantasma do jubilamento, proporcionaram, além de uma série de descobertas, o encontro de figuraças, que mais pareciam personagens ficcionais, e o enriquecimento do já espesso caldo cultural do curso completando a seara de onde nasceria A Dita Dura.
Nos anos seguintes, longe da condição de calouros, seguimos derrubando presidentes e aclamando reis. A bem da verdade, é preciso ressaltar que rifamos apenas um único presidente, mas era o da República, aclamamos tão somente um rei, mas foi pra sempre, e A DITA DURA ainda não existia como movimento organizado. Apenas seguíamos o fluxo natural da história, teorizando sobre o cotidiano, elegendo “certezas”, disparando “verdades” e principalmente nos divertindo com as polêmicas e repercussões advindas desse exercício.
O carisma e a alegria do Rei Papel, de nascença André Álvares Fernandes da Silva, aumentou exponencialmente a curiosidade do campus sobre quem éramos e o que fazíamos. Com isso vieram também as cobranças. A principal: por que não direcionávamos nosso potencial pra algo mais produtivo como a conscientização política dos alunos?
Desafiados, deixamos o conforto do Bambu Bar para defender os ideais arduamente edificados em anos de rodas de “mau-mau”. Encontramos na campanha eleitoral do DCE o espaço ideal para conquista de novos domínios. Precisávamos então de um nome e das antigas histórias do amigo Raimundo Nonato, pai de Cláudio Marques, sobre seu tempo de estudante e sua chapa “Canoa - O Pau que boia”. Veio a inspiração necessária para o surgimento de A DITA DURA.
Sem nenhuma premeditação, assumíamos oficialmente a condição de inconvenientes críticos do sistema, inimigos públicos número 4.397 (as outras posições estavam ocupadas por interlocutores mais politizados), ao menos assim parecia ser a época.
Com um monarca, vários súditos e muitos conceitos a contestar, ridicularizar talvez fosse o termo mais apropriado, nos apresentamos para o embate político e como sempre a reputação do grupo – pasmem, tínhamos uma! - e o boca-a-boca fizeram o resto.
Novamente, na tentativa de ser fiel aos fatos, devo acrescentar que não sei se alguém formalizou a candidatura. Conhecendo os envolvidos, acredito que não, mas isso pouco importou pois as demais chapas já nos consideravam uma ameaça a ponto de uma delas formalizar uma proposta de coligação. Como naqueles tempos, entre os muitos “bichos-grilos” do movimento estudantil, algo mais fedia, além da burguesia cantada por Cazuza, reforçamos o desodorante e optamos pelo voo solo. À base de negativas como - “A DITA DURA NÃO coliga”, “A DITA DURA não junta forças” - e encerrando reuniões com “coligamos se vocês tomarem banho” - percebemos que não seria fácil trazer novos ares ao campus.
No melhor espírito do “vamos fazer”, onde de fato nada acontecia até o último minuto, víamos o tempo passar e concretamente nenhuma peça da campanha nas ruas. As bases de nosso programa político eram passadas de forma oral em bares, festas, confraternizações, obrigatoriamente apenas para quem perguntasse e, graças aos céus, o eleitorado tinha outros interesses.
Ocorre, porém, que nossa estratégia desencadeou uma onda de especulações sobre a virilidade da DITA, obrigando o grupo a abraçar a campanha e aplacar o furor popular.
Fácil descrever o dia em que sentamos pra produzir/distribuir todo o material da campanha. Difícil é dar crédito a todos os envolvidos sem cometer injustiças, por isso nem vou tentar confiando que tudo dará certo no final.
Permito-me, porém, fazer uma exceção pra falar de quem, pra mim, teve o grande insight da campanha viabilizando na prática o início dos trabalhos. Laurene Leite que, além da preciosa assessoria criativa, providenciou todo o material necessário para produção (papel, cartolina, cola, hidrocor, tesoura, revistas jornais, etc.), anulando desculpas e gerando mobilização. A nós, anônimos e famosos, coube alimentar a fogueira de ideias e materializar as mais impactantes.
Numa única tarde, às vésperas da eleição, ao redor de uma das mesas da Área de Vivência do campus, com fartos recursos humanos e materiais, começamos a escrever a história da mais arrebatadora campanha que a UFMA já viveu, ou não, como diz o ilustre baiano.
Muitos dos nossos cartazes poderiam figurar como cases de sucesso em campanhas eleitorais. Alguns caíram instantaneamente no gosto popular e alcançaram fácil o objetivo maior: fazer rir.
O cartaz com gráfico de intenção de voto mostrava que DITA DURA saía do papel, passava pelo mural, continuava parede acima até alcançar o teto.
Outro cartaz emblemático exibia a caricatura do nosso Rei Papel acenando para uma multidão de “populares” do quilate de Daniela Mercury, José Sarney, Roseana Murad e outros.
E também o cartaz em que grandes nomes da arte, música e literatura declaravam: “Sou mais A DITA DURA e Papel”.
Com a campanha na rua, os ideais da DITA DURA consolidados e a boca de urna acusando vitória esmagadora, só restava comemorar.
No final vencemos sem levar. Com aceitação total, descobrimos que, por vários motivos, inclusive por falta de inscrição, estávamos inelegíveis, contudo com 1 milhão de amigos, isso antes do facebook, e bem mais forte podendo cantar: “A DITA DURA não precisa de eleição”.
Isso me lembra que, na eleição para o D.A. de Comunicação, única que realmente concorremos, a comemoração foi maior ainda. A vitória iminente nos levou à articulação de planos que incluíam pedidos de recontagem de votos, anulação e até renúncia, mesmo sem local apropriado pra exilar o Rei. Mas isso é outra história.
Tempos felizes aqueles em que a diversão era boa e barata.
Por Joelson Dutra
Das batalhas ideológicas travadas no campus entre 1991 e 1996, saltava aos olhos o debate dualista de retórica colérica e imprecisão focal desencadeado em meio a temáticas como abertura política, nova ordem mundial e - por que não ? - reformulação do cardápio do R.U., afinal nem só de sopa vivia o ser humano.
A grita democrática era geral e todas as lutas, legítimas e urgentes. Porém, a dinâmica caótica dos diálogos mostrava-se tão sedutora quanto uma dor de dente, desanimando e afastando levas de incautos acadêmicos recém chegados ao front.
No divertido relato de Eduardo Júlio – “Uma aventura estética ou o dia em que pichamos as paredes do Pimentão” - encontro o gancho ideal para falar do que talvez fosse, ainda seja e será o mais coeso movimento sócio, etílico, político, esportivo, econômico, lúdico, cultural, etc. da cidade, talvez do país ou quiçá do universo, A DITA DURA.
Infelizmente, por ausência de estudos mais aprofundados, esse fenômeno carece de números para demonstrar a abrangência, relevância e perenidade na vida dos que o experimentaram.
Para entender melhor a gênese de tudo, vamos a um rápido panorama do período acadêmico. O ano para a turma 1991.1 começava com greve geral. O retorno às aulas, meses depois, dava-se num ambiente ainda não tão favorável. Nossa professora de História da Comunicação, cujo nome me escapa, avisara, sem margem para choro ou vela, que deixaria a disciplina no momento da oficialização de sua aposentadoria - e assim o fez, horas depois. Assume então o coordenador do curso, Ruben Carranza Gutierrez, que prontamente decreta:
- Aqui tem sete temas de pesquisa. Dividam-se em grupos que eu retorno no final do período para apresentação.
Era isso ou perder o semestre e, para o bem ou para o mal, o processo criativo gerou, em forma de esquetes, sete pérolas de conhecimento encharcadas de humor, sarcasmo e contestação.
Obviamente, o barulho da criação não agradou a todos. Ironicamente, soubemos que teríamos muito mais do que quinze minutos de fama ao ver o professor de Ética vociferando pelos corredores da comunicação: “São uns inconsequentes e alienados” e “Conversaremos quando forem meus alunos”.
Preocupados, tanto quanto nos permitia a agenda de calouradas, partimos então para palcos maiores e, após a compilação do material, encaramos nosso primeiro ComunicArte. Sucesso de público e renda que produziu a química necessária para grandes parcerias no curso e na vida.
O Rei Papel e parte dos seus súditos da área Itaqui-Bacanga e do Japão
O núcleo sindical da DITA DURA
A ala gospel da DITA DURA: canções evangélicas para "levantar fundos"
A chegada da segunda turma de 1991 e o retorno da manada de dinossauros, devido ao fantasma do jubilamento, proporcionaram, além de uma série de descobertas, o encontro de figuraças, que mais pareciam personagens ficcionais, e o enriquecimento do já espesso caldo cultural do curso completando a seara de onde nasceria A Dita Dura.
Nos anos seguintes, longe da condição de calouros, seguimos derrubando presidentes e aclamando reis. A bem da verdade, é preciso ressaltar que rifamos apenas um único presidente, mas era o da República, aclamamos tão somente um rei, mas foi pra sempre, e A DITA DURA ainda não existia como movimento organizado. Apenas seguíamos o fluxo natural da história, teorizando sobre o cotidiano, elegendo “certezas”, disparando “verdades” e principalmente nos divertindo com as polêmicas e repercussões advindas desse exercício.
O carisma e a alegria do Rei Papel, de nascença André Álvares Fernandes da Silva, aumentou exponencialmente a curiosidade do campus sobre quem éramos e o que fazíamos. Com isso vieram também as cobranças. A principal: por que não direcionávamos nosso potencial pra algo mais produtivo como a conscientização política dos alunos?
Desafiados, deixamos o conforto do Bambu Bar para defender os ideais arduamente edificados em anos de rodas de “mau-mau”. Encontramos na campanha eleitoral do DCE o espaço ideal para conquista de novos domínios. Precisávamos então de um nome e das antigas histórias do amigo Raimundo Nonato, pai de Cláudio Marques, sobre seu tempo de estudante e sua chapa “Canoa - O Pau que boia”. Veio a inspiração necessária para o surgimento de A DITA DURA.
Sem nenhuma premeditação, assumíamos oficialmente a condição de inconvenientes críticos do sistema, inimigos públicos número 4.397 (as outras posições estavam ocupadas por interlocutores mais politizados), ao menos assim parecia ser a época.
Com um monarca, vários súditos e muitos conceitos a contestar, ridicularizar talvez fosse o termo mais apropriado, nos apresentamos para o embate político e como sempre a reputação do grupo – pasmem, tínhamos uma! - e o boca-a-boca fizeram o resto.
Novamente, na tentativa de ser fiel aos fatos, devo acrescentar que não sei se alguém formalizou a candidatura. Conhecendo os envolvidos, acredito que não, mas isso pouco importou pois as demais chapas já nos consideravam uma ameaça a ponto de uma delas formalizar uma proposta de coligação. Como naqueles tempos, entre os muitos “bichos-grilos” do movimento estudantil, algo mais fedia, além da burguesia cantada por Cazuza, reforçamos o desodorante e optamos pelo voo solo. À base de negativas como - “A DITA DURA NÃO coliga”, “A DITA DURA não junta forças” - e encerrando reuniões com “coligamos se vocês tomarem banho” - percebemos que não seria fácil trazer novos ares ao campus.
No melhor espírito do “vamos fazer”, onde de fato nada acontecia até o último minuto, víamos o tempo passar e concretamente nenhuma peça da campanha nas ruas. As bases de nosso programa político eram passadas de forma oral em bares, festas, confraternizações, obrigatoriamente apenas para quem perguntasse e, graças aos céus, o eleitorado tinha outros interesses.
Ocorre, porém, que nossa estratégia desencadeou uma onda de especulações sobre a virilidade da DITA, obrigando o grupo a abraçar a campanha e aplacar o furor popular.
Fácil descrever o dia em que sentamos pra produzir/distribuir todo o material da campanha. Difícil é dar crédito a todos os envolvidos sem cometer injustiças, por isso nem vou tentar confiando que tudo dará certo no final.
Permito-me, porém, fazer uma exceção pra falar de quem, pra mim, teve o grande insight da campanha viabilizando na prática o início dos trabalhos. Laurene Leite que, além da preciosa assessoria criativa, providenciou todo o material necessário para produção (papel, cartolina, cola, hidrocor, tesoura, revistas jornais, etc.), anulando desculpas e gerando mobilização. A nós, anônimos e famosos, coube alimentar a fogueira de ideias e materializar as mais impactantes.
Numa única tarde, às vésperas da eleição, ao redor de uma das mesas da Área de Vivência do campus, com fartos recursos humanos e materiais, começamos a escrever a história da mais arrebatadora campanha que a UFMA já viveu, ou não, como diz o ilustre baiano.
Muitos dos nossos cartazes poderiam figurar como cases de sucesso em campanhas eleitorais. Alguns caíram instantaneamente no gosto popular e alcançaram fácil o objetivo maior: fazer rir.
O cartaz com gráfico de intenção de voto mostrava que DITA DURA saía do papel, passava pelo mural, continuava parede acima até alcançar o teto.
Outro cartaz emblemático exibia a caricatura do nosso Rei Papel acenando para uma multidão de “populares” do quilate de Daniela Mercury, José Sarney, Roseana Murad e outros.
E também o cartaz em que grandes nomes da arte, música e literatura declaravam: “Sou mais A DITA DURA e Papel”.
Com a campanha na rua, os ideais da DITA DURA consolidados e a boca de urna acusando vitória esmagadora, só restava comemorar.
No final vencemos sem levar. Com aceitação total, descobrimos que, por vários motivos, inclusive por falta de inscrição, estávamos inelegíveis, contudo com 1 milhão de amigos, isso antes do facebook, e bem mais forte podendo cantar: “A DITA DURA não precisa de eleição”.
Isso me lembra que, na eleição para o D.A. de Comunicação, única que realmente concorremos, a comemoração foi maior ainda. A vitória iminente nos levou à articulação de planos que incluíam pedidos de recontagem de votos, anulação e até renúncia, mesmo sem local apropriado pra exilar o Rei. Mas isso é outra história.
Tempos felizes aqueles em que a diversão era boa e barata.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
A ecologia da alma
“Ecologia e criatividade”, livro da Clara Editora que será lançado hoje na 64a Reunião Anual da SBPC, é um suspiro oportuno e verdadeiro com o qual Moisés Matias nos conta como atravessou o mar vermelho de suas inquietações vividas, de suas vicissitudes. O livro integra a trilogia iniciada com “Sítio ecológico, um guia para salvar a terra”, e que deve ser concluída em breve com “Ecologia e estresse”. De antemão, o leitor deve ser alertado: “Ecologia e criatividade” não é um manual de navegação para ambientalistas ou prontuário de autoajuda, mas uma peça para errantes, escravos do tempo, pessoas comuns, vítimas de cóleras digitais.
Não tem bula, mas é balsâmico. É o encontro do autor consigo mesmo, remoçado. Moisés Matias faz o caminho de volta às suas origens, à infância nos seringais do Acre, recria a passagem pelos Andes no Illimani até se deparar com o processo criativo que brota do contato com as pequenas coisas, no silêncio de Panakuí, o seu porto seguro. Panakuí representa para o autor a reinvenção da ecologia, a ecologia da alma que inspira sossego e abre as janelas da criatividade.
Depois de anos na guerrilha da notícia, no ativismo pagão, na carapuça partidária, Moisés Matias descobriu que “a pressa é inimiga da criação”. Para um jornalista de formação, isso é quase uma heresia. “Aos poucos fui saindo da mídia. Sumi para o mundo e fui atrás de mim, da minha essência”.
Didatismo ou escapismo? O autor acasala livremente simples soluções ambientais com dramas existenciais do cotidiano e retira daí o sal da terra para a sua saúde mental e física. Às vezes o professor fala mais alto, com suas lições e cavalgadas pelas colinas da teoria e pelo pântano das confissões científicas. É também o poeta em transe carregado por sensações, sonhos e pensamentos anotados no papel de pão. É o repórter involuntário, o colecionador de pequenas histórias, o fotógrafo no encalço das orquídeas e dos girassóis e o lavrador urbano.
Esse “ar avoado de quem está sempre ausente” empresta a Moisés Matias a capacidade de ruminar ideias com liberdade, o que o torna esquivo da ecologia cartesiana. O homem em crise, encoleirado pelo excesso de informação e problemas de saúde, encontra forças para dialogar livremente com o menino deixado para trás nas florestas acreanas, o agente da cura.
“Ecologia e criatividade” sugere ao leitor uma reflexão necessária sobre a velocidade dos dias. O livro não é a verdade derradeira, mas indica a linha do horizonte e dá pistas de como aproveitar, a cada segundo, os lampejos de inspiração, sem medo nem pressa. A criatividade, afinal, é como uma locomotiva desgovernada, sem freio. Para criar, é preciso imaginar a trilha.
Moisés Matias revela-se um ser sitiado na sua caldeira de emoções cotidianas, como quem descobre um baú de esperança no final do arco-íris. As páginas dessa ecologia são confissões de um ex-atormentado que descobriu a receita líquida da felicidade interna bruta.
Não tem bula, mas é balsâmico. É o encontro do autor consigo mesmo, remoçado. Moisés Matias faz o caminho de volta às suas origens, à infância nos seringais do Acre, recria a passagem pelos Andes no Illimani até se deparar com o processo criativo que brota do contato com as pequenas coisas, no silêncio de Panakuí, o seu porto seguro. Panakuí representa para o autor a reinvenção da ecologia, a ecologia da alma que inspira sossego e abre as janelas da criatividade.
Depois de anos na guerrilha da notícia, no ativismo pagão, na carapuça partidária, Moisés Matias descobriu que “a pressa é inimiga da criação”. Para um jornalista de formação, isso é quase uma heresia. “Aos poucos fui saindo da mídia. Sumi para o mundo e fui atrás de mim, da minha essência”.
Didatismo ou escapismo? O autor acasala livremente simples soluções ambientais com dramas existenciais do cotidiano e retira daí o sal da terra para a sua saúde mental e física. Às vezes o professor fala mais alto, com suas lições e cavalgadas pelas colinas da teoria e pelo pântano das confissões científicas. É também o poeta em transe carregado por sensações, sonhos e pensamentos anotados no papel de pão. É o repórter involuntário, o colecionador de pequenas histórias, o fotógrafo no encalço das orquídeas e dos girassóis e o lavrador urbano.
Esse “ar avoado de quem está sempre ausente” empresta a Moisés Matias a capacidade de ruminar ideias com liberdade, o que o torna esquivo da ecologia cartesiana. O homem em crise, encoleirado pelo excesso de informação e problemas de saúde, encontra forças para dialogar livremente com o menino deixado para trás nas florestas acreanas, o agente da cura.
“Ecologia e criatividade” sugere ao leitor uma reflexão necessária sobre a velocidade dos dias. O livro não é a verdade derradeira, mas indica a linha do horizonte e dá pistas de como aproveitar, a cada segundo, os lampejos de inspiração, sem medo nem pressa. A criatividade, afinal, é como uma locomotiva desgovernada, sem freio. Para criar, é preciso imaginar a trilha.
Moisés Matias revela-se um ser sitiado na sua caldeira de emoções cotidianas, como quem descobre um baú de esperança no final do arco-íris. As páginas dessa ecologia são confissões de um ex-atormentado que descobriu a receita líquida da felicidade interna bruta.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
São Luís e Rio
Rio e São Luís têm similaridades - e também dessemelhanças. Na
gente, na cultura, na cor da pele, na história, no batuque, na paisagem. E foi
juntando pedaços das sutis diferenças de uma e de outra terra que Betto Pereira
e eu fizemos, no Carnaval passado, a música “Maravilhosa”.
Interpretada por Betto e Anna Torres (maranhense talentosa
radicada em Paris), “Maravilhosa” ganhou videoclipe especial produzido por
Gabriel Steffens, videomaker, estilista e neto de Carmen Steffens.
Gabriel utilizou o clipe para divulgar no seu blog (www.gabrielspaniol.com.br) a grife de sapatos
que leva o seu nome.
domingo, 17 de junho de 2012
Prefiro Toddy ao tédio

Uma aventura estética ou o dia em que pichamos as paredes do Pimentão
Por Eduardo Júlio
O ano era 1993. Segundo o meu amigo e estudante de Ciências Sociais César Choairy, o Cesinha, um embate inédito acontecia na disputa pelo DCE da UFMA. Pela primeira vez, uma chapa – de fato - de direita, formada por estudantes de Direito, disputaria com os tradicionais grupos do PT e do PCdoB o comando da militância estudantil da Federal. César me disse, de forma imperativa: “Desta vez, não são somente grupos de esquerda, disputando entre si. Existe um perigo real do DCE ser tomado pela direita. Temos que fazer alguma coisa, Eduardo!”.
Entre os grupos de esquerda que disputavam o DCE naquele ano estava a chapa Contraponto, formada por filiados e simpatizantes do PT, liderada por Jorge Moreno, um notável e engajado estudante de Direito, que se tornaria um dos mais contundentes juízes do Maranhão - no momento, aposentado de suas funções. Sou grato até hoje por Jorge ter cedido a sua vaga num ônibus que levaria universitários do Maranhão para o Encontro de Arte e Cultura da UNE, em Ouro Preto, em 1993. Três dias de pura piração juvenil numa das cidades mais monumentais do país. Nunca esqueci daquele ato de generosidade, mas isso é um outro papo. Integravam também a Contraponto César e o meu grande amigo Elício Pacífico.
Outro grupo dessa margem do rio era o Começo do Fim, uma chapa meio niilista meio anarquista comandada por Ronaldo Rezende, estudante de Filosofia e uma das minhas grandes amizades desde os tempos do segundo grau no Colégio Meng. Embora cursasse Filosofia, Ronaldo se tornaria um dos mais fundamentados professores de História de sua geração, especializado em geopolítica internacional. Em 2001, ele morreria depois de lutar por alguns anos contra problemas renais.
Não lembro a denominação da chapa de direita nem o nome exato dos integrantes, mas a turma do PT chamava os caras de “cabeças de camarão”. Sei somente que um dos cabeças se tornou um famoso deputado estadual. Se eleita, a chapa provavelmente iria reprimir o consumo de maconha nos bosques do Campus do Bacanga. Na época, espaços muito apropriados e seguros para esse tipo de experiência.
Pois bem, num determinado dia, Cesinha teve a ideia de pichar as paredes do Pimentão, com frases de efeito, para despertar a consciência dos colegas para a ameaça de um comando de direita no Campus. Além, é claro, de propagar o nome da Contraponto como melhor alternativa. O Pimentão (atual CCSo) era o prédio que, à época, abrigava importantes cursos das áreas humanas e sociais, como Comunicação, Direito, Serviço Social, Pedagogia, Economia, Ciências Contábeis e Ciências Sociais. Para executar a ação subversiva, ele pegou emprestado o Chevette de sua futura sogra (por sinal, minha tia), que levaria, durante a madrugada, uma turma de militantes ao Campus, quando a área ficava vulnerável a ações do tipo.
Cesinha já era um parceiro meu em ações de terrorismo anarquista. Certa vez, sequestramos uma urna de uma eleição que escolheria um representante da UFMA para um congresso ou reunião da UNE. Aproveitamos um momento de descuido da mesária Márcia Coimbra - que logo cedo se tornaria uma das mais competentes jornalistas de São Luís – e levamos a urna para escondê-la no último andar do prédio numa sala do curso de Direito. Horas depois, devolveríamos a urna, após sermos dedurados, provavelmente, por algum agente secreto do DCE.
Mas, voltando ao dia da pichação, quando aceitei participar, tive uma outra ideia: iria aproveitar a oportunidade para escrever poemas de Ledusha, Chacal e Leminski nas paredes do prédio. Com isso, pouparia o Pimentão, a nossa segunda casa, de frases factuais e deselegantes.
Quando chegamos, tomei logo conta de algumas tintas e fui escrevendo os poemas. Escrevi logo um da Ledusha que parafraseia o russo Maiakóvski: prefiro toddy ao tédio. E veio outro do Chacal: é proibido pisar na grama/ o jeito é deitar e rolar. O do Leminski eu não me lembro. Quando alguns dos colegas militantes perceberam, ficaram indignados. Um deles questionou o que era aquilo que estava escrevendo. Eu respondi que eram poemas. Então ele disse: “Poemas??? Você é um alienado!!! Eu trepliquei afirmando que não iria discutir com alguém que nada sabia a respeito de poesia contemporânea.
Depois de uma troca de olhares furiosos, Cesinha, num exercício de elegante diplomacia, resolveu o problema, dividindo os territórios de ocupação, como na divisão da Alemanha no final da segunda grande guerra. Eu ficaria com as paredes do corredor do primeiro andar das salas de Comunicação e também com a pracinha, onde já tinha começado a escrever. Os reais militantes da Contraponto teriam direito a utilizar as paredes do entorno da cantina no segundo piso. Sinceramente, acho que levei vantagem naquela disputa.
As coloridas pichações com os poemas permaneceriam nas paredes do Pimentão por pelo menos quatro longos anos. Além dos poemas, eu desenhei o símbolo que ficou conhecido como o de paz e amor, muito usado na época da Guerra do Vietnã, que, na verdade, significa cessar bombardeio.
BIGAMIA
E o meu envolvimento nos fatos daquela eleição para o DCE não terminariam ali. Durante o tempo da campanha eleitoral, Jorge Moreno pediu o meu apoio à chapa Contraponto. Eu jamais negaria um pedido dele, um colega que tanto admirava, por ser uma dos estudantes mais dedicados da UFMA. No mesmo dia, o meu grande amigo Ronaldo igualmente pediu o meu apoio à chapa Começo do Fim. Também nunca negaria um pedido de Ronaldo, que considerava um irmão. Resultado: na semana seguinte, tanto o panfleto da Contraponto quanto o da Começo do Fim apresentaram meu nome como um dos apoiadores. O pessoal da Contraponto nem ligou, mas Ronaldo ficou profundamente magoado com a minha bigamia política.
No dia do debate, quando entrei no auditório da UFMA, que estava lotado, Ronaldo, coincidentemente, estava com a palavra e, ao me ver, vociferou, apontando para mim: “Não levem este cara a sério. Ele não passa de uma aventura estética!!!”. Nesse momento, todos me olharam. Eu estava ao lado das colegas Mirtes Gomes e Andréa Oliveira, ambas estudantes de Comunicação, e fui procurando rapidamente um lugar para sentar ou para me esconder na plateia, enquanto tentava desvendar o teor daquela afirmação, surpreendentemente, tão lúdica: “aventura estética”. Dias depois, Ronaldo viria se desculpar comigo e a Contraponto venceria a eleição.
Não me recordo em quem votei para o DCE em 1993. Talvez em algum grupo de rock inglês dos anos 70, como o Yes, o Pink Floyd e o Led Zeppelin (exatamente como fazia o meu amigo Geraldo Iensen) ou em algum poeta “maldito” já falecido, a exemplo de Cacaso, Paulo Leminski e Torquato Neto.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
O homem e o seu tempo
Já escrevi outras vezes sobre o jornalista Pergentino Holanda, sempre com a acuidade de expô-lo verdadeiro, falível, temperamental, boêmio seletivo, viajante letrado, observador desregrado. Encontrei na caminhada o desbravador de museus mundanos, o inventor de fábulas e festas, o comendador acidental, o anônimo garimpeiro de sebos, o encantador de leitores, o esteta da gastronomia. Não alcancei, contudo, o homem e o seu tempo, eterno conflito, tumulto em construção.
Chegou aos 20 anos sem compromisso algum, com a calça boca de sino balançando ao vento leve. Aos 30 já era o homem-âncora da família, mergulhado nessa responsabilidade com que se envelhece 10 anos a cada 12 meses. Aos 40, bem sucedido e ainda mais comprometido com o que escrevia, já tinha 60 e era quase avô dos filhos dos seus irmãos. Aos 50 desacelerou, voltou a ter 40, carimbou mais vezes o passaporte, desligou o motor das pequenas vaidades e se enfiou na tempestade dos brechós de praças anônimas.
O indisfarçável frequentador da mesa 15 da Cabana do Sol não me deixa ver a idade que tem hoje. Dali daquele canto no salão superior do restaurante da Ponta do Farol, copo de uísque longo em dose dupla e muito gelo, ele dá boa noite a São Luís depois de passar a limpo na Redação o barulho das horas do dia. Flerta com a mesa do lado, insulta com o olhar a bolsa falsa da madame que chega com voz estridente, remexe a travessa de peixes frescos já refogados no azeite trazidos do interior por Luiz Carlos Cantanhede, fala ao celular com José Carlos Salgueiro, solta gargalhadas com as inocentes histórias do sertão de Régis Fialho e deixa mais alegre a noite de Ana Lúcia e Amaro Santana Leite.
Aos 64 anos ele não sabe mais a idade que tem, tantas vezes foi e voltou na esquina do tempo. Depois dos 40 parou de contar. O que me espanta é o que Pergentino Holanda faz do tempo. Como encontra hora para sair, viver, viajar e escrever? A receita é simples: para escrever, precisa viver, ser consumido pelo tempo e dele se abastecer da notícia balsâmica. É o jogo que involuntariamente pratica no cotidiano, como um aproveitador. É um perde-e-ganha sem medida.
Onde e quando arruma tempo para escrever suas belas crônicas publicadas aos domingos – ou a qualquer dia da semana, quando lhe dá na telha? Escreve com prazer para o jornal, se entrega na profundidade ou na superficialidade dos enredos. Mas não encontra força ou coragem – quem sabe tempo - para publicar o fardo das mirabolantes ideias num livro, ou nalguns livros. Já se vão mais de 40 anos da poesia estampada no varal de “Existencial de agosto”, a sua obra única, esquecida, inquieta no baú das memórias. Depois, o silêncio de outubros e a valsa de muitos maios.
Há no semblante de Pergentino Holanda uma idade que não se revela, desconfiada e desinibida ao mesmo tempo, velha e juvenil, afoita e assombrada. Nas atitudes, há o menino birrento, sarcástico, o tirador de sarro, o falatório inconsequente, o segredo compartilhado com a mais pura lealdade, o humanismo do berço, o pavio curto, a simplicidade do jogo de erros, a desenvoltura ingênua. Nas amizades que cativa e cultiva, Pergentino Holanda é o senhor dos anéis, das boas alianças, dos laços fortes, da fidelidade inescapável.
É blasé na música que ouve, no corte dos cetins que adornam as festas, nos acordes das orquestras tradicionais, nos programas do final de semana, nas vestes de marca, na discoteca de Mário Pseudo, no passeio completo, na camiseta-convite, no protocolo. E, para distrair a plateia, se reinventa no espelho, não como Dorian Gray ou um camaleão de photoshop, mas como quem não pode ceder ao luxo dos anos porque o trabalho não permite.
Os dias passam, sobem e descem colesteróis e triglicerídeos nas mesas da noite, e Pergentino Holanda se camufla na paisagem enquanto fita a bailarina do Boi Barrica ou quando no salão se deixa hipnotizar pelo bailado do violino. Quase ninguém o vê chorar, porque não faz concessões no seu estilo de viver para contar. Viver a tempo de contar.
(texto publicado originalmente no jornal "O Estado do Maranhão", no dia 27.05.2012)
Chegou aos 20 anos sem compromisso algum, com a calça boca de sino balançando ao vento leve. Aos 30 já era o homem-âncora da família, mergulhado nessa responsabilidade com que se envelhece 10 anos a cada 12 meses. Aos 40, bem sucedido e ainda mais comprometido com o que escrevia, já tinha 60 e era quase avô dos filhos dos seus irmãos. Aos 50 desacelerou, voltou a ter 40, carimbou mais vezes o passaporte, desligou o motor das pequenas vaidades e se enfiou na tempestade dos brechós de praças anônimas.
O indisfarçável frequentador da mesa 15 da Cabana do Sol não me deixa ver a idade que tem hoje. Dali daquele canto no salão superior do restaurante da Ponta do Farol, copo de uísque longo em dose dupla e muito gelo, ele dá boa noite a São Luís depois de passar a limpo na Redação o barulho das horas do dia. Flerta com a mesa do lado, insulta com o olhar a bolsa falsa da madame que chega com voz estridente, remexe a travessa de peixes frescos já refogados no azeite trazidos do interior por Luiz Carlos Cantanhede, fala ao celular com José Carlos Salgueiro, solta gargalhadas com as inocentes histórias do sertão de Régis Fialho e deixa mais alegre a noite de Ana Lúcia e Amaro Santana Leite.
Aos 64 anos ele não sabe mais a idade que tem, tantas vezes foi e voltou na esquina do tempo. Depois dos 40 parou de contar. O que me espanta é o que Pergentino Holanda faz do tempo. Como encontra hora para sair, viver, viajar e escrever? A receita é simples: para escrever, precisa viver, ser consumido pelo tempo e dele se abastecer da notícia balsâmica. É o jogo que involuntariamente pratica no cotidiano, como um aproveitador. É um perde-e-ganha sem medida.
Onde e quando arruma tempo para escrever suas belas crônicas publicadas aos domingos – ou a qualquer dia da semana, quando lhe dá na telha? Escreve com prazer para o jornal, se entrega na profundidade ou na superficialidade dos enredos. Mas não encontra força ou coragem – quem sabe tempo - para publicar o fardo das mirabolantes ideias num livro, ou nalguns livros. Já se vão mais de 40 anos da poesia estampada no varal de “Existencial de agosto”, a sua obra única, esquecida, inquieta no baú das memórias. Depois, o silêncio de outubros e a valsa de muitos maios.
Há no semblante de Pergentino Holanda uma idade que não se revela, desconfiada e desinibida ao mesmo tempo, velha e juvenil, afoita e assombrada. Nas atitudes, há o menino birrento, sarcástico, o tirador de sarro, o falatório inconsequente, o segredo compartilhado com a mais pura lealdade, o humanismo do berço, o pavio curto, a simplicidade do jogo de erros, a desenvoltura ingênua. Nas amizades que cativa e cultiva, Pergentino Holanda é o senhor dos anéis, das boas alianças, dos laços fortes, da fidelidade inescapável.
É blasé na música que ouve, no corte dos cetins que adornam as festas, nos acordes das orquestras tradicionais, nos programas do final de semana, nas vestes de marca, na discoteca de Mário Pseudo, no passeio completo, na camiseta-convite, no protocolo. E, para distrair a plateia, se reinventa no espelho, não como Dorian Gray ou um camaleão de photoshop, mas como quem não pode ceder ao luxo dos anos porque o trabalho não permite.
Os dias passam, sobem e descem colesteróis e triglicerídeos nas mesas da noite, e Pergentino Holanda se camufla na paisagem enquanto fita a bailarina do Boi Barrica ou quando no salão se deixa hipnotizar pelo bailado do violino. Quase ninguém o vê chorar, porque não faz concessões no seu estilo de viver para contar. Viver a tempo de contar.
(texto publicado originalmente no jornal "O Estado do Maranhão", no dia 27.05.2012)
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