terça-feira, 31 de julho de 2012

A DITA DURA da massa

Visita às instalações da futura sede do DCE, acaso a DITA DURA chegasse ao poder

Por Joelson Dutra

Das batalhas ideológicas travadas no campus entre 1991 e 1996, saltava aos olhos o debate dualista de retórica colérica e imprecisão focal desencadeado em meio a temáticas como abertura política, nova ordem mundial e - por que não ? - reformulação do cardápio do R.U., afinal nem só de sopa vivia o ser humano.

A grita democrática era geral e todas as lutas, legítimas e urgentes. Porém, a dinâmica caótica dos diálogos mostrava-se tão sedutora quanto uma dor de dente, desanimando e afastando levas de incautos acadêmicos recém chegados ao front.

No divertido relato de Eduardo Júlio – “Uma aventura estética ou o dia em que pichamos as paredes do Pimentão” - encontro o gancho ideal para falar do que talvez fosse, ainda seja e será o mais coeso movimento sócio, etílico, político, esportivo, econômico, lúdico, cultural, etc. da cidade, talvez do país ou quiçá do universo, A DITA DURA.

Infelizmente, por ausência de estudos mais aprofundados, esse fenômeno carece de números para demonstrar a abrangência, relevância e perenidade na vida dos que o experimentaram.

Para entender melhor a gênese de tudo, vamos a um rápido panorama do período acadêmico. O ano para a turma 1991.1 começava com greve geral. O retorno às aulas, meses depois, dava-se num ambiente ainda não tão favorável. Nossa professora de História da Comunicação, cujo nome me escapa, avisara, sem margem para choro ou vela, que deixaria a disciplina no momento da oficialização de sua aposentadoria - e assim o fez, horas depois. Assume então o coordenador do curso, Ruben Carranza Gutierrez, que prontamente decreta:

- Aqui tem sete temas de pesquisa. Dividam-se em grupos que eu retorno no final do período para apresentação.

Era isso ou perder o semestre e, para o bem ou para o mal, o processo criativo gerou, em forma de esquetes, sete pérolas de conhecimento encharcadas de humor, sarcasmo e contestação.

Obviamente, o barulho da criação não agradou a todos. Ironicamente, soubemos que teríamos muito mais do que quinze minutos de fama ao ver o professor de Ética vociferando pelos corredores da comunicação: “São uns inconsequentes e alienados” e “Conversaremos quando forem meus alunos”.

Preocupados, tanto quanto nos permitia a agenda de calouradas, partimos então para palcos maiores e, após a compilação do material, encaramos nosso primeiro ComunicArte. Sucesso de público e renda que produziu a química necessária para grandes parcerias no curso e na vida.

O Rei Papel e parte dos seus súditos da área Itaqui-Bacanga e do Japão

O núcleo sindical da DITA DURA

A ala gospel da DITA DURA: canções evangélicas para "levantar fundos"

A chegada da segunda turma de 1991 e o retorno da manada de dinossauros, devido ao fantasma do jubilamento, proporcionaram, além de uma série de descobertas, o encontro de figuraças, que mais pareciam personagens ficcionais, e o enriquecimento do já espesso caldo cultural do curso completando a seara de onde nasceria A Dita Dura.

Nos anos seguintes, longe da condição de calouros, seguimos derrubando presidentes e aclamando reis. A bem da verdade, é preciso ressaltar que rifamos apenas um único presidente, mas era o da República, aclamamos tão somente um rei, mas foi pra sempre, e A DITA DURA ainda não existia como movimento organizado. Apenas seguíamos o fluxo natural da história, teorizando sobre o cotidiano, elegendo “certezas”, disparando “verdades” e principalmente nos divertindo com as polêmicas e repercussões advindas desse exercício.

O carisma e a alegria do Rei Papel, de nascença André Álvares Fernandes da Silva, aumentou exponencialmente a curiosidade do campus sobre quem éramos e o que fazíamos. Com isso vieram também as cobranças. A principal: por que não direcionávamos nosso potencial pra algo mais produtivo como a conscientização política dos alunos?

Desafiados, deixamos o conforto do Bambu Bar para defender os ideais arduamente edificados em anos de rodas de “mau-mau”. Encontramos na campanha eleitoral do DCE o espaço ideal para conquista de novos domínios. Precisávamos então de um nome e das antigas histórias do amigo Raimundo Nonato, pai de Cláudio Marques, sobre seu tempo de estudante e sua chapa “Canoa - O Pau que boia”. Veio a inspiração necessária para o surgimento de A DITA DURA.

Sem nenhuma premeditação, assumíamos oficialmente a condição de inconvenientes críticos do sistema, inimigos públicos número 4.397 (as outras posições estavam ocupadas por interlocutores mais politizados), ao menos assim parecia ser a época.

Com um monarca, vários súditos e muitos conceitos a contestar, ridicularizar talvez fosse o termo mais apropriado, nos apresentamos para o embate político e como sempre a reputação do grupo – pasmem, tínhamos uma! - e o boca-a-boca fizeram o resto.

Novamente, na tentativa de ser fiel aos fatos, devo acrescentar que não sei se alguém formalizou a candidatura. Conhecendo os envolvidos, acredito que não, mas isso pouco importou pois as demais chapas já nos consideravam uma ameaça a ponto de uma delas formalizar uma proposta de coligação. Como naqueles tempos, entre os muitos “bichos-grilos” do movimento estudantil, algo mais fedia, além da burguesia cantada por Cazuza, reforçamos o desodorante e optamos pelo voo solo. À base de negativas como - “A DITA DURA NÃO coliga”, “A DITA DURA não junta forças” - e encerrando reuniões com “coligamos se vocês tomarem banho” - percebemos que não seria fácil trazer novos ares ao campus.

No melhor espírito do “vamos fazer”, onde de fato nada acontecia até o último minuto, víamos o tempo passar e concretamente nenhuma peça da campanha nas ruas. As bases de nosso programa político eram passadas de forma oral em bares, festas, confraternizações, obrigatoriamente apenas para quem perguntasse e, graças aos céus, o eleitorado tinha outros interesses.

Ocorre, porém, que nossa estratégia desencadeou uma onda de especulações sobre a virilidade da DITA, obrigando o grupo a abraçar a campanha e aplacar o furor popular.

Fácil descrever o dia em que sentamos pra produzir/distribuir todo o material da campanha. Difícil é dar crédito a todos os envolvidos sem cometer injustiças, por isso nem vou tentar confiando que tudo dará certo no final.

Permito-me, porém, fazer uma exceção pra falar de quem, pra mim, teve o grande insight da campanha viabilizando na prática o início dos trabalhos. Laurene Leite que, além da preciosa assessoria criativa, providenciou todo o material necessário para produção (papel, cartolina, cola, hidrocor, tesoura, revistas jornais, etc.), anulando desculpas e gerando mobilização. A nós, anônimos e famosos, coube alimentar a fogueira de ideias e materializar as mais impactantes.

Numa única tarde, às vésperas da eleição, ao redor de uma das mesas da Área de Vivência do campus, com fartos recursos humanos e materiais, começamos a escrever a história da mais arrebatadora campanha que a UFMA já viveu, ou não, como diz o ilustre baiano.

Muitos dos nossos cartazes poderiam figurar como cases de sucesso em campanhas eleitorais. Alguns caíram instantaneamente no gosto popular e alcançaram fácil o objetivo maior: fazer rir.

O cartaz com gráfico de intenção de voto mostrava que DITA DURA saía do papel, passava pelo mural, continuava parede acima até alcançar o teto.

Outro cartaz emblemático exibia a caricatura do nosso Rei Papel acenando para uma multidão de “populares” do quilate de Daniela Mercury, José Sarney, Roseana Murad e outros.

E também o cartaz em que grandes nomes da arte, música e literatura declaravam: “Sou mais A DITA DURA e Papel”.

Com a campanha na rua, os ideais da DITA DURA consolidados e a boca de urna acusando vitória esmagadora, só restava comemorar.

No final vencemos sem levar. Com aceitação total, descobrimos que, por vários motivos, inclusive por falta de inscrição, estávamos inelegíveis, contudo com 1 milhão de amigos, isso antes do facebook, e bem mais forte podendo cantar: “A DITA DURA não precisa de eleição”.

Isso me lembra que, na eleição para o D.A. de Comunicação, única que realmente concorremos, a comemoração foi maior ainda. A vitória iminente nos levou à articulação de planos que incluíam pedidos de recontagem de votos, anulação e até renúncia, mesmo sem local apropriado pra exilar o Rei. Mas isso é outra história.

Tempos felizes aqueles em que a diversão era boa e barata.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

A ecologia da alma

“Ecologia e criatividade”, livro da Clara Editora que será lançado hoje na 64a Reunião Anual da SBPC, é um suspiro oportuno e verdadeiro com o qual Moisés Matias nos conta como atravessou o mar vermelho de suas inquietações vividas, de suas vicissitudes. O livro integra a trilogia iniciada com “Sítio ecológico, um guia para salvar a terra”, e que deve ser concluída em breve com “Ecologia e estresse”. De antemão, o leitor deve ser alertado: “Ecologia e criatividade” não é um manual de navegação para ambientalistas ou prontuário de autoajuda, mas uma peça para errantes, escravos do tempo, pessoas comuns, vítimas de cóleras digitais.

Não tem bula, mas é balsâmico. É o encontro do autor consigo mesmo, remoçado. Moisés Matias faz o caminho de volta às suas origens, à infância nos seringais do Acre, recria a passagem pelos Andes no Illimani até se deparar com o processo criativo que brota do contato com as pequenas coisas, no silêncio de Panakuí, o seu porto seguro. Panakuí representa para o autor a reinvenção da ecologia, a ecologia da alma que inspira sossego e abre as janelas da criatividade.

Depois de anos na guerrilha da notícia, no ativismo pagão, na carapuça partidária, Moisés Matias descobriu que “a pressa é inimiga da criação”. Para um jornalista de formação, isso é quase uma heresia. “Aos poucos fui saindo da mídia. Sumi para o mundo e fui atrás de mim, da minha essência”.

Didatismo ou escapismo? O autor acasala livremente simples soluções ambientais com dramas existenciais do cotidiano e retira daí o sal da terra para a sua saúde mental e física. Às vezes o professor fala mais alto, com suas lições e cavalgadas pelas colinas da teoria e pelo pântano das confissões científicas. É também o poeta em transe carregado por sensações, sonhos e pensamentos anotados no papel de pão. É o repórter involuntário, o colecionador de pequenas histórias, o fotógrafo no encalço das orquídeas e dos girassóis e o lavrador urbano.

Esse “ar avoado de quem está sempre ausente” empresta a Moisés Matias a capacidade de ruminar ideias com liberdade, o que o torna esquivo da ecologia cartesiana. O homem em crise, encoleirado pelo excesso de informação e problemas de saúde, encontra forças para dialogar livremente com o menino deixado para trás nas florestas acreanas, o agente da cura.

“Ecologia e criatividade” sugere ao leitor uma reflexão necessária sobre a velocidade dos dias. O livro não é a verdade derradeira, mas indica a linha do horizonte e dá pistas de como aproveitar, a cada segundo, os lampejos de inspiração, sem medo nem pressa. A criatividade, afinal, é como uma locomotiva desgovernada, sem freio. Para criar, é preciso imaginar a trilha.

Moisés Matias revela-se um ser sitiado na sua caldeira de emoções cotidianas, como quem descobre um baú de esperança no final do arco-íris. As páginas dessa ecologia são confissões de um ex-atormentado que descobriu a receita líquida da felicidade interna bruta.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

São Luís e Rio




Rio e São Luís têm similaridades - e também dessemelhanças. Na gente, na cultura, na cor da pele, na história, no batuque, na paisagem. E foi juntando pedaços das sutis diferenças de uma e de outra terra que Betto Pereira e eu fizemos, no Carnaval passado, a música “Maravilhosa”.

Interpretada por Betto e Anna Torres (maranhense talentosa radicada em Paris), “Maravilhosa” ganhou videoclipe especial produzido por Gabriel Steffens, videomaker, estilista e neto de Carmen Steffens.

Gabriel utilizou o clipe para divulgar no seu blog (www.gabrielspaniol.com.br) a grife de sapatos que leva o seu nome. 

domingo, 17 de junho de 2012

Prefiro Toddy ao tédio



Uma aventura estética ou o dia em que pichamos as paredes do Pimentão

Por Eduardo Júlio

O ano era 1993. Segundo o meu amigo e estudante de Ciências Sociais César Choairy, o Cesinha, um embate inédito acontecia na disputa pelo DCE da UFMA. Pela primeira vez, uma chapa – de fato - de direita, formada por estudantes de Direito, disputaria com os tradicionais grupos do PT e do PCdoB o comando da militância estudantil da Federal. César me disse, de forma imperativa: “Desta vez, não são somente grupos de esquerda, disputando entre si. Existe um perigo real do DCE ser tomado pela direita. Temos que fazer alguma coisa, Eduardo!”.

Entre os grupos de esquerda que disputavam o DCE naquele ano estava a chapa Contraponto, formada por filiados e simpatizantes do PT, liderada por Jorge Moreno, um notável e engajado estudante de Direito, que se tornaria um dos mais contundentes juízes do Maranhão - no momento, aposentado de suas funções. Sou grato até hoje por Jorge ter cedido a sua vaga num ônibus que levaria universitários do Maranhão para o Encontro de Arte e Cultura da UNE, em Ouro Preto, em 1993. Três dias de pura piração juvenil numa das cidades mais monumentais do país. Nunca esqueci daquele ato de generosidade, mas isso é um outro papo. Integravam também a Contraponto César e o meu grande amigo Elício Pacífico.

Outro grupo dessa margem do rio era o Começo do Fim, uma chapa meio niilista meio anarquista comandada por Ronaldo Rezende, estudante de Filosofia e uma das minhas grandes amizades desde os tempos do segundo grau no Colégio Meng. Embora cursasse Filosofia, Ronaldo se tornaria um dos mais fundamentados professores de História de sua geração, especializado em geopolítica internacional. Em 2001, ele morreria depois de lutar por alguns anos contra problemas renais.

Não lembro a denominação da chapa de direita nem o nome exato dos integrantes, mas a turma do PT chamava os caras de “cabeças de camarão”. Sei somente que um dos cabeças se tornou um famoso deputado estadual. Se eleita, a chapa provavelmente iria reprimir o consumo de maconha nos bosques do Campus do Bacanga. Na época, espaços muito apropriados e seguros para esse tipo de experiência.

Pois bem, num determinado dia, Cesinha teve a ideia de pichar as paredes do Pimentão, com frases de efeito, para despertar a consciência dos colegas para a ameaça de um comando de direita no Campus. Além, é claro, de propagar o nome da Contraponto como melhor alternativa. O Pimentão (atual CCSo) era o prédio que, à época, abrigava importantes cursos das áreas humanas e sociais, como Comunicação, Direito, Serviço Social, Pedagogia, Economia, Ciências Contábeis e Ciências Sociais. Para executar a ação subversiva, ele pegou emprestado o Chevette de sua futura sogra (por sinal, minha tia), que levaria, durante a madrugada, uma turma de militantes ao Campus, quando a área ficava vulnerável a ações do tipo.

Cesinha já era um parceiro meu em ações de terrorismo anarquista. Certa vez, sequestramos uma urna de uma eleição que escolheria um representante da UFMA para um congresso ou reunião da UNE. Aproveitamos um momento de descuido da mesária Márcia Coimbra - que logo cedo se tornaria uma das mais competentes jornalistas de São Luís – e levamos a urna para escondê-la no último andar do prédio numa sala do curso de Direito. Horas depois, devolveríamos a urna, após sermos dedurados, provavelmente, por algum agente secreto do DCE.

Mas, voltando ao dia da pichação, quando aceitei participar, tive uma outra ideia: iria aproveitar a oportunidade para escrever poemas de Ledusha, Chacal e Leminski nas paredes do prédio. Com isso, pouparia o Pimentão, a nossa segunda casa, de frases factuais e deselegantes.

Quando chegamos, tomei logo conta de algumas tintas e fui escrevendo os poemas. Escrevi logo um da Ledusha que parafraseia o russo Maiakóvski: prefiro toddy ao tédio. E veio outro do Chacal: é proibido pisar na grama/ o jeito é deitar e rolar. O do Leminski eu não me lembro. Quando alguns dos colegas militantes perceberam, ficaram indignados. Um deles questionou o que era aquilo que estava escrevendo. Eu respondi que eram poemas. Então ele disse: “Poemas??? Você é um alienado!!! Eu trepliquei afirmando que não iria discutir com alguém que nada sabia a respeito de poesia contemporânea.

Depois de uma troca de olhares furiosos, Cesinha, num exercício de elegante diplomacia, resolveu o problema, dividindo os territórios de ocupação, como na divisão da Alemanha no final da segunda grande guerra. Eu ficaria com as paredes do corredor do primeiro andar das salas de Comunicação e também com a pracinha, onde já tinha começado a escrever. Os reais militantes da Contraponto teriam direito a utilizar as paredes do entorno da cantina no segundo piso. Sinceramente, acho que levei vantagem naquela disputa.

As coloridas pichações com os poemas permaneceriam nas paredes do Pimentão por pelo menos quatro longos anos. Além dos poemas, eu desenhei o símbolo que ficou conhecido como o de paz e amor, muito usado na época da Guerra do Vietnã, que, na verdade, significa cessar bombardeio.

BIGAMIA

E o meu envolvimento nos fatos daquela eleição para o DCE não terminariam ali. Durante o tempo da campanha eleitoral, Jorge Moreno pediu o meu apoio à chapa Contraponto. Eu jamais negaria um pedido dele, um colega que tanto admirava, por ser uma dos estudantes mais dedicados da UFMA. No mesmo dia, o meu grande amigo Ronaldo igualmente pediu o meu apoio à chapa Começo do Fim. Também nunca negaria um pedido de Ronaldo, que considerava um irmão. Resultado: na semana seguinte, tanto o panfleto da Contraponto quanto o da Começo do Fim apresentaram meu nome como um dos apoiadores. O pessoal da Contraponto nem ligou, mas Ronaldo ficou profundamente magoado com a minha bigamia política.

No dia do debate, quando entrei no auditório da UFMA, que estava lotado, Ronaldo, coincidentemente, estava com a palavra e, ao me ver, vociferou, apontando para mim: “Não levem este cara a sério. Ele não passa de uma aventura estética!!!”. Nesse momento, todos me olharam. Eu estava ao lado das colegas Mirtes Gomes e Andréa Oliveira, ambas estudantes de Comunicação, e fui procurando rapidamente um lugar para sentar ou para me esconder na plateia, enquanto tentava desvendar o teor daquela afirmação, surpreendentemente, tão lúdica: “aventura estética”. Dias depois, Ronaldo viria se desculpar comigo e a Contraponto venceria a eleição.

Não me recordo em quem votei para o DCE em 1993. Talvez em algum grupo de rock inglês dos anos 70, como o Yes, o Pink Floyd e o Led Zeppelin (exatamente como fazia o meu amigo Geraldo Iensen) ou em algum poeta “maldito” já falecido, a exemplo de Cacaso, Paulo Leminski e Torquato Neto.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O homem e o seu tempo

Já escrevi outras vezes sobre o jornalista Pergentino Holanda, sempre com a acuidade de expô-lo verdadeiro, falível, temperamental, boêmio seletivo, viajante letrado, observador desregrado. Encontrei na caminhada o desbravador de museus mundanos, o inventor de fábulas e festas, o comendador acidental, o anônimo garimpeiro de sebos, o encantador de leitores, o esteta da gastronomia. Não alcancei, contudo, o homem e o seu tempo, eterno conflito, tumulto em construção.

Chegou aos 20 anos sem compromisso algum, com a calça boca de sino balançando ao vento leve. Aos 30 já era o homem-âncora da família, mergulhado nessa responsabilidade com que se envelhece 10 anos a cada 12 meses. Aos 40, bem sucedido e ainda mais comprometido com o que escrevia, já tinha 60 e era quase avô dos filhos dos seus irmãos. Aos 50 desacelerou, voltou a ter 40, carimbou mais vezes o passaporte, desligou o motor das pequenas vaidades e se enfiou na tempestade dos brechós de praças anônimas.

O indisfarçável frequentador da mesa 15 da Cabana do Sol não me deixa ver a idade que tem hoje. Dali daquele canto no salão superior do restaurante da Ponta do Farol, copo de uísque longo em dose dupla e muito gelo, ele dá boa noite a São Luís depois de passar a limpo na Redação o barulho das horas do dia. Flerta com a mesa do lado, insulta com o olhar a bolsa falsa da madame que chega com voz estridente, remexe a travessa de peixes frescos já refogados no azeite trazidos do interior por Luiz Carlos Cantanhede, fala ao celular com José Carlos Salgueiro, solta gargalhadas com as inocentes histórias do sertão de Régis Fialho e deixa mais alegre a noite de Ana Lúcia e Amaro Santana Leite.

Aos 64 anos ele não sabe mais a idade que tem, tantas vezes foi e voltou na esquina do tempo. Depois dos 40 parou de contar. O que me espanta é o que Pergentino Holanda faz do tempo. Como encontra hora para sair, viver, viajar e escrever? A receita é simples: para escrever, precisa viver, ser consumido pelo tempo e dele se abastecer da notícia balsâmica. É o jogo que involuntariamente pratica no cotidiano, como um aproveitador. É um perde-e-ganha sem medida.

Onde e quando arruma tempo para escrever suas belas crônicas publicadas aos domingos – ou a qualquer dia da semana, quando lhe dá na telha? Escreve com prazer para o jornal, se entrega na profundidade ou na superficialidade dos enredos. Mas não encontra força ou coragem – quem sabe tempo - para publicar o fardo das mirabolantes ideias num livro, ou nalguns livros. Já se vão mais de 40 anos da poesia estampada no varal de “Existencial de agosto”, a sua obra única, esquecida, inquieta no baú das memórias. Depois, o silêncio de outubros e a valsa de muitos maios.

Há no semblante de Pergentino Holanda uma idade que não se revela, desconfiada e desinibida ao mesmo tempo, velha e juvenil, afoita e assombrada. Nas atitudes, há o menino birrento, sarcástico, o tirador de sarro, o falatório inconsequente, o segredo compartilhado com a mais pura lealdade, o humanismo do berço, o pavio curto, a simplicidade do jogo de erros, a desenvoltura ingênua. Nas amizades que cativa e cultiva, Pergentino Holanda é o senhor dos anéis, das boas alianças, dos laços fortes, da fidelidade inescapável.

É blasé na música que ouve, no corte dos cetins que adornam as festas, nos acordes das orquestras tradicionais, nos programas do final de semana, nas vestes de marca, na discoteca de Mário Pseudo, no passeio completo, na camiseta-convite, no protocolo. E, para distrair a plateia, se reinventa no espelho, não como Dorian Gray ou um camaleão de photoshop, mas como quem não pode ceder ao luxo dos anos porque o trabalho não permite.

Os dias passam, sobem e descem colesteróis e triglicerídeos nas mesas da noite, e Pergentino Holanda se camufla na paisagem enquanto fita a bailarina do Boi Barrica ou quando no salão se deixa hipnotizar pelo bailado do violino. Quase ninguém o vê chorar, porque não faz concessões no seu estilo de viver para contar. Viver a tempo de contar.

(texto publicado originalmente no jornal "O Estado do Maranhão", no dia 27.05.2012)

terça-feira, 29 de maio de 2012

O dia em que Eduardo Júlio recitou Piva na praça

O almanaque virtuoso do campus, da universidade que ajudamos a embalar o futuro, é carregado de prazerosas histórias, muitos personagens, situações comprometedoras, fatos embaraçosos e episódios divertidos. Eduardo Júlio é um desses personagens da época, que com o texto abaixo expõe a babel das passeatas de protesto, dos palavrões de ordem e dos discursos improváveis. Estamos dialogando com um passado não tão distante, espalhando por aí peças de um quebra-cabeça sem fim, metafórico, na esperança de pisar outra vez o chão da velha academia. Não estamos sós. Por enquanto somos eu, Alessandro Lamar, Marcelo Barros e agora Eduardo Júlio. E tenho recorrido eventualmente, na construção dos capítulos de “Amor sem revolução”, à memória (e ao acervo fotográfico) de alguns amigos, como Wal Oliveira, Márcio Jerry, Eri Castro, Dimas Salustiano e Ademar Danilo, Mas O Redemoinho (oredemoinho.blogspot.com) está de portas abertas para quem mais vier a se alistar. Leia. (Félix Alberto Lima)


O dia em que declamei Roberto Piva na Deodoro

Por Eduardo Júlio

A exemplo de vários jovens da minha geração, participei de diversas passeatas no final dos anos 80 e começo dos 90. Desde a inesquecível campanha de Lula (ainda radical) em 1989 até o impeachment de Collor em 1992, perdi a conta de quantas vezes caminhei pelas ruas do Centro de São Luís, entoando palavras de ordem, carregando bandeiras, sendo mais um na multidão.

Reivindicávamos um Brasil melhor e mais justo, coisa séria, mas havia um imenso prazer naquelas manifestações. Confesso, fui um militante hedonista. Afinal, naqueles tempos de profundo ócio criativo e poesia, estava a compartilhar a alegria, a descontração e o entusiasmo, que só existem no auge da juventude. E ninguém podia perder essa...

Eu, Eduardo Júlio, Moisés Matias, Elício Pacífico, Karina Macieira e Cadmiel Júnior num desses eventos universitários fora do eixo Itaqui-Bacanga

Além de tudo, o mundo estava em plena transformação com a abertura democrática na América Latina e a derrocada do comunismo na Europa Oriental. Na área da música pop, o rock ainda tinha muito fôlego, com a explosão do grunge nos ouvidos e mentes dos jovens do Ocidente.

Uma das passeatas da qual participei – acredito que ocorreu nos idos de 1992, talvez, inclusive, tenha sido a primeira do movimento Fora Collor na cidade (ainda sem os caras-pintadas) – saiu numa tarde do Campus do Bancanga até o Centro de São Luís. Uma pernada de cerca de quatro quilômetros debaixo do sol quente. Mas, naquele período da vida, tudo era motivo de festa e diversão e ninguém se intimidava ou desistia de participar.

Eu era estudante do curso de Comunicação Social da UFMA e naqueles dias mantinha um estreito laço com os colegas de Ciências Sociais, que por um triz não cursei. Estavam lá Cinthia, Eliane, Ana Cristina, Cláudio (meu grande amigo pernambucano, responsável por memoráveis festas em seu apartamento no Bequimão), Cleids (brutalmente assassinado recentemente) e Elício. Este último estudava Economia. No caminho, Darcimeire, a atual Dadá Coelho, uma das atuais celebridades do humor nacional, ainda desconhecida como estudante de Jornalismo, entrosava-se com os militantes de carteirinha, puxando o coro das palavras de ordem. Queria ter fotografado esta cena.

Foto de Eduardo Júlio tirada em Belém (PA) durante encontro de profissionais e estudantes de Ciências Sociais, com Ana Joana Coimbra e Cleids no primeiro plano

Mas o melhor para mim ainda estava por vir. Quando chegamos à Deodoro, depois de mais ou menos uma hora de caminhada, o militante do PT e estudante de Comunicação, Marlon Botão, convidou-me para participar dos discursos no palanque. Como já disse, não consigo recordar exatamente o que reivindicávamos naquela passeata, só lembro que aceitei subir por um único motivo: seria uma oportunidade de recitar o manifesto intitulado “Biles, bules e bolas”, que adorava e sabia decorado, um dos textos mais implacáveis do poeta maldito paulista Roberto Piva.

O problema é que Marlon acreditava que eu, um pretenso anarquista libertário - na época leitor de Leminski, Caio Fernando Abreu, Fernando Gabeira e Roberto Freire - representava em São Luís o movimento anarquista estudantil, cujos militantes “pintavam o sete” nos congressos da UNE. No entanto, quase nada tinha a ver com aquela causa articulada. Embora possa concordar com a maioria das propostas de anarquistas clássicos como Bakunin, Proudhon e Kropotkin, nunca fui, na prática, leitor deles. Ainda tentei explicar isso, mas Marlon insistiu e fui parar no palco. E aí recitei o manifesto de Roberto Piva para a multidão que ocupava uma parte da Deodoro. O texto diz assim:

Nós convidamos todos a se entregarem à dissolução e ao desregramento. A vida não pode sucumbir no torniquete da consciência. A vida explode sempre no mais além. Abaixo as faculdades e que triunfem os maconheiros. É preciso não ter medo de deixar irromper nossa alma fecal. Metodistas, psicólogos, advogados, engenheiros, patrões, químicos, cientistas, contra vós deve estar o espírito da juventude. Abaixo a segurança pública, quem precisa disso? Somos deliciosamente desorganizados e usualmente nos associamos com a liberdade.

No palanque, estavam representantes do PT, do PCdoB e do PSB. Embaixo, uma imensa maioria de estudantes. Com o manifesto do Roberto Piva, eu ingenuamente esperava ser ovacionado por meus colegas universitários, como acontecia nas mesas dos bares que frequentava, mas o que vi foi uma multidão perplexa e silenciada, além de algumas poucas vaias. E ainda durante a minha explanação, o então líder do PCdoB no Maranhão, Marcos Kowarick, exclamou puto da vida: “Tira esse louco daí!!!”

O trecho “Abaixo as faculdades e que triunfem os maconheiros”, que tanto me fazia rir de felicidade, pelo que tem de deboche, rebeldia e subversão, foi demais para o ego da militância acadêmica. Acho que os colegas se sentiram ofendidos.

Desci do palanque meio atordoado e fui correndo, sem vergonha e sem culpa, para perto de meus colegas das Ciências Sociais. Depois, fomos tomar umas e ouvir muito rock' n’ roll (era tempo de “Nevermind” do Nirvana e de outros discos inesquecíveis da era grunge) no apartamento de Eliane, bem pertinho dali, na Vila Inah Rego.

No dia seguinte, soube que o meu discurso amorteceu a manifestação, que teria perdido parte do entusiasmo. E durante uma semana ainda topei com os colegas estudantes nos corredores da UFMA questionando aquilo que tinha declamado.

domingo, 13 de maio de 2012

Nem maio nem agosto

Os pais não são amados como deveriam, com aquela intensidade desmedida que merecem. Em qualquer lugar, em qualquer casa, fica sempre a impressão de que faltou mais carinho, mais beijo no rosto, mais afago, mais afeto dos filhos, mais olho no olho. Ficamos devendo. E essa fartura de compreensão só nos alcança, invariavelmente, quando eles se vão. Sim, eles se vão um dia! Esses pais que amamos tanto - e contra quem nos revoltamos em certos instantes da vida, em ligeiros surtos de imaturidade ou autossuficiência – têm prazo de validade. Muitos deles têm asas, mas são de carne e osso. Falíveis anjos da guarda.

Não nos falta amor, é verdade. Mas amamos de menos porque estão ali à nossa volta, no nosso encalço, a nos defender das tocaias do mau olhado, do quebranto, a nos proteger a moleira. Amamos de menos porque – ingenuamente acreditamos – jamais vão nos deixar. E porque nos amam demais, nos excedemos na falta de atenção, nas respostas malcriadas, na indiferença. Há nos filhos a autoconfiança de que perdão de pai e mãe não demora. Não demora mais que uma chuva. O perdão vem de braços abertos e com um sorriso largo para embrulhar o sentimento de culpa. É aquela culpa cristã que nunca houve, mas que os pais cultivam a pretexto de assumir um pecado que não é e jamais será deles no julgamento celestial.

Olhando pra trás – e é difícil olhar no retrovisor antes dos 30 anos – fica a sensação de que faltou o abraço demorado nos pais. Faltou um cinema no domingo com direito a pipoca, jujuba e caramelo. Faltou aquela viagem de férias pra passear de mãos dadas pelo parque. Faltou paciência para compreender as rabugices naturais dos pais quando eles passam dos 60 anos. Faltou coragem pra dizer mais vezes “eu te amo”, todos os dias da vida. Faltou tempo!

Faltou tempo para perceber que a vida é pouca pra se abrir mão da felicidade. Esquecemos de reconhecer, ao longo da caminhada, que os pais têm sempre razão. E mesmo quando não têm, eles são a própria razão. No mínimo, a razão da nossa existência!

Faltou ternura. E mais cabeça no colo para um cafuné depois do almoço em família. Será que toda aquela cumplicidade foi suficiente? Sequer ouvimos juntos todas as músicas que falavam da gente. Assistir ao futebol de domingo no mesmo sofá ficou escasso. Todo aquele cheiro foi pouco.

E nada será o bastante para se cuidar do nosso amor primeiro. De verdade. O amor de pai e de mãe, esse amor que se confunde, embaralhado, sem gênero ou RG. Um e outro, nem maior nem menor. Nem maio nem agosto. A vida inteira.