domingo, 17 de junho de 2012

Prefiro Toddy ao tédio



Uma aventura estética ou o dia em que pichamos as paredes do Pimentão

Por Eduardo Júlio

O ano era 1993. Segundo o meu amigo e estudante de Ciências Sociais César Choairy, o Cesinha, um embate inédito acontecia na disputa pelo DCE da UFMA. Pela primeira vez, uma chapa – de fato - de direita, formada por estudantes de Direito, disputaria com os tradicionais grupos do PT e do PCdoB o comando da militância estudantil da Federal. César me disse, de forma imperativa: “Desta vez, não são somente grupos de esquerda, disputando entre si. Existe um perigo real do DCE ser tomado pela direita. Temos que fazer alguma coisa, Eduardo!”.

Entre os grupos de esquerda que disputavam o DCE naquele ano estava a chapa Contraponto, formada por filiados e simpatizantes do PT, liderada por Jorge Moreno, um notável e engajado estudante de Direito, que se tornaria um dos mais contundentes juízes do Maranhão - no momento, aposentado de suas funções. Sou grato até hoje por Jorge ter cedido a sua vaga num ônibus que levaria universitários do Maranhão para o Encontro de Arte e Cultura da UNE, em Ouro Preto, em 1993. Três dias de pura piração juvenil numa das cidades mais monumentais do país. Nunca esqueci daquele ato de generosidade, mas isso é um outro papo. Integravam também a Contraponto César e o meu grande amigo Elício Pacífico.

Outro grupo dessa margem do rio era o Começo do Fim, uma chapa meio niilista meio anarquista comandada por Ronaldo Rezende, estudante de Filosofia e uma das minhas grandes amizades desde os tempos do segundo grau no Colégio Meng. Embora cursasse Filosofia, Ronaldo se tornaria um dos mais fundamentados professores de História de sua geração, especializado em geopolítica internacional. Em 2001, ele morreria depois de lutar por alguns anos contra problemas renais.

Não lembro a denominação da chapa de direita nem o nome exato dos integrantes, mas a turma do PT chamava os caras de “cabeças de camarão”. Sei somente que um dos cabeças se tornou um famoso deputado estadual. Se eleita, a chapa provavelmente iria reprimir o consumo de maconha nos bosques do Campus do Bacanga. Na época, espaços muito apropriados e seguros para esse tipo de experiência.

Pois bem, num determinado dia, Cesinha teve a ideia de pichar as paredes do Pimentão, com frases de efeito, para despertar a consciência dos colegas para a ameaça de um comando de direita no Campus. Além, é claro, de propagar o nome da Contraponto como melhor alternativa. O Pimentão (atual CCSo) era o prédio que, à época, abrigava importantes cursos das áreas humanas e sociais, como Comunicação, Direito, Serviço Social, Pedagogia, Economia, Ciências Contábeis e Ciências Sociais. Para executar a ação subversiva, ele pegou emprestado o Chevette de sua futura sogra (por sinal, minha tia), que levaria, durante a madrugada, uma turma de militantes ao Campus, quando a área ficava vulnerável a ações do tipo.

Cesinha já era um parceiro meu em ações de terrorismo anarquista. Certa vez, sequestramos uma urna de uma eleição que escolheria um representante da UFMA para um congresso ou reunião da UNE. Aproveitamos um momento de descuido da mesária Márcia Coimbra - que logo cedo se tornaria uma das mais competentes jornalistas de São Luís – e levamos a urna para escondê-la no último andar do prédio numa sala do curso de Direito. Horas depois, devolveríamos a urna, após sermos dedurados, provavelmente, por algum agente secreto do DCE.

Mas, voltando ao dia da pichação, quando aceitei participar, tive uma outra ideia: iria aproveitar a oportunidade para escrever poemas de Ledusha, Chacal e Leminski nas paredes do prédio. Com isso, pouparia o Pimentão, a nossa segunda casa, de frases factuais e deselegantes.

Quando chegamos, tomei logo conta de algumas tintas e fui escrevendo os poemas. Escrevi logo um da Ledusha que parafraseia o russo Maiakóvski: prefiro toddy ao tédio. E veio outro do Chacal: é proibido pisar na grama/ o jeito é deitar e rolar. O do Leminski eu não me lembro. Quando alguns dos colegas militantes perceberam, ficaram indignados. Um deles questionou o que era aquilo que estava escrevendo. Eu respondi que eram poemas. Então ele disse: “Poemas??? Você é um alienado!!! Eu trepliquei afirmando que não iria discutir com alguém que nada sabia a respeito de poesia contemporânea.

Depois de uma troca de olhares furiosos, Cesinha, num exercício de elegante diplomacia, resolveu o problema, dividindo os territórios de ocupação, como na divisão da Alemanha no final da segunda grande guerra. Eu ficaria com as paredes do corredor do primeiro andar das salas de Comunicação e também com a pracinha, onde já tinha começado a escrever. Os reais militantes da Contraponto teriam direito a utilizar as paredes do entorno da cantina no segundo piso. Sinceramente, acho que levei vantagem naquela disputa.

As coloridas pichações com os poemas permaneceriam nas paredes do Pimentão por pelo menos quatro longos anos. Além dos poemas, eu desenhei o símbolo que ficou conhecido como o de paz e amor, muito usado na época da Guerra do Vietnã, que, na verdade, significa cessar bombardeio.

BIGAMIA

E o meu envolvimento nos fatos daquela eleição para o DCE não terminariam ali. Durante o tempo da campanha eleitoral, Jorge Moreno pediu o meu apoio à chapa Contraponto. Eu jamais negaria um pedido dele, um colega que tanto admirava, por ser uma dos estudantes mais dedicados da UFMA. No mesmo dia, o meu grande amigo Ronaldo igualmente pediu o meu apoio à chapa Começo do Fim. Também nunca negaria um pedido de Ronaldo, que considerava um irmão. Resultado: na semana seguinte, tanto o panfleto da Contraponto quanto o da Começo do Fim apresentaram meu nome como um dos apoiadores. O pessoal da Contraponto nem ligou, mas Ronaldo ficou profundamente magoado com a minha bigamia política.

No dia do debate, quando entrei no auditório da UFMA, que estava lotado, Ronaldo, coincidentemente, estava com a palavra e, ao me ver, vociferou, apontando para mim: “Não levem este cara a sério. Ele não passa de uma aventura estética!!!”. Nesse momento, todos me olharam. Eu estava ao lado das colegas Mirtes Gomes e Andréa Oliveira, ambas estudantes de Comunicação, e fui procurando rapidamente um lugar para sentar ou para me esconder na plateia, enquanto tentava desvendar o teor daquela afirmação, surpreendentemente, tão lúdica: “aventura estética”. Dias depois, Ronaldo viria se desculpar comigo e a Contraponto venceria a eleição.

Não me recordo em quem votei para o DCE em 1993. Talvez em algum grupo de rock inglês dos anos 70, como o Yes, o Pink Floyd e o Led Zeppelin (exatamente como fazia o meu amigo Geraldo Iensen) ou em algum poeta “maldito” já falecido, a exemplo de Cacaso, Paulo Leminski e Torquato Neto.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O homem e o seu tempo

Já escrevi outras vezes sobre o jornalista Pergentino Holanda, sempre com a acuidade de expô-lo verdadeiro, falível, temperamental, boêmio seletivo, viajante letrado, observador desregrado. Encontrei na caminhada o desbravador de museus mundanos, o inventor de fábulas e festas, o comendador acidental, o anônimo garimpeiro de sebos, o encantador de leitores, o esteta da gastronomia. Não alcancei, contudo, o homem e o seu tempo, eterno conflito, tumulto em construção.

Chegou aos 20 anos sem compromisso algum, com a calça boca de sino balançando ao vento leve. Aos 30 já era o homem-âncora da família, mergulhado nessa responsabilidade com que se envelhece 10 anos a cada 12 meses. Aos 40, bem sucedido e ainda mais comprometido com o que escrevia, já tinha 60 e era quase avô dos filhos dos seus irmãos. Aos 50 desacelerou, voltou a ter 40, carimbou mais vezes o passaporte, desligou o motor das pequenas vaidades e se enfiou na tempestade dos brechós de praças anônimas.

O indisfarçável frequentador da mesa 15 da Cabana do Sol não me deixa ver a idade que tem hoje. Dali daquele canto no salão superior do restaurante da Ponta do Farol, copo de uísque longo em dose dupla e muito gelo, ele dá boa noite a São Luís depois de passar a limpo na Redação o barulho das horas do dia. Flerta com a mesa do lado, insulta com o olhar a bolsa falsa da madame que chega com voz estridente, remexe a travessa de peixes frescos já refogados no azeite trazidos do interior por Luiz Carlos Cantanhede, fala ao celular com José Carlos Salgueiro, solta gargalhadas com as inocentes histórias do sertão de Régis Fialho e deixa mais alegre a noite de Ana Lúcia e Amaro Santana Leite.

Aos 64 anos ele não sabe mais a idade que tem, tantas vezes foi e voltou na esquina do tempo. Depois dos 40 parou de contar. O que me espanta é o que Pergentino Holanda faz do tempo. Como encontra hora para sair, viver, viajar e escrever? A receita é simples: para escrever, precisa viver, ser consumido pelo tempo e dele se abastecer da notícia balsâmica. É o jogo que involuntariamente pratica no cotidiano, como um aproveitador. É um perde-e-ganha sem medida.

Onde e quando arruma tempo para escrever suas belas crônicas publicadas aos domingos – ou a qualquer dia da semana, quando lhe dá na telha? Escreve com prazer para o jornal, se entrega na profundidade ou na superficialidade dos enredos. Mas não encontra força ou coragem – quem sabe tempo - para publicar o fardo das mirabolantes ideias num livro, ou nalguns livros. Já se vão mais de 40 anos da poesia estampada no varal de “Existencial de agosto”, a sua obra única, esquecida, inquieta no baú das memórias. Depois, o silêncio de outubros e a valsa de muitos maios.

Há no semblante de Pergentino Holanda uma idade que não se revela, desconfiada e desinibida ao mesmo tempo, velha e juvenil, afoita e assombrada. Nas atitudes, há o menino birrento, sarcástico, o tirador de sarro, o falatório inconsequente, o segredo compartilhado com a mais pura lealdade, o humanismo do berço, o pavio curto, a simplicidade do jogo de erros, a desenvoltura ingênua. Nas amizades que cativa e cultiva, Pergentino Holanda é o senhor dos anéis, das boas alianças, dos laços fortes, da fidelidade inescapável.

É blasé na música que ouve, no corte dos cetins que adornam as festas, nos acordes das orquestras tradicionais, nos programas do final de semana, nas vestes de marca, na discoteca de Mário Pseudo, no passeio completo, na camiseta-convite, no protocolo. E, para distrair a plateia, se reinventa no espelho, não como Dorian Gray ou um camaleão de photoshop, mas como quem não pode ceder ao luxo dos anos porque o trabalho não permite.

Os dias passam, sobem e descem colesteróis e triglicerídeos nas mesas da noite, e Pergentino Holanda se camufla na paisagem enquanto fita a bailarina do Boi Barrica ou quando no salão se deixa hipnotizar pelo bailado do violino. Quase ninguém o vê chorar, porque não faz concessões no seu estilo de viver para contar. Viver a tempo de contar.

(texto publicado originalmente no jornal "O Estado do Maranhão", no dia 27.05.2012)

terça-feira, 29 de maio de 2012

O dia em que Eduardo Júlio recitou Piva na praça

O almanaque virtuoso do campus, da universidade que ajudamos a embalar o futuro, é carregado de prazerosas histórias, muitos personagens, situações comprometedoras, fatos embaraçosos e episódios divertidos. Eduardo Júlio é um desses personagens da época, que com o texto abaixo expõe a babel das passeatas de protesto, dos palavrões de ordem e dos discursos improváveis. Estamos dialogando com um passado não tão distante, espalhando por aí peças de um quebra-cabeça sem fim, metafórico, na esperança de pisar outra vez o chão da velha academia. Não estamos sós. Por enquanto somos eu, Alessandro Lamar, Marcelo Barros e agora Eduardo Júlio. E tenho recorrido eventualmente, na construção dos capítulos de “Amor sem revolução”, à memória (e ao acervo fotográfico) de alguns amigos, como Wal Oliveira, Márcio Jerry, Eri Castro, Dimas Salustiano e Ademar Danilo, Mas O Redemoinho (oredemoinho.blogspot.com) está de portas abertas para quem mais vier a se alistar. Leia. (Félix Alberto Lima)


O dia em que declamei Roberto Piva na Deodoro

Por Eduardo Júlio

A exemplo de vários jovens da minha geração, participei de diversas passeatas no final dos anos 80 e começo dos 90. Desde a inesquecível campanha de Lula (ainda radical) em 1989 até o impeachment de Collor em 1992, perdi a conta de quantas vezes caminhei pelas ruas do Centro de São Luís, entoando palavras de ordem, carregando bandeiras, sendo mais um na multidão.

Reivindicávamos um Brasil melhor e mais justo, coisa séria, mas havia um imenso prazer naquelas manifestações. Confesso, fui um militante hedonista. Afinal, naqueles tempos de profundo ócio criativo e poesia, estava a compartilhar a alegria, a descontração e o entusiasmo, que só existem no auge da juventude. E ninguém podia perder essa...

Eu, Eduardo Júlio, Moisés Matias, Elício Pacífico, Karina Macieira e Cadmiel Júnior num desses eventos universitários fora do eixo Itaqui-Bacanga

Além de tudo, o mundo estava em plena transformação com a abertura democrática na América Latina e a derrocada do comunismo na Europa Oriental. Na área da música pop, o rock ainda tinha muito fôlego, com a explosão do grunge nos ouvidos e mentes dos jovens do Ocidente.

Uma das passeatas da qual participei – acredito que ocorreu nos idos de 1992, talvez, inclusive, tenha sido a primeira do movimento Fora Collor na cidade (ainda sem os caras-pintadas) – saiu numa tarde do Campus do Bancanga até o Centro de São Luís. Uma pernada de cerca de quatro quilômetros debaixo do sol quente. Mas, naquele período da vida, tudo era motivo de festa e diversão e ninguém se intimidava ou desistia de participar.

Eu era estudante do curso de Comunicação Social da UFMA e naqueles dias mantinha um estreito laço com os colegas de Ciências Sociais, que por um triz não cursei. Estavam lá Cinthia, Eliane, Ana Cristina, Cláudio (meu grande amigo pernambucano, responsável por memoráveis festas em seu apartamento no Bequimão), Cleids (brutalmente assassinado recentemente) e Elício. Este último estudava Economia. No caminho, Darcimeire, a atual Dadá Coelho, uma das atuais celebridades do humor nacional, ainda desconhecida como estudante de Jornalismo, entrosava-se com os militantes de carteirinha, puxando o coro das palavras de ordem. Queria ter fotografado esta cena.

Foto de Eduardo Júlio tirada em Belém (PA) durante encontro de profissionais e estudantes de Ciências Sociais, com Ana Joana Coimbra e Cleids no primeiro plano

Mas o melhor para mim ainda estava por vir. Quando chegamos à Deodoro, depois de mais ou menos uma hora de caminhada, o militante do PT e estudante de Comunicação, Marlon Botão, convidou-me para participar dos discursos no palanque. Como já disse, não consigo recordar exatamente o que reivindicávamos naquela passeata, só lembro que aceitei subir por um único motivo: seria uma oportunidade de recitar o manifesto intitulado “Biles, bules e bolas”, que adorava e sabia decorado, um dos textos mais implacáveis do poeta maldito paulista Roberto Piva.

O problema é que Marlon acreditava que eu, um pretenso anarquista libertário - na época leitor de Leminski, Caio Fernando Abreu, Fernando Gabeira e Roberto Freire - representava em São Luís o movimento anarquista estudantil, cujos militantes “pintavam o sete” nos congressos da UNE. No entanto, quase nada tinha a ver com aquela causa articulada. Embora possa concordar com a maioria das propostas de anarquistas clássicos como Bakunin, Proudhon e Kropotkin, nunca fui, na prática, leitor deles. Ainda tentei explicar isso, mas Marlon insistiu e fui parar no palco. E aí recitei o manifesto de Roberto Piva para a multidão que ocupava uma parte da Deodoro. O texto diz assim:

Nós convidamos todos a se entregarem à dissolução e ao desregramento. A vida não pode sucumbir no torniquete da consciência. A vida explode sempre no mais além. Abaixo as faculdades e que triunfem os maconheiros. É preciso não ter medo de deixar irromper nossa alma fecal. Metodistas, psicólogos, advogados, engenheiros, patrões, químicos, cientistas, contra vós deve estar o espírito da juventude. Abaixo a segurança pública, quem precisa disso? Somos deliciosamente desorganizados e usualmente nos associamos com a liberdade.

No palanque, estavam representantes do PT, do PCdoB e do PSB. Embaixo, uma imensa maioria de estudantes. Com o manifesto do Roberto Piva, eu ingenuamente esperava ser ovacionado por meus colegas universitários, como acontecia nas mesas dos bares que frequentava, mas o que vi foi uma multidão perplexa e silenciada, além de algumas poucas vaias. E ainda durante a minha explanação, o então líder do PCdoB no Maranhão, Marcos Kowarick, exclamou puto da vida: “Tira esse louco daí!!!”

O trecho “Abaixo as faculdades e que triunfem os maconheiros”, que tanto me fazia rir de felicidade, pelo que tem de deboche, rebeldia e subversão, foi demais para o ego da militância acadêmica. Acho que os colegas se sentiram ofendidos.

Desci do palanque meio atordoado e fui correndo, sem vergonha e sem culpa, para perto de meus colegas das Ciências Sociais. Depois, fomos tomar umas e ouvir muito rock' n’ roll (era tempo de “Nevermind” do Nirvana e de outros discos inesquecíveis da era grunge) no apartamento de Eliane, bem pertinho dali, na Vila Inah Rego.

No dia seguinte, soube que o meu discurso amorteceu a manifestação, que teria perdido parte do entusiasmo. E durante uma semana ainda topei com os colegas estudantes nos corredores da UFMA questionando aquilo que tinha declamado.

domingo, 13 de maio de 2012

Nem maio nem agosto

Os pais não são amados como deveriam, com aquela intensidade desmedida que merecem. Em qualquer lugar, em qualquer casa, fica sempre a impressão de que faltou mais carinho, mais beijo no rosto, mais afago, mais afeto dos filhos, mais olho no olho. Ficamos devendo. E essa fartura de compreensão só nos alcança, invariavelmente, quando eles se vão. Sim, eles se vão um dia! Esses pais que amamos tanto - e contra quem nos revoltamos em certos instantes da vida, em ligeiros surtos de imaturidade ou autossuficiência – têm prazo de validade. Muitos deles têm asas, mas são de carne e osso. Falíveis anjos da guarda.

Não nos falta amor, é verdade. Mas amamos de menos porque estão ali à nossa volta, no nosso encalço, a nos defender das tocaias do mau olhado, do quebranto, a nos proteger a moleira. Amamos de menos porque – ingenuamente acreditamos – jamais vão nos deixar. E porque nos amam demais, nos excedemos na falta de atenção, nas respostas malcriadas, na indiferença. Há nos filhos a autoconfiança de que perdão de pai e mãe não demora. Não demora mais que uma chuva. O perdão vem de braços abertos e com um sorriso largo para embrulhar o sentimento de culpa. É aquela culpa cristã que nunca houve, mas que os pais cultivam a pretexto de assumir um pecado que não é e jamais será deles no julgamento celestial.

Olhando pra trás – e é difícil olhar no retrovisor antes dos 30 anos – fica a sensação de que faltou o abraço demorado nos pais. Faltou um cinema no domingo com direito a pipoca, jujuba e caramelo. Faltou aquela viagem de férias pra passear de mãos dadas pelo parque. Faltou paciência para compreender as rabugices naturais dos pais quando eles passam dos 60 anos. Faltou coragem pra dizer mais vezes “eu te amo”, todos os dias da vida. Faltou tempo!

Faltou tempo para perceber que a vida é pouca pra se abrir mão da felicidade. Esquecemos de reconhecer, ao longo da caminhada, que os pais têm sempre razão. E mesmo quando não têm, eles são a própria razão. No mínimo, a razão da nossa existência!

Faltou ternura. E mais cabeça no colo para um cafuné depois do almoço em família. Será que toda aquela cumplicidade foi suficiente? Sequer ouvimos juntos todas as músicas que falavam da gente. Assistir ao futebol de domingo no mesmo sofá ficou escasso. Todo aquele cheiro foi pouco.

E nada será o bastante para se cuidar do nosso amor primeiro. De verdade. O amor de pai e de mãe, esse amor que se confunde, embaralhado, sem gênero ou RG. Um e outro, nem maior nem menor. Nem maio nem agosto. A vida inteira.

sábado, 12 de maio de 2012

Jomar na banda larga


Jomar Moraes, depois de muita resistência, está aos poucos se familiarizando com o mundo da informática. Para quem o conhece de perto, isso é quase uma revolução.

Numa dessas visitas à rua dos Abacateiros, no Renascença, acabei convencendo-o a ceder à tecnologia, e Jomar conta agora com um notebook de última geração na sua mesa de trabalho.

Logo de início, a convivência com o equipamento não foi nada amistosa. Desconfiado, Jomar olhava para o computador, resmungava, maldizia os efeitos da cibernética até deixar a geringonça ali esquecida num plano secundário da velha biblioteca.

E assim seguiu por uns dias, sempre recorrendo à sua surrada e boa Remington, a máquina fiel que nunca o deixou na mão na datilografia de suas dezenas de livros já editados e das crônicas que publica semanalmente no jornal O Estado do Maranhão.

Mas um dia Jomar percebeu que o notebook não é coisa do outro mundo como ousou desconfiar durante muito tempo. Percebeu, por exemplo, que naquele pequeno computador cabe todo o acervo da sua biblioteca e ainda mais alguns livros da biblioteca do vizinho e do quarteirão inteiro.

Entendeu, enfim, que pela internet pode matar a saudade e visitar, a qualquer hora do dia ou da noite, o museu de Quito ou o arquivo ultramarino de Lisboa.

Em boa hora, Jomar reconheceu o valor necessário da correspondência instantânea e já admite a possibilidade de, quem sabe amanhã, vir a ter um endereço eletrônico.

No facebook ele acha que não se enturmaria muito facilmente, porque, afinal de contas, nunca foi um homem de curtir ou compartilhar de maneira fortuita. Vivido e passado na casca do alho, Jomar Moraes sabe que, pra comentar ou cutucar, só quando estritamente necessário.

E, no mais, embora esteja apenas degustando o primeiro mel de cabaça na lua de mel com a internet, timidamente desconversa se alguém lhe atribui fama (ou perfil) de tuiteiro.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Pistolagem, crime organizado e política

Em 26 de março de 2000, ainda como correspondente em São Luís do jornal “O Estado de São Paulo”, publiquei reportagem especial sobre pistolagem, crime organizado e política. Eram os tempos de ressaca de CPI, do medo que tomava conta do Maranhão, das prisões de pessoas influentes, dos abusos de autoridade de parlamentares federais, dos holofotes da imprensa, da cobertura nacional e da multiplicação na venda dos radinhos de pilha.

A reportagem fez parte de um caderno especial coordenado pela repórter Mariana Caetano, que traçou uma radiografia de poder e política no Maranhão.

Doze anos depois, os ventos da pistolagem e do crime voltam a soprar sob o céu do estado. O caso mais recente e emblemático foi o assassinato do jornalista Décio Sá, no dia 23 de abril, uma noite de segunda-feira na movimentada avenida Litorânea. Investigação sob sigilo, denúncias de vazamento de informação, nenhuma pista concreta do mandante do assassinato e muita especulação nos bastidores. Resta uma nuvem de mistério no ar.
Leia a reportagem.

Dados indicam ação do crime organizado na política

O Sindicato dos Bancários do Maranhão avalia que parte da renda de
assaltos a banco no Estado tem sido utilizada no financiamento de campanhas eleitorais. A participação de políticos e agentes públicos no comando do crime organizado maranhense - escancarada nas investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada pela Assembléia Legislativa - levou o sindicato a preparar uma pesquisa sobre o roubo a instituições financeiras nos últimos quatro anos.

"Os dados indicam que os assaltos a banco e o valor roubado em anos eleitorais crescem muito", explica o presidente da entidade, Ubirajara do Pindaré. "O roubo a banco parece ser uma espécie de reciclagem das tradicionais fraudes eleitorais - é o uso da pistolagem e do crime para manutenção ou ampliação do poder."

O recorde de assaltos ocorreu em 1996, quando foram eleitos os atuais prefeitos e vereadores. O levantamento, feito no ano passado, registrou 55 roubos e outras 3 tentativas em 1996. O total desviado chegou a R$ 2,5 milhões. No ano seguinte, o número de ocorrências não alcançou nem a metade. Foram 18 assaltos, que somaram R$ 1,4 milhão.

Curiosamente, os crimes contra instituições financeiras em 1996 concentraram-se no período pré-eleitoral, entre abril e julho. A média de dois assaltos nos meses de janeiro, fevereiro e março subiu para 7 em abril e chegou a 9 em julho. Na eleição seguinte, os assaltos concentram-se em maio (4), junho (5) e dezembro (5).

O resultado do levantamento foi encaminhado à CPI estadual e à CPI do Narcotráfico, da Câmara dos Deputados. "Mas ainda não tivemos uma resposta", afirma Pindaré. "Discutimos esses dados com vários partidos e todos mostraram-se assustados - são indícios muito fortes, mas agora está claro que estamos mais vigilantes para isso."

Providências - O relator da CPI do Crime Organizado, deputado Jomar Fernandes (PT), conta que o relatório do Sindicato dos Bancários foi anexado ao documento final da Comissão e encaminhado à Gerência de Justiça e Segurança, ao Ministério Público e ao Tribunal de Justiça. “Os dados do relatório são apenas indícios sem provas, mas fiz questão de apresentar as denúncias em audiência pública na Assembléia Legislativa.”

O gerente de Justiça e Segurança Pública, delegado Raimundo Cutrim, explica que o relatório está nas mãos da polícia e as investigações sobre o crime organizado continuam. “Não se pode dizer que o assalto em ano eleitoral é uma simples coincidência, mas é difícil hoje chegar a uma conclusão segura sobre o assunto.”

Em 1998, ano da eleição de governadores, deputados e senadores e do presidente, o volume de roubos voltou a crescer e chegou ao maior valor desviado: R$ 4 milhões em 27 assaltos, além de 7 tentativas frustradas. No ano passado, o número de ocorrências caiu novamente. Foram 17 assaltos e 3 tentativas. O produto estimado dos roubos foi de aproximadamente R$ 500 mil.

Em 1999, o Maranhão começou a passar a limpo o envolvimento de integrantes de Executivo, Legislativo e Judiciário com organizações criminosas no Estado. Auxiliado pela CPI do Narcotráfico e pelas investigações da Gerência de Justiça e Segurança Pública, o trabalho da CPI local resultou na cassação de dois deputados estaduais, na prisão de dois prefeitos e no afastamento de um juiz.

Como saldo das investigações, 60 pessoas estão presas aguardando julgamento e há 30 mandados de prisão para serem cumpridos. Fazem parte da lista dos prisioneiros “ilustres” os ex-deputados estaduais José Gerardo de Abreu e Francisco Caíca, os ex-delegados Almir Macedo e Luís Moura e o empresário Joaquim Felipe de Sousa Neto, o Joaquim Lauristo. Também presos, o ex-deputado estadual Hemetério Weba e o prefeito Aveny Pacheco, de Amapá do Maranhão, já estão em liberdade.

Em três meses de trabalho, os deputados desarticularam quadrilhas que agiam na sombra da imunidade parlamentar e sob a proteção de alguns setores da Justiça. No currículo dos envolvidos com o crime organizado há assassinatos, roubos de cargas e carretas, chacinas, tráfico de drogas, porte ilegal de arma e uso de pistas de pouso clandestinas. “Terminamos apenas uma etapa do trabalho”, diz o deputado Jomar Fernandes. “É provável que surja uma nova CPI.”

O começo - Os primeiros indícios da existência de uma organização criminosa no Estado apareceram em 1995. O então delegado Stênio Mendonça começou a investigar uma quadrilha que negociava carretas e drogas nas fronteiras do País. Dois anos depois, o delegado foi assassinado por pistoleiros supostamente contratados pelo empresário Joaquim Lauristo. Os matadores chegaram a ser presos e dias depois, por descuido da polícia, também foram assassinados numa “queima de arquivo”.

Lauristo foi preso em junho de 1997, ganhou habeas corpus de presente e desapareceu. O empresário foi localizado dois anos e meio mais tarde no interior do Tocantins, e hoje está preso no quartel da Polícia Militar, no mesmo pavilhão onde estão Gerardo e Caíca.

As denúncias sobre uma possível conexão entre quadrilheiros do Maranhão, Acre e Alagoas e da cidade de Campinas (SP) foram feitas pelo motorista e assaltante Jorge Meres. Depois de ouvir Meres, a CPI do Narcotráfico realizou sessões especiais na Assembléia do Maranhão, mandou prender delegados, prefeitos e ex-deputados e ganhou aplausos da população.

“Com essa devassa em gente importante, o Maranhão está menos doente”, avalia o aposentado Francisco Cantanhede. A população, diz, teve um exemplo de moralidade com a CPI. A governadora Roseana apoiou publicamente os trabalhos.

O gerente Cutrim afirma que os assaltos a bancos diminuíram nos últimos meses, como conseqüência das investigações. “Este ano, houve apenas um assalto no interior.” Na capital, até a primeira metade de fevereiro, foram registrados três roubos, que somaram R$ 116,4 mil. Segundo ele, não houve em 2000 registro de roubo de carretas em estradas maranhenses. “Isso nos leva a crer que as organizações criminosas foram banidas do Maranhão.”

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Um roteiro de Spielberg, por Alessandro Lamar

Em 1993, eu li “Os Tambores de São Luis” e fiquei encantado com a obra! Não apenas pela riqueza de detalhes com que Josué Montello descreve a cidade, os fatos, as pessoas e as coisas, mas principalmente pela forma como ele conta a história de nossa cidade a partir de um trajeto da Madre Deus à Camboa, passando pelo centro, feito por Damião (protagonista), que saiu de casa pra conhecer um filho marinheiro (faz tempo que li...). Imediatamente, liguei pra minha alma gêmea Christian e disse a ele: “Vamos escrever o roteiro e produzir Os Tambores de São Luís – o filme!”. Como Christian sempre conseguiu ser mais maluco do que eu, ela já apareceu na nossa primeira reunião na Fábrica de Velas (histórico ponto na Rua de Santana que era da família dele) com a definição dos atores que fariam Damião: na primeira parte, até a alforria e estudos, seria Norton Nascimento (falecido ator que na época fazia muito sucesso com um personagem chamado Wotan); na maturidade, Milton Gonçalves. Pronto! Faltava agora escolher as locações, os outros atores (pensamos em dar também uma chance aos atores locais, seria sacanagem nossa deixá-los de fora) e os diálogos, que Christian já havia adiantado alguma coisa. Ficamos horas esboçando o trailer, as batidas dos tambores da Casa das Minas, todos os detalhes contemplados, e agora? Agora era definir uma agenda de encontros pra ver como faríamos isso tudo. Em 1993 não havia tanto incentivo assim como hoje, e foi então que tivemos a grande, imensa, magnífica e genial ideia: escrever o roteiro e enviar para Steven Spilberg! Somente ele poderia produzir o nosso filme! Mas como chegar até Steve (já éramos amigos íntimos)??? Foram necessárias várias semanas pra chegarmos à conclusão final: vamos ligar pra ele! Sim, e o telefone dele, qual era? (em 1993 não havia celular e nem internet aqui em São Luís). Depois resolveríamos essa questão. Seguimos com os diálogos (escritos à mão pois em 1993 não havia computador disponível, só pros ricos) e roteiro e a coisa foi pegando forma. Todos os atores (não me lembro mais quais eram) escolhidos, o roteiro caminhando, galera, era puro prazer isso!!!
Bom, voltamos ao Steve! Teríamos que descobrir o endereço do nosso amigo Steve e enviar a ele uma cópia do projeto (pense com a cabeça de hoje, mas no mundo de 1993, como encontrar o endereço de Steven Spilberg, sem internet e sem celular?). Resolvido, faríamos isso! Passaram-se alguns dias e fizemos mais uma reunião, acho que a penúltima, justamente pra discutir qual o discurso que utilizaríamos no OSCAR, isso mesmo, OSCAR!!! Nosso filme venceria o OSCAR de lavagem pois o livro era maravilhoso, nosso roteiro (que não passou de três páginas) imbatível e Steven Spilberg era o cara. Putz, pra quem iríamos agradecer, era pouca gente, agora quem não iríamos sequer mencionar: Cesar e Marcelo, que debochavam do projeto, e Biné, que ficava tirando onda. Esses caras iam ficar esperando falarmos o nome deles na televisão quando recebêssemos a estatueta e iam passar batido. Muito legal, divertido, visualizamos a fama, mas, de repente, veio a questão chave: e se Steven Spilberg enrolasse a gente? E se ele pegasse nosso filme e dissesse que era dele, sem nos dar os créditos? Pensamos em registrar no cartório de São Luís, mas isso não teria validade para nosso já não mais amigo Steve. Quer saber – pensamos – Steven Spilberg, vai tomar no teu c. que tu vai ficar com nosso filme!!! Engavetamos o projeto!