quarta-feira, 9 de maio de 2012

Pistolagem, crime organizado e política

Em 26 de março de 2000, ainda como correspondente em São Luís do jornal “O Estado de São Paulo”, publiquei reportagem especial sobre pistolagem, crime organizado e política. Eram os tempos de ressaca de CPI, do medo que tomava conta do Maranhão, das prisões de pessoas influentes, dos abusos de autoridade de parlamentares federais, dos holofotes da imprensa, da cobertura nacional e da multiplicação na venda dos radinhos de pilha.

A reportagem fez parte de um caderno especial coordenado pela repórter Mariana Caetano, que traçou uma radiografia de poder e política no Maranhão.

Doze anos depois, os ventos da pistolagem e do crime voltam a soprar sob o céu do estado. O caso mais recente e emblemático foi o assassinato do jornalista Décio Sá, no dia 23 de abril, uma noite de segunda-feira na movimentada avenida Litorânea. Investigação sob sigilo, denúncias de vazamento de informação, nenhuma pista concreta do mandante do assassinato e muita especulação nos bastidores. Resta uma nuvem de mistério no ar.
Leia a reportagem.

Dados indicam ação do crime organizado na política

O Sindicato dos Bancários do Maranhão avalia que parte da renda de
assaltos a banco no Estado tem sido utilizada no financiamento de campanhas eleitorais. A participação de políticos e agentes públicos no comando do crime organizado maranhense - escancarada nas investigações da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada pela Assembléia Legislativa - levou o sindicato a preparar uma pesquisa sobre o roubo a instituições financeiras nos últimos quatro anos.

"Os dados indicam que os assaltos a banco e o valor roubado em anos eleitorais crescem muito", explica o presidente da entidade, Ubirajara do Pindaré. "O roubo a banco parece ser uma espécie de reciclagem das tradicionais fraudes eleitorais - é o uso da pistolagem e do crime para manutenção ou ampliação do poder."

O recorde de assaltos ocorreu em 1996, quando foram eleitos os atuais prefeitos e vereadores. O levantamento, feito no ano passado, registrou 55 roubos e outras 3 tentativas em 1996. O total desviado chegou a R$ 2,5 milhões. No ano seguinte, o número de ocorrências não alcançou nem a metade. Foram 18 assaltos, que somaram R$ 1,4 milhão.

Curiosamente, os crimes contra instituições financeiras em 1996 concentraram-se no período pré-eleitoral, entre abril e julho. A média de dois assaltos nos meses de janeiro, fevereiro e março subiu para 7 em abril e chegou a 9 em julho. Na eleição seguinte, os assaltos concentram-se em maio (4), junho (5) e dezembro (5).

O resultado do levantamento foi encaminhado à CPI estadual e à CPI do Narcotráfico, da Câmara dos Deputados. "Mas ainda não tivemos uma resposta", afirma Pindaré. "Discutimos esses dados com vários partidos e todos mostraram-se assustados - são indícios muito fortes, mas agora está claro que estamos mais vigilantes para isso."

Providências - O relator da CPI do Crime Organizado, deputado Jomar Fernandes (PT), conta que o relatório do Sindicato dos Bancários foi anexado ao documento final da Comissão e encaminhado à Gerência de Justiça e Segurança, ao Ministério Público e ao Tribunal de Justiça. “Os dados do relatório são apenas indícios sem provas, mas fiz questão de apresentar as denúncias em audiência pública na Assembléia Legislativa.”

O gerente de Justiça e Segurança Pública, delegado Raimundo Cutrim, explica que o relatório está nas mãos da polícia e as investigações sobre o crime organizado continuam. “Não se pode dizer que o assalto em ano eleitoral é uma simples coincidência, mas é difícil hoje chegar a uma conclusão segura sobre o assunto.”

Em 1998, ano da eleição de governadores, deputados e senadores e do presidente, o volume de roubos voltou a crescer e chegou ao maior valor desviado: R$ 4 milhões em 27 assaltos, além de 7 tentativas frustradas. No ano passado, o número de ocorrências caiu novamente. Foram 17 assaltos e 3 tentativas. O produto estimado dos roubos foi de aproximadamente R$ 500 mil.

Em 1999, o Maranhão começou a passar a limpo o envolvimento de integrantes de Executivo, Legislativo e Judiciário com organizações criminosas no Estado. Auxiliado pela CPI do Narcotráfico e pelas investigações da Gerência de Justiça e Segurança Pública, o trabalho da CPI local resultou na cassação de dois deputados estaduais, na prisão de dois prefeitos e no afastamento de um juiz.

Como saldo das investigações, 60 pessoas estão presas aguardando julgamento e há 30 mandados de prisão para serem cumpridos. Fazem parte da lista dos prisioneiros “ilustres” os ex-deputados estaduais José Gerardo de Abreu e Francisco Caíca, os ex-delegados Almir Macedo e Luís Moura e o empresário Joaquim Felipe de Sousa Neto, o Joaquim Lauristo. Também presos, o ex-deputado estadual Hemetério Weba e o prefeito Aveny Pacheco, de Amapá do Maranhão, já estão em liberdade.

Em três meses de trabalho, os deputados desarticularam quadrilhas que agiam na sombra da imunidade parlamentar e sob a proteção de alguns setores da Justiça. No currículo dos envolvidos com o crime organizado há assassinatos, roubos de cargas e carretas, chacinas, tráfico de drogas, porte ilegal de arma e uso de pistas de pouso clandestinas. “Terminamos apenas uma etapa do trabalho”, diz o deputado Jomar Fernandes. “É provável que surja uma nova CPI.”

O começo - Os primeiros indícios da existência de uma organização criminosa no Estado apareceram em 1995. O então delegado Stênio Mendonça começou a investigar uma quadrilha que negociava carretas e drogas nas fronteiras do País. Dois anos depois, o delegado foi assassinado por pistoleiros supostamente contratados pelo empresário Joaquim Lauristo. Os matadores chegaram a ser presos e dias depois, por descuido da polícia, também foram assassinados numa “queima de arquivo”.

Lauristo foi preso em junho de 1997, ganhou habeas corpus de presente e desapareceu. O empresário foi localizado dois anos e meio mais tarde no interior do Tocantins, e hoje está preso no quartel da Polícia Militar, no mesmo pavilhão onde estão Gerardo e Caíca.

As denúncias sobre uma possível conexão entre quadrilheiros do Maranhão, Acre e Alagoas e da cidade de Campinas (SP) foram feitas pelo motorista e assaltante Jorge Meres. Depois de ouvir Meres, a CPI do Narcotráfico realizou sessões especiais na Assembléia do Maranhão, mandou prender delegados, prefeitos e ex-deputados e ganhou aplausos da população.

“Com essa devassa em gente importante, o Maranhão está menos doente”, avalia o aposentado Francisco Cantanhede. A população, diz, teve um exemplo de moralidade com a CPI. A governadora Roseana apoiou publicamente os trabalhos.

O gerente Cutrim afirma que os assaltos a bancos diminuíram nos últimos meses, como conseqüência das investigações. “Este ano, houve apenas um assalto no interior.” Na capital, até a primeira metade de fevereiro, foram registrados três roubos, que somaram R$ 116,4 mil. Segundo ele, não houve em 2000 registro de roubo de carretas em estradas maranhenses. “Isso nos leva a crer que as organizações criminosas foram banidas do Maranhão.”

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Um roteiro de Spielberg, por Alessandro Lamar

Em 1993, eu li “Os Tambores de São Luis” e fiquei encantado com a obra! Não apenas pela riqueza de detalhes com que Josué Montello descreve a cidade, os fatos, as pessoas e as coisas, mas principalmente pela forma como ele conta a história de nossa cidade a partir de um trajeto da Madre Deus à Camboa, passando pelo centro, feito por Damião (protagonista), que saiu de casa pra conhecer um filho marinheiro (faz tempo que li...). Imediatamente, liguei pra minha alma gêmea Christian e disse a ele: “Vamos escrever o roteiro e produzir Os Tambores de São Luís – o filme!”. Como Christian sempre conseguiu ser mais maluco do que eu, ela já apareceu na nossa primeira reunião na Fábrica de Velas (histórico ponto na Rua de Santana que era da família dele) com a definição dos atores que fariam Damião: na primeira parte, até a alforria e estudos, seria Norton Nascimento (falecido ator que na época fazia muito sucesso com um personagem chamado Wotan); na maturidade, Milton Gonçalves. Pronto! Faltava agora escolher as locações, os outros atores (pensamos em dar também uma chance aos atores locais, seria sacanagem nossa deixá-los de fora) e os diálogos, que Christian já havia adiantado alguma coisa. Ficamos horas esboçando o trailer, as batidas dos tambores da Casa das Minas, todos os detalhes contemplados, e agora? Agora era definir uma agenda de encontros pra ver como faríamos isso tudo. Em 1993 não havia tanto incentivo assim como hoje, e foi então que tivemos a grande, imensa, magnífica e genial ideia: escrever o roteiro e enviar para Steven Spilberg! Somente ele poderia produzir o nosso filme! Mas como chegar até Steve (já éramos amigos íntimos)??? Foram necessárias várias semanas pra chegarmos à conclusão final: vamos ligar pra ele! Sim, e o telefone dele, qual era? (em 1993 não havia celular e nem internet aqui em São Luís). Depois resolveríamos essa questão. Seguimos com os diálogos (escritos à mão pois em 1993 não havia computador disponível, só pros ricos) e roteiro e a coisa foi pegando forma. Todos os atores (não me lembro mais quais eram) escolhidos, o roteiro caminhando, galera, era puro prazer isso!!!
Bom, voltamos ao Steve! Teríamos que descobrir o endereço do nosso amigo Steve e enviar a ele uma cópia do projeto (pense com a cabeça de hoje, mas no mundo de 1993, como encontrar o endereço de Steven Spilberg, sem internet e sem celular?). Resolvido, faríamos isso! Passaram-se alguns dias e fizemos mais uma reunião, acho que a penúltima, justamente pra discutir qual o discurso que utilizaríamos no OSCAR, isso mesmo, OSCAR!!! Nosso filme venceria o OSCAR de lavagem pois o livro era maravilhoso, nosso roteiro (que não passou de três páginas) imbatível e Steven Spilberg era o cara. Putz, pra quem iríamos agradecer, era pouca gente, agora quem não iríamos sequer mencionar: Cesar e Marcelo, que debochavam do projeto, e Biné, que ficava tirando onda. Esses caras iam ficar esperando falarmos o nome deles na televisão quando recebêssemos a estatueta e iam passar batido. Muito legal, divertido, visualizamos a fama, mas, de repente, veio a questão chave: e se Steven Spilberg enrolasse a gente? E se ele pegasse nosso filme e dissesse que era dele, sem nos dar os créditos? Pensamos em registrar no cartório de São Luís, mas isso não teria validade para nosso já não mais amigo Steve. Quer saber – pensamos – Steven Spilberg, vai tomar no teu c. que tu vai ficar com nosso filme!!! Engavetamos o projeto!

terça-feira, 24 de abril de 2012

Nosso abril despedaçado

Hoje foi um dia daqueles para não se acreditar na notícia. Dia de duvidar. De ter medo de abrir o jornal. Medo de acordar e não ter sonhado. De ligar a televisão. De ouvir o rádio. Medo da verdade. A madrugada foi longa. Pela manhã Décio Sá estava só nas manchetes. Não mais como porta-voz dos fatos, das investigações e das provocações. Ele era a notícia, comovente, cortante, aterradora.

Conheci Décio Sá nos corredores da universidade. Simples, de origem humilde e gestos largos, chegou ao curso de Comunicação na segunda metade da década de 80 com uma vontade imensa de virar repórter, de ser um homem de jornal, de conhecer os segredos das palavras. Acolhido no curso como um bom sujeito, sem papas na língua, foi companheiro de boas viagens, carregador de alegrias ao lado do amigo Bottentuit, observador inquieto, ingênuo nas primeiras empreitadas amorosas, jogador de futebol sem futuro, indomável quando acuado.

Décio Sá tinha planos e sabia o que queria. Fazia o futuro todos os dias. Virou homem feito, pai de família e transformou-se no repórter mais sagaz de sua geração. E por isso mesmo cultivou ao longo do caminho uma terra vasta de admiradores e alguns quarteirões de desafetos. Estava sempre à frente de todos. Como correspondente da Folha de S. Paulo, viveu a sua experiência mais audaciosa e tumultuada, com reportagens que lhe renderam reconhecimento e birras. Trabalhou na redação de O Imparcial, tomou partido do contra, criou polêmicas, deixou o emprego, entrou em quarentena até chegar de vez ao Sistema Mirante. Trabalhamos juntos na redação de O Estado do Maranhão e ali experimentamos a chegada do computador ao jornal.

Estava sempre apressado como um eterno foca de redação, olhos sobressaltados, ombro curvado e uma caderneta de anotações na mão e uma resma de perguntas prontas. Corria riscos, mas os riscos não importavam. O importante era correr e chegar primeiro, como numa gincana juvenil de uma equipe sem capitão. Assim era o Décio Sá.

Bonachão com os amigos mais próximos, sincero nas atitudes, generoso com a família e implacável na pena, Décio Sá foi um desses colegas de profissão que sabia multiplicar suas fontes, cotejando-as com sabedoria e delicadeza no exercício do jornalismo. Aprendeu a domar como poucos o informante, a informação e os informados.

O blog foi o divisor de águas. Décio Sá tinha lado, e fazia questão de expor as suas preferências musicais, políticas, esportivas. Metia-se até em briga de galo. Às vezes de forma sutil, noutras nem tanto. E por ter lado, em alguns momentos navegou contra a correnteza, provocou crises nas esferas de governo, fomentou fogo amigo e estimulou a queda de secretários ou a cassação de prefeitos.

Foi com essa personalidade forte, em permanente estado de ebulição, que Décio Sá tombou na noite de ontem, com cinco tiros a queima roupa. Mas não caiu sozinho. Caímos com ele, envergonhados e tristes. E por isso mesmo amanhecemos hoje com medo de acordar.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Nós na Varanda, no embalo da rede


Varanda remete a uma casa no campo, arejada, samambaias escorrendo pelos frechais, cadeiras de balanço, redes estendidas nas escápulas, uma vovozinha sentada fazendo tricô enquanto o forno a lenha doura o tempo e a vida. A varanda é assim, com a insustentável leveza na melodia de pássaros e árvores. Mas um dia o músico Celson Mendes decidiu reinventá-la. E já se vão dez anos. O conceito é quase o mesmo, a mesma essência e o mesmo enredo: cadeiras postas, o tricô das boas conversas, microondas de desejo na mesa, o prelúdio de chegada e a música em variados tons e formas.

No princípio eram músicos reunidos no bar, no lar, na calçada, numa jam session particular. Depois o projeto ganhou a forma de Varanda itinerante, uma vez por mês na casa de uma boa alma viva, lista seleta de convidados, ingredientes compartilhados. Nos últimos quatro anos, o projeto idealizado por Celson Mendes passou a levar a assinatura do casal Celijon Ramos e Fafá Lago na produção e conta com o auxílio luxuoso de uma legião de artistas e fiéis seguidores.


A Varanda não é seita, mas a música ali é quase uma religião. Não há vovozinha ou lobo mau. Só cantos de fadas e divas. A casa de campo é uma questão de estado de espírito do anfitrião do dia. Pode ser uma cadeira ou uma mesa de balanço, de boas batidas, à escolha do DJ. A rigor, Pedro Sobrinho é escalado para dar as boas vindas. Ele faz o rito de passagem com suas fusões de sonoridade e arrepios de sensibilidade. De São Luís para o mundo, sem bilhete de embarque, dicas de segurança, caça-palavras ou revistas de bordo.

O projeto Varanda é como se fosse uma brincadeira de domingo, uma ciranda de bons músicos e vozes refinadas, com direito a jogral, recital, trovas e leitura de páginas amarelinhas. Cada um entra na Varanda com alguma coisa, naquela descoberta prazerosa de carregar o piano. E sai muito mais rico. De informação, de descoberta. É a regra básica de convivência. Sem estatuto, bandeira ou sindicato, a Varanda faz história por onde passa.

É a nossa festa na laje, o fino da bossa, o jazz de viés, o blues abolerado e sem pressa, o baião de veludo, a música sem fronteira, tribal, primeira, a canção pra viver mais, derradeira. A Varanda é como um ritual. A música vai acontecendo e, à medida que os convidados chegam, a atmosfera vai se desenhando feito aquarela. Há apreciadores de carteirinha, protagonistas, sócios fundadores, noviços, frequentadores bissextos e anfitriões. Tudo se confunde quando a tarde invade a noite.

A cada edição da Varanda há um ilustre homenageado. Augusto Pellegrini, Milla Camões, Léo Capiba, Célia Maria, Anna Cláudia, Victor Castro, Salomão de Pádua, Djalma Chaves, Nosly, Tutuca, Cecília Leite, Marcelo Bianchinni, Flávia Bittencourt, Betto Pereira, Jaime Santos e Sérgio Habibe são alguns dos nomes que passam pelo palco dos endereços revelados à boca pequena, acompanhados de músicos como o próprio Celson Mendes, Júlio Marins, Jarbas Lima, Jeff Soares, Daniel Martins e muitos outros.

E uma varanda não seria uma varanda sem uma rede. É pela rede social que o projeto se materializa. Quem passa pela Varanda, passa antes pelo facebook ou twitter. Sem isso, nada feito. Não é festa pra muvuca, mas um sarau de amigos que se multiplica ou se recicla ao sabor do humor dos convidados. O endereço é cuidadosamente revelado em mensagem in box. As fotos de cada edição são compartilhadas também pela rede social. E toda rede tem varanda – em verdade, duas varandas.

A Varanda não é definitivamente uma festa pra VIP, no sentido mais maranhense do termo ou da sigla. Mas uma comunhão de estilos, uma celebração da música como antiproduto. Sem sobrenome na porta. Entra quem conhece o caminho. Esse é o privilégio.

(Texto publicado no jornal O Imparcial, coluna do Alex Palhano, no dia 15.04.2012)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Fatos marcantes e emocionantes do final dos anos 80 – Eleições presidenciais!

Alessandro Lamar

Em 1989 – após uma longa campanha pró Lula, militância voluntária e muita cachaça com Marcelo Barros, Christian Noronha, César Choairy, Benedito Biné Souza e Dimas Salustiano na casa de Jorge, irmão de Dimas, sabe-se lá por que ou através de quem os alunos do curso de Ciências Sociais resolveram fazer uma confraternização no paradisíaco sítio de Gilles e Lourdinha Lacroix no Caúra, em Panaquatira: um lugar maravilhoso, no alto da falésia, na beira do mar, com coqueiros, um poço secular e uma casa confortável e de muito bom gosto. Ao chegar, nos encantamos logo de cara, era lindo, aconchegante. E nós estávamos merecendo algo assim porque na campanha a gente não parava um dia sequer: reunião, cachaça, passeata, cachaça, comício, cachaça, cachaça, cachaça (e muito cigarro, é óbvio!). Bom, sei que num piscar de olhos chegamos de veículo fretado e tudo, vários alunos, pessoas queridas até hoje, os anfitriões, familiares deles, equipe de apoio, tudo. Jogamos futebol, bebemos, comemos, rimos, nos divertimos pra caramba. Ao final da tarde, quando o tal do veículo fretado chegou pra ‘catar’ a galera toda, nós – eu, Marcelo, Cyntia, Eliane e Cristina – resolvemos ficar até o outro dia: porra, não tinha como sair daquele lugar, era lindo demais! E tinha um detalhe que fervilhou ainda mais nosso desejo de permanecer: a lua estava linda, o céu estrelado e a região não possuía energia elétrica, era tudo na luz do luar! Tomávamos cachaça mesmo (não tinha uma cervejinha gelada) e fumávamos um cigarro atrás do outro. NINGUÉM tinha uma maconhazinha... rsrsrsrsrs! Me lembro que na primeira noite sozinhos deitamos na grama da varanda, rodeada de coqueiros e brincamos de mímica e dica. Eu e Marcelo na fissura de fumar andamos cerca de 6km pra comprar um cigarro de marca impossível de recordar. Bom, foi muito legal e depois de 3 dias(!!!) resolvemos retornar à vida cotidiana. Eu tinha 19 anos, Marcelo devia ter uns 22 anos e as meninas nessa mesma faixa de Marcelo. Nossas famílias desesperadas (não havia celular naquela época), nosso amigos confusos e até Gilles e Lourdinha preocupados achando que alguma coisa havia acontecido. Andamos pra c. até a pista que leva à Panaquatira e tomamos café num barzinho próximo.
Após meses de campanha, em nossas cabeças as eleições estavam definidas com Collor e Brizola para o segundo turno, onde iríamos apoiar Brizola pelo fato de ser da esquerda e também por Christian, que apoiou Lula mas com o coração brizolista (como sempre foi!). Aí, conversa vai, conversa vem, perguntamos ao dono do bar como estavam as eleições, se Collor havia vencido ou se haveria segundo turno (pra vocês perceberem como nós estávamos num lugar tipo a ilha de Lost!) e o dono do bar nos respondeu: “vão disputar o segundo turno Collor e Lula”. Silêncio, olhares esbugalhados, arrepio, frio na barriga... CARALHOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!! LULA NO SEGUNDO TURNOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!! Nos abraçamos, comemoramos (ainda sem acreditar, vai ver esse cara tá bêbado ou não entendeu direito o que disseram no jornal nacional) e seguimos pra São Luís, pegamos um ônibus PANAQUATIRA que após horas chegou ao centro. Acredito que deveria ser algo em torno de 11h, 11h30. Quando descemos na Praça Deodoro – palco de tudo naquela época – e ouvimos ao longe a musiquinha de Lula: “Lula-lá, brilha uma estrela, Lula-lá cresce a esperança...”. Nessa hora passamos a acreditar! Até porque vínhamos no ônibus extasiados com o fato, falando, planejando, sonhando! Mas tinha um detalhe: onde estava acontecendo a passeata? Em qual rua? Da Deodoro ouvíamos os sons mas não conseguimos identificar de onde vinha. Corremos feitos dois loucos, eu e Marcelo, pela Rua do Passeio, quebramos pra Rua Grande e quando viramos uma das esquinas com a Rua da Paz, a galera estava toda lá, cantando, em pleno sol de uma manhã escaldante, e comemorando a passagem para o segundo turno. Há dias que nós comíamos mal, uma ressaca monstra e uma abacatada na barriga, mas saímos andando e cantando com a multidão, com sorriso na cara, felicidade estampada, alegria exalada!
Esse foi um dos dias mais emocionantes de minha vida universitária nos anos 80, outros viriam a acontecer, mas nada comparado! Lindo demais!

terça-feira, 13 de março de 2012

Maio oito meia (6) - Raça, sexo, pele e cor

Ainda havia um muro de Berlim a dividir ao meio as acaloradas discussões acadêmicas no início da segunda metade da década de 80. No movimento estudantil, a ordem era ser de esquerda, embora a esquerda fosse um bicho de sete cabeças, autofágico, e, na maioria das vezes, destrambelhado. Envolvente. Era uma política feita por jovens que desejavam um mundo melhor, apostavam todas as fichas em mudança no estado das coisas e acreditavam em revolução social. E a mudança, imaginavam, começaria pela universidade. Ali seria a experiência piloto. Se conseguissem derrubar o reitor, talvez chegassem à reforma agrária e, quem sabe, ao topo da felicidade.

Leia mais em maiooitomeia.com.br.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Toda Maria é ouro



“Maria do Brasil” é a nossa homenagem (minha e de Betto Pereira) às mulheres de qualquer parte, de todas as cores. Rosa, Bela, Cinderela, Anita, Tarsila, Ana, Elza, Poliana, Camile, Florbela, Clara, Tarsila, Adriana. Ou Maria, a tradução mais verdadeira e terna! Elas estão na bossa de Vinícius e Tom, na canção de Chico, no reggae de Donaldson, na balada dos Beatles, na alma da música. Toda Maria é ouro, não foge da luta e vive à flor do samba!