terça-feira, 24 de abril de 2012

Nosso abril despedaçado

Hoje foi um dia daqueles para não se acreditar na notícia. Dia de duvidar. De ter medo de abrir o jornal. Medo de acordar e não ter sonhado. De ligar a televisão. De ouvir o rádio. Medo da verdade. A madrugada foi longa. Pela manhã Décio Sá estava só nas manchetes. Não mais como porta-voz dos fatos, das investigações e das provocações. Ele era a notícia, comovente, cortante, aterradora.

Conheci Décio Sá nos corredores da universidade. Simples, de origem humilde e gestos largos, chegou ao curso de Comunicação na segunda metade da década de 80 com uma vontade imensa de virar repórter, de ser um homem de jornal, de conhecer os segredos das palavras. Acolhido no curso como um bom sujeito, sem papas na língua, foi companheiro de boas viagens, carregador de alegrias ao lado do amigo Bottentuit, observador inquieto, ingênuo nas primeiras empreitadas amorosas, jogador de futebol sem futuro, indomável quando acuado.

Décio Sá tinha planos e sabia o que queria. Fazia o futuro todos os dias. Virou homem feito, pai de família e transformou-se no repórter mais sagaz de sua geração. E por isso mesmo cultivou ao longo do caminho uma terra vasta de admiradores e alguns quarteirões de desafetos. Estava sempre à frente de todos. Como correspondente da Folha de S. Paulo, viveu a sua experiência mais audaciosa e tumultuada, com reportagens que lhe renderam reconhecimento e birras. Trabalhou na redação de O Imparcial, tomou partido do contra, criou polêmicas, deixou o emprego, entrou em quarentena até chegar de vez ao Sistema Mirante. Trabalhamos juntos na redação de O Estado do Maranhão e ali experimentamos a chegada do computador ao jornal.

Estava sempre apressado como um eterno foca de redação, olhos sobressaltados, ombro curvado e uma caderneta de anotações na mão e uma resma de perguntas prontas. Corria riscos, mas os riscos não importavam. O importante era correr e chegar primeiro, como numa gincana juvenil de uma equipe sem capitão. Assim era o Décio Sá.

Bonachão com os amigos mais próximos, sincero nas atitudes, generoso com a família e implacável na pena, Décio Sá foi um desses colegas de profissão que sabia multiplicar suas fontes, cotejando-as com sabedoria e delicadeza no exercício do jornalismo. Aprendeu a domar como poucos o informante, a informação e os informados.

O blog foi o divisor de águas. Décio Sá tinha lado, e fazia questão de expor as suas preferências musicais, políticas, esportivas. Metia-se até em briga de galo. Às vezes de forma sutil, noutras nem tanto. E por ter lado, em alguns momentos navegou contra a correnteza, provocou crises nas esferas de governo, fomentou fogo amigo e estimulou a queda de secretários ou a cassação de prefeitos.

Foi com essa personalidade forte, em permanente estado de ebulição, que Décio Sá tombou na noite de ontem, com cinco tiros a queima roupa. Mas não caiu sozinho. Caímos com ele, envergonhados e tristes. E por isso mesmo amanhecemos hoje com medo de acordar.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Nós na Varanda, no embalo da rede


Varanda remete a uma casa no campo, arejada, samambaias escorrendo pelos frechais, cadeiras de balanço, redes estendidas nas escápulas, uma vovozinha sentada fazendo tricô enquanto o forno a lenha doura o tempo e a vida. A varanda é assim, com a insustentável leveza na melodia de pássaros e árvores. Mas um dia o músico Celson Mendes decidiu reinventá-la. E já se vão dez anos. O conceito é quase o mesmo, a mesma essência e o mesmo enredo: cadeiras postas, o tricô das boas conversas, microondas de desejo na mesa, o prelúdio de chegada e a música em variados tons e formas.

No princípio eram músicos reunidos no bar, no lar, na calçada, numa jam session particular. Depois o projeto ganhou a forma de Varanda itinerante, uma vez por mês na casa de uma boa alma viva, lista seleta de convidados, ingredientes compartilhados. Nos últimos quatro anos, o projeto idealizado por Celson Mendes passou a levar a assinatura do casal Celijon Ramos e Fafá Lago na produção e conta com o auxílio luxuoso de uma legião de artistas e fiéis seguidores.


A Varanda não é seita, mas a música ali é quase uma religião. Não há vovozinha ou lobo mau. Só cantos de fadas e divas. A casa de campo é uma questão de estado de espírito do anfitrião do dia. Pode ser uma cadeira ou uma mesa de balanço, de boas batidas, à escolha do DJ. A rigor, Pedro Sobrinho é escalado para dar as boas vindas. Ele faz o rito de passagem com suas fusões de sonoridade e arrepios de sensibilidade. De São Luís para o mundo, sem bilhete de embarque, dicas de segurança, caça-palavras ou revistas de bordo.

O projeto Varanda é como se fosse uma brincadeira de domingo, uma ciranda de bons músicos e vozes refinadas, com direito a jogral, recital, trovas e leitura de páginas amarelinhas. Cada um entra na Varanda com alguma coisa, naquela descoberta prazerosa de carregar o piano. E sai muito mais rico. De informação, de descoberta. É a regra básica de convivência. Sem estatuto, bandeira ou sindicato, a Varanda faz história por onde passa.

É a nossa festa na laje, o fino da bossa, o jazz de viés, o blues abolerado e sem pressa, o baião de veludo, a música sem fronteira, tribal, primeira, a canção pra viver mais, derradeira. A Varanda é como um ritual. A música vai acontecendo e, à medida que os convidados chegam, a atmosfera vai se desenhando feito aquarela. Há apreciadores de carteirinha, protagonistas, sócios fundadores, noviços, frequentadores bissextos e anfitriões. Tudo se confunde quando a tarde invade a noite.

A cada edição da Varanda há um ilustre homenageado. Augusto Pellegrini, Milla Camões, Léo Capiba, Célia Maria, Anna Cláudia, Victor Castro, Salomão de Pádua, Djalma Chaves, Nosly, Tutuca, Cecília Leite, Marcelo Bianchinni, Flávia Bittencourt, Betto Pereira, Jaime Santos e Sérgio Habibe são alguns dos nomes que passam pelo palco dos endereços revelados à boca pequena, acompanhados de músicos como o próprio Celson Mendes, Júlio Marins, Jarbas Lima, Jeff Soares, Daniel Martins e muitos outros.

E uma varanda não seria uma varanda sem uma rede. É pela rede social que o projeto se materializa. Quem passa pela Varanda, passa antes pelo facebook ou twitter. Sem isso, nada feito. Não é festa pra muvuca, mas um sarau de amigos que se multiplica ou se recicla ao sabor do humor dos convidados. O endereço é cuidadosamente revelado em mensagem in box. As fotos de cada edição são compartilhadas também pela rede social. E toda rede tem varanda – em verdade, duas varandas.

A Varanda não é definitivamente uma festa pra VIP, no sentido mais maranhense do termo ou da sigla. Mas uma comunhão de estilos, uma celebração da música como antiproduto. Sem sobrenome na porta. Entra quem conhece o caminho. Esse é o privilégio.

(Texto publicado no jornal O Imparcial, coluna do Alex Palhano, no dia 15.04.2012)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Fatos marcantes e emocionantes do final dos anos 80 – Eleições presidenciais!

Alessandro Lamar

Em 1989 – após uma longa campanha pró Lula, militância voluntária e muita cachaça com Marcelo Barros, Christian Noronha, César Choairy, Benedito Biné Souza e Dimas Salustiano na casa de Jorge, irmão de Dimas, sabe-se lá por que ou através de quem os alunos do curso de Ciências Sociais resolveram fazer uma confraternização no paradisíaco sítio de Gilles e Lourdinha Lacroix no Caúra, em Panaquatira: um lugar maravilhoso, no alto da falésia, na beira do mar, com coqueiros, um poço secular e uma casa confortável e de muito bom gosto. Ao chegar, nos encantamos logo de cara, era lindo, aconchegante. E nós estávamos merecendo algo assim porque na campanha a gente não parava um dia sequer: reunião, cachaça, passeata, cachaça, comício, cachaça, cachaça, cachaça (e muito cigarro, é óbvio!). Bom, sei que num piscar de olhos chegamos de veículo fretado e tudo, vários alunos, pessoas queridas até hoje, os anfitriões, familiares deles, equipe de apoio, tudo. Jogamos futebol, bebemos, comemos, rimos, nos divertimos pra caramba. Ao final da tarde, quando o tal do veículo fretado chegou pra ‘catar’ a galera toda, nós – eu, Marcelo, Cyntia, Eliane e Cristina – resolvemos ficar até o outro dia: porra, não tinha como sair daquele lugar, era lindo demais! E tinha um detalhe que fervilhou ainda mais nosso desejo de permanecer: a lua estava linda, o céu estrelado e a região não possuía energia elétrica, era tudo na luz do luar! Tomávamos cachaça mesmo (não tinha uma cervejinha gelada) e fumávamos um cigarro atrás do outro. NINGUÉM tinha uma maconhazinha... rsrsrsrsrs! Me lembro que na primeira noite sozinhos deitamos na grama da varanda, rodeada de coqueiros e brincamos de mímica e dica. Eu e Marcelo na fissura de fumar andamos cerca de 6km pra comprar um cigarro de marca impossível de recordar. Bom, foi muito legal e depois de 3 dias(!!!) resolvemos retornar à vida cotidiana. Eu tinha 19 anos, Marcelo devia ter uns 22 anos e as meninas nessa mesma faixa de Marcelo. Nossas famílias desesperadas (não havia celular naquela época), nosso amigos confusos e até Gilles e Lourdinha preocupados achando que alguma coisa havia acontecido. Andamos pra c. até a pista que leva à Panaquatira e tomamos café num barzinho próximo.
Após meses de campanha, em nossas cabeças as eleições estavam definidas com Collor e Brizola para o segundo turno, onde iríamos apoiar Brizola pelo fato de ser da esquerda e também por Christian, que apoiou Lula mas com o coração brizolista (como sempre foi!). Aí, conversa vai, conversa vem, perguntamos ao dono do bar como estavam as eleições, se Collor havia vencido ou se haveria segundo turno (pra vocês perceberem como nós estávamos num lugar tipo a ilha de Lost!) e o dono do bar nos respondeu: “vão disputar o segundo turno Collor e Lula”. Silêncio, olhares esbugalhados, arrepio, frio na barriga... CARALHOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!! LULA NO SEGUNDO TURNOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!! Nos abraçamos, comemoramos (ainda sem acreditar, vai ver esse cara tá bêbado ou não entendeu direito o que disseram no jornal nacional) e seguimos pra São Luís, pegamos um ônibus PANAQUATIRA que após horas chegou ao centro. Acredito que deveria ser algo em torno de 11h, 11h30. Quando descemos na Praça Deodoro – palco de tudo naquela época – e ouvimos ao longe a musiquinha de Lula: “Lula-lá, brilha uma estrela, Lula-lá cresce a esperança...”. Nessa hora passamos a acreditar! Até porque vínhamos no ônibus extasiados com o fato, falando, planejando, sonhando! Mas tinha um detalhe: onde estava acontecendo a passeata? Em qual rua? Da Deodoro ouvíamos os sons mas não conseguimos identificar de onde vinha. Corremos feitos dois loucos, eu e Marcelo, pela Rua do Passeio, quebramos pra Rua Grande e quando viramos uma das esquinas com a Rua da Paz, a galera estava toda lá, cantando, em pleno sol de uma manhã escaldante, e comemorando a passagem para o segundo turno. Há dias que nós comíamos mal, uma ressaca monstra e uma abacatada na barriga, mas saímos andando e cantando com a multidão, com sorriso na cara, felicidade estampada, alegria exalada!
Esse foi um dos dias mais emocionantes de minha vida universitária nos anos 80, outros viriam a acontecer, mas nada comparado! Lindo demais!

terça-feira, 13 de março de 2012

Maio oito meia (6) - Raça, sexo, pele e cor

Ainda havia um muro de Berlim a dividir ao meio as acaloradas discussões acadêmicas no início da segunda metade da década de 80. No movimento estudantil, a ordem era ser de esquerda, embora a esquerda fosse um bicho de sete cabeças, autofágico, e, na maioria das vezes, destrambelhado. Envolvente. Era uma política feita por jovens que desejavam um mundo melhor, apostavam todas as fichas em mudança no estado das coisas e acreditavam em revolução social. E a mudança, imaginavam, começaria pela universidade. Ali seria a experiência piloto. Se conseguissem derrubar o reitor, talvez chegassem à reforma agrária e, quem sabe, ao topo da felicidade.

Leia mais em maiooitomeia.com.br.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Toda Maria é ouro



“Maria do Brasil” é a nossa homenagem (minha e de Betto Pereira) às mulheres de qualquer parte, de todas as cores. Rosa, Bela, Cinderela, Anita, Tarsila, Ana, Elza, Poliana, Camile, Florbela, Clara, Tarsila, Adriana. Ou Maria, a tradução mais verdadeira e terna! Elas estão na bossa de Vinícius e Tom, na canção de Chico, no reggae de Donaldson, na balada dos Beatles, na alma da música. Toda Maria é ouro, não foge da luta e vive à flor do samba!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Zeca Baleiro e Antônio Vieira num bang-bang de fronteira


Zeca Baleiro fez um show ontem fora do eixo, mais descolado e intimista, como se estivesse numa roda de amigos. Casa cheia para um espetáculo beneficente no Teatro Arthur Azevedo. Voz e violão, repertório sem link com o mercado, público motivado para o coro. Sem pressa, foram mais de duas horas de som acústico para deleite da plateia. Não faltaram no cardápio o carimbó de Pinduca, uma homenagem especial a Wando (“Fogo e paixão”), que enfrenta sérios problemas de saúde, e a releitura de “Frenesi”, de Fausto Nilo, Petrúcio Maia e Ferreirinha, uma das mais belas canções gravadas por Raimundo Fagner.

O show foi meio tudo. Meio acústico, meio Baile do Baleiro, meio balada romântica, meio a meio. Os convidados de Zeca Baleiro também mandaram bem. Um Nosly sem rodeio, direto ao ponto, trouxe de volta “Noves fora”, uma velha parceria com Baleiro, e mostrou a regravação de “Aquela estrela”, música também dos anos 80 de Ronald Pinheiro e Jorge Thadeu, além do carro-chefe do novo disco, “Parador”. A noite teve ainda Alê Muniz e Luciana Simões, com destaque para a interpretação de “Veneno” e “Eu vi maré encher”.

Além de cantar as músicas mais conhecidas dos seus discos, Zeca Baleiro fez uma viagem no tempo para alcançar pérolas de compositores maranhenses como Sérgio Habibe, Josias Sobrinho, César Teixeira e Chico Maranhão. E fez assim uma justa e despretensiosa homenagem a uma geração de talentos musicais – alguns deles não mencionados, mas igualmente merecedores, como Joãozinho Ribeiro, Betto Pereira, Ronald Pinheiro, Ubiratan Souza, Giordano Mochel etc.

A referência àquela geração me fez lembrar de um certo domingo no final do ano 2000, quando sugeri um encontro entre Zeca Baleiro e o cantor e compositor Antônio Vieira para uma entrevista. Levei-os ao barzinho Cabeça Branca, ali onde hoje se convencionou chamar de Península da Ponta d’Areia, e que reinou por muito tempo como a melhor carne de sol de São Luís. E foi assim, na “esquina da baía de São Marcos”, onde o vento fazia a curva antes da construção de tantos prédios, que a conversa evoluiu pela tarde sobre música e a importância das gerações de bons compositores do Maranhão.

Foi um bate-papo descontraído, sem a sisudez das entrevistas convencionais. A minha interferência foi tão sutil quanto o testemunho ali de um Bandeira Tribuzi, sufocado pelo capim que teima em encobrir o seu memorial. Deixei-os falar livremente. Enquanto falavam, eu fazia as fotos de um “duelo“ memorável, interrompido várias vezes pelas melodias tiradas de um violão levado pelo poeta Mauro Holanda de Alencar. A entrevista fora publicada no dia 14 de janeiro de 2001, no jornal “O Estado do Maranhão”. Vale o registro.


Veja a íntegra da conversa.

Antônio Vieira – Da minha geração mesmo não existe mais quase ninguém. Já estão quase todos mortos. Na minha geração tinha grandes cantores, como Sérgio Miranda. Tem até uma música gravada pelo Cristovão [Cristovão Alô Brasil] em homenagem a ele. O mais engraçado é que ele era serrador de madeira, tinha o braço dessa grossura, mas a voz era um veludo. Ele, quando cantou pela primeira vez num show de calouros, foi logo contratado. Naquela época o pessoal se apresentava na rádio Timbira, que tinha programa de calouros todo domingo, e na rádio Ribamar. Ali eram selecionados apresentador de programa, locutor esportivo, cantores e locutores de cabine.

Félix Alberto – O senhor foi selecionado logo na primeira vez?

Antônio Vieira – Eu até que tive mais sorte. Nesse tempo eu não cantava. Eu era um menino que tinha como costume ouvir os cantores. Existia o Orlando Silva, Francisco Alves, Gilberto Alves. Eu estou cantando porque essa porção de menino que rebola no palco e que mostra a bunda não canta coisa nenhuma. E aí eu resolvi cantar. Então eu disse: - Vou cantar. Mas naquele tempo... tá louco! O pessoal cantava muito, era cantor, não era brincadeira. O Francisco Alves recebeu convite para ir cantar nos Estados Unidos, e não foi porque só iria se fosse com orquestra brasileira. Ele disse para um repórter americano que só iria se fosse com orquestra brasileira, pois americano não sabe tocar samba. Esse, sim, merecia ser chamado “o rei da voz”.


Zeca Baleiro – Morreu novo também...

Félix Alberto – Aqui havia talentos nessa época?

Antônio Vieira – Dessa época vou lhe dizer os cantores de talento: Zé Ribeiro, que era chamado de Bico Doce porque a voz era um açúcar; Nilton Vieira...

Zeca Baleiro – Zé de Barros...

Antônio Vieira – Não, Zé de Barros não cantava só, ele cantava em grupo. Tinha mais Orlando Cavalcanti, Nhozinho Santos. Cantora tem aquela que gravou minha música naquele disco de memória, a Célia, e mais Sandra Maria, Flor de Maria, Conceição Oliveira. O Maranhão era uma plêiade de gente de valor; quem era da minha marca não cantava, não tinha vez.

Zeca Baleiro – E muitas dessas pessoas morreram sem deixar registro...


Antônio Vieira – Talvez quem tenha alguma coisa seja aquele menino, que gravou o JB Trio. Ele gravava diretamente da rádio, era um sujeito abastado, tinha dinheiro... Ele gravou um show nosso feito 1957. Eu até mostrei pro Rogéryo du Maranhão, que perguntou o seguinte: - Vocês faziam isso em 75?. E eu disse: - Há 25 anos... Olha o nível! Mas comecei a cantar depois de velho. Não cantava sozinho porque olhava para os outros e dizia: “Não chego nem perto dessa gente”. Nhozinho Santos era um sujeito que era músico e cantava divinamente bem; Sérgio Miranda era um negócio, rapaz. Como é que um sujeito nascido no interior de Rosário tinha aquela voz? Então eu noto que nessa parte de cantores a geração passada era melhor. Tanto cantores como cantoras. Já o pessoal que fazia música era regular. Essa geração de Giordano Mochel, Ubiratan Souza, Chico Saldanha e Sérgio Habibe ficou mais alta um bocadinho. A geração passada era do nível de Cristóvão Alô Brasil. A minha geração é anterior, já tenho 80 anos; era uma geração de talentos.

Zeca Baleiro – E a geração de hoje? E a música feita hoje no Maranhão?

Antônio Vieira – Essa geração precisa amadurecer, ela está muito verde ainda. A maioria dos compositores está copiando, não está criando um estilo novo. Pouca gente tem talento mesmo. Estão copiando a batucada do Rio de Janeiro, de São Paulo, da Bahia. Outro dia, numa reunião de compositores um representante de gravadoras disse a uma pessoa – que eu não vou dizer o nome - que não gravava a música dele porque não queria dois Djavan na gravadora...

Zeca Baleiro – Foi naquele seminário de música...

Antônio Vieira – Isso, naquele seminário. Um radialista até perguntou por que fulano ainda não estourou. E aí o cara respondeu que não estourou porque a música dele parece com a música de Djavan, e a gravadora não admitia. Ou ele tem seu estilo ou não compõe.

Zeca Baleiro – Falta personalidade, falta estilo...

Antônio Vieira – É, falta estilo. Não é que o sujeito não saiba compor...

Zeca Baleiro – Eu não estou nem falando do sujeito lá, eu falo de uma maneira geral que falta estilo, falta originalidade...

Antônio Vieira – Você sabe que o que explode é o que é diferente. Você que vive martelando, vive arranhando, sabe como é. Um indivíduo para ter destaque é preciso que a música dele não pareça com a música de ninguém. Eu só explodi com “Cocada” porque não parece com ninguém, essa que é a verdade. Doa em quem doer, essa que é a verdade. O sujeito tem que encontrar um caminho. Eu posso não agradar todo mundo, mas tenho meu caminho. Não sei se já disse, mas vem uma televisão francesa me entrevistar, mas continuo o mesmo Antônio Vieira.

Zeca Baleiro – Quando eu morava aqui e comecei a fazer música, a gente não tinha muita referência, justamente por causa dessa falta de registro. Tirando João do Vale, que é uma referência de um artista maranhense que ganhou prestígio nacional, e Alcione como cantora, não tinha muito. Havia pessoas que ainda estavam por aqui, como Chico Maranhão, que chegou a gravar alguns discos pela [gravadora] Marcos Pereira, tinha o Papete, mas eram poucas as referências. Seu Vieira, por exemplo, vim conhecê-lo muito tempo depois de estar fazendo música – um pouco talvez por minha ignorância.

Antônio Vieira – Não, é porque não tinha mesmo...

Zeca Baleiro – Não tinha fonte onde se pesquisasse. Por iniciativa de Ubiratan Souza, Mochel, Chico Saldanha, quando foram morar em São Paulo, é que se começou a fazer algum registro. Fizeram aquele compacto duplo maravilhoso que eu tenho, “Velhos moleques”, com seu Vieira, Cristóvão, Agostinho e Lopes Bogéa.

Antônio Vieira – Já morreram o Agostinho e o Cristóvão. Só estamos eu e Bogéa vivos...

Zeca Baleiro – Mas vocês vão durar mais tempo, podem ficar tranquilos... Foi aí que a gente começou a conhecer essa produção do samba maranhense, que a gente não tinha e não tem. Essa nova geração não conhece... Aí veio a Rita Ribeiro, que fez um registro do seu Vieira, e a gente, sempre que pode, canta lá fora, divulga...

Antônio Vieira – Ela [Rita Ribeiro] me disse que apanhou “Cocada” como sendo de Mochel...

Zeca Baleiro – Então acho que não ter essa referência é muito grave. Tem raiz, mas não tem registro. Tem de haver essa memória. Você vê que em outros estados os caras são muitos mais cuidadosos com essa memória, muito mais orgulhosos, e isso é muito importante. Isso não quer dizer que a pessoa vá ter que fazer samba. Pode fazer até rock, mas é importante que conheça o trabalho, por necessidade natural de se conhecer a música que se fez aqui na década de 30. [é importante] Saber que aqui havia “big bands” de jazz nos anos 40, 50. Mas não fica nada, nenhum tipo de registro. Tudo bem que na época a parte técnica era difícil. Mas de uns 20 anos pra cá isso só vem ficando cada vez mais fácil. Então não entendo por que seu Vieira não tem um disco próprio, fora desses projetos que foram feitos por aí... Bibi Silva, Patativa... Gostaria até de lançar mão de um projeto e fazer isso, se conseguir disponibilizar tempo e recursos. Seria uma coisa que até me proporia a fazer porque acho muito importante.

Antônio Vieira – Cada compositor é um estilo. Você ouve um Lopes Bogéa... Repare que a música dele não é igual à minha...

Zeca Baleiro – É, tem outra pegada...

Antônio Vieira – Cada indivíduo tem o seu estilo, ainda mais a gente que nunca quis copiar ninguém. Você pode é não agradar o indivíduo, mas está lá o estilo...

Zeca Baleiro - Imagina se o Sérgio Porto não descobre lá o Cartola num estacionamento guardando carros. Ele estaria no anonimato.

Antônio Vieira – É, o estilo do Cartola a gente conhece. Isso é uma grande coisa, o sujeito ter o seu estilo próprio e não abdicar dele. Eu sou um admirador extraordinário de grandes compositores do Brasil e do mundo. Pra você ver, tenho um gosto terrível. Pra mim o maior compositor da música popular do mundo é Charles Chaplin, que é judeu... Charles Chaplin é um sujeito extraordinário, é uma escola de compor. Ele fez uma música que se chama “Sorrir” (“Smile”) e eu fiz uma que se chama “Chorar”, que é uma resposta. É muita pretensão o sujeito querer chegar perto de Charles Chaplin. Responder a um negócio que ele fez é parada de doido.

Félix Alberto – E esse seu trabalho todo, o senhor está registrando?

Antônio Vieira – Aqui tem um bagaço de coisas que eu vou fazendo... [mostra um caderno com inúmeras anotações de músicas].

Zeca Baleiro – Ele é organizado... Só eu e Rita temos umas cinqüenta canções gravadas em [fita] K7 de seu Vieira...

Antônio Vieira – A corriola grava um bocado.

Félix Albero – O senhor é bastante exigente com a música, tem o gosto apurado. E em relação ao trabalho do Zeca Baleiro?

Antônio Vieira – Eu gosto do Zeca, é um menino inteligente, tem o caminho dele, tem o estilo dele, e isso já é uma grande coisa. Quem dera que todo maranhense procurasse fazer o que ele faz, que é ter o seu estilo.

Zeca Baleiro – Eu sou fã do seu Antônio Vieira. Sou suspeito pra falar dele. Acho que ele tem a alma de sambista, e embora o samba tenha se consagrado como uma manifestação carioca, existem particularidades. O Maranhão tem uma tradição de samba, que até pode ser oriunda do Rio, mas é um samba que acabou ganhando uma forma da terra. E seu Vieira talvez seja o maior porta-voz desse samba...

Antônio Vieira – Tenho muito samba feito, mas não gosto tanto de samba. Eu tenho muita canção. Agora, eu tenho facilidade de fazer samba. O Silva de Almeida, que era meu vizinho, dizia que ficava admirado porque eu olhava uma folha caindo e fazia uma canção. Olho um passarinho e faço uma canção. Não sei bem o que é isso, não sei se é talento. Eu tenho uma música que pode servir de exemplo ao que estou falando. Uma vez fui à praia com um amigo já falecido. Lá olhei uma canoa, na beira da praia. A maré enchendo e encobrindo a canoa de areia e água do mar. E aí montei uma música, “Ingara velha”. Quer dizer, eu vi uma canoa lá e pronto...

Zeca Baleiro – Só os poetas fazem isso, seu Vieira...

Antônio Vieira – Componho em cima do que vejo, do que sinto. O motivo que escolho é uma tolice, um passarinho, uma folha que cai, uma rosa... É talento, é olhar o que os outros não vêem...
Félix Alberto – Então essa inspiração vem dessas coisas...

Antônio Vieira- Ela nem vem, eu olho e aí...

Zeca Baleiro – Se ela não vem a gente vai atrás. Não é, seu Vieira?

Antônio Vieira – Talvez noventa por cento das minhas composições sejam de coisas que eu assisto.

Zeca Baleiro – Seu Vieira é um cronista de uma São Luís que já nem existe mais, que está acabando, está deixando de existir. João Cabral de Melo Neto falava que não acreditava nesse negócio de inspiração. O trabalho de criação artística é um trabalho como outro qualquer, só que lida com uma matéria-prima diferente. Mas às vezes acho também que tem uma predisposição, uma coisa qualquer misteriosa que não sei explicar, que te predispõe a criar, a escrever. Componho muito a partir de fatos corriqueiros, inclusive o meu primeiro disco tem nome de “Por onde andará Stephen Fry”, que foi feito em cima de uma nota de jornal...

Antônio Vieira – Não é fácil. Fazer um trabalho em cima de uma nota de jornal...

Zeca Baleiro – Lembro que desde quando comecei, sempre tive esse ímpeto. Lembro que fiz uma música sobre um garoto que morreu aqui na Ponta d’Areia. Aquilo me comoveu e fiz a música. Pode nem ser sobre aquilo especificamente, mas o fato acaba motivando, instigando uma reflexão sobre a própria vida e sobre a morte. Depois que fiz a música “Por onde andará Stephen Fry”, conheci o cara. A “Folha de S.Paulo” fez uma entrevista no mesmo estilo dessa que você está fazendo e foi muito divertido. Perguntei pro cara o que ele achou da música. E ele respondeu que achava muito charmosa, embora não tivesse entendido nada... Acho que o compositor é, de certa maneira, um cronista mesmo, e na música brasileira isso tem uma tradição muito grande, com Noel Rosa, Wilson Batista. Grandes sambistas são grandes cronistas que falam sobre o jogo de futebol, a farra no bar, e isso acaba fazendo um panorama também social, político, da cidade e do país.

Félix Alberto – E o que falta pra música maranhense ser reconhecida?

Antônio Vieira – Falta dinheiro...

Zeca Baleiro – Essa é uma questão... Sempre acho que não se tem uma política cultural eficaz. A política cultural é sempre uma coisa clientelista: se o cara quer uma passagem pra fazer um show no Rio, a secretaria de cultura dá; se o cara quer gravar [um disco], ela dá. Mas não tem uma política cultural eficaz, para que o cara subsista do seu trabalho. Talento não lhe falta. Ele poderia estar fazendo show eventualmente pelo interior. Existe um mercado a ser criado – que ainda não foi criado pela falta de uma política. Se houver uma vontade política a gente pode criar uma cena muito interessante, porque talento não falta. Tem muita gente talentosa, da geração do seu Vieira, da geração anterior a essa, da minha geração.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Música e literatura



O cearense Raimundo Fagner tem uma obra musical pontuada por altos e baixos. Mesmo incompreendido pela crítica, conseguiu deixar como legado algumas preciosidades ao longo da carreira que ainda perdura. Esqueça “Borbulhas de amor”, uma tolice avalizada pelo poeta Ferreira Gullar. Fagner foi feliz, principalmente, ao escolher bons poemas para transformá-los em músicas antológicas. Assim aconteceu com “Motivo” (“Eu canto/ porque o instante existe/ e a minha vida está completa...”), poema de Cecília Meireles que virou uma canção arrebatadora. Assim foi também com dois poemas de Gullar, “Me leve – cantiga pra não morrer” e “Traduzir-se”, ambos transformados em músicas de rara beleza. Musicou ainda “Canteiros”, também de Cecília Meireles, e “Qualquer música”, poema de Fernando Pessoa.

Os casos mais emblemáticos, porém, são “Fanatismo” e “Fumo”, poemas da portuguesa Florbela Espanca musicados com extrema sensibilidade pelo cantor e compositor cearense. Ouça “Fumo” e veja um clipe montado para a música com cenas do filme “É proibido fumar”, com Glória Pires e Paulo Miklos.
Abaixo, alguns dos poemas musicados por Fagner.


MOTIVO
(Fagner / Cecília Meireles)

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.


ME LEVE - CANTIGA PRA NÃO MORRER
(Fagner / Ferreira Gullar)

Quando você for se embora
Moça branca como a neve
Me leve, me leve
Se acaso você não possa
Me carregar pela mão
Menina branca de neve
Me leve no coração
Se no coração não possa
Por acaso me levar
Moça de sonho e de neve
Me leve no seu lembrar
E se aí também não possa
Por tanta coisa que leve
Já viva em meu pensamento
Moça branca como a neve
Me leve no esquecimento

Moça de sonho e de neve
Me leve no esquecimento
Me leve.

TRADUZIR-SE
(Fagner / Ferreira Gullar)

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


QUALQUER MÚSICA
(Fagner/ Fernando Pessoa)

Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música - guitarra,
Viola, harmônio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!


FANATISMO
(Fagner/ Florbela Espanca)

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver
Não és sequer a razão do meu viver
Posto que és já toda a minha vida

Não vejo nada assim, enlouquecida
Passo no mundo meu amor a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história, tantas vezes lida

Tudo no mundo é frágil, tudo passa
Quando me dizem isto, toda a graça
De uma boca divina, cala em mim
E olhos postos em ti, digo de rastros

Podem voar mundos, morrer astros
Que tu és como um Deus, principio e fim

Eu, já te falei de tudo
Mas tudo isto é pouco
Diante do que sinto ...


FUMO
(Fagner/ Florbela Espanca)

Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti não há luar nem rosas
Longe de ti há noites silenciosas
Há dias sem calor, beirais sem ninhos

Meus olhos são dois velhos, probrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas
Abertos sonham mãos cariciosas
Tuas mãos doces, cheias de carinhos

Os dias são outonos, choram choram
Há crisântemos roxos que descoram
Há murmúrios dolentes de segredos
Invoco nossos sonhos, estendo os braços

É ele, oh meu amor, pelos espaços
Fumo leve que foge entre os meus dedos