quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Zeca Baleiro e Antônio Vieira num bang-bang de fronteira


Zeca Baleiro fez um show ontem fora do eixo, mais descolado e intimista, como se estivesse numa roda de amigos. Casa cheia para um espetáculo beneficente no Teatro Arthur Azevedo. Voz e violão, repertório sem link com o mercado, público motivado para o coro. Sem pressa, foram mais de duas horas de som acústico para deleite da plateia. Não faltaram no cardápio o carimbó de Pinduca, uma homenagem especial a Wando (“Fogo e paixão”), que enfrenta sérios problemas de saúde, e a releitura de “Frenesi”, de Fausto Nilo, Petrúcio Maia e Ferreirinha, uma das mais belas canções gravadas por Raimundo Fagner.

O show foi meio tudo. Meio acústico, meio Baile do Baleiro, meio balada romântica, meio a meio. Os convidados de Zeca Baleiro também mandaram bem. Um Nosly sem rodeio, direto ao ponto, trouxe de volta “Noves fora”, uma velha parceria com Baleiro, e mostrou a regravação de “Aquela estrela”, música também dos anos 80 de Ronald Pinheiro e Jorge Thadeu, além do carro-chefe do novo disco, “Parador”. A noite teve ainda Alê Muniz e Luciana Simões, com destaque para a interpretação de “Veneno” e “Eu vi maré encher”.

Além de cantar as músicas mais conhecidas dos seus discos, Zeca Baleiro fez uma viagem no tempo para alcançar pérolas de compositores maranhenses como Sérgio Habibe, Josias Sobrinho, César Teixeira e Chico Maranhão. E fez assim uma justa e despretensiosa homenagem a uma geração de talentos musicais – alguns deles não mencionados, mas igualmente merecedores, como Joãozinho Ribeiro, Betto Pereira, Ronald Pinheiro, Ubiratan Souza, Giordano Mochel etc.

A referência àquela geração me fez lembrar de um certo domingo no final do ano 2000, quando sugeri um encontro entre Zeca Baleiro e o cantor e compositor Antônio Vieira para uma entrevista. Levei-os ao barzinho Cabeça Branca, ali onde hoje se convencionou chamar de Península da Ponta d’Areia, e que reinou por muito tempo como a melhor carne de sol de São Luís. E foi assim, na “esquina da baía de São Marcos”, onde o vento fazia a curva antes da construção de tantos prédios, que a conversa evoluiu pela tarde sobre música e a importância das gerações de bons compositores do Maranhão.

Foi um bate-papo descontraído, sem a sisudez das entrevistas convencionais. A minha interferência foi tão sutil quanto o testemunho ali de um Bandeira Tribuzi, sufocado pelo capim que teima em encobrir o seu memorial. Deixei-os falar livremente. Enquanto falavam, eu fazia as fotos de um “duelo“ memorável, interrompido várias vezes pelas melodias tiradas de um violão levado pelo poeta Mauro Holanda de Alencar. A entrevista fora publicada no dia 14 de janeiro de 2001, no jornal “O Estado do Maranhão”. Vale o registro.


Veja a íntegra da conversa.

Antônio Vieira – Da minha geração mesmo não existe mais quase ninguém. Já estão quase todos mortos. Na minha geração tinha grandes cantores, como Sérgio Miranda. Tem até uma música gravada pelo Cristovão [Cristovão Alô Brasil] em homenagem a ele. O mais engraçado é que ele era serrador de madeira, tinha o braço dessa grossura, mas a voz era um veludo. Ele, quando cantou pela primeira vez num show de calouros, foi logo contratado. Naquela época o pessoal se apresentava na rádio Timbira, que tinha programa de calouros todo domingo, e na rádio Ribamar. Ali eram selecionados apresentador de programa, locutor esportivo, cantores e locutores de cabine.

Félix Alberto – O senhor foi selecionado logo na primeira vez?

Antônio Vieira – Eu até que tive mais sorte. Nesse tempo eu não cantava. Eu era um menino que tinha como costume ouvir os cantores. Existia o Orlando Silva, Francisco Alves, Gilberto Alves. Eu estou cantando porque essa porção de menino que rebola no palco e que mostra a bunda não canta coisa nenhuma. E aí eu resolvi cantar. Então eu disse: - Vou cantar. Mas naquele tempo... tá louco! O pessoal cantava muito, era cantor, não era brincadeira. O Francisco Alves recebeu convite para ir cantar nos Estados Unidos, e não foi porque só iria se fosse com orquestra brasileira. Ele disse para um repórter americano que só iria se fosse com orquestra brasileira, pois americano não sabe tocar samba. Esse, sim, merecia ser chamado “o rei da voz”.


Zeca Baleiro – Morreu novo também...

Félix Alberto – Aqui havia talentos nessa época?

Antônio Vieira – Dessa época vou lhe dizer os cantores de talento: Zé Ribeiro, que era chamado de Bico Doce porque a voz era um açúcar; Nilton Vieira...

Zeca Baleiro – Zé de Barros...

Antônio Vieira – Não, Zé de Barros não cantava só, ele cantava em grupo. Tinha mais Orlando Cavalcanti, Nhozinho Santos. Cantora tem aquela que gravou minha música naquele disco de memória, a Célia, e mais Sandra Maria, Flor de Maria, Conceição Oliveira. O Maranhão era uma plêiade de gente de valor; quem era da minha marca não cantava, não tinha vez.

Zeca Baleiro – E muitas dessas pessoas morreram sem deixar registro...


Antônio Vieira – Talvez quem tenha alguma coisa seja aquele menino, que gravou o JB Trio. Ele gravava diretamente da rádio, era um sujeito abastado, tinha dinheiro... Ele gravou um show nosso feito 1957. Eu até mostrei pro Rogéryo du Maranhão, que perguntou o seguinte: - Vocês faziam isso em 75?. E eu disse: - Há 25 anos... Olha o nível! Mas comecei a cantar depois de velho. Não cantava sozinho porque olhava para os outros e dizia: “Não chego nem perto dessa gente”. Nhozinho Santos era um sujeito que era músico e cantava divinamente bem; Sérgio Miranda era um negócio, rapaz. Como é que um sujeito nascido no interior de Rosário tinha aquela voz? Então eu noto que nessa parte de cantores a geração passada era melhor. Tanto cantores como cantoras. Já o pessoal que fazia música era regular. Essa geração de Giordano Mochel, Ubiratan Souza, Chico Saldanha e Sérgio Habibe ficou mais alta um bocadinho. A geração passada era do nível de Cristóvão Alô Brasil. A minha geração é anterior, já tenho 80 anos; era uma geração de talentos.

Zeca Baleiro – E a geração de hoje? E a música feita hoje no Maranhão?

Antônio Vieira – Essa geração precisa amadurecer, ela está muito verde ainda. A maioria dos compositores está copiando, não está criando um estilo novo. Pouca gente tem talento mesmo. Estão copiando a batucada do Rio de Janeiro, de São Paulo, da Bahia. Outro dia, numa reunião de compositores um representante de gravadoras disse a uma pessoa – que eu não vou dizer o nome - que não gravava a música dele porque não queria dois Djavan na gravadora...

Zeca Baleiro – Foi naquele seminário de música...

Antônio Vieira – Isso, naquele seminário. Um radialista até perguntou por que fulano ainda não estourou. E aí o cara respondeu que não estourou porque a música dele parece com a música de Djavan, e a gravadora não admitia. Ou ele tem seu estilo ou não compõe.

Zeca Baleiro – Falta personalidade, falta estilo...

Antônio Vieira – É, falta estilo. Não é que o sujeito não saiba compor...

Zeca Baleiro – Eu não estou nem falando do sujeito lá, eu falo de uma maneira geral que falta estilo, falta originalidade...

Antônio Vieira – Você sabe que o que explode é o que é diferente. Você que vive martelando, vive arranhando, sabe como é. Um indivíduo para ter destaque é preciso que a música dele não pareça com a música de ninguém. Eu só explodi com “Cocada” porque não parece com ninguém, essa que é a verdade. Doa em quem doer, essa que é a verdade. O sujeito tem que encontrar um caminho. Eu posso não agradar todo mundo, mas tenho meu caminho. Não sei se já disse, mas vem uma televisão francesa me entrevistar, mas continuo o mesmo Antônio Vieira.

Zeca Baleiro – Quando eu morava aqui e comecei a fazer música, a gente não tinha muita referência, justamente por causa dessa falta de registro. Tirando João do Vale, que é uma referência de um artista maranhense que ganhou prestígio nacional, e Alcione como cantora, não tinha muito. Havia pessoas que ainda estavam por aqui, como Chico Maranhão, que chegou a gravar alguns discos pela [gravadora] Marcos Pereira, tinha o Papete, mas eram poucas as referências. Seu Vieira, por exemplo, vim conhecê-lo muito tempo depois de estar fazendo música – um pouco talvez por minha ignorância.

Antônio Vieira – Não, é porque não tinha mesmo...

Zeca Baleiro – Não tinha fonte onde se pesquisasse. Por iniciativa de Ubiratan Souza, Mochel, Chico Saldanha, quando foram morar em São Paulo, é que se começou a fazer algum registro. Fizeram aquele compacto duplo maravilhoso que eu tenho, “Velhos moleques”, com seu Vieira, Cristóvão, Agostinho e Lopes Bogéa.

Antônio Vieira – Já morreram o Agostinho e o Cristóvão. Só estamos eu e Bogéa vivos...

Zeca Baleiro – Mas vocês vão durar mais tempo, podem ficar tranquilos... Foi aí que a gente começou a conhecer essa produção do samba maranhense, que a gente não tinha e não tem. Essa nova geração não conhece... Aí veio a Rita Ribeiro, que fez um registro do seu Vieira, e a gente, sempre que pode, canta lá fora, divulga...

Antônio Vieira – Ela [Rita Ribeiro] me disse que apanhou “Cocada” como sendo de Mochel...

Zeca Baleiro – Então acho que não ter essa referência é muito grave. Tem raiz, mas não tem registro. Tem de haver essa memória. Você vê que em outros estados os caras são muitos mais cuidadosos com essa memória, muito mais orgulhosos, e isso é muito importante. Isso não quer dizer que a pessoa vá ter que fazer samba. Pode fazer até rock, mas é importante que conheça o trabalho, por necessidade natural de se conhecer a música que se fez aqui na década de 30. [é importante] Saber que aqui havia “big bands” de jazz nos anos 40, 50. Mas não fica nada, nenhum tipo de registro. Tudo bem que na época a parte técnica era difícil. Mas de uns 20 anos pra cá isso só vem ficando cada vez mais fácil. Então não entendo por que seu Vieira não tem um disco próprio, fora desses projetos que foram feitos por aí... Bibi Silva, Patativa... Gostaria até de lançar mão de um projeto e fazer isso, se conseguir disponibilizar tempo e recursos. Seria uma coisa que até me proporia a fazer porque acho muito importante.

Antônio Vieira – Cada compositor é um estilo. Você ouve um Lopes Bogéa... Repare que a música dele não é igual à minha...

Zeca Baleiro – É, tem outra pegada...

Antônio Vieira – Cada indivíduo tem o seu estilo, ainda mais a gente que nunca quis copiar ninguém. Você pode é não agradar o indivíduo, mas está lá o estilo...

Zeca Baleiro - Imagina se o Sérgio Porto não descobre lá o Cartola num estacionamento guardando carros. Ele estaria no anonimato.

Antônio Vieira – É, o estilo do Cartola a gente conhece. Isso é uma grande coisa, o sujeito ter o seu estilo próprio e não abdicar dele. Eu sou um admirador extraordinário de grandes compositores do Brasil e do mundo. Pra você ver, tenho um gosto terrível. Pra mim o maior compositor da música popular do mundo é Charles Chaplin, que é judeu... Charles Chaplin é um sujeito extraordinário, é uma escola de compor. Ele fez uma música que se chama “Sorrir” (“Smile”) e eu fiz uma que se chama “Chorar”, que é uma resposta. É muita pretensão o sujeito querer chegar perto de Charles Chaplin. Responder a um negócio que ele fez é parada de doido.

Félix Alberto – E esse seu trabalho todo, o senhor está registrando?

Antônio Vieira – Aqui tem um bagaço de coisas que eu vou fazendo... [mostra um caderno com inúmeras anotações de músicas].

Zeca Baleiro – Ele é organizado... Só eu e Rita temos umas cinqüenta canções gravadas em [fita] K7 de seu Vieira...

Antônio Vieira – A corriola grava um bocado.

Félix Albero – O senhor é bastante exigente com a música, tem o gosto apurado. E em relação ao trabalho do Zeca Baleiro?

Antônio Vieira – Eu gosto do Zeca, é um menino inteligente, tem o caminho dele, tem o estilo dele, e isso já é uma grande coisa. Quem dera que todo maranhense procurasse fazer o que ele faz, que é ter o seu estilo.

Zeca Baleiro – Eu sou fã do seu Antônio Vieira. Sou suspeito pra falar dele. Acho que ele tem a alma de sambista, e embora o samba tenha se consagrado como uma manifestação carioca, existem particularidades. O Maranhão tem uma tradição de samba, que até pode ser oriunda do Rio, mas é um samba que acabou ganhando uma forma da terra. E seu Vieira talvez seja o maior porta-voz desse samba...

Antônio Vieira – Tenho muito samba feito, mas não gosto tanto de samba. Eu tenho muita canção. Agora, eu tenho facilidade de fazer samba. O Silva de Almeida, que era meu vizinho, dizia que ficava admirado porque eu olhava uma folha caindo e fazia uma canção. Olho um passarinho e faço uma canção. Não sei bem o que é isso, não sei se é talento. Eu tenho uma música que pode servir de exemplo ao que estou falando. Uma vez fui à praia com um amigo já falecido. Lá olhei uma canoa, na beira da praia. A maré enchendo e encobrindo a canoa de areia e água do mar. E aí montei uma música, “Ingara velha”. Quer dizer, eu vi uma canoa lá e pronto...

Zeca Baleiro – Só os poetas fazem isso, seu Vieira...

Antônio Vieira – Componho em cima do que vejo, do que sinto. O motivo que escolho é uma tolice, um passarinho, uma folha que cai, uma rosa... É talento, é olhar o que os outros não vêem...
Félix Alberto – Então essa inspiração vem dessas coisas...

Antônio Vieira- Ela nem vem, eu olho e aí...

Zeca Baleiro – Se ela não vem a gente vai atrás. Não é, seu Vieira?

Antônio Vieira – Talvez noventa por cento das minhas composições sejam de coisas que eu assisto.

Zeca Baleiro – Seu Vieira é um cronista de uma São Luís que já nem existe mais, que está acabando, está deixando de existir. João Cabral de Melo Neto falava que não acreditava nesse negócio de inspiração. O trabalho de criação artística é um trabalho como outro qualquer, só que lida com uma matéria-prima diferente. Mas às vezes acho também que tem uma predisposição, uma coisa qualquer misteriosa que não sei explicar, que te predispõe a criar, a escrever. Componho muito a partir de fatos corriqueiros, inclusive o meu primeiro disco tem nome de “Por onde andará Stephen Fry”, que foi feito em cima de uma nota de jornal...

Antônio Vieira – Não é fácil. Fazer um trabalho em cima de uma nota de jornal...

Zeca Baleiro – Lembro que desde quando comecei, sempre tive esse ímpeto. Lembro que fiz uma música sobre um garoto que morreu aqui na Ponta d’Areia. Aquilo me comoveu e fiz a música. Pode nem ser sobre aquilo especificamente, mas o fato acaba motivando, instigando uma reflexão sobre a própria vida e sobre a morte. Depois que fiz a música “Por onde andará Stephen Fry”, conheci o cara. A “Folha de S.Paulo” fez uma entrevista no mesmo estilo dessa que você está fazendo e foi muito divertido. Perguntei pro cara o que ele achou da música. E ele respondeu que achava muito charmosa, embora não tivesse entendido nada... Acho que o compositor é, de certa maneira, um cronista mesmo, e na música brasileira isso tem uma tradição muito grande, com Noel Rosa, Wilson Batista. Grandes sambistas são grandes cronistas que falam sobre o jogo de futebol, a farra no bar, e isso acaba fazendo um panorama também social, político, da cidade e do país.

Félix Alberto – E o que falta pra música maranhense ser reconhecida?

Antônio Vieira – Falta dinheiro...

Zeca Baleiro – Essa é uma questão... Sempre acho que não se tem uma política cultural eficaz. A política cultural é sempre uma coisa clientelista: se o cara quer uma passagem pra fazer um show no Rio, a secretaria de cultura dá; se o cara quer gravar [um disco], ela dá. Mas não tem uma política cultural eficaz, para que o cara subsista do seu trabalho. Talento não lhe falta. Ele poderia estar fazendo show eventualmente pelo interior. Existe um mercado a ser criado – que ainda não foi criado pela falta de uma política. Se houver uma vontade política a gente pode criar uma cena muito interessante, porque talento não falta. Tem muita gente talentosa, da geração do seu Vieira, da geração anterior a essa, da minha geração.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Música e literatura



O cearense Raimundo Fagner tem uma obra musical pontuada por altos e baixos. Mesmo incompreendido pela crítica, conseguiu deixar como legado algumas preciosidades ao longo da carreira que ainda perdura. Esqueça “Borbulhas de amor”, uma tolice avalizada pelo poeta Ferreira Gullar. Fagner foi feliz, principalmente, ao escolher bons poemas para transformá-los em músicas antológicas. Assim aconteceu com “Motivo” (“Eu canto/ porque o instante existe/ e a minha vida está completa...”), poema de Cecília Meireles que virou uma canção arrebatadora. Assim foi também com dois poemas de Gullar, “Me leve – cantiga pra não morrer” e “Traduzir-se”, ambos transformados em músicas de rara beleza. Musicou ainda “Canteiros”, também de Cecília Meireles, e “Qualquer música”, poema de Fernando Pessoa.

Os casos mais emblemáticos, porém, são “Fanatismo” e “Fumo”, poemas da portuguesa Florbela Espanca musicados com extrema sensibilidade pelo cantor e compositor cearense. Ouça “Fumo” e veja um clipe montado para a música com cenas do filme “É proibido fumar”, com Glória Pires e Paulo Miklos.
Abaixo, alguns dos poemas musicados por Fagner.


MOTIVO
(Fagner / Cecília Meireles)

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.


ME LEVE - CANTIGA PRA NÃO MORRER
(Fagner / Ferreira Gullar)

Quando você for se embora
Moça branca como a neve
Me leve, me leve
Se acaso você não possa
Me carregar pela mão
Menina branca de neve
Me leve no coração
Se no coração não possa
Por acaso me levar
Moça de sonho e de neve
Me leve no seu lembrar
E se aí também não possa
Por tanta coisa que leve
Já viva em meu pensamento
Moça branca como a neve
Me leve no esquecimento

Moça de sonho e de neve
Me leve no esquecimento
Me leve.

TRADUZIR-SE
(Fagner / Ferreira Gullar)

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


QUALQUER MÚSICA
(Fagner/ Fernando Pessoa)

Qualquer música, ah, qualquer,
Logo que me tire da alma
Esta incerteza que quer
Qualquer impossível calma!

Qualquer música - guitarra,
Viola, harmônio, realejo...
Um canto que se desgarra...
Um sonho em que nada vejo...

Qualquer coisa que não vida!
Jota, fado, a confusão
Da última dança vivida...
Que eu não sinta o coração!


FANATISMO
(Fagner/ Florbela Espanca)

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver
Não és sequer a razão do meu viver
Posto que és já toda a minha vida

Não vejo nada assim, enlouquecida
Passo no mundo meu amor a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história, tantas vezes lida

Tudo no mundo é frágil, tudo passa
Quando me dizem isto, toda a graça
De uma boca divina, cala em mim
E olhos postos em ti, digo de rastros

Podem voar mundos, morrer astros
Que tu és como um Deus, principio e fim

Eu, já te falei de tudo
Mas tudo isto é pouco
Diante do que sinto ...


FUMO
(Fagner/ Florbela Espanca)

Longe de ti são ermos os caminhos
Longe de ti não há luar nem rosas
Longe de ti há noites silenciosas
Há dias sem calor, beirais sem ninhos

Meus olhos são dois velhos, probrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas
Abertos sonham mãos cariciosas
Tuas mãos doces, cheias de carinhos

Os dias são outonos, choram choram
Há crisântemos roxos que descoram
Há murmúrios dolentes de segredos
Invoco nossos sonhos, estendo os braços

É ele, oh meu amor, pelos espaços
Fumo leve que foge entre os meus dedos

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Maio oito meia (parte 5) - Eu não, nós!

Ao entrar para o curso de Comunicação Social da UFMA, já encontrei Sérgio Habibe sentado num parapeito do Pimentão, provavelmente esperando a tarde da década de 80 passar sem pressa pelo corredor, enquanto pequenos grupos de estudantes se reuniam pelos cantos tramando a queda do império ianque, a derrocada do capitalismo ou o triunfo do preço justo no sanduba da cantina. Na política que se fazia no campus, o socialismo era pauta tão insossa quanto a sopa rala servida nas noites de sexta-feira nos bandejões do restaurante universitário. E como em toda ação política, dali também emergiam os personagens, as lideranças, os conflitos, a divergência, a opinião partida, os interesses contrariados, as crises, o escândalo-relâmpago e as conveniências de ocasião.

Leia mais em maiooitomeia.com.br.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O antropólogo e os índios-repórteres


No último domingo, o programa “Fantástico”, da TV Globo, exibiu uma extensa reportagem sobre o antropólogo norte-americano Bill Crocker (na verdade, William Crocker), filho de banqueiro da Califórnia que há 50 anos tem se dedicado a estudar a cultura dos índios Canelas, no município maranhense de Fernando Falcão. Os estudos de Crocker, como revelados na reportagem de Marcelo Canelas, são extremamente valiosos para o entendimento da cultura indígena no Brasil porque estão respaldados por cinco décadas de relatos gravados ou anotados pelos próprios índios.

Após a exibição da reportagem, alguns questionamentos vieram a lume, inevitáveis: como o trabalho desse antropólogo passou tão distante do olhar dos maranhenses de São Luís? As universidades públicas e privadas do Maranhão sequer tomaram conhecimento, em 50 anos, de que havia esse estudo em andamento? A imprensa do Maranhão divulgou, ao longo de tanto tempo, alguma linha sobre trabalho tão profícuo? Por fim, por que todo o acervo de Crocker vai para um museu do Pará (o respeitadíssimo Museu Emílio Goeldi), e não para alguma instituição de pesquisa e ensino do Maranhão, estado onde os estudos foram originalmente realizados?

Algumas respostas. O trabalho de William Crocker não passou ao largo do conhecimento dos maranhenses. Fernando Falcão era um povoado de Barra do Corda, emancipado há cerca de 15 anos. Segundo o jornalista Antonio Carlos Lima, o antropólogo norte-americano, no período de suas incursões pelas aldeias dos Canelas, sempre foi um assíduo freqüentador da cidade, hóspede de personagens conhecidos na comunidade barracordense. Em Barra do Corda, índios – especialmente os Guajajaras –e “brancos” dividem o mesmo espaço público. Os Canelas são povos de língua Timbira, do tronco lingüístico Macro-Jê, reconhecidamente mais reservados.

Ao lado de outros pesquisadores americanos, William Crocker fundou a Timbira Research and Education Foundation, organização que tem como objetivo promover a pesquisa sobre os povos Timbiras. A fundação celebrou convênio com a Universidade Federal do Maranhão em 2005, que resultou, dali em diante, na realização de seminários temáticos bienais. Num desses seminários, em 2007, o antropólogo foi homenageado na UFMA pelos seus 50 anos de pesquisa sobre os Canelas. Dois anos depois, a professora maranhense Elizabeth Maria Beserra Coelho, doutora em Sociologia e mestra em Antropologia Social, publicou entrevista com William Crocker na revista eletrônica do curso de pós-graduação em Ciências Sociais da UFMA, intitulada “Rememorando meio século de pesquisa: a trajetória de William Crocker entre os Ramkokamekra”.

Embora de pouca repercussão inclusive no ambiente acadêmico, na entrevista Crocker faz algumas revelações importantes sobre vida e trabalho, tão instigantes – e mais abrangentes, em certos pontos - quanto os aspectos abordados pela reportagem do “Fantástico”. Crocker conta, por exemplo, que foi soldado do Exército americano na década de 1940. Foi numa missão nas Filipinas que conheceu a comunidade dos llocanos e ali teve a sua primeira experiência de antropologia, “sem nada saber sobre antropologia”.

No estudo de doutorado, Crocker teve acesso ao livro “The Eastern Timbira” (1946), de Curt Nimuendaju, que tratava basicamente sobre os índios Canelas. Chegou ao Brasil por Belém e teve como primeiro parceiro de trabalho Eduardo Galvão. A primeira visita ao Maranhão ocorreu em 1957, quando conheceu Sebastião Moacyr de Xerez, então coordenador do antigo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) em São Luís. Foi Xerez quem o recomendou a Olímpio Cruz, então funcionário do SPI em Barra do Corda. Aos 33 anos, fez a primeira visita à aldeia dos Canelas, com a ajuda de Olímpio Cruz e do cacique Pedro Gregório. Dali em diante, dos quatro anos do curso de doutorado, passou 24 meses entre a aldeia Escalvado (já na condição de adotado pela família dos índios Paulo Adriano e Dominga) e a cidade de Barra do Corda.

Ao longo dos anos, Crocker estudou aspectos culturais como danças, atividades lúdicas e esportivas, pintura corporal, sonhos, mitos, historia, agricultura, artefatos materiais e especialmente a música dos Canelas. Mas admite que não poderia publicar nada nessa área de música por não ser etnomusicólogo. Parte do acervo musical coletado fora doado a Anthony Seeger, especialista no assunto. Outra parte entregou, em 1979, à Library of Congress, dos EUA.

A formação dos índios “repórteres” ou “diaristas” foi um dos grandes legados deixados pela experiência acadêmica de William Crocker com os Canelas. Foi um trabalho árduo que envolveu o aprendizado da língua dos índios e o ensino de português aos primeiros “diaristas” Canelas. Os índios eram remunerados e escreviam até 90 laudas por mês. Outra parte dos depoimentos era gravada.

Sexo fora do casamento

Só depois de algum tempo William Crocker foi entender que nem tudo era revelado nos depoimentos dos Canelas. O antropólogo compreendeu mais tarde como se dava a vida sexual fora do casamento, uma tradição do povo Canela. O estudioso Curt Nimuendaju, por exemplo, casou com uma índia Canela e, por desconhecer a tradição, passou a exigir fidelidade da esposa, que sonhava em participar das cerimônias das mulheres que faziam sexo fora do casamento. Crocker conta que não teve esposa Canela. “Minha formação acadêmica não aceitava isso, o que também era contra a lei brasileira”.

Crocker casou três vezes. A atual esposa acha que o antropólogo é mais casado com os Canelas que com ela. “Não é verdade. Mas os Canelas são sempre uma coisa principal na minha vida, e ela sabe disso”, explica. “Acho que, como se afirma no mundo dos religiosos, eu fui chamado. Senti que fui chamado por uma coisa, a antropologia, quando ensinei as boas novas da antropologia aos jovens estudantes, e mais tarde descobri isso nos Canelas: colocá-los no mapa da antropologia, e também ajudá-los quando possível”.

Leia a íntegra da entrevista de William Crocker à professora Elizabeth Maria Beserra Coelho:


REMEMORANDO MEIO SÉCULO DE PESQUISA

Elizabeth Coelho - Onde nasceu e qual a atividade de seus pais?

Crocker-Nasci na Califórnia, São Francisco da Califórnia, em 1924. Meu pai era banqueiro.

Elizabeth Coelho - Quanto tempo morou na Califórnia e em que cidades morou nos EUA?

Crocker- Até 12 anos de idade morei em São Francisco. Depois fui para o leste, para perto de Boston. Aos 18 anos fui inscrito no exército, em 24 de julho de 1943, o que não ocorreu de forma voluntária; com muitas pessoas foi assim. Pretendia ser médico e assim inscrevi-me no programa para tornar-me médico dentro do exército. Mas, cerca de oito meses depois esse programa foi desativado. Então fiquei na infantaria simples e depois de alguns meses em treinamento na mata, me inscrevi para ser oficial da infantaria. Fui encaminhado para treinamento na engenharia, ao invés da infantaria que conhecia bem. Por isso, não me sai bem e fui desligado depois de 15 das 17 semanas da formação. Assim, nunca me tornei oficial. Um dia, passando na porta do comando, observei um cartaz convidando voluntários para aprender a fazer mapas de fotos aéreas. Fiz a inscrição e fui selecionado. Assim fiquei quase até o fim da guerra, em 1945. Concluída a guerra, em setembro, fui para as Filipinas ainda como soldado.
Eu estava viajando, com minha família, pelas montanhas da Califórnia, em férias do exercito, quando houve a instalação da bomba atômica. Logo depois, fui no barco “liberty ship” para as Filipinas onde fiquei seis meses como soldado da liberação. Lá não havia nada para fazer porque a guerra havia terminado. Permaneci lá junto com um grupo de soldados do departamento de medicina. Enquanto estive lá, pude sair com outros soldados, explorando a região de jipe. Conhecemos um povoado, que não lembro o nome, e gostei muito de andar entre eles, os Ilocanos1. Observei seus ritos, casamentos e outras coisas e, naquela ocasião, quase me tornei antropólogo, sem saber nada de antropologia. Numa outra comunidade, Buang de La Union, visitamos várias vezes a mesma família, os Florendos, e assim começou meu interesse pelas culturas diferentes, conhecendo as Filipinas. Depois, voltei aos Estados Unidos e deixei de ser soldado.

Elizabeth Coelho - Como começou a estudar antropologia?

Crocker - Quando chegamos nas Filipinas, inicialmente nós, os soldados permanecemos na praia por uns 10 dias, em San Fernando de La Unión. Havia muitas tendas nessa praia. Sempre chegavam mulheres filipinas para apanhar roupas para lavar e devolver limpas no dia seguinte. Aproximei-me especialmente de uma delas, com quem gostava tentar conversar na sua língua, uma mistura de inglês, espanhol e Ilocano1 Não sei por que gostava tanto de fazer isso. Paguei para que ela retornasse todos os dias e pude anotar muitas palavras da sua língua indígena. Não era a língua principal das Filipinas. Era falada no noroeste de Luzon. Não sei por que fiz isto. É algo estranho, mas sempre gostei de fazer. Nessa região fui também ao interior, perto de Baguio, e encontrei com um povo identificado como caçadores de cabeças.
Depois de seis meses, retornei para os Estados Unidos e de lá fui com dois amigos ao México, com os recursos que havíamos recebido quando fomos desligados do exército. Tínhamos amigos na Cidade do México e os dois colegas que haviam ido comigo gostavam de sair com esses amigos todos os dias. Sai com eles umas vezes, mas preferia estudar espanhol. Depois que meus amigos foram embora do México, fiquei mais seis semanas só estudando espanhol. Gostei muito de andar nos mercados tentando falar espanhol. Comecei a perceber meu interesse em estudar fora do meu país, da minha cultura, um desejo de ficar junto a culturas diferentes. Assim, aprendi bastante espanhol. Exercitei o sotaque com a ajuda de uma foneticista profissional e a gramática com outra senhora, também profissional. Estabeleci, também, um intercâmbio com um venezuelano. Falávamos uma hora em inglês e uma hora em espanhol, três vezes por semana.
Depois fui para a Universidade de Yale, em setembro de 1946. Durante os quatro anos que estudei lá para me tornar bacharel, tive dois cursos ao longo de um semestre dedicados ao espanhol. A exigência da universidade era quatro semestres de língua estrangeira, mas cumpri esta exigência acadêmica em apenas um semestre. O espanhol que aprendi no México me deu três semestres de credito em Yale. Gostei de fazer esses estudos no México, sempre pensando na cultura deles. Eu não sabia que esses estudos informais estavam me dirigindo à antropologia. Eu tinha interesse em países hispânicos ou lusos, porque tinham um tipo de emoção que o povo expressava, que gostei muito. Eu não tinha isso em casa com minha família de tradições britânicas.
No segundo semestre de Yale tinha um curso de literatura espanhola da América do Sul. Lemos uns doze livros. Não havia nenhum livro sobre o Brasil, em português, mas livros de Buenos Ayres na Argentina, do Chile, da Venezuela e de outros paises, sempre romances, novelas famosas, bem conhecidas. Lembro alguns nomes como “El hermano asno”2 “La voragine” (colombiano), “La pata da zora” e “Don segundo
sombra”, os dois últimos da Argentina. Assim, eu estava bem dirigido para a América Latina.
Entre o terceiro e o quarto ano de universidade, no verão, entrei num programa de intercâmbio para estudar na França, onde fiquei na casa de uma família francesa durante quatro semanas, em Bordeaux. Esta família não falava nenhuma palavra em inglês e gostei muito de falar francês com eles. Naquele tempo li um livro muito interessante que me direcionou para a antropologia. Chamava-se “Os ingleses, os franceses e os espanhóis”3de um filósofo espanhol, Salvador de Madariaga. Gostei muito das diferenças culturais entre os ingleses, espanhóis e franceses e também da literatura deles. Uma parte da minha formação universitária foi em literatura, nas literaturas americana, inglesa, francesa e espanhola. Fiz cursos de romance e poesia dessas quatro culturas, sempre comparando o comportamento e os valores das pessoas. Um curso, com duração de um ano foi completamente conduzido em francês, por um professor francês. É certo que esses estudos me ajudaram a abordar a língua canela.
Até então eu não sabia nada sobre a antropologia. Eu não imaginava que antropologia trabalhava com algo semelhante ao que eu vinha fazendo, com a diferença de ser através de uma formação profissional. Eu continuava buscando a formação em medicina fazendo cursos na pré-medicina, tentando entrar em uma escola de medicina. Ao fim das contas, uma universidade acabou me aceitando (Rochester, NY). Antes de ir para Rochester, fui a Universidade de Stanford para fazer mais cursos de pré-medicina. Então, estava me sentindo muito mal e com dúvidas sobre a medicina como profissão. Por isto procurei um conselheiro que me disse: só retorne aqui depois de ver alguns cursos na antropologia. Consultei então o catálogo de cursos da Universidade de Stanford, focalizando o departamento de antropologia. Eu estava cansado de vir fazendo cursos só para ganhar mais créditos nos cursos de pré-medicina. Assim, quando li as descrições dos cursos da antropologia/etnologia, foi um momento emocionante para mim. Eu não sabia, simplesmente não sabia, que havia cursos sobre os povos do mundo como os da Sibéria, os de Burma,4e cursos sobre cultura dinâmica ou coisas assim como encontrei naquele catálogo.
No dia seguinte fui ao departamento de antropologia e conversei com um professor visitante, Marvin Opler, com quem me entendi muito bem e que me recomendou que procurasse o chefe do departamento, Felix Keesing, para colocar-lhe ciente dos meus interesses. Fiz isto e o chefe informou-me que eu poderia me inscrever para o grau de mestrado se eu tivesse bom desempenho nos cursos de um semestre. Assim ocorreu e assim descobri a antropologia.
Depois de dois anos obtive o grau de mestrado em antropologia, em 1953. Nesses cursos, lemos muito Alfred Kroeber, Margaret Mead, Franz Boas, Robert Lowie, Ralph Linton, Sol Tax, Homer Barnett e muitos outros. Não tínhamos aquela formação européia, como ocorre na maior parte do Brasil. O segundo marido de Margaret Mead, Gregory Bateson, esteve lá na Veterans’ Administration em Palo Alto, perto de Stanford, de quem gostei muito e com quem aprendi muito. Estudamos o livro dele, Naven. Além de Bateson, o professor mais importante que tive lá foi George D. Spindler5 Naquele tempo tive só cinco professores lá. A antropologia era ainda muito recente. Não consigo lembrar agora os nomes dos todos. Mas o Spindler me impressionou muito e mantenho com ele, até hoje, relações de amizade. Devo visitá-lo tão logo retorne aos Estados Unidos. Ele ainda está vivo, com cerca de 88 anos. Fiz um curso com ele de antropologia dinâmica e estivemos muito próximos. Ele levou-me a uma reunião de antropólogos na Universidade de Óregon, onde encontrei o terceiro esposo de Margaret Mead, Cressman.. Reo Fortune foi o primeiro.
Assim, entrei com força na antropologia e nunca mais fiz outra coisa como interesse primário.

Elizabeth Coelho- Sobre o que foi sua dissertação de mestrado?

Crocker - Para a dissertação de mestrado, procurei na literatura da época 20 pessoas sobre quem havia bibliografias, auto-bibliografias ou amplos contos históricos já publicados. Por exemplo, localizei uma bibliografia sobre a vida de uma esquimó, Anauta. [Heluiz Chandler Washburne. Land of the Good Shadows, the Life Story of Anauta, an Eskimo Woman. New York: John Day Co., 1940.] Localizei sobre os Hopi uma auto-biografia. [Leo W. Simmons (ed.). Sun Chief, The Autobiography of a Hopi Indian. New Haven: Yale University Press, 1942.] Como conto histórico, escolhi o inovador famoso, Sequoyah. [Grant Foreman. Sequoyah. Norman: University of Oklahoma Press, 1938.] Assim acumulei 20 casos. Alguns haviam sido escritos por historiadores e tinham o caráter de biografias de pessoas indígenas.
Eu pretendia observar os comportamentos na infância para verificar como se desdobravam, se os comportamentos posteriores indicavam inovação, conservação ou desvio. Encontrei um grande inovador entre os Cherokees, que perdeu os pais cedo, fator que contribuiu para que se tornasse um inovador. Os casos que encontrei de inovadores correspondiam a pessoas que haviam perdido cedo um dos pais ou dois e precisavam enfrentar a vida sozinhos. Nos casos de conservadores, não haviam perdido os pais cedo. Sobre as pessoas que desviaram, mas não fizeram inovações, encontrei outros critérios para diferenciá-las dos conservadores.
Esse trabalho nunca foi publicado. Não valia a pena, pois a amostra era pequena. Vinte casos não provam nada. Foi um estudo metodológico que articulava duas abordagens, a ideografia e o quantitativismo. Para cada um dos vinte casos, procurei comparar os resultados alcançados pelo método qualitativo (ideografia) e pelo método quantitativo.

Elizabeth Coelho- Quando foi feito o PHD?

Crocker- Quando terminei os cursos do mestrado em Stanford queria mudar para qualquer outro lugar, apesar de ter sido aceito para continuar no programa de doutorado em Stanford. Eu tinha que me afastar de minha família de nascimento, a que morava perto de Stanford. Busquei alternativas no leste do país. Fui aceito na Cornell University (Ithaca, NY) e na University of Pennsylvannia (Philadelphia), mas decidi ficar como assistente de professor em Wisconsin (Madison). Permaneci por três semestres neste papel e gostei muito de ensinar. Gostei dos estudantes e de formar seus pensamentos com a boa mensagem da antropologia.
Em Wisconsin tinha o professor Milton Barnett, que foi meu orientador de doutorado e me formou mais do que qualquer outro, alem de Spindler. Barnett, assim como Spindler, tinha formação em psicologia e fui muito influenciado por isso. A antropologia foi minha área principal e a psicologia a segunda área. Fiz todos os cursos no departamento de psicologia que foram necessários para obter o grau de mestrado, embora não tenha feito mestrado em psicologia somente porque não escrevi uma dissertação em psicologia. Fiz também vários cursos de sociologia, reunindo as três áreas na minha formação. Os dois departamentos aos quais estive ligado, em Stanford e em Wisconsin, eram departamentos de Sociologia e Antropologia, quando iniciei meus estudos entre eles. Durante meu tempo lá, transformaram-se em departamentos de antropologia, somente.
Assim, quase não tenho nada de formação européia, como ocorre no Brasil. Então, no Brasil me sinto muito diferente com a falta de formação na antropologia estrutural. Minha formação está nas ciências sociais, ampla e profundamente, com cursos na psicologia clinica e experimental e com cursos na sociologia histórica alemã e de research survey, abordagens qualitativas e quantitativas.
Depois de fazer os cursos preliminares em psicologia, sociologia e antropologia, candidatei-me ao doutorado somente em antropologia. Havia então que escolher a região na qual eu iria pesquisar e o assunto que eu iria pesquisar. Escolhi estudar a mudança cultural por meio da re-visitação de obras/pesquisas já realizadas por outros antropólogos. Inspirei-me em Oscar Lewis6que fez esse trabalho no México (1959 e 1961) e em Robert Redfield7que fez pesquisas deste tipo em Yucatan (1941 e mais tarde). Este interesse de pesquisa já havia se colocado para mim logo depois de ser aceito como candidato ao mestrado em Stanford, em 1951. Não foi algo iniciado só em 1956 na pesquisa do doutorado.
Nessa época, 1951 no verão, fui visitar umas primas na Cidade do México e conheci, através delas, um antropólogo mexicano, Alfonso Villa Rojas, que tinha re-visitado lugares estudados por Robert Redfield, como o povoado de Chan Kom. Através deste antropólogo mexicano obtive carta de apresentação para o líder de Chan Kom8o Dom Eustaquio. Fiquei duas semanas coletando dados em Chan Kom, sozinho, fazendo assim meu primeiro trabalho de campo. Procurei observar a mudança cultural, tomando como referência dos tempos passados o livro publicado anteriormente por Redfield, The Folk Culture of Yucatan, 1941).
Em 1956, eu queria fazer uma coisa semelhante para o doutoramento. Eu queria fazer o re-estudo de alguma grande obra. Exclui os paises dos Andes por terem muito forte a presença da religião católica. Queria uma sociedade com uma religião pelo menos meio indígena. Restavam então os estudos feitos na Amazônia, nas Guianas, no Orinoco, no Paraguay e no Chile. Analisei vários livros e o melhor que achei para estudar a mudança cultural foi o de Curt Nimuendaju, The Eastern Timbira (1946), que é basicamente sobre os Canelas.
Havia outro livro interessante sobre as Guianas, escrito por John Gillin: The Barama River Caribs of British Guiana, Harvard University, 1936. Fui à Smithsonian encontrar com Betty Meggers9e seu marido Clifford Evans para obter informações sobre a região, pois eles haviam pesquisado lá e fizeram um estudo sobre os índios Waiwai. Informaram-me que não seria bom fazer o estudo de mudança contínua nas Guianas porque as aldeias eram descontínuas10Com os Canelas vi que tinha continuidade, que eu poderia encontrar as mesmas pessoas, famílias e instituições para observar a continuidade ou a mudança entre elas.
Em Wisconsin Milton Barnett, etnólogo e produto da Cornell University, não podia me ajudar a ir ao campo porque na América do Sul havia pesquisado só na Venezuela. Não conheceu o Brasil nem antropólogos brasileiros. Mas no departamento em Wisconsin havia um arqueólogo David Baerreis que conhecia Charles Wagley, o famoso Wagley11. Ele me enviou a Wagley em Nova York, com quem me encontrei várias vezes. Mais tarde, ele me forneceu cartas de apresentação para Darcy Ribeiro, Dona Heloísa Alberto Torres e Eduardo Galvão.

Chegando aos Canelas

Cheguei ao Brasil primeiro por Belém e entreguei a carta a Eduardo Galvão, que ficou sendo minha contraparte brasileira. Em seguida fui ao Rio de Janeiro para obter a licença para pesquisar. Naquele tempo não havia o CNPq, era outro órgão. Precisei também obter licença junto ao SPI12. Darcy Ribeiro conseguiu minha primeira autorização de pesquisa junto ao SPI e também a outra licença junto ao órgão de ciência e artes. Não lembro bem o nome. Foram necessários quatro meses para obter estas licenças. Nesse período passei o tempo entre estudantes antropólogos brasileiros do Centro de Pesquisas Educacionais na Rua Voluntários da Pátria em Botafogo, Rio de Janeiro. Também estudei português com a ajuda do espanhol que já sabia e com intercâmbios com certos estudantes amistosos. Conheci Baldus, Schaden e Roberto Cardoso. Sempre estive na “panelinha” de Wagley, Darcy Ribeiro, Heloísa Torres e Malcher, não naquela de Cardoso e Mayberry-Lewis.
Retornei a Belém, ao Museu Goeldi, e depois fui a São Luís. Era o ano de 1957 e Xerez (Sebastião Moacyr de Xerez) estava à frente do SPI em São Luís. Havia sido amigo de Curt Nimuendaju e por isso tinha muita empatia por mim e por meu projeto, o re-estudo da obra mestre de Nimuendaju. Ele escreveu uma carta, a meu pedido, para Olímpio Cruz, funcionário do SPI em Barra do Corda, que me recebeu bem quando lá cheguei.
Eu tinha 33 anos. Era muito novo para fazer essas coisas. Olímpio Cruz me ajudou muito. Pedro Gregório13, o cacique dos Canelas naquela ocasião, chegou a Barra do Corda e logo comecei a estudar a língua Canela com ele. Depois de duas semanas fui convidado a ir para a aldeia e fiquei, inicialmente, hospedado no Posto do SPI por quatro dias. Minha formação havia sido no sentido de chegando à aldeia não escolher logo uma família14 ou ficar ligado a qualquer grupo político. A estratégia seria esperar e mais tarde tomar essa decisão depois de conhecer melhor a situação. Participei logo das reuniões do pátio da aldeia e, no quarto dia, aproximadamente, o Canela Paulo Adriano levantou-se do seu lugar no conselho e disse: minha mulher quer adotar você. Todos os velhos estavam me observando e por isso eu tinha que dizer que sim. Aconteceu assim, e sai do Posto e fiquei arranchado na casa do Paulo Adriano e de sua mulher a Dominga. Sempre morei na casa deles até agora quando volto a aldeia. Inicialmente eu não tinha um quarto, só um canto da casa. Mais tarde me colocaram em um quarto e esse foi o meu começo, lá em 57.


Elizabeth Coelho- Como se configurou a idéia de sempre retornar aos Canelas, mesmo após a obtenção do doutorado?

Crocker- Dos quatro anos como candidato ao doutorado, passei 24 meses nas aldeias Canelas e ainda mais em Barra do Corda e no Brasil. Depois voltei aos EUA e escrevi a tese de doutoramento em Wisconsin em um ano e um quarto sobre um assunto metodológico, que nunca deu para publicar. Era muito refinado. Selecionei um ato de um festival canela, o Pepjê, como exemplar, e busquei construir um sistema (ou um processo) que permitisse abstrair generalizações ou regularidades deste ato. Este processo pode ser aplicado a atos de festivais em qualquer parte do mundo, como em Sumatra ou como entre os índios do nordeste do Brasil. O ato selecionado para fazer esse exercício foi o momento em que os Pepjês, os iniciandos, estão à meia-noite esperando o seu comandante chegar com o bastão grande para bater no chão, com muita força, indagando: tem Pepjê lá? Se tem, vão ser batidos. Então todos os Pepjês saem correndo com medo e respeito. Não antecipar ou não saber algo sobre esse comportamento de seu comandante, ou de qualquer líder, é um princípio que os novos precisam aprender bem para sua formação.
Não foi publicada essa tese. Apenas ficou guardada na Universidade de Michgan, arquivada em forma de micro-ficha. Creio que não deva existir mais. A tese abordava uma questão metodológica, a relação sujeito/objeto da pesquisa, a tensão entre objetividade e subjetividade, a busca científica de um meio de eliminar o máximo possível a subjetividade nessa relação. A tentativa de eliminação foi aplicada da forma possível nos julgamentos usados no processo de abstrair generalizações ou regularidades dos festivais. Além disto, o esforço para construir um processo de aplicação universal para identificação e generalização de festivais foi muito bom como formação para mim. Em Wisconsin, não foi permitido escrever uma monografia de uma tribo como foi permitido em Harvard, por exemplo.

Elizabeth Coelho- Ao concluir o doutorado já estava trabalhando?

Crocker- Sim, isso foi em janeiro de 1962. Eu já tinha recebido a proposta da Smithsonian, condicionada a conclusão do PHD, pois lá havia uma vaga. Não era minha intenção trabalhar em qualquer museu. Eu queria ser professor de uma universidade. Na instituição Smithsonian fiquei como curador científico, o que significa pesquisador, e isso me oferecia a possibilidade de voltar sempre aos Canelas para continuar a pesquisa. Essa possibilidade era dada a todos os curadores, independentemente do seu local de pesquisa. Essa era a política do departamento de antropologia. O curador, obtendo o recurso, poderia ir ao campo.
As obrigações como curador não eram muitas. Como professor teria sido mais difícil ir tantas vezes ao campo. Obtive recursos da Wenner-Gren Foundation, da National Science Foundation e da National Geographic Society além de recursos da Smithsonian que abriam seus editais para fornecimento de recursos para pesquisa. Assim foi possível voltar tantas vezes ao campo. Foi assim que em vez de ser professor me tornei pesquisador de campo.

Elizabeth Coelho- No inicio o retorno ao campo era anual?

Crocker- Durante o doutorado foram duas viagens. Depois retornei em 1963. Eu estava no Brasil, participando de uma reunião da ABA15 em São Paulo e havia programado para ir à tribo, mas não tinha autorização do SPI. Encontrei com Herbert Baldus na reunião que me disse: estão metralhando seu povo, os Canelas16. Ele havia visto a notícia no jornal em São Paulo, naquele dia. Então eu tinha que ir lá.
Então, a D. Heloísa Torres, que era presidente do Conselho do SPI, concedeu a autorização. Aliás, ela enviou-me à aldeia porque ela queria saber o que estava acontecendo. Quando cheguei a São Luís, Olímpio Cruz estava no comando. Encontrei os fios telefônicos do escritório dele cortados. Não tinha comunicação, estava isolado. O presidente do SPI estava ao lado dos fazendeiros, ele me disse, então. Em Barra do Corda, Pedro Lemos, velho conhecido, era o chefe do SPI e me deixou entrar na aldeia dos Canelas. Cheguei no terceiro dia em que os Canelas estavam em seu novo lugar novo, na aldeia Sardinha dos Guajajaras, deslocados da chapada para a mata seca. Eles já haviam demarcado uma aldeia muito perto do Posto Indígena dos índios Guajajara. Ali, as casas. de um dos lados da aldeia nova ficaram tão perto do posto que não tinha como fazer quintais. Essa era a condição em que eles se encontravam. Eles estavam com muito medo por causa dos ataques contra sua aldeia no sertão, pelos fazendeiros, nos dias 7 e 10 de julho.
Logo fiquei sabendo que eles estavam vivendo um movimento messiânico que havia motivado-os a matar várias cabeças de gado dos fazendeiros, que atacaram os Canelas para evitar que continuassem matando o gado. Foi muito emocionante saber que havia ocorrido um movimento messiânico lá, mas muito triste saber sobre as mortes de pessoas conhecidas. Eu já tinha experiência com messianismo. Eu tinha lido alguns livros sobre movimentos messiânicos e assim tinha a vantagem de isso não ser algo novo para mim.
Naquela ocasião eu só podia ficar duas semanas na aldeia. Voltei aos Estados Unidos e pedi apoio à National Science Foundation e obtive recursos para a pesquisa, que naquele momento se dirigia para compreender o processo de adaptação de uma tribo da chapada que agora estava vivendo na mata. Essa pesquisa foi publicada em inglês no Brasil como artigo17, mas não teve boa divulgação.
Fiquei quatro meses com os Canelas em 1964 e estudei muito mais do que a adaptação de um povo da chapada à mata fechada. Estudei a língua durante um mês, somente a língua. Em 1966 fiquei seis semanas entre os Canelas (entre os Apanjêkra18, também) e assim fui estabelecendo esse padrão de voltar, voltar...
A Smithsonian estimulou esse padrão de voltar. Tenho gostado de estudar, expandir os estudos e estudar profundamente todas as coisas da cultura tribal. Pensei que era meu dever estudar quase todas as coisas culturais como as danças, os jogos atléticos, a pintura corporal, os sonhos, os mitos, a historia, a agricultura, os artefatos materiais e especialmente as cantigas, a música deles. Mas não podia publicar nessa área de musica porque não sou etnomusicólogo. Mas coletei muitas músicas deles e dei ao Anthony Seeger o direito de utilizá-las porque ele é etnomusicólogo. Também, deixei uma grande coleção das cantigas de 1979 na Library of Congress dos EUA. Fui formado com a visão de que talvez não haja tempo para que outro antropólogo chegue a aldeia salvar certos dados culturais. Por isso, deveria coletá-los. É por isso que eu tenho muitos dados que não posso usar, nem publicar, porque não sou especialista em todos esses assuntos. Mas esses dados estão disponíveis para que outras pessoas possam utilizá-los quando estiverem preparados para ser entregues.
Retornei com regularidade a aldeia até o ano de 1979. Naquele ano tive problemas com a FUNAI e precisei sair da aldeia. Só pude retornar em 1991. Nesse período, os anos 80, passei por um longo processo de divórcio e escrevi um grande livro que foi publicado em 199019.
Com a produção desse livro passei a dispor de bastante crédito acadêmico para voltar. Então consegui o apoio de Berta Ribeiro e de Manuela Carneiro da Cunha, que conseguiram a autorização para que eu voltasse a fazer pesquisa. Bertha Ribeiro ficou como minha contraparte brasileira. Em 1991 retornei com minha nova esposa que não se deu bem com o clima da região do interior e por isso nunca voltou à tribo.
Em 1993 permaneci quatro meses entre os Canelas e fiz um recenseamento sociológico detalhado e um estudo dos artefatos materiais. Também peguei uma descrição do festival dos pepkahàk e fiz uma analise dos papeis dos vários partidos nesse festival. Também coletei as lembranças dos velhos ajudantes canelas sobre a década de 80, sobre o que tinha acontecido durante minha ausência. Voltei, por períodos breves, nos anos 1994 e 1995 para ajudar no desenvolvimento de uma roça comunitária bem grande. Em 1997 ajudei um profissional a coletar o material para fazer um filme20.
Voltei mais uma vez em 1999, quando estudei as mudanças dos costumes sexuais da década 1930 até a década 1990. A cada viagem sempre abordava aspectos diferentes. Em 2001 fiz novo recenseamento sociológico muito complexo durante dois meses e estudei só o xamanismo por duas semanas. Em 2003 fui colher dados para meu artigo sobre a vingança canela21 e a adaptação dos estudantes canelas à vida em Barra do Corda. Em 2005, estudei estruturalismo êmico e mudanças no casamento ao longo de quatro décadas, cujos resultados foram publicados em artigos22. Em 2007, pesquisei uma metade do sistema festival e, em 2009, espero pesquisar a outra metade, para conseguir bastante material para escrever uma monografia sobre esse assunto.

Elizabeth Coelho- Quando surgiu a idéia de formar os diaristas?

Crocker- Foi em 1964. Em 1960 eu havia feito um pouco isso com Marcelino, Francisco Romão e Raimundo Roberto. Em 1963 o Marcelino estava por conta própria fazendo diários para me vender. No entanto, o que ele produziu foi queimado no Massacre aos Canelas de 196323. Ele estava escrevendo sobre o movimento messiânico e estava numa aldeia, a Aldeia Velha, quando veio o ataque. Queimaram as casas de roça e queimaram o manuscrito dele. Essa experiência mostrou a possibilidade deles escreverem sobre atualidades e a vida pessoal deles. Em 1966 coloquei os três para escrever manuscritos mensalmente e, em 1970, deixei um gravador com Raimundo Roberto e ensinei-o a fazer as gravações mensais

Elizabeth Coelho- Eles gravavam e lhe enviavam o material ou aguardavam seu retorno para entregar-lhe?

Crocker- Inicialmente era para escrever e guardar para mim. Em 1966 o Jaldo Pereira Santos, de Barra do Corda, passou a recolher os manuscritos. Os Canelas levavam os manuscritos até a Farmácia do Jaldo, nessa cidade, e lá um assistente comprava os manuscritos utilizando recursos meus. Eles sempre se consideram meus empregados, mas nunca o foram. Eu sempre comprava os resultados, seus produtos. Em 1966 trabalhei muito com Raimundo Roberto para aperfeiçoar sua escrita, fazendo o mesmo com Marcelino e com Francisco Romão, mais tarde. Os dois últimos só escreviam na língua canela. Ensinei Raimundo Roberto a traduzir. Então, ele escrevia na língua primeiro e depois fazia a tradução para o português. No ano de 1970 foram incluidos Francisquinho e Aristides, e em 1975 mais outros. Em 1979 já somavam uma dúzia de escritores. Dois deles gravavam fitas sendo que um deles era uma mulher, a Juliana. No ano de 1970 Raimundo Roberto começou a gravar fitas, além dos manuscritos e Aristides começou no ano 1975.

Elizabeth Coelho- Durante os 11 anos em que o senhor não veio ao campo o trabalho dos escritores continuou?

Crocker- Não. Não é possível explicar completamente porque eu tive que sair em 1979, mas não foi possível continuar com os diários. Em 1984, Jack Popjes, o Wycliffe missionário–lingüista, entregou fitas ao Raimundo Roberto e assim Popjes enviou algumas 20 fitas para mim durante esse tempo. Assim, de vez em quando eu recebia novidades através dessas fitas.
Em 1993 passei seis semanas reconstruindo a história do povo referente aos anos da década 80 em que não estive lá. De 1993 até hoje sempre tenho recebido manuscritos ou fitas. Em 1997 converti-os de fazedores de manuscritos a produtores de discurso falado, quase só em português. Um deles, Severo, fala por uma hora na língua e depois faz uma tradução para o português no outro lado da fita. Francisquinho faz uma coisa interessante. Escreve uma frase de duas a três linhas na língua e depois escreve a tradução em Português nas linhas seguintes, em um português bem ruim. Muitas vezes o sentido em Canela era de mais fácil compreensão para mim do que o português dele. Deixava, ainda, quatro linhas em branco para que depois eu escrevesse a tradução em inglês. Depois de reunir esse tipo de material por, cerca de vinte ou trinta dias, ele colocava tudo numa fita micro-cassete. Assim se uma pessoa quer aprender a língua Canela, como Antônio24, seria perfeito ele estudar por meio dos resultados de Francisquinho, porque as frases estão na língua Canela e em Português, escritas e faladas. Os outros ajudantes só falam em português.

Elizabeth Coelho- Desde o início, os ajudantes recebiam pagamento pelo seu trabalho?

Crocker- Sim, sempre receberam pagamento. Sempre tomei como referência o que seria pago ao trabalhador na roça e pagava em dobro, pois considerava que esse serviço tinha mais valor. Era muito serviço. Escreviam 20 a 90 páginas em cerca de 30 dias, dependendo da época e se fosse tradução ou não. Acho que foi um pagamento merecido. Os que só falavam gravavam duas horas, no mínimo, por mês. Agora foi reduzido para uma hora somente. Era muito material e eu não estava conseguindo ouvir tudo. Então, no ano passado, reduzi a quantia para uma hora por mês.

Elizabeth Coelho- Eles recebem uma quantia fixa por mês ou em função do material que produzem?

Crocker- Uma quantia fixa por mês, por duas horas, geralmente, mas agora é por uma hora. Agora recebem R$100,00 a R$ 150,00, dependendo de uma série de fatores. Francisquinho recebe mais, como deve ser.

Elizabeth Coelho- Eles tem um tema, um assunto sobre o qual devem tratar?
Crocker- De vez em quando eu enviava perguntas, antes por carta e agora por fax ou e-mail. O mais importante acontecimento foi quando Fabrício Canela, não lembro seu nome na língua, matou o Luiz Velho do povoado de Buriti da região, há dois anos. Então eu queria saber bem o que havia ocorrido, os detalhes do acontecido, e mandei algumas perguntas para todos os diaristas. Assim obtive muitos dados sobre isso. Porque aquele Canela de dezesseis anos fez isso? Enviei as perguntas que eu gostaria que eles respondessem. Meus diaristas responderam muito bem. Há um artigo meu, publicado em inglês sobre esse tema25.
Mas na maior parte, nas décadas de setenta e noventa, os diaristas escreveram e falaram somente sobre os acontecimentos na sua vida e na tribo. Alguns deles exploram um aspecto, outros exploram outro. Na primeira parte da década de noventa passei muito tempo com eles, aperfeiçoando a maneira de escrever, mas agora estou ficando muito pouco tempo entre eles, um mês a cada dois anos. Por isso, estou um pouco mais afastado, infelizmente. Agora estão entrando diaristas que podem não escrever bem na língua porque agora devem falar. Aquele que se tornou o novo “major”26 da aldeia, o Guilherme, pediu para ser diarista e concordei, mas ele não sabe escrever. Mas esse major, uma das principais autoridades da tribo, está muito acima das coisas. Também o cacique Cornélio entrou, mas ele sabe que quando ele deixar de ser cacique, outro vai ficar no lugar dele e vai usar o gravador que ele usa. Assim os diaristas servem para que eu receba novidades da tribo e da vida pessoal deles.
Também, os diaristas servem para fornecer dados para minhas publicações quando eu estou em casa e necessito de informes precisos e atuais. Fizeram isso para minhas publicações sobre a paternidade múltipla, a vingança, a perda do sistema sexual extra-marital, os fazedores de diários e o papel de tirar as sobrancelhas, ou não, na adaptação às duas culturas27.

Elizabeth Coelho- Como tem sido a recepção dos Canelas?

Crocker- Sempre foi uma boa recepção. Curt Nimuendajú deixou uma boa lembrança e quando cheguei, eles queriam que eu fizesse as mesmas coisas, que eu ficasse no lugar dele. Isso não era possível. Queriam me classificar como sobrinho dele. Assim minha recepção foi fácil. Também Olímpio Cruz me apresentou ao Cacique Pedro Gregório e aos outros, e como Olympio Cruz era benquisto, não tive problemas. Só tive problemas para saber sobre certos acontecimentos, em certas situações, como o roubo do gado, porque não sabiam se eu ficaria do lado deles. Não haviam me contado nada verdadeiro sobre o roubo de gado. Era segredo deles. Mas um dia eu estava comendo na casa de Dominga, minha “irmã”, e ela ofereceu gado. Soube, então, que não haviam matado gado comprado, e por isso aquela carne devia ser de gado roubado. Fiz brincadeiras do tipo: Gado? Deve ter sido comprado! Quem comprou? Que pessoa generosa! Disseram que não havia sido roubado, mas eu sabia que não havia sido morto nenhum boi legalmente. Então, para comer, coloquei um sobrinho para vigiar se chegava algum funcionário, como o chefe do posto, por exemplo, para que eu não fosse visto comendo gado roubado. E de fato chegou o chefe do posto. Fui avisado pelo sobrinho e coloquei a carne dentro do quarto. Por isso, os índios souberam que eu não contaria ao chefe do posto sobre o roubo do gado. Eu estava no seu lado. Depois disso, passei a saber, sempre, quando eles matavam gado roubado. Fiquei sabendo também que a decisão de matar o gado havia sido tomada no pátio, e não eram iniciativas de alguns jovens feitas atoa, sem ordem, como eles disseram a mim anteriormente.
Adicionalmente, esconderam outra coisa de mim, relacionada à vida sexual fora do casamento, uma tradição antiga deles. Nimuendajú não havia captado bem isso porque casou com uma Canela e exigiu que lhe fosse fiel. Não deixou que ela fosse com a turma das mulheres nos dias de cerimônia para fazer o sexo fora de casamento. Os homens ficavam com uma turma e as esposas deles ficavam com outra turma para fazer sexo fora de casamento sem o esposo saber quem tinha ficado com sua esposa. Assim, porque Nimuendajú manteve sua esposa com ele não pode obter dados sobre esse assunto porque eles achavam que ele estava zangado e com ciúmes dela e, por isso era contra o sexo fora de casamento, como os outros brasileiros da área.
Não tive esposa Canela; eu não queria isso. Minha formação acadêmica pregava contra isso, também era contra a lei brasileira. Aos poucos obtive dados que ele não pode obter. Para quebrar o gelo, eu fiz um jogo. Eu tinha livros de medicina com fotos do corpo, dos genitais, e através dessas fotos fui aprendendo todas as palavras que eles usavam para designar as partes do corpo. Eu repetia as palavras varias vezes para eles saberem que eu não tinha medo de falar nem de saber sobre o corpo. Assim eles perceberam que eu não tinha medo nem vergonha sobre o sexo. Então eles me passaram a contar coisas que não contavam a Nimuendajú porque ele tinha demonstrado ter vergonha desses assuntos. São seis as ocasiões nas quais eles têm atividade sexual fora do casamento. Isso está publicado em um livro meu, aquele de 1990, páginas 280–284 ou on-line: [IV.A.3.f].
Assim, eu nunca tinha problemas com os Canelas, mas as vezes tinha problemas com os encarregados do Posto e com outros antropólogos, mas nunca com a tribo.

Elizabeth Coelho- Qual o significado dos Canela e dessa experiência de cinqüenta anos para sua vida?

Crocker- Fui casado três vezes. Com a atual mulher tenho uma relação muito boa, mas até ela tem cumes porque pensa que sou mais casado com os Canelas do que com ela. Não é verdade. Mas os Canelas são sempre uma coisa principal na minha vida e ela sabe disso. Sempre que preciso vir para campo é um sacrifício para ela me deixar chegar aqui. Acho que, como se afirma no mundo dos religiosos, eu fui chamado. Eu senti na minha vida ser chamado por uma coisa, a antropologia, quando ensinei as boas novas da antropologia aos jovens estudantes, e mais tarde descobri isso nos Canelas: colocar os Canelas no mapa da Antropologia e também ajudar aos Canelas quando for possível. Senti que fui chamado a fazer isso. Assim é uma coisa forte na minha vida. Em casa, quando estou um pouco triste, fico trabalhando nos dados Canelas e logo disperso qualquer tristeza. Estou sempre voltado para os dados Canelas ou aperfeiçoando um artigo. Posso dizer, eu não sei dizer isso corretamente, mas os Canelas são um grande sustento na minha vida, um sustento muito importante. Tenho minha esposa e meu filho, mas a terceira coisa na minha vida é mesmo os Canelas. Outra coisa, eu não tenho muitos amigos e não tenho muita família. Assim os Canelas são o que me sustenta espiritualmente. Não acredito muito nas religiões. Há muitas. Qual a melhor? Não sei, mas os Canelas me sustentam. Se não tivesse sido possível voltar aos Canelas por alguma razão, eu teria perdido uma coisa importante na minha vida. Mas mesmo que não fosse possível voltar ao Brasil eu teria os diários dos Canelas que eu ficaria estudando até o fim da minha vida. Os Canelas têm entrado em minha vida desta maneira tão importante, que quase não posso explicar.

Elizabeth Coelho- Quais os pesquisadores brasileiros que deram apoio, serviram como contraparte para suas vindas ao Brasil?

Crocker- O primeiro contraparte foi Eduardo Galvão. Ele foi muito bom para mim. Estava quase sempre em Belém, mas em 1964 era em Brasília. Estive ligado ao Museu Goeldi e ao Galvão até 1976, quando ele morreu. A partir de 1978 foi Expedito Arnaud, do Goeldi também, quem atuou como minha contraparte. Em 1991, foi Bertha Ribeiro que passou a ser a contraparte brasileira. A partir de 1993, Julio Cesar Melatti assumiu esse lugar, permanecendo até agora. Acho muito bom o Melatti. Podemos conversar como amigos. Sou muito grato ao professor Melatti. Além das pessoas contrapartes, muitos outros antropólogos brasileiros têm me ajudado muito. Lembro-me muito bem, especialmente, do professor Egon Schaden. Encontrei minha antropologia perto da antropologia dele. Fora dos antropólogos brasileiros, lembro-me especialmente de Heloísa Alberto Torres e de Charles Wagley.

Fonte original: http://www.ppgcsoc.ufma.br/index.php?option=com_content&view=article&id=319&catid=72&Itemid=114

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Livro de editora maranhense é um dos vencedores do Prêmio de Literatura da Biblioteca Nacional


O livro “Gullar Gullar”, de autoria de Marcos Vinícius Quiroga e publicado pela Clara Editora em 2010, foi um dos vencedores do Premio de Literatura da Biblioteca Nacional, divulgado esta semana. A obra, que recebeu o patrocínio da Fundação de Cultura da Prefeitura de São Luís (FUNC) e foi idealizada pela escritora Arlete Nogueira da Cruz, traz poemas que retratam um profundo conhecimento da vida e da obra do poeta maranhense Ferreira Gullar, que no ano passado completou 80 anos e foi o vencedor do Prêmio Jabuti de 2011 com o livro “Em alguma parte alguma”.

“Gullar Gullar” ficou em segundo lugar na categoria “Poesia – Prêmio Alphonsus de Guimaraens”. Em primeiro lugar ficou o pernambucano Daniel Lima, de 95 anos, com o livro “Poemas” (Companhia Editora de Pernambuco). O terceiro lugar foi para Cláudia Schroeder, pelo livro “Leia-me toda” (Dublinense). O vencedor de cada categoria receberá R$ 12,5 mil — Alberto Mussa ganhou o prêmio de melhor romance, e Sérgio Sant’Anna, de livro de contos. A cerimônia de premiação será realizada na próxima quinta-feira, dia 15, às 19h, na Biblioteca Nacional.

O poeta Alexei Bueno, que integrou o júri de poesia com Antônio José Jardim e Castro e Frederico de Carvalho Gomes, disse que a escolha de Lima foi unânime, além de surpreendente por conta do desconhecimento de todos sobre o poeta. O júri recebeu cerca de 80 livros de poesia, publicados em 2010 e 2011, entre eles “Em alguma parte alguma”, de Ferreira Gullar.

A obra “Gullar Gullar” foi lançada na Feira do Livro de São Luís do ano passado, com a presença do autor. Marcos Vinicius Quiroga é poeta, professor, crítico e ensaísta. Doutor em Literatura Brasileira e membro da Academia Carioca de Letras e do Pen Clube do Brasil, Quiroga é detentor de importantes prêmios nacionais. “A poesia de Quiroga revela uma obra em ascensão, seja pela incessante renovação da busca temática, seja pelo persistente afinco com que se debruça sobre a necessidade de renovar sua expressão formal, em grande medida, avessa aos cânones consagrados”, avalia o escritor e crítico Cláudio Aguiar.

A escritora Arlete Nogueira da Cruz diz que o prêmio a Quiroga é um reconhecimento também a um trabalho de qualidade realizado no Maranhão, pela Prefeitura de São Luís e pela Clara Editora. “O livro traz uma fidelidade que se amplia para além das circunstâncias através das quais o poeta opera o próprio canto, isto é, onde a vida em seus versos palpita indelével em verdade e beleza”, frisa.

A lista completa dos premiados:

Poesia - Prêmio Alphonsus de Guimaraens
1° lugar: Daniel Lima, com "Poemas" (Companhia Editora de Pernambuco)
2º lugar: Marcos Vinicius Quiroga, com "Gullar Gullar" (Clara Editora)
3º lugar: Cláudia Schroeder, com "Leia-me toda" (Dublinense)

Romance - Prêmio Machado de Assis
1° lugar: Alberto Mussa, com "O senhor do lado esquerdo" (Record)
2º lugar: Moacyr Scliar, com "Eu vos abraço, milhões" (Companhia das Letras)
3º lugar: Rubens Figueiredo, com "O passageiro do fim do dia" (Companhia das Letras)

Contos - Prêmio Clarice Lispector
1° lugar: Sérgio Sant’Anna, com "O livro de Praga – Narrativas de amor e arte (Companhia das Letras)
2º lugar: Alessandro Garcia, com "A sordidez das pequenas coisas" (Não Editora)
3º lugar: João Anzanello Carrascoza, com "A vida naquela hora" (Scipione)

Ensaio literário - Prêmio Mário de Andrade
1° lugar: Charles Kiefer, com "A poética do conto – De Poe a Borges: um passeio pelo gênero" (Leya)
2º lugar: Rita Rios, com "Poemas e pedras: A relação entre a escultura e a poesia partindo de Rodin e Rilke" (Edusp)
3º lugar: Ricardo Souza de Carvalho, com "A Espanha de João Cabral e Murilo Mendes" (Editora 34)

Ensaio social - Prêmio Sérgio Buarque de Holanda
1° lugar: Marisa Midore Deaecto, com "O império dos livros: instituições e práticas de leitura na São Paulo oitocentista" (Edusp)
2º lugar: Ronaldo Vainfas, com "Jerusalém Colonial – Judeus portugueses no Brasil holandês" (Civilização Brasileira)
3º lugar: Vera Lúcia Bogéa Borges, com "A batalha eleitoral de 1910 – Imprensa e cultura política na Primeira República" (Editora Apicuri/Faperj)

Tradução - Prêmio Paulo Rónai
1° lugar: Luís Carlos Cabral, com "Malá Strana: vestígios de Praga", de Jan Neruda (Record)
2º lugar: André Vallias, com "Heyne, hein? Poeta dos contrários", antologia poética de Heinrich Heine (Perspectiva)
3º lugar: Sergio Tellaroli, com "Jakob von Gunten – Um diário", de Robert Walser (Companhia das Letras)

Projeto gráfico - Prêmio Aloísio Magalhães
1° lugar: Gabriela Castro, com "Apreensões", de Bob Wolfenson (Cosac Naify)
2º lugar: Elaine Ramos, com "Museu do romance da eterna", de Macedonio Fernández (Cosac Naify)
3º lugar: Jonathan Shiguehara Yamakami, com "Eu vi um pavão", de autoria desconhecida (Scipione)

Literatura infantil e juvenil - Prêmio Glória Pondé
1° lugar: Nelson Cruz, com "Alice no telhado" (Comboio de Corda)
2º lugar: Manu Maltez, com "Meu tio lobisomem" (Peirópolis)
3º lugar: Luís Dill, com "O estalo" (Positivo)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Sobre o mar, a brisa e o asfalto da cidade

Transcrevo aqui as minhas palavras de gratidão pelo recebimento, ontem, na Câmara Municipal, do título de Cidadão de São Luís:

Há lugares por onde apenas passamos, e deles guardamos as lembranças de uma bela paisagem, da hospitalidade de sua gente, do redemoinho das emoções ali vividas. Há as cidades grandes, as metrópoles de concreto e neon, as babilônias que seduzem pelo brilho de luz, incenso e vitrine. Há também as cidades imaginárias, as utopias da literatura universal, os jardins edênicos dos que têm fé e devoção, a Shangri-lá dos românticos incorrigíveis, a Atlântida dos argonautas.

Existem os lugares etéreos, da boa sorte, da felicidade, do prazer, da realização plena. Mas há cidades que são simplesmente definitivas, que nos completam, que se confundem com a nossa própria existência, pela sua gente, pela sua história, pelas tradições culturais, pela qualidade de vida que oferecem - ou pela soma de todos esses fatores. Assim é São Luís do Maranhão, cidade da qual recebo hoje, por honrosa deferência desta Casa, numa iniciativa do nobre vereador Batista Matos, o título de cidadão honorário.

Eu venho lá do sertão do Maranhão, caro vereador Batista Matos, das barrancas dos rios Corda e Mearim, da Barra do Corda da minha infância viva e bem vivida, da cidade dos canelas e guajajaras, do verso-berço de Maranhão Sobrinho, do balneário balsâmico, das cachoeiras dos índios, de Olímpio Cruz, o poeta encantador dos gentios. Embora nascido em Presidente Dutra, foi em Barra do Corda onde criei raízes, saltei de pontes, inventei brinquedos de lata, enfrentei a correnteza da sorte, esquivei-me dos castigos de casa, vendi frutas e jornal, comprei o meu primeiro ingresso no Cine Canecão, frequentei o catecismo e, como presidente do clube dos coroinhas da igreja matriz, por muitas vezes me dei ao luxo de devorar, escondido, toda a sobra das hóstias da missa do domingo.

Romper com a velha infância dos meus primeiros 12 anos, perdida no horizonte das raras escapulidas de férias, foi uma experiência quase traumática. Não, não foi a transumância, aquela migração sazonal típica dos trabalhadores da roça de cana, com partida temporária. Meus pais optaram mesmo pelo êxodo rural. Saímos de Barra do Corda no dia 24 de novembro de 1979 num empoeirado ônibus da viação Transbrasiliana. O sertão ficava para trás na fumaça da estrada longa, com suas colinas, rios e neblinas. Era o tempo de arribação para uma nova paragem.

Minha mãe, Dona Cely, a zelosa dona de casa, o ponto de equilíbrio, a razão para tudo, entendeu que o mundo era maior que a cidade inventada por Melo Uchôa, maior que as histórias contadas nos bancos da praça no crepúsculo de agosto. Sempre foi a mulher simples, de poucos estudos, mas de sabedoria invejável e muitos planos para a família. Senhora do português bem aplicado e das lições de boa conduta. Via nos estudos dos filhos na Capital o atalho para uma vida melhor, um futuro mais luminoso. Meu saudoso pai, Seu Eurípedes, foi o visionário, comerciante, homem interiorano, desses bravos provedores que de tudo tentou na vida para alimentar a família, para alimentar os sonhos da esperada bonança que, acreditava, não tardaria. Pai amoroso e resignado, preferia as horas calmas do lamento vespertino dos sertanejos ao embalado contratempo dos ponteiros da cidade grande. Resistiu à mudança, mas foi convencido de que da janela o tempo não acenava duas vezes. As oportunidades caducavam.

No mesmo dia 24 de novembro a família chegava a São Luís. Eu era o moleque ensimesmado, de olhar baixo, assustado com o tamanho de tudo o que via ao redor pela vidraça do ônibus, cabelos ainda embaraçados e queimados pelo sol forte dos demorados banhos de rio, cheirando a mato e poaca da estrada.

A primeira impressão, o primeiro endereço, o primeiro susto. São Luís era o porto dos retirantes do interior. Os ônibus barulhentos demais pareciam invadir como esmeris o velho casarão 609 da Rua de Santana. A cidade para mim era como aquela via estreita, de trânsito amalucado e de calçadas suspeitas, pronta a explodir em tumulto de gente e automóveis apressados que os meus olhos jamais tinham alcançado.

O segundo susto era a cidade caída, a meia cidade que restou da rebeldia de setembro de 1979. Como na poesia de T.S. Eliot, não abril, mas novembro daquele ano, quando aqui cheguei, ficou na lembrança como o mais cruel dos meses. Ali onde eu estava para inaugurar o futuro, o eldorado desenhado nos planos da família, nada mais havia para mim senão a terra desolada: ruas miúdas, lojas saqueadas, pedaços de placas de vidro e acrílico espalhados pelo chão, semáforos destruídos, policiais à espreita. Cenário de fim de uma guerra.

Senhor Presidente, Senhores Vereadores,

Há 32 anos comecei a decifrar a cidade, e até hoje ela se veste de esfinge num recorte barroco de variadas leituras e interpretações. Depois de sustos e decepções da chegada, três coisas chamaram a atenção do menino curioso, sem viagem alguma na bagagem, referências reduzidas apenas às poucas quadras do Maranhão de dentro: o mar, a brisa que dele soprava e o asfalto.

O mar era aquela imensidão de águas turvas, sem cores definidas, um rio sem fim que me permitia namorar o horizonte e, se bem navegado, até ajudava a tocar o céu com as mãos. Mar e rio então eram a mesma coisa? Passavam por baixo da ponte do São Francisco e, de uma hora para a outra, desapareciam? Simplesmente viravam lama, e eu era um menino recém-chegado e desconhecia os segredos da maré vazante. As interrogações brotavam diariamente. Prosseguem até hoje no desassossego das horas. Apenas dão trégua porque, como nos aturdem as muitas vozes do poeta, “a manhã apaga as perguntas da noite”.

Do mar também vinha a brisa leve e envolvente que a infância até então não me mostrara. O aquecimento global era uma miragem. O vento ainda balançava forte a copa das árvores e enchia de preguiça as tardes de São Luís. E tinha mais força e velocidade nas esquinas dos prédios altos como o Caiçara, na Rua Grande, e o edifício do Banco Estado do Maranhão, na Rua do Egito. Nas calçadas, as banquinhas de quebra-queixo tremulavam e deixavam mais doce o cotidiano da freguesia passante.

E em São Luís havia o asfalto. Diferentemente das ruas calçadas de blocos de pedra no interior maranhense de outrora, era o piso negro das ruas que nem sempre nos deixava jogar futebol descalço. Quente e abafado, o asfalto expunha a cidade em permanente conflito com os paralelepípedos do passado e as suas pedras de cantaria reluzentes.

Da Rua de Santana para a Rua da Alegria! Até a mudança de vez para a São Luís moderna, desbravei o centro da cidade como um bandeirante. Aprendi a amar cada recanto, ladeiras, mirantes e sobradões. Por diversas vezes cruzei com a alma da cidade presa ali entre os lençóis das sacadas da Praia Grande; sonhei com serpentes e carruagens de Nha Jança na madrugada; e me deixei hipnotizar pela geometria dos seus azulejos coloniais. Senti o chão das ruas de São Pantaleão, Santaninha, da Paz, do Passeio, dos Afogados, das Hortas, do Mocambo, do Alecrim e do Coqueiro. Joguei bola de meia na Praça Odorico Mendes e andei de mãos dadas com a primeira namorada pela Praça Gonçalves Dias. Levantei bandeiras estudantis na Praça João Lisboa e brinquei de fofão na Praça Deodoro.

Os encantamentos se multiplicaram com o peso do tempo. E soube me adaptar, me transformar num cidadão da cidade quase que por mimetismo, sem deixar rastros. Não por negar a minha origem, mas por envolvimento descontrolado. Num dos trechos do discurso do índio Japiaçu, ao saudar a chegada dos franceses a São Luís, transcrito nos relatos do Padre Claude d’Abbeville, o líder tupinambá vaticinava: “Quando te acostumares aos nossos víveres, acharás que a nossa farinha não difere muito do teu pão”.

Acostumei-me também com as experiências e encontrei semelhança nas sutis diferenças regionais. Misturei o pão francês com a farinha dos índios, o tambor dos crioulos e as especiarias lusitanas e holandesas até me entregar de vez ao arroz de cuxá e ao guaraná Jesus.

Os caminhos foram longos; as lutas, nunca veladas.

Conhecendo a sua história, bebendo na fonte da sua poesia, aprendi a amar São Luís como se aqui estivesse nascido. Descobri ainda menino os cantores e trovadores, também me fiz um apaixonado pela cultura da terra, vi-me preso ao visgo da ilha, ao magnetismo deixado pelos xamãs da velha aldeia. Mas jamais ousei me apresentar como são-luisense. Porque eu não fui, porque eu não era, embora aqui morando por 32 anos, e sem qualquer plano ou projeto de partida.

Já se vão mais de três décadas. Tempo suficiente para criar e cultivar uma rede de amigos. Amigos sinceros, fraternos, leais e, sobretudo, generosos. Amigos que, de generosidade desmedida, caminharam lado a lado, dividiram pelo caminho as alegrias e as preocupações, sofreram juntos e conquistaram comigo todas as coisas boas da vida. São laços que não se desfazem, que não se apagam.

Em São Luís conheci Adriana, o amor da minha vida, e aqui nasceram os meus maiores tesouros, os filhos igualmente amados Maria Clara, João Vítor e João Guilherme. Como, então, não amar essa cidade? Como não me emocionar ao receber o título de cidadania pouco mais de um mês antes da cidade completar os seus 400 anos de fundação? Posso dizer, com a mais sincera humildade, que também faço parte dessa história. No começo de tudo, como habitante espectador. Depois, como agente dedicado, testemunha, observador e relator da sua história recente. E, agora, como Cidadão de São Luís, ainda mais comprometido com a nossa cultura e o nosso patrimônio.

Os títulos de cidadania representam enorme responsabilidade a quem os recebe. Tenho plena consciência dos deveres e das obrigações que assumo nesta data memorável com aqueles que para sempre serão meus conterrâneos. Estejam certos de que tudo farei para continuar digno da grande honra que me concedem.

Antes de encerrar as minhas palavras, deixo aqui registrada a minha gratidão aos que estiveram e estão sempre ao meu lado: a Deus, ao meu saudoso pai Eurípedes, à minha mãe Cely, aos meus irmãos Eucélia, Sônia e Socorro. Ao meu irmão Antônio Carlos, que infelizmente não pôde vir a este evento, mas que de longe empresta o seu carinho. Com eles, que também não nasceram em São Luís, compartilho esta homenagem. À minha mulher Adriana, meus filhos e meu enteado Pedro Igor; aos meus inúmeros familiares, amigos de todas as horas; ao primo-irmão Pergentino Holanda, com quem muito aprendi os mistérios da fé nas palavras. Aos amigos de jornada na Comunicação Social, essa área vasta de profissionais do rádio, da TV, dos jornais, da internet e da publicidade e propaganda. Aos amigos do Dom Bosco, da Caixa, do Tribunal de Justiça, do jornal O Estado do Maranhão e da Clara Comunicação.

O meu agradecimento especial ao vereador Batista Matos, jovem lutador, cioso, como poucos, do papel social do político moderno, integrado. Cidadão de muitas lutas por uma São Luís melhor, espírito conciliador, conhecedor da importância da comunicação, amante do esporte, Batista Matos tem honrado o seu mandato nesta Câmara Municipal com uma atuação firme, destacada e com pronunciamentos sempre contundentes.

Agradeço, por fim, a presença de todos que aqui vieram dividir comigo este momento.

Ao presidente Isaías Pereirinha e demais vereadores desta Casa, obrigado pela homenagem.

Tenham a certeza de que este título muito me alegra, emociona e envaidece. Esta data ficará gravada indelevelmente em minha memória, porque vai muito além da sua simbologia estampada na folha de papel.

Para encerrar, deixo aqui os versos do meu amigo poeta José Chagas, que já foi vereador e funcionário desta augusta Casa e sobre quem tive o privilégio de escrever um dos meus primeiros livros:

“Sou um
Entre um milhão
Numa cidade de quatrocentos anos
E tiro da manhã o que me toca
De sol o que me cabe
De ar o que é necessário
Para manter-me sentado
Sobre lascas de solidão
E pedras de silêncio quebrado
Pela anunciação do dia”

Muito obrigado.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Aceito seu coração



A música começa com um verso sereno, suave como um final de tarde de sábado na praia: “Eu não pensava que você viesse pra ficar”. E depois a balada vem inteira, sem rodeios, tomando de assalto o ouvido com tiradas do tipo “em cada dia quero ver de novo renascer/ o amor que nunca mais senti”. É assim mesmo, de tirar o fôlego, a maranhense Rita Ribeiro interpretando “Aceito seu coração”, música de um cara chamado Puruca gravada inicialmente por Roberto Carlos em 1969.

Não há exagero. “Aceito seu coração” é uma pérola aos românticos declarados, incorrigíveis. Sem esforço algum, a voz de Rita Ribeiro alcança uma simplicidade que encanta. A regravação da música pode ser vista num belo videoclipe perdido no oceano do Youtube, ali postado desde 2008. Vale o bilhete de embarque. Dirigido por Luciano Pérez e Jean Wyllys, aquele que venceu o BBB e depois se elegeu deputado federal, o videoclipe tem a medida certa da música, meio retrô, meio casual. O filme é uma elegia desgovernada pelo mar do Rio de Janeiro, alternando com a paisagem dos transeuntes da zona sul e com um cenário caseiro misturando vinhos, incensos, iPods e fotografias em sépia.

“Aceito seu coração” deve ser incluída no próximo CD de Rita Ribeiro. É música pra ouvir, virar pro lado e beijar na boca, como a rigor deve ser a utilidade das baladas românticas. Ou pra ouvir no carro, povoar o cinzeiro, rabiscar um desenho qualquer no papel com a cabeça nas alturas, andar na calçada com o fone no ouvido, pincelar umas letras, escrever uma carta, pendurar um quadro na parede, rever o porta-retrato, beber uma ideia...

A música não é de Roberto Carlos, mas o “Rei” tem dessas manias: deixar com a voz um espólio de canções simples que atravessam o tempo e se misturam com facilidade ao cotidiano. O disco de 1969 tem ainda músicas antológicas, como “Sua estupidez”, “Não vou ficar”, “As curvas da estrada de Santos” e “As flores do jardim da nossa casa”.

Não é uma música tristonha do tipo fossa ou dor de cotovelo, mas uma canção resignada, bem resolvida, que embala com sutileza qualquer romance estremecido, adormecido, e sacoleja corações distraídos. Você pode não acreditar. Apenas sinta.