terça-feira, 22 de novembro de 2011

Sobre o mar, a brisa e o asfalto da cidade

Transcrevo aqui as minhas palavras de gratidão pelo recebimento, ontem, na Câmara Municipal, do título de Cidadão de São Luís:

Há lugares por onde apenas passamos, e deles guardamos as lembranças de uma bela paisagem, da hospitalidade de sua gente, do redemoinho das emoções ali vividas. Há as cidades grandes, as metrópoles de concreto e neon, as babilônias que seduzem pelo brilho de luz, incenso e vitrine. Há também as cidades imaginárias, as utopias da literatura universal, os jardins edênicos dos que têm fé e devoção, a Shangri-lá dos românticos incorrigíveis, a Atlântida dos argonautas.

Existem os lugares etéreos, da boa sorte, da felicidade, do prazer, da realização plena. Mas há cidades que são simplesmente definitivas, que nos completam, que se confundem com a nossa própria existência, pela sua gente, pela sua história, pelas tradições culturais, pela qualidade de vida que oferecem - ou pela soma de todos esses fatores. Assim é São Luís do Maranhão, cidade da qual recebo hoje, por honrosa deferência desta Casa, numa iniciativa do nobre vereador Batista Matos, o título de cidadão honorário.

Eu venho lá do sertão do Maranhão, caro vereador Batista Matos, das barrancas dos rios Corda e Mearim, da Barra do Corda da minha infância viva e bem vivida, da cidade dos canelas e guajajaras, do verso-berço de Maranhão Sobrinho, do balneário balsâmico, das cachoeiras dos índios, de Olímpio Cruz, o poeta encantador dos gentios. Embora nascido em Presidente Dutra, foi em Barra do Corda onde criei raízes, saltei de pontes, inventei brinquedos de lata, enfrentei a correnteza da sorte, esquivei-me dos castigos de casa, vendi frutas e jornal, comprei o meu primeiro ingresso no Cine Canecão, frequentei o catecismo e, como presidente do clube dos coroinhas da igreja matriz, por muitas vezes me dei ao luxo de devorar, escondido, toda a sobra das hóstias da missa do domingo.

Romper com a velha infância dos meus primeiros 12 anos, perdida no horizonte das raras escapulidas de férias, foi uma experiência quase traumática. Não, não foi a transumância, aquela migração sazonal típica dos trabalhadores da roça de cana, com partida temporária. Meus pais optaram mesmo pelo êxodo rural. Saímos de Barra do Corda no dia 24 de novembro de 1979 num empoeirado ônibus da viação Transbrasiliana. O sertão ficava para trás na fumaça da estrada longa, com suas colinas, rios e neblinas. Era o tempo de arribação para uma nova paragem.

Minha mãe, Dona Cely, a zelosa dona de casa, o ponto de equilíbrio, a razão para tudo, entendeu que o mundo era maior que a cidade inventada por Melo Uchôa, maior que as histórias contadas nos bancos da praça no crepúsculo de agosto. Sempre foi a mulher simples, de poucos estudos, mas de sabedoria invejável e muitos planos para a família. Senhora do português bem aplicado e das lições de boa conduta. Via nos estudos dos filhos na Capital o atalho para uma vida melhor, um futuro mais luminoso. Meu saudoso pai, Seu Eurípedes, foi o visionário, comerciante, homem interiorano, desses bravos provedores que de tudo tentou na vida para alimentar a família, para alimentar os sonhos da esperada bonança que, acreditava, não tardaria. Pai amoroso e resignado, preferia as horas calmas do lamento vespertino dos sertanejos ao embalado contratempo dos ponteiros da cidade grande. Resistiu à mudança, mas foi convencido de que da janela o tempo não acenava duas vezes. As oportunidades caducavam.

No mesmo dia 24 de novembro a família chegava a São Luís. Eu era o moleque ensimesmado, de olhar baixo, assustado com o tamanho de tudo o que via ao redor pela vidraça do ônibus, cabelos ainda embaraçados e queimados pelo sol forte dos demorados banhos de rio, cheirando a mato e poaca da estrada.

A primeira impressão, o primeiro endereço, o primeiro susto. São Luís era o porto dos retirantes do interior. Os ônibus barulhentos demais pareciam invadir como esmeris o velho casarão 609 da Rua de Santana. A cidade para mim era como aquela via estreita, de trânsito amalucado e de calçadas suspeitas, pronta a explodir em tumulto de gente e automóveis apressados que os meus olhos jamais tinham alcançado.

O segundo susto era a cidade caída, a meia cidade que restou da rebeldia de setembro de 1979. Como na poesia de T.S. Eliot, não abril, mas novembro daquele ano, quando aqui cheguei, ficou na lembrança como o mais cruel dos meses. Ali onde eu estava para inaugurar o futuro, o eldorado desenhado nos planos da família, nada mais havia para mim senão a terra desolada: ruas miúdas, lojas saqueadas, pedaços de placas de vidro e acrílico espalhados pelo chão, semáforos destruídos, policiais à espreita. Cenário de fim de uma guerra.

Senhor Presidente, Senhores Vereadores,

Há 32 anos comecei a decifrar a cidade, e até hoje ela se veste de esfinge num recorte barroco de variadas leituras e interpretações. Depois de sustos e decepções da chegada, três coisas chamaram a atenção do menino curioso, sem viagem alguma na bagagem, referências reduzidas apenas às poucas quadras do Maranhão de dentro: o mar, a brisa que dele soprava e o asfalto.

O mar era aquela imensidão de águas turvas, sem cores definidas, um rio sem fim que me permitia namorar o horizonte e, se bem navegado, até ajudava a tocar o céu com as mãos. Mar e rio então eram a mesma coisa? Passavam por baixo da ponte do São Francisco e, de uma hora para a outra, desapareciam? Simplesmente viravam lama, e eu era um menino recém-chegado e desconhecia os segredos da maré vazante. As interrogações brotavam diariamente. Prosseguem até hoje no desassossego das horas. Apenas dão trégua porque, como nos aturdem as muitas vozes do poeta, “a manhã apaga as perguntas da noite”.

Do mar também vinha a brisa leve e envolvente que a infância até então não me mostrara. O aquecimento global era uma miragem. O vento ainda balançava forte a copa das árvores e enchia de preguiça as tardes de São Luís. E tinha mais força e velocidade nas esquinas dos prédios altos como o Caiçara, na Rua Grande, e o edifício do Banco Estado do Maranhão, na Rua do Egito. Nas calçadas, as banquinhas de quebra-queixo tremulavam e deixavam mais doce o cotidiano da freguesia passante.

E em São Luís havia o asfalto. Diferentemente das ruas calçadas de blocos de pedra no interior maranhense de outrora, era o piso negro das ruas que nem sempre nos deixava jogar futebol descalço. Quente e abafado, o asfalto expunha a cidade em permanente conflito com os paralelepípedos do passado e as suas pedras de cantaria reluzentes.

Da Rua de Santana para a Rua da Alegria! Até a mudança de vez para a São Luís moderna, desbravei o centro da cidade como um bandeirante. Aprendi a amar cada recanto, ladeiras, mirantes e sobradões. Por diversas vezes cruzei com a alma da cidade presa ali entre os lençóis das sacadas da Praia Grande; sonhei com serpentes e carruagens de Nha Jança na madrugada; e me deixei hipnotizar pela geometria dos seus azulejos coloniais. Senti o chão das ruas de São Pantaleão, Santaninha, da Paz, do Passeio, dos Afogados, das Hortas, do Mocambo, do Alecrim e do Coqueiro. Joguei bola de meia na Praça Odorico Mendes e andei de mãos dadas com a primeira namorada pela Praça Gonçalves Dias. Levantei bandeiras estudantis na Praça João Lisboa e brinquei de fofão na Praça Deodoro.

Os encantamentos se multiplicaram com o peso do tempo. E soube me adaptar, me transformar num cidadão da cidade quase que por mimetismo, sem deixar rastros. Não por negar a minha origem, mas por envolvimento descontrolado. Num dos trechos do discurso do índio Japiaçu, ao saudar a chegada dos franceses a São Luís, transcrito nos relatos do Padre Claude d’Abbeville, o líder tupinambá vaticinava: “Quando te acostumares aos nossos víveres, acharás que a nossa farinha não difere muito do teu pão”.

Acostumei-me também com as experiências e encontrei semelhança nas sutis diferenças regionais. Misturei o pão francês com a farinha dos índios, o tambor dos crioulos e as especiarias lusitanas e holandesas até me entregar de vez ao arroz de cuxá e ao guaraná Jesus.

Os caminhos foram longos; as lutas, nunca veladas.

Conhecendo a sua história, bebendo na fonte da sua poesia, aprendi a amar São Luís como se aqui estivesse nascido. Descobri ainda menino os cantores e trovadores, também me fiz um apaixonado pela cultura da terra, vi-me preso ao visgo da ilha, ao magnetismo deixado pelos xamãs da velha aldeia. Mas jamais ousei me apresentar como são-luisense. Porque eu não fui, porque eu não era, embora aqui morando por 32 anos, e sem qualquer plano ou projeto de partida.

Já se vão mais de três décadas. Tempo suficiente para criar e cultivar uma rede de amigos. Amigos sinceros, fraternos, leais e, sobretudo, generosos. Amigos que, de generosidade desmedida, caminharam lado a lado, dividiram pelo caminho as alegrias e as preocupações, sofreram juntos e conquistaram comigo todas as coisas boas da vida. São laços que não se desfazem, que não se apagam.

Em São Luís conheci Adriana, o amor da minha vida, e aqui nasceram os meus maiores tesouros, os filhos igualmente amados Maria Clara, João Vítor e João Guilherme. Como, então, não amar essa cidade? Como não me emocionar ao receber o título de cidadania pouco mais de um mês antes da cidade completar os seus 400 anos de fundação? Posso dizer, com a mais sincera humildade, que também faço parte dessa história. No começo de tudo, como habitante espectador. Depois, como agente dedicado, testemunha, observador e relator da sua história recente. E, agora, como Cidadão de São Luís, ainda mais comprometido com a nossa cultura e o nosso patrimônio.

Os títulos de cidadania representam enorme responsabilidade a quem os recebe. Tenho plena consciência dos deveres e das obrigações que assumo nesta data memorável com aqueles que para sempre serão meus conterrâneos. Estejam certos de que tudo farei para continuar digno da grande honra que me concedem.

Antes de encerrar as minhas palavras, deixo aqui registrada a minha gratidão aos que estiveram e estão sempre ao meu lado: a Deus, ao meu saudoso pai Eurípedes, à minha mãe Cely, aos meus irmãos Eucélia, Sônia e Socorro. Ao meu irmão Antônio Carlos, que infelizmente não pôde vir a este evento, mas que de longe empresta o seu carinho. Com eles, que também não nasceram em São Luís, compartilho esta homenagem. À minha mulher Adriana, meus filhos e meu enteado Pedro Igor; aos meus inúmeros familiares, amigos de todas as horas; ao primo-irmão Pergentino Holanda, com quem muito aprendi os mistérios da fé nas palavras. Aos amigos de jornada na Comunicação Social, essa área vasta de profissionais do rádio, da TV, dos jornais, da internet e da publicidade e propaganda. Aos amigos do Dom Bosco, da Caixa, do Tribunal de Justiça, do jornal O Estado do Maranhão e da Clara Comunicação.

O meu agradecimento especial ao vereador Batista Matos, jovem lutador, cioso, como poucos, do papel social do político moderno, integrado. Cidadão de muitas lutas por uma São Luís melhor, espírito conciliador, conhecedor da importância da comunicação, amante do esporte, Batista Matos tem honrado o seu mandato nesta Câmara Municipal com uma atuação firme, destacada e com pronunciamentos sempre contundentes.

Agradeço, por fim, a presença de todos que aqui vieram dividir comigo este momento.

Ao presidente Isaías Pereirinha e demais vereadores desta Casa, obrigado pela homenagem.

Tenham a certeza de que este título muito me alegra, emociona e envaidece. Esta data ficará gravada indelevelmente em minha memória, porque vai muito além da sua simbologia estampada na folha de papel.

Para encerrar, deixo aqui os versos do meu amigo poeta José Chagas, que já foi vereador e funcionário desta augusta Casa e sobre quem tive o privilégio de escrever um dos meus primeiros livros:

“Sou um
Entre um milhão
Numa cidade de quatrocentos anos
E tiro da manhã o que me toca
De sol o que me cabe
De ar o que é necessário
Para manter-me sentado
Sobre lascas de solidão
E pedras de silêncio quebrado
Pela anunciação do dia”

Muito obrigado.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Aceito seu coração



A música começa com um verso sereno, suave como um final de tarde de sábado na praia: “Eu não pensava que você viesse pra ficar”. E depois a balada vem inteira, sem rodeios, tomando de assalto o ouvido com tiradas do tipo “em cada dia quero ver de novo renascer/ o amor que nunca mais senti”. É assim mesmo, de tirar o fôlego, a maranhense Rita Ribeiro interpretando “Aceito seu coração”, música de um cara chamado Puruca gravada inicialmente por Roberto Carlos em 1969.

Não há exagero. “Aceito seu coração” é uma pérola aos românticos declarados, incorrigíveis. Sem esforço algum, a voz de Rita Ribeiro alcança uma simplicidade que encanta. A regravação da música pode ser vista num belo videoclipe perdido no oceano do Youtube, ali postado desde 2008. Vale o bilhete de embarque. Dirigido por Luciano Pérez e Jean Wyllys, aquele que venceu o BBB e depois se elegeu deputado federal, o videoclipe tem a medida certa da música, meio retrô, meio casual. O filme é uma elegia desgovernada pelo mar do Rio de Janeiro, alternando com a paisagem dos transeuntes da zona sul e com um cenário caseiro misturando vinhos, incensos, iPods e fotografias em sépia.

“Aceito seu coração” deve ser incluída no próximo CD de Rita Ribeiro. É música pra ouvir, virar pro lado e beijar na boca, como a rigor deve ser a utilidade das baladas românticas. Ou pra ouvir no carro, povoar o cinzeiro, rabiscar um desenho qualquer no papel com a cabeça nas alturas, andar na calçada com o fone no ouvido, pincelar umas letras, escrever uma carta, pendurar um quadro na parede, rever o porta-retrato, beber uma ideia...

A música não é de Roberto Carlos, mas o “Rei” tem dessas manias: deixar com a voz um espólio de canções simples que atravessam o tempo e se misturam com facilidade ao cotidiano. O disco de 1969 tem ainda músicas antológicas, como “Sua estupidez”, “Não vou ficar”, “As curvas da estrada de Santos” e “As flores do jardim da nossa casa”.

Não é uma música tristonha do tipo fossa ou dor de cotovelo, mas uma canção resignada, bem resolvida, que embala com sutileza qualquer romance estremecido, adormecido, e sacoleja corações distraídos. Você pode não acreditar. Apenas sinta.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A Constituição da França Equinocial

Oficialmente instalados em São Luís no dia 8 de setembro de 1612, com a fundação do Forte de São Luís, os franceses não tardaram a criar o primeiro documento que regeria a nova colônia. No dia 1º de novembro daquele ano, Daniel de La Touche, Cavaleiro e Senhor de La Ravardière, e François de Razilly assinaram o documento denominado Leis Fundamentais da Colônia da França Equinocial. O texto tem um valor histórico incomensurável e é considerado por alguns como a primeira constituição das Américas. A Constituição da França Equinocial é, portanto, uma espécie de registro de nascimento de São Luís, com regras severas que estabeleceriam a convivência harmoniosa entre os ocupantes da terra nova e os nativos tupinambás.

As leis fundamentais são especialmente cuidadosas, pelo menos no papel, com os índios e os padres capuchinhos. Para tanto, estabelecem nas primeiras linhas a obediência e respeito a Deus e instituem a religião Católica, Apostólica e Romana para os silvícolas. Em um dos trechos do documento, os emissários da corte francesa ordenam que não se cometa adultério, por amor ou violência, com as mulheres dos índios, sob pena de morte, “pois seria isso não só a ruína da alma do cristão, mas também a da colônia”. Igual punição seria atribuída ainda aos que violassem as mulheres solteiras da colônia.

Atos desonestos praticados contra as filhas dos índios – o que provavelmente seria o abuso sexual - transformariam o infrator, na primeira tentação, em escravo na colônia por um período de um mês. Na segunda tentação, seria amarrado com ferro aos pés por dois meses. Na terceira vez, estaria sujeito ao julgamento que a missão entendesse como justo – o enforcamento, por exemplo.

A pena de forca, aliás, era atribuída a quem cometesse furto pela segunda vez – em casos de “réu primário”, o infrator era açoitado ao pé da força, ao som da corneta, e condenado à suspensão de salários e outros benefícios por um ano. Acaso o furto fosse praticado por empregado doméstico, ainda que pela primeira vez, a forca era o caminho natural.

Leia a íntegra do documento:

Leis Fundamentais da Colônia da França Equinocial

Em nome de Sua Majestade, nós, Daniel de La Touche, Cavaleiro e Senhor de La Ravardière, François de Razilly, também Cavaleiro, Senhor do dito lugar e de Aunelles, procurador do alto e poderoso Senhor Nicolas de Harlay, Cavaleiro, Senhor de Sancy, Barão de Molle e Gros-Bois, Conselheiro de Estado e do Conselho Privado do Rei, loco-tenentes-generais de Sua Majestade nas Índias Ocidentais - tendo empreendido, por graça de Deus, o estabelecimento de uma colônia francesa no Maranhão e terras adjacentes, e a conversão dos habitantes ao cristianismo, de acordo com as intenções do Rei de França, nosso Soberano e Senhor, e de conformidade com o poder que nos outorgou Sua Majestade, como consta das cartas patentes que nos deu, e ainda em obediência à autoridade e à vontade da Rainha Regente, nossa Soberana e Senhora, julgamos necessário e conveniente, antes de qualquer outro alicerce, decretar, para esta colônia, as mais santas leis, e as mais adequadas, na medida do possível, ao nosso princípio, tendo por certo que sem a Justiça ordenada por Deus aos homens, sua imagem, não pode existir república alguma. Portanto, reconhecendo a graça, a bondade e a misericórdia demonstradas por Deus ao conduzir-nos tão felizmente a bom porto, começaremos pelas ordenações que dizem especialmente respeito a sua honra e a sua glória.

Ordenamos, pois, expressamente, a todos, quaisquer que sejam qualidades e condições, que temam, sirvam e honrem a Deus, observem seus santos mandamentos e prometam não estimar nem empregar senão os que souberem ter essa santa e reta intenção;

Ordenamos que não blasfemem em Seu santo nome, sob pena de multa para os pobres de França arbitrada pelo Conselho de conformidade com a qualidade das pessoas, até a terceira vez, devendo na quarta ser punido corporalmente o blasfemador, segundo sua qualidade;

Ordenamos a todos e a quem quer que seja, que honrem e respeitem os reverendos padres capuchinhos, enviados por Sua Majestade a fim de implantarem entre os índios a religião Católica, Apostólica e Romana, sob pena de serem punidos os infratores segundo o caso e a ofensa perpetrada;

Ordenamos que ninguém, qualquer que seja a condição, embarace ou perturbe os ditos capuchinhos no exercício da religião ou de sua missão de conversão das almas dos índios, isso sob pena de morte;

Depois de estabelecido nos artigos supramencionados o que diz respeito principalmente à glória de Deus, determinamos agora o que se relaciona com a honra de nosso Rei, o qual houve por bem distinguir-nos com sua escolha para representá-lo neste país. Ordenamos, pois, que ninguém atente contra nossas pessoas ou contra a vida da colônia, por meio de parricídios, atentados, traições, monopólios, discursos feitos no intento de desgostar os habitantes, e cousas semelhantes, e isso sob pena de ser o infrator considerado criminoso de lesa-majestade e condenado à morte, sem esperança de remissão;

Ordenamos expressamente aos que tiverem conhecimento de atos tão perniciosos, que os revelem incontinente, sob pena de igual castigo;

E como os membros de um corpo não podem existir sem um chefe que os dirija, ordenamos que cumpram todos os seus deveres para conosco e nos prestem a obediência que nos é devida, de acordo com a intenção de Sua Majestade, e empreguem suas forças e disponham de suas vidas em benefício desta colônia, em todas as ocasiões, empresas e descobertas necessárias, que porventura ocorram, sob pena de serem considerados covardes e tratados segundo sua infidelidade e desobediência.

Depois de estabelecido o que diz respeito à honra e ao serviço do Rei, representado em nossas pessoas, assim como ao bem-estar e à segurança desta colônia, ordenamos, para manutenção desta companhia e da sociedade, que vivam todos em paz e amizade, respeitem-se mutuamente, segundo as condições e qualidades pessoais, e desculpem uns aos outros suas fraquezas, como Deus manda, e isso sob pena de serem considerados perturbadores do sossego público;

Ordenamos que o edito relativo aos duelos, baixado pelo invicto monarca de feliz memória, Henrique o Grande, nosso falecido Rei, que Deus haja, seja estritamente observado em sua plenitude; e juramos nós jamais fazer algo em contrário, quaisquer que sejam as considerações, bem como não perdoar aos infratores. Por isso, proibimos expressamente aos principais de nossa companhia que jamais intercedam a favor dos faltosos, sob pena de nos desagradarem e passarem pelo vexame de uma negativa;

Ordenamos que o autor de qualquer homicídio, a menos que perpetrado comprovadamente em legítima defesa, seja punido de morte para exemplo;

Ordenamos que quem quer que seja, convencido de falso testemunho contra quem quer que seja, sofra a pena que caberia ao acusado;

Ordenamos que quem quer se encontre furtando, seja, da primeira vez, açoitado ao pé da forca, ao som da corneta, e sirva durante um ano nas obras públicas, com perda, nesse espaço de tempo, de todas as dignidades, salários e proveitos; da segunda vez, seja o infrator enforcado. Em se tratando de criado doméstico, seja já no primeiro roubo enforcado;

Depois de estabelecido o que diz respeito a esta companhia, tanto com referência aos bons costumes, relações mútuas, proteção de suas vidas e honras, como à segurança de seus bens, ordenamos, para a conservação dos índios entregues a nossa proteção, e também para atraí-los pela doçura ao conhecimento de nossas leis humanas e divinas, que ninguém os espanque, injurie, ultraje, ou mate, sob pena de sofrer castigo idêntico à ofensa;

Ordenamos que não se cometa adultério, por amor ou violência, com as mulheres dos índios, sob pena de morte, pois seria isso não só a ruína da alma do cristão, mas também a da colônia; igualmente ordenamos, sob pena idêntica, que não se violem as mulheres solteiras;

Ordenamos que não se pratiquem quaisquer atos desonestos com as filhas dos índios, sob pena, da primeira vez, de servir o delinqüente como escravo na colônia por espaço de um mês; da segunda, de trazer ferros aos pés por dois meses; da terceira, de ser conduzido a nossa presença para o castigo que julgarmos justo;

Proibimos ainda quaisquer roubos contra os índios, seja de suas roças, seja de outras coisas que lhes pertençam, sob as penas supramencionadas.

E para que tudo fique claro e bem acertado de uma vez por todas, ordenamos sejam estas ordenações lidas e tornadas públicas na presença de todos e registradas como leis fundamentais e invioláveis na secretaria geral deste Estado e colônia, para serem consultadas quando necessário. Em testemunho do que assinamos as presentes ordenações com o nosso próprio punho; e serão subscritas por um de nossos conselheiros, secretário ordinário. Forte de São Luís, Maranhão, dia de Todos os Santos, 1º de novembro de 1612, (aa) Raverdière - Razilly. Pelos meus senhores: (a) Abraão.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Tá ligado?


Humor e criatividade em pleno sol do meio-dia numa das ruas do Renascença. Apesar do trabalho pesado no frete de entulho e material de construção - e do calor intenso - olha a tirada na traseira da carroça: “Se bater o pau quebra. Tá ligado?”. Tá lá o número do telefone de contato na lateral da carroça e na blusa do carroceiro para quem quiser crer. Ou contratar!

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sobre ontem à noite

Não há comparação. A dor dos outros nunca será como a nossa. Apenas uma noção vaga é o que se vai ter. É como a alegria de ganhar um filho: difícil alguém saber exatamente o que é isso sem viver a experiência. Pode até imaginar, mas jamais sentir. Assim é com a dor, como se dor e felicidade se encontrassem e se desentendessem em algum lugar do infinito. À distância, é possível até ter a sensação nos ombros, mas jamais o sentimento de uma coisa ou outra.

Ninguém vai saber o quanto dói uma saudade no peito alheio. É impossível saber o quanto vai doer uma lembrança de um afago que não se alcança mais, pois ficou preso no esconderijo do passado. É improvável perceber a alma de alguém que chora por dentro, que se derrama em prantos toda vez que os sinos da memória dobram bem lá no fundo.

Quem vai sentir ainda uma vez o cheiro do banho tomado, do aroma de talco como quem acabou de chegar do barbeiro? Quem haverá de passar a mão sobre o cabelo ralo e molhado penteado para trás, tingido com fulgor para espantar o prateado dos anos? Ninguém vai lembrar da pele corada pelo sol do mundo, dos olhos tristinhos fitando o horizonte dos sonhos que não vingaram, do sorriso raro da noite passada, da paciência já em fim de linha, das manhãs de março pelos chãos das feiras, do cheiro de pão quentinho no final da tarde. Ninguém vai lembrar, senão aqueles que dividem a mesma dor.

Talvez no mercadinho reparem a falta, quem sabe no banco percebam o silêncio da conta. Mais cedo ou mais tarde vão notar o vazio que ficou no ar. Como aquela brisa que não volta, como um lamento que alguém canta ao longe, como a voz terna e cansada que repousa a oeste do peito, de tudo fica apenas o norte da saudade.

Não tem tamanho. Não é o fim, mas também não tem remédio ou prazo de validade. É a dor dos outros que não se enxerga a olho nu, mas que fala alto e atormenta, que não cessa e cresce da noite pro dia. Às vezes é um grito lancinante, noutras um gemido calado de alguém que ficou esperando a companhia na poltrona de tevê ou na cama de dormir. Ninguém vai saber ou domar. Essa dor vai longe, mas um dia brinca de ciranda com as pequenas alegrias da vida.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Cordel dos encantados


O começo da história não difere de muitos casos que acontecem no cotidiano das cidades e que ilustram os boletins de ocorrência de inúmeras delegacias. Um cidadão comum, taxista, numa noite de plantão na praça, tem a vida abreviada por dois tiros à queima-roupa e uma punhalada no peito. José Vieira da Silva foi morto no próprio táxi por Vanderlei Teixeira Batista, numa emboscada entre as cidades de Imperatriz e Açailândia, no Maranhão. Era 4 de abril de 1993. O taxista deixou filhos, esposa e um Corcel II que lhe servia de escritório.

Na cidade grande, o caso certamente ganharia as páginas policiais e seria servido como aperitivo em programas de rádio e TV que exploram os dramas urbanos, na faixa de audiência do chamado mundo cão. No interior nordestino, porém, casos como a morte de José Vieira ganham vida nos cordéis de artistas anônimos – poetas populares que sobre destroços, brigas, morte, religião, seca, casamento e política erguem versos. A história poderia estar estendida no varal da vida sob o título de “A peleja do taxista Zé Vieira e o desalmado Vanderlei”.

No Maranhão, o cordel nunca foi o forte. Mas, como em terra de poetas ter uma estrofe na manga é lei, o desfecho dessa história está num ensaio de cordel. O crime foi parar nas barras da Justiça e, curiosamente, acabou em poesia. Vanderlei Teixeira Batista foi a julgamento e condenado a 18 anos de reclusão pelo Tribunal do Júri Popular, em Imperatriz, no dia 24 de junho de 1993. A sentença, que recebeu o título de “Vistos etc.”, assinada pelo juiz da 2ª Vara Criminal, José de Ribamar de Castro Ramos, encerra o processo de número 78/93. “Vistos etc.” é uma decisão judicial peculiar porque não há registro anterior de outra que tenha sido proferida em versos no estado.

“Sou juiz, não sou poeta/ Mas faço verso e canção/ Na beira do Tocantins/ Imperador da região/ Hoje em forma de poesia/ Vou proferir esta decisão”. Assim começa a sentença do juiz Ribamar Ramos, mais conhecido como Baial. Os versos causaram estranheza entre os membros do conselho de sentença, o advogado, a promotoria, o próprio réu e a comunidade. Ninguém esperava que do julgamento de um crime bárbaro pudessem sair rimas.

Baial, hoje juiz aposentado, conta que a ideia inicial de proferir uma sentença em versos não foi bem digerida por seus colegas de magistratura. Naquele mês de junho, Baial havia participado de 16 júris e as sentenças em prosa, segundo ele, já não despertavam inspiração alguma. Restava, porém, a dúvida sobre a legalidade da sentença em verso. Depois de algumas consultas bibliográficas, decidiu apostar na força da métrica. “Se não há nada que proíba, por que não arriscar?”, ponderou à época.

Poeta é quem se considera

Ao longo da poesia o juiz vai construindo a sua sentença. Ainda nos primeiros versos ele dá o tom da decisão: “O réu em seu ato criminoso/ Feriu artigo do Código Penal/ Sendo, portanto, denunciado/ Pela sua ação ilegal/ Tirando a vida do semelhante/ Sem motivo para tal”. Baial apresenta na peça todos os ingredientes exigidos por lei, como relatório, fundamentação e dispositivos. Tece a pena baseando-se no artigo 121 do Código Penal e ainda abre uma fenda para o lamento. “O dolo foi intenso/ Praticado sem piedade/ Mediante pagamento/ Com requinte de crueldade/ Oh! Meu Deus que mundo cão/ Para quê tanta maldade?”.

Baial diz não ter ficado preso a estilos quando da criação do verso – ou da redação da sentença. Foi uma inspiração de momento, segundo relata, “que não coube a métrica perfeita”. Poetas populares mais exigentes dirão que a peça de Baial está cheia de “pé quebrado”. Há um fio tênue entre o cordel e o repente, na avaliação de estudiosos como a professora Marlyse Meyer. O poeta de cordel, também conhecido como poeta de banca, é mais dado a exigências na métrica, o que já não acontece com o repentista – ou cantador de viola. Este prende ou solta a voz no momento conveniente para acertar, macio, a rima e empolgar o espectador. Já o leitor de cordel quer a precisão da rima no ato, ou seja, os versos de uma estrofe devem coincidir no número de sílabas. Faltou uma sílaba, caiu no “pé quebrado”, algo imperdoável para o homem simples do interior nordestino, exímio conhecedor do poema de banca.

“No salão deste plenário/ Dou a presente por publicada/ Às dezenove e dez minutos/ E as partes intimadas/ Registre-se e comunique-se/ A sessão está encerrada”. Nesta estrofe, com a qual Baial conclui a sentença, há versos de oito, nove e dez sílabas. O segundo, o quarto e o último versos não coincidem no número de sílabas. Nas 29 estrofes de “Vistos etc.” há trechos de seis, sete e oito versos - predominam as sextilhas.

Se pisou na métrica, Baial não sabe dizer. Afirma que à época não conhecia a regra. O certo é que o juiz poeta conseguiu o que queria. A sentença virou notícia e entrou para a história. José de Ribamar de Castro Ramos figura hoje entre os poucos magistrados brasileiros que ousaram na pena. A inspiração ele diz ter brotado de suas andanças pelo interior do Maranhão e do canto pungente de Patativa do Assaré. Nasceu em Barreirinhas e, como juiz, morou em Urbano Santos, Penalva, Vitorino Freire, Imperatriz, Santa Inês e São Luís. Deixou a comarca de Imperatriz depois de conduzir processos polêmicos. Ele foi o responsável pelo julgamento dos envolvidos no assassinato do prefeito Renato Moreira; e reabriu, 10 anos depois de interrompido, o caso da morte do padre Josimo Tavares. “Muita gente foi presa e tive de deixar a cidade após algumas ameaças de morte”.

O passo seguinte foi Santa Inês. Lá, o advogado Leonel Marinho, conhecendo a fama do juiz poeta, decidiu partir para a provocação. Ao ser procurado pela cliente Arlete Gama de Lima, que pretendia receber do ex-marido pensão alimentícia para o filho, Marinho abriu mão da prosa e resolveu versejar na petição. “A maior ignorância do homem/ Além de romper a aliança/ É fazer pirraça com a ex-mulher/ Impondo-lhe uma vingança / E inclusive fazendo sofrer/ Uma pobre e indefesa criança”. O advogado queria, na verdade, despertar a veia poética de Baial, que não se fez de rogado e soltou o verbo no despacho: “Fixo os alimentos provisórios/ Em 20% do salário do requerido/ De seus rendimentos integrais/ E tudo mais que é devido/ Devendo de seus vencimentos/ Todo mês ser abatido”.

E o “desalmado” Vanderlei? Distante da poesia daquele amargo São João de 1993, hoje cumpre o restante da pena em regime semi-aberto. Durante o dia tenta a vida como vaqueiro no Parque Independência e à noite segue para dormir em Pedrinhas, na companhia de outros sentenciados.

Versejar: verbo intransitivo

Os versos na seara do Direito ainda são parcos e somente alguns ganharam registro definitivo na memória popular, como é o caso de um pedido de habeas corpus para um inócuo violão. Em 1960, um juiz da cidade de Campina Grande, na Paraíba, decidiu proibir as serestas que se estendiam até altas horas da noite. Numa madrugada daquele ano, a pedido de beatas insones, o delegado resolveu cumprir a medida judicial e levou presos um seresteiro incorrigível e o seu violão. O boêmio conseguiu safar-se da cadeia no dia seguinte, mas o delegado decidiu manter o violão atrás das grades.

“Todo mundo na Paraíba conhece essa história”, diz, orgulhoso, o ex-governador paraibano Ronaldo Cunha Lima. Em 1960 ele era apenas um jovem advogado em começo de carreira, tão boêmio quanto o seresteiro transgressor. Por conta de sua intimidade com a noite e a boêmia, Cunha Lima fora convidado para defender a causa do seresteiro, inconsolável com a prisão do violão.

Cunha Lima entrou com uma petição pitoresca na Segunda Vara da cidade, denominada “Habeas pinho”. Com argumentos de deixar qualquer juiz suado na toga, o advogado invocou inspiração e desferiu 10 implacáveis estrofes. “O instrumento do crime que se arrola/ Neste processo de contravenção/ Não é faca, revólver, nem pistola/ É simplesmente, doutor, um violão”. No sétimo ato o advogado implora: “Mande soltá-lo pelo amor da noite/ Que se sente vazia em suas horas/ Pra que volte a sentir o terno açoite/ De suas cordas leves e sonoras”. O juiz, diante da petição, não teve outra escolha. Recorreu à poesia e, em verso ligeiro, decidiu pela “soltura” do violão.

domingo, 7 de agosto de 2011

Restos de poesia e carnaval

Ferreira Gullar e Joãosinho Trinta relembram, 60 anos depois, a partida de São Luís para o Rio e a confluência de temas em suas obras definitivas

Há 60 anos eles trocavam São Luís pelo Rio de Janeiro. João Jorge Clemente Trinta deixava para trás a família e o berço de menino gauche. Aos 18 anos levava para longe, a bordo do vapor Ita, o tempero da encantaria. José Ribamar Ferreira carregava o espanto na bagagem e, pelo retrovisor da viação Estrela Dalva na estrada comprida, o olho fitava o último pedaço de ilha estirado sobre o oceano. Tinha 21 anos quando partiu a vida em duas metades – parte vertigem, para sempre impregnada na alma; parte linguagem, construída, negada, renovada ao sabor do tempo. Era 1951, o ano da greve que inventou a rebeldia na Ilha de São Luís. Eles não estavam na praça, não carregavam bandeiras. João e José mal se conheciam e sequer desconfiavam que no futuro um reluziria daquilo que é lixo, outro imortalizaria a sua pena naquilo que é sujo.


Joãosinho Trinta e Ferreira Gullar ganharam o Rio de Janeiro para depois ganhar o Brasil, ganhar o mundo. Jogaram o jogo da arte, que nem sempre permite os sete erros. João abriu mão do Clemente e do Jorge no nome. Trocou o “z” pelo “s” e foi viver o Joãosinho Trinta que o Carnaval não esquece. Como um José que não era e um Ribamar que não foi, Ferreira juntou-se ao Goulart da mãe Alzira até se revelar o poeta que é. E assim seguiram o rito de passagem. Dois personagens divididos bem no centro do século 20. Uma cidade pacata e miúda e amada, uma ilha recortada pela água turva do Anil. Outra cidade densa e bela e imperfeita, da Guanabara caprichosa, da então capital dos brasileiros, do retiro de bandeirantes nordestinos. Era São Luís. Era o Rio.


A timidez da velha aldeia tupinambá fazia crescer a vontade de partir. O plano na bagagem era um só: abrir caminhos. Se ficassem, talvez não restassem caminhos ou planos, talvez o chão da cidade encolhesse ainda mais. Se partissem, deixariam a incerteza submersa na baía de São Marcos, morta por afogamento. O visgo eram a família, a casa quieta, a praça Gonçalves Dias, os amigos, as ruas da Paz, da Alegria, de São Pantaleão, a pelada depois das quatro no campo do Ourique, os encontros fortuitos, as bronhas reveladas nos buracos das fechaduras das meia-moradas (o “cuspo morno no membro”), o mar lambendo a soleira dos casarios.

Joãosinho Trinta conta que alimentava uma paixão arrebatadora por uma garota chamada Lígia, filha de Silvestre Fernandes, diretor da escola onde estudava. O sonho era partir com ela para o Rio. “Nosso plano não vingou, éramos muito novos, paixão de adolescente”. Lígia ficou. Joãosinho recebia as primeiras lições de teatro na escola, mas o que o fascinava mesmo era a dança. Conspiração do destino, desembarcou no Rio no domingo de Carnaval, Praça Mauá, roteiro inicial da festa carioca. Aturdido com tanta informação, saiu em busca do primeiro endereço, um pensionato no Flamengo. “Embora admirado com tudo o que vi, ali o Carnaval ainda não pulsava em mim definitivamente. Saí de São Luís em busca da dança, do teatro e da ópera”.
Gullar e Joãosinho desceram num Rio desconhecido, sem qualquer carta de recomendação, sem as bênçãos da Corte, o apadrinhamento político, a mão estendida de parentes. Cara e coragem. Eram jovens, filhos de famílias simples, e por isso mesmo enfrentaram dificuldades no primeiro ciclo da travessia.

O salário minguado no emprego de auxiliar de escritório ajudava Joãosinho a pagar as aulas de dança clássica. Aprovado no concurso para o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio, antes mesmo de assumir a nova atividade pediu as contas do escritório. Sem salário, foi despejado da pensão e viveu um dos períodos mais difíceis de sua vida, segundo relata, até se iniciar na carreira de bailarino profissional. Chegou a dormir em trens do subúrbio e a comer as sobras das amêndoas que caíam na Praça Paris, como relata o publicitário Fábio Gomes no seu livro “O Brasil é um luxo – trinta carnavais de Joãosinho Trinta” (2008).

Ferreira Gullar chegou ao Rio em agosto, bairro da Glória. Deixou em São Luís o primeiro testamento, a investida inaugural na literatura, o livro “Um pouco acima do chão” (1949), depois abjurado pelo poeta. Só mais tarde descobriria que o poema não estava exatamente acima do chão, mas no rés dele, no fundo, quem sabe apodrecido feito restos no monturo, na lavagem, no ferro retorcido. Não levou planos de colação de grau, diploma de universidade, uma graduação qualquer acadêmica. Mas havia nele o impulso para a leitura devoradora. Fez dela um sacerdócio. A incursão pelos livros de filosofia indicados pelo amigo Mário Pedrosa e a sensibilidade de poeta deram a Gullar a água tônica do discurso sobre as artes, despertaram nele a verve de crítico tenaz do trabalho de artistas plásticos. Logo passou a escrever para jornais e a fazer parte da roda de artistas como Lígia Clark, Hélio Oiticica e Amílcar de Castro, além do próprio Mário Pedrosa.


Vergonha do Maranhão

Gullar diz que conheceu Joãosinho logo que chegou ao Rio, por intermédio do amigo em comum Kléber Fernandes. Encontraram-se outras vezes e até se visitaram. Cada um com o seu traçado. Joãosinho entrou de vez para o corpo de baile do Municipal. Obstinado no ofício da dança e do teatro, dedicou-se a acompanhar a montagem da cenografia dos espetáculos. Foi dando pitacos aqui e ali que conheceu os cenógrafos Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona, com quem se envolveria tempos depois na engrenagem colorida do Carnaval carioca. Primeiro como aderecista de Pamplona e Rodrigues, influências generosas e definitivas. E logo em voo solo, como maestro principal da alegria.

Depois de “Um pouco acima do chão”, Gullar pôs em conflito a sua linguagem de poeta até “entender” o que de fato era poesia. Encontrou resposta ainda em São Luís numa leitura de versos assombrosos, segundo ele, contidos no livro “Elegias de Duíno”, de Rilke. Passou a ler em outra direção experimentando nos sebos os solavancos de Valéry, Rimbaud, T.S.Eliot e Hoffmann até chegar em Drummond e Bandeira. Descobriu que, aos 20 anos, era um poeta novo empunhando uma linguagem velha, fruto de uma base parnasiana rigorosa. Foi nesse transe que já chegou ao Rio carregando as primeiras tintas de “A luta corporal”, livro-ruptura lançado em 1954, mesmo ano em que se casa com a atriz Thereza Aragão. Gullar, aos 24 anos, chegara à conclusão, com a publicação de “A luta corporal”, de que a sua poesia havia chegado ao fim, a linguagem havia se desintegrado. A conclusão perturbadora o levaria à poesia concreta dos irmãos Campos, com quem romperia pouco depois para lançar o “Manifesto da Poesia Neoconcreta”.

Assombros recorrentes deixaram Ferreira Gullar e Joãosinho Trinta afastados de São Luís em dado período. Gullar, pelo conflito permanente com a poesia e o instinto natural da sobrevivência em terra nova, passou cerca de dez anos sem voltar ao Maranhão. Foi ainda estudando dança nos galpões da União Nacional dos Estudantes (UNE), por onde passavam alguns maranhenses em visita ao Rio, que Joãosinho enfrentou um dos seus maiores dissabores. Certo dia um cunhado o viu dançando no palco e esbravejou:

- Você é a vergonha do Maranhão!

Aquilo soou como uma sentença para Joãosinho, condenado por alguém de casa a se manter distante de sua terra, de sua gente, porque vestia uma malha apertada ao corpo e calçava as sapatilhas da desonra. Dança, para o parente envergonhado, era coisa de mulher ou de veado. E assim cumpriu uma pena dolorosa, de mais de 40 anos, acreditando ser, de fato, a vergonha do Maranhão. Só voltaria a São Luís em meados dos anos 1990 para receber uma homenagem do governo estadual, convencido enfim de que nunca fora motivo de vergonha para os maranhenses, mas de orgulho. “Aquilo ficou guardado, me remoendo como uma doença sem cura. Eu já era tímido, e aquela atitude me tornou uma pessoa ainda mais reservada”.

A timidez, contudo, não cortou as asas do artista que trocou o palco do Theatro Municipal pelos barracões incandescentes do Salgueiro e ali começou a escrever a história do maior carnavalesco que o Brasil já conheceu. Como alinhava Fábio Gomes, de 1974 em diante, quando tomou a frente dos desfiles do Salgueiro, “foram nove títulos, mas poderiam ter sido dez, onze, até quinze, caso houvesse maior isenção e os jurados tivessem feito justiça a Carnavais memoráveis”.

A obra de Joãosinho Trinta, segundo Fábio Gomes, não pode ser analisada somente pelos títulos conquistados. Os melhores carnavais, aqueles mais impactantes e provocadores, não levaram o campeonato. Do Salgueiro para a Beija-flor e depois Viradouro e Grande Rio. Em cada uma dessas escolas deixou a marca do inventor incomum de cores e luzes. Alucinado, usou o delírio para fustigar os seus monstros com lampejos de genialidade. Da passarela resplandeciam suas visões de paraísos e infernos. Joãosinho fazia um espetáculo não para a televisão, mas para o asfalto, como se tablado de teatro o asfalto fosse. Era mais enredo, menos samba.


Samba, descaminhos e estilhaços da memória

Foi Thereza Aragão quem acabou juntando um pouco mais Joãosinho e Gullar no Rio. Ela era muito ligada ao samba e participava de uma ala no Salgueiro. “Eu também gostava de samba, de assistir aos desfiles, e íamos juntos aos ensaios, primeiro no Salgueiro e depois na Beija-flor. Thereza e o samba acabaram me aproximando do Joãosinho”, relata, por telefone, o poeta.

Do neoconcretismo para o Centro Popular de Cultura da UNE. De um ponto a outro, Gullar fundiu poesia e política, cordel e comunismo, teatro e clandestinidade até lançar, em 1975, “Dentro da noite veloz”, seu livro mais denso, carregado, o verso subvervo. Com o país sob a nuvem do Ato Institucional nº 5 da ditadura militar, o engajamento político ensejou a prisão do poeta. O exílio o levou ainda para mais longe de São Luís: Moscou, Santiago, Lima e Buenos Aires. Tão distante, bafejado pelo mundo grande que ao mesmo tempo “espanca e comove”, o poeta deixou-se levar pela explosão de sentimento como se estivesse exorcizando, por meio da acidez da palavra, a infância e a juventude vividas em São Luís, até então latentes em sua obra. “Poema sujo”, lançado em 1976 no Brasil sem a presença do autor exilado, é o livro definitivo de Gullar, o anti-hino derradeiro, brasileiro e universal, de quem grita ao longe a sua cidade velha e nua, parida no garrancho de uma Remington.

“Ah, minha cidade suja
de muita dor em voz baixa
de vergonha que a família abafa
em suas gavetas mais fundas
de vestidos desbotados (...)”


Os estilhaços da memória se espalharam na resma de papel de maio a outubro de 1975. Ao escrever as primeiras linhas de “Poema sujo”, num só fôlego, Gullar estava convencido do peso de cada palavra, da força do moinho das reminiscências. Não era um réquiem à saudade, mas uma sinfonia em retalhos alternando êxodo (São Luís) e exílio (a Via Láctea, naquele instante): o azul da cidade úmida, o moedor de pimenta da tia Bizuza, o quintal da casa, o cheiro do jasmim ainda que sujo, o bordado das toalhas de mesa, a dor silenciosa da gente humilhada, o pouco dinheiro, o perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno. Uma canção de exilado sem pássaro ou palmeira, um grito de socorro. Quando tudo parecia chegar ao fim, o homem acossado em Buenos Aires encontrou a porta de saída no horizonte brumoso do poema, na imunda platibanda vista da varanda, nas dobras da brisa dos 45 anos de idade. “Estou certo de que o poema me salvou: quando a vida parecia não ter sentido e todas as perspectivas estavam fechadas, inventei, através dele, outro destino”.

O poema sujo de Joãosinho Trinta viria a lume 13 anos depois do lançamento do livro-espasmo de Gullar. De intensidade similar, porém de vida efêmera como deve ser uma festa de Carnaval, a poética de Joãosinho vestiu-se de mendigo e invadiu a passarela do samba carioca com o tema “Ratos e urubus, larguem a minha fantasia”, em desfile antológico da escola Beija-flor. O carnavalesco maranhense já havia ousado em outras apresentações, mas não de forma tão polêmica. E a ousadia era mesmo o excesso de beleza nas fantasias, na caracterização do enredo, no banho de criatividade das alegorias. Acuado pela crítica por abusar do luxo nos adereços em desfiles anteriores, com “Ratos e urubus” Joãosinho dera a resposta em grande estilo aos seus detratores, uma espécie de inventário da sobrevivência, como fora o poema na vida de Gullar.

“Ratos e urubus”, de 1989, foi um soco na desatenção, um olhar instigante sobre as mazelas de um país vice-feliz. No lugar do luxo escancarado, o lixo. Restos da rua, farrapos humanos, material em decomposição. Do desperdício, da sujeira de homens e máquinas, do descartável foi montado um dos maiores espetáculos de Carnaval no Brasil. Uma imagem do Cristo Redentor, apesar da contra-ordem da Igreja Católica, provocou euforia no público e repercussão na imprensa ao entrar na avenida, coberta por sacos de lixo e uma faixa com a mensagem “Mesmo proibido, olhai por nós!”. Joãosinho Trinta juntou no mesmo tacho o lixo do sexo com a sujeira da política, o lixo das trevas com a descrença em templos e catedrais de fachada, o lixo dos loucos e a podridão de cartolas do futebol. O mais memorável de todos os desfiles de Joãosinho, contudo, ficou em segundo lugar no somatório das notas do júri. Para o público, aquele fora o enredo mais vibrante, inteligente e provocador. Ou “escandaloso, criativo e profundo”, como proclamou o “Jornal da Tarde”, de São Paulo. “Quando fiz aquele Carnaval, no Brasil ainda nem se falava em reciclagem. Certamente foi um trabalho de vanguarda. Ali nasceu uma ideia de transformar o lixo em algo útil e belo”, explica o carnavalesco.


No primeiro desfile solo de Joãosinho Trinta, em 1974, ainda no Salgueiro, o Maranhão estava presente no enredo “O Rei de França na Ilha da Assombração”, primeiro lugar entre as escolas do grupo especial. Outra homenagem ao torrão natal viria em 2002, já na escola Grande Rio, com o enredo “Os Papagaios Amarelos nas Terras Encantadas do Maranhão”. Mesmo distante por longos anos, Joãosinho alimentou uma relação de cumplicidade com São Luís em sua obra. Por meio de amigos, por meio de lembranças fugidias. “Sempre estive por perto. Nunca tirei certas pessoas do meu coração, mesmo sem vir a São Luís”.

Nos últimos 12 anos, Gullar adquiriu um certo temor de viajar de avião em roteiros longos. “Acabei me afastando da minha cidade em decorrência disso, coisa que lamento muito”. Ele diz que se não tivesse nascido em São Luís não seria poeta, mas certamente outra coisa, outra pessoa. Não teria crescido com o cheiro na memória de fruta passada da quitanda do pai Newton Ferreira. Ou compartilhado o desassossego da primeira juventude e o gozo de descobertas traquinas com os amigos Esmagado, Espírito da Garagem da Bosta e Canhoteiro. “São referências que não se apagam. São Luís faz parte de mim, do meu sangue, da minha alma; é onde está a minha família”. O poeta que nasceu na rua dos Prazeres, esquina com a rua dos Afogados, e virou nome de avenida em São Luís, recebeu em 2010, aos 80 anos de vida, o Prêmio Camões, o mais importante reconhecimento a um autor de língua portuguesa.

Somente depois de instigados é que um e outro se dão conta de um paralelo acidental em suas vidas. O eixo? São Luís e Rio. Poema lixo e carnaval dos sujos. “Ambos, cada um com os seus fantasmas, pegamos aquilo que estava à margem, podre, e transformamos em matéria-prima da arte”, constata o menino-luz encantador de plateias, que voltou a morar na velha aldeia de ontem. “Ferreira Gullar é para mim o encantado”, diz ele. Gullar considera Joãosinho também um poeta. “À maneira dele, mas é um poeta”. “Logo ali no início, quando passamos a conviver no Rio, eu já tinha a certeza da estrela de Gullar”, devolve Joãosinho.

Ferreira Gullar e Joãosinho Trinta. Nenhum dos dois se prende ao particular, ao saudosismo de partida e chegada de qualquer cais. Trocaram de mar em 1951. Como marinheiros de penúltima viagem, se confundem com o próprio farol. Sem guizo, são senhores de upaon a sul.

Fragmentos de entrevista

“Além da admiração por Gullar, existem entre nós laços de amizade muito fortes. É como se ele fosse um irmão para mim”

Joãosinho Trinta

“Por diversas vezes escrevi sobre Joãosinho Trinta nas minhas crônicas. Uma delas foi quando ele provocou aquele choque com o desfile sobre o lixo. Esse enredo foi formidável”

Ferreira Gullar

“Nesse convívio com o grupo de Gullar, com a turma do grupo Opinião, com o estudo de dança, a vivência no teatro, a ópera gritando dentro de mim... Foi esse conhecimento da época que me fez dar o salto para o Carnaval”

Joãosinho Trinta

“Foi em São Luís onde eu cresci, vivi a minha infância e parte da juventude. Isso ninguém esquece. Esmagado, Espírito, Canhoteiro, a quitanda do meu pai, as praças. Essas são referências que não se apagam. O Poema Sujo nasceu disso tudo”

Ferreira Gullar

“O mundo, na verdade, é um espanto! É uma surpresa extraordinária. Eu não sou poeta. Poeta é Gullar. Só ele fala como ninguém, como ninguém, como ninguém!”

Joãosinho Trinta

“Mesmo distante, mantenho ligação afetiva com a minha cidade, onde mora boa parte da minha família. Sempre falo com meus irmãos, tenho notícias daí. Dificilmente poderei voltar, e eu lamento”

Ferreira Gullar

“Poucas pessoas compreendem tanto Ferreira Gullar como eu, por mais que a linguagem dele seja universal”

Joãosinho Trinta


Trechos de "Poema sujo", recitado por Ferreira Gullar

Trechos do desfile "Ratos e Urubus", de Joãosinho Trinta