O corte epistemológico vaticinado por Althusser nas aulas de Teoria da Comunicação abriu a fenda entre os livros oficiais apreciados ainda na escola e a literatura arejada, deliberadamente desgovernada, encontrada nos corredores, emprestada de mão em mão ou vendida nos sebos e bancas a preço módico. Era lendo "Utopia e paixão", do escritor e psicanalista Roberto Freire (com Fausto Brito), que meninos e meninas desabrochavam para o movimento estudantil na universidade. O velho anarquista vendia livros como água pelo campus. Tinha uma pegada proposital para cutucar jovens em início de vida acadêmica, atormentados com tanta ciência e filosofia no lombo. Fazia dos títulos dos livros uma deliciosa provocação: "Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu", "Sem tesão não há solução", "Ame e dê vexame" e por aí vai.
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quarta-feira, 29 de junho de 2011
domingo, 26 de junho de 2011
Maio oito meia (3) - O rito de chegada
Brasil Novo, Plano Cruzado, velho clientelismo, preços congelados, explosão do consumo. O rock brazuca pulsava dentro e fora das universidades. A fumaça tomava conta da Área de Vivência do campus do Bacanga enquanto as calouradas se multiplicavam pelas sextas-feiras do semestre. Era o meu primeiro período de Economia, escolha pouco iluminada que tomou quase três anos de vida acadêmica, talvez alimentada pela boa lábia de Dílson Funaro, João Sayad, Edmar Bacha e pelo choro copioso e terno de Maria da Conceição Tavares. Confesso que insisti, e havia tolerância recíproca – um pacto de mediocridade sem firma reconhecida -entre mim e os professores Orlando Furioso, Magalhães, Flávio Farias, Benjamim, Eliseu e tantos outros alcançados pelo meu desencanto tardio.
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sexta-feira, 24 de junho de 2011
Maio oito meia (2) - No templo das provações
Aquele homem de chapéu de palha, mal vestido, pele suada e gestos largos falava diferente. O timbre da voz e o discurso eram diferentes. Uma oitava acima, falava com emoção sobre campesinato, reforma agrária, sangue na luta pela posse da terra, grilagem e revolução. Bem articulado, usava as palavras mais simples, às vezes desconexas, e tropeçava na gramática, mas ganhava a plateia pelo discurso inflamado. Setembro de 1985. O Grêmio Estudantil Coelho Neto, do Colégio Marista, convidara alunos de outros escolas para o debate com os candidatos à prefeitura de São Luís. Era a primeira eleição para prefeito com o carimbo da Nova República, depois de 20 anos de regime militar. Na plateia do auditório do Marista estavam secundaristas ávidos por embates, informação e festa.
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quarta-feira, 22 de junho de 2011
Maio oito meia (1) - No templo das provações
Caía uma chuva leve no Campus e revolução já não havia naquela segunda metade dos anos 80. O Brasil atravessava a década da melancolia pós-ditadura, da falta de bandeira, da rebeldia sem causa, da fragilidade dos discursos, do bacanal político, da insolência roqueira no Planalto Central, da tempestade em copo d'água nas praças e ruas. Era uma outra luta, agora sem o chumbo das armas, pelos direitos humanos à luz do dia, nas fábricas, no trabalho, no consumo, no comportamento.
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quinta-feira, 16 de junho de 2011
Testemunha afirma que foi coagida por delegado
EDISON LUIZ
FÉLIX ALBERTO LIMA
O Estado de São Paulo
18.06.1999
Prefeita diz que policiais a ameaçaram, na frente de Campelo, para forçá-la a depor contra ex-padre
A prefeita pefelista de Belágua (MA), Rosalina Costa Araújo, confirmou ontem que foi coagida moral e fisicamente pelo delegado João Batista Campelo, atual diretor-geral da Polícia Federal, para depor contra o ex-padre José Antônio de Magalhães Monteiro, em 1970. Segundo Rosalina, os policiais, na frente de Campelo, diziam que iriam “esbofeteá-la” e um deles chegou a apertar seu braço tentando fazê-la confessar que Monteiro era subversivo.
Ela contou que o atual diretor da PF, que assistia a tudo sem nada fazer, modificou todo o seu depoimento para comprometer o ex-padre, que acusa o delegado de tê-lo torturado. “Nada do que eu disse na PF estava no inquérito”, disse a prefeita, que foi arrolada como testemunha de acusação de Monteiro.
Rosalina não gosta de falar muito sobre sua prisão, ocorrida no mesmo dia que a de Monteiro. Segundo relatou, os policiais federais, comandados por Campelo, interceptaram seu carro quando ela ia de Urbano Santos a São Luís, obrigando-a a voltar para o município, onde o ex-padre seria preso horas depois. “Monteiro estava algemado mas, em nenhum momento, vi seus pulsos feridos, como diz o delegado Campelo”, explicou Rosalina. O diretor da Polícia Federal assegurou que os ferimentos em Monteiro teriam sido causados pelas algemas. “Elas estavam até frouxas”, acrescentou Rosalina.
A prefeita parece esconder algo mais grave que possa ter ocorrido no interrogatório de uma hora a que foi submetida. “Não gosto de lembrar disso”, desconversou, alegando que não recordar mais dos acontecimentos. Sua filha Laura, de 27 anos, entretanto, confirmou que alguma coisa ainda permanece oculta. Como a mãe, preferiu não falar, mas chorou ao lembrar daquilo que supostamente seja fato. “O delegado Campelo era um homem duro, grosseiro”, admitiu Rosalina, assegurando que, por algumas vezes, ele permitiu que seus agentes gritassem com ela e até mesmo lhe apertassem o braço, tentando arrancar uma confissão.
“Eu falava que não sabia de nada, e eles [os policiais] afirmavam que, caso não contasse a verdade, seria pior”, comentou Rosalina. Segundo ela, o que impediu uma agressão maior por parte dos três policiais que estavam na mesma sala de Campelo foi a presença de sua família, que a aguardava no primeiro andar do prédio onde ficava a Polícia Federal. Entre os seus parentes, estava o coronel Eduardo Mota, um cunhado. “Se minha família não estivesse lá, talvez eu teria sido agredida”.
Reconhecimento – Rosalina contou que até hoje não sabe porque foi arrolada como testemunha de acusação contra Monteiro, já que não tinha ligação com o ex-padre. Ela era tabeliã do cartório de Urbano Santos. “Campelo me disse que, caso eu não falasse que Monteiro era subversivo, iria perder o meu cartório”, recordou. “Só fui tomar conhecimento do que havia assinado na PF depois que o caso já estava na Justiça Militar”, acrescentou a prefeita, hoje com 66 anos.
As afirmações de Rosalina coincidem com a conclusão tirada pelos juízes da Auditoria da 10ª Região Militar, que inocentou o ex-padre por falta de provas. Segundo a sentença proferida em outubro de 1970, dois meses depois da prisão de Monteiro, os juízes confirmaram que os depoimentos das testemunhas revelam a coação física e moral pela qual passaram durante a fase do inquérito. Os auditores asseguraram, ainda, que o inquérito havia sido feito de forma errada pelo delegado Campelo.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Testemunha da tortura – entrevista com o bispo Dom Xavier Gilles

FÉLIX ALBERTO LIMA
O Estado do Maranhão
16.06.1999
O bispo dom Xavier Gilles de Maupeou d’Ableiges, do município de Viana (MA), a 240km de São Luís (MA), mostra-se inconformado com a nomeação do delegado João Batista Campelo para o comando da Polícia Federal. Dom Xavier Gilles é formado em Teologia e Filosofia na França, foi ordenado padre em 1962, na cidade de Le Mans, e chegou ao Maranhão em 1963. Em entrevista a “O Estado”, dom Xavier nega que tenha participado de guerrilhas na Argélia, quando serviu ao exército francês, e confirma as denúncias de tortura sofridas pelo ex-padre José Antônio de Magalhães Monteiro. “Estive preso com o padre Monteiro e pude ver as marcas e as escoriações deixadas pela Polícia Federal. O bispo afirma que só não chegou a ser torturado na prisão porque o então arcebispo de São Luís, dom João Mota, fez sérias advertências ao delegado da PF.
Como foi sua experiência na Argélia? Há alguma ligação sua com guerrilhas da Frente de Libertação, como o acusaram na época da ditadura?
Dom Xavier Gilles - Como todo mundo sabe, [aquele período] era a guerra de independência da Argélia. Havia a Frente de Libertação Nacional tentando conseguir a independência da Argélia. A França considerava aquele país como território nacional. Não tenho nenhuma participação em guerrilhas. Não é nada disso. Apenas a polícia federal me acusou de ter participado de centros de treinamento de guerrilhas com a Frente de Libertação Nacional da Argélia. Coisa absolutamente falsa, quando na verdade eu era do exército francês e não da FLN.
Como aconteceram as prisões sua e do ex-padre Monteiro?
Dom Xavier Gilles – Fomos nomeados, eu e o Monteiro, respectivamente, pároco e vigário paroquial, em Urbano Santos e São Benedito do Rio Preto. Chegamos juntos em maio de 1960. Começamos a fazer um trabalho de pregar a palavra de Deus, organizar as comunidades eclesiais. O trabalho era fazer a ligação entre o trabalho e a vida. E aí olhávamos para outros aspectos, como a situação agrária e a vida dos trabalhadores. Havia muita injustiça. Com as comunidades, denunciamos algumas injustiças. Refletíamos sob a luz do Evangelho essa realidade agrária.
Vocês dois foram acusados pela polícia de estarem envolvidos em atividades subversivas?
Dom Xavier Gilles – A fé, o testemunho e a mensagem de Jesus Cristo invertem os valores da sociedade. A sociedade se firma nos valores ter, poder e prazer. E Jesus disse: “Seja misericordioso, acolhe o teu irmão, liberta o pobre das cadeias da escravidão”. Havíamos recebido da igreja uma missão. Não havia, portanto, como parar uma missão recebida por nós sacerdotes só por medo.
Vocês receberam ameaças antes da prisão?
Dom Xavier Gilles – Um pouco. Por causa de problemas agrários no Maranhão. Muitas vezes, os verdadeiros proprietários de terra são expulsos por gente que trafica nos cartórios e até na justiça, que consegue títulos de propriedade que não deveria ter. Então, recebemos ameaças desses falsos proprietários de terra. Só não chegamos a ser ameaçados diretamente pela polícia.
O que exatamente associava o trabalho de vocês à subversão?
Dom Xavier Gilles – Não havia nada nas cartas que nos comprometesse como subversivos. Quando o padre Monteiro foi preso, por exemplo, levaram junto a escrivã Rosalina [Rosalina Costa Araújo], de Urbano Santos, sem razão nenhuma. Talvez apenas porque ela não era do mesmo lado político do pessoal que tinha feito as denúncias contra nós. E a Polícia Federal, sem verificar nada, prendeu essa escrivã, acusando-a de ser secretária da Paróquia. Vai perguntar por que, naquela época, o João Batista Campelo fazia isso, por que razão ele monta um processo sem sentido.
Qual a alegação da Polícia Federal para a sua prisão?
Dom Xavier Gilles – Éramos vigários juntos. A polícia invadiu a Casa Paroquial, o padre Monteiro foi trazido para São Luís e torturado. Rapidamente a polícia viu que não poderia acusar o padre Monteiro, que era vigário auxiliar, sem me acusar. Então foram atrás de mim. O arcebispo de São Luís, que era dom João Mota, foi falar comigo e disse que era preciso eu me entregar porque o processo do padre Monteiro estava bloqueado. Os motivos de minha prisão só fui saber algum tempo depois. Diziam que era por causa da Lei de Segurança Nacional.
Vocês dois ficaram presos na mesma cela?
Dom Xavier Gilles – Só depois de terminar o inquérito. Fomos, depois de terminar o inquérito na Polícia Federal, presos os dois no quartel da Polícia Militar, no atual Convento das Mercês. Foi o Campelo quem fez tudo. Era ele o delegado da Polícia Federal. Ele e o agente faziam as perguntas. Ficamos três semanas na mesma cela.
E com relação às torturas?
Dom Xavier Gilles - Eu não fui torturado. Mas o padre Monteiro foi torturado, sim. Vi tudo logo depois, as marcas, as escoriações e, principalmente, o laudo tanto dos médicos do Estado como do médico do arcebispado, que era o padre João Mohana. Os laudos provam as torturas. Cheguei a ser forçado a provar coisas sem nexo.
E por que só o padre Monteiro foi torturado?
Dom Xavier Gilles – O padre Monteiro foi preso 48 horas antes de mim. Foi trazido para São Luís, interrogado e torturado. A polícia percebeu que não podia acusar o padre Monteiro sem me acusar, pois eu era pároco dele. Tínhamos o mesmo escritório, a mesma biblioteca, as mesmas finanças. Então ele me prendeu. Quando me entreguei, fui acompanhado à polícia pelo arcebispo dom Mota. Ele, como já sabia das torturas ao padre Monteiro, disse à polícia que estava entregando o padre Xavier em bom estado físico e mental. Então, o delegado Campelo perguntou: “O que o senhor está querendo dizer?”. E dom Mota respondeu: “O senhor sabe muito bem o que estou querendo dizer”. Jornalistas, que muitas vezes criam coisas, inventaram na época que não fui torturado porque fui oficial do Exército. Mas nada disso. Não fui torturado porque as torturas ao padre Monteiro foram denunciadas rapidamente e o arcebispo reagiu. Foi graças à lucidez de dom Mota.
O delegado João Batista Campelo assumiu ontem o comando da Polícia Federal. Como o senhor avalia essa nomeação diante das acusações de tortura?
Dom Xavier Gilles – Fico profundamente triste com a nomeação de um homem com o passado como o dele. Num momento como este, mais do que nunca o País precisa de uma Polícia Federal honesta. Fico chocado, mas não posso fazer absolutamente nada. Os testemunhos de um ex-padre e professor de universidade e de um bispozinho lá do interior do Maranhão, para o presidente da República isso e nada são a mesma coisa. Antes de nomear, o presidente já sabia disso tudo e nomeou João Batista Campelo assim mesmo. O próprio presidente, que foi perseguido pelo regime militar, nomeia quem o teria torturado se ele tivesse preso.
Cartas, SNI, igreja e subversão
FÉLIX ALBERTO LIMA
O Estado de São Paulo
Em ofício encaminhado ao então presidente Emilio Garrastazu Médici no dia 12 de setembro de 1970, o então presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Agnelo Rossi, confirma que “o padre José Antônio de Magalhães Monteiro sofreu realmente torturas e maus tratos, quando esteve detido na Polícia Federal”.
De acordo com o documento, a constatação se baseia não apenas no depoimento de Monteiro, mas nos laudos médicos e em circunstâncias curiosas, como “proibição ao arcebispo de São Luís de falar com o padre durante a detenção, a posição arrogante das notas divulgadas pela Polícia [Federal] e a referência a algemas que explicariam as escoriações nos braços do sacerdote”.
Dom Agnelo Rossi mostrava-se também surpreso com a afirmativa da Polícia de que “o padre Xavier Gilles de Maupeou participara de guerrilha na Argélia”. A presença do sacerdote na Argélia, segundo o ofício da CNBB, fazia parte de uma missão do governo da França, “na qualidade de oficial do Exército francês”.
O documento de Agnelo Rossi pede, por fim, providências para que seja evitada a divulgação de notas, por parte da Polícia Federal, que ponham em dúvida a conduta de “pessoas merecedoras de respeito”, numa alusão ao caso dos padres Xavier e Monteiro.
Nota oficial - Em uma das notas divulgadas pela Polícia Federal sobre o episódio da prisão dos padres José Antônio de Magalhães Monteiro e Xavier Gilles de Maupeou d’Ableiges, o então subdelegado regional do DPF no Maranhão, João Batista Campelo, faz questão de afirmar a importância da repressão no combate de atividades subversivas.
Em nota divulgada no dia 26 de agosto de 1970, o subdelegado explica didaticamente à opinião pública que “o que se procura é impedir, prevenir e reprimir, dentro dos postulados da Constituição do Brasil, dos Direitos do Homem, da Lei de Segurança Nacional, os crimes cometidos contra as nossas tradições e costumes”.
Campelo contesta as acusações, na época, do envolvimento da Polícia Federal com tortura. “São infundadas. Tais manifestações visam tão-somente confundir a opinião pública e ao mesmo tempo aliciá-la para que se volte contra a Polícia Federal”.
A nota da subdelegacia confirma o laudo expedido pela Divisão Médica da Secretaria de Segurança Pública do Maranhão sobre a ausência de lesão corporal no padre Xavier Gilles. O subdelegado, porém, faz questão de transcrever tecnicamente os dados do laudo referente a José Antônio Monteiro. “Constataram escoriações no terço interior do antebraço esquerdo de dois centímetros de extensão por um de largura, e do antebraço direito de um centímetro de extensão por um e meio de largura”. A conclusão da nota da Polícia Federal é quase patética: “Isto demonstra que os suplícios e torturas que os inimigos do nosso regime nos acusam não passam de uma velha tática comunista de sensibilizar os menos avisados”.
Os menos avisados, no caso, eram os leitores da nota que, devido à imposição da censura na época, não tomavam conhecimento, pelos jornais, do que se passava nos porões da ditadura militar.
SNI - A prática de subversão dos padres José Antônio Monteiro e Xavier Gilles estava associada basicamente a correspondências, envolvendo os sacerdotes e amigos, confiscadas pela Polícia meses antes da prisão.
Um relatório do Serviço Nacional de Informações (SNI), datado de 20 de outubro de 1970, esboça de forma cronológica o “crime” cometido pelos padres. O relatório é uma espécie de prestação de contas do general Carlos Alberto da Fontoura, chefe do SNI, ao padre João José da Motta e Albuquerque, arcebispo de São Luís.
Em uma das cartas anexadas ao relatório do SNI, um remetente que assina apenas como Bernardo (provavelmente padre) fala a José Antônio Monteiro de um seminário de estudos políticos que estaria acontecendo em Meruoca, no Ceará. “O movimento tomou uma nova linha de ação que não será mais aquela linha reformista, mas sim uma linha de ação revolucionária, uma ação no engajamento, em prioridade nos meios de produção”, diz a carta.
As oito correspondências anexadas ao relatório são criteriosamente analisadas pelo chefe do SNI. “O teor das cartas permite deduzir, com segurança, que os padres José Antônio de Magalhães Monteiro e Xavier de Maupeou têm ideias socialistas e estão comprometidos com o chamado movimento progressista da igreja”. Segundo a avaliação do general Fontoura, os amigos de Monteiro “vão aos lugares-comuns das lutas pela libertação do povo oprimido e da contestação política”. Pela análise do chefe do extinto SNI, a correspondência “deixa ainda claro que as ideias socialistas estão bastante infiltradas entre os seminaristas do Nordeste”.
O Estado de São Paulo
Em ofício encaminhado ao então presidente Emilio Garrastazu Médici no dia 12 de setembro de 1970, o então presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Agnelo Rossi, confirma que “o padre José Antônio de Magalhães Monteiro sofreu realmente torturas e maus tratos, quando esteve detido na Polícia Federal”.
De acordo com o documento, a constatação se baseia não apenas no depoimento de Monteiro, mas nos laudos médicos e em circunstâncias curiosas, como “proibição ao arcebispo de São Luís de falar com o padre durante a detenção, a posição arrogante das notas divulgadas pela Polícia [Federal] e a referência a algemas que explicariam as escoriações nos braços do sacerdote”.
Dom Agnelo Rossi mostrava-se também surpreso com a afirmativa da Polícia de que “o padre Xavier Gilles de Maupeou participara de guerrilha na Argélia”. A presença do sacerdote na Argélia, segundo o ofício da CNBB, fazia parte de uma missão do governo da França, “na qualidade de oficial do Exército francês”.
O documento de Agnelo Rossi pede, por fim, providências para que seja evitada a divulgação de notas, por parte da Polícia Federal, que ponham em dúvida a conduta de “pessoas merecedoras de respeito”, numa alusão ao caso dos padres Xavier e Monteiro.
Nota oficial - Em uma das notas divulgadas pela Polícia Federal sobre o episódio da prisão dos padres José Antônio de Magalhães Monteiro e Xavier Gilles de Maupeou d’Ableiges, o então subdelegado regional do DPF no Maranhão, João Batista Campelo, faz questão de afirmar a importância da repressão no combate de atividades subversivas.
Em nota divulgada no dia 26 de agosto de 1970, o subdelegado explica didaticamente à opinião pública que “o que se procura é impedir, prevenir e reprimir, dentro dos postulados da Constituição do Brasil, dos Direitos do Homem, da Lei de Segurança Nacional, os crimes cometidos contra as nossas tradições e costumes”.
Campelo contesta as acusações, na época, do envolvimento da Polícia Federal com tortura. “São infundadas. Tais manifestações visam tão-somente confundir a opinião pública e ao mesmo tempo aliciá-la para que se volte contra a Polícia Federal”.
A nota da subdelegacia confirma o laudo expedido pela Divisão Médica da Secretaria de Segurança Pública do Maranhão sobre a ausência de lesão corporal no padre Xavier Gilles. O subdelegado, porém, faz questão de transcrever tecnicamente os dados do laudo referente a José Antônio Monteiro. “Constataram escoriações no terço interior do antebraço esquerdo de dois centímetros de extensão por um de largura, e do antebraço direito de um centímetro de extensão por um e meio de largura”. A conclusão da nota da Polícia Federal é quase patética: “Isto demonstra que os suplícios e torturas que os inimigos do nosso regime nos acusam não passam de uma velha tática comunista de sensibilizar os menos avisados”.
Os menos avisados, no caso, eram os leitores da nota que, devido à imposição da censura na época, não tomavam conhecimento, pelos jornais, do que se passava nos porões da ditadura militar.
SNI - A prática de subversão dos padres José Antônio Monteiro e Xavier Gilles estava associada basicamente a correspondências, envolvendo os sacerdotes e amigos, confiscadas pela Polícia meses antes da prisão.
Um relatório do Serviço Nacional de Informações (SNI), datado de 20 de outubro de 1970, esboça de forma cronológica o “crime” cometido pelos padres. O relatório é uma espécie de prestação de contas do general Carlos Alberto da Fontoura, chefe do SNI, ao padre João José da Motta e Albuquerque, arcebispo de São Luís.
Em uma das cartas anexadas ao relatório do SNI, um remetente que assina apenas como Bernardo (provavelmente padre) fala a José Antônio Monteiro de um seminário de estudos políticos que estaria acontecendo em Meruoca, no Ceará. “O movimento tomou uma nova linha de ação que não será mais aquela linha reformista, mas sim uma linha de ação revolucionária, uma ação no engajamento, em prioridade nos meios de produção”, diz a carta.
As oito correspondências anexadas ao relatório são criteriosamente analisadas pelo chefe do SNI. “O teor das cartas permite deduzir, com segurança, que os padres José Antônio de Magalhães Monteiro e Xavier de Maupeou têm ideias socialistas e estão comprometidos com o chamado movimento progressista da igreja”. Segundo a avaliação do general Fontoura, os amigos de Monteiro “vão aos lugares-comuns das lutas pela libertação do povo oprimido e da contestação política”. Pela análise do chefe do extinto SNI, a correspondência “deixa ainda claro que as ideias socialistas estão bastante infiltradas entre os seminaristas do Nordeste”.
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