quarta-feira, 15 de junho de 2011

Quem eram os torturadores?


Todos os documentos que deram origem ao projeto e ao livro “Brasil: Nunca Mais” estão de volta ao Brasil, depois de alguns anos mantidos no exterior pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e pelo Center for Research Libraries (CRL). O acervo foi montado numa ação clandestina durante os primeiros anos da década de 1980 para identificar violações aos direitos humanos durante a ditadura militar brasileira. A repatriação do acervo foi anunciada oficialmente nesta terça-feira, dia 14, em ato público organizado pela Procuradoria Geral da República da 3ª Região, em São Paulo.

Os documentos foram enviados aos Estados Unidos por cautela, para evitar que informações importantes sobre a história recente do País – inclusive inúmeras provas e evidências de tortura - fossem confiscadas e até mesmo destruídas por agentes ou grupos ligados ao regime militar. Todo o material foi digitalizado e o acervo reúne 707 processos do Superior Tribunal Militar, um milhão de cópias de documentos e 543 rolos de microfilmes.

“Brasil: Nunca Mais” foi idealizado pelo cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e pelo pastor presbiteriano Jaime Wright, e desenvolvido entre 1979 e 1985. Durante seis anos, uma equipe de 30 pesquisadores vasculhou toda a documentação militar de uma das fases mais sombrias da história política do País (1961 a 1979). Uma síntese da pesquisa foi editada pela Vozes e resultou no livro “Brasil: Nunca Mais”, lançado em 15 de julho de 1985, quatro meses depois do início da fase de abertura política no Brasil.

E o que o Maranhão tem a ver com esse período nebuloso de torturas, desaparecimento de presos políticos, perseguição e morte? Vamos falar sobre isso mais adiante.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Letra no forno

Há de tudo na prateleira da internet. É preciso saber apreciar. O tempo é uma fortuna. Para fugir do variado cardápio de iguarias indigestas, recomendo o Cuscuz Delivery (cuscuzdelivery.blogspot.com), blog do jornalista Reinaldo Barros. O texto tem sabor e abre o apetite para a informação despretenciosa.

Reinaldo Barros escreve sobre temas variados - vai da literatura à política com insuspeitada desenvoltura, por exemplo -, sempre com uma linguagem picante, às vezes ácida, como pedem os bons banquetes na oferta de sabores da blogosfera. Não, ele não é mais um blogueiro ofegante atrás do furo jornalístico. Tem maturidade o suficiente para deixar que outros brinquem por aí de pega-pega.

Cuscuz Delivery é prato cheio para quem tem fome de inventividade.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O lamento das toadas, a alegria dos batalhões


O São João não é exatamente a festa da carne, como é o Carnaval na sua essência. Mas em terra onde quem rodopia sorrateiro é o boi, a carne não pode ser reduzida a uma simples alegoria. Quando o pandeirão se agita em noite de guarnicê, o couro treme e o pêlo eriça. No apito final da festa (São Marçal, capítulo 30, mês 6, versículo do meio-dia, bairro do João Paulo) a carne se expõe e, sob o sol, a pele vira do avesso. Homens tocam o tambor como se fosse a última vez, a mão sangrando, a avenida em transe.

Mas o rito do boi está apenas começando. O mês de junho anuncia a fé do povo nos santos que rezam na cartilha da cultura popular maranhense. Santo Antônio faz o casamento da tradição com os apetrechos da modernidade, link entre o pretérito perfeito e o acolá indecifrável. São João, do alto do seu paiol de crendices, arrenega a escuridão e acende a fogueira em praça pública. Fiat lux! São Pedro faz chover no piquenique eletrônico das boates e dos shows de música baiana, mas mantém a chama/trama que nasce no riscar das matracas, renascimento temporão do fogaréu primata.

As festas juninas do Maranhão transitam entre o singular e o plural, linha tênue entre a língua do boi e a multidão. Um vaqueiro aprisionado no visgo que separa o curral do arraial. Comer a língua é uma mistura de propósito, pretexto e desejo de Catirina, a mulher engravidada por Francisco. No fundo, ela pressente a ressurreição da carne. Vaqueiros amotinados fazem a pajelança em volta do boi morto-vivo que perdeu a língua. O fazendeiro ouve de longe a batida dos chocalhos. O novilho desperta e a fazenda em festa dança. O que era língua agora vira sotaque.

O colorido papel de seda encobre de luz o céu da cidade. São Luís é um carrossel de bandeirinhas espichadas no cordão. Cheiro que sai da pólvora nas bombinhas de rua. Canutilhos na paisagem. Cenário que nasce dos batalhões de gentes simples, herança das raças que não se regra nem mesmo nos tempos de sequidão do pote oficial. Foco no maracá! Amo e toada juntos, público à espreita. Anônimos que se transformam em amos, senhores que ganham vida no meio da noite junina.

O maranhense se rende todos os anos aos personagens que fazem a história do bumba-meu-boi, capítulo especial da nossa cultura popular. Fusão de etnias que mexe com o imaginário coletivo. Vai começar o bumbar do bombo que se estende até a mais alta hora da madrugada. Nas praças, nos bairros, nos terreiros. Humberto, Chiador, Chagas e tantos outros que fazem do lamento um canto de esperança; que com a voz sentida fazem tremer o chão e a alma. A eles, a nossa reverência.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

No lugar dos casarões coloniais, estacionamento para veículos

Dando continuidade ao projeto Redemoinho do Tempo, hoje trago reportagem que publiquei no jornal “O Estado de São Paulo” no dia 28 de maio de 2000. O tema, embora pauta velha nas redações dos jornais de São Luís, continua atual, pois os desabamentos de casarões coloniais no Centro Histórico da cidade são recorrentes a cada novo período invernoso. Hoje o problema é mais grave do que ontem, afinal os proprietários de imóveis do Centro usam a artimanha do descaso para, a pretexto das chuvas fortes, transformar aquilo que um dia foi parte significativa da nossa história – o patrimônio arquitetônico - em área de estacionamento para carros.

Onze anos depois de publicada a reportagem (com fotos de Ariosvaldo Baêta), a frota de veículos de São Luís dobrou, e hoje já são mais de 260 mil automóveis circulando pela cidade que tem um milhão de habitantes. Algo próximo de um carro para cada três pessoas. Muita máquina para pouca rua, rua estreita, rua frágil para tanto peso. Muito veículo para pouca vaga de estacionamento. Resta um negócio rentável em qualquer ruína onde outrora foi uma morada. Leia.


Descaso ameaça casarões históricos de São Luís

Em menos de 15 dias, dois casarões do Centro Histórico de São Luís desabaram e pelo menos 25 prédios tombados pelo Patrimônio Mundial estão ameaçados de ruírem devido ao precário estado de conservação. As chuvas fortes do período de inverno na região têm contribuído para os riscos de desabamento.

O sítio arquitetônico da cidade, de origem portuguesa, é formado por 3.500 imóveis remanescentes dos séculos XVIII e XIX, dos quais 1.200 casarões foram tombados, em 1997, pelo Fundo das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) como Patrimônio da Humanidade.

Os representantes dos órgãos públicos que fazem a conservação e manutenção do acervo arquitetônico alegam que os prédios estão desmoronando porque foram abandonados pelos seus proprietários. Os desabamentos podem incluir São Luís na lista dos Bens Mundiais em Perigo, da Unesco, o que pode resultar na suspensão do título de Patrimônio da Humanidade.

O coordenador do Departamento de Patrimônio Cultural do Maranhão, engenheiro Luiz Phelipe Andrès, diz que o poder público tem impedimento legal para agir em algumas situações de risco. “Muitos imóveis são de particulares e em alguns deles há casos de heranças com pendências judiciais.” No Ministério Público Federal há 30 ações cíveis que exigem de proprietários e do Instituto do Patrimônio e Histórico e Artístico Nacional (Iphan) a recuperação física dos imóveis.

O último casarão a desabar foi o da rua Humberto de Campos, em uma das praças mais movimentadas da cidade. O acidente ocorreu na madrugada do último dia 15. Em janeiro de 1999, o prédio foi interditado pela Defesa Civil, que retirou “à força” a octogenária Vitória Perez, única moradora do local. Hoje morando em casa de parentes, Vitória diz não acreditar que a sua casa caiu.

A governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PFL), em visita aos escombros do casarão, reagiu ao descaso dos empresários que possuem imóveis no Centro Histórico. “Fico indignada e lamento pela insensibilidade de algumas pessoas.” Ela informa que o Governo do Estado está investindo R$ 22 milhões em infra-estrutura, instalação de redes de energia e restauração de casarões e monumentos históricos.

Alguns dos imóveis da área tombada pela Unesco estão ocupados irregularmente e são habitados, em regime de condomínio, por famílias de baixa renda. Um sobrado colonial chega a abrigar em média 10 famílias, além de pequenas lojas na parte térrea. Os moradores temem por novos desabamentos, mas dizem que não têm para onde ir. “Não podemos recuperar o prédio; alguém precisa fazer isso por nós”, admite o aposentado João Francisco da Silva.

A elevação da taxa do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) para a área do Centro Histórico, com possibilidade de benefícios e isenções para os proprietários que preservarem os imóveis, é uma alternativa apontada pela coordenadora do Iphan, Sílvia Leal. “É uma saída quase compulsória, mas que pode amenizar o problema.” Os prédios tombados têm área ampla, o que faz com que as obras de recuperação tenham um custo elevado. A maioria dos moradores não tem condição de arcar com reformas, que precisam ser orientadas e fiscalizadas pelo Iphan.

O empresário Carlos Gaspar, descendente de portugueses e dono de dois imóveis que já ruíram no Centro Histórico, discorda da alternativa apontada pelo Iphan. O Maranhão, segundo ele, tem a taxa mais elevada de IPTU do País. “O Iphan proíbe qualquer tipo de reforma na estrutura dos imóveis, o que dificulta a funcionalidade de um prédio nos dias de hoje”, reage. Gaspar diz ainda que o poder público não tem um projeto que garanta retorno aos empresários que possuem imóveis na área do Centro Histórico. “É difícil investir em infra-estrutura sem saber o retorno.”

PROJETOS DE REVITALIZAÇÃO

A parte mais significativa do conjunto de casarões coloniais de São Luís, localizada na área conhecida como Praia Grande, teve sua restauração concluída em 1990, com recursos repassados pela administração do então presidente da República, José Sarney. No mesmo período, as atividades econômicas da cidade começaram a migrar do Centro para os bairros da região litorânea, onde foram construídos shoppings e modernos prédios residenciais.

O arquiteto Gustavo Martins Marques explica que as migrações foram motivadas pelas dificuldades de acesso dentro da área do Centro Histórico. Na área da Praia Grande, todas as ruas são interditadas para veículos, o que, na opinião do arquiteto, enfraquece o comércio e cria problemas para os moradores. “O abandono começou por causa dessas dificuldades.”

Os desabamentos de casarões, de acordo com o levantamento do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea) e Defesa Civil, estão associados ao abandono da área. Marques apresentou um Plano Diretor à Prefeitura de São Luís há um ano no qual aponta os problemas de acesso e propõe intervenções na infra-estrutura e programas de desenvolvimento urbano e econômico para o Centro.

O Governo do Estado e a Caixa Econômica Federal estão desenvolvendo um projeto que cria núcleos habitacionais no Centro da cidade. O objetivo, na opinião dos técnicos do Departamento de Patrimônio Histórico, é revitalizar a área e inibir o abandono dos imóveis. Inicialmente serão utilizados cinco prédios do Governo do Estado.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Nos subterrâneos do Teatro Arthur Azevedo


Um dos lançamentos mais recentes da Clara Editora foi o livro “Cantriz, a formiguinha cantora”, de autoria da jornalista Francesca Carvalho. A obra, com ilustrações de Marcelo Soares, conta a história de uma formiga que morava com a família no porão do Teatro Arthur Azevedo e tinha como um dos seus principais sonhos a carreira de artista.

O livro é destinado ao público infanto-juvenil e tem narrativa envolvente. A saga de Cantriz retrata a principal casa de espetáculos do Maranhão, que esta semana comemora 194 anos, com uma linguagem lúdica e sob o olhar buliçoso dos insetos. Cantriz recorre ao parceiro Joanito que encoraja a pequena formiga a subir ao palco do teatro para mostrar o seu talento de cantora.

Depois de uma tentativa frustrada, certa noite de espetáculo, com casa cheia, Cantriz finalmente alcança o microfone com a ajuda da mariposa Mariponga. A música que sai do microfone solitário no palco encanta a plateia. Mas a dona da voz não consegue ser vista. Cantriz não se deixa abater e vai continuar cantando o resto da vida pelos formigueiros mais famosos do mundo.

No livro “Cantriz, a formiguinha cantora”, Francesca Carvalho funde sonho e realidade, obstinação e conquista. Personagens e ícones da cultura maranhense são entremeados na escalada triunfal da pequena cantora. Mas Cantriz não é candidata a celebridade nem tem planos para o alpinismo musical. O idílio da protagonista, segundo a autora, está no simples ato de cantar. É da convivência quase diária no teatro com expoentes da música maranhense, como Papete, João do Vale, Alcione, Beto Pereira, Cláudio Pinheiro e brincantes do Boizinho Barrica, por exemplo, que Cantriz encontra entusiasmo para soltar a voz.

Francesca Carvalho é maranhense, formada em Jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão, e minha amiga de infância desde os tempos do Dom Bosco. Começou a escrever estórias infantis em 2001, atiçada pelo desejo e a curiosidade de uma sobrinha. O livro pode ser adquirido diretamente com a autora, pelo email cantrizs@yahoo.com.br.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Afinal, qual o destino dos maranhenses do campo?

No dia 28 de outubro de 2001, o jornal “O Estado de São Paulo” publicou um caderno especial sobre a miséria no Brasil e exemplos de política social no país. Na condição de correspondente do jornal, fiz uma reportagem (com fotos de Geraldo Furtado) para o caderno enfocando a situação peculiar do Maranhão: um estado pródigo em recursos naturais com uma população rural dedicada quase que totalmente à produção agrícola de subsistência. Dez anos depois, o quadro não é muito diferente. Conformismo? Acomodação? Falta de incentivo ao setor primário? Como agem os prefeitos diante da situação? Afinal, qual o destino do maranhense do campo?

Começo hoje, com esta reportagem, uma série de escavações de textos perdidos ao longo do tempo.

A roça da subsistência

Um dos principais problemas enfrentados pelo homem do campo no Maranhão é o seu isolamento socioeconômico. Distantes do mercado e sem acesso a programas de melhoramento das técnicas agrícolas, os trabalhadores rurais produzem o suficiente para a subsistência. Quando a produção ultrapassa o limite da subsistência, o agricultor negocia o excedente conforme as demandas do período, invariavelmente por preço abaixo do que é praticado no mercado.

Em Nambuaçu de Baixo, povoado do município de Rosário, a 75 quilômetros de São Luís, a lavoura é praticamente a única fonte de ocupação e renda para cerca de 70 famílias. O agricultor Raimundo Leite Marques, de 53 anos, casado e com cinco filhos, desfruta dos benefícios da energia elétrica que chegou recentemente ao povoado. O fio de alta tensão que passa sobre a casa de taipa e coberta de palha serve de esperança para “um futuro diferente” na vida da família de Marques.

Com o plantio de mandioca, milho, arroz e legumes, o agricultor garante a alimentação da mulher e filhos. “Nada sobra para vender”, diz ele, resignado. “Aqui me considero feliz, pois tenho saúde para trabalhar e não devo nada a ninguém.”

Maria Helena Pereira, de 54 anos, viúva e mãe de sete filhos, começou a trabalhar na lavoura aos 10 anos, quando passou a ajudar o pai no cultivo de produtos como abóbora, milho, arroz e mandioca. A busca pela sobrevivência fez com que Maria Helena sacrificasse os estudos. Na comunidade onde a agricultora mora há duas escolas, mas ela não sabe ler nem escrever. “Meus filhos só vão para a roça nas férias; não quero prejudicar o estudo deles”, diz.

Maria Helena afirma que dois de seus filhos estão recebendo o auxílio do Bolsa Escola, cada um no valor de R$ 30. No povoado de Campo Grande, município de Axixá, a 100 quilômetros de São Luís, o lavrador Feliciano Gomes, de 59 anos e 13 filhos, diz que não conta com apoio de nenhuma instituição para desenvolver o seu trabalho na roça.

“Aqui a gente trabalha somente para comer e não pode contar com nenhuma outra ajuda”. Segundo Feliciano, em Campo Grande o único benefício público é a energia elétrica que, além de chegar às casas, é usada para colocar a fábrica de farinha em funcionamento. Ele explica que quando a produção de mandioca é boa, o excedente é transformado em farinha. O lavrador calcula que produz 30 quilos de farinha, em média, a cada dois dias. “Dessa forma a gente vai conseguindo viver e esperando por outros benefícios”.

Repasses – Dos 217 municípios do Maranhão, 81 foram criados em 1995 por interesses eleitorais. O desmembramento de cidades levou o Estado a descentralizar a administração pública com a criação de novas prefeituras. Estas quase nada arrecadam em tributos e vivem basicamente de repasses dos Fundos de Participação dos Municípios (FPM) e de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef).

terça-feira, 31 de maio de 2011

Flor de Lys por ela mesma

A jornalista Flor de Lys tinha uma ligação afetiva com a equipe da Clara Comunicação. Em 2001, dias depois do atentado terrorista de 11 de setembro, após um café da manhã de trabalho, propus a ela uma entrevista para o portal claraonline. Ela topou de cara e ali mesmo, no restaurante do hotel, conversou descontraída e demoradamente com Letícia Cardoso e Gisele Brasil, que na época eram minhas alunas no curso de Comunicação Social da UFMA e estagiárias da Clara. A entrevista foi postada na seção Bolsa de Mulher. Confira.

“A gente está no mundo sujeito a isso: viver e morrer”

“Sempre achei que a vida era de todos e que nós devíamos fazer coisas boas para sermos notados”

“Acho chiquérrimo uma colunista social na minha idade, que já escreveu tanto diariamente, ter o luxo de escrever só aos domingos”

“Todo ano vou ao Miss Brasil em São Paulo, no Rio, trago a fita e faço aquele escândalo jornalístico”

“Sabe aquela Miss Brasil que fez mil operações? Ela vem pra cá para essa festa minha. Ela vai desfilar de biquíni para todo mundo ver que ela não tem uma marca sequer no corpo”

“Sou mais à vontade, faço como gosto, e agrado o povo”

“Cuido do meu cabelo, pinto minha sobrancelha, não posso aparecer tão horrorosa, parecendo uma lagartixa”

“Então me desgastei tanto que me deu dor no coração”

“Política pra mim liquida a pessoa”

“[Na política] a gente acaba com o que tem de pouquinho no banco e não ganha nada com isso”

“Se é para cobrir um casamento, vou fazer, não mando a conta. Tudo é de graça. Arrumo os meus patrocinadores. São fracos, mas dá pra passar”

“Sou a favor da guerra, sim. Ou arrebenta ou acaba! De qualquer forma a gente não vive em guerra e não derruba todo mundo?”


O pensamento vivo de Flor de Lys

A colunista Flor de Lys completa 40 anos de jornalismo e prefere não comemorar, afinal ela diz ser bastante supersticiosa. Mais que uma foto na parede da memória, ela é uma lenda, uma legenda no colunismo social do Maranhão. Começou a escrever sobre bailes de debutantes e outros eventos sociais nos idos dos anos 1960, quando uma parte da juventude brasileira ensaiava um desfile tosco nos porões da ditadura militar. Flor de Lys Fialho Félix nasceu em São Luís há 72 anos e fez opção ainda cedo, sob o sol e a sombra do estado novo, pelo caminho das festas. Começou a carreira no Jornal Pequeno, quando ele ainda era jornal de bolso.

Vaidosa, ela? A bolsa de Flor não passa sem lápis para sobrancelha, perfume e pente pequeno para assentar os cabelos loiros por causa do vento – o penteado é o mesmo desde o século passado. Mas o indispensável na sua Louis Vitton é dinheiro. “Nem que seja dez centavos, não pode faltar dinheiro na minha bolsa!”, revela. Confira o pensamento vivo de Flor sobre preconceito, política, fama, a obrigatoriedade do diploma de jornalista e os recentes conflitos internacionais.


Quem é a personalidade Flor de Lys?

Flor de Lys - Eu acho que é a maior de idade, aqui no Maranhão, como colunista. Porque primeiro foi a Maria Inês Sabóia, o Benito Neiva, que ainda hoje trabalha - e depois a Maria Inês infelizmente desapareceu da nossa terra. A gente está no mundo sujeito a isso: viver e morrer. Fiquei muito envolvida com a Maria Inês, com o trabalho dela e fui aprendendo muita coisa: como ela se comportava, como cumprimentava os amigos. Enfim, aprendi, fiquei colunista. Depois que ela se foi fiquei (colunista) mais ainda, me envolvi, porque me casei, tive filhos - um advogado e uma jornalista que trabalha em televisão como eu. Naquele tempo não tinha negócio de se formar não. Fazíamos nós mesmos.

Por ser mulher, a senhora sofreu algum tipo de preconceito no início de sua carreira?

Flor de Lys - Não, nunca sofri preconceito algum. Sempre achei que a vida era de todos e que nós devíamos fazer coisas boas para sermos notados. Se não fosse assim, ninguém fica notável. Então, vivo fazendo coisas boas, festas. Estou fazendo uma festa aqui no dia 30 [de novembro de 2001], a Noite das Personalidades. E lá é só gente importante, gente que já trabalhou, que já fez alguma coisa por nós, pela comunidade aqui de São Luís. E faço sempre no Quatro Rodas, se no dia 30 vocês quiserem vir...

E vai ser em comemoração à sua carreira também, nos 40 anos de jornalismo?

Flor de Lys - Não, que nada, eu não comemoro essas coisas que dá... [azar]. É isso aí, não gosto nem de falar a palavra.

Com o que mais a senhora acha que contribuiu dentro do jornalismo maranhense?

Flor de Lys - Contribuo muito com notícias, escrevo notícias sociais há muitos anos. Já conquistei credibilidade com o que digo. Nunca escrevi aquilo que não é certo. Se me mandam uma notícia que fulano de tal viajou tal dia e o avião caiu, mas eu não sei se é verdade, aí eu fico procurando por telefone. Só dou notícias certas. Então isso criou uma credibilidade muito grande do leitor aqui no Maranhão. Agora, escrevo a minha página social uma vez por semana, aos domingos, o que aliás acho chiquérrimo uma colunista social na minha idade, que já escreveu tanto diariamente, ter o luxo de escrever só aos domingos, a minha página bonita, bem feita, só moças da alta sociedade, 15 anos, casamentos lindíssimos... E viajo também, vou ao Rio, faço casamentos, trago para o meu programa social [na TV Difusora]. Não paro, vou buscar Miss Brassil. Inclusive estou com a ganhadora do Miss Brasil aqui no Maranhão. Todo ano vou para o Miss Brasil em São Paulo, no Rio, trago a fita e faço aquele escândalo jornalístico. O concurso é lindo, a Miss Brasil é linda. Sabe aquela Miss Brasil que fez mil operações? Ela vem pra cá para essa festa minha. Ela vai desfilar de biquíni para todo mundo ver que ela não tem uma marca sequer no corpo.

A senhora acha necessário o diploma para a prática do jornalismo?

Flor de Lys - Não, acho que não, porque a prática vale mais. O diploma tem as técnicas diferentes. Por exemplo, um jornalista hoje, diplomado, não vai se comparar comigo porque eu não sou formada. Mas tenho muita prática também, leio muito jornais.

O diploma não lhe faz falta?

Flor de Lys - De maneira nenhuma. O meu filho é formado em Direito, a minha filha em Jornalismo. Ele faz aquela página “Mhário Lincoln” no Jornal Pequeno. E a Orquídea Santos faz, todo domingo, um programa na TV Praia Grande. Ela tem a formação dela que acho que é muito diferente de mim. Sou mais à vontade, faço como gosto, e agrado o povo.

E se você tivesse a oportunidade de cursar agora uma faculdade de Jornalismo?

Flor de Lys - Acho que não dava mais porque era só perda de tempo. Já estou no fim do meu jornalismo, da minha etapa, 40 anos de jornalismo. Então, não adiantaria mais eu procurar aquelas teorias diferentes, isso não cabe pra mim. Eu vou falar uma palavra diferente e vão dizer: “Olha como ela está esnobe agora!” Sei que preciso aprender inglês, porque inglês eu gosto de usar, porque eu boto as notícias em inglês: “Don’t forget me, please!”, “I love you, my friend!”, que significa “Eu gosto de você, meu bem!”, e aí eu vou enrolando a todos.

Qual o perfil do seu público, tanto do leitor quanto do telespectador?

Flor de Lys - Não gosto de idealizar as coisas, porque sempre as pessoas ficam contra a gente.

A fama lhe causa algum constrangimento?

Flor de Lys - Não, sou a mesma mulher. Saio pelas ruas à vontade, nunca tive qualquer problema.

A senhora se acha vaidosa?

Flor de Lys - Toda vez que uma mulher vai à televisão parece linda, mas na rua... ih!! Mas a Flor de Lys não, pra onde ela sai é a mesma mulher. Sou vaidosa demais. Cuido do meu cabelo, pinto minha sobrancelha, não posso aparecer tão horrorosa, parecendo uma lagartixa, que eu sou muito branca.

Nesses 40 anos de carreira, qual a imagem que a senhora acha que tem com o público?

Flor de Lys - Acho que tenho uma imagem muito boa, porque o público todo me adora, toda a sociedade gosta de mim. Quando faço aniversário, fico uma semana recebendo presentes. Fiz uma operação, no Rio, botei duas pontes de safena de só de tanto trabalhar. O jornalismo em si puxa muito pela pessoa, porque tem de ser correto para se dar notícias corretas. Se fico sem telefone, tenho que ficar me ajudando, tá entendendo?! Então me desgastei tanto que me deu dor no coração. Fui ao Rio e a São Paulo e operei. Mas foram muitos os telefonemas e as mensagens que recebia doente. Aquilo foi um carinho tão grande que me ajudou a viver, a cicatrizar.

Hoje a senhora se sente realizada dentro do jornalismo?

Flor de Lys - Ah, me sinto! Graças a Deus em tudo eu estou realizada, tanto social ou não socialmente. Seja em casamento simples, as pessoas me convidam e dizem: “Olha, dona Flor, eu queria aparecer no seu programa”. Aí eu digo: “Vamos fazer!”. Aí ajeito para um estilo mais bonitinho, vou às lojas, coloco a noiva bonitinha e mostro no programa. Elas ficam tão felizes! Só que não dou pra política. Porque, agora mudando o assunto, política pra mim liquida a pessoa. Nunca quis. Todo jornalista que entra pra política nunca ganha. Nunca vi um jornalista político. Só os que trabalham para políticos, mas nunca vi um sendo deputado. Já recebi propostas, mas não aceitei porque acho que é um desgaste tremendo. A gente acaba com o que tem de pouquinho no banco e não ganha nada com isso. Ainda mais agora que a política está tão suja. É tanta gente importante presa, com CPIs soltas aí. Não vale a pena, não é?!

Mas a senhora faria campanha política para alguém?

Flor de Lys - Faria campanha pra [governadora do Maranhão] Roseana Sarney, para o presidente da Assembléia Legislativa do Estado, Manoel Ribeiro, que é muito meu amigo, gente fina. Eu amo ele! Amo ele, a mulher dele, os filhos! Por isso faço campanhas. Subo em palanques, se for possível. Dona Nice Lobão! Trabalhei muito por ela porque a adoro. Criatura maravilhosa! Então, acho que minha vida é muito boa. Tenho tudo o que quero e não exploro ninguém. Se é para cobrir um casamento, vou fazer, não mando a conta. Tudo é de graça. Arrumo os meus patrocinadores. São fracos, mas dá pra passar.

A senhora se acha uma pessoa caridosa?

Flor de Lys - Ah, não sou muito não.

A Flor de Lys é uma pessoa avarenta?

Flor de Lys - Sim, sou. Porque, por exemplo, para aqueles rapazinhos que vejo todo dia ali na porta do banco eu não dou dinheiro.

A senhora se considera a rainha da imprensa no Maranhão?

Flor de Lys - Não, não. Acho que tudo na vida é comum, a gente tem que dar o bem às outras pessoas, envolver as pessoas com coisas boas. Por exemplo, não exploro ninguém como tem muita gente aqui que reclama. Não cobro ninguém no meu trabalho. Sou uma funcionária federal, aposentada pelo TRE. Acho que o que ganho dá para eu não ficar esperando ninguém.

Como a senhora avalia o tratamento que a mídia vem dando ao conflito internacional pós-ataques terroristas?

Flor de Lys - Acho ótimo. Sou totalmente a favor do presidente dos EUA.

A senhora é a favor da guerra também?

Flor de Lys - Sou a favor da guerra, sim. Ou arrebenta ou acaba! De qualquer forma a gente não vive em guerra e não derruba todo mundo? Não mata muita gente?