segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Putas tristes?
“É uma profissão como outra qualquer”, avalia Maria de Jesus Costa, 50 anos, presidente da ong Associação das Profissionais do Sexo Feminino do Maranhão (Aprosma). Ela reconhece, para espanto das amigas mais novas, que não há qualquer glamour no trabalho. Hoje parcialmente afastada da atividade diária “por absoluta falta de tempo” – os homens, segundo ela, não pagam para fazer amor com mulheres mais velhas -, Maria de Jesus conta que a entidade foi criada há três anos com o objetivo de reduzir preconceitos e orientar mulheres sobre riscos, direitos e deveres na profissão.
Não há provocação. O convento é apenas o local do encontro. Elas não ousam abalar o templo da Ordem dos Mercedários, tampouco pretendem despertar a ira e o escárnio do Padre Antônio Vieira em sermões reinventados. Haverão de “traçar metas rumo aos novos e velhos desafios”, conforme anuncia o cartaz do evento.
E quais são os novos e os velhos desafios, se não existe vida fácil na prostituição profissional? Superar o preconceito de ontem, inibir a violência de agora? São 1.050 mulheres associadas à ong. Muitas delas dirão suas meias verdades durante os três dias de encontro no convento. Outras continuarão apoiadas sobre o colchão de amar. Algumas estarão sob o sol tecendo a vida, com suas vulvas encharcadas de suor e corrimento. Todas, contudo, vigiadas pelo medo de velhas e novas doenças sexualmente transmissíveis.
Não há piso salarial, férias, licença prêmio ou recesso de Natal. As crianças nascem, e a jornada das mulheres prostitutas limita-se a meio expediente, ao serviço pela metade. Elas não vão alcançar a licença maternidade. Pais desconhecidos. A geração de filhos da puta vai se multiplicando de bairro em bairro. Eles, na opinião de Maria de Jesus, são vítimas da sociedade, da falta de informação e da miséria.
No João Paulo e no João de Deus elas estão no ponto e não há salvação a prazo. No Inferninho do aterro, vendem a alma a quem se arrisca a pagar um trago. A rua da Saúde herdou a clientela da 28 e os riscos do HIV de turistas que se hospedam nas soturnas pousadas da vizinhança. Não se pode dizer, todavia, que as remanescentes da Faustina estão por baixo. O maior número de profissionais do sexo gira na órbita do Xirizal do Oscar Frota, por onde ancoram pescadores, camelôs e estivadores em busca do prazer self-service. Lá um programa de primeiro grau pode começar a R$ 7,50. Não há melhor preço na cidade. Elas também estão na Vila Fialho, nas avenidas Médici e Guajajaras, na praça Pedro II e no Posto Magnólia. Na área do Porto do Itaqui, onde imperam exigências de marinheiros mareados, o programa chega a custar R$ 300,00. É pegar ou zarpar.
O perfil do cliente é descrito conforme o ponto do programa. Os navios garantem a freguesia no Itaqui. O Xirizal do Oscar Frota não seria o que é hoje sem o intenso movimento no Mercado do Peixe e no Mercado Central. A área da Praia Grande, incluindo a rua da Saúde, é alimentada pela moeda dos estrangeiros e pela mirra de alguns boêmios nativos. Os caminhoneiros se revezam entre a avenida Guajajaras e o Posto Magnólia, na BR.
O espetáculo do crescimento chega sem pressa às alcovas. Excomungadas em ritos sumários ao longo da história, as prostitutas querem mostrar ao mundo que há dignidade na profissão. Não há motivo para vergonha, dizem. “Temos o direito de usar o nosso corpo da forma que bem entendermos”, pesa e pondera Maria de Jesus. Elas pagam impostos e estão nas filas dos bancos e dos crediários como qualquer virgem.
Há uma linha tênue que separa as profissionais do sexo e as garotas de programa que frequentam as faculdades particulares. Nos dois casos elas estão vendendo a força de trabalho: as profissionais, com suas penteadeiras enfeitadas e perfumes carregados na essência, devidamente assumidas; as “amadoras”, com suas roupas de grife e saídas sorrateiras para o infortúnio dos amores servis. Lá e cá excedem no prazer, na dor e no sussurro.
Difícil saber quando há afeto ou beijo na boca. Depende do que se paga. Há um mandamento único no exercício da prostituição: é preciso ter renda. Nem amor, generosidade ou gratidão. Do parceiro, exige-se pouco mais que o pagamento. Pode ser dinheiro, cartão, uma pedra falsa ou um corte de cetim. E a fila anda.
Texto postado em 23.08.2006, no site www.claraonline.com.br.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Mil palavras

Boas imagens são caras porque são raras. Marcam, impregnam, identificam, decodificam, inspiram, emocionam, chocam, arrebatam, provocam reações imprevisíveis. Certas imagens são como música: incendeiam a memória, despertam a paisagem adormecida na lembrança e fazem passeios fugazes pelos arredores da alma.
A fotografia tem desses truques! Revela o novelo do rápido instante, subverte o real, recorta a cena e surpreende o artesão do clique. O truque da fotografia é uma arte sem trinco. Obturador aberto. Não pega no tranco, pois há técnica na arte de quem trata e retrata a imagem, no lambe-lambe chinfrim, no estúdio sofisticado. Há no ofício dos fotógrafos o contraste de cores que ninguém faz, a luz que poucos enxergam, o detalhe que não se alcança a olho nu, o enquadramento.
Boas imagens são caras. O fotógrafo não vende um pedaço de papel estampado. Ele vende o olhar. Olhar de fotógrafo não tem tabela de preço. Não existe atualização monetária para o olhar. Certas imagens são definitivas. Fotografias não são máquinas, mas observações raras. Não é a Nikon que faz a diferença. É a intrepidez de quem manuseia a lente. Pode ser Canon, Polaroid, Love ou Xereta.
Elas estão nos jornais, nas revistas, nos pôsteres, nos postais, nas gavetas, nos outdoors, no porta-retrato, no computador e no imaginário. Há fotos que são uma outra linhagem da poesia, que saltam do papel feito um soneto, que não largam o cais da retina porque estão ancoradas em redondilhas. E quando elas falam? As fotos têm as suas verdades recitadas. As fotos têm essas manias.
Há quem não perceba o movimento que é peculiar em algumas fotografias. Fotos que dançam um balé quase perfeito, que desfilam imponentes pelos álbuns de recordação, que se remexem de tão vivas que estão no fosco do papel couchê. As fotos não param.
Fotografias relembram datas, pessoas, lugares e coisas. As fotos digitais desafiam o tempo com a evolução quilométrica de seus pixels. Já as imagens em preto e branco nos remetem ao passado. Fotos amareladas com cheiro de mofo refletem o passado em sépia dos nossos avós na parede. A fotografia, depois de remexida nas gavetas, faz pactos de convivência amistosa com a saudade.
As boas imagens não têm preço na praça. Não disputam mercado, não estão nas prateleiras do comércio. O olhar do fotógrafo está à espreita, sem sossego ou cerimônia. Afinal, ele não se contenta. O fotógrafo é um artista plástico que pinta a sua tela com uma câmera apoiada na mão e o olhar captando o infinito cotidiano.
domingo, 29 de agosto de 2010
No encalço de Julio Cortázar
Um dos nomes mais expressivos da literatura do século 20, o escritor Julio Cortázar, que completaria 96 anos na última quinta-feira, 26 de agosto, vai ganhar biografia assinada por um maranhense. O livro “Um tal Julio Cortázar”, de autoria do jornalista e tradutor Cassiano Viana, já está no prelo e será lançado até o final deste ano com o selo da editora Civilização Brasileira. Em cerca de 300 páginas, o autor traz detalhes sobre a vida e a obra daquele que é considerado um dos principais expoentes do realismo fantástico.
Circunstancialmente nascido em Bruxelas no ano de 1914 – os pais argentinos trabalhavam na embaixada da Bélgica -, Cortazar viveu a infância em Banfield e ficou em Buenos Aires até os 37 anos, quando transferiu-se definitivamente para Paris por não concordar com o modelo político adotado por Juan Domingo Perón. Ainda na Argentina, trabalhou como professor de literatura em algumas cidades do interior e foi funcionário da Câmara do Livro de Buenos Aires. A convite da Universidade de Porto Rico, traduziu para o espanhol a obra completa em prosa de Edgar Allan Poe. Traduziu também inúmeros trabalhos para a Unesco.
A primeira produção literária de Cortázar data de 1938, quando publicou, sob o pseudônimo de Julio Denis, o livro de poemas “Presencia”. Ganhou notoriedade com o livro de contos “Final de jogo”, lançado no México em 1956. A fama, porém, só viria em 1962 com o romance “O jogo da amarelinha”, um novelo com expressa recomendação para leitura de capítulos seguindo série numérica rigorosamente não-linear.
O envolvimento político de Cortázar rendeu-lhe respeito e desconfiança ao longo dos anos. O paradoxo está presente na sua criação – como em “Nicarágua tão violentamente doce”. Ora era visto pelas esquerdas como o admirável incendiário das ditaduras da América Latina. Ora era classificado como instrumento do imperialismo por criticar a prisão e o desaparecimento de artistas cubanos e soviéticos.
Julio Cortázar só voltaria à Argentina em 1983, com o processo de abertura política. Um ano depois de visitar amigos, lugares e personagens imaginários, o autor de “Bestiario” e “Histórias de Cronópios e de Famas”, dentre outros clássicos, morreu de leucemia em Paris. Antes de partir, ganhou a nacionalidade francesa.
Em 2004, quando foi celebrado o Ano Cortázar, Cassiano Viana começou a mergulhar no universo biográfico de Cortázar. Quantro anos antes, o argentino Mario Goloboff havia lançado “Julio Cortázar, a biografia” pela editora Six Barral. Cassiano tem 37 anos, é jornalista formado pela Universidade Federal do Maranhão e estreia em livro-solo com o peso da responsabilidade de biografar um artista complexo, de história densa, e por uma editora com indiscutível lastro intelectual.
Cassiano Viana vive no Rio há quase dez anos. Ainda no Maranhão, foi um dos autores do livro “As melhores crônicas do Claraonline” (Clara Editora, 2004). No Rio, escreveu para sites literários como Paralelos, Portal Literal, Bestiário e Cronópios. Atualmente é colaborador dos cadernos Prosa e Verso, do jornal “O Globo”, e Ideias & Livros, do “Jornal do Brasil”, e publica regularmente textos nas revistas “Bravo”, “Cult” e “Coyote”. Também publicou alguns contos na revista “Storm”, de Portugal.
Para o caderno Ideias & Livros traduziu autores como Ted Hughes, Dylan Thomas, e.e. cummings, Cortázar e Alejandra Pizarnik. Na “Coyote”, Cassiano publicou um dossiê com os poemas e entrevistas inéditos do contista belgo-argentino.
Sobre a obra “Um tal Julio Cortázar”, Cassiano Viana fala da experiência reveladora, das viagens de pesquisa, do engajamento político do contista e da simetria rítmica entre Borges, Poe e o autor de “As armas secretas”. Confira na entrevista.
Como e quando surgiu a ideia de escrever sobre Julio Cortázar?
CASSIANO VIANA - Surgiu em 2004, durante o Ano Cortázar, comemorado em todo o mundo. Uma amiga enviou as “Obras completas” publicadas na Espanha, com vários textos inéditos no Brasil, sobretudo três tomos de cartas - cada tomo com quase 500 páginas. Passei a traduzi-los para amigos. Um dia percebi que tinha material suficiente para uma biografia.
Quais as suas principais fontes de pesquisa?
CV - Além da correspondência de Cortázar e de alguns livros publicados lá fora sobre o autor, consegui entrevistar pessoas ligadas a ele, como o artista plástico Julio Silva, capista e amigo íntimo dele. Hoje, também um bom amigo meu que prometeu fazer a capa de um livro um dia. Na verdade, hoje tenho um livro “Retorno a Silvalândia”, uma espécie de caminho de volta à Silvalândia criada por Cortázar a partir de telas de Silva. Outro que entrevistei foi o também artista plástico Luis Tomasello, para quem Cortázar escreveu dois poemas: “Un elogio del três” e “Negro el 10”, este último no leito de morte. Também entrevistei o poeta cubano Roberto Fernandez Retamar, da Casa de las Americas, em Cuba. Percorri Buenos Aires, visitei duas vezes a primeira casa da família em Banfield, cenário de vários contos, sobretudo do livro “Bestiário”, e Paris, em momentos distintos, para fotografar e realizar entrevistas.
No livro há relatos de que a família Cortázar viveu ou passou pelo Brasil. Como foi essa experiência?
CV - Cortázar visitou o Brasil por três vezes, na década de 70. Numa das visitas saiu fugido do país, pois agentes da Triple A argentina (Alianza Anticomunista Argentina) sabiam que ele estava no Brasil e queriam matá-lo. Cortázar ficou amigo de vários intelectuais brasileiros, dentre eles Haroldo de Campos. Do Brasil, gostava da música. Dizia brincando que Caetano e Maria Bethania nunca eram vistos juntos pois eram, afinal, a mesma pessoa. Gostava também de autores como Clarice Lispector - citou várias vezes “Água Viva” em seus livros.
De fato houve um naufrágio envolvendo familiares de Cortázar no Brasil?
CV – Recém casados, os pais de Cortázar tentavam a vida na Europa quando explodiu a Primeira Guerra. Cortázar nasceu em Bruxelas, durante a invasão alemã. A ideia era fugir de país em país até a poeira baixar. O avô materno de Cortázar, Luis Descotte Jourdan, era quem financiava a aventura. Só que, durante uma viagem, no regresso a Buenos Aires, após três semanas em Zurique, visitando a família, o navio Príncipe de Astúrias, que fazia a rota do Atlântico, naufraga no Brasil. O acidente é considerado o segundo maior nas Américas, atrás apenas do Titanic.
O engajamento político exacerbado em algum momento comprometeu a criação literária de Cortázar?
CV - Sim. Cortázar ficou envolvido seriamente com a Revolução Cubana e com os movimentos na Nicarágua. Chegou a ir para a linha de guerrilha quando Carol Dunlop, sua última mulher, morreu, no início da década de 1980. Além disso, participou ativamente do Tribunal Bertrand Russell denunciando a situação de penúria das ditaduras na América Latina.
Mesmo engajado politicamente, Cortázar foi hostilizado por Fidel Castro por pedir informações sobre o desparecimento do poeta Heberto Padilla.
CV – É verdade. Esse foi um ponto crítico da relação de Cortázar com a Revolução Cubana. Fidel chegou a proibir a entrada em Cuba de intelectuais radicados na Europa. Estes, por sua vez, começaram a repensar a Revolução. Cortázar mobilizou vários intelectuais como Calvino e Susan Sontag a publicarem manifestos críticos no “Le Monde”.
Há similaridade entre as obras de Cortázar, Jorge Luís Borges e Edgar Alan Poe (de quem talvez tenha sido o seu mais fiel tradutor)?
CV - Borges foi o primeiro a publicar Cortázar, ainda na Argentina. Um exemplo disso é o conto “A casa tomada”, na revista “Sur”. Borges vinha de uma educação clássica, enquanto Cortázar vivenciou o efervescente Maio de 68. São dois escritores do signo de virgem, um nascido no dia 24 (Borges) e o outro no dia 26 de agosto. Pode parecer bobagem, mas isso explica alguma coisa. Décadas depois, os dois se encontraram em um corredor da Unesco em Paris, onde Cortázar trabalhava, os dois já autores consagrados. Borges disse: “Esse Cortázar, eu fui o primeiro a publicá-lo. A casa tomada, lembra?". Sobre Edgar Allan Poe, é possível encontrar influências na obra cortazariana desde os primeiros contos. Cortázar traduziu as obras completas dele, just for fun, como dizia. Na verdade, a tradução foi um exercício de escrita.
Ao empreender a prosa poética e utilizar uma linguagem não-linear nos seus contos, Cortázar deixou como legado o flerte da literatura com o cinema?
CV - Vários cineastas utilizaram a obra de Cortázar como referência para filmes. O mais conhecido é “Blow up”, de Antonioni. Um outro cineasta foi Godard, em “Weekend à francesa”. No Brasil, temos o “Jogo subterrâneo”, de Roberto Gervitz, um filme maravilhoso, talvez o melhor feito tendo como base uma obra de Cortázar.
Algum fato revelador na concepção do mosaico biográfico?
CV - Para além de qualquer mitologia, o mais importante: era um escritor que, apesar do rigor e da preocupação com a obra, não buscava o canônico. Tinha uma facilidade incrível de tornar um acontecimento mínimo em um texto estupendo, sem utilizar os clichês recorrentes da literatura. Escrevia para presentear os amigos - me confessou Julio Silva - com seus relatos. Era uma pessoa simples e solar.
Entrevista publicada no jornal "O Estado do Maranhão" do dia 29.08.2010
No labirinto como um minotauro
A primeira edição traz como mote a mitologia do labirinto, tão cara e intensa na obra de autores como Borges e Cortázar. Entre os colaboradores da revista estão os veteranos Antônio Cícero e Bráulio Tavares e novos autores como Francesca Angiolillo, Maykson de Souza, Mariana Amaral, Bia Dias e Paola Refinetti.
“Minotauro” carrega no charme da tinta das fotografias e obras de Diego Paleólogo, Sergio Werner (fotógrafo paulista radicado em Paris), Manuel Caeiro (artista plástico português) e Clarissa Cestari (brasileira radicada em Madri).
Buenos Aires pós-Cortázar
O velho corcunda empunha o bandoneon surrado e entoa a melodia lamentosa do tango. Adiante um homem de meia idade desafina um verso triste no violão e canta em coro com o menino desconfiado e terno. Ouvem-se vozes em castelhano, francês, português, inglês etc. No passeio público do cone sul, o homem sem cabeça não esmorece no sonho vão da invisibilidade.
O casal rodopia nos passos do tango ao relento. Rapidamente se forma a plateia de turistas curiosos e transeuntes embasbacados. Cadenciado jogo de pernas, olhar fixo no parceiro, dama e cavalheiro se entrelaçam nas quadras de Piazzolla. Mão no quadril, o terno conduz o vestido submisso sobre o calçadão da fama passageira. Palmas estimulam a coreografia dos dançarinos, mas não enchem o chapéu que corre de mão em mão.
Alguém desenha em minutos a caricatura graciosa, enquanto o aventureiro da voz inicia o show cantando qualquer cover como se estivesse em qualquer rua. Há música em profusão. Atos de melodrama a granel. Quase dois graus abaixo de zero e não demora muito o altofalante da esquina sopra ao vento Morango do Nordeste. O cantor esforçado não disfarça o sotaque.
Uma sessentona desinibida com adereço de esfinge na cabeça aborda os passantes com o cartão de visita do sex shop. Improvável não decifrar endereço tão quente! Já é noite e noutra esquina a carne feminina está na mão de atravessadores igualmente desinibidos. Meninas flauteiam resignadamente pelas transversais à espera da sorte no jogo do amor.
A rua tem o cheiro forte de cacau e incenso. Estamos na Florida, o coração de Buenos Aires. Meio shopping, meio rua Grande. A via inteira é um teatro. E como que num espetáculo diário a céu aberto, ali todos estão em busca do aplauso que se materializa na plata.
A Argentina cabe na rua Florida. Turistas e portenhos se esbarram em meio ao mimetismo diário de dólar, euro, peso e real. Vendedores ambulantes armam suas esteiras e quiosques de quinquilharias. Dividem a atenção com o colorido das grandes lojas e galerias de marca. Mas não ousam roubar o charme das infinitas livrarias.
A moeda é frágil e a economia enfrenta solavancos rotineiros. Trabalhadores armam acampamento na Praça de Mayo. Ao fundo, a Casa Rosada descolore ante a paisagem do protesto. O governo coleciona reveses enquanto o colega Nestor retoca a maquiagem de Cristina. A bandeira do palácio tremula no azul celeste do tecido quase roto. Quase feliz, o povo não cala.
A Argentina tem o seu encanto. Natural, cultural. É um belo passeio. Das montanhas de neve no cenário glacial da Patagônia aos contos cortantes de Julio Cortázar. Da Recoleta ao Caminito, do Boca a Palermo caminha-se distraído pelos labirintos lógicos de Jorge Luis Borges.
Os argentinos são autossuficientes e, a rigor, esbanjam vaidade e imodéstia. Continuarão amando o Maradona gordo, debochado. Reinventam-se elegantemente na derrota. O perdedor de ontem é um herói nacional. O futebol é só um pretexto. Há muito a nação está nua no obelisco.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
A canção, o bardo e a barra
O livro, diferentemente do que faz crer a simplicidade do poeta no seu soneto de partida Solfejos, vai muito além dos “rápidos arpejos”. Em Canção do abandono, Olímpio Cruz canta com a alma e, como quem devassa a própria morada, bamboleia entre o quarto escuro das ligeiras desventuras e o quintal com vista para o bailado das colinas.
Ora o poeta é o cantor da soledade, triste, espichado num rapel escalando a “dor do seu calvário”. Improvável não se entregar a fartos goles na taça de amargura servida pelo autor entre um verso e outro. Ora o poeta é puro galanteio, cativante e sereno, com suas musas, deusas, sereias, aparecidas e outros pretextos. Canção do abandono é também o rito de entrega regrada, o ato de contrição comedido, mas alvejante na sua essência. O poeta mira na delicadeza – “Seja feita a vontade dos teus olhos...” – e se aninha no precipício das paixões, “...onde mais luzem círios estelares”.
Mas não basta ler a poesia de Olímpio Cruz. É preciso saber da sua origem, do pedaço de chão pisado. Canção do abandono tem também o cheiro de Barra do Corda, das ruas e dos rios, das verdes tranças, da dança das cachoeiras “bordando o chão de espuma alvinitente”. Ninguém cantou tão longe a cidade como Olímpio Cruz, no alto do cruzeiro que protege a gente cordina ou no lume dos faroletes que se multiplicam no silêncio da noite.
O bardo da Barra entoa, altissonante, a ode à terra, ao barro e às águas. Não é preciso mergulhar no rio Corda para compreender a sinfonia do seu curso. A poesia de Olímpio Cruz é a própria correnteza do Corda a serpentear na aldeia até se fingir Mearim:
- Esbarro aqui, às portas da cidade,
Onde suspiro cheio de saudade,
E morro me abraçando ao Mearim...
Barra do Corda é a joia rara do poeta, o “ninho risonho pelo sol beijado” descrito por Olímpio Cruz que inspira gerações, recebe caravanas e romarias e transforma a poesia em hino oficial da cidade. Por tudo isso e mais um pouco, o livro Canção do abandono reaparece atual, envolvente, revelador, como se vivo estivesse o homem interiorano do mundo, o encantador de índios, o sertanista renitente, o pacificador, o missionário precursor da bandeira verde.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Conspiração da teoria
Desconfio dos teóricos. Desses que não conseguem desenhar um argumento de meia dúzia de palavras sem recorrer ao estratagema da citação. Muitos não sobreviveriam sem o advento das aspas, essa venturosa invenção das academias. As universidades estão cheias de teóricos. Boa parte deles, experimentados na arte de construir um texto como quem trabalha em linha de montagem, não faria falta à humanidade.

Aprende-se cedo a ser um reprodutor do argumento alheio. Quase não há saída. Os livros didáticos abusam da citação. A aspa é uma mania nacional. E a pior de todas é a aspa que não se pode enxergar a olho nu. A aspa invisível é um fenômeno relativamente novo, mas bastante utilizada por quem faz pesquisa na Internet e sequer dá-se ao trabalho de mencionar a fonte consultada.
Nas universidades, os trabalhos de conclusão de curso são verdadeiros repositórios de citações. Se não houver um farto cardápio de referências bibliográficas, a monografia é reprovada pelo professor antes mesmo de chegar à banca de avaliação. Aos textos baseados em obras alheias dá-se o nome de trabalho científico, como se ciência fosse o mero exercício de reciclar a idéia de terceiros. Constrói-se, com o pendão das nossas leis de diretrizes e bases, a terceirização do pensamento nos bancos universitários.
Os cursos universitários estão abarrotados de teses, monografias, dissertações, TCC’s et cetera e tal. Um colosso em matéria de produção acadêmica. A maioria dos trabalhos não tem pé nem cabeça, mas está recheada de belas citações de teóricos. As teses alternam-se numa espantosa combinação de ideias para todos os gostos. Há quem junte num só balaio, como que compartilhando o mesmo pensamento, Adam Smith e Gramsci, Walter Benjamim e Pierre Levy.
As citações se sucedem nas teses de pós-graduação. Intermináveis. Há sempre alguém escrevendo alguma dissertação. Nas especializações, mestrados e doutorados. É um longo percurso em busca de autores ou da teoria perfeita. Nem sempre a linha de pensamento do autor está afinada com o eixo do assunto pesquisado. Mas a perseguição à teoria é inevitável.
Existe um velado pacto de cumplicidade entre alunos e professores. O modelo de educação predominante no Brasil estabelece que primeiro o aluno deve buscar um autor. Depois, que ele recorra a uma ideia. Uma ideia original é muito perigosa. A conveniência recomenda: é mais proveitoso partir para o campo do pensamento de alguma corrente teórica exaustivamente esclarecida e badalada. É preciso justificar a ideia original da tese com algo que já tenha sido experimentado por algum autor conhecido.
Nos tempos de faculdade, conheci uma professora que, na escalada entre a graduação e o pós-doutorado, foi induzida a ler mais de duas centenas de teóricos. Hoje, com a jornada quase concluída, a professora vive como quem perdeu a identidade no meio do caminho, intoxicada pelas ideias dos outros. Há título em excesso, mas falta-lhe prumo e ideia própria. Perdeu aos poucos a aptidão pela sala de aula.
Desconfio dos teóricos, reitero. Alguns deles são absolutamente intoleráveis, de nomes esquisitos e ideias cíclicas. Desconfio mais ainda dos reféns da teoria e do texto rebuscado em notas de rodapé. Não sabem eles que, embora a arte da simplicidade seja a mais difícil de todas, dissertar não significa dificultar. Antes de se aventurar ao mar alto dos teóricos, vale muito mais a pena navegar na cabotagem de portos seguros e conhecidos.
Há bons teóricos, filósofos indispensáveis, autores de bons argumentos e que levantam questões intrigantes. Mas não acredito nos copiadores de aspas que se formam a torto e a direito no Brasil.