terça-feira, 20 de abril de 2010

Conspiração da teoria

Desconfio dos teóricos. Desses que não conseguem desenhar um argumento de meia dúzia de palavras sem recorrer ao estratagema da citação. Muitos não sobreviveriam sem o advento das aspas, essa venturosa invenção das academias. As universidades estão cheias de teóricos. Boa parte deles, experimentados na arte de construir um texto como quem trabalha em linha de montagem, não faria falta à humanidade.



Aprende-se cedo a ser um reprodutor do argumento alheio. Quase não há saída. Os livros didáticos abusam da citação. A aspa é uma mania nacional. E a pior de todas é a aspa que não se pode enxergar a olho nu. A aspa invisível é um fenômeno relativamente novo, mas bastante utilizada por quem faz pesquisa na Internet e sequer dá-se ao trabalho de mencionar a fonte consultada.

Nas universidades, os trabalhos de conclusão de curso são verdadeiros repositórios de citações. Se não houver um farto cardápio de referências bibliográficas, a monografia é reprovada pelo professor antes mesmo de chegar à banca de avaliação. Aos textos baseados em obras alheias dá-se o nome de trabalho científico, como se ciência fosse o mero exercício de reciclar a idéia de terceiros. Constrói-se, com o pendão das nossas leis de diretrizes e bases, a terceirização do pensamento nos bancos universitários.

Os cursos universitários estão abarrotados de teses, monografias, dissertações, TCC’s et cetera e tal. Um colosso em matéria de produção acadêmica. A maioria dos trabalhos não tem pé nem cabeça, mas está recheada de belas citações de teóricos. As teses alternam-se numa espantosa combinação de ideias para todos os gostos. Há quem junte num só balaio, como que compartilhando o mesmo pensamento, Adam Smith e Gramsci, Walter Benjamim e Pierre Levy.

As citações se sucedem nas teses de pós-graduação. Intermináveis. Há sempre alguém escrevendo alguma dissertação. Nas especializações, mestrados e doutorados. É um longo percurso em busca de autores ou da teoria perfeita. Nem sempre a linha de pensamento do autor está afinada com o eixo do assunto pesquisado. Mas a perseguição à teoria é inevitável.

Existe um velado pacto de cumplicidade entre alunos e professores. O modelo de educação predominante no Brasil estabelece que primeiro o aluno deve buscar um autor. Depois, que ele recorra a uma ideia. Uma ideia original é muito perigosa. A conveniência recomenda: é mais proveitoso partir para o campo do pensamento de alguma corrente teórica exaustivamente esclarecida e badalada. É preciso justificar a ideia original da tese com algo que já tenha sido experimentado por algum autor conhecido.

Nos tempos de faculdade, conheci uma professora que, na escalada entre a graduação e o pós-doutorado, foi induzida a ler mais de duas centenas de teóricos. Hoje, com a jornada quase concluída, a professora vive como quem perdeu a identidade no meio do caminho, intoxicada pelas ideias dos outros. Há título em excesso, mas falta-lhe prumo e ideia própria. Perdeu aos poucos a aptidão pela sala de aula.

Desconfio dos teóricos, reitero. Alguns deles são absolutamente intoleráveis, de nomes esquisitos e ideias cíclicas. Desconfio mais ainda dos reféns da teoria e do texto rebuscado em notas de rodapé. Não sabem eles que, embora a arte da simplicidade seja a mais difícil de todas, dissertar não significa dificultar. Antes de se aventurar ao mar alto dos teóricos, vale muito mais a pena navegar na cabotagem de portos seguros e conhecidos.

Há bons teóricos, filósofos indispensáveis, autores de bons argumentos e que levantam questões intrigantes. Mas não acredito nos copiadores de aspas que se formam a torto e a direito no Brasil.

sábado, 17 de abril de 2010

Salve a Louca do Rio Anil

Quem é aquela que ergue os braços e corre em disparada pelas cercanias do novo shopping? A Louca do Rio Anil é só uma menina alegre no meio da multidão, descolada da massa pelo sorriso farto, pelo gesto de explosão da vitória. E não é louca a pequena que se agarra com euforia aos letreiros de loja, às tentações da novidade do bairro, ao burburinho dos artistas de televisão.



E como corre a louca! E vibra como quem venceria fácil a batalha de Riachuelo do shopping. Soberana diante da conquista iminente, a menina contraria a lógica sartreana-suburbana e chega ao pódio do consumo ao lado de veteranas na arte da pechincha do Olho d’Água. A Louca do Rio Anil não é fashion, mas tem atitude. Zomba do clichê com elegância de tamanha ingenuidade. Quem são os adoradores de shopping? Serão os mesmos fiéis da internet, esse totem-tabu que escraviza e sevicia?

Sim, são os mesmos protagonistas do escárnio, com seus twitteres e orkuts incandescentes. São as mesmas debutantes do Calhau que dançam valsa com o ator da Globo, que lêem Caras, que tiram fotos ao lado de celebridades. Somos meio idolatria, meio periferia!

Para a Louca do Rio Anil, São Luís é só uma colônia. Uma colônia do Boticário, talvez. E ela, uma colonizada com aroma de pau-brasil, cabelo ao vento, calça jeans desbotada e blusinha tomara-que-caia. Não leva jeito para o saque dos bárbaros. Não tem queda para o vandalismo. Quer apenas um quadrado mais próximo do holofote, o autógrafo de um ex-confinado do BBB, uma compra na prateleira das promoções.

A cidade em transe, e é apenas um novo shopping de portas abertas para o Itapiracó. O que vão dizer na metrópole? O que vão pensar de nós lá fora? Que somos todos a Louca do Rio Anil, carne e osso, corpo e alma, sem medo do vexame, querendo cortar a fita de chegada. Viva a pobreza de espírito!

Somos todos de abril como os poucos índios que ainda restam. A doce Louca do Rio Anil também tem pele amarela como a menina triste da foto do Vietnã. Uma e outra sobreviveram: à inauguração do shopping das coloridas vestes e às cinzas da bomba nua. Assim caminha a aldeia, aqui e acolá.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Chico Xavier e o caso Humberto de Campos

Tema tratado perifericamente no longa-metragem Chico Xavier, filme de Daniel Filho que estreia hoje nos cinemas do País, a polêmica sobre a autoria dos mais de 400 livros psicografados pelo médium mineiro já esteve no centro das discussões da intelectualidade brasileira, no século passado. E até virou processo judicial. No livro As vidas de Chico Xavier (editora Planeta do Brasil, 2003), que deu origem ao filme, o jornalista Marcel Souto Maior relata em determinado capítulo o rumoroso caso que levou o mais famoso espírita brasileiro às barras da justiça: a psicografia de livros cuja autoria fora atribuída ao espírito do escritor maranhense Humberto de Campos, morto em 1934.


O lançamento do filme é apenas um dos muitos acontecimentos que celebram, neste abril, o centenário de nascimento de Francisco Cândido Xavier, um mineiro pobre e mulato que viveu intensamente o espiritismo e a filantropia e chegou a ser indicado, em 1981, ao prêmio Nobel da Paz. Adorado por muitos, desprezado pelos intelectuais e bajulado por políticos e empresários, Chico Xavier viveu à margem das tentações da matéria, após a morte em 2002 transformou-se em mito e sua missão filantrópica espraiou-se pelo mundo, por meio de seus admiradores.

Os livros psicografados por Chico Xavier venderam mais de 50 milhões de exemplares. Ele abriu mão da renda das publicações em nome da caridade. O primeiro livro do médium publicado pela Federação Espírita Brasileira (FEB), em 1932, foi Parnaso de além-túmulo, uma coletânea de 59 poemas atribuídos a 14 poetas de língua portuguesa de reconhecido talento, como Castro Alves, Olavo Bilac, Casimiro de Abreu e Augusto dos Anjos, entre outros.

Sobre Parnaso de além-túmulo, Humberto de Campos publicou as crônicas Poetas do outro mundo e Como cantam os mortos, ambas no jornal Diário Carioca. Na primeira delas, o escritor maranhense reconhece o valor literário dos versos mediúnicos, porém põe a sua afiada ironia a serviço da descrença coletiva: “A poesia é uma predestinação de tal modo fatal, irremediável, que a vítima não se livra dessa maldição nem mesmo depois da morte”. Em outro trecho, vai direto ao escracho: “Se eles (os mortos) voltam a nos fazer concorrência com seus versos perante o público e, sobretudo, perante os editores, dispensando-lhes o pagamento de direitos autorais, que destino terão os vivos que lutam, hoje, com tantas e tão poderosas dificuldades? Quebre, pois, cada espírito a sua lira na tábua do caixão em que deixou o corpo”.

As crônicas foram o único “elo material” entre o médium mineiro e o escritor maranhense, que não se encontraram em vida. Depois de um longo sofrimento, Humberto de Campos morreria em 5 de dezembro de 1934, dois anos após o lançamento de Parnaso de além-túmulo. Três meses depois da morte, Chico Xavier diz em seus escritos ter sonhado com Humberto de Campos, de quem ouvira a seguinte frase: “Você é o menino do Parnaso? Eu sou Humberto de Campos”. Seria a senha para os sucessivos textos do escritor dali em diante psicografados pelo médium.

Os textos atribuídos a Humberto de Campos são mensagens em defesa dos espíritos, como “um consolo aos tristes e uma esperança aos desafortunados”. Em quase dez anos, foram tantas as mensagens espirituais do escritor maranhense que renderam cinco livros psicografados por Chico Xavier: Crônicas do além-túmulo, Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho, Novas mensagens, Boa nova e Reportagens do além-túmulo.

Em 1944, a viúva Catharina Vergolino e os filhos Henrique e Humberto Filho, detentores dos direitos autorais da obra de Humberto de Campos, entraram com uma ação declaratória na justiça contra Chico Xavier e a Federação Espírita Brasileira. A filha Maria de Lourdes não quis se envolver na questão. De acordo com a ação, a justiça deveria declarar se os livros lançados por Chico e a FEB eram obras realmente ditadas pelo “espírito de Humberto de Campos”. Por meio de advogados, a família exigia, para isso, todas as provas científicas possíveis e requisitava depoimentos em juízo de representantes da Federação, de Chico Xavier e, até, do “espírito de Humberto de Campos”.

Claro que o processo se transformou numa enorme polêmica e atraiu as atenções da grande imprensa brasileira. A opinião pública aguardava com expectativa a decisão do juiz João Frederico Mourão Russell. Se negasse a autenticidade dos textos atribuídos ao espírito de Humberto de Campos, Chico Xavier poderia pagar indenização por perdas e danos à família do escritor, além de ser preso por falsidade ideológica. E se confirmasse os livros como verdadeiramente escritos pelo espírito de Humberto de Campos, estaria reconhecendo a existência de vida após a morte. Nessa hipótese, deveria decidir se a família de Humberto de Campos teria ou não o direito autoral sobre o conjunto da obra mediúnica.

Mourão Russell considerou a ação inepta com base em argumentos consistentes. Ao morrer, o indivíduo deixa de possuir direitos civis, logo Humberto de Campos não poderia reavê-los. Direitos autorais herdáveis limitam-se àqueles referentes a obras produzidas pelo escritor antes de sua morte. E, por fim, a ação resumia-se a uma mera consulta com base em perícia científica sobre espiritismo, fato alheio às prerrogativas do Judiciário.

Polêmica familiar sobre textos do além

Os herdeiros de Humberto de Campos recorreram, sem sucesso, da decisão de Mourão Russell. A justiça encerrou o caso em 3 de novembro de 1944. Ao apresentar o recurso judicial, a família optou por reduzir a pó os textos psicografados por Chico Xavier. No agravo, o advogado do espólio argumenta que a obra mediúnica é profundamente inferior aos textos originais de Humberto de Campos. “Não só está eivada de imperdoáveis vícios de linguagem e profundo mau gosto literário, como é paupérrima de imaginação e desprovida de qualquer originalidade”. E aponta para o pastiche: “O que é aproveitável não passa de grosseiro plágio, não só de ideias existentes na obra publicada em vida do escritor, como de trechos inteiros, o que é de fácil verificação”.

Em meio aos embates no pretório, a defesa de Chico Xavier apresentou texto até então inédito assinado pelo “espírito de Humberto de Campos”, no qual ele - o espírito - expõe suas mágoas para com a empreitada dos familiares na justiça. De acordo com a mensagem, a família não precisava movimentar o exército dos parágrafos e atormentar o cérebro dos juízes. “Que é semelhante reclamação para quem já lhes deu a vida da sua vida? Que é um nome, simples ajuntamento de sílabas sem maior significação?”.

A mãe de Humberto de Campos, dona Ana Campos, em entrevista a O Globo de 19 de julho de 1944, enxerga semelhança de estilo entre a obra original do escritor e os textos psicografados por Chico Xavier. “Não conheço nenhuma explicação científica para esclarecer esse mistério, principalmente se considerarmos que Francisco Xavier é um cidadão de conhecimentos medíocres”. Segundo ela, se a justiça reconhecesse o conjunto da obra psicografada como sendo realmente de Humberto de Campos, haveria de se pagar o direito autoral à família do escritor. Caso contrário, “os intelectuais patriotas fariam ato de justiça aceitando Francisco Cândido Xavier na Academia Brasileira de Letras”. Para Ana Campos, somente um homem muito inteligente e culto, de fino talento literário, poderia escrever textos tão identificados com o estilo de Humberto de Campos.

Em decorrência da polêmica no processo judicial movido pela família de Humberto de Campos, os textos psicografados por Chico Xavier atribuídos ao espírito do escritor maranhense voltam à cena em 1945, agora assinados com o pseudônimo de Irmão X. No auge da produção jornalística, o maranhense adotou o pseudônimo Conselheiro XX. O primeiro livro da série editada pela Federação Espírita Brasileira foi Lázaro redivivo. Depois vieram Luz acima (1948), Pontos e contos (1951), Contos e apólogos (1958), Contos desta e doutra vida (1964), Cartas e crônicas (1966) e Estante da vida (1969).

Em 1997, o filho caçula de Humberto de Campos lançou uma pequena biografia sobre o pai na qual dá a interpretação para o processo judicial de 1944, 53 anos depois. Em Irmão X, meu pai, Humberto de Campos Filho atesta a autenticidade dos textos psicografados e diz que o alvo da ação declaratória não foi Chico Xavier, mas a Federação Espírita Brasileira, por ser a editora responsável pela publicação das obras mediúnicas.

Na tese O caso Humberto de Campos, autoria literária e mediunidade, apresentada em 2008 ao Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp, para obtenção do título de doutor em Teoria e História Literária, Alexandre Caroli Rocha analisa com propriedade correntes de semelhanças culturais e sociais existentes entre Humberto de Campos e Chico Xavier, que os fazem convergir inclusive no estilo literário. Segundo ele, ambos nasceram em pequenas cidades do interior, foram autodidatas, ficaram órfãos na infância, foram balconistas de pequenos comércios, eram mulatos, passaram por sérias dificuldades financeiras, tiveram problemas de saúde desde cedo, desenvolveram suas atividades de modo obstinado, perderam a visão de um olho, muito escreveram e, por suas publicações, ganharam notoriedade: um como cronista e memorialista, o outro como psicógrafo. Isso tudo, porém, não é o suficiente para atestar a autenticidade de autoria de um livro. Ainda mais quando as obras analisadas – cinco livros de Humberto de Campos e sete de Irmão X – têm características literárias de caráter doutrinário.

Alexandre Caroli identificou nos textos psicografados de Chico Xavier a utilização de muitos elementos da obra viva de Humberto de Campos, além de uma série de referências de leitura do escritor maranhense. O autor da tese assevera que, apenas por meio da comparação de textos, não se pode autenticar ou refutar a autoria da escritura mediúnica. “Veredictos taxativos para a identificação do autor são possíveis somente com a assunção de uma determinada teoria sobre o post-mortem ou sobre o fenômeno mediúnico, tema tabu que, nos ambientes acadêmicos da nossa sociedade, costuma ser relegado a domínios metafísicos ou religiosos”, defende Caroli.

Memórias de um menino de Miritiba

Nascido em 1886 na pequena Miritiba (atual município de Humberto de Campos), onde viveu até os seis anos, Humberto de Campos Veras perdeu o pai ainda cedo e teve uma infância marcada por dificuldades. Com a mãe e duas irmãs, morou em São Luís e Parnaíba e trabalhou como aprendiz de alfaiate, balconista e tipógrafo. Autodidata, na capital maranhense aprendeu a viajar nas páginas de Júlio Verne, em incursões periódicas que fazia à biblioteca pública. Em Belém (PA), iniciou a carreira jornalística como redator do jornal Folha do Norte, e depois fora contratado como redator-chefe da Província do Pará. Ao mudar para o Rio, fez amizade com o também maranhense Coelho Neto e trabalhou em jornais de grande circulação, como Gazeta de Notícias e O Imparcial.

Foi um escritor em tempo integral. Seus principais livros – de um total de 45 títulos editados - são compilações de textos publicados na imprensa, especialmente crônicas. Foi por meio de sua produção jornalística que alcançou o grande público, o que o transformou em um dos escritores mais lidos do Brasil à época e lhe valeu a eleição, aos 33 anos, para a Cadeira 20 da Academia Brasileira de Letras, em substituição a Emílio de Menezes. Em 1927 foi eleito deputado federal pelo Maranhão, mas perdeu o mandato três anos depois com a Revolução de 1930, que dissolveu o Congresso.

Humberto de Campos foi “obrigado a escrever diariamente para atender aos compromissos com o estômago”, segundo relata o crítico Hildon Rocha em artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 1986, por ocasião do centenário de nascimento do maranhense.

A intensa produção do autor teve momentos de altos e baixos. Em Memórias, livro publicado em 1933, Humberto de Campos faz a confissão pública de “folias particulares” ao (des)montar sua história de vida, numa “demonstração de como pode um homem, pela simples força da sua vontade, desajudado de todos os atributos físicos e morais para a vitória, libertar-se da ignorância absoluta e de defeitos aparentemente incorrigíveis, desviando-se dos caminhos que o levariam ao crime e à prisão para outros que o poderão conduzir a uma poltrona de Academia e a uma cadeira de Parlamento”. O livro foi, pela voz das ruas e o alto-falante da crítica, o ponto mais elevado e denso a que chegou o menino de Miritiba. Memórias, obra de ousada sinceridade, iluminou tudo o que antes Humberto de Campos havia escrito e publicado.

Acometido de hipertrofia da hipófise, doença que também ceifou o escritor francês Alphonse Daudet, por muitas vezes Humberto de Campos escreveu seus textos amparado por bolsas de água quente sobre a cabeça, para aliviar dores profundas e dilacerantes. Faleceu no Rio durante uma cirurgia, em 1934, no auge da notoriedade.

Humberto de Campos deixou uma obra extensa, com títulos que formam um expressivo recorte da literatura brasileira, como Poeira (poesia), Da seara de Booz (crônicas), Vale de Josaphat (contos), Pombos de Maomé (contos), Grãos de mostarda (contos), Crítica, Poesias completas, Memórias inacabadas e Diário secreto, os dois últimos publicados postumamente.

A imprensa no encalço do detetive do além

Enquanto o processo do caso Humberto de Campos se arrastava pelos tribunais, a imprensa brasileira empenhava-se em fazer o papel de xerife da história. E lá estavam os jornalistas a desbravar a pacata Pedro Leopoldo, em busca de uma pista capaz de desmascarar o autor de pastiches que vendiam como água nas livrarias espíritas do País. Em As vidas de Chico Xavier, Marcel Souto Maior descreve a saga do jornalista David Nasser e do repórter fotográfico Jean Manzon, a mais ousada dupla de O Cruzeiro, a revista de maior circulação na época.

A missão de Nasser e Manzon era desvendar o homem Chico Xavier, revelando aos milhares de leitores da revista a intimidade do médium, que àquela altura estava sentado no banco dos réus em ação movida pelos herdeiros de Humberto de Campos. Os dois repórteres desembarcaram em Pedro Leopoldo e, para ludibriar a segurança da fazenda onde Chico residia e conseguir a tão esperada entrevista, fingiram ser jornalistas americanos. Em nenhum momento do encontro, os repórteres se identificaram pelos nomes verdadeiros. Auxiliados por um falso intérprete de inglês, os dois conseguiram chegar até Chico Xavier, que abriu as portas de sua casa, respondeu a perguntas e posou para fotos até então inéditas na imprensa.

“Uma das fotografias estampadas na revista exibia o representante do ilustre e saudoso Humberto de Campos sentado numa banheira, com a mão esquerda sobre a testa, como se estivesse em transe mediúnico. Só faltava estar nu”. A imagem foi estampada em meia página de O Cruzeiro no dia 12 de agosto de 1944, onze dias antes da sentença do juiz, com a seguinte legenda: “Sensacional flagrante de Chico na banheira. Ele procurava as almas, quando Jean Manzon o surpreendeu, obtendo um impressionante documento para o próximo julgamento. Os adversários do espiritismo afirmam que é uma prova de farsa. Os espíritas, que é outra prova: o espírito desce seja onde for”.

As fotos e as legendas espalhafatosas, segundo Souto Maior, foram bem mais contundentes do que propriamente o texto da reportagem de David Nasser, intitulada “Chico, detetive do além”. As imagens, todas dirigidas pela experiente dupla de repórteres, expunham um Chico vaidoso e ingênuo, “leitor de grandes obras literárias”, portanto capaz de cometer o pastiche cantado pela intelectualidade.

Uma hora e meia de entrevista. Os jornalistas “americanos” se despediram e, na saída da fazenda, ganharam livros com dedicatória de Chico. Na reportagem, os repórteres não citam como conseguiram ludibriar o médium tido como tão astuto.

Em reportagem publicada 30 anos depois no jornal O Dia, David Nasser relembra o histórico encontro com Chico Xavier e reconstitui diálogo travado com Jean Manzon, dois dias após a polêmica entrevista. Na madrugada, o jornalista foi acordado por um telefonema aflito do fotógrafo.

- David, você trouxe aquele livro que o homem nos ofereceu?
- Claro que sim.
- Pois bem, abra-o na primeira página e leia a dedicatória.

Nasser deixou o telefone de lado para folhear o livro que recebera do médium. Como dedicatória havia a frase “Ao irmão David Nasser, oferece Emmanuel”. De volta ao telefone, indagou, apavorado:

- Que negócio é esse, Manzon, alguém revelou nossa identidade?

Emmanuel foi o espírito que acompanhou Chico Xavier em grande parte de sua vida mediúnica. O fotógrafo e o falso intérprete também receberam a mesma dedicatória. “Diante do mistério, os três fizeram um pacto de silêncio”, relata Souto Maior. A reportagem de O Dia esboça um David Nasser arrependido com o episódio de Pedro Leopoldo e os seus desdobramentos. “Chico Xavier é o maior remorso da minha vida”, admitiu o jornalista, embora anos depois da aventura.

(texto publicado originalmente no dia 2 de abril de 2010, no jornal O Estado do Maranhão)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Um pouco antes da trilha

A vida não é filme, mas sugere uma trilha. Eu coleciono várias. Vidas e trilhas. Mas não é uma vida a pilha que pede uma trilha. Há uma milha de distância entre uma simples música que tocou e uma trilha sonora digna de registro em HD natural. A trilha precisa de mais dias de calor que de cobertor. É necessário passar mais tempo acordado para merecer uma trilha. Não há música definitiva no compasso do sono.


Montar uma trilha sonora não exige muito esforço. Aliás, não se monta uma trilha sonora. Ela surge. Insuspeitada e anacrônica, às vezes surge anos depois. Você olha pra trás e lá está a canção te martelando o ouvido com a rima colegial. A trilha sonora daquele verão certamente não foi mais intensa que os dias de bossa dessa chuva que molha a areia da praia. No horizonte, mar e pedaços de nuvem se fundem numa balada de amor que não tem fim. A vida embaça pelo retrovisor do carro. É a trilha da estação.

Do romance mais prosaico ficou pelo menos um refrão de carnaval, dessas marchinhas que não se governam e saem por aí atravessando o tempo e a multidão. O refrão sem dono não chega a ameaçar os amores de agora nem os concertos de afeto que embalaram os passos de ontem.

Não se perdem na lembrança os programas de rádio, o vinil emprestado, a coletânea em fita K7, os CDs gravados com a alma impregnada em cada faixa, os trechos de músicas rabiscados na blusa desbotada no final de ano da escola, o baião preferido do meu pai, a luz negra do salão de reggae, os lamentos sertanejos que minha mãe entornava como se fossem canções de ninar e o beijo partido na platéia do show de rock que ainda hoje ressoa.

A trilha da infância vai das orquestras que compensavam certas brutalidades nos filmes de bang-bang às cantigas de padre Zezinho que do alto da torre da igreja enchiam de ternura as manhãs de domingo da cidade pequena. Há trilha para certas coisas e acontecimentos e pessoas e lugares e viagens.

Não me incomodam as músicas de gosto duvidoso, tampouco me assustam os boleros e calipsos que jamais dancei. Se vale a pena saber da Carolina, da cajuína, da ópera de Catirina, não se pode fechar os olhos para o abajur cor-de-carne que te assombra o passado. Há quem faça da vida uma trilha que se completa nas evoluções do Rebolation, por exemplo. E daí?

Existe uma trilha que ainda não foi aberta, sem pecado ou preconceito, regada a candomblé, arrasta-pé ou cabaré. Sem roteiro. Como um rolo de filme, um dia ela vai se revelar.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Sob o céu de Lisboa

A boa dosagem de lirismo em Portugal não está associada apenas aos cantos de fada de Amália Rodrigues, aos contos e fados da Alfama ou aos cafés boêmios do Chiado. Está no azul profundo do céu que cobre Lisboa. É o azul do céu que dá as boas-vindas a quem ali chega. De barco, balão, trem ou avião. O encanto é inevitável.

É domingo de Carnaval em Lisboa e a cidade ainda adormece. Nem mesmo o inverno intimida o sol em sua ventura solitária de pintar essa imensa tela de azul. As ruas despertam lentamente. A paisagem cresce em cada esquina, nos becos e ruas mais estreitos, na jóia rara da coroa de Queluz, nas sacadas dos sobradões que de dia viram varal.

Estar em Lisboa é reinventar o passado, dando a ele o valor necessário. É o revés do descobrimento, distraída navegação da nau tempo, sem cartografia ou GPS. Como no filme de Wim Wenders (Lisbon story, 1994), vejo-me perdido na via pública e saio a filmar com os olhos o mundo sem som da cidade muda porque dorme.

Lisboa é inteira ficção do poeta em pleno gozo do desassossego. A alma de Fernando Pessoa parece vagar pela cidade, ora em versos de música, ora na arquitetura dos passantes, na sisudez das fachadas reais. Poeta e poesia tomam café na Brasileira e brincam de ciranda para o flash dos turistas insones. Breve tertúlia literária com pastel de napa que se estende da Alfama à Mouraria, sem livro ou roteiro.

Do alto do castelo de São Jorge não se sabe onde termina o mar e onde começa o rio. Dizem que, todas as manhãs, o mar se enche de Tejo e beija o cais de Lisboa. Olhando de cima os telhados da cidade-velha, suspeita-se que a época moderna adoece o olhar dos homens, como um mal presente na retina de Alberto Caeiro.

A melancolia do fado em nada lembra as alegorias esparsas numa cidade de Carnaval sem batucadas e bambas. A um oceano do barulho, crianças saem de casa fantasiadas de alegria. Belas moças colorem o corpo com pinturas extravagantes para lembrar que samba é um estado de espírito. Nada mais.

O olho molha quando cai a noite e o fado suplicante acende meia-luz de qualquer coisa. Ao fundo, alguém cantando a vida em excesso, o desengano, a dor, a saudade. Ali há sempre alguém cantando Lisboa, que não sonha em ser Paris, que não vai ser moderna porque dura a tradição.
À primeira vista Lisboa parece assim: onde o mar finda. Pressa e preguiça de um olhar distante. Vinho e bacalhau. O lirismo que começa na capital ecoa pelo Alentejo e se espalha pelas colinas de Sintra e ruelas do Porto. Vai pelo céu. Um azul que se eterniza na memória. De cidade em cidade.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O diálogo da sustentabilidade: comunicação para empreendimentos de grande impacto


Os processos de comunicação empresarial tendem a acompanhar, naturalmente, modelos e estágios da economia. Crises, mudanças de rota, desaceleração, picos de desenvolvimento, tudo isso entra na pauta das agências de comunicação conectadas com o mundo dos negócios. Monitorar as curvas de investimentos e os indicadores do mercado é uma tendência cristalina da comunicação de resultados. Os projetos estruturantes que estão em curso no Brasil, por exemplo, fizeram emergir a expertise da comunicação especializada em estratégias para empreendimentos de grande impacto.

Apesar do hiato provocado pela atual crise econômica, há centenas de empreendimentos industriais em construção nas cinco regiões do País. São refinarias, siderúrgicas, rodovias, ferrovias, mineradoras, complexos portuários, usinas hidrelétricas e termelétricas, linhas de transmissão etc. Esses projetos indicam primeiramente que há uma escala de crescimento com uma janela de oportunidades para variados segmentos da sociedade, principalmente a massa de trabalhadores desempregados. Revelam também a necessidade de mais energia e novos modais de escoamento da produção para suprir a tendência do desenvolvimento econômico brasileiro.

Mas os impactos desses empreendimentos não estão apenas no campo econômico. Uma grande obra de infraestrutura requer planejamento rigoroso capaz de minimizar as interferências na vida das pessoas e do meio ambiente. Para isso, existem os estudos e relatórios de impacto ambiental que devem ser apresentados pelos empreendedores, obrigatoriamente, nas fases de planejamento, construção e operação do empreendimento. São esses instrumentos que formalizam, como prevê a legislação, o compromisso da empresa com políticas de mitigação e compensação social em relação às comunidades e populações interferidas.

Os relatórios e estudos de impacto ambiental (EIA-RIMA) são apresentados em audiência pública, fórum legítimo para discussão dos pontos de interesse do empreendedor e das demais partes envolvidas (comunidades, poder público, sociedade civil etc.). O papel da agência de comunicação é criar condições adequadas para que a audiência seja bem sucedida, no que tange a organização, logística, convocação e mobilização popular, registro e documentação completa do evento para posterior comprovação junto ao órgão ambiental de licenciamento. Outra atividade relevante de uma agência com expertise nessa área é a organização de reuniões preparatórias que antecedem a audiência pública. Essas reuniões visam estimular, de forma didática, o debate prévio com públicos específicos, o que resulta numa audiência muito mais profícua.

Dentre os compromissos socioambientais do empreendedor impostos pelo órgão de licenciamento está a execução de um programa de comunicação social, instrumento legal de médio a longo prazos que permite o acompanhamento, pelas partes interessadas, de todos os passos da obra, as interferências na comunidade e o andamento dos demais programas de compensação.

O programa de comunicação social é o canal de diálogo da sustentabilidade. É por meio dele que a comunidade aplaca os seus anseios, tira dúvidas, informa-se, apresenta sugestões e é ouvida. O programa é de lei, não uma conveniência ou concessão da diretoria da empresa/empreendimento. E por isso mesmo, os resultados são acompanhados regularmente para aferição de sua eficácia. De tamanha responsabilidade, a execução do programa é prerrogativa de agência de comunicação com experiência nesse tipo de atividade. Cabe somente a uma agência especializada promover a mobilização social na área de influência do empreendimento - que é a comunicação face a face, o diálogo com gente simples, lideranças comunitárias, políticas e religiosas.

A comunicação para empreendimentos de grande impacto exige técnica e conhecimento da realidade social e cultural da região onde o projeto está inserido. Em áreas carentes desse imenso Brasil – por onde se multiplicam obras do PAC e da iniciativa privada – mais do que internet, anúncio de jornal e propaganda em TV, as comunidades necessitam de ferramentas simples de apoio. Na maioria das vezes, são cartilhas, pequenos informativos, panfletos, rádios comunitárias, carros de som, faixas de rua e reuniões ao ar livre que fazem a diferença.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Olhar azul anil sobre a ilha


A cidade está ao alcance das mãos, debaixo dos olhos e pulsando no peito. De braços abertos para o continente, presa a um corredor estreito, sem forças para se lançar ao mar. O oceano olha e molha suavemente o ventre da pequena. Quem é ela, essa menina de quase quatrocentos setembros? Capital antiga de empreendimentos equinociais mal resolvidos, São Luís tem cheiro, cor, jeito, estilo... Há crença e herança cultural por ruas, vielas e becos. Tem catuaba, ginga e o acentuado sabor da juçara. Poesia a granel embrulhada em pacotilhas de porcelana. Quando cai doente, a cidade toma chá de cabacinha. São Luís ardente é lilás como a água quente da tiquira.

Ah, francesa brejeira vestida de chita e cheirando a loção da lagoa onde nem o sapo lava o pé porque não quer! Província do mar das águas barrentas e dos boqueirões de mercadores de minério. São Luís é a belle époque sem memória e sem retoque. É a nova Lisboa de azulejo sem Tejo, dos mascates da auto-ajuda, dos profetas da praça e do chiado, do cearense rendeiro. Vasto terreiro de refino da bacaba, à beira do precipício do petróleo.

São Luís é mercante. A cidade operária acorda às cinco da manhã e vela o futuro que acena do convés dos navios enfileirados na baía. Um dia o progresso virá com armadura de ferro ou de alumínio! O caminho da boiada é a tua bolsa de valores. De dia, a rua Grande vai às compras. A cidade pechincha no camelô da esquina, nos armazéns de secos e molhados do João Paulo, no shopping de grife e na feira. À noite, a cidade vende o corpo no varejo pelo porto. A madrugada acende o pavio regueiro para a dança ao pé dos paredões de radiola. Alegre navio negreiro.

Chuva e sol, terra e mar, postal e lama, templo e bar. Um par de muitas coisas. Remake da colonização. São Luís é uma ilha de edição do passado, a ervilha da fantasia de torres e estacas fincadas na península do futuro. Dama do céu revolto, do escuro da noite, dos ventos gerais e da brisa morna, ela abriga delicadamente os maçaricos transcontinentais. É debaixo do mesmo céu que, no azul do dia, flanam borboletas amarelas pelas avenidas e bailam pardais distraídos pelo litoral.

Marginal, São Luís neguinha é uma aldeia global. África na cor, França na vocação, Holanda na coluna social, Jamaica no salão, Portugal de fachada, Atenas na intenção, índia seminua no São João. A cidade subverte a ordem. Se dorme na rua do Passeio, sem antes passar pela rua da Paz, pode acordar por um triz na Praça da Saudade. Em tempos de chuva, teme com razão o pequeno quarteirão de distância que separa a rua do Sol da rua dos Afogados.

São Luís é o quebra-queixo com hífen, açúcar e afeto na calçada do Caiçara - sem paraquedas, hífen e rede de proteção para suicidas recidivos. É o canto melancólico dos pregoeiros de cuscuz e caranguejo. É o sorvete na vasilha. São os muros de Emílio Ayoub e as escrituras sob a presilha dos cartórios.

A cidade é temperada pelas mãos do tempo. Mesa posta ao pecado, do creme de bacuri, da Lenoca e do cuxá. Do catamarã e do banzeiro, dos crentes aos maconheiros. São Luís de todo mundo, da pinga do Nauro Machado, dos poetas e dos baleiros.

Da cruz de malta que não falta nos ombros da tua gente.

Capital dos rios de água e sal, a cidade é de ninguém. Dos cambistas do Hotel Central, dos turistas de Teresina e de Belém. São Luís das praças que perderam a sombra, dos meninos de rua companheiros de miséria e lombra. Das quengas de faculdade. Das migalhas da filantropia. Dos mangues, do faz-de-conta da economia. Da serpente, da lenda e do bolo fecal no ventilador. Dos sotaques de cantador, de Chagas, Humberto e Chiador. Da Madre Deus, do tambor e da Maioba. Da Joana da Sé, dos insanos da colônia, da Marrom e da Pindoba.

É só uma questão de fé. Qualquer dia desses São Luís também vai dar no pé.