terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Um pouco antes da trilha

A vida não é filme, mas sugere uma trilha. Eu coleciono várias. Vidas e trilhas. Mas não é uma vida a pilha que pede uma trilha. Há uma milha de distância entre uma simples música que tocou e uma trilha sonora digna de registro em HD natural. A trilha precisa de mais dias de calor que de cobertor. É necessário passar mais tempo acordado para merecer uma trilha. Não há música definitiva no compasso do sono.


Montar uma trilha sonora não exige muito esforço. Aliás, não se monta uma trilha sonora. Ela surge. Insuspeitada e anacrônica, às vezes surge anos depois. Você olha pra trás e lá está a canção te martelando o ouvido com a rima colegial. A trilha sonora daquele verão certamente não foi mais intensa que os dias de bossa dessa chuva que molha a areia da praia. No horizonte, mar e pedaços de nuvem se fundem numa balada de amor que não tem fim. A vida embaça pelo retrovisor do carro. É a trilha da estação.

Do romance mais prosaico ficou pelo menos um refrão de carnaval, dessas marchinhas que não se governam e saem por aí atravessando o tempo e a multidão. O refrão sem dono não chega a ameaçar os amores de agora nem os concertos de afeto que embalaram os passos de ontem.

Não se perdem na lembrança os programas de rádio, o vinil emprestado, a coletânea em fita K7, os CDs gravados com a alma impregnada em cada faixa, os trechos de músicas rabiscados na blusa desbotada no final de ano da escola, o baião preferido do meu pai, a luz negra do salão de reggae, os lamentos sertanejos que minha mãe entornava como se fossem canções de ninar e o beijo partido na platéia do show de rock que ainda hoje ressoa.

A trilha da infância vai das orquestras que compensavam certas brutalidades nos filmes de bang-bang às cantigas de padre Zezinho que do alto da torre da igreja enchiam de ternura as manhãs de domingo da cidade pequena. Há trilha para certas coisas e acontecimentos e pessoas e lugares e viagens.

Não me incomodam as músicas de gosto duvidoso, tampouco me assustam os boleros e calipsos que jamais dancei. Se vale a pena saber da Carolina, da cajuína, da ópera de Catirina, não se pode fechar os olhos para o abajur cor-de-carne que te assombra o passado. Há quem faça da vida uma trilha que se completa nas evoluções do Rebolation, por exemplo. E daí?

Existe uma trilha que ainda não foi aberta, sem pecado ou preconceito, regada a candomblé, arrasta-pé ou cabaré. Sem roteiro. Como um rolo de filme, um dia ela vai se revelar.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Sob o céu de Lisboa

A boa dosagem de lirismo em Portugal não está associada apenas aos cantos de fada de Amália Rodrigues, aos contos e fados da Alfama ou aos cafés boêmios do Chiado. Está no azul profundo do céu que cobre Lisboa. É o azul do céu que dá as boas-vindas a quem ali chega. De barco, balão, trem ou avião. O encanto é inevitável.

É domingo de Carnaval em Lisboa e a cidade ainda adormece. Nem mesmo o inverno intimida o sol em sua ventura solitária de pintar essa imensa tela de azul. As ruas despertam lentamente. A paisagem cresce em cada esquina, nos becos e ruas mais estreitos, na jóia rara da coroa de Queluz, nas sacadas dos sobradões que de dia viram varal.

Estar em Lisboa é reinventar o passado, dando a ele o valor necessário. É o revés do descobrimento, distraída navegação da nau tempo, sem cartografia ou GPS. Como no filme de Wim Wenders (Lisbon story, 1994), vejo-me perdido na via pública e saio a filmar com os olhos o mundo sem som da cidade muda porque dorme.

Lisboa é inteira ficção do poeta em pleno gozo do desassossego. A alma de Fernando Pessoa parece vagar pela cidade, ora em versos de música, ora na arquitetura dos passantes, na sisudez das fachadas reais. Poeta e poesia tomam café na Brasileira e brincam de ciranda para o flash dos turistas insones. Breve tertúlia literária com pastel de napa que se estende da Alfama à Mouraria, sem livro ou roteiro.

Do alto do castelo de São Jorge não se sabe onde termina o mar e onde começa o rio. Dizem que, todas as manhãs, o mar se enche de Tejo e beija o cais de Lisboa. Olhando de cima os telhados da cidade-velha, suspeita-se que a época moderna adoece o olhar dos homens, como um mal presente na retina de Alberto Caeiro.

A melancolia do fado em nada lembra as alegorias esparsas numa cidade de Carnaval sem batucadas e bambas. A um oceano do barulho, crianças saem de casa fantasiadas de alegria. Belas moças colorem o corpo com pinturas extravagantes para lembrar que samba é um estado de espírito. Nada mais.

O olho molha quando cai a noite e o fado suplicante acende meia-luz de qualquer coisa. Ao fundo, alguém cantando a vida em excesso, o desengano, a dor, a saudade. Ali há sempre alguém cantando Lisboa, que não sonha em ser Paris, que não vai ser moderna porque dura a tradição.
À primeira vista Lisboa parece assim: onde o mar finda. Pressa e preguiça de um olhar distante. Vinho e bacalhau. O lirismo que começa na capital ecoa pelo Alentejo e se espalha pelas colinas de Sintra e ruelas do Porto. Vai pelo céu. Um azul que se eterniza na memória. De cidade em cidade.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O diálogo da sustentabilidade: comunicação para empreendimentos de grande impacto


Os processos de comunicação empresarial tendem a acompanhar, naturalmente, modelos e estágios da economia. Crises, mudanças de rota, desaceleração, picos de desenvolvimento, tudo isso entra na pauta das agências de comunicação conectadas com o mundo dos negócios. Monitorar as curvas de investimentos e os indicadores do mercado é uma tendência cristalina da comunicação de resultados. Os projetos estruturantes que estão em curso no Brasil, por exemplo, fizeram emergir a expertise da comunicação especializada em estratégias para empreendimentos de grande impacto.

Apesar do hiato provocado pela atual crise econômica, há centenas de empreendimentos industriais em construção nas cinco regiões do País. São refinarias, siderúrgicas, rodovias, ferrovias, mineradoras, complexos portuários, usinas hidrelétricas e termelétricas, linhas de transmissão etc. Esses projetos indicam primeiramente que há uma escala de crescimento com uma janela de oportunidades para variados segmentos da sociedade, principalmente a massa de trabalhadores desempregados. Revelam também a necessidade de mais energia e novos modais de escoamento da produção para suprir a tendência do desenvolvimento econômico brasileiro.

Mas os impactos desses empreendimentos não estão apenas no campo econômico. Uma grande obra de infraestrutura requer planejamento rigoroso capaz de minimizar as interferências na vida das pessoas e do meio ambiente. Para isso, existem os estudos e relatórios de impacto ambiental que devem ser apresentados pelos empreendedores, obrigatoriamente, nas fases de planejamento, construção e operação do empreendimento. São esses instrumentos que formalizam, como prevê a legislação, o compromisso da empresa com políticas de mitigação e compensação social em relação às comunidades e populações interferidas.

Os relatórios e estudos de impacto ambiental (EIA-RIMA) são apresentados em audiência pública, fórum legítimo para discussão dos pontos de interesse do empreendedor e das demais partes envolvidas (comunidades, poder público, sociedade civil etc.). O papel da agência de comunicação é criar condições adequadas para que a audiência seja bem sucedida, no que tange a organização, logística, convocação e mobilização popular, registro e documentação completa do evento para posterior comprovação junto ao órgão ambiental de licenciamento. Outra atividade relevante de uma agência com expertise nessa área é a organização de reuniões preparatórias que antecedem a audiência pública. Essas reuniões visam estimular, de forma didática, o debate prévio com públicos específicos, o que resulta numa audiência muito mais profícua.

Dentre os compromissos socioambientais do empreendedor impostos pelo órgão de licenciamento está a execução de um programa de comunicação social, instrumento legal de médio a longo prazos que permite o acompanhamento, pelas partes interessadas, de todos os passos da obra, as interferências na comunidade e o andamento dos demais programas de compensação.

O programa de comunicação social é o canal de diálogo da sustentabilidade. É por meio dele que a comunidade aplaca os seus anseios, tira dúvidas, informa-se, apresenta sugestões e é ouvida. O programa é de lei, não uma conveniência ou concessão da diretoria da empresa/empreendimento. E por isso mesmo, os resultados são acompanhados regularmente para aferição de sua eficácia. De tamanha responsabilidade, a execução do programa é prerrogativa de agência de comunicação com experiência nesse tipo de atividade. Cabe somente a uma agência especializada promover a mobilização social na área de influência do empreendimento - que é a comunicação face a face, o diálogo com gente simples, lideranças comunitárias, políticas e religiosas.

A comunicação para empreendimentos de grande impacto exige técnica e conhecimento da realidade social e cultural da região onde o projeto está inserido. Em áreas carentes desse imenso Brasil – por onde se multiplicam obras do PAC e da iniciativa privada – mais do que internet, anúncio de jornal e propaganda em TV, as comunidades necessitam de ferramentas simples de apoio. Na maioria das vezes, são cartilhas, pequenos informativos, panfletos, rádios comunitárias, carros de som, faixas de rua e reuniões ao ar livre que fazem a diferença.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Olhar azul anil sobre a ilha


A cidade está ao alcance das mãos, debaixo dos olhos e pulsando no peito. De braços abertos para o continente, presa a um corredor estreito, sem forças para se lançar ao mar. O oceano olha e molha suavemente o ventre da pequena. Quem é ela, essa menina de quase quatrocentos setembros? Capital antiga de empreendimentos equinociais mal resolvidos, São Luís tem cheiro, cor, jeito, estilo... Há crença e herança cultural por ruas, vielas e becos. Tem catuaba, ginga e o acentuado sabor da juçara. Poesia a granel embrulhada em pacotilhas de porcelana. Quando cai doente, a cidade toma chá de cabacinha. São Luís ardente é lilás como a água quente da tiquira.

Ah, francesa brejeira vestida de chita e cheirando a loção da lagoa onde nem o sapo lava o pé porque não quer! Província do mar das águas barrentas e dos boqueirões de mercadores de minério. São Luís é a belle époque sem memória e sem retoque. É a nova Lisboa de azulejo sem Tejo, dos mascates da auto-ajuda, dos profetas da praça e do chiado, do cearense rendeiro. Vasto terreiro de refino da bacaba, à beira do precipício do petróleo.

São Luís é mercante. A cidade operária acorda às cinco da manhã e vela o futuro que acena do convés dos navios enfileirados na baía. Um dia o progresso virá com armadura de ferro ou de alumínio! O caminho da boiada é a tua bolsa de valores. De dia, a rua Grande vai às compras. A cidade pechincha no camelô da esquina, nos armazéns de secos e molhados do João Paulo, no shopping de grife e na feira. À noite, a cidade vende o corpo no varejo pelo porto. A madrugada acende o pavio regueiro para a dança ao pé dos paredões de radiola. Alegre navio negreiro.

Chuva e sol, terra e mar, postal e lama, templo e bar. Um par de muitas coisas. Remake da colonização. São Luís é uma ilha de edição do passado, a ervilha da fantasia de torres e estacas fincadas na península do futuro. Dama do céu revolto, do escuro da noite, dos ventos gerais e da brisa morna, ela abriga delicadamente os maçaricos transcontinentais. É debaixo do mesmo céu que, no azul do dia, flanam borboletas amarelas pelas avenidas e bailam pardais distraídos pelo litoral.

Marginal, São Luís neguinha é uma aldeia global. África na cor, França na vocação, Holanda na coluna social, Jamaica no salão, Portugal de fachada, Atenas na intenção, índia seminua no São João. A cidade subverte a ordem. Se dorme na rua do Passeio, sem antes passar pela rua da Paz, pode acordar por um triz na Praça da Saudade. Em tempos de chuva, teme com razão o pequeno quarteirão de distância que separa a rua do Sol da rua dos Afogados.

São Luís é o quebra-queixo com hífen, açúcar e afeto na calçada do Caiçara - sem paraquedas, hífen e rede de proteção para suicidas recidivos. É o canto melancólico dos pregoeiros de cuscuz e caranguejo. É o sorvete na vasilha. São os muros de Emílio Ayoub e as escrituras sob a presilha dos cartórios.

A cidade é temperada pelas mãos do tempo. Mesa posta ao pecado, do creme de bacuri, da Lenoca e do cuxá. Do catamarã e do banzeiro, dos crentes aos maconheiros. São Luís de todo mundo, da pinga do Nauro Machado, dos poetas e dos baleiros.

Da cruz de malta que não falta nos ombros da tua gente.

Capital dos rios de água e sal, a cidade é de ninguém. Dos cambistas do Hotel Central, dos turistas de Teresina e de Belém. São Luís das praças que perderam a sombra, dos meninos de rua companheiros de miséria e lombra. Das quengas de faculdade. Das migalhas da filantropia. Dos mangues, do faz-de-conta da economia. Da serpente, da lenda e do bolo fecal no ventilador. Dos sotaques de cantador, de Chagas, Humberto e Chiador. Da Madre Deus, do tambor e da Maioba. Da Joana da Sé, dos insanos da colônia, da Marrom e da Pindoba.

É só uma questão de fé. Qualquer dia desses São Luís também vai dar no pé.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Waly Salomão: uivos de uma fera faiscante

A entrevista postada abaixo foi publicada em 1996 no jornal O Estado do Maranhão. Waly Salomão era o verborrágico e estridente interlocutor daquela noite de junho. São Luís era São João. A cidade, uma fogueira colorida de centelhas. Waly, um ser humano em ebulição em plena Praia Grande.

Os casarões e as mesas de bares exibiam tons inebriados da lua azul. Começamos a entrevista beirando aquela atmosfera cintilante da cidade. Era o primeiro mergulho do baiano de Jequié nas águas turvas de São Marcos. Falou de poesia, produções culturais e de sua herança cultural árabe. Contou de suas paixões pela negra melodia do reggae e falou do fascínio pela trajetória de Alcione. Para a interpretação de Maria Bethânia ele compôs A voz de uma pessoa vitoriosa, um inventário de amor aos altos e baixos enfrentados pela cantora maranhense no início de carreira, no Rio.

Ficou impressionado com o que viu e ouviu no Maranhão: o Teatro Arthur Azevedo e suas óperas bicudianas, as umbigadas no tambor de crioula, o Boi de Leonardo e o terreiro de São Pedro.

Ainda estive com Waly em Brasília em março de 2003. Burocraticamente instalado num dos gabinetes mais frequentados no sexto andar do Ministério da Cultura, Waly Salomão parecia entusiasmado com a missão de chefiar, a convite do então ministro Gilberto Gil, a Secretaria Nacional do Livro e da Leitura. A minha missão, além de rever o amigo, foi entregar os originais do livro inédito de poesia de Fernando Abreu (O umbigo do mudo, depois lançado pela Clara Editora) para que Waly escrevesse o prefácio. Não só recebeu a ideia com satisfação como telefonou para o poeta maranhense.


- Meu caro Fabreu, continue fabricando a sua bela poesia que eu estarei em abril em São Luís.

Ele escreveria o prefácio na viagem. Na verdade, um pretexto para voltar ao Maranhão. Telefonou logo para o amigo poeta Antônio Cícero convidando-o para fazer, juntos, um recital em São Luís. “Quero voltar à base da Lenoca para comer uma torta de camarão com arroz de cuxá”.

Não houve o cuxá, o prefácio minguou. Waly Salomão morreu no dia 5 de maio de 2003. Antônio Cícero adiou ou planos. Onde está Waly? Fazendo algaravias no telhado da sorte. Talvez inventando livros, negociando ciganos. Quem sabe passando uma lábia no jardineiro. Sabe lá!

domingo, 9 de agosto de 2009

Uivos de uma fera faiscante

Na última quarta-feira, o Rio de Janeiro recebia de braços abertos o lançamento do segundo número da revista O Carioca, uma publicação bimestral voltada para a arte e a cultura. A publicação, editada nas oficinas do Jornal do Brasil pelos poetas e compositores Waly Salomão, Chacal e Bernardo Vilhena, tem despertado o interesse de artistas e afins pelo resgate do espírito vanguardista que marcou os anos 1970, e também pelo mergulho na atmosfera cyber-pop dos anos 1990. Os três nomes, como diria Waly, estão “saindo das catacumbas para entrar nas catedrais” do redemoinho cultural dos dias de hoje.


Waly Salomão, a convite de Alcione Nazareth, passou os últimos dias das festas de São João em São Luís e ficou encantado com o caldeirão de ritmos e estilos da nossa cultura. Noite de São Pedro. Lua cheia e azul sobre a Praia Grande - ambiente da entrevista. Alumbramento: “Essa é a última lua cheia com a qualidade azul do milênio. Uma blue moon (como na canção de Dylan) que só vai ter de novo por volta do ano 2053. Uma lua cheia e azul sobre a maré e os casarios farta qualquer coração. É o contrário de um infarto, porque torna o coração repleto”.

Waly Dias Salomão nasceu em Jequié, no sudoeste baiano, e ainda cedo se iniciou, voluntariamente pela contramão, no ramo de letrista de música popular, poeta e diretor de shows. Participou de revistas como Caspa, Muda, Código e Ímã, colaborou com o Pasquim e foi um dos editores da Navilouca. Em 1972 lançou o livro Me segura que eu vou dar um troço e Armarinho de Miudezas, em 1993. Qual é o Parangolé, sobre Hélio Oiticica, e Algaravias (poesias em estilhaço) são livros recém-lançados pelo baiano. Waly, na opinião de Antônio Risério (outro baiano a mil), é um farsante declarado e colorido num ambiente cultural infestado de beletristas seriosos e cinzentos. “A primeira bebida que tomei na cidade de São Luís foi o guaraná Jesus. E uma cidade que toma um Jesus gelado e cor-de-rosa só pode ser um lugar sagrado e feliz”. Nesta entrevista, Waly fala de peito aberto, com o auxílio luxuoso de seu sorriso largo, como um “moderno e eterno kamikase mouro”.

Para um baiano sem laço, qual é a bossa do Maranhão?

Desde que cheguei a São Luís sinto-me em casa, como se eu também fosse um membro da tribo, um componente da escola. Vejo tantos traços de identidade entre o jeito baiano e o jeito do maranhense... Vim assistir à ópera Catirina, uma montagem fecunda que abre um filão muito interessante e que não é a transposição mecânica do folclore. É uma reelaboração do folclore. Quando fui entrevistado na porta do Teatro Arthur Azevedo pelo programa Caderno Dois, da TVE, sobre a expectativa em relação à ópera, tive um ato falho luminoso. Com menos de 24 horas na cidade já falava pra câmera o seguinte:

- Nós, maranhenses e brasileiros...

E não dava pra corrigir. Ou seja, meu inconsciente já me dava indícios de que eu estava em casa, me sentindo muito bem. Chegamos de viagem de madrugada - eu, Alcione Nazareth, Luís de Freitas e Rosamaria Murtinho - e fomos direto para a Igreja de São Pedro, na Madre de Deus. E aí já comecei a ver o Boi de Leonardo e todas as diferentes manifestações. Ficamos até o dia clarear no meio daquela festa, na fascinação total.

Tinha estado aqui em São Luís há muitos e muitos anos num festival de música popular, quando fui convidado para fazer parte do júri. Mas era uma época tão diferente... Foi ainda na década de 1970. Então, agora é que tive o impacto de estar na terra da encantaria. A própria ópera Catirina, que tem o tambor de crioula, é um encanto. O Brasil é muito rico, muito fecundo, sua cultura popular é vasta, mas não conheço muitos pares que cheguem ao impacto sensual que o tambor de crioula realizou na minha mente.

Alcione então é o elo dessa viagem?

Fiz algumas letras para a Maria Bethânia. Somos amigos, cúmplices em tantas ações, já dirigi shows e compus algumas letras que viraram títulos de discos dela, como Anjo exterminado, Mel, Talismã, Alteza, Memória da pele e Olho d’água. Pois é. Então fiz uma letra, que está no disco Álibi, chamada A voz de uma pessoa vitoriosa, para a interpretação de Bethânia. Mas na verdade foi o seguinte: eu tinha ido com Caetano, Dedé [ex-mulher de Caetano], minha mulher Marta e a Bethânia assistir a um show da Alcione num espaço do Rio chamado Teatro da Galeria. Aí fiquei absolutamente impressionado com o jeito daquela mulher narrar as suas peripécias na vida de boates e inferninhos do Rio, como cantora da noite, como crooner. E nada repassava amargura, derrota ou fracasso. Ela contava histórias que estava cansada, exausta, aí de repente chegava um fazendeiro mineiro e colocava sobre o piano uma quantidade de dinheiro e falava assim:


- Quero que você cante tal música.

Daí ela puxava uma energia, não sabia de onde, quem sabe de um tanque de reserva que o artista sempre tem de ter. Então, o que passava daquela história de cantora da noite não era exaustão nem cansaço. Era a Alcione como representante da voz de uma pessoa vitoriosa. Ela mostrava uma batalha e o alcance de uma meta, uma vitória que espalhava um lençol de alegria, de realização e de prazer.

Então, nós saímos depois e fomos para um restaurante. Lá, conversando com as pessoas da mesa, Maria Bethânia me ouvia falando a respeito do show e me disse:

- Waly, queria que você escrevesse isso, que você fizesse uma poesia para eu por no meu disco.

Aí eu falei:

- Sim, mas quem vai musicar?

Como Caetano estava do lado, ela o apontou. E Caetano topou. Fui pra casa e fiz a letra, que começa assim: “Sua cuca batuca/ Eterno zigue-zague/ Entre a escuridão e a claridade/ Coração arrebenta/ Entretanto o canto aguenta/ Brilhar no tempo a voz vitoriosa... [Waly canta a música toda]. Só consigo lembrar dos versos cantando. Com o tempo eles somem da memória. A música tem esse poder de memorização, como a rima também tem para a poesia. Daí surgiu a gênese da minha relação com a Marrom.

Você tem uma relação muito próxima com Maria Bethânia.

Eu contei essa história da nossa amizade num telão do show da Alcione no bar Asa Branca, no Rio. Assim é com a Bethânia, alma gêmea da Marrom, que também é minha grande amiga. Agora, mais uma vez nos encontramos no aniversário dos 50 anos da Maria Bethânia. Ela convidou pouquíssimas pessoas, entre elas eu e Alcione. Bethânia é seguramente seletiva. Ela está certa. Tem aquele modo extraordinário de escolher as suas afinidades. Escolhe bem quem ela quer amar.

Fomos a Salvador e nos encontramos no mesmo hotel. Quando entrei nos jardins do hotel, Alcione começou a cantar para mim A voz de uma pessoa vitoriosa. Aí fomos todos juntos, eu, Alcione, Bethânia..., no ônibus de Salvador pra Santo Amaro. E Alcione, com todo o humor que lhe é peculiar – aliás, uma qualidade bem popular daqui de São Luís, eu percebo - ia narrando o trajeto todo como uma guia turística falando em espanhol e brincando com todos os campos de cana-de-açúcar do Recôncavo Baiano, como se fossem jardins ou o quintal da casa de Maria Bethânia. Chegamos lá e a festa foi maravilhosa. No meio da festa, entre goles de whisky, falei o seguinte:

- Alcione, se você tivesse juízo andaria muito mais perto de minha aura.

Disse isso brincando, no meio do entusiasmo da noite, da festa, da bebida. Entusiasmo, no sentido etimológico, é quando a gente está mais próximo dos deuses. Ou seja, minha vontade conseguiu falar dessa forma para ela. E esqueci até dessa frase. Dias depois, a Alcione telefona me convidando para vir a São Luís. E aqui ela repetiu essa frase - quase morri de vergonha! - e me disse:

- Agora não largo mais do seu pé, seu Salomão! Você me disse isso, então resolvi tomar juízo.

Como se deu esse renascimento de Vapor barato, a sua música mais expressiva?

Vapor barato ressurgiu como uma fênix das cinzas. A letra nasceu em 1971 num show que concebi e dirigi para Gal Costa. O título do show surgiu de um texto meu, do meu primeiro livro chamado Me segura que eu vou dar um troço, que tinha o nome de Fa-tal (assim mesmo, com hífen). Nesse show, que deu origem ao disco de mesmo nome, descobri Luiz Melodia para o Brasil, por meio da música Pérola negra. Luiz era meu amigo do morro de São Carlos e o apresentei a Gal. E desse show, o momento central - a primeira parte era com Gal, banquinho e violão, e a segunda tinha uma adaptação mais pesada - era exatamente Vapor barato, que fazia a transição da primeira para a segunda parte. Na música, Gal começava só com voz e violão e depois ia entrando a banda, quando começava a segunda parte do show.

Vapor barato transformou-se rapidamente em hino hippie, um hino underground brasileiro. Em todos os lugares, as pessoas tocavam violão nas diferentes comunidades hippies do Brasil, e Vapor barato (a letra é minha e a música, do Jards Macalé) virou a senha daquela geração. No ano passado, durante as filmagens de Terra estrangeira, o diretor Walter Salles Júnior precisava de uma música para a trilha do filme e perguntou para Fernanda Torres:

- Você tem alguma música que sintetize a sua vida?

Por sorte, a Fernanda estava com um fone de ouvido escutando Vapor barato. Ela relata essa história em fax que mandou pra mim e para o Macalé. Por isso estou transmitindo para você e seus leitores. Então, Fernanda tirou o fone do ouvido e disse:

- Se eu tenho uma música na minha vida?

E ela perguntou isso três vezes.

- Claro que eu tenho. É Vapor barato - respondeu.

Mesmo sendo de uma geração mais nova, Fernanda disse que essa é a música-síntese de sua vida. Nenhuma música é mais representativa das agruras, das angústias, das ansiedades e da vontade de propulsão de ir adiante do que Vapor barato.

E para completar, agora em julho a gravadora - e gravadora é fria, não tem comoções; é um olho mercadológico só - de Gal Costa está relançando Fa-tal em CD. E também este mês um grupo maravilhoso, que sou muito ligado, O Rappa, está lançando um disco que tem uma releitura de Vapor barato. É um grupo engajado de reggae, uma nova geração, formado por gente da Zona Norte, Baixada e subúrbios do Rio. O disco sai no dia 20 de julho e vai se chamar Rappa mundi, com a produção do fera do reggae Liminha.

São Luís é a capital brasileira do reggae. Você também tem uma relação afetiva com o reggae?

Acho que fui um dos primeiros brasileiros a se interessar e ficar apaixonado pelo reggae. Eu morava em Nova Iorque, em 1975, quando fui com o Arto Lindsay assistir a um show de Bob Marley. Fiquei fascinado e comecei a ouvir todos os seus discos. Quando retornei ao Brasil, em setembro de 1975, fiz uma letra intitulada Negra melodia (Soul train domingueira era o subtítulo), musicada e gravada pelo meu parceiro Jards Macalé. Era uma homenagem explícita ao Bob Marley. Inclusive tinha até duas ou três frases em inglês retiradas de músicas de Bob Marley.

Depois a música foi regravada por Itamar Assunção. Uma década depois, quando o reggae já imperava em Salvador, Margareth Menezes também gravou Negra melodia, um dos grandes hits de sua carreira.

Você está no epicentro da cena cultural brasileira, como poeta, letrista, produtor e agitador. Caetano Veloso, por exemplo, é um dos seus mais próximos parceiros...

Caetano musicou todas as minhas letras feitas para Bethânia. Também organizei o livro de Caetano, Alegria, alegria, reunindo artigos dispersos no Pasquim e em diferentes órgãos de imprensa. Fiz uma espécie de caetanave textual. Na Navilouca, que organizei com o Torquato Neto, tinha também textos de Caetano. Então, nós temos relação de amizade e de parceria. Com Gilberto Gil fiz muitas letras também. Na trilha sonora do filme Quilombo, de Cacá Diegues, Gil fez todas as músicas e todos os efeitos sonoros, e as letras foram feitas por mim. Com Lulu Santos, fiz o reggae Assaltaram a gramática, gravado pelo Paralamas. Fiz para um filme da Ana Maria Magalhães sobre poetas, do qual participávamos eu, Paulo Leminski, Chacal, Chico Alvim... Adriana Calcanhoto agora pegou um poema do meu livro Algaravias, musicou e acabou sendo título do seu último disco, A fábrica do poema. Sou um bom padrinho, pelo jeito. Dou sorte, sou o anti-pé-frio.

Há outras parcerias importantes?

Passei um período em Salvador dirigindo a Fundação Gregório de Matos e depois trabalhei com Gil na campanha para vereador da capital baiana. Quando voltei ao Rio, fui convidado pela Gal para coordenar seu novo trabalho. Dirigi então o show Plural, dei o nome, concebi, escolhi o repertório e indiquei mudanças. Introduzi no repertório Arnaldo Antunes, Cabelo, e pus novos ingredientes na massa sonora da Gal Costa. Depois João Bosco me propôs fazermos um disco juntos. Aí começou uma parceria entre eu, João Bosco e Antônio Cícero, que resultou no disco Zona de fronteira. Todas as letras são minhas e do Antônio Cícero. As músicas são do João e apenas a letra de Memória da pele é somente minha.

Você já conhecia algumas coisas da cultura do Maranhão.

Lembro-me que Maria Bethânia, aos 18 anos, estourou nacionalmente com uma canção do grande épico maranhense João do Vale, que foi Carcará. Essa música transformou-se rapidamente numa canção antológica, uma espécie de emblema rubro da canção popular numa época cinzenta.

Com Alcione, então, há uma relação de identidade?

São tantas as coisas que me identificam com Alcione... Fiquei vendo o jeito que ela movimenta-me por entre o povo, o povo simples, todos encostando e tratando-a como alguém que se projetou, mas que é da tribo... E que você pode encostar a qualquer momento e abraçar. Gosto tanto dessa atitude. Alcione tem isso em comum com Maria Bethânia. Quanto mais você se aproxima do universo das duas, mais você se fascina e se encanta com as tiradas, os repentes, a agilidade mental, a fala cotidiana, as frases regionais... como têm o Maranhão e a Mangueira. Sou muito ligado à Mangueira também. É a escola do meu coração, sou verde-e-rosa total há anos e anos. Então, até isso nos une. E agora essa minha atração pelo Maranhão...

Acho Alcione uma das cantoras mais sofisticadas que conheço. Essa mulher tem uma garganta impressionante. Ela é a sophisticated lady, a musa sofisticada, o anjo sofisticado da música não só do Rio ou do Maranhão, mas de todo o Brasil. Quantos nomes de compositores ela já revelou? Então, é uma pessoa que tem sempre um olho não só para o já estabelecido, mas para o novo, o diferente, o ainda não revelado.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A pauta mora ao lado

O texto anterior é fruto desse feeling jornalístico que insiste em me atormentar a qualquer hora. Quem é do ramo sabe do que estou falando. Quando se é jornalista (ou pelo menos quando se era jornalista, no tempo em que o diploma ainda valia alguma coisa), um assunto aparentemente corriqueiro pode se transformar numa boa pauta. No final, tudo vai virar texto. Jornalista é um eteno filho da pauta. Foi assim. Mudei de casa e, no novo endereço, esbarrei com um vizinho chamado Cury. Daí vieram as primeiras conversas.

E, claro, lá estava a bendita pauta na cabeça. Aquilo que parecia ser apenas uma conversa de vizinho acabava virando uma entrevista. E tome pergunta. A cada encontro eu colecionava uma curiosidade. Depois resolvi juntar tudo e arrematei o texto trocando umas últimas palavras com o vizinho ilustre.