Há livros que nos pedem menos pressa, pé no freio. Na intimidade de um ser estranho (editora Mondru) é um desses. O novo livro de poemas de Adriana Gama de Araújo, que será lançado nesta sexta-feira, às 18h, na livraria Poeme-se, ao lado de Catálogo de acasos, de Franck Santos, e O livro das nuvens, de Samuel Marinho, percorre espaços pequenos e cotidianos – a casa, o jardim, a rua deserta – para encontrar neles uma voz.
A poesia de Adriana se constrói a partir do mínimo. Versos como “Cantar a rodoviária/ vazia”, “cantar/ ainda hoje/ mesmo agora/ que ninguém nos ouve”, além de outros tantos, delatam a moenda lírica e insurgente da autora. O que poderia passar despercebido ganha corpo no conjunto das palavras. Movimento sutil de quem insiste em cantar mesmo quando não há plateia, de quem transforma a solidão em matéria de poesia.
No livro anterior, Metábole (Urutau, 2021), Adriana já experimentava derrubar a cerca ao redor do próprio umbigo, com palavras. Era o desafio do silêncio. Agora, nesse virtuoso desafio de atravessar o deserto, a poeta parece buscar outro movimento: “dar outro corpo ao tempo”, “esticar o corpo além da alma”. São versos que se aproximam de uma meditação, mas sem perder o pulso concreto da experiência.
Os poemas são curtos, diretos, quase anotações de um passeio sob a luz incessante das cores quentes do dia. Têm a força do que é dito sem ornamento: “num estranho estado de vida/ acima do tempo/ acima da guerra”. Há neles uma disposição para observar o mundo e devolvê-lo em estado bruto, mas não frio – antes, em estado de vigília.
Adriana lê poesia como quem reza, como quem cantarola uma canção antiga de Roberto. Tem ritmo próprio, e talvez por isso sua voz encontre ressonância: não procura convencer, apenas permanecer. Quem a acompanha de perto percebe que sua poesia chega de mansinho, e não nos deixa. A poesia fica. Só as estrelam mudam de lugar.
Na intimidade “alheia”, a poeta conversa, indaga, provoca, muda de direção, fazendo o uso natural dos recursos da língua, nua e sem nome. No rebuliço das folhagens espalhadas nas páginas, o leitor desconfiará que a resposta pode estar soprando no vento selvagem. Pode ser Dylan. Mas pode ser Whitman.
São poemas colhidos pela manhã numa dessas caminhadas feitas do suor que irriga a vida. A poesia de Adriana Gama de Araújo chega sem pedir licença e nos arrebata. Eu leio o livro e a ouço cantando.
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