domingo, 13 de outubro de 2013

A mulher mais bonita do mundo


Muito pouco se sabe sobre os Black Blocs, os mascarados urbanos responsáveis pela faceta mais polêmica das manifestações de rua iniciadas em junho no Brasil. Sabe-se que reverberam movimentos anarquistas desenterrados em outros países nos últimos 15 anos e que se espalham pelas cidades como que por contágio. E por que se conhece tão pouco o movimento? A razão é simples: entre os Black Blocs não há líderes ou porta-vozes, não puxam protestos ou manifestações com carros de som ou megafones. Ou seja, não há uma verdade objetiva, tão ao gosto da mídia tradicional. Nas poucas vezes que alguém do movimento arriscou-se em dar declarações públicas, sempre agiu por conta e risco. Como entrevistado, de rosto encoberto e voz sob efeito eletrônico, fala por si e jamais pelo grupo.

Não são os Black Blocs protagonistas dos movimentos que tomaram conta das ruas, mas, pelo barulho que fazem e o rastro incendiário que deixam pelo caminho, criam um simulacro de vanguarda que confunde imprensa e opinião pública. E vanguarda, afinal, é tudo o que os movimentos de rua não têm. As manifestações reproduzem na prática as teias de indignação forjadas no ambiente das redes sociais. Há seguidores, mas não há Messias. É a subjetividade que vai tecendo as pautas e a ordem do dia, primeiro em Facebook e Twitter e depois nas ruas.

Os Black Blocs vestem-se de preto e usam máscaras para não serem reconhecidos pelos seus atos. Misturam-se. Confundem-se de maneira solidária. Agrupam-se por afinidade, não são representantes de uma causa, de uma categoria, de uma luta. Não estão conectados internacionalmente por uma bandeira. Em verdade abominam bandeiras, partidos ou sindicatos, mas são uns inconformados com qualquer ranço de opressão do capital, seja no Brasil, na Europa ou nos Estados Unidos. E por isso mesmo misturam-se aos grandes protestos e saem em bandos a pichar prédios públicos, a quebrar e a queimar fachadas de bancos e corporações multinacionais.

Embora sem bandeira, durante as Jornadas de Junho o Black Bloc Brasil divulgou manifesto pelo Facebook esquivando-se da associação do nome do movimento com a baderna gratuita e generalizada. No texto, os Black Blocs afirmam que o movimento não é “deliberada e randomicamente hostil”. São hostis quando é preciso atingir financeiramente o seu principal alvo: multinacionais e bancos, em especial. Os Black Blocs repudiam “infiltrações e tentativas de desmoralização e corrupção de movimentos sociais”. Sobre infiltrados e provocadores, os Black Blocs dizem que coibem na base da conversa e da denúncia. Mas, se necessário, empregam “outras técnicas”.

Repudiam, segundo o genérico manifesto, toda forma de política extremista. Deixam claro que são contra o monopólio de riquezas, a exploração das massas e veículos de comunicação “tendenciosos e mentirosos”. E concluem o documento declarando como seus inimigos quaisquer meios de repressão e opressão, com referência explícita à polícia.

A propósito, mergulhei na leitura de dois livros publicados este ano no calor dos efeitos das manifestações. “Redes de indignação e esperança – movimentos sociais na era da internet” (Zahar, 2013), do sociólogo espanhol Manuel Castells, faz uma análise instigante sobre levantes iniciados em 2010 como a Primavera Árabe, as revoluções na Tunísia, Egito e outros países do Oriente Médio e do norte da África, os Indignados da Espanha e o Occupy nos Estados Unidos. Além de auscultar a voz das ruas com aguçado senso de responsabilidade, Castells faz um estudo profundo das conexões entre movimentos aparentemente dispersos e esboça a relação da massa de jovens como centelhas das redes de comunicação e transformação social.

Em posfácio dedicado às manifestações deste ano no Brasil, Castells põe o dedo na ferida comum em todos os atos de protesto pelo mundo: para os manifestantes, inclusive os Black Blocs, a democracia tem sido sequestrada por profissionais da política. A democracia, segundo ele, foi reduzida a um mercado de votos em eleições realizadas de tempos em tempos, e está fielmente representada por um Congresso grotesco, com burocratas partidários e “chefetes locais corruptos que por vezes resolvem suas diferenças a tiros de pistola”.

Esse movimento sem nome, afirma Castells, surgiu das entranhas de um país perturbado por um modelo de crescimento que ignora a dimensão humana e ecológica do desenvolvimento. E critica os donos do poder que se perpetuam em cargos públicos montados em dois principais sofismas: 1) a escolarização sem uma verdadeira melhoria do ensino não é educação, mas um armazenamento de crianças; 2) a saúde sem investimentos efetivos em médicos e enfermeiros, sem política de prevenção, é um poço sem fundo, “no qual a produtividade se mede pela ocupação de camas de hospitais, contando os enfermos, e não os sadios”.

Mas saúde e educação são bandeiras nas mãos de outros, não do Black Bloc, movimento que se define como horizontal e descentralizado. E por isso mesmo é visto com certa reserva pelos grupos de esquerda, aqueles banidos das ruas com os seus discursos e bandeiras vermelhas. “Cidades rebeldes – passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil” (editora Boitempo/Carta Maior, 2013) é uma coletânea de ensaios assinados por cientistas, professores, antropólogos e jornalistas sobre os movimentos dos últimos meses. Os autores do livro fazem interpretações diferenciadas acerca do mesmo tema, a maioria delas pela ótica acadêmica da luta de classes, e criticam a hostilidade aos partidos políticos.

No livro, o jornalista e professor Leonardo Sakamoto avalia que a classe política foi colocada, apressadamente, no mesmo balaio de expurgo pelos manifestantes, aqui incluídos os Black Blocs. “Dentre esses indignados que foram preparados, ao longo do tempo, pela família, pela escola, pela Igreja e pela mídia para tratarem o mundo de forma conservadora, sem muita reflexão, filhos de pais que viveram o auge do neoliberalismo, tem gente simplesmente com muita raiva de tudo e botando isso para fora. O PSDB tem culpa nisso. O PT tem culpa nisso”. Estão indignados porque querem tirar o comando da gerontocracia que domina a política brasileira.

Segundo Sakamoto, esses jovens estão descontentes, mas não sabem o que querem. Sabem apenas o que não querem. “Por mais agressivos que sejam, boa parte deles está em êxtase, alucinada com a diversão que é estar na rua e com o poder que acreditam ter nas mãos. Mas, ao mesmo tempo, com medo. Pois, cobrados de uma resposta sobre sua insatisfação, no fundo, no fundo, conseguem perceber apenas um grande vazio”.

Os Black Blocs parecem desafiar o medo e a trama. De onde saem, como vivem, do que são capazes, até onde vão? Não se sabe ainda. Não estão interessados em romper ciclos políticos e assumir o comando. Querem fazer soar o seu grito inflamado e, se possível, com ações inflamáveis. Vão continuar anônimos quebrando as vidraças dos bancos e incendiando as passarelas.

Na abertura do Festival de Cinema do Rio, no final de setembro, enquanto atrizes e celebridades desfilavam exuberantes com seus vestidos de grife pelo tapete vermelho da festa, os Black Blocs gritavam pelos becos a palavra de ordem “mulher bonita é mulher que luta”, o que de pronto me remeteu aos tempos de movimento estudantil. Entre 1987 e 1988 editávamos na universidade o jornal alternativo chamado “Tabefe”, um poço das mais variadas reclamações. Para que o nosso pasquim não perdesse a ternura, nos aventurávamos também na poesia. E cada um fazia das suas. Pois foi lá nas páginas do “Tabefe” que o hoje jornalista e professor Ed Wilson Araújo publicou um poema que dizia mais ou menos assim: “Linda/ Cabelos lisos e médios/ Corpo esguio/ Pernas bem feitas/ Gata/ Pena não ser/ Uma guerrilheira”.

Um black bloc precoce.

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